Quinta-feira, 03.09.15

por Teresa Bracinha Vieira

 

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Inês,

Queria dizer-te que não chames a ti a cinemateca da memória pois que as guerras dos ressentimentos torvam ardilosamente tudo o que afinal já foi desapiedado e duro. Bem sei o quanto a primeira ilusão de doçura é posta em causa, e com que facilidade! Enfim, razões antigas, razões de queixa, também terás: debalde não te acodem agora, antes mostram-se como estrias fundas que te obrigam a uma espécie de hermenêutica da reconstituição do quanto estava em jogo.

 

Querida Inês,

De vários ângulos nos chegam aos olhos sítios infaustos: sentires em guerras. Até parece que se foi bem olhada antes da primeira escolha, para a qual, seguimos tão virgens, tão desvendamento. Depois, um cacimbo de vida, com chuva miúda e fria, e tu, persistente à expectativa não resolvida.

Queria tanto boa Inês, quis tanto, podes crer, levar-te, afoita, lá onde dormem as surpresas até que as toquemos. Lá onde ao conversar, os olhos vão e vêm e vêem. Falo-te daquele local, onde tudo tinha vida, como as esculturas que saem das mãos dos escultores e os deixam assustados com os seus poderes, ao vê-las. E dançavas tu, corpo-a-corpo com aquele que querias amar, como se o ritual de passagem fosse o princípio e a finalidade do teu tempo.

Na altura, perdeste-te, por teres aceitado o poder dele sobre ti: soubeste assim que o temias; soube assim que estavas em perigo. E eu de vestido cor de açafrão, muito sozinha, voei com alívio de uma família que não me faria volta, e eis que exposto já estava o xadrez que perdia por distracção, que era, essa sim, o grande silêncio onde toda a tempestade começa e acaba.

Vem. Estou quase a chegar à tua porta. Temos ambas que meditar nos segundos-asa das fotografias não tiradas no dia de hoje. Sabes tu que o âmbar engole insectos? Vem, desenhemos os sonhos para que, por surpresa, se não evaporem, para que o âmbar os não pressinta.

Tua amiga de sempre

Isadora

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Julho 2015

 

 



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Quarta-feira, 02.09.15

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NOTA BREVE SOBRE TEATROS UNIVERSITÁRIOS

Nesta série de evocações e análises do espetáculo teatral, é justo fazer uma referência, mesmo que breve, às iniciativas ligadas às Universidades. O movimento não é apenas dos nossos dias, muito embora se registe um desenvolvimento do interesse e sobretudo da estruturação de grupos universitários com continuidade, subordinados a uma  estética e a uma doutrina, chamemos-lhe assim, que se foi afirmando sobretudo a partir dos anos 30/40 do seculo passado, e teve momentos de grande projeção em épocas mais recentes, como veremos a seguir.

Num texto integrado nesta série de artigos (Atores, Encenadores - XXIII - “Três Mestres da Literatura Portuguesa que Foram Atores” - 12.05.15) referi o interesse de Eça de Queiroz pelo teatro, expresso designadamente em numerosos personagens e situações da obra romanesca, o que aliás contribuiu para as adaptações e versões dos romances à cena e ao cinema. E evoquei a própria experiência de Eça como ator enquanto cursava Direito:

“Comecei por me fazer ator do Teatro Académico. Era pai nobre. E durante três anos, como pai nobre, ora grave, opulento, de suíças grisalhas, ora aldeão trémulo, apoiado no meu cajado, eu representei, entre as palmas ardentes dos Académicos, toda a sorte de comédias e dramas - tudo traduzido do francês…” (in “Últimas Páginas – O Francesismo”) . Aliás, em “As Farpas” são recorrentes as referências a espetáculos e a peças da época. (cfr. a minha “História do Teatro Português ”designadamente  págs. 180 -181 e 322). E Lucciana Stegagno Pichcio refere peças francesas traduzidas por Eça e “um esboço de drama sobre o tema de ”Os Maias” (in “História do Teatro Português págs. 284, 409, 410).

Em qualquer caso, a única tradução que nos chegou foi da peça “Philidor” de Joseph Bauchardy (1810-1870) - e sobre ela, escrevi outro local: “esta peça recomenda-se apenas por duas sólidas razões – a tradução impecável e literariamente importante e o curiosíssimo encadeado de cenas de teatro-no-teatro com a consequente reconstituição do meio teatral da época” (in “Repertório Básico de Peças de Teatro” pág. 158; cfr. também “Vivência Teatral em Eça de Queiroz” de António Manuel Couto Viana no “Dicionário de Eça de Queiroz” dir. A. Campos Matos págs. 946 e segs).

Ora bem: a tradição do teatro na Universidade, que Eça recorda e documenta, manteve-se e alargou-se à Universidade de Lisboa às restantes Universidades que se foram criando. E é justo referir a ação de Paulo Quintela no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, a partir de 1938, com destaque para a encenação de dramaturgos clássicos portugueses, designadamente Gil Vicente mas não só, – e isto, num envolvimento cultural adequado ao meio universitário, aos respetivos atores e espetadores.

Na sequência deste movimento, foram surgindo, nos meios universitários, iniciativas de qualidade e continuidade ligadas ao teatro. Nelas se formaram ou nelas colaboraram ao longo das gerações de estudantes e docentes, nomes que se afirmariam no meio teatral ou em estudos de literatura dramática. Luís Francisco Rebello, na “Breve História do Teatro Português”, cita designadamente o Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra a partir de 1956, com um repertório que cobre desde Molière, Calderon de La Barca, até  Adamov e  Bertold Brecht. E podemos também referir os grupos teatrais das Universidades do Porto e das Faculdades de Letras e de Direito de Coimbra e de Lisboa.

