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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

O TEATRO GIL VICENTE DE CASCAIS

  

 

MODELO DO AMBIENTE CÉNICO-ARQUITETÓNICO DO SÉCULO XIX

 

O Centro Nacional de Cultura realizou um “Passeio de Domingo” a Cascais, que incluiu alguns dos mais notáveis exemplos de património histórico e arquitetónico de expressão cultural e religiosa, designadamente a Igreja da Assunção, a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, o Palácio da Cidadela, o Museu Condes de Castro Guimarães e o Teatro Gil Vicente. Dirigiu o conjunto da visita Anísio Franco, com quem partilhei a abordagem sobre o Teatro.

Ora, importa situar a construção do Teatro Gil Vicente no contexto global da Cascais histórica tendo em vista, no que respeita especificamente ao Teatro, alguns fatores que até hoje, o singularizam no contexto do património teatral português, perspetivado na abrangência da expressão: edifício e atividade cénica e cultural.

Trata-se, antes de mais, de um dos poucos “sobreviventes” em plena atividade daquilo a que chamo a geração dos teatros que, um pouco por todo o país, foram sendo contruídos na sequência da inauguração do Teatro de D. Maria II em Lisboa, no ano de 1843. Não restam muitos, como aliás aqui temos visto: e no caso presente, há que assinalar a conservação da arquitetura teatral da época e a respetiva rentabilidade cénica a artística.

Este Gil Vicente de Cascais data de 1869: Sousa Bastos, no “Diccionário do Theatro Português” (1909) evoca a inauguração, em 15 de agosto daquele ano, com um drama, “O Ermitão da Cabana” e uma comédia, “Matheus do Braço de Ferro”: programa habitual na época! E mais diz que que o Teatro foi construído por iniciativa algo inesperada de um capitão da marinha mercante e armador, de seu nome Manuel Rodrigues de Lima, no espaço urbano em que teria existido um pequeno teatro adaptado de um armazém.

Os trabalhos foram dirigidos por José Vicente Costa “carpinteiro de Caparide”, assim mesmo: e mais, acrescenta Sousa Bastos “o cenário (das peças da estreia) consta de três salas ricas, uma pobre, jardim, praça e mar, deve ser magnífico, pois foi ainda pintado por Rambois e Cinatti”, efetivamente grandes nomes da cena portuguesa da época.

Curiosamente, Sousa Bastos ainda esclarece que o Teatro já servia de sede da “Associação Humanitária Recreativa Cascaense com 4 secções: bombeiros voluntários, filarmónica, grupo dramático e sócios contribuintes”… Ora, passado mais de um século, manteve-se a ligação institucional aos Bombeiros de Cascais, entidade com a designação, a partir de 1942 de Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cascais.

Por seu lado, Ferreira de Andrade recorda que “pelo Gil Vicente passaram as maiores figuras do teatro de então”, citando grandes nomes da época: Vale, Beatriz Rente, Mercedes Blasco, Pereira da Silva… (cfr. “Cascais Vila da Corte” e “Monografia de Cascais”, ed. Câmara Municipal de Cascais). E ao mesmo tempo, o Gil Vicente acolhia récitas de amadores, animadas até pelo Rei D. Luís, que era espectador habitual: ”gostava de assistir aos espetáculos no Gil Vicente”, diz-nos Maria José Pinto Barreira de Sousa, que reproduz um longa conversa do Rei em 1878, recordando alguns desses espetáculos. No estudo referido são evocadas sucessivas temporadas de teatro até finais do século XIX. (cfr. “Cascais - 1900”, ed. INAPA, 2003)

Por meu lado, assinalei designadamente uma récita de 1895, dirigida por Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro e, em 1915, um facto pouco conhecido: a estreia de uma revista composta e cantada pelo então jovem Pedro de Freitas Branco (1896-1963) que tanto marcaria, como maestro, a história da música portuguesa. (cfr. “Teatros de Portugal”, ed. INAPA, 2006, pág. 36)

Mas é altura de passarmos a anos mais recentes.
Em 1965 Carlos Avilez inicia, no Teatro Gil Vicente, a atividade do Teatro Experimental de Cascais. E lá se conservou, na direção desta companhia referencial, até 1977. Note-se bem a expressão: “referencial” foi efetivamente o TEC que, ao longo de dezenas de anos, procedeu (e ainda procede, noutro teatro) a uma renovação da cultura e do meio teatral português, ao nível de repertório, ao nível de elencos e até do relacionamento do público com o teatro.

Importa ter presente que as versões/encenações de Carlos Avilez no TEC assumiram sempre uma expressão de modernidade, mesmo quando se trata de autores clássicos ou românticos, nacionais ou estrangeiros. Recordem-se alguns, entre tantos mais: Gil Vicente, António José da Silva, António Ribeiro Chiado, André Brun, Paço d’Arcos, Bernardo Santareno, Alice Vieira, Norberto Ávila, Shakespeare, Frederico Garcia Lorca, John Osborne, Arrabal, Jean Tardieu, Samuel Beckett, Jean Genet, Bertold Brecht e tantos mais…

Efetivamente, como noutro lado escrevi, o grande momento histórico do Gil Vicente de Cascais decorre nos anos 60 e 70 do século passado, com o Teatro Experimental de Cascais mas também com os Cursos Musicais de Verão da Costa do Sol. O TEC marca de facto uma época, formara um público e dezenas de artistas e, mais ainda, renovara um repertório e cria uma certa mentalidade - até hoje.

 

DUARTE IVO CRUZ

  

 

 

LONDON LETTERS

 

Mr Corbyn goes to Liverpool, 2016-17

 

Há ali uma espécie de inocência e há ali algo de diabólico. Entre a suavidade do seu amado líder, Mr Nice Guy, o maquiavelismo do chanceler sombra, Mr Bad Guy, e a ferocidade dos divididos regimentos, o trabalhismo britânico está em triste encruzilhada ideológica.

RH Jeremy ‘Red’ Corbyn vence, pela segunda vez no espaço de um ano, a liderança do Labour Party. Está tanto mais forte quanto a causa debilitada. — Chérie! Sans tentation, il n'y a point de victoire. A Prime Minister RH Theresa May está sob fogo dos… Cameroonists. As adagas giram ainda em torno da Brexit inside story. Já o Number 10 recebe Herr Martin Schultz, com o EU Parliament President a ajudar à consolidação do público adeus. — Well! A fox is not taken twice in the same snare. Na White House Race é a contagem decrescente para o muito esperado primeiro dos três debates entre Mrs Hillary Clinton e Mr Donald Trump. Meanwhile, o US President deixa legado oratório na United Nations General Assembly. Britain censura Russia pelo fracasso do último cessar fogo na Syria, em eco de war crimes. A Countess Sophie of Wessex chega a Buckingham Palace, com fanfarra, família e flores, após épicos 800 km em bicicleta desde Holyroodhouse para apoio filantrópico aos 60th Duke of Edinburgh's Awards. Os Young Royals visitam Elizabethean Canada. A University of Oxford é classificada como a melhor universidade do mundo, o que posso pessoalmente corroborar.

