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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

BREVE NOTA SOBRE O TEATRO MARIA MATOS DE LISBOA

 

Há cerca de um ano referimos aqui o Teatro Maria Matos e a grande artista que em boa hora é evocada na denominação da sala de espetáculos, destacando a expressão de modernidade artística do Teatro, dado o historial da sala em si mas também o historial da grande atriz que em boa hora se consagra. 

 

Recorde-se que o Teatro Maria Matos foi inaugurado no final de 1969 e municipalizado em 1982. Integra-se na linha de construção/renovação de edifícios culturais e de espetáculo, que não sejam só cinemas, em zonas urbanas mais recentes por esse país fora, e que adotaram a funcionalidade do espetáculo a nível dos rés-do-chão de edifícios de vocação comercial e /ou habitacional: teatros “de bolso”.

 

Tal como temos então aqui visto, tratava-se na época -se de uma certa inovação, mas sobretudo, de uma rentabilização de investimento, muito positiva em si mesma: como bem se sabe, são muito numerosos os teatros, construídos no seculo XIX ou mesmo os cineteatros, estes a partir dos anos 20 do seculo passado, que pela sua implantação em zonas centrais de vilas e cidades, foram progressivamente demolidos para dar lugar a construções mais rentáveis no ponto de vista de investimento, e quantas vezes menos adequadas à implantação em centros históricos e à arquitetura correspondente. De alguns, temos aqui dado noticia, aliás sem pôr em causa a qualidade arquitetónica de muitos deles.

 

E quando os chamados teatros “de bolso” independentemente da respetiva estrutura interna e lotação, se implantam em zonas mais modernas das cidades, então só há que elogiar a iniciativa e procurar garantir a viabilidade económica e a qualidade artística, o que nem sempre é possível, como bem sabemos.

 

Recorde-se que o Teatro Maria Matos foi inaugurada num projeto complexo urbano. Tinha no início uma lotação de mais de 500 lugares em plateia e balcão, e uma sala de ensaios. E desde logo se notabilizou pela qualidade da sala e também pelas máscaras de Martins Correia e pelo painel de Maria Helena Madureira.

 

Maria Matos (1890-1952) foi na sua época e ainda é hoje um grande nome de qualidade e prestígio no meio teatral português. Era professora de Arte de Representar e Encenação no Conservatório Nacional.

 

Dada pois a sua carreira, é meritória e adequada a designação do Teatro Maria Matos, inicialmente concebido pelo arquiteto Fernando Ramalho. O projeto sofreu porém alterações já em fase de construção e o edifício, tal com foi inaugurado, deve-se aos arquitetos Aníbal Barros de Fonseca e Adriano Simões Tiago.

 

Na origem, o Teatro foi dirigido por Igrejas Caeiro, a quem cabe esse mérito indiscutível da iniciativa. E estreou com um texto de Aquilino Ribeiro, a partir de “O Tombo no Inferno”. O Teatro funcionou durante anos como desdobramento de companhias ligadas à RTP, sob a direção de Artur Ramos.

 

Estreou então numerosos textos portugueses importantes.  No meu estudo sobre “Teatros de Portugal” (ed. INAPA 2005) bem como  no texto que aqui publiquei em 2017, acima citado,  remete-se para parte desse repertório, referido  num estudo abrangente e de grande qualidade e documentação, da autoria de Maria do Céu Ricardo, precisamente denominado “Teatro Maria Matos (1969-2001) – Um Teatro com História”(ed. CML).

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

4. À ELIS REGINA DE BOA MEMÓRIA

 

Deixou-nos cedo, com apenas 36 anos, em 19.01.1982, há 36 anos.

 

Dizem que tinha uma mágoa que não foi curada, finando ao fim da tarde, numa hora tramada, por conta da cocaína e bebidas alcoólicas.

 

Tida como um animal de palco, para muitos a melhor cantora brasileira de sempre, teve inúmeros e memoráveis sucessos: Arrastão, Falso Brilhante, Águas de Março, Cartomante, Romaria.

 

Pessoalmente sempre gostei muito de Casa no Campo. E permanece. 
Tenho-a como uma canção fetiche, mágica. Uma canção refúgio, de abrigo, nostálgica. De redenção, salvação, compensação, pacificação.   

 

Com frases admiráveis, espantosas, fascinantes. Que condensam, em si mesmas, o querer de um projeto de vida exequível, fazível, realizável. Com os amigos do peito, discos e livros, um filho de cuca legal, compondo rocks rurais, numa casa do tamanho ideal onde se possa ficar no tamanho da paz, pau-a-pique e sapê, com o silêncio das línguas cansadas e a esperança de óculos, com carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim...   

 

Uma canção que idealiza como ideal a ideia de que idealmente deveríamos viver todos no campo, em liberdade, à solta, com os limites do corpo, os animais, as plantas, os nossos amigos, discos e livros e nada mais.
Uma casa no campo,  

 

Onde eu possa plantar meus amigos   
Meus discos e livros  
E nada mais.   

 

Amigos, discos e livros. Que síntese final tão feliz.   

 

Numa interação entre a natureza e o conhecimento, entre o viver no campo, o culto da amizade, a música e a literatura. Mesmo sem amigos, pode-se viver, rodeado de livros e música, vivendo-se só, mas não sozinho, com carneiros e cabras, plantando e colhendo a pimenta e o sal, embora o ideal seja com amigos e um filho de um cuca legal.

 

Mesmo quando a família, no seu esplendor, não regressa, porque os filhos voaram, fizeram-se à vida, mesmo que os netos não venham, ou mesmo vindo furtivamente, não os podemos ter perto, ou se a nossa amada (ou amado) finou, amigos, discos e livros podem ficar e superar o vazio.

