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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

LONDON LETTERS

  

 

An Olympic example in Nationhood, 2016

 

What a party! Absolutamente sensacional! An remarkable achievement, exclama Her Majesty The Queen. “An inspiration for all of us, young and old,” anota o Prince William of Cambridge. “The people of the United Kingdom have been filled with pride as we’ve watched our Olympians take victory in so many sports with

 power, grace and control,” remata a Prime Minister Theresa May. — Chérie! Les Britanniques font droit! A Little Britain finaliza os Rio 2016 Olympics Games em segundo lugar, à frente de China, Russia e Germany. É um feito. Em 1617, na Declaration concerning lawfull Sports, já o King James VI of Scotland & I of England exorta “our good people” a exercitar os corpos em “honest mirth or recreation”. — Woaw! Congrats to all. Extraordinary athletes and, lovely individuals. Os Dukes of Cambridge preparam uma visita de estado ao Canada. Os líderes de Berlin, Paris e Rome reúnem num arcaico navio de guerra ao largo de Naples para debater a Post-Brexit European Union. Monsieur Nicolas Sarkozy anuncia nova candidatura ao Élysée Palace. Moscow falha o apelo judicial contra a exclusão por batota dos Paralympics Games. Nos US, RH George Osborne lança um circuito de after dinner speeches a austero preço de £50k por noite.

 

Wonderful atmosphere at London. Os sorrisos em volta dizem tudo: um valoroso exemplo de patriotismo vem dalém Atlantic Ocean. Também as 67 medalhas (27 golds, 27 silver & 17 bronze) brilham no corpo dos atletas às primeiras olimpíadas na South America. O casal ciclista Jason Kenny e Laura Trott trazem 10 áureas no dote; Mo Farah ganha o que há para ganhar; mesmo as lágrimas prateadas de Joe Joyce com o sorry to the country revelam a paixão, foco e determinação dos Brits em triunfar no Brazil. O cenário abençoado do rainy Rio doa os best UK Olympics em mais de um século. Os heróis são jovens com histórias de dedicação que devem à tradição desportiva do reino, desde o Scot Andy Murray à English Kate Richardson-Walsh, dos irmãos Johnny e Alastair Brownlee à avô de Adam Peaty no Tweetdom conhecida como a OlympicNan. Inspiram. Se a expressão fair play é um código de conduta para as várias esferas de vida, o Team GB honra nos Games o modelo da sportsmanship com raízes na medieval forma para significar o que é belo, agradável, puro ou imaculado.


A seleção do talento tem também digressões. A frescura, a positividade e a inspiração que pautam o Team GB têm exemplo nos antípodas. O Labour Party avança no processo eleitoral da liderança, esta semana enviando os votos postais para os 650,000 membros oficialmente inscritos no sufrágio. A desgastante campanha Corbyn-or-Smith continua até September. Um aparece triunfante e outro nem por isso, com a maioria alheada da big mess. As sondagens dão Comrade Jez como imbatível, mas os aferidores não vêm apresentando precisão. Os últimos episódios são para o desolador: Caso maior: RH Jeremy Corbyn concede que não respeitará o dever de solidariedade na NATO e RH Owen Smith quer sentar o Isis à mesa da diplomacia! Something out of the world, portanto, “n” ao quadrado e do tipo flower power. Longe vão os tempos em que Red Corbyn admitia o recurso às armas, quer na justificação do IRA, quer para implantar o socialismo nas ilhas!!! Caso menor: Como não bastassem as incursões em tribunal relativamente a quem vota e é elegível, agora é a ala feminina do partido a esgrimir com legal action face à misoginia que escolta o mal amado chefe. Já Jezza promete quebrar o "magical circle of Westminster.". Será a oposição obra do oculto!?Os campeões retornam a grata Land of opportunity em jet VictoRious, com as cores da Union Jack e… a golden nose. Antes de parada nacional em Manchester, decretada pelo No. 10, a receção aos heroes of the stadium em Heathrow é viva, jubilante e tipicamente British: famílias, fãs, flores, bandeiras e improvisados editais de Welcome Home Team ou #GreatToBeBack. Durante o voo, happy and glorious, cantam o national anthem “God save The Queen.” É o abrir de muitas celebrações pelos condados e da road to Tokyo. Como em 1617 declara o King James, "and as for our good people's lawful recreation, our pleasure likewise is, that after the end of divine service our good people be not disturbed, letted or discouraged from any lawful recreation, such as dancing, either men or women; archery for men, leaping, vaulting, or any other such harmless recreation, nor from having of May-games, Whitsun-ales, and Morris-dances; and the setting up of May-poles and other sports therewith used." Tal é o clássico credo real que ecoa no moderno Rio d’ouro, under the statue of Christ the Redeemer, quando os participantes competem com equal chance.

 

A fechar fantástica semana em ilha no teto do mundo, ainda uma nota de especial parabenização. Sir Nils Olav III é promovido a brigadeiro da Norwegian Royal Guard pelo King Harald V, honra merecida e aqui aplaudida pela evidente virtude. A cerimónia de condecoração do ilustre residente do Edinburgh Zoo decorre com honras marciais durante o anual Tatto nas Higlands. O lorde mostra-se à altura dos pares. Sir Nils recebeu a knighthood em 2008 e era até agora Colonel in Chief do regimento norueguês. Após receber a novel insígnia na asa, eis que, in all their finery, o famoso pinguim passa formal, atenta e impecável inspeção aos militares em parada. — Well! As Master Will puts the fairness standard within the judgement of Miranda in The Tempest: Yes, for a score of kingdoms you should wrangle, / And I would call it, fair play.

 


St James, 23th August 2016
Very sincerely yours,
V.

A VIDA DOS LIVROS


   De 22 a 28 de agosto de 2016

  

 

«Uma Excursão à Serra do Algarve» de Manuel Viegas Guerreiro (C.M. Loulé, 2ª edição, 1991) é uma descrição saborosa e utilíssima de um investigador notável da cultura portuguesa e das repercussões desta no mundo…

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ALGARVE, RICO CULTURALMENTE…
Nestes dias de Agosto apercebo-me de que muitos dos que demandam o Algarve pouco se apercebem da extraordinária riqueza de uma região com virtualidades culturais ainda pouco conhecidas. É magnífico o mar. É rica a terra, mesmo com a secura, sobretudo pela força mediterrânica… Como disse António Ramos Rosa: «No silêncio da terra. Onde ser é estar. / A sombra se inclina. / Habito / dentro da grande pedra de água e sol». É essa grande pedra de água e sol que tem de ser mais valorizada e protegida. Serra, barrocal, costa marítima – tudo se complementa pela extraordinária mata e pelos largos campos do fecundo regadio com o acolhedor odor tão especial dos pomares de citrinos e das vetustas oliveiras milenares. A alfarrobeira é talvez a mais generosa das árvores, que tudo dá, e tanto tempo foi esquecida. «A alfarrobeira, volumosa, possante e muito verde infiltra-se pelos corregos, anunciando a presença do Algarve típico em terras de montanha» (M.V. Guerreiro). As figueiras têm tal diversidade que nos levam sempre ao prazer redobrado de ter frutos deliciosos de junho a setembro – e depois ao usufruto divinal dos figos secos, invejáveis. Minha avó Ana tinha mãos mágicas para garantir que houvesse sempre figos sobre a mesa durante três meses. As amendoeiras, essas são tanto mais belas e capazes de produzir deliciosas amêndoas doces quanto mais frágeis. E não há uvas de prato mais doces do que as do Al-Gharb do Al-Andalus…Tudo é doce, como cantaram os poetas de Silves, quando o Arade era navegável e ali estava a Bagdad do ocidente – romãs, albricoques, damascos, ameixas, melões e melancias, tudo…

 