Mainly dry and breezy weather at London. Vamos dizê-los um a um para dar o tom. A Labour Party Conference abre com a decisiva vitória do brave new old leader: RH Jeremy Corbyn arrecada 61,8% dos votos (+2% que antes) dos membros, afiliados, simpatizantes e apoiantes registados no sufrágio do comando, face a 38,2% de RH Owen Smith MP, o rival por cá conhecido como “Owen Who?” Uma imediata sondagem da Sky News entre a militância conclui que 59% declara que o partido “can’t win” as legislativas de 2020 com o atual rumo (incluindo 93% de assumidos corbynistas) e 45% espera até não mais ver um governo trabalhista no seu tempo de vida. Uma outra internal polling realizada pela Survation/LabourList revela hoje que a HM Most Loyal Opposition perde terreno para os Tories desde a derrota eleitoral de 2015, em oito de nove temáticas políticas. O amigável analista conclui que os resultados “puts Labour on course for worst election defeat since 1935.” Finalmente: Contas feitas à despesa pública no fecho do dia dedicado à economia na arena de Liverpool somam “£250billion” em infraestruturas e aumentos salariais. Os jornais de amanhã dirão do detalhe da magic money tree, a par da equívoca política de defesa no pipe dream.

Também intranquilas andam certas franjas conservadoras. Com o ex Chancellor George Osborne MP a posicionar-se em todas as oportunidades para eventual coroação futura, hipótese sempre contrariada pela ausência da guerra e da fome por si profetizadas para o voto Leave EU, Westminster sorri com os segredos de polichinelo que levam à demissão do PM David Cameron dados à estampa pelo seu Director of Politics and Communications. O ora Sir Craig Oliver é o autor de Unleashing Demons: The Inside Story of Brexit, um diário sobre o euroreferendo visto de Downing Street. Os aperitivos do livro, um entre vários que se anunciam sobre a decisão, espalham-se pela Sunday Press. Especialmente visados pelo antigo spin doctor são os Brexitters, de RH Boris Johnson a RH Michael Gove, apimentadamente desnudados por desertarem do 10, mas também a atual Premier. Aponta-se o dedo a RH Theresa May por alegada “Brexit blame,” nomeadamente pela recusa em maior envolvimento na campanha. Se a senhora faz dois discursos a favor do Remain, sublinha-se que o antecessor lhe faz sucessivos apelos “to come off the fence.” A tática do “a fight alone” é tão exótica quanto foi o Project Fear. Ainda assim, fica registo de Mrs T ser no Cam Govt “an enemy agent” (ou “Submarine May”) e de a então Home Secretary considerar o célebre travão negociado com Brussels para controlar a circulação de pessoas como a “emergency fake” (e não emergency brake na emigração).



Entre estórias de sacos de tarecos, pois, importa ressalvar que tanto Larry como Gladstone e Palmerston continuam no bom exercício de funções em Whitehall como the high mouse officers. Dois outros Top Cats prestam desempenho histórico esta noite. A horas de duelo presidencial, as TVs &co aquecem as emissões com debates e reportagens sobre os dois candidatos restantes na batalha pelo poder da superpotência ocidental. A nota dominante cá e lá é… a imprevisibilidade. Hillary v Donald falarão para uma plateia global, mas as suas atenções incidem nos estados chave da US Election como os indefinidos Pennsylvania, Maine, Ohio ou Florida. Daí que peculiares propostas políticas como “the wall” e “the Muslim emigration ban” soem envoltas no “bringing jobs back to America” e a par da ameaça terrorista do Isis. — Well! Let us bear in mind what Master Will says about the tune through the attentive mind of Lorenzo in The Merchant of Venice: — The man that hath no music in himself, / Nor is not moved with concord of sweet sounds, / Is fit for treasons, stratagems, and spoils. / The motions of his spirit are dull as night, / And his affections dark as Erebus. / Let no such man be trusted. Mark the music.

 

St James, 26th September 2016

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS


     De 26 de setembro a 2 de outubro de 2016

  

 

Alice Vieira é justamente uma das mais celebradas escritoras dedicadas aos mais jovens, sendo uma autora completa, que divide a sua criatividade pela poesia, romance e ensaio. Ao tratar com cuidado e criatividade temas diversos, desde as narrativas tradicionais ao quotidiano, passando pela invocação histórica – como em «Este Rei que Eu Escolhi», em que a aclamação de D. João I é ocasião para lembrar um acontecimento histórico e apelar à responsabilidade cidadã – torna a leitura e a literatura algo de próximo e apetecível. 

 

 

ESCREVER PARA O MOMENTO PRESENTE

Alice Vieira faz da literatura um ato de prazer e de recordação. Lê-la nos diferentes registos, que usa com arte, significa encarar a plasticidade das palavras como um modo de nos permitir uma melhor compreensão da vida. É, de facto, da vida que Alice Vieira trata – e tal nota-se especialmente na escrita multifacetada que pratica. Partindo do quotidiano ou das histórias tracionais, na linha de Adolfo Coelho e Teófilo Braga, procura ligar o sentido cívico e pedagógico. Compreende, assim, que a melhor tradição popular da narrativa visa educar, instruir, lembrar, alertar, suscitar, dar atenção, prevenir, intervir e participar. É preciso compreendermos a origem desse veio de criatividade. Trata-se de preparar a iniciação à vida vivida, com todas as prevenções necessárias. E se o conto popular causa tantas vezes perplexidade, tal deve-se à obrigação pedagógica. É preciso que o tema seja suficientemente impressivo para que os seus destinatários o compreendam. Mas Alice Vieira escreve para os leitores de agora e por isso apresenta os temas e as situações de acordo com o momento atual. Não se trata de fazer recordação histórica, mas compreender o público dos dias de hoje – interessando-o e motivando-o. Quando lemos Esopo ou Fedro, Charles Perrault ou os irmãos Grimm, percebemos que se trata de pegar na tradição para alertar as crianças e os jovens, que se iniciam no mundo, contra todos os perigos que a natureza e os homens nos reservam. E Alice Vieira compreende-o bem ao aproximar as narrativas das preocupações do momento presente… Sem iludir ou escamotear a realidade, a autora dá um sentido positivo às lições que pretende transmitir. E que sentido é esse? O da compreensão de que a literatura, no seu todo, deve constituir-se num espaço com várias entradas, em que o fantástico se une ao real, o maravilhoso ao incerto, o fácil ao difícil… Estou a ouvir o meu avô Mateus, a dizer-nos, num ritmo cadenciado, a lengalenga tradicional - «Corre corre cabacinha / Não vi velha nem velhinha / Nem velhinha nem velhão / Corre corre cabação»… O lobo, o urso e o leão não se entendiam, admirados com o inesperado que se estava a passar… E assim, naquelas três ameaças resumiam-se os males que nos podem ameaçar, enquanto a esperteza da velhinha salvava o que havia a salvar… E, de um modo despretensioso, de quem quase nem se dava conta, podíamos entender que tudo estava em ter respostas inteligentes e em apanhar desprevenidos o lobo, o urso e o leão – considerados símbolos das ameaças do mundo… E foi esse relato antigo que encontrei sem uma ruga no texto de Alice Vieira…

 

A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA JUVENIL

Trata-se de assumir a magia serena de uma história edificante, em que a inteligência pode vencer a irracionalidade. A literatura infantil e juvenil tem um papel decisivo na formação das pessoas e das sociedades. Não se trata, porém, de fazer um compartimento fechado ou à parte, mas de utilizar um modo especial de sensibilizar a comunidade para os seus temas fundamentais. A maior parte dos textos da literatura juvenil destinou-se originalmente a todos. As narrativas tradicionais ensinam todos, e apela a que se faça uma transmissão eficaz das mensagens às gerações futuras. Lembramo-nos da fórmula clássica – histórias contadas às crianças e lembradas ao povo… E quando nos dirigimos às crianças recordamos a sociedade no seu conjunto: se os mais jovens são alvo preferencial da pedagogia, todos os outros são os que estão cientes de que o saber não ocupa lugar e de que o aprender é a chave do avanço histórico. Daí a dificuldade do género literário, uma vez que o público jovem é exigente e curioso – e Alice Vieira bem o compreende, praticando com cuidado a regra da identificação, tomando o lugar de um dos seus leitores – com uma escrita que é de facto para todos. E se falo de identificação é para salientar o mimetismo da aprendizagem que se estabelece entre a escritora e os seus jovens leitores. Um mimetismo que tem a ver com os temas, com a forma de os apresentar, com a clareza, com a proximidade e com a escolha das palavras. Há uma especial afetuosidade que perpassa nesta escrita e que a torna acolhedora e um meio de incentivo à leitura – tornando o sentido pedagógico eficaz, mas também exigente, pelo rigor na construção das frases e da narrativa. A obra fala por si. Do jornalismo à poesia, passando pelo romance, presenciamos um culto e um domínio seguro da língua portuguesa – que, naturalmente, se projeta no género em que mais se celebriza. Recebeu, por isso, os Prémios Gulbenkian pelo conjunto da sua obra e por «Este Rei que eu Escolhi». O êxito junto dos mais jovens é corolário de uma exemplar escolha de temas e pela mestria inequívoca na escrita.