 

Com a tua voz calma, serena, pacífica, que de repente se agudiza, é incisiva e cortante quanto basta e é preciso, amparada pelos compositores Rodrix e Tavito.

 

Obrigada Elis! 

 

16.01.2018
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

Escrita alquímica, a tua Poesia

 

António, António Gamoneda, querido e doce amigo,

Como pensas que me esqueci de te escrever? Regresso a casa, como tu, atravessando a vida, e há sempre aquela erva cuyo nombre no se sabe; asi há sido mi vida por estes tempos. E por assim o saberes, te rogo que não julgues nada do meu silêncio. Recordo bem quando me deste a tua mão para entrar na neve e tinhas tanta razão! ou não é que se atravessa o inverno até chegarmos aos ossos humanos?

 

Querido António que a tua poesia é uma paz en mis ojos mesmo quando escuto o descrever da morte, desconhecendo o quanto o dia do seu perfume não me pertence. E tudo cessa y cae Dios, um dia, naquele em que nada é verdade.

 

Escrevo-te também hoje por ser sábado, o primeiro de 2018. E tanto me lembro quando te conheci. Era sábado e senti que has llegado al gran sábado de la vida y amei as desaparições, sem receios.

 

Tudo o que me ensinaste seria redutor se o dissesse, até a escuridão dos teus paralelismos com as paisagens, pinturas, palavras, músicas, cores, nunca elas seriam tão escuras que nos esclarecessem a todos. A descoberta da vida também é dolorosa e exige a descrição da mentira com uma precisão rara, e para isso é precisa a escuridão.

 

E quantas vezes encostei o meu ouvido à tua poesia e por ela tu prision en la melancolía, pois tudo na vida, durante algum tempo, é, el alimento por la esperanza. E só!

 

António, deixa que te lembre que atravessando los aniversarios, a veces viajan las palomas ébrias soy la ciudad y el viento, ah y los jardines! Estuve a punto de llorar hasta tu trono.

 

Juntos estamos, estaremos numa escrita rodeada de frutos. Tu o mais vestígio do que procede. E eu sou sim, o mar, tal como disseste, e entre nós, os dois, estou. 

 

Teresa, Teresa Bracinha Vieira

 

P.S. Não tenhas medo que eu também já sei que o amanhecer quando chega vem em pastilhas pardas. Peço-te: mira mis ojos en el instante de la nieve. Luego. 

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Cedric Price: a arquitetura e o ser humano.

 

'A city that doesn't change and replace itself is a dead city.', Cedric Price em conversa com Hans Ulrich Obrist

 

As cidades, para Cedric Price, são espaços que permitem o homem ter uma noção mais precisa de tempo. Por isso, a arquitetura da cidade deve tomar a forma de um diálogo contínuo, com o homem e a sua circunstância. Esse diálogo envolve todas as pessoas (ricas ou pobres) que acreditam num bem comum e num futuro melhor e mais próspero do que o do tempo presente. 

 

Price acredita que a arquitetura deve então servir três medidas: a comodidade (boa economia), a firmeza (boa estrutura) e o encanto (bom diálogo). Mas considerando sempre a flexibilidade, a imprevisibilidade, a incompletude e a incerteza - a sua ideia muito influente de 'não plano' sugeria uma abordagem orgânica para criar e mudar constantemente as paisagens arquitetónicas. 

 

'The Fun Palace served as a launch pad to help people realise how marvellous life is. After visiting the palace they went home thankful that their wife looked as she did and that their children were noisy; the 'key' had opened the door for them.', Cedric Price

 

Price acredita que infelizmente a arquitetura contemporânea não faz o suficiente - não transforma, não enriquece, não anima, não dá sentido e não preenche a vida tal como um livro ou a música o fazem. E para que se consiga melhorar o desempenho da arquitetura (de maneira a evitar a conceção de meros objetos simbólicos de identidade, poder e ordem), têm de se reconhecer quais as oportunidades, que a arquitetura oferece, capazes de aperfeiçoar e melhorar a vida. 

 

Por isso, o compromisso de Price não é com a arquitetura, mas com um valor ou efeito maior e que a arquitetura deve servir incessantemente. 

 

A arquitetura não deve determinar o comportamento humano, mas sim abrir possibilidades, ser condensador de vida. Na verdade, a arquitetura deve ser relevante para a experiência humana porque é um veículo de constante comunicação.  

 

A arquitetura de Price não dá nada por certo - só assim pode ser absolutamente neutra em relação à experiência que os seus ocupantes retiram ao habitarem nela. Price acredita, pois, que o arquiteto deve projetar um objeto anónimo e neutro, cujo fim é a não determinação total da experiência dos ocupantes nesse espaço.

 

Sendo assim, Price afirma que a arquitetura deve atender sempre e primeiramente às necessidades humanas (ser temporária, incompleta, mutável, aberta e acessível) e se por qualquer motivo o objeto construído deixar de atender à sua finalidade tem de ser radicalmente transformado ou mesmo demolido. 

 

'A greater awareness in architects and planners of their real value to society could, at the present, result in that rare occurrence, namely, the improvement of the quality of life as a result of architectural endeavour.', Cedric Price 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

Jerusalem and, Le President Macron, 2018

 

Till we have built Jerusalem, In Englands green & pleasant Land. O dia abre com sentimento fundo de saudades ― da civilidade de Oxfordshire, dos campos viçosos do Kent, da atitude geral do doing the right thing. À mente vêm notas de Herr Martin Heidegger sobre os estados de espírito. Voam, para dar lugar utilitário ao better Socrates de Mr John Stuart Mill (1806-73).