TERRA DE LENDAS E ENCANTOS
«Minha terra embalada pelas ondas, / Onde o amor tece lendas e onde as fadas / Em castelos de lua dançam rondas…». É Cândido Guerreiro, que já não conheci, mas de que me falava o avô Mateus, quem elogia esse país de mouras encantadas, com amendoeiras em flor, em fevereiro, que mimam a brancura da neve e revelam os mistérios inesgotáveis da história moçárabe ou da cooperação entre judeus, cristãos e muçulmanos – de que me fala, com conhecimento de causa e entusiasmo (mas preocupação), Adel Sidarus. Aqui o Mediterrâneo tornava-se Atlântico, os fenícios cruzavam-se com os normandos. E os povos misteriosos do Sul, do Sol e do Sal ainda se estão por descobrir, entre vilas romanas e colónias gregas, entre cónios e tartéssios e uma escrita de poetas e comerciantes ainda por desvendar. Há quase tudo por descobrir, o Algarve é finisterra de finisterra, culminando no promontório sagrado, por isso o Infante D. Henrique veio em busca dos descendentes dos marinhos, que não tinham medo das águas e acolheram Ulisses, vindo de Troia em busca de Ítaca. Aqui se plantou a cana-de-açúcar, aqui se capturou o atum, como nas arenas do sacrifício do mar Egeu, aqui se repetiram pescarias milagrosas da sardinha e se desenvolveu a indústria conserveira… Em Querença, homenageou-se a Literatura, sob o espírito protetor do Professor Manuel Viegas Guerreiro e da sua Fundação. O Festival Literário de Querença (FLIQ) enalteceu a Palavra «em todas as suas formas – dita, lembrada, escrita, cantada, subvertida, dançada, repetida, encenada, discutida… e os seus protagonistas» - no dizer de Luís Guerreiro, que está de parabéns e merece um especial aceno em nome da arte, da educação e da cultura… E pudemos ouvir Casimiro Brito em «Arte da Representação»: «Amar é aspirar as forças generosas que me rodeiam, o sol e os lumes, as fontes ubérrimas que vêm do fundo e do alto, água e ar, e derramá-las no corpo irmão, no cadinho que tudo guarda e transforma para que nada se perca e haja um equilíbrio perfeito entre o mesmo e o outro que tu iluminas». E não esqueço ainda a homenagem recente do Município de Loulé a Lídia Jorge, com a presença do Presidente da República, que constitui mais do que um reconhecimento pessoal – é o elogio da cultura, da educação e das humanidades, num sentido amplo, a que a autora de «O Dia dos Prodígios» tem dedicado a vida inteira.

 

UM ETNÓGRAFO DE EXCEÇÃO
Manuel Viegas Guerreiro, com quem tive o gosto de falar longamente, como mestre dos mestres, discreto, sábio, memória viva da Etnografia, discípulo dileto de José Leite de Vasconcelos e de Orlando Ribeiro, deve ter aqui uma referência especial, sobretudo para quem deseja que o Algarve Cultural entre mais na ordem do dia. Lembro-o como se fosse hoje e nunca o esquecerei. «A cultura é só uma, tudo o que aprendemos do nascer ao morrer, da nossa invenção ou alheia, sentados nos bancos da escola ou da vida». Recordo, por isso, a sua descrição colorida de uma peregrinação científica a Monchique. E poderíamos também lembrar o extraordinário «Uma Excursão à Serra do Algarve» (C.M. Loulé, 2ª edição, 1991), onde invoca o sobreiral das umbrias que «não move uma folha. Nem homens, nem aves, nenhum indício de vida animal. Um silêncio absoluto de sonho e mistério. Quase me parece sacrilégio misturar palavras ao divino sossego da Natureza»… Mas ouçamo-lo então, no Livro de Homenagem a Orlando Ribeiro (volume I, 1984): «Alugados na vila dois burros e um guia, abalámos para a Foia. Os burros e o moço ora atrás ora adiante de nós a pé, o mestre (Orlando) fazendo matéria de tudo quanto via, dos acidentes do terreno aos modos de vida e formas de povoamento. Do cimo da Foia pelo Barranco dos Pisões até à estrada principal. E de casa em casa, de moinho em moinho, nos foram enchendo de viático e sobretudo de aguardente, da sua aguardente sempre a melhor, ritualmente obrigatória, que nos ia tomando o corpo. E os burros adiante e os burros atrás, e nós sempre a pé até Monchique. Alongavam-se as sombras da tarde e mesmo assim, o corpo cansado, nos metemos a caminho das Caldas, por trilhos e corta-mato, da Picota à pensão do Fernando, onde chegámos à meia-noite, depois de penosas horas de marcha, em que até nos perdemos, mais mortos que vivos, mas não tanto que nos não regalássemos com uma soberba refeição. Trabalho de campo e trabalhos de campo foi o que nesse dia tivemos». Estou a ver o quadro todo: os burros e as cangalhas, quantas correrias neles fiz…, o moço distraído do cansaço dos mestres, a subida íngreme da serra, os caminhos e os trilhos irregulares, e depois a soberba canja de galinha pica no chão e o arroz de cabidela e, por fim, os lençóis de linho gelados e uma manta de papa para aquecer… Era assim a Etnografia e a Geografia na prática. E era assim essa relação de Viegas Guerreiro e de Orlando Ribeiro à cata do Algarve profundo. E, quanto a Orlando, «era um regalo vê-lo conviver com o povo, com o “bonito modo” que este tanto aprecia. Aonde quer que se demorava, deixava saborosa lembrança. Fomos um dia ao mar, à pesca da sardinha, ao largo de Portimão, e foi o bastante para nunca mais ser esquecido pelo mestre José Estêvão, que levou anos a perguntar-me pelo Doutor Orlando».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

  

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Pensossinto que a minha atração pela poesia de Saint-John Perse, despertada nos anos 1971-2, em Paris, se ficou de início a dever a vários fatores circunstanciais, alguns muito subjetivos: por exemplo, o ter sabido que o apartamento parisiense donde os nazis levaram todos os documentos e escritos pessoais do poeta, em 1940, depois dele se ter escapado para Inglaterra, donde seguiria para o seu exílio nos EUA, se situava na rua de Camoens. Curiosamente, Alexis Leger, patriota francês, não se considerava, apesar de ter acabado os seus dias no Midi que tanto amou, um homem do Mediterrâneo, menos ainda da cultura greco-latina. A sua pátria do coração era o Atlântico, e o mar oceano percorre infinitas páginas da sua obra, e da sua vida... Ele mesmo diz, a abrir o seu Amers (Amargos...), no Et vous, Mers (E vós, Mares...), publicado em 1957:

E vós, Mares, que ledes em sonhos mais vastos, ireis quedar-vos à noite nas tribunas da Cidade, entre a pedra pública e as parras de bronze? / Mais larga, ó multidão, a nossa audiência sobre essa vertente de uma idade sem declínio: o Mar, imenso e verde como uma alvorada a oriente dos homens, / o Mar em festa sobre os degraus como ode de pedra: vigília e festa às nossas fronteiras, murmúrio e festa à altura de homens - o Mar ele mesmo nossa vigília, como promulgação divina...

 

Por mim, nada mais tenho a dizer-te, senão que a invocação do Mar é, em Saint-John Perse, metáfora do cabimento infinito do homem...

Mas trago-te outro poema:

 

                                Cantado pela que lá esteve

 

               Amor, ó meu amor, imensa foi a noite, imensa

                 a nossa vigília onde tanto foi ser consumido.

               Mulher vos sou, e de grande sentido, nas trevas

                 do coração de homem.

               A noite de Verão alumia-se nas nossas persianas cerradas; a uva

                 tinta azulece nos campos; a alcaparreira da beira

                 das estradas mostra o rosado da sua carne; e o cheiro

                 do dia desperta nas vossas árvores resinosas.

 

               Mulher vos sou, ó meu amor, nos silêncios

                 do coração de homem.

               A terra, ao despertar, é só estremecimento de insetos

                 sob as folhas: agulhas e dardos debaixo das folhas todas...

               E eu escuto, ó meu amor, as coisas todas a correrem

                 para os seus fins. A corujinha de Palas faz-se ouvir

                 no cipreste; Ceres com mãos ternas nos abre

                 os frutos da romãzeira e as nozes de Quercy; a toupeira

                 branca constrói o ninho nas faxinas de uma árvore grande;

                 e os grilos peregrinos roem o chão até ao túmulo

                 de Abraão.

 

               Mulher vos sou, e em grande sonho, e em todo o espaço

                 do coração de homem:

               moradia aberta ao eterno, tenda erguida à vossa porta,

                 e boas vindas dadas em redor a todas as promessas

                 de maravilhas.

               Os atrelados do céu descem as colinas; os caçadores

                 de bodes quebraram as nossas cercas; e sobre a areia

                 da alameda ouço gritar os eixos de ouro

                 do deus que passa a nossa cancela... Ó meu amor de tão

                 grande sonho, quantos ofícios se celebraram no limiar das nossas

                 portas, quantos pés descalços correndo sobre as nossas lajes

                 e sobre as nossas telhas!...

 

               Grandes reis deitados nos vossos estojos de madeira,

                 eis aqui a nossa oferenda aos vossos manes rebeldes:

               refluxo da vida em todas as fossas, homens de pé sobre

                 todas as lajes, e a vida retomando todas as coisas debaixo

                 das suas asas!