 

O INCENTIVO À LEITURA

A melhor homenagem que podemos fazer a Alice Vieira é salientar o seu papel fundamental no incentivo à leitura, na melhor tradição de grandes escritores que escreveram para crianças e para todos, usando temas relevantes – desde a História às tradições, dos contos tradicionais à relação amigável com a natureza, desde a solidariedade à responsabilidade cívica. No fundo, incentivar a leitura é dar à cultura uma força criadora especial. É pôr em contacto as diferentes gerações. É ligar os vários momentos de uma história viva. É considerar a aprendizagem como o fator do desenvolvimento por excelência. É fazer dialogar os poetas e os escritores das diferentes gerações. É ir ao encontro do povo e da sua extraordinária capacidade para tornar vivos os valores fundamentais, como a dignidade humana. Alice Vieira faz da literatura um ato de prazer e de recordação.

 

Guilherme d’Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Por muitos anos - nem me lembro  quantos! - íntima-impulsivamente me punha a ouvir as Canções às crianças mortas, os cinco Kindertotenlieder do Gustav Mahler. Friedrich Rückert (1788-1866), poeta romântico alemão, terá escrito 428 poemas de saudade e dor - pensossinto que bem sofridos - em 1836, quando lhe morreram dois filhos. A sua publicação foi póstuma... Hoje em dia, ninguém sabe quem Rückert foi, e dos seus poemas resta a lembrança das canções em que se converteram, sobretudo os que Mahler pôs em música: cinco Kindertotenlieder e mais cinco outras canções. Mas o compositor não tinha ainda filhos mortos, nem casado estava, quando compôs essas canções às crianças mortas. Há quem pretenda que seria pela morte de seu irmão Ernst, eu antes creio que terá sido por um forte pensarsentir o íntimo dos poemas de Rückert. O que ora te digo, Princesa de mim, é autenticamente muito subjetivo, tem muito a ver com o tal impulso que tantas vezes me levou a pôr a tocar discos de, primeiro, 78, e, mais tarde, 33 rotações...para escutar os Kindertotenlieder! De há uns anos para cá, limitado aos CD´s, alterno entre a versão Bruno Walter/Kathleen Ferrier (1952) e a de Leonard Bernstein/Thomas Hampson (1986), entre dois grandes maestros e uma contralto contra um barítono. Comovo-me sempre, são certamente tocantes os intérpretes, é fortemente cardíaca a música... E, todavia, quando encontrei - nem sei como, nem exatamente quando nem onde - a poesia de Rückert, traduzi um kindertotenlied que nenhum Mahler musicou. Teria 15 ou 16 anos? E porque o fiz então, e guardei essa tradução em letra de adolescente quase a deixar de ser romântico? Não sei. Sei só que a reencontrei agora, perdida na papelada que vou arrumando ou rasgando, em vésperas de retiro definitivo para o campo...

   Antes de a transcrever, quero todavia dizer-te que a reli a uma luz diferente, tal como diferentemente me soou o coração dos kindertotenlieder, que hoje novamente escutei. Talvez por ontem ter recebido de um velho amigo, que eu não via há 50 anos, era ele ainda 1º tenente da marinha de guerra e fuzileiro naval - quando, hoje, é padre e frade dominicano - um crucifixo trabalhado por monjas dominicanas contemplativas, em que o Cristo não está de braços esticados e pregados, mas é salvador e abraça um filho pródigo à sua frente ajoelhado. Eis quando, na morte, momento certo ou visão perseguidora, a vida vence. Olho essa cruz de misericórdia, pousada na palma da minha mão e recito, com coração novo, as quadras de Rückert que traduzi (há sessenta anos?):

 

Du bist ein Shatten am Tage                               

Und in der Nacht ein Licht;                                  

Du lebst in meiner Klage
Und stirbst in Herzen nicht.

 Wo ich mein Zelt aufschlage,                               

Da wohnst du bei mir dicht;                                 

Du bist mein Schaten am Tage  
Und in der Nacht mein licht.

            

Wo ich auch nach dir frage,                                                             

Find dich vor dir Bericht,                                      

Du lebst in meiner Klage                                       

Und stirbst im Herzen nicht.                                 


Du bist ein Schatten am Tage   
Und in der Nacht ein Licht;                                  

Du lebst in meiner Klage 
Und stibst im Herzen nicht.    

 

Sombra és de dia

e luz na escuridão;

vives na minha agonia

não me morres no coração.

 

Onde for minha a moradia,

aí me habitas o coração:

és minha sombra de dia

minha luz na escuridão.

 

Quando de ti inquiria,                                

tinha esta revelação:

vives na minha agonia

não me morres no coração.

 

És uma sombra de dia

uma luz na escuridão;

vives na minha agonia

não me morres no coração.

         

 

          

   Se a saudade é presença na ausência, se - como tão lindamente cantava Maria Teresa de Noronha - a saudade é como a luz / que o sol já morto deixou: / é presença, embora cruz, / na alma de quem ficou! /, é autenticamente saudoso este poema do alemão Rückert. E, neste crucifixo que descansa na palma da minha mão, em que o Cristo é um pai que se abraça a um filho pródigo, cujo rosto se esconde no peito paterno, vejo e sinto uma imensa saudade, a nossa peregrina saudade de Deus. Não o vemos, muitos de nós nem acreditam que Ele seja possível.  Ele é, no nosso dia, uma sombra, adivinhamos apenas o seu rosto nos rostos humanos, à nossa volta. Assim Ele se fez carne e habitou entre nós. E sentimo-lo na nossa noite, é - ou talvez seja - a luz que brilha no escuro coração da nossa saudade.

   Sempre penseissenti o cristianismo como vivência minha, nossa, da humanidade de Deus: a paixão de Cristo é o sofrimento de todos nós, ensina-nos que nunca estamos sós, que é de todos a mesma dor de cada um, e a comunhão na esperança que nos ilumina. Somos todos oferta, por Cristo, com Cristo, em Cristo. As mães e os pais que perderam filhos sentiram, como ninguém mais, o peso do absurdo, essa força da gravidade que nos abate por terra e nos quer isolar e fechar. Só o sopro da graça poderá levantá-los do chão. Quiçá como nesse lied, em que o poema de Friedrich Rückert começa assim: Oft denk´ich, sie sind nur ausgegangen!, "Muitas vezes penso que eles apenas saíram!" Dele fez Gustav Mahler o quarto dos seus cinco Kindertotenlieder, cuja melodia tão bem canta uma misteriosa desilusão da dor, esse amanhecer da consolação, o conforto da comunhão dos santos. Traduzo-o agora, prosaicamente: os sentimentos espontâneos são, afinal, muito íntimos, dispensam grandiloquências...