O filósofo do Middlesex é um dos profetas da liberdade, não por acaso. — Chérie! Qui se ressemble s'assemble. O cenário de um segundo referendo sobre a partida do United Kingdom da European Union é publicamente admitido por Sir Brexit. Mr Nigel Farage adverte os Brexiteers para se prepararem para a last dramatic battle, antes que esta lhes seja imposta por maiorias hostis nas Houses of Parliament. — Umm. Why not the best vote of three!? Sandhurst recebe a Anglo-French summit, reunindo o French President Emmanuel Macron com a Prime Minister Theresa May e Cabinet Ministers a par dos Princes William e Harry. Em Berlin, a Bundeskanzlerin Frau Angela Merkel continua a negociar eventual Grosse Koalition entre a sua eurocética CDU com o eurófilo SPD de Herr Martin Schultz. Já pelas ilhas, a ala corbynista do Labour Party reforça a participação no National Executive Committee. Vai crescer. A mega empresa de infraestruturas Carrillion sucumbe na praça da monarquia, sem o resgate à última hora pedido a Downing Street.

 


Sky partly cloudy
at Great London. A town talk está submersa em torno das semânticas da Brexit, após mais uma peculiar remodelação governamental, Há novos talentos nas fileiras conservadoras. A estampa inicial do pretty much as before é incontornável ao fim do dia, porém. Aliás, algo que evoca os tempos do Major Govt. Uma mexida sensível ocorre na ligação do executivo ao partido: a líder aponta RH Brandon Lewis como new Tory chairman, nome que quer conjugar com o rejuvenescimento da militância. Sob o denominador comum da missing oportunity, o comentário na honorável Press é misto. Assinalemos as extremas da rossio. No jornal crítico dos críticos de Mrs May retrata-se uma tela cruel das subidas e descidas num Cabinet de 25 membros, cuja balança interna soma sete Brexiteers ― Premier excluída. Resume o London Evening Standard do arquirrival Mr George Osborne: “You have to hand it to May. With this week’s «farce,» she has now achieved the hat-trick of the worst reshuffle, the worst party conference speech and the worst manifesto in modern history.” Ouchh. Recorde-se que o editor do assanhado LSE é o anterior Chancellor of The Exchequer, o qual a senhora destituiu ao entrar na residência de Downing Street, Mais equitativo é o favorável Daily Telegraph. Explica Mr James Kirkup que o presente rol de winners & loosers segue o padrão habitual dos “messy and managerial affairs.”

 

Mas Monsieur Macron is coming… again. Em oposição ao divisivo US President Donald J Trump, que acaba de cancelar uma visita a London para inaugurar a nova embaixada americana no reino, Westminster está de braços abertos para com o “young JFK,” O apoio explícito do Number 10 ao ido candidato aquando da corrida ao Palais de l'Élysée dá frutos. O dirigente da Rue du Faubourg vem com o seu top ministerial team e gera expetativas em todos os quadrantes políticos quanto à intermediação parisiense nas duras negociações da Brexit em Brussels. Ver-se-á se, desta feita em contraste com o European Commission President Jean Claude Juncker, no fim da cimeira não há queixas do cozinheiro local e antes louvores à aliança diplomática que secularmente une os primos atlânticos do English Channel. No countdown das chancelarias, faltam 19 meses para a saída dos Brits da Other Union. Justamente quando há uma incrível inscrição no flanco dos disponíveis para re-run referendário. Isto é: A bandeira do #EUref II não é mais exclusivo dos Liberal Democrats, de Sir Vince Cable, para gáudio escocês. É agitada pelo mesmo protagonista que, à frente dos ukippers, há décadas defende o estado soberano insular contra o superestado continental: Mr Nigel Farage MEP, por cá cada vez mais visto em mediáticas cavaqueiras com destacados Remainers como Mr Alastair Campbell (o ex Press Secretary do PM Tony Blair) ou Lord Adonis (o chairman da National Infrastructure Commission que se demite do cargo em protesto contra a política europeia de Mrs May). ― Quite surprising, indeed. What are those three cooking? A new lord?!

 

 A amenizar esta paisagem política, eis uma excelente notícia para os apaixonados do countryside. Whitehall dá luz verde à plantação de 50 milhões de árvores num “120-mile corridor” entre Liverpool e Hull.

A novíssima Northern Forest arranca na primavera e contém cabaz misto de latifoliadas e coníferas, visando criar habitats para espécies variadas como morcegos, pássaros ou os adoráveis red squirrels. Mais: O plano ecológico prevê espaços próprios de observação, para visitantes humanos, espalhados de Leeds a Manchester. O plantio dispõe de um orçamento central de £5.7m e £10m do Woodland Trust, num custo final global de quase £500m. — Well. Not so much. Remember the long life of that beautiful poem penned by Master Will around the Stratford’s mulberry leaves: — “Under the greenwood tree / Who loves to lie with me, / And turn his merry note / Unto the sweet bird's throat, / Come hither, come hither, come hither: / Here shall he see / No enemy / But winter and rough weather. | Who doth ambition shun, / And loves to live i' the sun, / Seeking the food he eats, / And pleas'd with what he gets, / Come hither, come hither, come hither: / Here shall he see / No enemy / But winter and rough weather."

 


St James, 15th January 2018

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 15 a 21 de janeiro de 2018.

 

«Lisboa Antiga» de Júlio de Castilho é uma preciosidade da olissipografia. Aí podemos encontrar dois núcleos fundamentais – Bairro Alto (4 volumes) e Bairros Orientais (12 volumes), além do volume dedicado à Ribeira de Lisboa.