DUARTE IVO CRUZ      



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Terça-feira, 01.09.15

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3. MOSCOVO

Sendo Moscovo o centro do centripetismo russo, reforçado pela imigração de gentes oriundas de províncias e periferias da Grande Rússia, de emigrantes de países emergentes da anterior União Soviética, não me surpreendeu um notório crescimento económico, aliado aos vastos recursos naturais e investimentos do país, gerando dinheiro que transitava entre uma elite abastada e concentrada na capital administrativa, económica e política da Rússia, como plataforma giratória de novos ricos, os “Novos Russos”. Como centro polarizador de emprego e riqueza, não destoou saber da afluência de pessoas de meios rurais e periféricos, de emigrantes de países vizinhos. Tais emigrantes, fazedores de trabalhos menores que os moscovitas rejeitam, não eram bem vistos, em geral. Os de cultura muçulmana, no essencial, eram tidos como atrasados, conservadores, fundamentalistas e radicais, cultores de costumes que chocam com os da maioria dos russos. Os de países que compunham a União Soviética, eram vistos com ressentimento, traduzido num rancor subsequente a uma mágoa que se guarda de alguém que nos fez mal e que, após a ofensa, tem o desplante de nos procurar para uma vida melhor. Pessoas de etnia africana, não as vi, nem como turistas, homens de negócios ou emigrantes, o que o clima e a distância, por si só, não explicam, sabido que no auge da US, aí se formaram elites africanas.
Tive informação, por uma guia local, da ausência, à data, de desemprego em Moscovo,   não extensivo a toda a Rússia. Facto a que não seria alheio o custo de vida. Tendo como referência o nível médio russo, nada faria esperar preços tão inflacionados, numa urbe de ostensivos sinais exteriores de riqueza, desde toda a gama de marcas de topo internacional, a um súbito parque automóvel em quantidade e qualidade sobressaindo, aos meus olhos, jipes de alta cilindrada e opulentas limusines. Muita oferta podia ser adquirida a preços mais acessíveis ou iguais noutras urbes europeias, americanas ou similares. Mas existindo oferta, existe procura. De repente vieram-me à memória os afamados megamilionários e multimilionários russos, de enriquecimento súbito, dez por cento da população russa, aproximadamente quinze milhões, de um total de cento e cinquenta milhões, largamente concentrados em Moscovo. Coincidência, ou não, não vi, nem fui assediado por pedintes. Abordados (eu e família) por vendedores ao acaso, isso sim, propondo quinquilharias, pechisbeques, lembranças da era comunista, balbuciando palavras pontuais em português, ao reconhecerem-nos, com guias turísticos no nosso idioma, baixando e apelando ao regateio do preço quando a insistência não vingava. Quando afastados, não estendiam a mão. Orgulho ou resquício de condutas impositivas da US? Talvez mero acaso, dado que São Petersburgo não o confirmou.
Que o dinheiro circulava, provavam-no ainda o modo exuberante do vestuário usado no feminino, em locais centrais e de negócios, por vezes apelativamente sensual. Havia em demografia, em toda a Rússia, mais dez milhões de mulheres, o que aliado a uma progressiva liberalidade de costumes e autonomia económica, permitia uma gradual ascensão de mães solteiras, em especial em cidades como Moscovo. Falaram-me num número significativo de raparigas que escolhiam o pai e o marginalizavam sem nada saber da paternidade, cujos bebés eram criados ou ajudados por avós maternas acomodadas, além de alguma ajuda estatal, sempre insuficiente, alterando-se o conceito de família, não sendo o matrimónio um fim em si, nem a filiação seu fundamento.
Mesmo que se indicie não ser Moscovo uma urbe representativa de toda a Rússia, pelos contrastes do país, em paralelo com a sua territorialidade, a maior mundialmente, é uma cidade marcante para os moscovitas, russos e o mundo, centro impulsionador de messianismos e utopias, centro de poder de uma potência militar e nuclear, para aqui transferido após a revolução bolchevique, em substituição da imperial e cultural São Petersburgo. A revolução russa fez de Moscovo uma capital nacional, internacional e imperial, tentando construir uma nova sociedade internacionalista e revolucionária, em rutura com o passado e promessas de novos amanhãs, como o revela o contraste entre a arquitetura mais antiga e os edifícios construtivistas, igualitaristas e marcos comunistas do século XX. Entre estes a imponente Universidade Pública de Moscovo, em estilo gótico-estalinista, um mega exemplar da arquitetura pós-revolucionária, também conhecida por “bolo de noiva” ou “bolo de casamento”, cujas torres, na sua gótica verticalidade, a suavizam, não a libertando de um ar pesado. O mesmo quanto ao arranha-céus do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Dois dos exemplos maiores da ex-União Soviética ao tentar rivalizar em monumentalidade, força e poder com o ocidente. Apreciei, não me encantaram, nem deslumbraram. Muito menos edifícios e blocos de apartamentos massificados e todos iguais, austeros e não diferenciados da época comunista-estalinista, habitações dos últimos líderes soviéticos, zona residencial de Estaline (após o suicídio da mulher) e local onde finou. Anote-se um imponente obelisco evocativo da vitória na segunda guerra mundial, no Parque Vitória. Atração turística e símbolo do socialismo é o metropolitano, de estações monumentais, artísticas, funcionais, luxuosas, com candelabros, estátuas, esculturas, nichos, painéis, colunas, frisos, num chamariz faustoso e permanente.
Mas o mais profundo da alma e encanto de Moscovo é anterior a Outubro de 1917, onde sobressai a Catedral de São Basílio, ex-libris e imagem emblemática da cidade e toda a Rússia, onde o equilíbrio, harmonia exterior, a elegância e dignidade vertical das suas torres e cúpulas, numa explosão cromática dispersamente equilibrada, por entre cruzes  ortodoxas douradas nos cumes, me fez lembrar palácios reais encantados, embora aquém das expetativas o seu interior. No Kremlin, durante séculos símbolo do poder, desde cidadela dos czares, a quartel-general da ex-URSS e atual residência do presidente russo, chegados à praça principal, deparo-me com a Catedral da Anunciação, da Assunção, do Arcanjo, a Igreja dos Doze Apóstolos, da Deposição do Manto, a Torre Sineira de Ivan, o Grande, e o Sino do Czar. As dezenas de cúpulas douradas, coroadas por cruzes em ouro, erguidas para o céu, em prece e na vertical, cativam-me. Esteticamente belas, elegantes e cromaticamente apelativas, são como que substitutos das torres góticas das catedrais e igrejas cristãs do ocidente. Mesmo se singelas e simples na forma, fazem o culto do belo, elegância e diferenciação dos templos ortodoxos. Sobressai, no essencial, como na da Assunção, uma elegante imponência na verticalidade (em altura) e a sobriedade na horizontal (com omissão de espaço para os crentes). A exiguidade de espaço na horizontal tenta ser compensada pela ausência de cadeiras, bancos e instrumentos musicais, pelo que só as elites (czares, patriarcas) tinham direito a estar sentados, e não crentes e povo em geral. Frescos, ícones, pilares, cúpulas, locais de coroações, tronos, túmulos de czares, príncipes, de metropolitas e patriarcas da Igreja Ortodoxa, são sua parte integrante. Em que se ouvem cânticos ortodoxos por solistas profissionais do Conservatório Russo, alguns particularmente belos, raiando o sublime, se a acústica ajudar, às vezes para turistas e obtenção de receitas. Sem esquecer a Armaria do Estado, o museu do Kremlin por excelência, acumulando a principal riqueza de czares e príncipes, numa soberba coleção de peças em ouro, prata, coroas, diamantes, joias, insígnias reais, tronos, vestuário de coroações, ovos de Fabergé, carruagens, armas, armaduras, ofertas de embaixadores, com destaque para o diamante (do amante) Orlov, dado a Catarina, a Grande, que o usava no topo do seu cetro, o diamante do Xá Mirza e um trono incrustado de centenas de diamantes e turquesas. Além da Praça Vermelha, comprida, larga, espaçosa, versátil e de apetências multifuncionais, desde desfiles, manifestações e noivos tradicionalmente vestidos comportando, no seu todo, vários edifícios: o belo exemplar de tijolo vermelho do Museu de História, a muralha do Kremlin, a porta do Salvador, o mausoléu de Lenine, o Gum e a distinta Catedral de São Basílio. A que acresce a renovada Catedral de Cristo O Redentor, de veste alva e majestosa, com as suas cúpulas bolbosas douradas, num interior espaçoso, luminoso e equilibrado, sem excessos, restaurada após a sua destruição por ordem de Estaline. Bem como o valioso Museu Pushkin, um passeio pela rua Arbat, o Arco do Triunfo alusivo à derrota de Napoleão, a Catedral Kazan, a estátua de Pedro o Grande (no rio, comandando um navio), o lago inspirador do “Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky, o Teatro Bolshoy, o miradouro dos Montes Pardal, a que muito mais haveria a somar, nume urbe merecedora de revisitar.
Foi surpresa, pela negativa, ser só falado russo pela maioria da população. Foi surpresa, muito positiva, ouvir a guia local num português fluente, de um profissionalismo acima da média, sendo reconfortante ouvir uma lusófila compensada em empregabilidade pela sua garra e gosto em falar o nosso idioma. Amália, Mariza, Cristiano Ronaldo e Mourinho foram nomes lusos que ouvi, no geral, como identificação de Portugal. As douradas e solares praias algarvias viam-se em cartazes turísticos.
Em jeito de síntese, resumiu a guia a vida em Moscovo e na Rússia, nestes termos:
“Aparência alegre, só na forma. A vida é alegria e dor. Foi-o assim no comunismo, é-o agora, como sempre foi e assim será.
- Que fazer?- A vida é assim!” 
Num misto de saudosismo e nostalgia, fez-me lembrar a “Alma Russa”, de Dostoievsky a Tolstoi, o materialismo dialético, de Lenine, a Estaline e Gorky, num lamento conformado de desencanto e de não confiar que o futuro seja redentor.
Que a vida tem sempre alegrias e dores, é uma verdade, em todas as latitudes e longitudes. Que fundamente uma atitude de demissão, dado existir sempre dor, entendo que não. Nada melhor que um exemplo da mesma guia, num passeio noturno, ao referir, junto da Escola Superior de Ballet, que por detrás da aparência angelical e excelência profissional do/a/s bailarino/a/s se ocultam dramas , tragédias pessoais e profissionais, exemplificando-o com condutas de concorrência perversa entre colegas, de total ausência de solidariedade e superego doentio e destrutivo, ao colocarem cobardemente vidros e outros objetos agressivos e cortantes no calçado de potenciais concorrentes, desmotivando-os ou anulando-os. Há casos em que tais métodos são mortíferos, atingindo os seus fins. Noutros, os destinatários não se resignam, indo em frente, prevenindo-os, evitando-os ou superando-os, não alimentando a resignação. Se a vida é sempre alegria e dor, esta pode ser convertida em júbilo, não nos resignando, muito menos por princípio, não dando azo à fatalidade, pois também há esperança, mesmo sonhando com utopias adiadas. Afinal, como diz o poeta: “Eles não sabem que o sonho, é uma constante da vida, tão concreta e definida, como outra coisa qualquer”.     