 

             Muitas vezes penso que eles apenas saíram!

             Em breve voltarão para casa!

             Está um belo dia, não te inquietes,

             eles foram só dar um grande passeio...

 

             Pois é, eles apenas saíram,

             e vão voltar para casa agora.

             Não te inquietes, está lindo o dia!

             Eles só foram passear até às colinas.

 

             Eles apenas saíram à nossa frente,

             já não quererão voltar para casa!

             Vamos ter com eles lá acima, à luz do sol!

             Está um dia lindo no alto das colinas!

 

   E como que a pedir, Ele também, perdão, o Pai se debruça e acolhe, em humano abraço, o regresso dos filhos pródigos.

 

Camilo Maria                      

 

Camilo Martins de Oliveira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

 

Acerca das Pontes do Porto – D. Maria Pia, D. Luís e Arrábida.

 

Só no início do séc. XIX (em 1806) foi construída a primeira ponte que liga a cidade do Porto a Vila Nova de Gaia e que atravessa o rio Douro. Era constituída por 20 barcas ligadas por cabos de aço e por isso designada por Ponte das Barcas. O aumento do tráfego e a grande actividade comercial que caracterizava o Porto, fez com que a Ponte das Barcas fosse substituída pela Ponte Pênsil, em 1843, a primeira ponte metálica construída em território português.

 

Em Portugal, a revolução industrial arrancou mais tarde do que em outros países da Europa (como em Inglaterra e na Alemanha). Mas entre as décadas de 1850 e 1880, Fontes Pereira de Melo propôs-se a criar riqueza para consolidar o regime constitucional e a transformar o país de modo a integrá-lo numa Europa que passava por uma época de grande prosperidade. Com a abertura de estradas e ao introduzir o caminho-de-ferro, Fontes Pereira de Melo permitiu a ligação entre povoações num país cujo principal meio de locomoção ainda era a mula. O primeiro troço de via-férrea em Portugal foi inaugurado em 1856 e ligava Lisboa ao Carregado. Nas décadas seguintes o Estado promoveu, em associação com empresas privadas, a expansão de uma considerável rede de transportes – só entre 1856 e 1890 foram lançados 1689 Km de linha férrea. Na década de 1880, empreendimentos grandiosos como a ponte ferroviária D. Maria Pia e ponte rodoviária D. Luís I representavam um esforço acrescido e importante por parte do Estado na promoção de uma certa ideia de prosperidade. Ao promover melhoramentos materiais, fazer circular com mais facilidade bens, capitais e pessoas e ligando Portugal com o resto da Europa (a construção da linha de caminho de ferro permitiu que Paris ficasse de Lisboa somente a dois dias de distância) aspirava-se a aumentar a matéria colectável e assim habilitar os poderes públicos a poder acorrer às despesas necessárias.

 

De facto, a utilização do ferro fundido, muito divulgado na Era Industrial aquando da expansão das linhas de caminho-de-ferro, trouxe aos projetistas a possibilidade de construir pontes com soluções inovadoras no que diz respeito à geografia do terreno e a sua vasta aplicação (em estações, mercados, salas de espectáculo, armazéns, elevadores, garagens, quiosques, lavadouros, fábricas, etc.) deveu-se à facilidade do seu manejamento, à rapidez da sua montagem e à economia de meios. Sendo assim a Ponte D. Maria Pia (1876-77),da autoria de Théophile Seyrig, na altura colaborador da empresa do engenheiro francês Gustave Eiffel (que se instalou em Barcelos entre 1875 e 1877, para poder seguir o curso das obras da ponte de mais de perto), apresenta um modelo pioneiro de uma ponte construída em tempo recorde, em ferro fundido com um grande vão. Esta ponte somente ferroviária era na altura da sua construção, a que apresentava o maior vão da Europa. Foi também a primeira ponte ferroviária a atravessar o rio Douro e a ligar as Fontaínhas a Vila Nova de Gaia. É constituída por um arco biarticulado que, através de pilares em treliça, suporta o tabuleiro ferroviário. A ponte foi inaugurada em 4 de Novembro de 1877 e contou com a presença do casal real D. Luís I e D. Maria Pia. Após 114 anos de funcionamento, a Ponte D. Maria Pia foi desactivada. Era dotada de uma só linha e só uma composição com uma carga limitada podia passar de cada vez, a uma velocidade máxima de 20 Km/h. E assim em 1991, a Ponte de S. João foi construída para passar a servir a Linha do Norte.

 

Na segunda metade do séc. XIX o comércio progredia no Porto, o tráfego para Gaia e para Lisboa aumentava e por isso a necessidade de uma ligação rodoviária ainda mais eficaz, levou ao desmantelamento da Ponte Pênsil para no mesmo local se construir a Ponte D. Luís I, inaugurada em 1886. A Ponte D. Luís I é uma ponte rodoviária e é a ponte mais antiga do Porto ainda em funcionamento. Tornou-se um dos símbolos da cidade pela sua estruturação em dois tabuleiros metálicos (um inferior e outro superior), sustentados por um grande arco de ferro e cinco pilares. Os dois tabuleiros, originalmente serviam como ligação rodoviária entre as zonas baixa e alta de Vila Nova de Gaia e do Porto. Durante décadas a ponte ligou o norte e o sul do país. O projecto da Ponte D. Luís foi também executado pelo engenheiro belga Théophile Seyrig. Em 1879, fora aberto um concurso para a construção de uma ponte metálica que substituísse a Ponte Pênsil. Diversas propostas e concorrentes apresentaram-se a concurso e o projecto da empresa de Gustave Eiffel foi rejeitado porque só contemplava um tabuleiro ao nível da Ribeira. Foi assim vencedora a proposta da empresa belga Société de Willebroeck, com o então projecto do engenheiro Théophile Seyrig, autor da concepção e chefe da equipa de projecto da Ponte D. Maria Pia. Em 1881, inicia-se a construção da Ponte D. Luís I e à inauguração do tabuleiro superior, em 1886 sucedeu a abertura do tabuleiro inferior em 1888. Nos dias de hoje, o tabuleiro superior serve uma das linhas do metro do Porto e o tabuleiro inferior serve ainda para peões e veículos automóveis.

 

Por sua vez, a Ponte da Arrábida, da autoria do engenheiro Edgar Cardoso, foi a segunda ponte rodoviária a ser construída sobre o Douro, e que liga também o Porto a Vila Nova de Gaia. Inaugurada em 1963 veio dar resposta a um aumento significativo do fluxo de circulação rodoviária na ponte D. Luís I, sobretudo causado pelo acentuado crescimento demográfico que se registava na área metropolitana do Porto. A necessidade de uma travessia alternativa tomou forma por iniciativa da Junta Autónoma das Estradas, que em 1952, adjudicou a elaboração de um anteprojecto, para uma ponte entre a zona da Arrábida e o nó do Candal, ao engenheiro Edgar Cardoso. O projecto foi aprovado em 1955 e a sua construção iniciou-se em 1957. Aquando da sua inauguração, em 1963, a ponte registava o maior arco construído em betão armado do mundo. O arco sustenta uma plataforma com um comprimento total de 615m, apresenta um vão de 270m e 52m de flecha e é constituído por duas costelas ocas paralelas de 8m de largura, ligadas entre si por contraventamentos longitudinal e transversal. Originalmente, apresentava duas faixas de rodagem e duas faixas laterais para peões e ciclistas. A ponte dispõe de quatro elevadores para peões, para permitir a travessia pedonal entre as duas margens. Nas torres dos elevadores podem observar-se quatro esculturas ornamentais da autoria de Barata Feyo e de Gustavo Bastos. A ponte faz parte da auto-estrada que faz a ligação entre o norte e sul de Portugal.

