Sábado, 22.11.14

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Raoul De Keyser e a pintura gestual do lugar concreto.

 

‘Monochromes are not really monochromes they always relate to something.’, Raoul De Keyser, 2012

'Pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.', Clarice Lispector In 'A Hora da Estrela' (1977)

Raoul De Keyser (1930-2012) apresenta nas suas pinturas a visão de um mundo concreto. Segundo uma perspectiva muito individual, evidencia no seu trabalho o lugar específico que o homem ocupa, num determinado momento e num determinado local. Estabelece uma ligação ao passado (através de referências directas à história de arte abstracta e através de referências directas a trabalhos já por si feitos), ao futuro (no sentido de fazer evoluir uma linguagem que cria através da sua circunstância específica) e passando pelo presente (determinante para situar as suas pinturas no espaço e no tempo concreto).
O que rodeia De Keyser estende-se para o que pinta, criando assim uma continuidade espacial. Existe também a ideia de uma continuidade histórica, porque algumas das suas pinturas trazem à memória composições da tradição abstracta - através do uso da cor pura e através da linha e do espaço que têm uma ligação emocional. De Keyser anseia por materializar uma interpenetração entre o interior (visão própria e individual) e o exterior (a árvore, o canto da sala, a maçaneta, o campo de futebol da sua rua, o corredor escuro, as portas e as escadas). Permanece sempre a preocupação de enfatizar o lugar que o sujeito ocupa. Localizar o sujeito que concebe é muito importante – situá-lo no presente, integrando o passado e olhando para o futuro. Durante anos, De Keyser pintou exaustivamente as linhas brancas do campo de futebol que via da sua janela – tentando criar um diálogo entre o vizinho que pintava na relva e ele próprio que transportava para a tela o mesmo gesto.

A questão da realidade concreta é uma questão que se põe com grande afinco. Tornar visível o que é invisível a todos de maneira não óbvia, ainda que eternamente circunstancial. A escala das suas pinturas é humana e íntima – os quadros de De Keyser são aproximações (do pintor à sua circunstância, do fruidor ao universo particular do pintor).

‘Quero acrescentar, que vivemos exclusivamente no presente.’, Clarice Lispector (1977)


Para conseguir transgredir os seus próprios limites, De Keyser pinta sobre uma realidade, já que essa o ultrapassa. De modo a tornar nítido o que está quase apagado à vista de todos, só De Keyser é testemunha da sua realidade – só ele vê o que está para dentro e para fora da sua janela. Procura assim por uma verdade – porque a sua pintura é corpórea e revela a verdade do seu tempo. De Keyser desenvolve uma obra autónoma, para a qual não existe um programa prévio. As suas composições evocam a efemeridade impressiva do mundo – do seu mundo, à volta de sua casa. O presente real que o rodeia penetra nos seus quadros.

‘Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.’, Clarice Lispector, 1977

A simplicidade do trabalho de De Keyser adquire-se através de muita experimentação (visível nas telas riscadas e raspadas). A acção que se cristaliza nas suas pinturas talvez resulte de uma materialização do sujeito no seu objecto – tão imensa é a necessidade de possuir a realidade que o rodeia e na qual se integra diariamente. E a tela é o lugar dessa fusão entre si próprio e a realidade concreta que lhe está próxima, todos os dias, ali… A verdade da sua pintura igualmente implica um contacto com o interior e o inexplicável – o gesto, a marca e a intensidade do traço do pincel são muito importantes para a afirmação da sua pintura. E por isso, dá-se uma união entre o indivíduo e o objecto e a sua percepção e a realidade. Pintar para ser mais do que se é, numa tentativa de possuir, fundir, completar e descobrir. Pintar para suportar, possuir e eternizar uma rotina concreta.

'Paintings are not very planed before. I let the circumstances speak.’, Raoul De Keyser, 2012

O carácter aleatório das suas pinturas é muito concreto. No resultado final das suas obras, o que é importante é a impressão do transitório, do provisório, do circunstancial e a impressão de um processo, o processo de pintar. Nas pinturas de De Keyser a correcção e o erro são muitas vezes visíveis como meio para questionar a própria pintura. Deste modo, De Keyser assegura-se do fundamento da sua pintura através do seu suporte físico – visível também por exemplo ao pintar as lombadas dobradas da tela, ao engradar de novo uma tela já pintada numa grade um pouco maior de modo a que a madeira da grade surja ou criando pinturas em fatias tridimensionais.

Sendo assim, a pintura de De Keyser incorpora uma reflexão profunda e o gesto intuitivo. E é um exercício espontâneo de acesso ao espírito do lugar do sujeito. O mundo pintado de De Keyser aparece fluído e evidencia o essencial da condição do sujeito. De Keyser consegue então pertencer ao seu tempo e ao seu lugar e apesar de diverso formalmente, apresenta uma obra de grande estabilidade e que garante uma continuidade entre o passado, o presente e o futuro.

 

Ana Ruepp



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Sexta-feira, 21.11.14

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6. O LUGAR DA HISTÓRIA 

 