Impressões pessoais de Moscovo, em Julho e Agosto de 2009 
Texto revisto em 19 de Agosto de 2015
Joaquim Miguel De Morgado Patrício



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A new European crisis, 2015

Fim de férias no continente e retorno ao business dos dias na verdejante ilha do North Atlantic. A vaga crescente da emigração domina lá e cá a agenda política. Assolada a East e a South por hordas de desesperados que fogem da guerra e da pobreza que enxameia Africa, preferindo enfrentar uma morte provável nos desertos e no Mediterranean, a Deutsche European Union parece por fim acordar para a grave crise humanitária que a envolve. — Chérie! L'historie se repétète. As notícias eram de algum modo esperadas, mas não deixam de horrorizar.

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O responsável pelos tesouros sírios de Palmyra é barbaramente assassinado pelo Isis. Os jihadistas iniciaram usual e psicótico programa de destruição dos ancestrais templos na estrada de Damascus. — Hmm! The simple explanation is usually the correct one. A corrida à liderança no Labour Party exacerba-se no fogo de artilharia contra Mr Jeremy Corbyn, esperado vencedor nas eleições de September 12. Nos US, o establishment estremece com um outro meteoro a que o meu amigo Jon L designa como The Hairforce One. Classificado com nota máxima em obnoxiouness no Financial Times, Mr Donald Trump solidifica posições e apoios no Republican ticket para a White House.

Typical mild weather em Central London. A cidade continua fervilhante com turistas de todas as cores e culturas. Quantos dos transeuntes com que me cruzo nestas movimentadas ruas são indivíduos ilegalmente entrados no país, desconheço. Os números oficiais apontam novo recorde na net emmigration: 330,000 pessoas em 2015, a desafiar as metas do controlo governamental e a cravarem o assunto nas renegociações que Westminster pretende estabelecer com Brussels no seu roadmap to the euroreferendum.

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O êxodo que avassala partes do globo não pára nas cercas privadas de Calais ou no muro público da Hungary. Se a retórica contra o Joe Foreigner pauta ainda o discurso de HM Government, os números contraditam o Prime Minister David Cameron na reiterada meta de diminuir o volume de alienígenas que aqui persistem em construir uma nova vida e assistem à robusta recuperação económica do reino registada nos últimos anos. Também os sucessivos ataques aos centros de acolhimento na Germany assombram o discurso liberal da Bundeskanzlerin. Frau Merkel apela aos alemãos para acolherem bem os refugiados e sublinha a política de tolerância zero face ao racismo e à xenofobia no coração da Old Europe. A South, aliás, a barbárie expande-se e o êxodo continua. No amanhecer sírio de Homs, a silhueta das ruínas dos impérios Semitic, Assyrian, Seleucid e Roman é destruída com bidões de dinamite. A Hadriane Palmyra está a morrer.

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Já Mr Ian Fleming parece finalmente ter um discípulo com estatura para fazer reviver as aventuras e o dark charm de James Bond, em vésperas do ator Mr Daniel Craig protagonizar o 24.º filme da série 007 com passagem pelo Blenheim Palace, the birthplace of Sir Winston Churchill. Mr Anthony Horowitz lança Trigger Mortis como novo título da spy-saga. O conteúdo é tal que o pouco dado a entusiasmos Prof Simon Schama resume em muito favorável crítica com recurso a superlativo e a agendar obrigatória leitura outonal. — Expertly mixed.

 


St James, 1st September         

Very sincerely yours,

V.



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Segunda-feira, 31.08.15

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De 31 de agosto a 6 de setembro de 2015.

«A Era do Deslumbramento» de Richard Holmes (Gradiva, 2015) é uma obra apaixonante que nos permite acompanhar o início de um novo paradigma da história da humanidade, a que ainda hoje procuramos adaptar-nos – o do conhecimento e da aprendizagem.
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UMA AVENTURA PARTILHADA
Como a geração romântica descobriu a beleza e o temor da ciência? Esta é a grande pergunta subjacente a esta obra, que faria sempre falta numa biblioteca bem recheada dos elementos indispensáveis à compreensão do tempo que vivemos, como convergência entre o conhecimento, a curiosidade, a necessidade de aprender e o rigor crítico. Entre nós, o livro (saudado com entusiasmo em todo o mundo) assinala os cem números da coleção «Trajetos» da Gradiva. Richard Holmes, um experimentado escritor que liga o humanismo ao espírito científico e à compreensão da história humana, acompanha-nos num percurso fascinante em que as descobertas científicas desde o final do século XVII resultam de uma relação fecunda com o conhecimento e a experiência. A obra é, por isso, muito atraente, sendo a demonstração da importância de um tempo de redobrada atenção relativamente a tudo o que nos cerca, não só para sabermos mais, mas também para vivermos melhor. Holmes descreve em «A Era do Deslumbramento», de um modo acessível, rigoroso e natural, sem cedência à facilidade, como se criaram condições para as descobertas científicas contemporâneas. E nada melhor do que contarmos com três referências, de três cientistas que nos ajudam a perceber o caminho interminável e decisivo do saber em que estamos lançados. A ciência é uma aventura partilhada, de que não podemos prescindir. Trata-se de entender que nunca saberemos o suficiente e que temos de ir sempre mais além, compreendendo os limites, as dificuldades e as ilusões, que tantas vezes são mascaradas de certezas. Lembramo-nos da tentação positivista…

 