               Os vossos povos dizimados tiram-se do nada; as vossas rainhas

                 apunhaladas fazem-se rolas de trovoada; na Suábia

                 estiveram os últimos cavaleiros teutónicos; e os homens de violência

                 calçam esporas para as conquistas da ciência.

                 Aos panfletos da história se junta a abelha do deserto,

                 e as solidões do Leste povoam-se de lendas...

                 A Morte com máscara de alvaiade lava as mãos nas nossas fontes.

 

               Mulher vos sou, ó meu amor, em todas as festas de

                memória. Escuta, escuta, ó meu amor,

               como soa um grande amor no refluxo da vida.

                 Todas as coisas correm para a vida como correios de império.

               As filhas de viúva na cidade penteiam as pálpebras;

                 as bestas brancas do Cáucaso são pagas em dinares;

                 os velhos artesãos de laca da China têm as mãos rubras sobre

                 os seus juncos de madeira preta; e as grandes barcas da

                 Holanda rescendem a cravinho. Levai, levai, ó

                 cameleiros, as vossas lãs de alto preço aos bairros de

                 pisoeiros. E eis chegado o tempo dos grandes sismos

                 do Ocidente, quando as igrejas, com os pórticos

                 todos a escancarem-se sobre os largos e todos os retábulos

                 se incendiando em fundo de coral vermelho, queimam os seus círios

                 do Oriente na cara do mundo... Para as Grandes Índias

                 do Oeste partem os homens de aventura.

 

               Ó meu amor do sonho maior, meu coração aberto

                  ao eterno, abrindo-se a vossa alma ao império,

                  assim todas as coisas fora do sonho, todas as coisas

                  pelo mundo nos encham de graça pelo caminho!

               A Morte com máscara de alvaiade mostra-se nas festas

                 dos Negros, a Morte em vestido de farinha teria trocado

                 de dialeto?... Ah! todas as coisas de memória,

                 ah! todas as coisas que soubemos, e todas as coisas

                 que fomos, tudo o que fora do sonho congrega

                 o tempo de uma noite de homem, que disso seja feito antes

                 do dia pilhagem e festa e fogo de brasa para a cinza

                 da noite! - mas o leite que de manhã um cavaleiro

                 tártaro tira do flanco da sua besta, é nos vossos lábios, ó meu

                 amor, que dele guardo memória.

 

   Foi este poema publicado, pela primeira vez, na NRF de 1 de Janeiro de 1969, mas só o conheci em 1972, e não acabei então a tradução que começara, mas hoje termino, para meu conforto. Alguns de nós, talvez todos, têm, cada um, a sua mitologia própria. A de Saint-John Perse terá raízes talvez mais célticas do que greco-latinas, mas o poeta foi construindo-a por dentro, como um sonho que abraça o mundo inteiro, e incansavelmente vai renovando na terra a vida dos homens. Esta, tal como a memória e a história, é sempre telúrica.

 

   Antes e durante qualquer tradução, vou lendo e relendo, vou comendo palavras, digerindo um texto. Comungo-o. Assim me desperto, no silêncio do coração de homem, entre memórias antigas, sentimentos guardados no escuro. Namorando este canto da que esteve lá, esta Cantiga de Amigo, fui acordando lembranças do Cântico dos Cânticos, esse eco bíblico de antiquíssimos hinos nupciais:

 

Vem, ó meu amor, / vamos para o campo! / Passaremos a noite nas aldeias, / iremos à vinha de manhã. / Veremos se a videira tem rebentos, / se as parreiras florescem, / se estão em flor as romãzeiras. / Então te farei dom de meus amores. / As mandrágoras exalam seu perfume, / à nossa porta estão os melhores frutos. / Novos ou velhos, /  para ti os guardei, ó meu amor!

 

   Quiçá Saint-John Perse tenha cantado a fidelidade do amor na infinita criação da terra... Poderia certamente ter subscrito ainda estoutra estrofe da bem-amada, no Cântico dos Cânticos:

 

Pousa-me como um selo sobre o teu coração, / como um selo no teu braço. / Porque o amor é forte como a Morte, / a paixão inflexível como o Shéol. / Tem feições que são feições de fogo, / como labareda de Yahvé. / As grandes águas não poderão apagar o amor, / nem submergi-lo os rios. / Quem oferecesse todas as riquezas da sua casa / para comprar o amor, / só desprezo recolheria.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Palácio do Freixo

 

O Palácio do Freixo

 

O palácio do Freixo fica junto ao rio Douro, na Campanhã, no Porto e é um exemplo invulgar do barroco civil. Construído em granito e alvenaria rebocada a branco, o palácio afirma Nicolau Nasoni (1691-1773) como um arquitecto singular no universo português.

 

Segundo se pensa, o palácio foi erguido em meados do séc. XVIII, por ordem do deão da Sé, D. Jerónimo de Távora e Noronha e a obra foi encomendada a Nicolau Nasoni (mestre de origem toscana, radicado no Porto em 1717). A propriedade pertenceu à família Távora e Noronha até ao séc. XIX. Consecutivamente, passou a pertencer aos Viscondes de Azurara, que venderam o palácio, por volta de 1850, a António Afonso Velado – rico comerciante do Porto, enriquecido no Brasil e feito Visconde do Freixo, pelo rei D. Luís I. Afonso Velado estabeleceu residência no palácio, reformou algumas partes a seu bel-prazer (sobretudo interiores onde mandou fazer um salão chinês e um salão árabe ao gosto da época) e também ergueu contiguamente uma fábrica de sabão. Ainda no séc. XIX, um novo proprietário, o alemão Gustavo Nicolau Alexandre Petres, converteu a fábrica de sabão numa destilaria de cereais, destruída por um incêndio. De seguida, a propriedade foi retalhada em lotes e foi adquirida pela Companhia de Moagens Harmonia. Em 1910, o palácio foi classificado como Monumento Nacional. Mas acabou por cair em decadência e ficou muito tempo a servir de armazém. 

 

Em 1986, o palácio e a envolvente foram adquiridos pela Câmara Municipal do Porto. Só recentemente foi restituído ao seu aspecto inicial – o palácio foi cedido, em 2009, pela Câmara Municipal do Porto ao Grupo Pestana para a instalação de uma pousada.

 

Em meados do séc. XVIII, a arquitectura barroca portuguesa movia-se entre dois extremos: o italianismo clássico e calmo das superfícies lisas de alvenaria, rebocadas e pintadas do centro e sul do país e o barroco inventivo, formalmente ilimitado e anticlássico do granito do norte.

 

É o barroco do Norte que mais corresponde ao gosto cosmopolita manifesto durante o reinado de D. João V (1707-1750) e que acabará, mais tarde por introduzir o rococó. Durante o reinado de D. João V, sentiu-se a revitalização artística do país – coincidiu com a descoberta de ouro nas Minas Gerais, no Brasil. O rei apoiou muitas construções, não só religiosas como também civis; encomendou livros, tratados, desenhos e mesmo a decoração de capelas inteiras e convidou para virem trabalhar para Portugal vários artistas italianos, franceses e alemães. Assim, durante este reinado o barroco português passou a ser uma amálgama de elementos nacionais e de influências internacionais.

 

O palácio do Freixo resulta exactamente desta mudança de gosto no contexto do barroco português. E é erguido utilizando um vocabulário que combina influências portuguesas de uma arquitectura mais sóbria e austera (o designado Barroco Severo) com elementos de maior intensidade formal, características de um barroco italiano contemporâneo trazido sobretudo por Nicolau Nasoni.

 

No norte do país, Nicolau Nasoni foi o arquitecto mais influente, porque conseguiu conjugar, de uma maneira muito invulgar, o Barroco italiano e o gosto português – para além disso as suas obras conseguem adaptar-se bem aos terrenos a construir (geralmente em declive) e ao material característico da zona (o granito).

 

Os jardins em socalcos; o exagero das formas e dos volumes; os frontões interrompidos e invertidos; o trabalho vigoroso de desenho da pedra; a compleição do todo; o preenchimento dos vazios e a multiplicação das superfícies fazem parte do léxico utilizado por Nasoni ao conceber as suas obras – a galilé da Sé do Porto (1736), a fachada do Bom Jesus de Matosinhos (1743-1748), a fachada da Misericórdia do Porto (1749-1750) – e o Palácio do Freixo não é excepção. Pode afirmar-se que a sua obra mais emblemática é a Igreja e Torre dos Clérigos (1731-1763), que se destaca pela originalidade da implantação urbana, do trabalho da pedra e da distribuição do programa em planta.