No seu notável ensaio «Ibn-Khaldun au prisme de l´Occident», o professor Krzysztof Pomian insiste em que, para aquele pensador andaluz, «o mundo não varia. No seu tempo estacionário se desenrola o tempo dos homens. E este é descontínuo. Com efeito, tudo o que os Antigos produziram foi anulado pelo islão, que assim é tido por um começo absoluto, quer da verdadeira fé, quer da organização política, das letras e das artes...  ... Em todos os domínios o islão se basta a si próprio. A atitude de Ibn-Khaldun face ao passado pré-islâmico contrasta com a que os Latinos adoptam face ao passado pré-cristão... ... Mais ainda, o advento do cristianismo não traz o repúdio das obras literárias, históricas ou filosóficas impregnadas de crenças pagãs. Na cultura das elites letradas da cristandade latina, um polo escriturário e patrístico coexiste com um polo antigo, um polo puramente cristão com um polo pagão. Isso provoca tensões e coloca os indivíduos perante opções que, por vezes dolorosamente, vivem. Também provoca conflitos entre os que querem manter essa bipolaridade e os que preconizam o abandono da tradição literária pagã. Mas estes nunca tiveram ganho de causa». O surto renascentista iniciado nos séculos XIII-XIV iria colocar a Europa cristã na senda do uso da razão, que desabrocharia no Iluminismo. Teria sido possível, em país de mouros, o paganismo simbólico que, por exemplo, serve Os  Lusíadas ? Para o cristianismo, a história do mundo gira à volta de Cristo, o alpha e ómega está no centro da história. O Verbo iniciador fez-se carne, entrou na vida terrena e na história dos homens, não já para a iniciar mas para a redimir e levá-la ao seu fim, que é a eternidade com Deus. Ao tempo da permanência da Igreja neste mundo se chamou aevum, a longa duração do que, estando ainda no tempo, afinal é fora dele. Assim, ontologicamente, a Igreja não tem passado, presente e futuro: como Cristo ela abraça o que, na história, antes foi, hoje vemos, e está por vir. Mas na duração do aevum, sua idade temporal, esse abraço chama-se tradição. No seu grandioso estudo «La tradition et les traditions», publicado em 1960, pouco antes do Concílio Vaticano II, o dominicano frei Yves Congar, depois de referir a tradição oral que precedeu o registo escrito da Bíblia hebraica  - é claro que as disposições da lei mosaica regularam a vida de Israel, e os salmos exprimiram a sua oração, muito antes de terem sido transcritos  -  escreve: Nascidos na tradição, ou mesmo da tradição, os escritos bíblicos surgem-nos transportados por uma realidade religiosa viva, que os precedeu, a saber, na sua totalidade, ou nas partes mais puras e representativas dessa totalidade, a comunidade do Povo de Deus. Foi esse também o caso do Novo Testamento. E recorrerá, mais adiante, ao jesuíta Karl Rahner que propôs vermos o facto da inspiração escriturária no quadro da eclesiologia ou, pelo menos, da história da Salvação, isto é, da acção pela qual o Espírito Santo constrói o povo de Deus : a inspiração escriturária corresponde ao momento em que Deus cria a Igreja quanto ao seu elemento constitutivo de conhecimento... E, noutro passo, realçará que S. João Damasceno, ao falar da Igreja no seu A Fonte do Conhecimento, a vincula à tradição : Aquele que não acredita em conformidade com a tradição da Igreja católica não tem fé... ...Não reconheço aos decretos imperiais o direito de regular a Igreja. A Igreja tem a sua lei nas tradições dos Padres, escritas e não escritas... O mesmo S. João de Damasco, em defesa do culto das imagens, e contra os iconoclastas, cita o seguinte texto de S. Basílio: Entre as "doutrinas"  e as "definições"  que a Igreja guarda, temos umas pelo ensinamento escrito, outras foram recolhidas, transmitidas secretamente, da tradição apostólica. Todas têm a mesma força aos olhos da piedade, assim concordará quem tiver, ainda que pouca, experiência das instituições eclesiásticas : pois, se tentássemos afastar os costumes não escritos por não terem grande força, atingiríamos, sem querer, o Evangelho, em pontos essenciais... O damasceno dá, como exemplo de tais tradições, o culto das imagens, a adoração da Santa Cruz, a instituição dos sacramentos, a oração feita em direcção do Oriente... Personagem histórica invulgar, João de Damasco, nessa cidade síria nascido por volta de 650, ainda sob império bizantino, numa família cristã, de apelido Mansur, seria, portanto, um cristão sírio-palestiniano. Seu pai exerceu funções importantes na administração financeira do Estado, primeiro sob o imperador cristão de Constantinopla, mais tarde sob o califa omíada Yazif I que, aliás, fora educado, juntamente com João, por um monge italiano capturado na Sicília. E o nosso damasceno será chefe dos serviços fiscais do califa até ao afastamento dos cristãos de qualquer função administrativa. Retira-se então para um mosteiro em Jerusalém, onde se dedicará à oração e à escrita de uma obra teológica, apologética, litúrgica e musical que, no futuro, não será só considerada na Igreja ortodoxa grega, mas ainda pela Igreja católica romana, até à sua proclamação como Doutor da Igreja pelo papa Leão XIII em 1890. O nome deste cristão árabe foi, durante a sua longa vida (terá morrido em 749, com quase cem anos!) Yuhannâ bin Mansur bin Sarjun, e os seus textos apologéticos (em defesa do cristianismo) e polémicos (contestando o islão, que ele classifica como heresia do cristianismo) não só serviram de conforto à fé cristã das populações que o califado omíada (cuja duração, no oriente, coincide sensivelmente com o tempo de vida do Damasceno) havia submetido após vitória sobre o império bizantino, como também estabeleceram circuitos de discussão e confrontação com religiosos e pensadores muçulmanos, ao ponto de se considerar S. João de Damasco como um dos fundadores da teologia islâmica. Recorde-se ainda que a designação de islão (abandono ou submissão a Deus) se aplicará à religião de Maomé e à comunidade dos seus fiéis precisamente a partir do califado omíada. Mas a obra deste Doutor da Igreja debruçou-se muito mais sobre a iconoclastia vigente por decreto imperial, quer no império omíada (por Yazid II, em 723, proibindo o culto das imagens por qualquer religião), quer no bizantino (pelo imperador Leão III, em 730, interdição que duraria até 11 de Março de 843, quando um sínodo de bispos restaurou esse culto tão popular e importante na tradição cristã oriental). A iconoclastia em Bizâncio ter-se-á afirmado por influências monofisitas e judias, bem como islâmicas : não esqueçamos que o imperador Leão III era natural de Síria ; nem que era muito permeável, à circulação de ideias e transmissão de comportamentos, a fronteira algo vagabunda que separava a Anatólia e a Arménia cristãs da Síria recentemente conquistada pelos omíadas. Em pleno território islâmico, João Damasceno, em nome da tradição, defenderá que a veneração das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos não é um acto idolátrico, ou seja, de adoração de uma figura material, mas uma relação com o invisível através de uma imagem visível. Li recentemente na Der Spiegel um artigo de Navid Kermani, escritor alemão de origem iraniana, sobre a iraquiana Nadjaf, cidade santa, que muitos consideram o Vaticano do chiísmo. No centro dela se situa um extensíssimo cemitério, em que milhões de sepulturas se juntaram ao mausoléu do imã  Ali, o quarto califa, primo direito do Profeta e marido de sua filha Fátima,  que foi assassinado ali perto, em Kufa, a capital que precedeu Damasco. Esta impõe-se com a conquista omíada, e a dinastia que acedeu ao poder depois de ter eliminado o califa Hassan, filho de Ali e neto de Maomé. Aí começa, com a derrota do partido legitimista, a tradição chiíta, oposta ao sunismo maioritário. Indo ao texto de Navid Kermani: O "partido" de Ali  -  tradução literal da palavra shi´a  -  é uma religião de lamentação e de penitência; até muito tarde no sec. XX, ela foi uma religião de interioridade e retiro do mundo. Os seus doze imãs, sucessores directos de Maomé, foram todos assassinados de modo cruel, pérfido, ignominioso  --  não por infiéis, mas por muçulmanos. Para os chiítas, esta traição à família e à mensagem do Profeta continua a repetir-se ao longo de mil e quatrocentos anos. O domínio dos sunitas, sob o qual sofreram durante séculos no Iraque, as centenas de milhares de chitas  -  dos quais 9000 religiosos  -  que o ditador Saddam Hussein fez assassinar a partir de 1991, o avanço das ideias wahabitas (ideologia sunita ultraconservadora, predominante na Arábia Saudta) no conjunto do mundo islâmico, e agora as acções do EI: cada nova ameaça se inscreve nesse esquema da traição interna. «Receia pelo mausoléu?», perguntei a um guarda, senhor idoso, de cabeça rapada e fato amarrotado, a seguir à oração de 6ª feira. Respondeu com firmeza: «Não! o EI nunca avançará até tão longe em território chiíta». O artigo de Navid Kemani encerra com o relato da sua entrevista, em Nadjaf, com o grande aiatola Al-Sistani e um dos seus filhos, Mohammed Reza Al-Sistani. Referem-se estes  à Alemanha, perguntam pelo modo como ultrapassou o seu passado e interrogam sobre as relações do Estado com a Igreja. Elogiam a criação de cátedras de estudos islâmicos nas universidades, como modo de evitar surtos de extremismos... E vale a pena encerrar esta crónica com a transcrição de passos dos últimos parágrafos daquele artigo: «Mohammed Reza interroga-me sobre outras entrevistas que fiz anteriormente. Confidencio-lhe que todos procuram atribuir a responsabilidade dos azares aos outros, sobretudo ao ocidente. Ele responde-me que isso não passa de um pretexto, as causas reais sendo a ausência de sentido do interesse geral, a corrupção, a anarquia, a ausência de liberdade e o egoísmo que reinam na maioria dos países islâmicos. Porque é que uma jovem mulher como a matemática Maryam Mirzakhani, que obteve o prémio Fields, não teve no Irão a possibilidade de pôr o seu génio ao serviço da sociedade? «Na verdade, os alicerces da nossa sociedade estão tramados». Mohammed Reza Al-Sistani tece louvores à União Europeia, que transformou povos inimigos em amigos. No mundo islâmico, os pequenos países do Golfo, que partilham a mesma língua, a mesma cultura, a mesma religião, nem sequer conseguem formar um mercado comum. E como se essas divisões não bastassem, ei-los a querer ainda dividir os Estados existentes por etnias e confissões. Interrogo também o grande aiatola sobre a expulsão dos cristãos do Iraque. Trata-se, para ele, de uma catástrofe de alcance histórico. « No plano teológico», acrescenta  --  referindo-se provavelmente às imagens, às procissões, ao culto de Maria, às orações de intercessão e à ideia de redenção da Igreja Católica, que o chiísmo também conhece  --  « o chiísmo está próximo do cristianismo»...». A mim, pessoalmente, foi-me ensinando a vida que dividi pelos continentes da terra que os seres humanos se podem descobrir muito mais próximos do que tantas vezes julgam. Ser humano diz bem o que é a nossa condição, e nada daquilo que é humano pode ou deve ser-nos estranho. A glória de Deus são os homens de boa vontade. 

 

Camilo Martins de Oliveira



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Quinta-feira, 20.11.14

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A água andava descalça pelas ruas molhadas e ainda acrescento: para lá das folhas volteadas num prego aceso no peito sacudindo tus ojos oceânicos.
 

De tanto em tanto tempo, não sei quanto em intervalo, vejo-me a reler o discurso de Neruda na entrega do Prémio Nobel em 1971. Por aquela leitura estendo a solidão e muitos naufrágios, mas sempre de espanto, inclino-me ao que é luz e me segreda que sempre a minha sede é viagem e casa para onde enfim emigro nos meus anseios. E assim começo o colar naqueles dias.