 

 Ana Ruepp

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

  Le Monde des Religions publicou recentemente (setembro/outubro de 2016) um número sobre o véu e a sua história. É aí que recolho os testemunhos femininos que para ti traduzo.

  1. Nawal (pseudónimo) tem 29 anos, medrou num subúrbio de Paris, no seio de família muçulmana, numerosa e modesta, até ter conseguido obter o grau de mestre em recursos humanos: Quanto a mim, penso que o ser humano tem essa incrível capacidade de velar o rosto, literalmente. A vida é angustiante, porque constitui um mistério que ninguém consegue ainda determinar, nem cientistas, nem pessoas muito piedosas. Tenho a impressão de que pomos o véu para nos protegermos do olhar dos homens, para não lhes chocar a sensibilidade. Isso cria-me um problema. Se o homem se incomoda com o que é belo -  um rosto, um cabelo -, não cabe à mulher submeter-se a ele, esforçar-se por algo de que não é, de modo algum, responsável. Gostaria que as muçulmanas veladas se informassem sobre a dificuldade de se ser uma mulher não velada nos países religiosos, onde não têm liberdade de escolha. Nos países ocidentais, a dominação masculina também é muito pronunciada. Conquistar-se um lugar, enquanto mulher, no meio laboral e na sociedade, dá muito trabalho. Combatemos corajosamente para impor a nossa independência económica e social. Penso que usar véu não será a melhor estratégia para uma vida feliz, livre e autónoma. Antes servirá de travão. Velar-se é velar a cara. Todavia, gostaria tanto que a religião muçulmana brilhasse novamente. Só se ouve falar do seu lado sombrio. Embora cada comunidade religiosa tenha o seu, é claro que, nestas últimas décadas, foi o islão que confortou mais angústias.

  2. Nour, de 23 anos, exerce serviço cívico na associação Coexister: Uso o véu desde há dez anos. Para mim ele faz parte das obrigações religiosas que competem a uma mulher muçulmana a partir da puberdade. No colégio, punha-o depois das aulas. Isso não chocou ninguém à minha volta: vivia em Barbès, um bairro parisiense onde reside uma maioria de emigrantes de origem magrebina e africana. Não pensava em todo o alcance desse símbolo religioso, sobretudo nas suas dimensões antropológicas e sociais. Não senti olhares hostis até ir para a faculdade, no bairro de Saint-Michel, onde pude encontrar pessoas de meios muito diferentes. Espiritualmente, o véu é uma lembrança do divino. Para mim, tem um significado muito semelhante ao do kippa [solidéu judaico]: há um Deus por cima do véu e um ser humano por baixo. Socialmente, o véu é claramente um meio de identificação dos membros da comunidade, mas é também um sinal de modéstia. Insere-se no enquadramento geral do pudor no islão, capítulo muito importante. Mas não se trata apenas de cobrir o corpo, é preciso também adotar um comportamento pudico, uma certa direiteza. O princípio consiste em ser-se modesta relativamente ao que nos gratificou, sejam bens materiais, um físico vantajoso, ou mesmo um estatuto social. O mesmo se pede aos homens, mas noutros aspetos: por exemplo, não têm o direito de trazer ouro, seda, tecidos preciosos, vestes extravagantes, o que mostraria orgulho. Hoje, poderíamos falar antes de um Rolex [risos].

 

   Duas jovens muçulmanas, ambas crescidas e educadas (com formação universitária) em França. Uma explica porque não usa véu. A outra porque o traz. Ambas serenas, com inteligência atenta e fina sensibilidade. Deram-me que pensar e sentir, Princesa, duas mulheres novas que me encheram de respeito. Há questões que não podem e não devem ser tratadas, nem com leviandade, nem com rigidez, menos ainda com brutalidade. Como diz a Nawal, a vida humana é um mistério, que nem cientistas nem pessoas muito piedosas conseguiram ainda desvendar. Só por isso é infinitamente respeitável, e é sagrado o íntimo de cada um de nós. Termino esta carta com os testemunhos de duas freiras católicas, com os quais, ambas as jovens muçulmanas, cada qual a seu modo, com mais ou menos acordo, serão certamente capazes de comungar, na capacidade de discernimento e liberdade. E no desejo de afirmação e audiência. 

  3. A irmã Maria Rosangela é a superiora geral italiana do Instituto das Irmãs da Imaculada, em Génova: Para mim, o véu tem este significado simbólico: reservar para alguém a nossa própria beleza e pessoa. No caso das religiosas católicas é um sinal de pertença a Deus. Além disso, o véu identificou a vontade de certas religiosas de serem, por opção exclusiva de vida, lembranças vivas da presença de Deus entre as pessoas. Num mundo em que se procuram sinais, creio que é importante, também no domínio religioso, ter algo que nos qualifique, que ajude os outros a identificar-nos imediatamente. No quotidiano, o meu véu recorda-me o meu compromisso: o que represento ao trazê-lo deve corresponder à realidade de que dou testemunho. Todas as manhãs isso me ajuda a lembrar-me de quem sou. O véu que trago é bastante invasor, quer pela forma, quer pelo tamanho! Graças a ele, pude acolher confidências de pessoas, que à partida eu não conhecia de todo, e que confiaram em mim. Também fui provocada e contestada, marginalizada. Hoje em dia, ser religiosa católica e mostrá-lo, pode irritar certas pessoas. Mas, por vezes, o véu permite-me entrar em contacto com pessoas que, ultrapassando os seus preconceitos, conseguem ter conversas enriquecedoras. Sem esse sinal claro de pertença a Deus, dificilmente teria beneficiado desse género de encontros.

  4. A irmã Fabíola Gusmão é timorense, carmelita na congregação das Irmãs da Virgem Maria do Monte Carmelo: O véu faz parte do que chamamos hábito, é um todo. Revestindo-o, as pessoas querem mostrar a relação esponsal – nupcial - entre Cristo e a sua Igreja. Significa que nos submetemos ao amor, à ternura atenta de Cristo. Mas submissão não é escravidão! Para toda a família carmelita, a cor do nosso hábito, e véu, significa a terra. Quer isso dizer que vimos da terra, do pó, e que em pó nos tornaremos. Entre as carmelitas, umas trazem véu, outras não. Mas em Timor Leste, como na Indonésia ou nas Filipinas, queremos usar hábito. Na Ásia temos mesmo "orgulho" em mostrar a que congregação pertencemos! Divertimo-nos a adivinhar se as religiosas são missionárias, carmelitas ou outras! O nosso véu é também um sinal de pobreza: trazemos sempre o mesmo, durante anos. Não há necessidade de andar à moda, nem de nos maquilharmos! [risos]. Na Indonésia, onde vivi alguns anos, a maioria da população é muçulmana, parte da qual fundamentalista. Pertencer visivelmente à Igreja Católica não ajuda. Em 2006, aquando do sismo na ilha de Java, religiosas da minha congregação deslocaram-se para irem lá socorrer as populações. Mas tiveram de renunciar a trazer hábito. Fizeram-no também por respeito. Se os muçulmanos tocam nos nossos hábitos, consideram isso "impuro". Respeitamos isso. Depois, vivi na Irlanda, onde era diferente, o véu não se notava. Penso que o véu desempenha funções de barreira, quer no sentido positivo, quer negativo. Para mi, é como uma vozinha e lembrar-me: "Atenção! Porta-te bem!" É uma maneira de me impor limites, de me impedir de ir a certos sítios. Enfim, penso que hoje ainda temos necessidade de sinais visuais, de mostrar que há pessoas que continuam a consagrar a Deus as suas vidas!
 