A FUNDAÇÃO DA OLISSIPOGRAFIA
Júlio de Castilho (1840-1919) era filho de António Feliciano de Castilho, sendo diplomado com o Curso Superior de Letras. Recebeu de seu pai o título de visconde de Castilho, tendo tido, ao longo da vida, uma intensa atividade de memorialista, historiador, jornalista e bibliografo. Exerceu fugazmente funções políticas como governador civil do distrito da Horta (1877-78) e foi primeiro-oficial da Biblioteca Nacional. A vasta obra sobre a história da cidade de Lisboa é, ainda hoje, de significativa valia, tendo sido reeditada e enriquecida pela intervenção de olissipógrafos do século XX, como Gustavo de Matos Sequeira, Augusto Vieira da Silva e Pastor de Macedo. Se Norberto de Araújo foi um excecional divulgador da história de Lisboa, Castilho foi indubitavelmente não só o verdadeiro fundador da olissipografia, mas também um dos seus mais fecundos estudiosos e cultores. No dizer de Fernando Castelo Branco as três obras fundamentais de Castilho sobre Lisboa constituem “livros com notáveis méritos historiográficos e também literários, e dessa feliz conjugação resultam os quadros de evocação e de recriação que Fernandes Costa assinalou como um dos atributos mais relevantes de Júlio de Castilho… (…). Mas, muito principalmente, há a considerar que tendo sido um pioneiro, J.C. traçou uma obra que continua válida na sua maior parte, dando-nos múltiplos informes sobre a história de Lisboa, os seus edifícios, gentes e instituições. Escrita há já tão dilatadas décadas, continua a ser útil ao investigador, continua a ser uma leitura não apenas agradável, mas positivamente instrutiva para os curiosos do passado”. Discípulo de Herculano, nota-se na obra a influência da nova historiografia iniciada pelo mestre, tendo Júlio de Castilho iniciado as suas investigações e estudos em 1878. E a dado passo lemos na descrição do cerco de 1147, nos Bairros Orientais: “tenho a certeza de que o grande Herculano, se pudesse ouvir-me não levaria a mal, antes aplaudiria a liberdade que tomei; sinto que é mais um preito no seu indiscutível merecimento. De mais a mais: isto não é em mim pelejar com um morto. Herculano não morreu; para a admiração está vivo em todos os cultores de letras; para a veneração está vivo em todos os portugueses”.

 

O EXEMPLO DE SANTA CATARINA
Em complemento do que na última crónica falámos sobre as igrejas das portas de Santa Catarina damos hoje algumas referências de Júlio de Castilho sobre as igrejas do Loreto e da Encarnação, o que certamente constituirá uma ilustração das qualidades e do valor da obra de Júlio de Castilho, mas também um enriquecimento sobre o conhecimento dessa Lisboa em que continuamos a peregrinar. Falando da igreja do Loreto, refira-se que a mesma foi destruída pelo grande terramoto, descrevendo-a um viajante estrangeiro deste modo: “a feitoria italiana possui em Lisboa uma formosa igreja, há pouco acabada de reconstruir; é da invocação de Nossa Senhora do Loreto. Serve de paróquia. Ali celebram-se pomposamente os ofícios divinos. Este templo é dos mais concorridos pelos elegantes e pelas elegantes da capital”. Na frontaria, os dois querubins que seguram as Armas Pontifícias eram atribuídos a Canova, segundo teria sido comunicado ao Conde Raczynski, grande estudioso da nossa história da arte. Acontece, porém, que o próprio Raczynski refere outro testemunho, transmitido a Machado de Castro, que os anjos seriam obra de Bernini. Mas, para adensar o mistério, ainda é aventada a hipótese de essas figuras serem de Borromino… Numa palavra, há informações contraditórias e não existem provas seguras da verdadeira autoria… A igreja do Loreto não foi totalmente destruída, por isso Júlio de Castilho diz que, tendo Bernini morrido em 1680, poderiam os anjos estar lá anteriormente – tendo havido importantes melhoramentos no século XVII. Aliás, as mais recentes investigações revelam a hipótese de ter havido telas de Ticiano em Lisboa, no Loreto, o que confirma a qualidade das obras de arte do templo. Quanto a Canova, mesmo muito jovem, não há provas. As estátuas de S. Pedro e S. Paulo atribui-as Cirilo Wolkmar Machado a Fancé, um escultor francês. Lembre-se que a comunidade italiana adquiriu a antiga ermida de Santo António em 1518, alterando o orago para Nossa Senhora do Loreto, invocando um milagre do século XIII, segundo o qual a casa da Virgem Maria em Nazaré teria aparecido na Dalmácia e depois em Itália (Ancona) na propriedade de uma senhora de nome Laureta, onde hoje se encontra uma imponente catedral… O autor conta a história e refere ainda a singular representação de Nossa Senhora do Loreto que se encontra no cimo da fachada – “escondendo os braços e envolta num revestimento adornado de joias, pouco artístico e sensabor”…

 