A verdade como afirma Pablo Neruda é que não há verdade mesmo quando se sabe quão grande é o ódio da guerra dos poetas à guerra, ou, a poesia não fosse uma comunicação infinita com o sofrimento que embranquece as árvores. Digo.

Aqui deixo um extracto do discurso ao qual acima me referi. Aqui Pablo Neruda:

“Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns factos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio.

(…) Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma acção passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e a solidariedade, o sentimento e a acção, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia – o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia – numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde.

(…) Os erros que me levaram a uma relativa verdade, e as ver­dades que repetidas vezes me conduziram ao erro, ambos não me permitiram – nem eu nunca pretendi isso – orientar, dirigir, ensinar o que é chamado de processo criador, de caminhos da li­teratura. Mas pude verificar uma coisa: que nós mesmos vamos criando os fantasmas da nossa própria mitificação. Da argamassa do que nós fazemos, ou queremos fazer, surgem mais tarde os impedimentos do nosso próprio e futuro desenvolvi­mento.

(…) Escolhi o difícil caminho de uma responsabilidade compartida e, em vez de reiterar a adoração ao indivíduo como sol cen­tral do sistema, preferi entregar com humildade o meu serviço a um considerável exército que pode errar às vezes, mas que ca­minha sem descanso e avança cada dia, enfrentando tanto ana­crónicos recalcitrantes, quanto enfatuados impacientes. Porque acredito que meus deveres de poeta não me indicavam somente a fraternidade com a rosa e a simetria, com o exaltado amor e a nostalgia infinita, mas também com as ásperas tarefas humanas que incorporei à minha poesia.

(…) Acredito nesta profecia de Rimbaud, o vidente. (…)Há exactamente cem anos, um pobre e esplêndido poeta, o mais atroz dos desesperados, escreveu esta profecia:

“Ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades.”

Em conclusão, devo dizer aos homens de boa vontade, aos trabalhadores, aos poetas, que todo o futuro foi expressado nes­sa frase de Rimbaud: só com uma ardente paciência conquista­remos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens.

Assim a poesia não terá cantado em vão.”

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Quase fora do céu âncora entre duas montanhas metade da lua.

Lua.JPG 

Recordo e me atrevo à tua chama, àquela a que Deus e deuses mandaram à tua prece num único sim,

Diciendo qué palabras?

Ay seguir el caminho que se aleja de todo! 

 

Teresa Bracinha Vieira
10.11.14



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Quarta-feira, 19.11.14

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DOIS GRANDES AUTORES DE REVISTA: SOUSA BASTOS E EDUARDO SCHWALBACH

Num livro recente, Maria Helena Serôdio enfatiza a relevância da opereta e da revista na produção teatral portuguesa  da transição dos séculos XIX/XX. Cita designadamente, entre outros autores de drama e comédia, os originais ou as adaptações de André Brun (que aqui já foi evocado) numa adaptação de “A Severera” de Julio Dantas com musica de Filipe Duarte, autor também de opereta “O Fado” de João Bastos e  Bento Faria; e ainda,  num registo de “ópera cómica(…) as criações conjuntas de Gervásio Lobato,  D. João da Câmara e maestro Círiaco Cardoso, enquanto na comédia e na revista se vieram a destacar  no inicio do novo século Eduardo Schwalbach (“A Bisbilhoteira”, 1900 e “O Chico das Pegas, 1911)” e outros (in “A Republica das Artes-Teatro, 2010, pag. 17)

Precisamente evocaremos aqui Schwalbach (1860-1946) mas também o seu contemporâneo Sousa Bastos (1844-1911), que temos citado como autor do “Diccionário do Theatro Português” e de “Carteira do Artista”.   

E desde já adianto que Sousa Bastos é autor ou co-autor – uma vez que as revistas são quase sempre produto de co-autorias – de nada menos do que algo como 18 revistas. Luis Francisco Rebello selecionou cenas de algumas, e a simples leitura dessas cenas permite avaliar o sentido critico e cénico dos textos: por exemplo “Tim Tim por Tim Tim” (1889), em que a “Dívida Pública”  se auto- define como aquela “Que toda a gente condena” mas  se- auto-elogia:

 “Sou esbelta, sou catita/ Tenho atrativos aos centos;/ Como arranjo bom dinheiro/ Tenho fortes argumentos” pelo que “Quase sempre eu dou pretexto/Prós clamores da oposição…/Mas se ela trepa ao poleiro/Logo de mim lança mão!”

Gustavo de Matos Sequeira refere que Sousa Bastos assume em 1894 a direção do Teatro da Trindade, onde se manterá até 1897. E assinala que “O Sal e Pimenta de Sousa Bastos foi a grande peça de 1894. Ainda transbordou o seu êxito para ao ano seguinte. Desde julho da dezembro, a Gloriosa (sic) revista que rivalizou com o Tim Tim por Tim Tim da (do (Teatro da) a Rua dos Condes, encheu o cartaz da Trindade” ( in “O Carmo e a Trindade” vol. III pag. 407).

Mas recordo aqui ainda a revista “Em pratos Limpos” (1896) onde Sousa Bastos critica, numa sucessão de exemplos, os “galicismos”  na moda:
“A cadeira é fauteille! Bem bom!/É a gare a estação! Faz-me fel!/ A luneta é agora um lorgnon!/ E um mordomo é um maître d Hotel!” E segue-se a casa -  chateau ou chalet, estante -  étagere, bacia -  bidet,  molduras - passe partout  ,manta  -  couvre pieds,e mais 18 francesismos – “e mais não digo que a lista é comprida/ E nem mesmo eu a tenho ao alcance!/ Se à casinha que está na Avenida/ Até chamam um “chalet  d aisence!” (in Luis Francisco Rebello -  “História do Teatro de Revista em Portugal” vol. 1).

E é então altura de evocar as revistas de Eduardo Shwalbach. Das largas dezenas de revistas que escreveu, cobrindo a passagem do seculo, destacam-se títulos e sucessos  como    “Agulhas e Alfinetes”, “Formigas e Formigueiros”, “Retalhos de Lisboa” “O Ovo de Colombo”, o Dia de Juizo”  “O Reino da Bolha”, “Fado e Maxixe” entre mais.

São quadros de grande sentido cénico. Por exemplo, em “Agulhas e Alfinetes”, estão em cena, a certa altura, um professor e pelo menos 14 alunos. Mas no plano oposto, temos por exemplo “A Feira do Diabo” que põe em cena Mefistófeles, o Orçamento da Despesa e o Orçamento da Receita. Ou a ultima revista citada por Rebello, “Ao Deus Dará”: “Haja Festança. Haja folia/  Que tudo a bem se arranjará/ Se a massa chega só pra um dia/ Para os seguintes… Deus dará” ( in ob. cit. vol. 2)

Vitor Pavão dos Santos, em “A Revista à Portuguesa” (1978), destaca uma cena de  “Fado e Maxixe”(1909) escrita com João Foca. Trata-se de um dueto entre a Avenida da Liberdade e as Avenidas Novas:
“AL _ Eu sou desta aldeola em ponto grande/ Desta Lisboa tola e presumida/Onde a tolice com rumor se expande/ A via mais seleta e concorrida

AV – Nós, Avenidas Novas/ Meninas petulantes/ Damos sobejas provas/ De sermos elegantes…”

E em “O Dia de Juizo”, o confronto entre a moda masculina e a moda feminina:
“Entre piadas, entre picuinhas/ Quer para elas, quer para os seus alcaides/ Vão os gentis e belos cartolinhas/ Com as lindas e dengosas Adelaides”…

DUARTE IVO CRUZ



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Terça-feira, 18.11.14

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The Rochester & Strood gates, 2014

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O termómetro político está ao rubro em Westminster com nova by-election em Rochester & Strood, um tradicional bastião dos Tories no Kent de Sir Winston Churchill ora ameaçado pelo… Ukip. A confirmar-se a vitória de Mr Mark Reckless, dada como certa em sondagens e apostas, complexifica-se o grau de incerteza nas próximas legislativas para os big mainstream parties. — Chérie, à Normand Normand et demi. Para já, os Conservatives revelam criatividade na estratégia eleitoral. O seu antigo MP no estuário do Medway é apontado a dedo na literatura partidária por “studying politics at Oxford.” As hostes de Mr Nigel Farage naturalmente logo reemitem o panfleto com um irony alert. — Hmm! Arouse no expectations on any entering. Japan vai também a votos mais cedo após quebra na economia, quando Pekin igualmente desacelera e a Eurozone teme o triple dip às mãos dos fiscal disciplinarians. Jerusalem estremece com um ataque mortífero na sinagoga. Scotland acolhe Mrs Nicola Sturgeon como First Minister. O antigo Prime Minister Sir John Major avisa em Berlin que o United Kingdom tem 50/50 chances de sair da European Union. 