 

Sendo assim, o Palácio do Freixo encontra-se na base de um acentuado declive. Tem uma planta rectangular, com os quatro cantos enfatizados por torreões ligeiramente salientes com telhados em pirâmide. Aparenta ser monumental pela riqueza da composição na fachada. As quatro fachadas são referenciadas pelos quatro pontos cardeais. A alvenaria caiada alterna com zonas de cantaria lavrada (molduras, frisos, ornatos esculpidos e frontões) que receberam tratamentos diferenciados, sem contudo se perder a unidade do conjunto.

 

O lado norte, contrária ao rio, não possui escadaria e os torreões não se destacam muito do plano da fachada. Foi o que mais se alterou pelas reformas introduzidas do séc. XIX.

 

A fachada sul apresenta dois andares e meio e abre-se para um terraço que está directamente sobre o rio, rodeado por uma balaustrada e uma fonte ao centro. O primeiro andar, o andar nobre, ostenta três balcões de balaústres. Do balcão central desce até ao terraço uma escada de dois lanços divergentes.

 

A fachada oeste mostra também dois pisos e as janelas possuem nichos chanfrados. A janela central é profusamente decorada com festões e volutas. Abre-se para outro terraço, rodeado por muros altos de remate ondulante.

 

A fachada este é a mais aparatosa e elegante, tendo, segundo se pensa, servido de fachada principal. Os torreões são salientes e definem uma zona central que recua e que se abre para uma escadaria dupla, que se ergue sobre um arco central e que apresenta dois lanços convergentes. O plano da fachada que recua termina com um poderoso frontão curvo, quebrado, decorado com motivos de heráldica (brasão) e motivos naturalistas (festões e grinaldas).

 

É de sublinhar que na concepção da escultura do palácio Nasoni inspirou-se em elementos aquáticos, muito característicos do barroco – algas, peixes, vieiras, líquenes e golfinhos (símbolo da família Távora e Noronha). 

 

O interior do palácio é extremamente rico – com frescos relativos a temas alegóricos e tectos decorados em estuque de matiz exótico e oriental – e os espaços que mais se destacam são: uma pequena capela coberta por uma cúpula; o salão nobre com as paredes cobertas por pinturas, espelhos e ornatos exóticos, e ainda a sala de refeições.

 

Ana Ruepp

 

 

UM ESTRANHO ENIGMA - capítulo VIII

 

 

 

Recapitulemos: Duas morenas, gémeas, um jovem de skate, seu nome: Jaime. Não se lhe sabe o apelido. É um Jaime. Qualquer um. Pobre. Vive num Bairro – no Bairro, lugar indemonstrável, impraticável. Que Bairro? No meio disto tudo, personagens: uma das morenas gémeas, heroinómana. A outra, polícia? Para além de Jaime, personagens de circunstância: Fulgêncio Lima, inspetor; Mamã Rosa, dona do lugarejo – cubículo onde Jaime mora -; Kalu e Nélson, amigos ou conhecidos de Jaime, o último daqueles envolvido com a irmã polícia da morena defunta, da que morreu – ou não morreu – de overdose. E há a mulher alta, aquela que viu Jaime circundando o prédio onde morava a heroinómana-gémea e que se chama Palmira, também ela da PJ («Santos! Diga à agente Palmira que chegue aqui!»), disse o inspetor Lima aquando do interrogatório a Jaime, já aqui suspeito de ter ateado fogo ao prédio onde morava a primeira das gémeas. Tudo somado: Jaime ou é culpado ou é inocente, mas para efeitos de irrealismo total, diremos que nada do que tu, leitor, estás lendo aqui se passou exatamente assim. Na verdade, a questão fundamental não é saber por que razão se ateou fogo ao prédio da dita gémea, nem saber - como sabemos agora - que ela sobreviveu. Jaime, apesar de ter (ingenuamente, diga-se) lançado chamas ao prédio depois de a ter visto quase morta no chão do apartamento, fez o que mandam os manuais: apagar todas as provas que o pudessem colocar no tempo e espaço impróprios para um crime do próprio. Jaime não queria que o associassem a essa que, morta, lhe reaparecia, de coxa grossa e apetecível, nos braços do Nelson. A questão, caro leitor, é perceber – entender, escrutinar, analisar, escalpelizar – um facto que terá passado desapercebido a quem, neste emaranhado policial, não associou a t-shirt de Jaime ao fogo. Light my fire, toda a gente sabe disso, é música dos Doors, do seu primeiro álbum, de 1967, Verão do amor. Vietname, sangue, contestação às políticas de Johnson, operação «Rolling Thunder», bombas incendiárias nos campos de arroz vietnamitas; De Gaulle apupado em França; por cá, que portugueses somos, lá se disse «Para Angola, depressa e em força!», nas fracas e assobiadas palavras de chefe Sal e Azar. E é essa a questão: Jaime era, no Bairro, conhecido por ter, na sua família, casos estranhos, Gente fascinada pelo fogo, qualquer fogo. Light my fire, letra de Robbie Krieger, o guitarrista de flamenco da banda de Morrison, tinha escrito a letra. Também ele se viu envolvido num caso assim, similar ao de Jaime, em 1969, por ocasião da ida da banda ao Wiskey-a-go-go, bar de São Francisco, para uma última atuação. O facto foi simples: Krieger, procurando quem pudesse dar-lhe a dose exata para poder fazer o solo de guitarra a par das teclas de Manzareck naqueles imensos minutos de orquestração musical, tinha ido ao apartamento onde morava Tzela Curtis. Uma escultural preta, fêmea, de coxa definida, roupas coladas ao corpo alongado e leve, mas robusto e feito para recessos de amor e sexo à maneira holyywoodesca. Tzela aperta-lhe o garrote, as veias verdes vibram, o pó entrava e Krieger, enlevado, tocou como nunca nessa noite quente de 1969, mesmo de esgotado de tanta saliva gasta, em jeito de agradecimento a Tzela, percorridos que foram seios e púbis, axilas, coxa e braços, pés e seios e púbis, de falo mais cego que ereto. Jaime sabia dessa história. Light my fire. Naquele dia, que razão profunda tinha movido Jaime a ir ter com essa morena? Aquela morena que escapou por pouco de morrer de overdose? A envolvente imaginação de Jaime, jovem romântico, conhecido no Bairro por ouvir Doors e imitar a voz de Morrison e saber tudo sobre Krieger, Manzareck e Densmore, para além do ícone, o poeta James Douglas. Ele mesmo, Jaime, não desprezava o ter um nome iniciado pela letra J. Assim tinha conquistado algumas brancas granfinas das avenidas novas, algumas cabo-verdianas de usufruto fácil, entre morna e chorinho, assim teria de conquistar Elisa – o nome da gémea – essa afamada morena de veias verdes salientes e que, aos olhos de Jaime, trazia qualquer coisa do Summer of Love. Naquele dia, como tinha sido combinado, Jaime foi ter com Elisa (Elisa, língua de fogo, diziam lá no Bairro), ouvindo na sua banda sonora interior não só Light my fire, mas Strange Days. Strange Day, esse para Jaime. Tocou no apartamento de Elisa. Entrou. Recapitulemos: Jaime pisou sangue, as solas ficaram molhadas de morte, continuou a avançar. A morena igual às outras, que o levara misteriosamente até ali, estava à sua frente, a cara aberta num sorriso celestial, como se o universo fosse uma grande piada cujo final ainda está para soltar um Big Bang, então fungou, puxou as calças, olhou para as solas, olhou para ela, observando a estranha calma de um morto. Como é que um morto pode estar calmo, numa situação daquelas? Uma pessoa perde a vida e exibe placidez, até esboça um sorriso, que ofensa para os vivos, nós temos de ser ansiosos, sem isso não fazemos piruetas nem parafusos nem trepamos paredes, e ali estava ela com cara de quem não tinha acontecido nada de especial. Trocaram palavras duas ou três vezes, Jaime e ela, olhares também, mas nada mais do que isso, havia morenas mais bonitas e, perdoando a redundância, mais vivas. E agora pensava que a sola dos sapatos, as suas pegadas o incriminavam, que qualquer detetive seguiria aquele trilho. Um trilho de fogo: não, Elisa não era uma morena normal. Se havia morenas mais bonitas – vivas, claro, porque Jaime, olhando-a, entendeu que ela era já figura jazente no momento em que, no chão da casa, tinha, semi-nua, dado o caldo com que iria encarnar a persona de Tzela Curtis – o certo é que nenhuma, mas nenhuma, tinha aquela fama: «língua de fogo». E «fogo» é a palavra exata, a palavra densa, a palavra extrema para sabermos o porquê profundo de Jaime estar onde não devia estar. Poema de O’Neill («estou onde não devia estar») e cujo o verso lhe rebentava agora na cabeça, misturado com o refrão de Morrison: Come on baby light my fire. Esse o problema: Jaime sabia de Doors, tinha lido, aqui e ali, alguma poesia, estava onde não deveria estar. Mas o fogo – sempre o fogo – conduzia-o e Elisa, a negra, tinha-o conduzido. Guerra interior, romantismo, ingenuidade, Vietname e tudo somado: recapitulemos.