UMA SINGULAR CONVERGÊNCIA
Na companhia de Sir Joseph Banks (1743-1820), de William Herschel (1738-1822) e de Humphry Davy (1778-1829), um botânico, um astrónomo e um químico, somos convidados a fazer viagens extraordinárias, que abrem portas sucessivas para o conhecimento, a compreensão e a exigência de aprender mais e melhor. E Richrad Holmes ensina-nos que os cientistas, como os poetas, precisam de sentido de «deslumbramento», de humildade e de humor, para poderem compreender o mundo, o tempo e a vida. Nada do que é humano ou do que é natural pode ser-nos estranho. Oceanos, estrelas, fauna, flora, assim como a mente humana têm de estar na primeira linha da nossa atenção e do nosso interesse. Mas tudo exige muito trabalho, pesquisa, dúvida, tentativa, erro, risco, determinação e esforço, para superarmos os nossos próprios limites, sabendo que o faremos sempre provisoriamente. Amanhã teremos sempre de ir mais adiante. A aprendizagem é que define o desenvolvimento. A afirmação poderá parecer estranha e redutora, mas põe-nos no cerne do modo de aproveitar os recursos e de responder aos desafios, como nos ensinou Toynbee. Não basta dizer que se aposta na educação para que esta se desenvolva. Há que articular permanentemente as condições e os desafios do meio e a capacidade para lhes responder. As receitas simplificadas, as vias uniformizadoras, as soluções supostamente definitivas não ajudam, antes pelo contrário. E temos de lembrar o modelo da britânica «Royal Society», fundada em 1660, e hoje presidida por Sir Paul Nurse. A instituição surge como um exemplo de cooperação, de trabalho, de disciplina, de coordenação, de persistência e de dúvida metódica. Nada se consegue sem objetivos e planos fundamentados, sem programas claros, sem espírito de equipa e sem ação continuada. Daí que o espírito científico obrigue à experiência e à crítica. A Revolução Industrial foi possível graças a uma convergência de razões: acumulação de capital, capacidade de investimento, matérias-primas, massa crítica em capital humano, espírito inovador e inteligência prática. Urge, no fundo, entender a importância do saber de experiências feito – suscetível de reunir os diversos fatores necessários ao desenvolvimento humano.


«NULLIUS IN VERBA»
Percebemos, assim, o lema da «Royal Society», que está subjacente a esta obra e que nos foi legado por Horácio - «Nullius in Verba». Com efeito, o cientista não pode tornar-se servo da palavra de outrem ou de uma qualquer explicação fechada e autosuficiente. O espírito científico e o sentido crítico obrigam a estudar sempre mais, infatigavelmente, em procura do caminho que nos permita conhecer mais e melhor. A «Era do Deslumbramento» desenvolve-se entre a viagem de circum-navegação comandada por James Cook no «Endeavour» (1768) e a partida de Charles Darwin para as Galápagos, a bordo do «Beagle» (1831). E Holmes salienta a importância do espanto, que tanto se refere ao misterioso mundo natural como às múltiplas expressões da criação humana, artística ou prática, teórica ou pragmática… O saber deixa, assim, a pouco e pouco, as salas fechadas das academias e das arcádias, para chegar ao campo e à experimentação. Não é por acaso que a política é profundamente abalada. As revoluções inglesa, americana e francesa vão mudar a organização das sociedades e os instrumentos de legitimação – a começar no primado da lei geral e abstrata para todos (rule of law). Depois de os portugueses terem dado «novos mundos ao mundo», houve que fazer a ligação entre as consequências das novas descobertas à necessidade de profundas mudanças de organização e de mentalidades, na economia e na sociedade. O botânico Sir Joseph Banks, que acompanhou James Cook até ao Taiti, compreendeu de modo pioneiro a importância do diálogo científico e das redes de cooperação no tocante à informação sobre novos conhecimentos – desde as plantas, às línguas, à gastronomia e aos ritos (até aos desportos e ao lazer). Inicia-se assim a noção de ciência como um trabalho partilhado, nacional e internacionalmente. Banks criou um espantoso sistema de comunicação, Davy inventou a lâmpada de segurança para os mineiros, o que teve um efeito decisivo para a segurança de profissionais e para a industrialização, enquanto Herschel construiu um potente telescópio (com o apoio de sua irmã Caroline), que permitirá fazer descobertas fundamentais para o conhecimento do universo. Richard Holmes mostra, afinal, como o conhecimento humano evolui sempre num fecundo encontro entre o deslumbramento e a coragem de afrontar o desconhecido e o inesperado e a capacidade de a inteligência humana se ir superando através de avanços e recuos, mas com a cada vez melhor compreensão da nossa pequenez e da responsabilidade cada vez mais exigente.

 

Guilherme d'Oliveira Martins



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Domingo, 30.08.15

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25. POR DETRÁS DE DÍVIDAS...

 