The Rochester & Strood gates 3.JPGThe Rochester & Strood gates4.JPGIsolated showers and sunny intervals around, quando o mind eye abre à europroeza náutica do Rosetta com a sua fabulosa aterragem no cometa 67P. No momento do toutchdown regressa the spirit of 1969, naquele espantoso primeiro passo lunar de Mr Neil Armstrong. Para se aferir da relevância deste projeto da European Space Agency (ESA) recorde-se que os errantes cometas são como que “the building blocks of the universe." Saber mais da sua estrutura e composição assemelha-se a entrada num novo domínio dos deuses: as estrelas. Acresce que o suspense acompanha a 60-hour lifetime mission.

Não menos excitantes andam as coisas na terra, sobretudo pelos solares portões na peninsular South England. A political London desertifica-se para a frenética campanha final nas Medway Towns, com os membros da Govt Coalition ativamente no terreno e ainda que a afugentar os candidatos dos seus próprios partidos. Na minha humilde perspetiva, afinal também estudei PPE em Oxford, o melhor argumento vem mesmo de Mr David Cameron na old recipe do voto útil. Face à escalada ukkiper, diz o energético Tory Premier a espantado eleitorado rival do Labour: – Travem o Ukip, votando Conservative.
 Que a genialidade desce à cidade é já iniludível. Se o sucessor de Lady Thatcher em Downing Street discursa em Germany a elencar os riscos de desagregação que pairam sobre a EU28 face a leituras musculadas do papel de Brussels no controlo das soberanias, já Mr Edward Miliband polariza o debate doméstico para silenciar os descontentes internos com regresso a pop star left idea: os ricos que paguem a crise! Depois do one nation e do togetherness, o novo conceito do honorável Doncaster MP é a zero zero economy. A ressonância vitoriana é o traço comum na tríade, pois desvenda a sociedade com zero horas nos contratos laborais e zero libras nos impostos empresariais.

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Uma estreia nas telas do Soho estimula outros acesos debates, mas agora entre cinéfilos e historiadores: The imitation game. Com o adicional de ter como indecifrável protagonista Mr Benedict Cumberbatch (esse, o Sherlock Holmes do dia), a película de Mr Morten Tyldum narra a quebra do nazi Enigma Code durante a World War Two pelo matemático Mr Alan Turing. O criptoanalista cedo suscita eyebrows na equipa do Commander Alastair Denniston, em Bletchley Park, que continuam até ao suicídio, em 1954, a exemplo da sua Turingery. — Well, the worse the passage the more welcome the port.

St James, 18th November

Very sincerely yours,

V.



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Segunda-feira, 17.11.14

De 17 a 23 de novembro de 2014.

 

A exposição que está patente no Museu Bordalo Pinheiro em Lisboa, subordinada ao tema «Menezes Ferreira, Capitão de Artes» é um bom exemplo de iniciativa que recorda um autor injustamente esquecido, que nos coloca perante o debate que teve lugar na sociedade portuguesa sobre a participação na Guerra.

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 UM HUMORISTA NA GUERRA
O centenário do início da Primeira Guerra Mundial tem suscitado entre nós a realização de diversos eventos, que permitem não só um melhor conhecimento dos acontecimentos históricos, mas também a compreensão da importância da memória no debate político e cultural. Havia uma forte corrente que combatia a entrada no teatro europeu do conflito, ainda que houvesse um apreciável consenso sobre a necessidade da assegurar a defesa de Angola e Moçambique, cuja conquista estava nos objetivos da Alemanha. Aliás, se a presença em África de tropas portuguesas ocorre praticamente desde o início das hostilidades, muito tardiamente é tomada a decisão de intervir (1916), e só no início de 1917 chegará o primeiro contingente do Corpo Expedicionário Português (CEP). E o caricaturista João Guilherme Menezes Ferreira (1889-1936) documenta de um modo relevante, e com apreciável qualidade, a participação portuguesa na Guerra, com múltiplas implicações, dúvidas, angústias e limitações, tantas vezes trágicas.

Menezes Ferreira é um autor pouco lembrado, ainda que para quem tenha tido um intenso contacto, desde muito cedo, como foi o meu caso, com o múltiplo material gráfico da Primeira Guerra e em especial com a produção dos Humoristas portugueses, seja um velho conhecido. Foi, por isso, com um sincero prazer que reencontrei muitas ilustrações já vistas, ao lado de outras totalmente inéditas (sem esquecer a coleção de Emílio Ricón Peres). Trata-se de um caricaturista marcado pelo tempo, que foi sofrendo uma evolução não só pelo contacto e amizade com Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, importante colaborador de seu pai Rafael, mas também pelo conhecimento e influência dos humoristas europeus. Daí a simplificação dos traços que se vai evidenciando, na linha dos humoristas alemães, em especial do jornal «Simplicissimus»… Naturalmente que, ombreando com os melhores, sente-se o amador, que gostava verdadeiramente de ilustrar os acontecimentos e as inesperadas cenas do quotidiano. E é essa capacidade repentista que o singulariza – merecendo maior atenção do que a que lhe tem sido dada. E deve dizer-se que a exposição do Museu Bordalo Pinheiro é oportuna e pedagógica, uma vez que recolhe o testemunho vivido de alguém que esteve nos teatros de guerra e que ilustra o que então teve lugar, num momento especialmente difícil da vida portuguesa. A verdade é que a Guerra, com as suas consequências, foi um dos fatores que enfraqueceu a República.

 

AO LADO DOS MELHORES

E que encontramos? Antes de mais o movimento dos humoristas que teve influência importante na modernização do panorama artístico português. O I Salão dos Humoristas Portugueses no Grémio Literário nasce em 1912 do impulso de «A Sátira» de Joaquim Guerreiro e segue a tradição de Rafael Bordalo Pinheiro. Havia desenhadores consagrados (como Alfredo Cândido, Alonso, Celso Hermínio e Francisco Valença), mas também jovens com outras talentosas influências – Emmerico Nunes, Christiano Cruz, Almada Negreiros, Jorge Barradas e Canto da Maia. Faltaria referir os ausentes de início, como Stuart de Carvalhaes, Correia Dias (que emigraria para o Brasil) e Leal da Câmara, que tivera justo sucesso em Paris em «L’Assiette au Beurre». Christiano foi certamente o mais dotado, mas teria uma efémera intervenção. Stuart, Emmerico, Barradas e Almada teriam o sucesso conhecido. A Guerra em África leva o Alferes Menezes Ferreira para Angola como Adjunto do Comando do Destacamento, participa e ilustra a dramática batalha de Naulila. E possuímos os seus esboços desse tempo. Regressado à pátria, será dos primeiros a embarcar para a frente europeia, afirmando: «o meu natural bom humor tem-me desviado até hoje – o diabo seja surdo – de todas as ideias pessimistas ou defetistas, que é quase a mesma coisa, que possam abalar a minha firme convicção no rejuvenescimento de Portugal». A vida das trincheiras convidava ao tédio, mas o humorista procura retratar a solidão, os efeitos dos confrontos, as ironias dos «poilus» («un poilu qui passe»), mas sobretudo os pequenos atos de valentia dos soldados. E quando regressa, reconstrói quatro personagens, dois reais (Zé das Frágoas e Milhais, o invocadíssimo soldado Milhões) e dois imaginários (o célebre João Ninguém e Harry Budd). Aí encontramos o testemunho da mágoa e da incompreensão das entidades oficiais e dos civis que não partiram. Lembremo-nos que o golpe de Estado de Sidónio Pais (dezembro de 1917) contribuíra para desguarnecer a frente onde estava o CEP, mandara vir a Lisboa os comandos e atrasara o «roulement», com a terrível consequência do massacre de La Lys (abril de 1918). 