 

 

UM ESTRANHO ENIGMA | Folhetim de Verão CNC 2016

Ilustração © Nuno Saraiva [Direitos reservados] 

 

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A FÚRIA DO TEMPO (páginas 39 e 40)

 


A saudade também é um sítio

por onde se caminha

indomável época da idade dos dias

que se esquiva na alma

revivendo míticas lembranças

desordenando

as próprias lágrimas

 

Quizá nos quedamos fijados en un pensamento

pensaándolo para sempre. Puede ser que la eternidade no

sea outra cosa.
R.JUARROZ

 

(…)

É igualmente uma viagem de vida aceitar

a ausência se dela depende mundo-vista.É extrair de urgentes apelos o saciar

Quando e se o céu responder.     

                       

 

O tempo não corre depressa quando o observamos.

Talvez haja mesmo dois tempos, o que observamos

e o que nos transforma.

ALBERT CAMUS

 

  

Teresa Bracinha Vieira

(in "A FÚRIA DO TEMPO ", 1ª ed. Dinalivro 2003)

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 


Minha Princesa de mim:
 

   A um questionário sobre as razões de escrever, à pergunta «Porque é que escreve?», Saint-John Perse respondia em 1955: «Para viver melhor». Qualquer poeta saberá que aí está tudo dito. Dei com esta confissão, dois ou três anos depois, mal conhecia a figura do brilhante diplomata Marie-René Alexis Saint-Leger Leger, nascido na Guadalupe, em 1887, numa família de nobreza francesa, que ali se fixara havia dois séculos, e que regressaria definitivamente a França, doze anos depois desse nascimento do futuro embaixador de França e prémio Nobel de literatura, com o pseudónimo de Saint-John Perse. Ao jovem que eu então era, tal palavra gravou-se no coração: já então me entretinha a escrever para revistas e jornais vários, sem outra razão para além do gosto de partilhar, este sendo, quiçá, a melhor maneira de viver, porque se convive.

   Na altura, porém, lia Claudel com alguma frequência, encontrava um ou outro livro seu sobre as mesinhas junto às poltronas em que minha Mãe, aficionada, ia relendo o poeta católico. Só quase duas décadas mais tarde, quando andava por Paris, onde ia como delegado de Portugal ao Comité de Indústria da OCDE, descobri mesmo Saint-John Perse, por poemas seus publicados na Nouvelle Revue Française (NRF) da Gallimard, e sobretudo quando esta editora publicou a sua obra completa em La Pléiade, volume que adquiri em dezembro de 1972, ano da sua edição, e ainda hoje conservo. Foi aí que soube também da amizade de uma vida entre os dois diplomatas e escritores, através da correspondência trocada. Talvez pela morte prematura de seu Pai, em 1907 - tinha o poeta 20 anos - Alexis Leger, que conhecera Claudel em 1905, foi-se correspondendo com o seu sénior, que o orientou para a carreira diplomática e sempre lhe foi levando (até em cartas da China!) conselhos e uma companhia fidedigna e amiga. Só não conseguiu fazer do júnior um católico convicto, ainda que o tentasse e tivesse mesmo concitado a admiração do jovem por alguns dos seus hinos religiosos: Li na NRF os três «Hinos» em que rezais. Ousaria falar-vos de admiração, dizer-vos, sem qualidades para tanto, a emoção e o voto, o anonimato no meio do qual cedemos: ao esplendor imóvel, no vosso São Paulo; ao peso, no vosso São Pedro; e no outro, o São Tiago, à sublime extremidade lógica? - assim escreve Alexis Leger, numa carta a Claudel, cônsul em Praga, datada de 15 de fevereiro de 1910, tinha o jovem 22 anos... Para teres uma ideia da força de tais hinos, traduzo-te os versos iniciais do São Paulo, aliás patrono onomástico de Claudel: Cordeiro de Deus que prometestes o Vosso reino aos violentos, / Recolhei o Vosso servidor Paulo que Vos traz dez talentos, / Cinco que Vós lhe confiastes e os outros que ele ganhou por si mesmo. / Sois um senhor cioso, austero para quem Vos ama, / Dai-lhe todavia o seu Deus, porque ele não Vos deu apenas metade do seu pobre coração! / Pai Abraão, estancai a sede deste fulminado!

   Noutras cartas, Princesa de mim, voltarei a Claudel e Saint-John Perse. Por hoje, quero só referir-te que, há poucos dias, arrumando e destruindo papéis velhos, dei com uma tradução, escrita em Paris, em papel timbrado da OCDE, que fiz dum poema do Saint-John Perse, publicado na NRF, em setembro de 1971. Talvez por me ter seduzido uma linguagem poética nova para mim. Aqui te la deixo:                       

 

CANTO POR UM EQUINÓCIO

Trovejava naquela noite, e sobre a terra dos túmulos eu ouvia retumbar

essa resposta ao homem, que foi breve, e estrondo apenas.

 

Amigo, o aguaceiro do céu esteve connosco, a noite de Deus foi a nossa intempérie, e o amor, em todos os lugares, regressava às suas nascentes.
 

Sei, vi: a vida regressa às suas nascentes, o raio corisco recolhe as suas ferramentas nas pedreiras desertas, o pólen amarelo dos pinheiros junta-se nos cantos dos terraços, e a semente de Deus vai encontrar-se no mar com as toalhas malvas do plâncton.

Deus espargido encontra-se connosco na diversidade.
 

Ó Rei, Senhor do solo, olhai que neva, e o céu está sem choque, livre a terra de qualquer albarda: terra de Seth e de Saúl, de Che Huang-ti e de Cheops.
 

A voz dos homens está nos homens, a voz do bronze no bronze, e algures no mundo onde o céu não tinha voz e o século não se precavia
 

vem ao mundo uma criança de que ninguém conhece a raça nem a classe,

e o génio bate pancadas certas nos lóbulos de uma fronte pura.

 

Ó Terra, nossa Mãe, não vos preocupeis com essa raça: o século está pronto, o século é multidão, a vida segue o seu curso. Um canto em nós se ergue, que não conheceu a sua nascente nem terá estuário na morte: 

equinócio de uma hora entre a Terra e o homem.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

LONDON LETTERS

 

 

The 6th Duke of Westminster, 1951-2016

 

O senhor gosta de a good military joke, ama o azul oceano e estima a música dos Fleetwood Mac pela wonderful solitude que lhe sugerem em Albatross. Mais do que a fotografia unidimensional do homem rico,

no caso: um multibilionário dono de metade das terras em London ou em Oxford, nos anais fica sobretudo como um dos curadores restantes da green and pleasant land. His Grace The 6th Duke of Westminster, Gerald Cavendish Grosvenor, KG, CB, OBE, TD, CD, DL, parte aos 64 anos em dia elisino na palatina Lancashire. — Chérie! L'envie s'attache à la gloire! Avaliada em +£9bn, a fortuna ducal passa para o filho mais novo Hugh Richard Louis em detrimento das irmãs. The Earl Grosvenor beneficia do medievo princípio da primogenitura que já nem ao trono se aplica. — Eek! Things sometimes change less than we think. O reino revela novas tendências, porém, quando as praias mediterrânicas criam a moda de banir o burkini e a corrida eleitoral à White House apavora com a notícia do NY Times sobre ligações financeiras entre a campanha de Mr Donald Trump e o Kremlin. A Church of England adere ao digital, com página oficial no Facebook e a partilha de eight apps for vicars. Também a University of Sheffield (Eng) inova no marketing educativo, propondo aos melhores estudantes que tirem a licenciatura e ganhem o mestrado grátis em South Yorkshire. Em Manchester, a English Fine Cottons revisita o engenho vitoriano, investe £5,8m na restauração de a 1853 cotton mill e exporta a preço justo lã humanamente manufaturada para Germany e Italy. Nos Rio 2016 Olympics Games é a glória para o Team GB.