Mesmo não sendo Cavaleiro Andante ou Prince Ardent, ficou-me dessas leituras juvenis um quase sentido do dever de sair à liça em defesa de injustiçados, sobretudo quando os perseguidores, juízes ou carrascos se reclamam só de virtudes e de isenção de culpas ou responsabilidades próprias, para atribuírem a outros a exclusiva responsabilidade do mal acontecido. E quando o desplante chega ao ponto de esquecerem que esses outros são efectivamente habitantes da mesma casa, participantes da mesma vida ou aventura, membros da mesma comunidade... Meu Deus! Já muitas vezes escrevi sobre os desvios que políticas económicas e governações têm consentido, ou mesmo promovido, do fim que lhes compete perseguir : o interesse geral, isto é, o bem comum. Tal como tenho apelado ao diálogo e à concórdia, não para apagar diferenças, mas para criar o espaço-tempo, e construir o modo em que essas possam conviver para benefício de todos. O propósito desta crónica continua o mesmo, mas vou procurar antes comentar textos de terceiros, que bastante se alinham com as minhas preocupações quando reflicto sobre as chamadas dívidas soberanas. Evitando aqui voltar a repetir o que, sobre tão complexa matéria, alhures já disse. A revista norte-americana Foreign Affairs publica, na sua edição deste Verão, uma estimulante resenha crítica ao livro de Martin Wolf, comentador económico principal do Financial Times, The Shifts and the Shocks: What We´ve Learned - and Have Still to Learn - From the Financial Crisis (Penguin Press, 2014). O autor do artigo é Athanasios Orphanides, cipriota grego, professor no MIT (EUA), que já foi Governador do Banco Central de Chipre e também pertenceu ao Conselho de Governadores do BCE. Admirando, concordando aqui, diferindo ali, o comentador revela, tal como o seu comentado, a preocupação em considerar factos e questões com lucidez e sem as excitações e partidarismos, políticos ou de escola, com que , infelizmente, se usa por aí tratar este assunto. Recordando Wolf, Orphanides começa por reconhecer que as crises são um inevitável rebento da economia capitalista moderna. Exemplificando, refere o declínio dos preços do imobiliário nos EUA, iniciado em 2006 e atingindo o auge em 2010. Após um período de preços excepcionalmente altos, era bem vinda tal queda, vista como natural correcção do próprio mercado, e quase ninguém pensou que seria possível acontecer o choque de uma crise com a dimensão que se verificou. Wolf aponta várias causas desse falhanço: antes de mais, falta de imaginação. Banqueiros, reguladores e políticos partiram do princípio de que um longo período de estabilidade tornara a economia invulnerável a choques: Porque caíram as economias líderes do mundo em tal baralhada? A resposta, em parte, está em que os responsáveis por elas não acreditaram que poderiam lá cair. Particularmente arguta, muito embora possa correr o risco de ser menosprezada, é outra observação de Wolf, que o seu comentador refere assim: Antes do pântano, a maioria dos economistas - incluindo o próprio Wolf - não concebiam a possibilidade de um derretimento financeiro global. Tal como ele escreve, foi «parcialmente porque os modelos económicos da corrente dominante tornavam a crise tão ostensivamente improvável em teoria, que acabaram por torná-la muito mais provável na prática». Reguladores e investidores assumiram alegremente, entre outras coisas, que as pessoas tendem a fazer opções económicas racionais e que os preços de mercado reflectem o verdadeiro valor dos activos. Este falso sentido de segurança torna-os descuidados, mais propensos a correr riscos e menos cuidadosos quando surgem sinais de alerta. «A estabilidade desestabiliza», escreve Wolf, parafraseando o economista americano Hyman Minsky. Pessoalmente, penso que, em pano de fundo da confusão em que mergulhámos, se desenha, não só tão insensata fé na justeza e justiça dos mercados, como essa "idolatria do dinheiro", de que fala o papa Francisco, quer pela ganância de posse e acumulação de riqueza, quer na vertente do despesismo em consumo. Isto é: criou-se um sistema económico próprio a uma cultura materialista e sôfrega. Simplificando - e com alguma brutalidade  - direi que o ponto de encontro de ricos e pobres, ou aquele sobre que todos estão de acordo, é que o dinheiro é bom por excelência, compra muitas coisas (praticamente quase tudo) e, para isso, todos o queremos. Mas voltando à boca da cena, atentemos em alguns efeitos práticos das teorias económicas dominantes. Martin Wolf, economista liberal, aponta todavia o dedo ao excesso de desregulação, corolário da tal crença no poder regulador dos mercados. (Antes de transcrever a citação feita por Orphanides, lembro que os acordos de Basileia (I, II e III) são, desde 1988, recomendações, relativas a critérios e regulamentos sobre riscos de crédito bancário e sua cobertura, emitidas pelo BCBS (Basel Committee on Banking Supervision) que reúne, hoje em dia, representantes de bancos centrais e entidades reguladoras de uma vintena das economias mais desenvolvidas do mundo).  Vamos então ao comentário do professor cipriota da Sloan School of Management do MIT: Wolf destaca dois erros de regulação especialmente nocivos. Primeiro, na sequência dos Acordos de Basileia, os bancos foram autorizados a classificar as obrigações do tesouro como isentas de risco. Quando um banco adquire um activo de risco, deve ter capital suficiente para cobrir a possibilidade de não pagamento. As regras de Basileia significavam que os bancos detentores de dívida soberana não precisavam de acumular capital extra. Escreve Wolf : «Assumia-se que os governos não faltariam», crença que ia parecendo cada vez menos certa, pelo desenrolar da crise na zona euro. Em segundo lugar, os governos, designadamente nos EUA, encorajaram fortemente firmas a facilitar às pessoas os empréstimos para compra de casas, o que levou a um frenesim de crédito hipotecário - incluindo a quem pouca capacidade tinha para pagar dívidas - e contribuiu para a bolha do imobiliário. Orphanides insiste mais no factor político - a meu ver com razão - do que Wolf, que tende para atribuir mais à teoria económica as medidas de política económica. O cipriota define assim bem as consequências da decisão de permitir que os bancos possam considerar isentas de risco as dívidas soberanas: Os governos da zona euro beneficiaram dessa política, já que, chamar livre de risco à sua dívida, lhes tornou os empréstimos mais baratos e facilitou níveis mais altos de despesa estatal. Os bancos, desejosos de baixarem os seus quesitos de capital, entraram felizes no jogo. Eis um exemplo da simbiótica relação entre governos e bancos que infiltra a banca à volta do mundo. Concentrando-nos na Europa, surge-nos a incontornável questão da moeda única, ou da união monetária, desafio ainda tanto quanto realidade (em carta recente, eu recordava o dito de frei Ivo Congar sobre o Vaticano II: é fantástica a obra realizada, mas todavia tudo está ainda por fazer). Ou se reforça a União Europeia como um todo nas suas várias vertentes (económica, monetária, financeira, fiscal, etc. etc.), ou seja, como entidade política solidária em construção ou vamos rezar para outra freguesia... Wolf fala da zona euro como um casamento monetário polígamo, mal conhecido pelas pessoas que nele confluíram à pressa e insuficientemente avisadas, e sem qualquer mecanismo para divórcio. Orphanides  pega-lhe na palavra e acrescenta : Ao casamento seguiu-se uma lua de mel irresponsável: países devedores, como a Grécia e Portugal, pediram livremente emprestado e gastaram desalmadamente, enquanto a Alemanha, esposa credora, montou um sector exportador competitivo e um superavit externo «acompanhado de crescentes reclamações sobre os devedores». Quando a crise chegou, o matrimónio azedou: a Alemanha acusou os países devedores de esbanjarem o seu dinheiro, e eles a Alemanha por força-los à destituição. Ambos os autores, apesar de diferenças, concordarão em que a timidez ou fraqueza da construção europeia explica grande parte da crise na zona euro, tal como ainda o jeito tosco e míope com que se pretendeu arrumar com ela, designadamente através de medidas de "austeridade" mal conduzidas e atrofiadoras da necessária recuperação económica. E cita-se um passo do discurso do ex-chanceler alemão Helmuth Schmidt, pronunciado na sua língua materna e em Frankfurt, aquando da despedida de Jean-Claude Trichet de Governador do BCE: Toda a conversa sobre a chamada "eurocrise" não passa de vaga conversa fiada de políticos e jornalistas... O que temos, na realidade, é a crise da incapacidade de actuação dos corpos políticos da UE. A espantada fraqueza de acção é muito maior ameaça ao futuro da Europa do que os níveis excessivos de dívida de alguns países membros. Diz-se que tal discurso era dirigido a Sarkozy e a Merkel que, meses antes, em Outubro de 2010, na estância de Deauville, haviam juntamente decidido opor o seu veto a qualquer programa de assistência a países da zona euro, a menos que pudessem impor, primeiro, as perdas a credores privados desses estados. Comenta Orphanides: Tal política, conhecida por envolvimento do sector privado, foi um passo mal dado. A ideia de que franceses e alemães poderiam impor perdas a credores privados alarmou detentores de dívida soberana, e conduziu ao agravamento da crise pela eurozona, a começar pelo colapso da economia irlandesa. Claro que a Alemanha saiu por cima. Tornando a dívida soberana dos estados periféricos, denominada em euros, menos atraente, Merkel, com mestria, criou, para a Alemanha, um subsídio implícito, vindo da euro área periférica. Já no início desse ano de 2010, quando a Grécia recorreu ao FMI, a França, Alemanha e Holanda, cujos bancos estavam bastante expostos à dívida grega, tudo fizeram para os proteger de eventuais "write-offs". Concluindo, reafirmo a minha concordância com afirmações dos economistas que vimos acompanhando: numa economia global que se remenda e vai remediando, a eurozona empalidece e, tal como está, talvez já não possa durar muito. Wolf aponta para a separação que se cava entre o nível nacional de responsabilização e o nível de poder na eurozona, com a Alemanha a exercer um controlo exagerado sobre outros: Tal estrutura não poderá durar e, mesmo que possa, não deve. Assim diz, mas reconhece que a Alemanha já é suficientemente poderosa, para travar certas reformas que remendem o tal complicado casamento polígamo e que, na versão de Orphanides, incluem a criação de uma união bancária adequada, a conversão de alguma dívida pública existente em euro-obrigações, que poderiam ser um activo comum e seguro, e a concessão, ao BCE, de maior liberdade de intervenção nos mercados de títulos do tesouro. E eu acrescentaria - se essas obras começassem a fazer-se, e para já - também a moralização e regulação das bolsas de valores e mercados financeiros, bem como da publicidade ao crédito e ao consumo. Lembrado daquela máxima latina: Homo lupus hominis... 

 

Camilo Martins de Oliveira



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Sábado, 29.08.15

ExpressionismoPortugal.jpg

 

Acerca do expressionismo em Portugal.

 

‘Ser como esta gente!

Ser ainda menos gente!

Ser mais toda-a-gente

Que toda esta gente!’

José Régio, ‘Novos Poemas de Deus e do Diabo.’