 

A PERSONAGEM DE JOÃO NINGUÉM
«João Ninguém, Soldado da Grande Guerra» é de leitura imprescindível para entender o que se passou… Como afirma Nuno Severiano Teixeira, numa obra muito útil que acaba de sair, («A Crise do Liberalismo, 1890-1930», volume 3 da História Contemporânea de Portugal, ed. Objetiva): «a estratégia intervencionista era a mais segura para alcançar os objetivos de guerra. Mais segura mas também mais difícil, porque exigia melhores condições e maiores meios. Ora, foi nessa avaliação estratégica que a política intervencionista falhou, traída pelo próprio voluntarismo. Os resultados viram-se na Conferência de Paz: Portugal obteve, integralmente, os objetivos coloniais; parcialmente, os económicos; mas falhou rotundamente o objetivo político: a entrada no Conselho Executivo da Sociedade das Nações»… Ora, o testemunho de Menezes Ferreira ilustra isto mesmo – como se vê nos «Sargentos da Revolução», apresentados como uma tropa fandanga, mal preparada, mal equipada e com pouco brio. E é curioso verificar como o humorista, como patriota que era, procura usar da pedagogia cívica para contrariar o contraste entre o empenhamento dos soldados e a desatenção política ao seu empenhamento. Depois de 1919, o artista dedicar-se-á à edição gráfica e à ilustração, por exemplo em «Tropa d’África», de Carlos Selvagem e «Marinheiros de Portugal», de Bernardo Mesquitela, ou à publicação de «A Viagem Maravilhosa de Gago Coutinho e Sacadura Cabral», de «Um Conto de Natal», de «À Luz do Lampadário» e de «As Tradições do Colégio Militar». Democrata e republicano vai sobretudo preocupar-se com a pedagogia cívica, procurando partir da experiência humana da guerra para defender a liberdade e uma visão humanista da vida. A sensibilidade artística e as suas qualidades, do caricaturista e do pintor, manifestam-se sem um caráter profissional e sistemático. Trata-se, pois, no essencial, de uma homenagem oportuna e justa (coordenada pela experiência de João Alpuim Botelho) à tradição da caricatura e à importância do humor na nossa cultura.

 

Guilherme d'Oliveira Martins



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Domingo, 16.11.14

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 Pascal

 

5. OLHAR PARA NÓS

Quem me tem lido sabe que pouco afirmo e muito questiono. Não sei nada que possa ou deva ensinar, partilho o que sintopenso, tenho esse gosto simples de dar a mão e perguntar. Como sou muito preguiçoso, procuro o conforto de quem nos alerte e desperte, sem qualquer preconceito de escolha, que não seja o desafio para uma reflexão sobre o que já se dá por adquirido. E esse convite à inteligência e ao diálogo, mais facilmente me virá de fora. O que "os outros" pensam ou dizem de nós pode não ser um espelho, uma representação fiel, do que somos. Mas por reflectir o modo como somos vistos é possivelmente uma oportunidade para nos interrogarmos sobre o que julgamos ser. Volto a Ibn-Khaldun, pensador mouro do sec. XIV. Depois de um relato da história do povo judeu até à destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos, escreve: Depois veio o Messias: trouxe aos Judeus a religião de que era mensageiro, e aboliu certas leis da Torah. Fez milagres extraordinários: curas dos loucos e ressurreição dos mortos. Muitos o seguiram e acreditaram nele. Os principais foram os apóstolos, seus companheiros, que eram doze. Enviou parte deles em todas as direcções, para espalharem a sua doutrina. Isso passou-se sob o reino de Augusto, primeiro imperador romano, e no tempo de Herodes, rei dos Judeus. Os Judeus tinham ciúmes de Jesus e trataram-no de impostor. Herodes, rei deles, escreveu a Augusto, imperador romano, e incitou-o contra Jesus. Augusto deu aos Judeus autorização para o condenarem à morte. Esta é a história de Jesus, tal como vem contada no Corão... ... Pedro foi o maior de todos os apóstolos. Estabeleceu-se em Roma, capital dos imperadores romanos. Escreveram então o Evangelho revelado a Jesus, em quatro versões correspondentes às suas diferentes tradições...   ...A maior parte deles é feita de sermões e narrativas, sendo pouco numerosas as leis...   ...O apóstolo Pedro, chefe dos apóstolos e decano dos discípulos estabeleceu-se em Roma, onde dirigiu a comunidade cristã até ter sido morto por Nero...   ...Mais tarde houve dissensões entre os cristãos acerca dos princípios básicos da sua religião e dos artigos da sua fé. Reuniram-se em Niceia, no reinado de Constantino, para fixarem por escrito o que devia ser tomado por verdadeiro no cristianismo. Assim, trezentos e dezoito bispos puseram-se de acordo sobre uma mesma doutrina do cristianismo a que chamaram Credo... ...Os bispos continuaram a ser os representantes dos patriarcas. Chamavam pai ao patriarca, em sinal de respeito. Assim também, na ausência do patriarca, os padres chamavam "pai" ao bispo, por respeito. Daí resultou uma longa confusão no uso desse título, que perdurou, diz-se, até ao patriarca de Heráclio, em Alexandria. Para distinguir o patriarca do bispo, chamaram-lhe papa, isto é, "pai dos pais". Esse título apareceu pela primeira vez no Egipto, segundo diz Jurjis Ibn al-Amid na sua História. Transmitiu-se em seguida ao titular da sé mais importante, a de Roma, que é, como vimos, a sé do apóstolo Pedro. E ficou, até aos nossos dias, seu atributo particular... ...Na terra dos francos, o papa insiste em que as gentes se submetam a um só príncipe e o consultem sobre todos os pontos de acordo ou desacordo, a fim de evitar a desunião. Procura assim formar à volta de tal príncipe um espírito de corpo mais forte, de modo a que tenha autoridade sobre todos. Esse príncipe é chamado emperador...  ...E o próprio papa coloca-lhe uma coroa na cabeça, em sinal de bênção. Ibn-Khaldun fala-nos do papado, numa época em que terminava a longa querela entre o Sacerdócio e o Império (1125-1358), em que vários papas foram tão tentados pela teocracia, melhor dizendo, pela temporalidade do poder pontifício. Mas, dos trechos aqui traduzidos, ressalta bem a clareza com que ele entendeu a fundação da Igreja como assembleia católica (universal), confiada ao corpo episcopal inicialmente composto pelos doze apóstolos, cujo primaz é Pedro de Roma. E é verdade que as expressões de respeito ou veneração ali referidas deram azo a algumas confusões, até que o papa Gregório VII (1073-1085) reservou o uso da designação papa, de origem mediterrânica, ao sucessor de Pedro em Roma. Diferentemente do que muitas vezes na cristandade se pensa, houve sempre, e há hoje, entre os pensadores islâmicos e nas suas escolas, uma reflexão documentada e séria sobre a instituição religiosa do cristianismo e a história da sua Igreja e doutrina. Importa também que consideremos os modos como somos vistos no mundo islâmico, para além da corrente tradicionalista (enquanto sunita fundamentalista, até Ibn Khaldun a partilhava) que defende não haver azo a qualquer debate religioso com judeus ou cristãos, gente do "Livro", aos quais, em território muçulmano só resta a escolha entre a conversão, o tributo per capita, ou a morte. Se Ibn-Khaldun assim pensava, é também porque vivia num tempo em que a cristandade, sobretudo a latina, era o grande inimigo do islão. Ele, cuja família fugira de Sevilha, lembrava assim a sorte dos seus antepassados: Entre os anos de 1225 e 1272, os muçulmanos espanhóis padeceram a conquista das suas fortalezas, a violação do seu território, a perda das suas províncias, a ocupação das suas cidades e a ruína das suas propriedades. As suas riquezas foram saqueadas pelo inimigo, ou então serviram para pagar contribuições forçadas e para adquirirem tréguas. Limitado ao reino de Granada, o Andaluz já não tinha as condições necessárias a uma civilização de progresso das ciências e das artes, que tampouco a ausência de uma civilização urbana no Magrebe lhes poderia facultar. Assim, Ibn-Khaldun irá dissertar sobre a decadência do sul islâmico, em  oposição ao surgimento científico e económico que então conheceria a Europa cristã das cidades e universidades. É interessante lembrar que, na qualidade de embaixador do rei de Granada, ele se encontrou, em 1363, com Pedro o Cru, rei de Castela, que não só o autorizou a se acantonar em Sevilha, como lhe propôs a restituição dos bens outrora ali confiscados à sua família... Mas naquela época  -  apesar das alianças de príncipes cristãos com muçulmanos contra cristãos e vice-versa, de tréguas e trocas de prisioneiros, de muito comércio e, mesmo acordos matrimoniais com as obrigatórias conversões  -  o clima geral era, de um e de outro lado, o de "guerra santa". Imaginemos o que seria o relacionamento entre religiões e culturas se, por exemplo, homens como Ibn-Khaldun tivessem tido a intenção, a oportunidade e a autorização para percorrer o borbulhante mundo universitário europeu que, sem esquecer as ilhas britânicas, já nessa altura se espalhava por todo o continente, de Coimbra à Polónia, onde se estudava Platão e Aristóteles, conhecidos também por versões árabes, com comentários de Avicena e Averroes, filósofos muçulmanos que, também nas universidades da cristandade europeia, eram apresentados e debatidos? Recorde-se que data de 1210 a primeira proibição eclesiástica de ensinar Aristóteles. Ela será relembrada em 1231, por ocasião do reconhecimento, por Luís IX, da autonomia corporativa da universidade de Paris, apoiada pelo papa, e já depois da fundação da universidade de Toulouse, em 1219,  onde professores frades dominicanos tinham voltado a ensinar Aristóteles que, a partir de 1240, aquando da chegada das primeiras obras de Averroes, seria ainda comentado por Alberto Magno e Roger Bacon. Em 1250, os dominicanos fundam escolas de árabe e, até 1270, a obra de Averroes vai entrando nas universidades. É nesse ano que se verifica a primeira condenação do "averroísmo", a segunda acontecendo, sete anos depois, em 1277, conjuntamente com a de teses tomistas. Sabemos como, apesar disso, Tomás de Aquino seria mais tarde considerado o teólogo oficial da Igreja católica, tendo sido levantadas as condenações de 1277, aquando da canonização de frei Tomás, em 1323. Vem a talho de fouce referir que aquelas reprovações tinham sido proferidas por Étienne Tempier, bispo de Paris, por meio de Syllabus, que antes fora professor da universidade, onde discordara de Tomás de Aquino : séculos mais tarde, conhecemos casos semelhantes (vg. pela Congregação da Doutrina da Fé), em que se procurou calar ou desacreditar quem, teórica ou discursivamente, discordava da opinião ou tese do eminente prefeito. Ibn-Khalun, fiel sunita, para quem a suprema referência do nosso conhecimento e interpretação do mundo, seria sempre o Corão e a suna, entendida como tradição corânica, teria estado mais de acordo com Tempier que condenava a proposta de frei Tomás e do seu mestre Alberto Magno de que se estudasse Aristóteles em apoio do questionamento teológico, reconhecendo à razão humana o direito de interrogar a fé, abrindo a todos o caminho da procura da verdade. Todavia, ainda que recusando a filosofia como ciência das coisas (esta está no Corão), apercebe-se de que a sua meditação sobre a expansão e recuo do islão no Andalus, tal como a ascensão e queda de dinastias e impérios, o conduziram a criar uma ciência nova : Posso bem dizer que uma nova ciência nasceu. Nunca, posso afirmá-lo, encontrei um só autor que tratasse do mesmo assunto. Na verdade, ele irá transpor o limiar da história narrativa para entrar na análise social e política da história, e fará da teoria crítica da história uma ciência das sociedades. Acaba por ser, também, um sociólogo "avant la lettre". Mas, goste ou não goste, o seu método de demonstração assenta na análise da realidade, em que, segundo a filosofia de Aristóteles, é fundamental distinguir o essencial do acidental. E, muito embora o filósofo grego na sua obra Da geração e da corrupção não se tenha lembrado de aplicar essas duas categorias à explicação da história ou da evolução das sociedades, é em jeito quase organicista que Ibn-Khaldun irá fazê-lo. Vemos assim como então, em ambos os lados do Mediterrâneo, e apesar de se proclamar a "guerra santa" como modo privilegiado de "diálogo", havia condições culturais e referências intelectuais para que as religiões pudessem conversar. Não seriam suficientes, nem tampouco a fase de decadência do islão ocidental em tempo de surgimento da civilização cristã europeia - com o que isso traz de mágoa e ressentimento - ajudaria. E o que veio a seguir foi o Império Otomano, dominador do islão anterior (menos em Espanha) e que, depois de destruir o Império Bizantino chegou às portas de Viena... Houve, todavia, casos curiosos de confrontações religiosas pacíficas, em que se procurava, não só pela pregação apologética, mas também pelo debate inter-religioso, dirimir ou evitar conflitos potenciais. Debrucemo-nos brevemente sobre a estratégia missionária dos dominicanos, designadamente no reino de Aragão, na 2ª metade do sec.XIII. Dois frades pregadores catalães, Raimundo de Penyafort e Ramon Marti - o primeiro conhecera pessoalmente São Domingos, em Bolonha, onde se licenciara em direito, fora mestre geral dos dominicanos e confessor do papa Gregório IX; o segundo, seu discípulo, aprendera o arameu, o hebreu e o árabe numa das escolas que a ordem dominicana entretanto criara para o efeito, e estudara a Bíblia hebraica, o Talmud e o Corão - solicitaram e aproveitaram a autoridade régia para coagirem sábios e clérigos judeus e mouros a participarem com eles em debates acerca das respectivas religiões. O esforço poucas conversões trouxe, ficando, em regra, cada um na sua, por vezes apelidando os outros de cegos ou estúpidos... E esta tentativa terminou, até porque muitos teólogos católicos defendiam, na senda do dominicano São Tomás de Aquino, que a verdade do cristianismo não pode ser provada só pela razão. Olhar para nós é, também, perceber a nossa incompletude e nunca esquecer o dito de Pascal: O coração tem razões que a razão desconhece.