E A ENCARNAÇÃO?
Depois do Loreto, atravessemos o largo e cheguemos à Encarnação, filha da primeira, e tardiamente instalada, mas graças ao legado de D. Elvira Maria de Vilhena (1627-1718), Condessa de Pontével, dama da corte de D. Catarina de Bragança, Rainha de Inglaterra. A Condessa decidiu edificar uma sede condigna da paróquia da Encarnação, “em chão que aí possuía na vizinhança junto ao muro da Cidade”. E “requereu à Câmara licença para se demolir a torre e parte do muro da Cidade, em baixo, junto à ermida de Nossa Senhora do Alecrim, para alargamento do chão em que se edificava a igreja da Encarnação”. Não foi fácil a concretização. A colossal porta de Santa Catarina demorou a derrubar. Só em 1708 o novo templo foi sagrado. O terramoto não destruiria a igreja, mas o fogo causou-lhe algum estrago que foi lentamente reparado sob a coordenação do arquiteto Manuel Caetano de Sousa. Só 29 anos depois do terramoto voltou o culto na igreja. A frontaria ficou, porém, dezenas de anos por acabar. Só em 1867 viria a ser aprovado o plano de conclusão, que corresponde ao que hoje conhecemos… E Júlio de Castilho elogia especialmente, pelo seu equilíbrio e beleza, o conjunto da autoria de Machado de Castro representando no altar-mor Nossa Senhora da Encarnação. Em suma Castilho cultiva bem a memória e diz, a propósito da demolição dos casebres do Loreto, atrás do palácio Marialva: “Na ordem moral, esquecer é arrasar lanços inteiros da existência. Há entes infelizes, para quem viver é esquecer. Não os invejo, não! Recordar é reviver”… Eis o que não esquece…   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Vão soando trumpetas estridentes, proclamando Jerusalém capital de Israel há já mais de três mil anos! Tanto, tanto, muito, muito tempo, meu Deus!, de cabeça de um estado que nem dois milénios durou... A falácia, com tão pouco rigor histórico como juridicamente irrelevante face ao direito internacional vigente, pretende justificar abusos do sionismo e servir populismos fáceis. Atropelando factos, entendimentos e, até, sentimentos religiosos e comunitários do próprio judaísmo. Imagina, Princesa, Portugal a reclamar Goa, por lá ter estado, efetivamente, como governo, durante meio milénio, ou pensa na balbúrdia gerada pelo pretenso estado islâmico, a reclamar a restauração de um califado... Tenho nas mãos, Princesa de mim, um livro notável do professor de sociologia da Universidade de Paris-X-Nanterre, Shmuel Trigano, fundador e diretor do Colégio de Estudos Judaicos da Aliança Israelita Universal: intitula-se Le Judaïsme et l´Esprit du Monde (Grasset, Paris, 2011), e trabalha o sentido histórico e contemporâneo do judaísmo na religião, na política e nos costumes, sem esquecer uma análise teológica da eleição de Israel e, depois, do seu desaparecimento da cena das nações: As duas entidades que se constituem no lugar vacante de Israel são dum género totalmente novo. Já não são locais (Cananeus, Filisteus, Samaritanos) mas «universais», eco devolvido da levitização de Israel, isto é, da sua extensão ao universo, à custa da sua unidade formal na terra. O cristianismo e o islão são uma Samaria à escala do universo. O reverso do povo no exílio é o império de Roma e de Meca, e esse duplo império levanta-se contra Israel à maneira dos Cananeus, quando Israel esquece a sua vocação e se afasta da aliança... 

 

   Esta obra de Shmuel Trigano divide-se em quatro livros de três partes cada um: Éthique (La séparation de la femme); Ethnos (L´Élection d´Israël); Ethos (Le cachement de l´âme); Ethnikos (Le reste d´Israël). A segunda parte do Livro II (Le Royaume d´Israël), inicia assim o seu primeiro capítulo (La Souveraineté): Porque é que o povo de Israel constitui uma realidade política? Poderíamos deduzi-la do facto de estar ali um povo, qualquer condição coletiva sendo naturalmente política na medida em que implica uma coerência organizada da massa humana e um sistema de relações regulando o poder.

 

   Ora, eis o que está precisamente em questão neste caso. Como regra geral, a Cidade política institui-se sobre a reunião de vários grupos humanos. Com Israel, a existência do povo precede a edificação da Cidade, como se o povo se bastasse a si mesmo e invertesse a ordem natural do político. Toda a dificuldade está em compreender que essa condição fundamental não está, por isso, fora do político, mesmo sendo meta-política. Este paradoxo ilustra o sentido duma expressão como «Reino dos Céus». A meta-política afixa-se no coração da política. O povo é maior do que o estado, mas não é o seu contrário. É o que verifica a história de um povo que sobreviveu a mais de vinte séculos sem estado, nem território, sem que por isso nele se tenha perdido o poder do Estado e da Terra. Poderíamos chegar a dizer que a fonte da soberania do estado está no povo que, ele próprio, surge do meta-político. Por soberania entendemos o que a língua hebraica designa por malkhout, compreendida como «reino» ou «realeza», tradução demasiado limitativa dum conceito muito mais lato. Em suma: a cidadania, o modo gerente da relação dos membros desse povo, precederia a Cidade, e transcendê-la-ia.

 

   Essa ideia de identidade (e identificação) meta-política transmitiu-se ao cristianismo e ao islamismo, muito embora ambos tenham padecido a tentação do império, isto é, de reunir num mesmo estado político, quer a cristandade, quer a "umma" dos muçulmanos, tal como vem sucedendo com a visão sionista do judaísmo. Mas não será o «Reino de Deus», afinal, e para cada uma das confissões monoteístas, algo diferente? Vamos por partes, começo com um trecho do inglês de Cambridge, Tom Holland (In the Shadow of the Sword: The Battle For Global Empire and the End of the Ancient World, Anchor Books, Random House, New York, 2012):

 

  Todavia, era nada menos do que aterradora realidade o facto de que ao longo da sua história o povo judeu nunca tinha sido confrontado com um perigo mais insidioso e opressor do que aquele a que os adoradores de Jesus o expunham. Insidioso, porque essa heresia tinha suficientes semelhanças com a sua própria fé, para exercer um fascínio terrível e secreto sobre muitos deles, inclusive alguns rabinos; e opressor, porque, ao que parecia, não havia uma única região do mundo a que não tivesse chegado... ...mas, acima de tudo, estendera-se para o ocidente, onde se estendia o «reino mais importante do mundo, o reino dos Romanos». Havia mais de um milénio, e mais do que nunca agora, que esse reino exercia o seu poder sobre Jerusalém e a Terra Prometida e, durante todo esse período, tinham sido infligidos muitos, muitos, sofrimentos ao povo judeu. Contudo, quinhentos anos depois do nascimento de Jesus, os Judeus tinham mais uma razão para temerem a força e o poder de Roma. Os Césares que, como outrora os reis da Babilónia, tinham edificado templos a uma multidão de demónios, tinham-se doravante empenhado em encerrar esses santuários para os substituir, por um culto quiçá ainda mais nefasto. A que é que o povo romano tinha decidido consagrar a sua devoção, se não ao mais ameaçador de todos os falsos ídolos? Chamavam-lhe Christos, que em grego significa «Messias».