 

A maioria dos agrupamentos artísticos portugueses, do princípio do século XX, ainda se caracterizavam por um naturalismo que representava paisagens e situações da vida quotidiana – assumindo ainda uma atitude levemente realista ligada às técnicas da Escola de Barbizon. Em 1900, esta produção tornou-se insignificante face ao teor vanguardista da arte internacional. A partir dessa data, mais do que a qualidade apreciava-se a novidade, mais do que a emoção exigia-se a provocação, pedia-se acima de tudo uma nova verdade, um novo ideal. Aqui em Portugal, os movimentos de ruptura fixaram-se com alguma dificuldade.

Nasceu, assim dessa necessidade, o Modernismo nos Salões Humoristas. Só através da caricatura era permitido exercitar um traço liberto e sugerir novos ritmos do quotidiano. Nomes como Cristiano da Cruz, Amadeo de Souza-Cardoso, Guilherme Santa-Rita, José de Almada Negreiros e Eduardo Viana, realizaram uma obra mais próxima dos novos ideais vanguardistas antes da Grande Guerra.

Logo a seguir à guerra, a arte portuguesa virou-se para um certo conservadorismo reabsorvendo e continuando os trabalhos do início do século. Ora, os anos trinta trouxeram novas abordagens e novas atitudes. No resto da Europa, o expressionismo já tinha perdido força e só agora chegava a Portugal.

Mário Eloy (1900-1951), Dominguez Alvarez (1906-1942) e Hein Semke (1899-1996) captaram e representaram o real através de uma visão introspectiva e por vezes perturbadora. São os expressionistas mais importantes. Contudo não se pode deixar de referir que no contexto português, o expressionismo não teve grande aderência e expandiu-se em grande parte só à pintura e à escultura. Não acrescentou muito ao que já estava explorado, limitando-se a seguir o exemplo alemão.

O temperamento desequilibrado de Mário Eloy orientou a sua opção pelo expressionismo. Antes da longa estadia em Berlim, esteve em Paris – onde as obras do período neoclássico de Picasso, o marcaram definitivamente. Essa influência é marcante na valorização dos volumes das figuras que protagonizam as suas pinturas. A sua admiração pelo expressionismo de Kokoschka, leva-o a produzir pinturas dominadas pelo verde. Eloy procura, sobretudo a síntese da forma em cada pincelada, tentando sempre afirmar uma clara intenção. Os seus múltiplos auto-retratos são motivo de introspecção. Na sua obra são habituais os retratos e cenas de imaginação fantástica, talvez porque a realidade nunca conseguiu uma integração total no seu eu. O uso dos verdes, dos azuis e dos ocres permitem o estereótipo das personagens e dos espaços.

Também Domingues Alvarez estranha o mundo. O seu expressionismo traz marcas longínquas de El Greco – no alongamento dos rostos e dos corpos. O pintor é natural do Porto mas de ascendência galega. Deixou-se conquistar por uma expressão ingénua que o conduz à representação dos lugares como se de cenas infantis se tratassem: geometrias elementares e sintetismos de cor.

Nesta década de trinta, caberá a um alemão refugiado em Portugal, desde 1932, o papel de mostrar a escultura como veículo expressivo de convicções próprias suportada por características expressionistas. Compreender a obra de Hein Semke, ao longo de mais de cinquenta anos, é inseri-la nas experiências expressionistas alemãs do início do século XX - com especial destaque para Die Brücke e para a obra escultórica de Barlach. Semke não é só escultor, mas também pintor e ceramista. O seu expressionismo manifesta-se na ruptura social, no primitivismo formal e na arte ligada a temas religiosos. Ao chegar a Portugal sente ser este o local ideal para viver longe dos conflitos que afligiam a Europa. Semke era o primitivo dos anos trinta. Optando por cânones não naturalistas, desproporcionava e esquematizava as figuras. Centra-se assim, em valores humanistas, desprezados pela sociedade contemporânea. As suas esculturas transmitem solidão, dor, crueldade – representando a perplexidade perante um mundo de extremos, desde a placidez campesina e provinciana de Portugal, à violência da Grande Guerra, com a Europa a ferro e fogo.

Também Carlos Botelho (1899-1882) e Júlio (Saúl Dias, 1902-1983), cada um a seu modo, se deixaram seduzir pela onda expressiva – no primeiro caso em paisagens urbanas, procurando retratar ambientes e sentimentos, e no segundo numa ligação estranha e expressiva entre os sentimentos e a poesia. Botelho exprime a segurança do traço e Júlio dá-nos uma imagem de aparente ingenuidade (encontrando-se com Mily Possoz), que no entanto tem a força de uma mensagem, na qual escrita e traço se confundem. É, aliás, pouco referido o exemplo do irmão de Júlio – o poeta José Régio (1901-1969) – em cuja produção artística se nota também a influência expressionista, bem patente, por exemplo, nas ilustrações de ‘Novos Poemas de Deus e do Diabo’ .

Em Portugal, a placidez, pressentida por Semke, dificulta o desenvolvimento do veio expressionista – o que não significa que não encontremos muitos afloramentos de maior ou menor interesse: Bernardo Marques ilustra com mestria, entre impressões e expressões; Ofélia Marques segue a mesma linha; Sarah Affonso tem momentos de rara intensidade expressionista; o próprio Almada Negreiros, apresenta diversos apontamentos dessa mesma coerência; José Tagarro revela uma força especial que nos permite dizer que ficou aquém da obra de génio que sempre anunciou. Dir-se-ia que o Apocalipse (feliz em Viena, dramático em Berlim) e a ideia de Secessão tornam-se difíceis de entender – como o sentirão na pele os surrealistas, numa experiência tardia e plena de dúvidas – entre o clássico ‘cadavre exquis’ (de António Domingues, António Pedro, Fernando Azevedo, João Moniz Pereira e Vespeira), a hesitação de António Pedro, a pressa de Alexandre O´Neill, o rigor de José-Augusto França e a desconcertante omnipresença de Mário Cesariny.

 

Ana Ruepp

 



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Sexta-feira, 28.08.15

Niall Fergunson.JPG

Minha Princesa de mim:
 