   Também estas religiosas refletiram sobre identidades, identificações e convivência. Também com elas o laicismo francês - que hoje insiste em ser intolerante e totalitário -  tem muito para aprender. Não há entendimento possível sem reconhecimento das diferenças e respeito pela identidade delas. Repito Je ne suis pas Charlie!, pois não creio que tal jornal seja propriamente um fator de compreensão mútua ou um mensageiro de paz. E prefiro mil vezes - sinto-me bem mais confortado - a vista de mulheres e homens exibindo os sinais das suas fés ou das suas opções à perseguição seja de quem for, só por querer, sem malfazer, mostrar o que é.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

A Denúncia do Simulacro

  


(in Jornal Euronotícias 29.01.01) 

A todos deveria ser garantido o direito ao Ser e à sua transmissão por vida ou por morte.

Eis uma tarefa que não deveria carecer de afirmação e que, contudo, tem a função de se opor à fácil digestão de tudo o que nos rodeia, enquanto ordem do dia. Ao longo da História, sempre a desengonçada praga de seres fictícios infetou as fontes de energia dos humanos que reivindicavam em silêncio ou não, a capacidade de se surpreenderem e interrogarem face à profundidade dos mundos. Hoje, impõe-se a obnubilação a quem se aventure, insistindo-se em designar o que não deve ser olhado, interditando a espessura do mundo e dos seres. Acredito não ser desprovido de sentido, os inúmeros elucidários de como elaborar documentos sem interesse geral ou particular, bem como a forma que devem revestir as procurações de mando, os requerimentos não especificados mas que se destinem a averbar o foro do Ser, não esquecendo todas as necessidades de consultar as formalidades após falecimentos e demais assuntos.

A tentativa de fratura da pedra filosofal a tudo obriga.

Acresce que há que reduzir ao mínimo custo de manutenção, este estado de coisas, já que a tarefa da uniformização da sensibilidade existente, teve o seu preço ainda que realizasse e concretizasse o titanismo estereotipado. Assim, glorificam-se como símbolos da dignidade os excelsos na arte de ludibriar.

Universidades, laboratórios, empresas e famílias, muitas delas, formam hoje uma casta de avanços infinitesimais que elevam o “saber” que produzem a um estranho nevoeiro capaz, muitas vezes, de ensombrar o Conhecimento que desde Aristóteles constituiu o saber humano. Incapazes de ver para além do estreito círculo de pequenos achados inúteis, gentes liliputianas, pululam ligadas a redes de troca do esquecer do Ser, exalando ácidos suores que impedem os Homens de clonar a esperança.

Agrava-se a vida em penar, a quem quer que tente perceber o mundo interior da absurdidade para que se deixe de doar parcelas de equívoco que simulam o Todo: de ato mais totalitário, desconheço melhor exemplo.

 Esquecem ou desconhecem, os radares deste absurdo exército, quais os diferentes pontos de escuta e a qualidade dos mesmos, razão pela qual e por via de escassas dúvidas, esta teia, nos seus interstícios, tem por objetivo agredir cegamente a própria identidade dos seres, retirando-lhes as raízes, sem as quais o mendigar é certo e donde a liberdade se encontra excluída. Aguçada a insânia face ao sucesso do mercado, torna-se urgente reagir aos protagonistas destes tempos e destes horizontes.

Ninguém desejará sobreviver preso ao mundo que lhe resta, ao qual se lhe pode subsumir o nome de “écran-circo-simulado-de contrato-social.”

Não se descuide, todavia, que o Homem solitário, sofrido e lúcido, não é mero espectador do irrisório mas trágico espetáculo que não traz à cena. Este Homem solitário é em Si um universo separado do destino do restante universo a que se opõe. Este Homem solitário acredita que o Estado se mantém também graças ao medo.

Este Homem solitário é avassalador face à máquina central: enfrenta-a para dar resposta à sua própria exigência; cumpre sem preço e sem dono o seu próprio íntimo. Este Homem solitário é atento à comunidade e aos desígnios com que a desejam confundir, sobretudo quando por subtis trejeitos se vai entendendo ser um “robot” mais valioso do que uma multidão tão cedo desta vida descontente.

 

Vive-se o plexo da anulação das vidas, da desflorestação das ideias, desdenhando-se os dias anteriores e posteriores à transgressão, ainda que esta, por saberes indizíveis, condenada a não ter preço como a poesia. É o desejo de nenhuma insurreição enfim possível! Que o cimento oculte o brilho! Não descuido, devo dizer, que também faz parte integrante de um processo que inculca a meta-mercadoria, a supressão da magia da infância em cada um de nós, exatamente aquela que leva o espírito ao desassossego do porquê, aquela cujo propósito era distinguir sabores e dá-los a experimentar...

Resta a palavra e a atitude; a denúncia do simulacro.

Creio que sempre germinará uma força sagrada face aos que só dispõem de aparência de vida; face aos diminutos por excelência que para si demarcam os limites do universo e, quando já se não olha em volta, quando não se medem consequências ou, em cegueiras de poder incontidas, se não cuide que os seres enfrentam riscos insanáveis, doenças irremediáveis, ouro esverdinhado, então que alguém lembre:

 

“Vai, voa, Sonho pernicioso (...) E o Sonho partiu após estas palavras”.  


ILÍADA

Teresa Bracinha Vieira

Evocação histórica dos dois Teatros de Faro (II) - O Teatro das Figuras

 

 

O TEATRO MUNICIPAL - TEATRO DAS FIGURAS

 

Vimos, em crónica anterior, o historial e a atividade do Teatro Lethes de Faro. Na sequência, referiremos hoje o Teatro Municipal de Faro, inaugurado em 2005 mas também conhecido por Teatro das Figuras, evocação de uma tradição urbana que vem do século XVIII: aliás, recorde-se que o Teatro Lethes surge em 1843, na adaptação de um edifício monástico que esse, começou a ser construído em 1599.

 

A expressão “Teatro das Figuras” decorre pois de uma construção de 1740, junto ao Solar da Horta do Ourives, cuja capela data daquele ano. O edifício ou o que dele resta denominava-se A Casa das Figuras pela decoração com figuras híbridas de pessoas e animais, numa alegoria insólita. Na mesma zona da cidade, assinala-se ainda o Solar de Veríssimo de Mendonça Manuel, também classificado.

 

 Mas vejamos A Casa das Figuras. Tânia Pereira descreve “os seres meio humanos e meio animalescos, quase antropomórficos, meio diabos e meio figuras jocosas, típicas do teatro barroco, uma feminina e outra masculina (que) marca no centro da imagem. O ser que encima a empena é um homem ou uma entidade, mas sem pernas. É ele o ser mais humano (…) Os outros são uma mistura de alegoria com zoologia. Entende-se uma ponta de ironia no conjunto que também olha para quem passa”. (in “A Horta do Ourives” - revista “Monumentos”, ed. DGMN, Março 2006, pág. 119).

 

Este conjunto arquitetónico (Teatro e Casa das Figuras) valoriza e caracteriza a zona central da cidade que para ali se prolongou. Com efeito, a traça setecentista do Solar harmoniza-se com a força arquitetónica e com a modernidade do Teatro, projeto final do arquiteto Gonçalo Byrne, numa implantação em H, alternando fachadas com zonas de janelões e contraste na implantação de paredes revestidas de pedra de tom amarelo, também notáveis na conciliação com a modernidade do conjunto do edifício e da área urbana.

 

A sala principal comporta 800 espectadores, com um fosso de orquestra para 70 executantes e uma estrutura cénica designadamente no palco, que permite, como tem sucedido ao longo da década, concertos de grande orquestra e ópera.