 

   Sim, no palácio de César, agora, só se venerava Jesus. Os Judeus já não eram os únicos a acreditar-se povo eleito de um Deus único. Os Romanos também, esses senhores dum império ainda mais rico e intimidante que o dos Persas, tinham -se recentemente convertido à convicção de que Jesus reinava mesmo no Céu, para dele fazer o coração batente do seu império.

 

   Muitos acreditam que o cristianismo é um aperfeiçoamento, um passo em frente na revelação de Deus como Salvador universal. Outros mantêm que Jesus não é o Messias, porque este será o que vier cumprir a promessa da restauração de Israel como Reino de Deus, o regresso e a posse da Terra Prometida, o esplendor de Jerusalém. Nesse caso, esta Cidade de Deus não é a Jerusalém Celeste, meta-política, mas sim a Jerusalém política, a cidade capital de um reino prometido e finalmente entregue a um povo eleito. Já muitos exegetas e teólogos, judeus e cristãos, exumaram dos textos bíblicos duas leituras simultaneamente contraditórias e possíveis. Alguém, Princesa, já não recordo quem, até falou em Bíblia paradoxal. O certo é que, no Antigo Testamento, pistas de narrativas divergentes apontam, ora para um destino nacionalista e político, ora para uma mensagem libertadora da condição humana, carregada por um povo escolhido para a semear e fermentar. Socorrendo-me da Geschichte Palästinas: von der omanischen Eroberung bis zu Gründung des Staates Israel (Verlag C.H. Beck oHG, München 2002), bom livro da professora Gudrun Krämer da Freie Universität Berlin - que, aliás, tem uma edição revista e traduzida também pela autora na Princeton University Press (2008)  -, verifico como, ao longo de séculos, essa terra que chamamos Palestina não formou qualquer unidade geográfica ou politicamente independente: Como parcela do Crescente Fértil, que se estendia do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico, e dos Montes Tauro e Zagros, a norte, ao deserto da Arábia, a sul, a Palestina sempre foi terra de passagem. Daí a maior importância da toponímia corrente, já que os nomes dados a territórios, cidades e lugares, refletem a existência prévia de povos, com suas culturas e poder político. Ora, os nomes que o Ocidente foi retendo nas regiões que envolveu na designação genérica de "próximo" ou "médio" Oriente (que claramente indica uma perspetiva europeia), e designadamente na Palestina, foram evidentemente recolhidos da Bíblia, assim colocando os Judeus no centro, empurrando todos os outros grupos populacionais (mesmo se e quando constituíam a maioria) para as traseiras, e nem sempre os considerando sequer. Isto vale para tempos antigos ("bíblicos") e modernos. Claramente vale também para Cristãos Árabes, acerca dos quais sabemos muito menos do que sobre os habitantes Judeus daquela área, pelo menos no que toca à época moderna. Os Palestinos, quer Muçulmanos, quer Cristãos, têm lamentado a sua marginalização, seja na perceção pública, seja na investigação histórica. Mesmo assim, a achega "bíblica" prevalece, e é a mais poderosa historicamente. Não será tão cedo possível escaparmos-lhe. A reivindicação judaica da Palestina como a "Terra de Israel" (Eretz Yisrael) assenta ela própria em narrativas bíblicas e afirma a ininterrupta presença do povo Judeu nessa terra e o seu vínculo a ela. A reclamação Árabe, entretanto, põe em dúvida a ininterrupta presença de Judeus, e aponta raízes Árabes com mais de um milénio. Alguns referir-se-ão aos Cananeus, que se estabeleceram naquela terra antes dos Israelitas, como seus próprios antepassados.

 

   [Abro aqui um parêntese, Princesa de mim, para te assinalar que, de 26 de setembro até 14 de janeiro, está no Institut du Monde Arabe, em Paris, uma exposição sobre Chrétiens d´Orient - Deux Mille Ans d´Histoire, por ocasião da qual a revista Le Monde de la Bible (nº222, setembro-outubro-novembro de 2017) publica um interessantíssimo e ilustradíssimo dossiê acerca da história, da cultura e da fé dos cristãos árabes]

 

   Ao escrever-te esta carta, não pretendo meter-me no barulho de discussões estéreis, porque infelizmente motivadas por populismos, interesses inconfessáveis, preconceitos religiosos, culturais e históricos, e conduzidas por gente condizente e, muitas vezes, ignorante, charlatã ou exibicionista. O passado foi e deixou o que a História vai descobrindo, sobretudo na medida em que procurarmos entender povos e personagens, anseios e contradições, afrontamentos e proximidades. Por mim, prefiro mesmo ir buscando razões e exemplos de entendimento e de paz, lugares para todos à volta da mesa comum. Assim, venho recordar-te uma carta antiga, em que te falava do livro de Vincent Lemire, Jérusalem 1900 - La ville sainte à l´âge des possibles (Armand Colin, Paris, 2013). Começo por te traduzir um passo de Identité narrative et communauté historique, de Paul Ricoeur, filósofo francês, mestre do atual presidente Macron, que Lemire, para abrir o livro, foi buscar a Cahier de politique autrement [que bela designação, quelle trouvaille!], de 1994: Quando a história se esforça por reconstruir, reconstituir o que no passado foi o modo de viver, de perceber o mundo, de viver as relações com os outros, é preciso ter em conta o seguinte: os homens do passado tinham um futuro a que podemos chamar o futuro do passado, que faz parte do nosso, nosso passado. Ora grande parte do futuro do passado não se realizou. As gentes de outrora tiveram sonhos, desejos, utopias, que constituem uma reserva de sentido não realizado. Um aspeto importante da releitura e da revisão das tradições transmitidas consistirá portanto no discernimento das promessas não cumpridas do passado. Com efeito, o passado não é apenas o resolvido, o que aconteceu e já não pode ser mudado (pobríssima definição do passado), mas permanece vivo na memória, graças, diria eu, às flechas do futuro que não foram disparadas ou cuja trajetória foi interrompida. Nesse sentido, o futuro incumprido do passado talvez constitua a parte mais rica de uma tradição...