Já tinha fechado e enviado a minha última carta, quando me caiu à frente uma frase de Heródoto: De todos os infortúnios que afligem a humanidade, o mais amargo é que temos de ter consciência de tudo e controlo de nada... Assim o terá dito, no século V antes de Cristo. Hoje, em pleno século XXI depois de Cristo, concordarei com esse não termos controlo de nada, mas pergunto-me, sinceramente, se teremos consciência de tudo. Como já te tenho dito, chego mesmo a impressionar-me com o facto de, em tempos de tantas e tão velozes notícias, muitos de nós serem alheios ou indiferentes aos incessantes flagelos e ameaças que afligem o mundo e que, afinal, até se vão aproximando de nós... Se é já lamentável a indiferença perante a desgraça de multidões de pessoas nossas iguais na condição humana, é assustadora a ignorância em que nos mantemos das causas, condições e efeitos possíveis de actos e factos malignos que por aí se vão propagando e, dum ou doutro modo, nos atingem. O historiador britânico Niall Ferguson, de quem já te falei, faz, no seu The Great Degeneration, esta curiosa comparação: No "spaghetti western" The Good, the Bad and the Ugly, há uma cena memorável que resume a economia mundial de hoje. Blondie (Clint Eastwood) e Tuco (Eli Wallach) encontraram finalmente o cemitério onde, sabem, está sepultado o ouro que buscam - uma imensa campa da Guerra Civil. Eastwood olha para a sua pistola, olha para Wallach e exclama a imortal frase: "Neste mundo há duas espécies de pessoas, meu amigo. Aqueles que têm pistolas carregadas ... e os que cavam!"  Assim também,na ordem económica pós-crise, há dois tipos de economias. As que têm vastas acumulações de activos, incluindo fundos soberanos (correntemente mais de 4 triliões de dólares) e reservas de divisas fortes (5,5 triliões só para mercados emergentes), são as que têm as pistolas carregadas. As economias com grandes dívidas públicas (que hoje somam quase 50 triliões em todo o mundo), pelo contrário, são as que têm de cavar…  E para ti transcrevo outro passo do Fergusson: Do ponto de vista de um historiador, os riscos reais no mundo não-ocidental hodierno são revolução e guerra. São precisamente estes os eventos que devemos esperar nas circunstâncias actuais. As revoluções são causadas pela combinação de picos dos preços alimentares, uma população jovem, uma classe média em ascensão, uma ideologia disruptora, um antigo regime corrupto e uma ordem internacional enfraquecida. Todas essas condições se encontram hoje no Médio Oriente, e é claro que a revolução islamista já está a avançar, ainda que sob o enganador rótulo ocidental de "Primavera Árabe". O que aí nos deve preocupar é a guerra que quase sempre se segue a uma revolução de tal grandeza. Eu, cá por mim, penso que ela já vai alastrando pelo Médio Oriente e norte de África, e nos manda um aviso muito sério: as multidões de desalojados e refugiados já não ficam só por essas regiões, mas - acrescidas de muitos africanos em busca do "sonho europeu" ou fugidos de outras perseguições - vão desembarcando nas nossas costas ou se afogam no que já se chamou Mare Nostrum. Uma vez mais, a nossa indiferença perante a desgraça alheia também nos obnubila a visão do nosso próprio futuro. Vai-se espalhando o terrorismo, não há país ou região do mundo onde não se cheire o terror, e muitos até já o sentiram actuar ao vivo. Tem ele modalidades várias, história tão antiga como a dos homens, é simultaneamente brutal e subtil, terrível no sofrimento visível que inflige, mais terrível ainda no silêncio insidioso em que cresce e se alimenta... Que sabemos dele? No caso do reputado Estado Islâmico, por exemplo, como explicar aquele jihadismo? Será que ele convém - e se apoia - ao interesse estratégico de certos países, alguns até "aliados do Ocidente", como o Qatar, a Arábia Saudita, a Turquia ou o Paquistão? Será que, nesse caso, se fomenta um "fundamentalismo" sunita, para perturbar o inimigo ou distrair terceiros, como, num passado ainda próximo, ingleses, por exemplo, foram soprando lutas étnicas e religiosas no Médio Oriente? Ou antes é fruto de ressentimento histórico, relativo sobretudo à pretensa superioridade da civilização ocidental que, propensa à hegemonia universal da cultura de raiz europeia e cristã, ou iluminada e racionalista, desperta confrontos e choques com outras? Ou mais proximamente, como outros alvitram, serão as suas causas de ordem económica e social, sobretudo quando a globalização expõe mais visivelmente as desigualdades e injustiças, desde as que vemos nas nossas cidades e países até à cena mundial? Haverá um pouco de tudo isto, mais uma certeza: a de que há males difíceis de corrigir, quiçá impossíveis de eliminar, pois nascem e crescem em culturas de egoísmo, desleixo e indiferença. Pouco adiantará, talvez até seja contraproducente, qualquer islamofobia, como de nada serviu nem serve o chamado antissemitismo (e não nos esqueçamos de que os árabes são semitas também), ou qualquer forma de antagonismo, sobretudo radical. Infelizmente, quando se semeou o mal ou nos conformámos com a sua sementeira, sempre fomos agentes ou aprendizes de feiticeiro... E há feitiços que podem assombrar gerações, por isso as antigas maldições eram lançadas sobre os próprios e as suas descendências. Presentemente - penso eu, Princesa - em concomitância com a legítima defesa militar, impõe-se a necessidade de políticas apelativas ao diálogo entre todos os que constituem a circunstância actual dos movimentos terroristas, de forma a cercar estes e extinguir os seus focos. Tal passa também pela acalmia de provocadores - que estão no meio de nós ou se dizem do nosso lado - e pelo reconhecimento amigo do outro na sua diferença. Isto é: ou estendemos a mão a quem também quer conversar, ou desistimos. O acordo nuclear agora assinado com o Irão é positivo sinal de que vale a pena ir conversando. Por outro lado, tampouco será errado observar atentamente o que se passa em circunstâncias diversas da nossa, com a inteligência necessária a não confundirmos com providencial benesse qualquer  wishful thinking apressado da nossa ganância, ou simplório desejo de resolver um aperto financeiro... Pensa, por exemplo, Princesa, nos namoros que a China, acenando com notas, por aí vai despertando : até se processam privatizações por transferência de empresas para o domínio do capitalismo do estado chinês. Assim, devemos juntar, à cultura dos vícios acima apontados, a da precipitação ou imediatismo, cujos factores podem ser, paradoxalmente, o preconceito (sobretudo ideológico) e a ganância, tantas vezes disfarçada de realismo ou pragmatismo político. O debate sobre uma situação nova, problemática, ab initio ou mesmo ex ante, pelo prisma de "princípios" anteriormente estabelecidos, tem prejudicado, não só a isenção necessária a qualquer análise objectiva e inteligente (inteligente, no sentido de procurar entender), como levado a afrontamentos que, em nome de suposta clarificação, desde logo trazem complicação e confusão... Tal como a corrida a metas de curto prazo, por ganância ou ingenuidade "tecnocrática" é precipitação num barranco de cegos. Se errare humanum est, também se reconhece o homem - como disse Saint-Exupéry - quando este se mede com o obstáculo. Ser humano é ser-se capaz de conversão, de recomeço, não só no plano religioso, na relação com Deus e o seu mistério, mas, na nossa casa comum, no plano civil, no diálogo com os outros. As grandes obras, empreendimentos, constroem-se, não se resolvem logo. Muitas vezes, Princesa de mim, recordo o que esse grande teólogo e perito conciliar, o dominicano Yves Congar, escreveu no seu Mon journal du concile : A obra realizada é fantástica. E todavia tudo está por fazer. Fala-se por aí muito no chamado acordo sobre a dívida grega. Despidos de preconceitos, admitamos que a enormidade e constância crescente da dívida grega - que, com as de outros parceiros europeus, deve merecer atenção muito séria, sem excluir sequer a possível ou inevitável revisão do modelo económico-financeiro vigente e da própria União Europeia - não é imputável ao Siriza - partido esquerdista, dizem e será, bem sei - mas a outros que compuseram governos anteriores (ou de fora da Grécia os apoiaram) e que, noutros países da periferia europeia, têm homólogos que dão pelo carinhoso nome de "arco da governação"... E também, não esqueçamos, ao tandem franco-alemão que, em Outubro de 2010, se opôs aos programas de assistência temporária a estados membros da UE, enquanto os países de Merkel e Sarkozy não pudessem impor, primeiro, perdas aos credores privados daqueles estados. E já em Maio do mesmo ano, ambos, mais a Holanda, tinham feito o necessário para atrasar uma indispensável reestruturação da dívida grega, para protegerem os seus (deles) bancos, detentores de obrigações helénicas. Estes rapazes gregos actuais - que, curiosamente, entre os que têm assumido a "pasta das finanças", contam reconhecidos economistas de escolas britânicas - apenas prometeram a um povo inquieto ou revoltado por anos de "austeridade" anterior, que lhe piorou a vida, que tentariam bater o pé e discutir outras soluções possíveis. Não o terão feito da melhor maneira, mas sublinhe-se que tampouco lhes foi concedido - a eles e a muitos outros europeus - o tempo e o modo exigíveis para a consideração de um problema que, tal como tem sido posto, e nas condições presentes, não só todos sabemos que é insustentável e insolúvel só por si - nem a Grécia, nem outros estados, poderão pagar a sua dívida pública, e ainda agora o FMI vem reclamar perdão parcial ou longo período de carência para a dívida grega - como é causa de muito sofrimento de populações inocentes. Na verdade - e como, notável excepção entre os "lideres" mundiais, tem repetidamente lembrado o papa Francisco - não estamos, fundamentalmente, perante  problemas contabilísticos, aliás gerados por inúmeros e diversos factores e erros, mas sim de situações dramáticas que devem interrogar o nosso sentido de justiça distributiva, dignidade e solidariedade humana... Ainda ontem, em almoço  de amigos, pedi a um "castigador" dos gregos que, no remanso do seu gabinete, considerasse uma questão aparentemente simples: no decurso dos processos de constituição de dívidas insustentáveis, quem terá lucrado mais: se os que propuseram, venderam e forneceram, ligando créditos às operações; ou, ainda, os financiadores que, com garantias de seguros e cobertura jurídica, institucional e política, foram cobrando juros; se os receptores de bens, ajudas e financiamentos vários, hoje devedores - muitas vezes por má gestão económica ou ilusão política, outras por se terem deixado corromper... Quem certamente, mesmo nos casos em que tenha tido benefícios, pouco lucrou e nunca foi decentemente consultada, foi a massa de gente a que hoje se quer exigir que pague a mentira, ganância e incompetência de políticos e financeiros. Não estamos perante um problema de contabilidade, nem de direita ou de esquerda, de austeridade ou despesismo. As contas têm de bater certas, a gestão financeira tem de ser feita em função do bem comum e do interesse geral. Portanto, as decisões pertinentes, os empreendimentos, e a sua indispensável fiscalização devem ser democráticas, quer no quadro nacional, quer a nível da União. Estamos perante uma questão ética e política. Vai longa esta carta, e também sabes que não gosto de te falar de questões políticas ou técnicas, tratei de muitas - nem sempre bem - em sede própria, talvez mais por dever do que por gosto. E será agora numa crónica da série "Olhar e Ver", que escrevo para o blogue do CNC, que voltarei a esta presente questão. Será a 25ª dessa série, sucedendo à anteriormente publicada e curiosamente intitulada "O Encoberto".  Alonguei-me hoje neste desabafo contigo, por me irritar tanta lengalenga sobre preguiçosos e aldrabões do sul contra virtuosos trabalhadores do norte, e outras tretas... E penso nesses casos de empresas do norte que investem no sul, onde pagam salários mais baixos por produtividades iguais ou superiores, e ao sul vêm vender os seus produtos por preços igualmente elevados, e passar as suas férias e reformas a custos bem inferiores. Não há "Europa" possível - muito menos zona euro - sem mais democracia e entendimento humano e menos desigualdade e mentira. Dou-te um beijo, Princesa.
 