Camilo Martins de Oliveira



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Sábado, 15.11.14

A procura por uma arte colectiva.jpg

A procura por uma arte coletiva


‘A arte não deve persuadir, e sim estar intimamente persuadida; apenas assim será poesia, pois a poesia é o ‘espírito de verdade’ que está no fundo das coisas e das pessoas’
, Giulio Carlo Argan

 

Tal como apresentado na semana passada, Giulio Carlo Argan em ‘Arte Moderna. Do Iluminismo aos movimentos contemporâneos .’ (1992) afirma que a arte pode ou resultar de uma inspiração puramente individual ou ser um instrumento que serve toda uma sociedade.

Ora a procura por uma arte coletiva manifesta-se, segundo Argan, através de uma representação formal de uma funcionalidade puramente social.

Para Argan, no Neoclássico, por exemplo, a ideia surge apenas entendida como uma exigência moral. A natureza é entendida como sendo uma invenção humana racional e é representada como favorecendo nos indivíduos sentimentos sociais (a arte tem, assim uma função educativa). O modelo clássico tem um sentido ético-ideológico, na medida em que é dado como arquétipo da arte, colocando-se como valor absoluto e universal, anulando tradições nacionais – os artistas não o repetem academicamente, mas aspiram à sua perfeição. Para Argan, a arquitetura do período neoclássico representa o primeiro episódio da arquitetura moderna. Com Boullée e Ledoux, a arquitectura é livre, simplesmente ‘fundada na consciência do dever civil’. O tema tipológico e a classificação precisa e funcional do objeto atuam em serviço da sociedade e do seu progresso. Cada edifício apresenta uma forma adequada a uma função, a uma tipologia e a uma espacialidade racional.

Já a cultura dominada pelo pensamento positivista, para Argan, elimina tudo o que é empírico na atividade do artista, oferecendo um método objetivo – os impressionistas baseiam os seus trabalhos em estudos de cor e concretizam uma nova apreensão da realidade. É o início da tentativa de tornar a arte uma ciência. A casualidade pessoal de cada artista abre-se à casualidade de um momento concreto. A realidade é agora representada através de uma ação cognitiva.