 

Esta proximidade e simultaneidade do Lethes e do Teatro Municipal devem ser devidamente realçadas. Tal como tive já ocasião de escrever, “a diferença de dimensões e lotação (do Teatro Municipal) relativamente ao Teatro Lethes, parece marcar uma certa vocação para cada uma destas salas, na medida em que o concerto sinfónico e a ópera, em geral exigem maior espaço e chamam mais público, até porque os espetáculos são em menor número para cada programa. Isto, com as exceções para ambos os lados, que bem se conhecem!” (in “Teatros em Portugal - Espaços e Arquitetura”, ed. Midiatexto, 2008, pág. 98).

 

 

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

LONDON LETTERS

 

This is Sportmanship, 2016

 

O momento é incrível e revela a sublime classe olímpica dos Brownlee Brothers. A descrição fica aquém da cena a todos ofertada pelos campeões do Rio. É o fim da 2016 Triathlon World Series no Mexico. Jonny

 lidera a corrida, seguido pelo old brother e um atleta sul africano. A escassos metros da meta o passo cambaleia-lhe com a desidratação. Os assistentes acodem a quem desfalece. Alastair ampara já o irmão, passa-lhe o braço por cima da cabeça, fala-lhe e ajuda-o a passar a linha final. Perde o ouro, mas ganha grata admiração de uma nação face ao spirit of The Team GB. — Chérie! Qui se ressemble s'assemble. A Prime Minister RH Theresa May está em New York para defesa do controlo das fronteiras no UN Summit for Refugees and Migrants. Um relatório do Foreign Affairs Committee censura fortemente RH David Cameron na House of Commons, pela guerra na Syria. — Well! A good deed is not without reward. A CDU de Frau Angela Merkel sofre nova derrota face à Alternative für Deutschland (AfD), agora na urbana Berlin, adensando as nuvens para as eleições federais de September 2017. Monsieur Alain Juppé marca nas primárias gaulesas da direita, com propostas integracionistas sobre o “Islam français.” Na White House Race, Mrs Hillary R Clinton e Mr Donald J Trump divergem entre a vigilância e a securização enquanto a atmosfera do terrorismo regressa a West Side e Manhattan na NYC. GB arrecada 147 medalhas, 64 em ouro, nos 2016 Rio Paralympics. Bavaria acolhe a Oktoberfest. A Countess of Wessex inicia uma corrida filantrópica de 445 milhas em bicicleta, entre os palácios de Holyrood e Buckingham, para recolha de fundos nos Duke of Edinburgh's Awards.

 

 

Mild temperature and a few showers within the thrive of Autumn colours at London. A cidade acorda com Parliament Square enlaçando a tragédia dos boat peoples no Mediterraneon Sea, com refugiados a clamarem por “urgente action” no meio de estridentes 2,500 salvavidas e cascata de negras estatísticas continentais. A United Nations estima que diariamente morreram 11 crianças, mulheres e homens a atravessar Europe em 2015. Seis anos após o deflagrar da guerra na Syria, com as fronteiras a erguerem muros e a passarem responsabilidades, a General Assembly suscita novas esperanças quanto a articulada resposta global capaz de melhor gerir a tormenta migratória. No weekend milhares de pessoas marcham por aqui em colorida manifestação de apoio. Ao ver e ouvir os cartazes, cânticos e outros sinais, sobretudo antiracistas, penso que a solução continuará distante enquanto despudoradamente se tentam ganhos alheios à questão, ao invés de avançar com uma abordagem pragmática, organizada, ancorada em estrita perspetiva humanitária ― full stop. No mais, como assinala a teoria walzeriana da justiça, "the good fences make the just societies". Os migrantes equivalem à população nestas ilhas. O voluntarismo de uns, a indiferença de muitos e o egoísmo de outros é que não vem ajudando quantos buscam melhor vida e para isso a arriscam. À partida para New York, Downing St deixa escapar tópicos do discurso primoministerial na UN. Mrs May apresentará “a three-point strategy to tackle the migrant crisis” com compassionate alert do sentido do tráfego: “the problem must be addressed to ensure public confidence in the economic benefits of legal and controlled migration."

 

No plano doméstico também o movimento ganha a cadência gravitacional da natureza das coisas. As oposições continuam a arrumar a casa em vésperas da outonal série de conferências partidárias. A disputa das lideranças apresenta os primeiros resultados. RH Diane James MEP conquista a chefia do (alegadamente misógino) Ukip. RH Nigel Farage cede o leme; e consigo desce o apelo populista aos blue collar do North e aos social conservatives do South. O desafio dos soberanistas é agora diluir a presente perceção de que terão esgotado o futuro com a vitória no euroreferendo, indo além do tradicional papel de guardiões de uma hard Brexit e assumirem-se como força eleitoral capaz de finalmente franquear a entrada em Westminster. O terreno está aberto, aliás, quer pelo colapso de LibDems e de Labourites, quer ainda pelas divisões latentes no new regime dos Tories. Ora, se os Liberal Democrats sob RH Tim Farron pegam sozinhos na bandeira azul da EU e podem capitalizar no voto eurófilo à esquerda e à direita, desde que credíveis, há que esperar pelo próximo Saturday para confirmar a vitória vermelha do RH Jeremy Corbyn no Labour Party. Será o desfecho de três meses de azeda batalha campal entre moderados, agnósticos e esquerdistas. As feridas são mais que muitas. Até a alusão ao imperativo de unir o partido suscita controvérsia, pelo hate against the Blairites. O honorável Comrade Jez quer entregar mais poder aos militantes. Segundo ele, democratiza a decisão; segundo os rebeldes, esvazia o Parliamentary Lab Party.

 

Já o Institut Montaigne debate "Great Britain, Europe and the world after Brexit" em Paris (Fr). Durante uma animada sessão presidida por Madame Dominique Moïsi, com a participação nativa de Mr Robin Niblett, director da Chatham House, e Mr Nick Butler, professor no King’s College, afloram contrastadas perspetivas sobre o futuro nas relações internacionais. Resultam quatro interessantes cenários em encontro onde também pontua o Churchillian dream em torno do concerto no velho continente: "(1) The UK will pursue its development on its own, while the EU will do the same on its side; (2) Brexit will in reality never come about because of its complexity and because of the administrative burden; (3) The EU will adopt radical changes by breaking austerity, by becoming more independent from the German leadership, and by renouncing to the membership; and, (4) The EU will change by integrating to the core with a truly efficient common parliament, a common defence policy and a more protectionist economic policy." Dos riscos comummente identificados está o efeito de potencial erosão na(s) parceria(s) transatlântica(s).

 

Que o oceano não está para marujos de água doce, é fácil observar. O ano de 2016 e a Brexiting inauguram uma sísmica mudança na paisagem política ocidental. Pesemos só os eventos maiores na agenda do triénio. Além das presidenciais nos USA e da incerteza quanto a quem será o próximo residente no Oval Office, haverá eleições gerais em France e em Germany a par do referendo constitucional italiano. Qualquer um dos unknows neste quadrilátero tende a trazer diferentes políticos e/ou políticas, para mais quanto as 

 vagas populares se inquietam nas equações nacionais. Se a geografia de cada qual é inescapável no mapa dos interesses, preocupante é a impreparação de desatentas casas das máquinas governamentais para gerir estrategicamente as oportunidades e os desafios que se esboçam no horizonte. Quem siga o debate pelos media ocidentais espantar-se-á até com a insustentável leveza do business as usual com que o Bratislava Summit aborda a nova situação na European Union. — Well! Remember Master Will and how the noble Mark Antony provides for the ambition, honour and friendship in Julius Caesar: — Friends, Romans, countrymen, lend me your ears: I come to bury Caesar, not to praise him.