Camilo Maria
   

Camilo Martins de Oliveira



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Quinta-feira, 27.08.15

Morte e Vida Severina.JPG

4.

Compadre José, compadre,

que na relva estais deitado:

conversais e não sabeis

que vosso filho é chegado?

Estais aí conversando

em vossa prosa entretida:

não sabeis que vosso filho

saltou para dentro da vida?

Saltou para dentro da vida

ao dar seu primeiro grito;

e estais aí conversando;

pois sabei que ele é nascido.
 

Falo somente para quem falo, Poeta, que muito há quem padeça de um sono morto. Mas tu sabes que ele é nascido, ele o menino-menina que mesmo sem despertador, eis: que mesmo sem nome que o baptize por inteiro, bate, bate, bate pálpebras face ao sol estridente que lhe cabe pelo mundo, cuidar e cultivar.

Ámen.

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Agosto 2015



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Quarta-feira, 26.08.15

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EVOCAÇÃO HISTÓRICA DE UM CHAMADO “TEATRO NOVO”

Fazemos hoje uma evocação histórica.

Como seria o teatro-espetáculo, as suas salas, atores e público no século XVIII?
Não é descabido, nesta série de referências – que vão desde atores do século XIX até aos que, felizmente, estão hoje em plena atividade – analisar uma peça do século XVIII que precisamente descreve um espetáculo teatral da sua época.

Um espetáculo e uma peça de Pedro António Correia Garção (1724-1772), dramaturgo ele próprio protagonista de um insólito drama pessoal e politico-judicial: alto funcionário protegido pela corte, filho de um secretário do Marquês de Pombal, escrivão da Casa da India, fundador da prestigiosa Academia Lusitana (1756), redator da Gazeta de Lisboa (1760), leva uma vida tranquila junto do poder. Até que, a certa altura cai em desgraça e na mais negra miséria: “filho rotos” ele próprio refere. Ou, como escreveu o seu contemporâneo José Basílio da Gama, “cheio de sarro/ roto o vestido /hirsutos os cabelos/ a boca negra/ os dentes amarelos”!...

E mais: sem que até hoje se conheçam as razões, é encarcerado na cadeia do Limoeiro em 9 de Abril de 1771 e lá virá a morrer, sem julgamento, em 19 de Novembro de 1772.

Queremos então referir a peça de Correia Garção denominada precisamente “Teatro Novo”, pois, além do valor literário e dramatúrgico, documenta de forma direta o meio teatral e a própria sociedade do seu tempo.

Trata-se de uma comédia familiar. A família de Aprígio Fafes vive em dificuldades financeiras. Eis porem que o “compadre Artur Bigodes” regressa rico a Lisboa depois de anos no Brasil, onde fez fortuna “passando tantos dias/ Por duros morros, por incultas fragas”. Logo se arma uma conspiração: há que casar o Artur com uma das filhas de Aprígio, Aldonsa ou Branca. E a forma de o seduzir é organizar um espetáculo teatral.

Tal como escreveu António José Saraiva, “na sua comédia O Teatro Novo Garção reúne uma pequena mas variada assembleia para discutir o repertório que irá ser apresentado num teatro com os capitais de um brasileiro de torna-viagem”. (in “Obras Completas” de Correia Garção, vol. II “Prosa e Teatro” – pág. XLIX). O debate é intenso pois cada um tem o seu gosto e a sua ideia. Mas quem vai pagar toda a iniciativa é o “compadre Artur”.

Este, sem suspeitar das intenções, concorda com a representação:
“aprovo/ A ideia do teatro; é bom projeto./ O ponto só consiste em desbancarmos/ O da rua dos Condes e Bairro Alto” - curiosa referência a estes dois teatros de Lisboa, que aliás já aqui foram evocados.

Ora bem: a conspiração resultou. Artur casa com Aldonsa e dota Branca. E tudo isto se deve ao teatro. “O teatro/ Depende mais que tudo do poeta” e “errado vai quem julga que o teatro/ só para divertir o povo rude/ Dos antigos poetas foi achado”, até porque “a mudança de vistas sobre vistas, as tramoias/ mares, incêndios, drogas e batalhas/ são cousas de que o povo se enamora”. O que realça certo predomínio da cena sobre o texto em si.

E a peça termina com uma evocação erudita de Aprígio sobre o teatro português:

“Inda o fado não quer, inda não chega/ a época feliz e suspirada/ De lançar do teatro alheias musas/ De restaurar a cena portuguesa./ Vós, manes de Ferreira e de Miranda/ E tu, ó Gil Vicente a quem as Graças/ embalaram o berço, e te gravaram/ Na honrada campa o nome de Terêncio”…

Destaco a evocação: “restaurar a cena portuguesa”, neste caso, diz-nos Pedro António Correia Garção, através de um grupo de amadores. Mas como vimos, são citados dois teatros onde atuavam certamente alguns dos atores e atrizes cujo registo chegou até nós: António José de Penha, Francisca Eugénia, João Inácio Henriques, Vitorino José Leite, Joana Inácio da Piedade, José António Ferreira… E citamos desde finais do século XVIII até inícios do século XIX. O que não sabemos é como representavam…

DUARTE IVO CRUZ

 



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