O movimento moderno surge como resposta formal social ao processo de industrialização, porque para Argan, o progresso pode transformar a finalidade da arte. E a questão da arte social culmina na Bauhaus, que ao integrar, através do factor da comunicação, todas as artes não deixa prevalecer nenhuma atividade. Apenas um método pode determinar a forma da vida do Homem em sociedade. Na Bauhaus, afirma-se o progresso pela educação. A escola é o núcleo, por excelência, formador da sociedade. A concepção da Bauhaus estabelece-se como um sistema de relação estreita entre a poética (funcional, racional) e a ciência (indústria). E assim produz formas-padrão, formas geometrizadas capazes de receber diversas interpretações. A Bauhaus não pretende criar formas ideais, pretende sim criar formas que produzam um dinamismo (uma forma em formação pelas interpretações sucessivas que vai recebendo). E Walter Gropius (1883-1969) é o criador do método racional e da Bauhaus como sendo uma escola democrática (Gropius é o firme defensor de uma ideia, de um programa, de um método, porém não crê na universalidade da arte). Gropius acredita que a função social do artista se concretiza no ensino, porque a finalidade imediata é a de restituir, entre a arte e a indústria produtiva, o mesmo vínculo que unia a arte ao artesanato.

Marcel Breuer (1902-1962) é o designer do novo tempo, é o designer da existência mínima. Projeta objetos totalmente inovadores em tipologia, tecnologia e funcionalidade. Concebe objetos espaciais ambíguos e experimentais. Ao criar, por exemplo os móveis em tubos metálicos, ele instaura uma nova tipologia, uma nova tecnologia e uma nova funcionalidade. Breuer entende que o problema do móvel era um problema arquitetónico. E a questão possuía um aspeto prático económico: em casas reduzidas ao ‘minimo da existência’, os móveis não poderiam ser maciços volumosos e pesados. Os móveis com tubos metálicos surgem como uma solução objetual leve, quase imaterial e económica porque a produção é em série. Breuer, segundo Argan, constrói assim um objeto útil que reflecte uma intuição espacial e interpretável e que é a primeira e mais bem conseguida síntese operacional e funcional das artes e do desenho industrial.

 

Ana Ruepp



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Sexta-feira, 14.11.14

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MORREU O FERNANDO 

Morreu o primo de Maria Teresa Horta, Fernando de Mascarenhas. Marquês de Fronteira e conde da Torre, entre outros títulos de que dispunha, foi sempre um democrata e um homem da cultura. Abriu as portas do Palácio de Fronteira a reuniões da oposição à ditadura. Criou a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, um importante instrumento de divulgação cultural. Foi no palácio que Maria Teresa, ainda criança, o conheceu, bebé recém-nascido. E como ela incomparavelmente escreve...

 

INFÂNCIA

 

Éramos crianças

e corríamos com os inusitados
animais que imaginávamos tirar
da lisura dos azulejos equívocos

que nos rodeavam

A evitarmos a crueldade
de cada cisne branco
nadando no lago ao fundo

Éramos crianças

e brincávamos com o vento
entre as estátuas dos jardins
por onde voávamos

Maravilhados diante
da estranheza

Lá atrás ficava o palácio
onde as nossas mães desatentas
fingiam vigiar-nos

Lavrando a beleza

 

Maria Teresa Horta
Lisboa, 12 de novembro de 2014

Foto - Em junho de 2011, Fernando de Mascarenhas fez questão de ser o anfitrião do lançamento do romance «As Luzes de Leonor», em que Maria Teresa Horta revive a figura da marquesa de Alorna, pentavó dos dois primos.


Da página oficial de Maria Teresa Horta



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Ibn Khaldun.JPG
Ibn Khaldun

 