 

 

Quiet brizzy at the South coastal cliffs. London anima em vésperas do lançamento do Night Tube, com as linhas centrais a circular durante as 24 horas, mais 2,000 postos permanentes de trabalho e previsto impulso de £360m na economia. O serviço facilita o quotidiano, em especial da avalanche que nestes serões ruma a West End para visionar em palco Harry Potter and The Cursed Child. Os bilhetes da peça atingem já as £8,300 no mercado negro, 60 vezes o valor oficial! Em contraponto, o Labour Party continua em queda cabalística. A três tempos, até. A ala de RH Jeremy Corbyn perde no High Court o direito a votar dos novos 350,000 militantes atraídos desde a sua eleição, há 11 meses; o rival RH Owen Smith diz contrariar alegados secretos planos governamentais para privatizar o NHS, de todos desconhecidos; e o poderoso Deputy Leader RH Tom Watson inflama o debate interno com denúncia de subversivo trotskyst entrysm nas fileiras. Para Summertime saga, convenha-se que o Lab script não vai mal. Mas também a campanha dos Ukippers se agita com ventilado regresso à liderança de RH Nigel Farage. O MEP tem novo visual, com vistoso bigode a guardar o habitual verbo incisivo. Admite tal hipótese, sim, em cenário de Downing Street incumprir nas negociações europeias. Embora distante de assumida intervenção para pôr ordem em desarranjada casa, o senhor é por muitos seriamente tomado como Comeback Kid. Afinal, três vezes se demite ‒ em 2009, 2015 e 2016 ‒ para logo depois reatar o leme nacionalista. Já a Prime Minister RH Theresa May está de férias, nos (non-EU) Swiss Alps e ignorando aludida turf war entre os HM Government Brexitters. Para continental ver, running the country, deixa o Foreign Secretary RH Boris Johnson aos comandos de Whitehall.

 

Os dias no reino são ainda dominados pela partida para a eternidade de um dos seus mais distintos aristocratas, o prodigiosamente rico terratenente de Chester (Engl) e Sixth Duke of Westminster. O desaparecimento de HG Gerald Cavendish Grosvenor recoloca discretas questões acerca da imobilidade social da upper class em Britain e da sua teologal rule by the best assistida pela iron law of inheritance. No caso, a linhagem recua à era do primeiro rei normando e rezam as crónicas que um dia questionado sobre qual a qualidade do empreendedor contemporâneo o lorde dá épica resposta: possuir ancestrais amigos de William The Conqueror (1028-87). A réplica é tão mais spicy quanto o brasão ducal com as rosas de York e Lancaster inscreve o mote Virtus Non Stemma! Recatado por ofício, pontua em eventos da Royal Family e atividades filantrópicas do North West. Dele sabia ser proprietário de paradisíacos nacos da Atlantis e do londrino Grosvenor Crescent - aquele que, com estátua do 1st Marquess of Westminster, Robert Grosvenor (1767-845), usualmente pontua em filmes de época do tipo Upstairs, Downstairs e nas séries envolvendo o Bloomsbury Set ou o Monsieur Hercule Poirot saído da pena de Dame Agatha Christie. Se das imagens ao longo dos anos fixo largo sorriso, que assemelho ao Cheshire Cat próprio da região onde ergue o seu majestoso Eaton Hall e que Mr Lewis Carrol faz surgir e sumir nas Alice's Adventures in Wonderland, das parcas palavras recordo um relutante lorde face a bem entendida sociedade banhada pela capitulação à humana invídia. Notórios são os laços à House of Windsor. O herdeiro Hugh é padrinho do Prince George e a mãe The Dowager Duchess é madrinha de William of Cambridge, tal qual a ida Princess Diana of Wales amadrinha a irmã Lady Edwina e seu testamentário é o falecido Duke enquanto o Prince Charles of Wales apadrinha o inicial Earl Grosvenor e ora Seventh Duke of Westminster.

 

Gerald Cavendish Grosvenor nasce na Northern Ireland e usa referir a idílica infância havida nas ilhas de Lough Erne (County Fermanagh). Recebe educação convencional para liderar, longe do lar e com trânsito por Sunningdale, Harrow e Sandhurst, recolhendo tarde o grau honorário de Doctor in Laws pela Keele University (Staffordshire). Militar chegado à patente de Major General no Queen's Own Yeomanry, nos dias do fim planeia ainda transformar o setecentista Stanford Hall num centro de reabilitação para as tropas. Arrecada sucessivamente os direitos e responsabilidades de Commander da Order of St John, Knight da Order of St John, Officer da Order of the British Empire, Knight da Order of the Garter, Companion da Order of The Bath e Commander da Royal Victorian Order É Grand Prior da Military and Hospitaller Order of St Lazarus of Jerusalem. Alia a vida castrense com os negócios familiares, o Grosvenor Estate onde é trustee e o Tory Party. Filho de político e criado como rural Esquire, só aos 15 anos se acha herdeiro da fortuna planetária. Casa com Lady Natalia Ayesha Phillips, descendente de militar e do poeta Alexander Pushkin, com quem gera Tamara, Edwina, Viola e Hugh. Demora a reencontrar-se e é assombrado pelo black dog de Sir Winston. Ainda assim, todos lhe apontam alto sense of duty. O império cresce enquanto cuida de posh areas como Oxford Street, Mayfair, Pimlico e Belgravia, adjacentes ao Buckingham Palace, além das extensas propriedades em Scotland e mesmo Castilla La Mancha. Abandona o Conservative Party, em 1993, por objeção de consciência à Bill on Leasehold Reform. Prossegue na curadoria e acentua a filantropia nos burgos e nos campos. Lega boa memoração. Para doce insight na vida deste charming country gentleman, há agora o Grosvenor Museum e os BBC Archives. A voz do Duke surge em edição dos Desert Island Discs (1995), com as suas beloved pieces of music já com a essencial passagem por “The Hebrew Slaves Chorus” na Nabucco de Signori Giuseppe Verdi. ― Farewell, His Grace.

 

 

Dalém Atlantic quase se ouvem os timbres de Vangelis em Chariots of Fire trazidos pelo vento. Swiming, rowing, cycling, running, jumping, sailing or riding, é a corrida ao ouro pelo Team GB. Os atletas britânicos somam 38 medalhas no fecho do first weekend no Rio. O triunfo nas provas é por cá sublinhado com as histórias individuais da fantástica jovem geração inspirada pelos 2012 London Olympics, solidamente escoltadas pela confirmação de tesouros nacionais como Mr Andy Murray no ténis de terra batida ou Mrs Katherine Grainger, a 40-year-old university chancellor, nas regatas de lagoa. A representação está de parabéns no todo, mesmo quando não sobe ao pódio. Compete na inteireza do citius, altius, fortius outrora sonhados pelo Baron Pierre de Coubertin para a disciplina nos desportos humanos. — Well! It should be noted those wise words of the worldly transience in The History of Henry VI by Master Will: Glory is like a circle in the water, / Which never ceaseth to enlarge itself, / Till by broad spreading it disperses to naught.

 

 

St James, 15th August 2016
Very sincerely yours,
V.

 

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 15 a 21 de agosto de 2016.

 

«Portugal e o Atlântico» de Bernardo Pires de Lima (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2016) trata do que o autor designa como um ressurgimento silencioso do Atlântico, capaz de recentrar a geopolítica do século XXI, aproveitando a posição geográfica de Portugal.

 

POLARIDADES DIFUSAS
Na lógica de um mundo caracterizado por um sistema de polaridades difusas, Portugal tem interesse e necessidade de encarar a multipolaridade como um fator de enriquecimento – para além das lógicas do predomínio absoluto do Pacífico, de ascensão da China e de declínio ocidental. A vocação euro-atlântica de Portugal é fundamental. Seremos tanto mais respeitados quanto mais formos ouvidos na Europa e soubermos diversificar a nossa situação no Atlântico e nas zonas do mundo onde a língua portuguesa tem influência. Como afirma Bernardo Pires de Lima: «um país como Portugal precisa de maximizar a sua posição geográfica, os seus recursos humanos, as suas relações externas e o seu potencial marítimo. Estes eixos farão um país pequeno mais forte no concerto europeu, enquanto espaço determinante na consolidação e na manutenção da democracia portuguesa. Farão de um país periférico na UE um ator central dotado de projeção política e estratégica no Atlântico. Farão de um país virado para a história atlântica e para o seu potencial presente e futuro um pivot geopolítico e económico, aliando relações culturais com África, América Latina e América do Norte às valências comerciais, energéticas, logísticas e securitárias que emergem na região». Trata-se de olhar um objetivo estratégico e não circunstancial, recusando confundir política externa e diplomacia económica, ou relações comerciais com prioridades políticas. Neste sentido, se é verdade que o complexo fenómeno do «Brexit» pode vir a enfraquecer a lógica Atlântica de Portugal, o certo é que é no plano político que a questão deve ser posta. Portugal não pode ficar indiferente em relação aos próximos passos da construção europeia e da consolidação de um espaço atlântico. O desafio fundamental é de índole política. Não é apenas um problema de caixeiros-viajantes ou de negócios de curto prazo. Bernardo Pires de Lima põe o dedo na ferida, devemos ponderar seriamente essa consideração, para que a mediocridade, a irrelevância e a periferia não prevaleçam na vida portuguesa!