 

   Eis como Vincent Lemaire inicia o primeiro capítulo, 1900, l´âge des possibles: Para partir à descoberta de uma cidade desconhecida, é preciso aceitar viajar com pouco peso. Impõe-se afastar ideias preconcebidas e imagens convencionais, para nos apercebermos de outra realidade. Para partir à descoberta de «Jerusalém 1900», a bagagem mínima cabe em poucas linhas. No final do século XIX, Jerusalém é parte do Império Otomano. Desde 1872, ela é capital administrativa de um distrito chamado «Kudüs-i-Sherîf» ou «Filastîn» nos arquivos imperiais. Alberga 20.000 habitantes em 1870, 70.000 na véspera da Primeira Guerra Mundial. A cidade intramuros mede apenas um quilómetro quadrado, empoleira-se a 750 metros de altitude, no cimo da dorsal palestina que percorre a região de norte a sul. Os primeiros consulados europeus abrem nos anos 1840, e as peregrinações ocidentais ganham considerável importância a partir de 1880. Na verdade, Jerusalém é o berço comum dos três monoteísmos, e abriga lugares santos essenciais para fiéis do mundo inteiro. Os seus habitantes são judeus, cristãos e muçulmanos, mas também comerciantes, professores, engenheiros ou pedreiros. O movimento sionista é oficialmente fundado em 1897, em Basileia, e a imigração judia amplifica-se na viragem do século. No fim do século XIX, a cidade moderniza-se e dota-se de instituições municipais autónomas. Eis, para a «Cidade Santa», a idade dos possíveis, momento hoje tão esquecido, sepultado sob ruínas de guerras e a barulheira de guerras ideológicas.

 

   Falo-te mais desse período naquela carta antiga. Pensossinto, como então, que, em vez de ser tão estulta e infundadamente reclamada como sede de qualquer poder político exclusivo, Jerusalém deve ser cidade e símbolo de reconciliação e encontro.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÕES DO TEATRO DO PRÍNCIPE REAL – APOLO

 

Em 1866, é inaugurado no centro de Lisboa o então chamado Teatro do Príncipe Real, homenagem talvez inesperada a D. Carlos, então de facto Príncipe Real com 3 anos de idade.

 

 A mudança de designação ocorre obviamente a partir de 1910. Passou a chamar-se Teatro Apolo. Mas não durou muito: encerrou definitivamente e foi demolido em 1957.     

 

 O Teatro data pois de 1866, mas herdou uma tradição urbana de espetáculo vinda de décadas atrás – ou mais ainda, se pensarmos nos Teatros anteriores ao Teatro de D. Maria II, esse inaugurado em1846.

 

Segundo José Carlos Alvarez, o Príncipe Real - Apolo seria «o teatro mais popular e mais republicano, se é que faz algum sentido esta afirmação... nessa época. Situado entre a então novíssima Rua da Palma, a antiga carreirinha do Socorro e o Largo de Martim Moniz, bem longe do chic, moderno e elitista Chiado e dos seus teatros mais burgueses (Trindade, São Luiz) ou aristocráticos e italianos (São Carlos)»...

 

E mais acrescenta José Carlos Alvarez que foi no já então teatro Apolo que se estreou a primeira revista levada à cena depois da implantação de República, denominada “Agulha em Palheiro”, E mais refere Alvarez que, ao ser demolido, se perdeu também  grande parte do arquivo respetivo, o que evidentemente prejudica o historial dos nossos teatros na globalidade de textos, elencos e expressão cultural e sociológica dos respetivos públicos. (cfr. José Carlos Alvarez “A República foi ao Teatro”ed. Museu Nacional do Teatro – 2010, págs.11 e segs.)

 

Por seu lado, Luciano Reis refere que a tradição de espetáculo vinha de trás. Em 1885, um tal Francisco Viana Ruas, «num terreno desocupado que que havia depois da abertura da nova Rua da Palma, à esquina da Carreirinha do Socorro, edificou um salão, a que deu o nome de Vauxhall, e realizou ali bailes de máscaras que pouco resultado deram. Mudou-lhe então o nome para Salão Meyerbeer, em que realizou alguns concertos ainda com pior resultado. Inaugurou-se com as comédias imitadas por Aristides Abranches e Rangel de Lima, “Dois Pobres a Uma Porta”, em 3 atos, e “Muito Padece quem Ama, em 1 ato”». (cfr. Luciano Reis “Teatros Portugueses” ed. Sete Caminhos 2005 págs. 46 e segs.)

 

 Mas ainda recuamos nas citações e desta vez a partir do sempre referido “Diccionario do Teatro Português” (1908) de Sousa Bastos, o qual mais se adequa porque é contemporâneo do Teatro.