4. ISLÃO, MILLA, UMMA

Um dos maiores pensadores sobre a história e as civilizações - recentemente redescoberto e mais estudado - é Ibn-Khaldun (1332-1406), mouro de linhagem andaluza, natural de Túnis. O seu mais fiel tradutor e divulgador, nos dias de hoje, é o historiador marroquino e francófono Abdesselam Cheddadi que, entre muitos outros trabalhos publicou, em 2012, na Pléiade, uma versão francesa da Autobiografia e da Muqadima, primeira parte do monumental Livro dos Exemplos, uma teoria das civilizações, designadamente da civilização islâmica, de raro rigor científico e metodológico, escrita por Ibn-Khaldun no século XIV! Encontrei, noutra obra de Cheddadi, também dedicada ao grande pensador andaluz, um texto que organiza  ideias e noções sobre o homem e a sociedade no contexto do Islão, que seguidamente transcrevo por me parecer de alguma utilidade para o que vamos procurando entender: Aquilo a que se pode chamar "sistema do islão" na era clássica até ao tempo de Ibn-Khaldun designava-se enquanto entidade particular por três termos - islão, milla, umma que se inscreviam implicitamente num mundo plural feito de fés, de comunidades religiosas e de nações diversas, e que tinham como pano de fundo a ideia de que os homens, como todas as coisas, são criaturas de Deus. O termo islão permitia evidenciar, dos pontos de vista teológico, jurídico e político, a oposição entre o sistema do islão e tudo o que não era ele: de um lado o dar al-islam (a morada do islão), do outro o dar al-kufr ( a morada da infidelidade), e o dar al-harb (a morada da guerra). O termo milla designava o islão enquanto religião, face a todas as outras crenças. Quando se queria falar do islão dizia-se al-milla, a religião simplesmente, empregando o termo de modo absoluto, para assim significar que o islão era a religião por excelência, a religião verdadeira. O termo umma, quanto a ele, caracterizava positivamente a comunidade muçulmana como tal. Há traços característicos da umma que a configuram com semelhanças à Igreja universal: comunhão de crentes de todas as raças e nações, antepassados, presentes e vindouros, povo que Deus acompanha até ao fim dos tempos. Também se lhe conhecem divisões, divergências religiosas, males necessários, e a correspondente tentação de as perseguir e castigar, para defesa e protecção da verdade e da união dos eleitos, já que a comunidade universal dos crentes tem também uma dimensão temporal... É ainda interessante comparar o que Ibn-Khaldun diz sobre o califado com o que diz do papado. Essas considerações surgem na terceira parte do Muqadima,que trata dos estados universais, poder, califato, funções governamentais. O autor fundamenta a instituição do poder na verificação da natureza necessariamente social do ser humano, que requer domínio e coacção, que são efeitos da irascibilidade e da animalidade, e por isso podem conduzir a abusos que tornem a obediência difícil e assim levem às desordens e ao homicídio. É portanto necessário referirmo-nos a regras políticas estabelecidas, reconhecidas por todos e cujas cláusulas todos respeitem...  ...Quando essas regras são estabelecidas pelos sábios, grandes personagens e mais iluminados espíritos do Estado, temos uma política racional. Quando são estabelecidas por Deus, por intermédio de um legislador que as proclama e delas faz uma lei religiosa, temos uma política religiosa, que é útil neste mundo e no outro. Aqui, Ibn-Khaldun discorre sobre a lei humana e a lei divina, de um modo que não estranhamos, posto que o mesmo poderia ter sido escrito por vários tratadistas cristãos: Com efeito, os homens não foram criados somente com vista a este mundo cá de baixo, que apenas é jogo e vaidade, porque destinado à morte e ao aniquilamento. Deus disse : "Credes que Nós vos criámos sem um fim?" (Corão,XXIII, 115). O fim para o qual eles foram criados é a religião deles, que deverá conduzi-los à felicidade no outro mundo. É "a via de Deus, a quem pertence o que se encontra nos céus e na terra" (Corão,XLII, 53). Assim, as leis religiosas vieram para exortar os homens a seguir esse caminho em tudo o que fazem, quer em matéria de culto, quer nas relações com os seus semelhantes. Mesmo o poder, que é natural à sociedade humana, fazem-no depender da via da religião, a fim de que todas as coisas sejam regidas pelo Legislador. Todo o poder fundado sobre a coacção e o domínio, e que deixa livre curso à irascibilidade, é injustiça e opressão. É censurado pelo Legislador, tal como pelas exigências da sageza política. Do mesmo modo, qualquer poder fundado sobre a política e as suas regras que não for regido pelo Legislador, é igualmente censurável, porque privado da luz divina... E é no desempenho dessa função de política religiosa que situa o estatuto de califa : O califa é o substituto do Legislador para a guarda da religião e o governo das coisas cá de baixo com fundamento religioso. Por isso se chama a essa função califado ou imamado e, a quem a exerce, califa ou imã. Os modernos também lhe chamam sultão desde que houve vários califas ao mesmo tempo, e em razão das distâncias, e na ausência das condições requeridas, surgiu a obrigação de prestar juramento a quem impusesse o seu domínio. A apelação imã vem da analogia com o imã que dirige a oração, que devemos seguir e tomar por modelo... ...Quanto à apelação califa, ela explica-se pelo facto de que o califa substitui (yakhelufu) o Profeta junto da sua comunidade. E acrescenta que o califa é o  vigário do Mensageiro de Deus, não do próprio Deus, justificando: Substitui-se um ausente e não Alguém que está presente. Não nos demoramos a acompanhá-lo nas muitas considerações, concordâncias e refutações que vai fazendo sobre as várias teses que dividem as escolas e seitas do islamismo quanto à natureza dos poderes dos califas, e quanto à nomeação, eleição ou sucessão  destes. Ibn-Khaldun é sunita, a escolha do califa e do imã deve ser feita por consenso da comunidade, respeitando critérios de sageza, prudência, sabedoria e santidade, e o poder do califa não deve ser confundido com o poder real. E caberá observar aqui que, hoje ainda, na esmagadora maioria das comunidades muçulmanas, os imãs não desempenham funções políticas, ainda que, pelas prédicas, possam influenciar a cultura em que uma comunidade se move. Isso também os cristãos sabem o que é... No capítulo XXXI dessa III Parte do Muqaddima, fala-se dos títulos de papa e de patriarca entre os cristãos e de kohen entre os judeus. Lá voltaremos em crónica próxima, mas transcrevemos aqui os dois primeiros parágrafos, pois nos ajudam a perceber a teoria do poder e o seu cariz religioso, subjacente à história política dos califados e do império otomano. Na ausência de um profeta, qualquer comunidade religiosa deve ter alguém que a dirija e vigie a aplicação das leis religiosas. Essa pessoa age como representante do Profeta, e encarrega-se de fazer respeitar as obrigações que aquele trouxe. Por outro lado, para a vida em sociedade, a espécie humana precisa necessariamente de um governo, como já afirmei. Precisam, portanto, os homens de uma pessoa que os leve a agir no sentido do interesse deles, e que os desvie, pela coacção, daquilo que os prejudica. É o soberano... E temos de compreender o seguinte à luz da condição de um muçulmano ibérico que já vê aproximar-se  a vitória final da reconquista cristã da Península: ...Na comunidade muçulmana, a guerra santa é um dever religioso, porque o islão tem uma missão universal, e todos os homens se lhe devem converter, de bom grado ou pela força. Assim o califado e o poder temporal ali se unem, de modo a que o poder do soberano a ambos possa servir simultaneamente.  Já referi  -  lembrando, aliás, afrontamentos entre o papado e o império, a excomunhão de monarcas, guerras religiosas, o Estado pontifício  -  que a tentação constantiniana, isto é, o modelo imperial da Roma antiga, andou vagueando pela história da cristandade, sobretudo ocidental. Mas no caso do cristianismo, a queda do império romano não trouxe a imposição das religiões dos bárbaros conquistadores, antes paulatinamente foi arrastando para a fé de Jesus os povos vários que as hordas iam instalando em terras do velho império. Assim, a Igreja cristã foi evoluindo sob a tensão entre a propensão para a conquista (além dos afrontamentos acima mencionados, recordem-se as cruzadas, os ultimatos à conversão de judeus e mouros, a Inquisição, certos modelos de zelo missionário), e a persuasão pelo testemunho da fé, pelo exemplo das obras, pela pregação da palavra que um labor teológico permanente levava a dialogar com o mundo. Por esse esforço de estudo e interrogação da revelação e da contemporaneidade, a Igreja cristã foi-se mantendo atual - apesar de tantos caprichos e atrasos de sectores mais "conservadores"  -  ao ponto de se poder afirmar que são cristãos valores da Revolução Francesa (liberdade, igualdade, fraternidade), tal como preocupações, movimentos e políticas de justiça económica e social, ou da paridade de estatuto das mulheres. A Umma islâmica estendeu-se, a partir da Arábia, quer para ocidente  (pelo Egipto e toda a África mediterrânica e, do Magrebe, até à Península Ibérica) , quer para oriente ( pelo sudoeste asiático até à China e, no sul, pela Índia, até à Malásia e Indonésia), quer ainda para norte e noroeste (Síria, Iraque, Pérsia, Império Bizantino, até aos Balcãs), sem esquecer os caminhos do sul (seja pela costa oriental de África ou, ainda, pela expansão subsaariana, até à Guiné, e, abaixo do Egipto, ao Sudão). Depois da expansão islamo-árabe inicial  --  que reduziu à condição de servos todos os povos conquistados, do Egipto à Pérsia, incluindo os convertidos  --  o islão mediterrânico conheceu dois califados : o omíada (Damasco), que, de 661 a 750 se impôs ao mundo muçulmano e o expandiu, só caindo pela sublevação dos povos não árabes dominados ; e o abássida (Bagdad) que reconheceu a igualdade de todos os crentes, árabes ou não, e confinou os omíadas à Espanha (de 756 a 1031). Com a quebra do poder dos abássidas, entre 905 e 1050, esse islão dividiu-se por três impérios, representando diferentes entidades étnico-políticas, conheceu os reinos almóadas e almorávidas e, finalmente, o império otomano (1326-1923). Alhures, ainda se afirmou na Índia o império mogol e, pelo oriente e África, diversos reinos e sultanatos. Conjugadas com várias tradições teológicas e diversas influências e circunstâncias culturais, essas comunidades foram evoluindo com características próprias, num islão mais plural do que uniforme. Atualmente, a diáspora islâmica em nações ocidentais reflecte essa pluralidade, e traduz atitudes diferentes, quer quanto ao relacionamento do islão com culturas que, muito embora lhe sejam originariamente estranhas, constituem hoje, nos países em que os muçulmanos são minoritários imigrantes, a sua circunstância. Aí se têm desenvolvido encontros interculturais, diálogos inter-religiosos e, consequentemente, teologias islâmicas com um conceito mais místico da Umma, que, sem deixar de ser a dar al-islam, a morada da religião verdadeira (al-milla), vive entre outras comunidades de fé... Por outro lado, em territórios maioritariamente ocupados por populações muçulmanas, vão surgindo, crescentemente, exemplos de inovação, correcção, rebelião e, até, de apostasia. Num país de eleição para a Al-Qaeda, o Paquistão, uma jovem adolescente muçulmana enfrenta os temíveis talibã para reclamar e praticar o direito à instrução e à igualdade das mulheres. Em Teerão, a burguesia desafia alegremente, todas as noites, os códigos de comportamento corânico impostos pelos aiatolas. Na própria Arábia Saudita, as redes de comunicação electrónica transmitem e trocam mensagens de discordância e contestação, não só da teocracia wahabita, mas da própria fé islâmica: Será Alá mau, ou não se interessa por nós?... Haverá, no Paraíso, para as mulheres, a mesma recompensa de setenta e duas virgens, prometida aos homens?... Se a religião é verdade, porquê defendê-la pela violência?... Ateísmo porquê? Será por pensarmos que a religião é contrária ao humanismo? E outras divisões e conflitos fracturam o islão, levando muitos muçulmanos, homens de fé e boa vontade, a insistirem no espírito de comunhão da Umma sobre as distinções entre moradas de fiéis e infiéis, que sempre conduzem à guerra: o reino saudita já se sente cercado pelo Irão chita e os zaidistas (seita chita) do Yémen; na Líbia, na Síria, no Iraque, etc., a confusão e a luta entre várias tradições, seitas e nações muçulmanas ganha proporções assustadoras, e não podem ser exclusivamente atribuídas à queda da hegemonia otomana, aos ocupantes europeus e às desastradas interferências americanas... Mas mais preocupante ainda é o facto da aproximação recente de militantes da Al-Qaeda ao Daech ou Estado Islâmico, designadamente no Paquistão, onde a influência talibã e as desavenças com a Índia concentram pretextos explosivos de uma guerra que até pode ser nuclear... Não esqueçamos que, enquanto o movimento de Bin-Laden é uma organização terrorista internacional e ubíqua, o Daech se apresenta como um califado confinado a um território. Assim, uma aliança de ambos poderá engendrar mais um flagelo expansionista totalitário... Sobretudo num mundo que continua a gerar desadaptados, jovens excluídos das sociedades e da esperança. Pensa-se que 60% dos jiadistas hoje recrutados, nem crentes são. Proximamente veremos como o "ocidente cristão" tem muito para rever.


Camilo Martins de Oliveira



publicado por cnc_admin às 09:00 | link do post | comentar

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