 

DAS SANÇÕES AOS INCENTIVOS
Falou-se nas últimas semanas de hipotéticas sanções europeias aos países ibéricos por eventual violação de regras comunitárias sobre défices excessivos. Não há muito a acrescentar àquilo que o comissário europeu Carlos Moedas disse e sobre o bom senso que, apesar de tudo, prevaleceu sobre a matéria, ao menos momentaneamente num tema mais complexo do que à primeira vista possa parecer. E se digo mais complexo, tal deve-se à circunstância indiscutível de estarem em causa dois países – Portugal e Espanha – cujo balanço global no tocante à integração europeia é dos mais importantes e positivos. Porquê? Uma vez que foi evidente o valor acrescentado dessa adesão (longamente preparada, ao contrário doutros casos), do mesmo modo que se confirmou o que Lorenzo Natali sempre disse: quando os países ibéricos entrassem nas Comunidades, estas ficariam mais fortes e mais abertas… No entanto, esse era o tempo em que Jacques Delors insistia na coesão económica e social e na ligação entre as componentes monetária e económica na construção europeia. Infelizmente, depois foi prevalecendo uma lógica redutora, com sub-reptícia prevalência de um estranho discurso de divisão entre a Europa Central e do Norte e o depreciativamente designado de «Clube Med»… Ora, o compromisso que permitiu a construção do Euro foi inquinado por esse debate – chegando-se a um entendimento necessário em que o Sul e o Mediterrâneo ficaram subalternizados. Mas António Guterres e António Sousa Franco fizeram muito bem quando impediram uma subalternização que seria irremediável e teria consequências desastrosas. Politicamente foi fundamental optar por estar na locomotiva do comboio europeu. O projeto do Euro é, assim, ainda frágil (mas pode ser fortalecido) porque não integra, clara e inequivocamente, a lógica da coesão e a perspetiva da solidariedade económica. Eis por que razão este falso debate sobre as sanções só confirma a fraqueza da União Monetária, que ainda não é Económica.

 

POR UMA SOLIDARIEDADE POLÍTICA
Fique, pois, claro que debater sanções é um modo errado de ver o problema. Ou há incentivos e propostas positivas ou nada vale a pena. O que nem todos sabem quanto a sanções eventuais é um dado algo surpreendente. O excedente comercial alemão bateu há pouco um novo record. Os números de 2015 revelam, contrariando as recomendações específicas da União desde 2013 e o Tratado de Lisboa, que a Alemanha tem um superavide de 252 mil milhões de euros, acima dos 212 mil milhões de 2014. Ora, tal saldo constitui um risco macroeconómico para a moeda única que prejudica gravemente a competitividade de todo o espaço da União, pondo em causa, além do mais, a convergência social europeia, que tem sido subalternizada por quase todos… O limite considerado aceitável seria entre um défice de 4% e um excedente de 6% do PIB. Ora a Alemanha apresenta hoje um excedente de mais de quase 9%, tendendo a aumentar em 2016. Tem havido, assim, uma violação sistemática e reiterada de recomendações específicas – no sentido de agravar a estagnação económica europeia. Eis por que razão a escolha de bodes expiatórios na Península Ibérica é absurda e esquece inequivocamente os procedimentos por desequilíbrio macroeconómicos. Nos seis riscos previstos, a Alemanha encontra-se na categoria 3, que exige vigilância e ação decisiva… Em situação semelhante encontra-se, aliás, a Holanda. Num e noutro caso, as situações devem-se a escassez da procura e portanto à incapacidade revelada por um mercado interno, demasiado fechado e indutor de estagnação. Eis o ponto em que nos encontramos: há dificuldades que batem à porta de todos e que têm de ser devidamente ponderadas. Esta a razão pela qual as providências sobre défices excessivos dos países ibéricos não podem ser vistas com um ato de complacência. Estamos, sim, perante a necessidade de encarar os instrumentos de que a União Europeia dispõe, pondo-os ao serviço de uma reforma das instituições comuns – a qual visa superar a situação de enfermidade crónica que persiste perigosamente. Ninguém sabe qual o desfecho da saída do Reino Unido. Ainda muita água passará sob as pontes. Mas importa não cometer o erro crasso da indiferença ou da ilusão. Quando os britânicos fizerem, com o rigor a que nos habituaram, o cálculo dos custos e benefícios sobre a decisão que tomaram de abrir a Caixa de Pandora, só então poderemos vislumbrar o que irá passar-se. Até lá é prematuro tirar conclusões e não haverá adivinhos para revelarem o que lhes dizem as bolas de cristal. Uma coisa é certa – com ou sem Reino Unido, a União Europeia está muito frágil e sem soluções. A saída britânica desequilibra a frente atlântica e pode enfraquecer a componente ibérica. No entanto, será um erro muito grave continuar a discutir-se quem dos elos mais fracos vai ser apontado como malcomportado da classe, quando o que está realmente em causa é melhorar a prestação de toda a turma que está longe de corresponder ao que dela se exige!  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Transcrevo seguidamente um trecho do artigo de José Tolentino Mendonça no Jornal de Letras (6 a 19 de julho de 2016), acerca de Anunciações de Maria Teresa Horta, não para debater contigo o tema Iconoclastia e Mística (título do texto de JTM), menos ainda o «Romance» da poeta. Vou tão somente chamar a tua atenção para um pormenor, uma observação que servirá de pretexto à tese do autor do artigo (indiciada no próprio título escolhido), e que, a meu ver, ignora símbolos da iconografia cristã e da literatura bíblica, que eu gostaria de contrapor às Anunciações de MTH, não para as contestar, mas apenas para distinguir culturas. Aliás, a própria autora pressente a diferença, por exemplo, num poema da oitava estação do seu livro: 

 

   Num dia de calamento
   de onde a luz já fugia
   sem a olhar nos seus olhos
   ele contou a Maria: 
   - No princípio era o verbo
   onde o verbo se dizia...
   Sem perceber sua fala
   embora sempre entendesse
   o quanto ele lhe queria
   uma coisa ela sabia:
   No início eram as asas
   onde depois do amor
   estonteada se estendia.

 

   Mas vamos então ao texto de JTM. Reza assim o trecho que destaco:

 

   Contudo, o poema guarda um estratégico silêncio sobre aquele que é porventura o elemento mais intrigante (e menos consensual) na obra de Boticelli: a inesperada sombra que o corpo angelical possui e que se alonga dramaticamente sobre o pavimento, acompanhando a deslocação das mãos. Estamos perante uma natureza angélica que rompe com o cânone das representações, uma natureza não só não-privada de sombra, como seria de esperar, mas cuja sombra é mesmo o signo mais avançado, prolongando-se para lá do espaço onde o corpo se sustém. Um corpo angelical com sombra é, claramente, um corpo alterado, em metamorfose. E de que metamorfose se trata? Aquela que sabiamente, Maria Teresa Horta depois enunciará: "Fico a ver-te.../ ganhares o corpo físico / na perda do corpo místico". A sombra é uma grafia da carnalidade, estando comummente do lado dos corpos históricos e ausente dos espíritos puros.

 

   Parece-me, a mim, diferente o símbolo da sombra na Bíblia. Curiosamente, surge muitas vezes a sombra associada a asas: Quando no meu leito penso em Ti, / e ao longo das vigílias em Ti medito, / em Ti, que vieste socorrer-me, / rejubilo à sombra das tuas asas. / A minha alma encosta-se a Ti, / a tua mão direita me sustém... (Salmo 63, 7-9). Aquele que habita onde o Altíssimo se esconde / passa a noite à sombra do Deus Soberano […] Com suas asas te dá abrigo / e sob as suas penas te refugias... (Salmo 91, 1 e 4). Guarda-me como à menina dos olhos, / esconde-me na sombra das tuas asas (Salmo 17, 8).