 

Denomina-o “Theatro do Príncipe Real (Lisboa)” e ilustra-o com uma fotografia. Atribui a iniciativa a Francisco Viana Ruas, «avô dos atuais empresários deste teatro», esclarece. Descreve o edifício, que qualifica como «uma bonita casa de espetáculos (que) tem tido épocas brilhantíssimas, principalmente a do ator Santos, a de Rossi, a de Paladini, a de Preciozi e Maria Deus e muitas outras» (ob. cit. pág. 355).  

 

Era pois, na época, um teatro internacional. 

 

DUARTE IVO CRUZ

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXXIII - RENASCIMENTO - II

 

Cosmopolitismo, universalidade, globalismo, multiplicidade, uma inesgotável capacidade para todos as atividades do engenho e arte, é uma das caraterísticas de marca do homem do Renascimento. Leonardo da Vinci é tido como o seu excelso exemplo. Ao arrepio da retórica e ensino livresco tradicional, tem a observação real, o contacto direto com a natureza e a experiência, como pressuposto primordial da ciência e da formulação das leis científicas. É simultaneamente astrónomo, escultor, engenheiro, geólogo, investigador, matemático, médico, pintor, poeta. Um sábio, um génio, um polímata, de uma curiosidade implacável, de um infinito apetite de conhecimento, de uma imaginação admirável, que imaginou o avião, o carro de combate, o submarino.

 

Como cientistas do Renascimento destacam-se também o polaco Copérnico, o alemão Kepler e o italiano Galileu. Como humanista refira-se também Erasmo de Roterdão, amigo do grande representante do humanismo em Portugal Damião de Góis. 

 

As obras renascentistas são uma fusão e síntese de elementos da antiguidade clássica, medievais e modernos, dado que continuando os temas medievais, que as antecedem, se inspiram no património e saber da antiguidade greco-romana, tratando-os de modo original e atualista, reabilitando-os e fazendo-os renascer.

 

Outro génio artístico renascentista foi Miguel Ângelo. Cristão de inclinação platónica, foi arquiteto, escultor, poeta, pintor e urbanista.

 

Na escultura faz-se o culto das figuras e formas nuas, de linhas belas, esbeltas, robustas, vincadas e sinuosas do corpo humano. Com inspiração na arte clássica grega, reverenciadora da beleza, do belo, do equilíbrio, da perfeição, do absoluto, com representações anatómicas perfeitas, chamativas, sedutoras, sensuais, voluptuosas, divinas. Na fase final do helenismo, a arte grega degradou-se, entrando em declínio e desequilíbrio, vindo o equilíbrio a ser retomado no Renascimento. Onde sobressai Miguel Ângelo, com figuras atléticas, belas, tipo homem-divinizado, como no seu Cristo de Minerva e na escultura de David.

 

Na pintura procura-se e descobre-se a terceira dimensão, desconhecida da Idade Média. Para os artistas medievais, pessoas e coisas aparentam estar à mesma distância de quem as observa. Para os renascentistas, existem três dimensões, onde subjaz a ideia da profundidade (além da largura e altura), a sua maior descoberta, com cada coisa à devida distância, com determinadas coisas e pessoas que parecem estar mais próximas de nós e outras mais afastadas, tentando exprimir fielmente a realidade em toda a sua beleza, em simultâneos jogos de luz e sombras. As figuras são corpos localizados espacialmente. As cores não são uniformes. O convencionalismo e dogmatismo religioso é humanizado. Valoriza-se a natureza e o humanismo. Exemplificam-no A Virgem e o Menino com Santa Ana, A Virgem dos Rochedos e a Gioconda, de Leonardo da Vinci. Outro inimitável artista foi Rafael, de influência platónica. 

 

Em Portugal são tidos como cientistas do Renascimento Pedro Nunes, Garcia de Orta, Duarte Pacheco Pereira e D. João de Castro. Gil Vicente e Camões como expoentes da literatura renascentista. O estilo manuelino, baseado na observação da natureza,  experiência e método experimental, caraterísticas fundamentais que o Renascimento defendia, é tido como um estilo renascentista, de feição especial, ligado aos descobrimentos, em que motivos náuticos como cordas, boias, redes, conchas, corais, plantas e seres exóticos se impõem, diferenciando-o. 

 

O Classicismo continuou a herança do Renascimento, fazendo o culto da tradição greco-latina, tentando reerguer o prestígio antigo da Antiguidade Clássica tendo, como ideal clássico, regras que se deviam acatar para alcançar o Belo, com gosto pela linha pura, frase simples, palavra própria e razão humana, tendo horror ao vago e retorcido, trinfando na segunda metade do século XVII, com Luís XIV, em França.

 

Porém, já em pleno Renascimento, o exagero de formas, nomeadamente na arquitetura e escultura, patente na estátua Moisés, de Miguel Ângelo, abriu caminho para um novo estilo artístico conhecido por barroco. 

09.01.2018

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

O mau sinal

 

(…) – Não tens nada?

- Não, nada. Está tudo em ordem. Exceto o armagnac… Já não há. Desculpa-me, Alain!

- O papel de desculpador é meu – disse Alain -, foi culpa minha ter-te deixado subir a essa velha cadeira estragada. – Depois, preocupado: - Mas, meu amigo, estás a coxear!

- Só um bocadinho, mas não é grave.

(…) – O que é que se passou?

- Parti a garrafa – anunciou-lhe Caliban. – Já não há armagnac. Um mau sinal.

- Sim, um péssimo sinal. Preciso de ir depressa para Tarbes – disse Charles. - A minha mãe está a morrer. 

Milan Kundera in “A Festa da Insignificância”

 

Kundera: uma indefinida nostalgia sobre a finalidade da escrita explorando a existência. O imenso saber da partida quando o saber das identidades que se dissolvem abordam desse modo temas essenciais.

 

Teresa Bracinha Vieira