 

 

St James, 19th September 2016
Very sincerely yours,
V.

 

 

PS: Parabéns a Dame Maggie Smith (Downton Abbey) e Mrs Susanne Bier (The Night Manager) pelos triunfos nos 2016 Emmys, em nova noite de Game of Thrones.

 

 

A VIDA DOS LIVROS


   De 19 a 25 de setembro de 2016

 

Os «Opúsculos» de Alexandre Herculano são um conjunto fundamental para a compreensão da obra do nosso grande historiador. Infelizmente, há muito se encontram esgotados, e a reedição iniciada por Joel Serrão não foi completada. Eis o que não pode ser esquecido.

 

 

HERCULANO, CIDADÃO COMPROMETIDO

Num tempo em que o jornal oficial não era exatamente o que é hoje, um repositório de atos legislativos ou de decisões políticas de órgãos de soberania, Alexandre Herculano foi redator do «Diário do Governo», antes da campanha de «O Panorama», publicando aí textos importantes que nos dão conta de um pensamento político, que, no essencial, conhecemos, mas que, estampado na folha oficial, ganha um especial significado. Entre janeiro e maio de 1838, o historiador exerceu tais funções, não assinando as suas prosas, mas não deixando dúvidas sobre as suas ideias, o seu empenhamento e a sua perspetiva. Para alguns, poderá parecer surpreendente que o autor de «A Voz do Profeta», libelo contra a Revolução de Setembro de 1836, apareça como porta-voz da solução política resultante, na prática, daquele movimento político. Importa, no entanto, referir que o historiador considerou serem a legitimidade da Assembleia Constituinte que aprovou a Constituição de 1838 e o compromisso a esta subjacente fatores decisivos para a afirmação da causa liberal. Ao contrário do que esperava, não prevaleceu uma lógica extrema, mas uma solução equilibrada. Assim, na introdução de 1867 a «A Voz do Profeta», Herculano afirmou a sua coerência, saudando a nova Constituição e reconhecendo o seu elevado merecimento: «Vencido na guerra civil, desautorizado e moralmente enfraquecido, o cartismo viu triunfar em grande parte as suas ideias na contextura da Constituição de 1838, votada por umas constituintes onde os vencidos estavam representados por insignificante minoria. Era a condenação solene da revolução, lavrada por um parlamento eleito debaixo da influência dela. O que no novo código político parecia mais oposto à índole da Carta era a organização da segunda câmara, e todavia o cartismo adquiria por aquele meio uma arma poderosa para de futuro reformar constitucionalmente o que havia de mau na recente organização de um dos corpos colegislativos, de modo que nem se restaurasse o absurdo pariato hereditário e ilimitado, nem a assembleia conservadora significasse apenas a interposição de uma parede entre duas porções de parlamento único». Uma figura ética como Herculano não deixava por mãos alheias a justificação inequívoca da sua posição política. Aliás, até à Regeneração (1851) será ele um dos mais fervorosos combatentes no sentido de conseguir o que foi alcançado no Ato Adicional de 1852, ou seja, a sábia síntese entre a velha legitimidade vinda da causa liberal de D. Pedro e a vontade constituinte de 1838. Só assim a Carta se tornou o texto constitucional mais duradouro da história portuguesa – e o rotativismo (ideado em parte muito significativa por Herculano) permitiu a estabilização política necessária.

 

O PRIMADO DA CONSTITUIÇÃO

Ao relermos os textos do historiador no «Diário do Governo», salta à vista a série «no signo da Constituição de 1838». Aí lemos uma série de alertas, a propósito das tentações radicais, que nos permitem dizer que se tivessem sido ouvidos não teria sido aberto o caminho persistente e longo para o golpe de Estado de 1842 de Costa Cabral, que restaurou a Carta na sua versão retrógrada, gerando um clima de guerra civil e atrasando a consolidação das instituições liberais. Vejamos os textos de 17 de março e de 4 de abril de 1838. O primeiro, refere-se aos «extremos que se tocam»… «Quando um povo sobe na religião, a qual está num meio, como todas as coisas boas, até a um extremo, qual é o fanatismo, torna-se feroz, perseguidor, intolerante, irracional; quando na religião desce até ao outro extremo, que é a incredulidade, aparece igualmente feroz, perseguidor, intolerante, irracional. No primeiro caso, queima os livros dos filósofos, e os filósofos; proscreve as artes e os prazeres; treme de tudo quanto à natureza pertence, até do seu próprio nome. No segundo caso extermina os homens do espírito e os livros da fé, desterra um sistema completo de recreios morais e populares, com que muitas idades se houveram por contentes e ricas; derriba todos os monumentos do passado, onde estampasse algum caráter religioso; assusta-se de tudo que lhe possa lembrar Deus ou Alma. Lá devasta-se em nome do espírito, cá devasta-se em nome da matéria: lá o archote, o picão e o açoute de ferro andavam na mão do sacerdote, cá andam na mão do filósofo: o sacerdote é o filósofo dos fanáticos; o ateu é o sacerdote dos incrédulos»… O texto continua no campo da política, já que era o radicalismo cego que preocupava Herculano, certo de que assim aconteceria, como aconteceu, o fortalecimento das opções que iria destruir a legitimidade constitucional tão sabiamente delineada. A passagem ilustra bem o caráter dos textos de opinião do «Diário do Governo» desse período.

 

A LITERATURA E A ÉTICA

No caso de Alexandre Herculano, verifica-se sempre a grande qualidade literária e ética de quem escreve. Já relativamente ao segundo texto, de abril, o historiador exprime, com os argumentos que invocará no texto já referido de 1867 na reedição de «A Voz do Profeta» o motivo pelo qual, apesar de não ter aderido à Revolução de 1836, assume a defesa da Constituição aprovada pelos constituintes, uma vez que se baseia na legitimidade cidadã e popular que defende: «o que queremos é não ser servos: queremos respeito à nossa propriedade, liberdade em tudo aquilo que a lei nos não proíbe; queremos paz e pão. A soberania de ninguém é direito, porque é um facto nascido da mesmíssima natureza dos corpos sociais: exerça-se do modo que por experiência e boa razão se achar mais conveniente; livremo-nos do despotismo de um indivíduo e do ainda mais tremendo despotismo da ralé, e demos documento à Europa de que somos dignos da liberdade. Esperamos achar conformes com a nossa opinião todos os homens sisudos de Portugal». Do que se tratava era de, com argumentos serenos e racionais, defender a solução moderada e compromissória de 1838 – de modo que houvesse um governo representativo das diversas famílias políticas. Além das considerações emblemáticas referidas, encontramos entre os textos da autoria de Herculano no «Diário do Governo», e a título exemplificativo, os seguintes temas: a Emigração para o Brasil, os Asilos de Infância, a instituição dos jurados na administração da justiça, a condenação inequívoca da pena de morte («bastaria atender aos verdadeiros princípios em que assenta a ordem social para conhecer que a pena de morte é um absurdo»)… Com grande independência política e com uma determinação no sentido da salvaguarda das instituições constitucionais, Herculano é, neste período muito fugaz, um redator probo, defensor da autonomia individual e da causa liberal, sempre sem perder o sentido crítico. Um dos maiores vultos da cultura e da língua portuguesas esteve assim ligado ao jornal oficial – emprestando a sua inteligência e a sua escrita à defesa da causa do constitucionalismo liberal. Poucos o ouviram imediatamente. Mais tarde, em 1851, pareceu ser-lhe dada atenção, mas foi tudo demasiado rápido…

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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