 

   É certo que há, na Bíblia outro conceito distinto de sombra, onde se encontra a região da morte, mas a sombra trazida por Deus é benfazeja, sinal eficiente do oculto poder divino. Tal como, na narrativa de Lucas, o anjo Gabriel anuncia a Maria o Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra, por isso o ser santo que nascerá de ti será chamado Filho de Deus (Lucas 1, 35), assim também a sombra dos enviados de Deus tem poderes taumaturgos, como a sombra de Pedro nos Actos dos Apóstolos: ...a tal ponto, que até se transportavam doentes para a rua e ali os deixavam, em leitos ou em macas, para que, pelo menos, a sombra de Pedro, ao passar, cobrisse um deles (Actos 5, 15). E eis também que a extensão da mão ou do braço de Deus ou seu enviado significa o comando da realização da sua vontade. A um Moisés inquieto, Deus responde : «Será assim tão curta a mão do Senhor? Verás agora se a minha palavra para contigo se realiza ou não.» (Números 11, 13). O gesto da mão de Jesus comanda os elementos, chama e investe as pessoas, cura, perdoa, ressuscita, abençoa. A que o anjo dirige a Maria é a mão de Deus, que dá vida e transfigura. Aliás, é curioso atentar no conto da transfiguração, em qualquer dos evangelhos sinópticos: em todos se refere a nuvem que os cobre, a Pedro, João e Tiago, com a sua sombra, donde cai, retumbante, uma voz dizendo, de Jesus, este é o meu Filho, o eleito, escutai-o!  (Mateus 17, 5; Marcos 9, 7; Lucas 9, 35). Na versão de Marcos, diz-se que essa nuvem é luminosa. O Deus bíblico não é visível, faz ouvir a sua voz, esconde-se numa nuvem que é, simultaneamente, luz e sombra.

 

   Na Anunciação de Carlo Braccesco (circa 1480, no Louvre), o anjo vem voando sobre uma nuvem de luz e sombra, na de Fra Angélico (de 1430, no Prado), o anjo inclina-se frente à Virgem, e sobre ele passa, vindo do esplendor celeste, um raio de luz - onde se vê o Espírito Santo em forma de pomba - que atinge diretamente Maria. Nestas, Deus Pai, representado, ou não, desta ou daquela maneira, está sempre lá, indiciado pela luz e pela sombra. Esta será, portanto, "a grafia" da divindade.

 

   Vemos a sombra do anjo noutras pinturas, de outros autores: na Anunciação de Leonardo da Vinci (Galeria degli Uffizi, Florença); na de Lorenzo Lotto (Pinateca Comunale, Recanati); de Pinturicchio (Chiesa di Santa Maria Maggiore, Spello).

 

Em todas estas representações, a sombra do anjo se projeta para a Virgem Maria, e para ela aponta a mão direita do mensageiro celeste, a esquerda segurando um lírio, símbolo de castidade. O anjo e os seus atributos são os gestos da presença e do feito de Deus invisível. A sombra do anjo não é carnal, é, na iconografia cristã, sinal da presença de Deus, tal como, na Bíblia, os anjos são manifestações de Deus.

 

   A Anunciação de Caravaggio (1608-1610, Musée des Beaux Arts, Nancy) mostra-nos o anjo, pairando sobre a Virgem ajoelhada, em atitude de aceitação, na sombra que contrasta com a forte luz que bate nas costas de Gabriel e lhe percorre o braço direito e a mão que, apontada a Maria, transmite a vontade e o poder de Deus. Corresponde tal imagem ao que Tiago Voragino, na Legenda Aurea, escreve: «E o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra». Isto vem explicado na Glosa: «A sombra é produzida pela luz e por um corpo que se interpõe, e a Virgem, como qualquer ser humano natural, não podia absorver a plenitude da divindade, mas o poder do Altíssimo trará a sua sombra quando a luz incorpórea da divindade tomar nela o corpo da natureza humana para que ele assim possa receber Deus». Bernardo parece concordar com esta explicação quando diz: «Posto que Deus é Espírito, quando nós somos a sombra do seu corpo, adaptou-se a nós a fim de que possamos ver, por intermédio de uma carne viva, o Verbo na carne, o sol na nuvem, a luz na candeia, a cera no candelabro».

 

   A representação angélica de Boticelli enquadra-se, pois, nos cânones gerais conhecidos. Aliás, vê-se bem, a direção da própria sombra do anjo assim o indica, já que se projeta, não em função da luz do dia que está fora da porta aberta, mas sim, em sentido oposto, determinada pela luz do Altíssimo que vem de cima e de trás do enviado Gabriel. Boticelli, autor também do famoso Nascimento de Vénus, não leu, como JTM, o Anunciações de MTH. Limitou-se a pintar uma Anunciação, de acordo com o relato dos evangelhos sinópticos e servindo-se dos símbolos tradicionais da iconografia cristã. Pessoalmente, gosto muito deste conto bíblico, bem como da sua ilustração por Boticelli. Mas não creio que ele tenha que ver com as Anunciações de MTH.

 

   Estas falam-nos de outras experiências, em que, como diz JTM, do mistério de Deus só é inteligível o que puder ser declinado a partir do eros. E, atentando bem no que nos é dito, será então algo diferente. Porque parte de uma confusa contestação inicial, entre o que se lê num texto evangélico - que, aliás, se inscreve na tradição bíblica, vétero-testamentária, de que retoma passos e sumariza – e o desejo, a ansiedade, a reivindicação de alguém que o lê. A própria MTH referiu expressamente a figura autoritária de seu pai na origem da rebeldia dela contra qualquer autoridade ditadora, e ainda, à mistura, a figura de Maria como paradigmática da submissão feminina: Deixei de acreditar em Deus por causa de Maria, porque ela não tinha sido mãe porque queria... 

 

   Para mim - e escrevo-te, Princesa, como sempre, com liberdade e franqueza - nem o texto dos sinópticos que referem a anunciação a Maria, nem a sua pintura por Boticelli, foram feitos, tanto quanto toca aos seus autores, por qualquer motivo ou com qualquer intenção erótica. Isto de modo algum repudia a possibilidade de ser erótica a leitura de MTH, ou qualquer outra, diversa, de qualquer outro de nós. Tampouco contesto que o erotismo seja, ou possa ser, como afirma JTM, um caminho amplamente percorrido por exploradores do divino em todos os tempos, e em relação ao qual o próprio cristianismo tem um património considerável. E também já ouvi que um importante teólogo ortodoxo, Olivier Clément, deixou escrito que "o amor carnal permanece, juntamente com a beleza do mundo, um dos últimos caminhos do mistério"... Muitas vezes recordo a definição de Georges Bataille (L´érotisme c´est l´affirmation de la vie jusque dans la mort), tal como saboreio as palavras escolhidas com que MTH tão poeticamente exprime a vibração sensual do corpo e a tensão íntima da alma que o encontro erótico vai lavrando. É bonito o modo como ela diz o excesso e o pudor do êxtase.

 

   Mas - como, em entrevista ao JL, ela própria confessa - a minha [dela] Maria, ao contrário da figura da Igreja, é desobediente […] não assumi Maria, peguei nela e transformei-a um pouco numa feminista. E, à pergunta seguinte (Libertando-a dos dogmas?), responde: Sim, dou carta de alforria a Maria. Na verdade este livro tem a ver com feminismo e só uma feminista podia pegar na Maria com tanto amor. Ela é uma figura de uma beleza e uma coragem infinitas, uma mulher sexuada, determinada. Por isso terminará assim o post-scriptum do livro, a sua carta a Maria: «Faça-se em mim a vontade do Senhor» / - não disseste. E por isso Maria te imagino / te narro e adivinho, te invoco, reconheço / e finalmente te lavro, suponho e amanheço. Quadra tão lindamente dita e tão sincera!

 

   A Maria das Anunciações não é a Maria da Anunciação que os evangelhos e a iconografia cristã apresentam. Esta é figura que se firma na obediência como dom recíproco, fortaleza e graça. Mas não será por isso menos subversiva: seguindo o relato de Lucas 1,38 (Maria disse então: «Sou a serva do Senhor, cumpra-se a tua palavra!» E o anjo deixou-a), acompanhamos Maria na sua visita a Isabel que, ao vê-la, exclama: «Bendita és entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre! E como me é dado que venha a mim a mãe do meu Senhor? Pois , vê tu, assim que ouvi a tua saudação, o menino [João] estremeceu de alegria no meu seio... Sim, bem aventurada a que acreditou no cumprimento do que lhe foi dito pelo Senhor!» (Lucas 1, 42-45). Ficamos a saber que a obediência gerou a renovação do mundo. Como conta a resposta de Maria, o Magnificat. Reza assim: Maria disse então: «A minha alma exalta o Senhor e o meu espírito alegra-se em Deus meu salvador! Porque lançou os olhos sobre a pequenez da sua serva... Sim, doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Todo Poderoso fez por mim grandes coisas. Santo é o seu nome, e a sua misericórdia estende-se, de idade em idade, sobre aqueles que o temem. Estendeu a força do seu braço e dispersou os homens de coração soberbo. Derrubou os potentados dos seus tronos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias... (Lucas 1, 46-53). A obediência de Maria a Deus é o princípio da subversão do mundo.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira