Sexta-feira, 24.10.14


«Ecce Homo» Nuno Gonçalves


4. MAGNIFICAT ANIMA MEA DOMINUM
 

No 1º Livro de Samuel, conta-se como a mãe deste assim o chamara porque, sendo ela estéril, Yahvé todavia lho dera. E quando, com seu marido Elqana, ela, Ana de seu nome, consagra a Deus o  filho do casal, recita uma oração de acção de graças que começa assim: O meu coração exulta em Yahvé! E a razão dessa alegria é o poder de Deus que inverte a ordem mundana das coisas, tira os fracos do pó, e do fumeiro levanta os pobres, e lhes dá um lugar de honra... Semelhante será o tema do hino de Maria, Mãe de Jesus, que S. Lucas inclui no seu relato da visitação a Sta. Isabel, e cujo primeiro verso serve de título a esta minha confissão: A minha alma exalta o Senhor e o meu espírito estremece de alegria em Deus meu salvador, porque se dignou olhar para a sua humilde serva... Santo é o seu nome, e a sua misericórdia estende-se de idade em idade sobre aqueles que o temem. Exerceu a força do seu braço e dispersou os homens de coração soberbo. Derrubou os potentados dos seus tronos e levantou os humildes. Saciou de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias... Tal como Samuel, Isaac, filho que Abraão tem de Sara, e João Baptista, o menino que exulta no ventre de Isabel, quando esta percebe que sua prima Maria, que a visita, espera Jesus, o Salvador, são também filhos de mães estéreis. E o próprio Cristo nasce de uma virgem. E a vontade poderosa de Deus - que assim contraria a ordem conhecida - anuncia por tais sinais uma ordem nova, em que tudo o que consideramos valoroso e superior - o dinheiro, o poder, a glória deste mundo - será substituído pelas coisas humildes que menosprezamos. No evangelho dos sinais messiânicos, o de S. João, a narrativa da paixão de Cristo - conducente à sua morte e ressurreição, que dão todo o sentido ao Credo cristão - começa por nos contar a lavagem dos pés que Jesus faz aos seus discípulos, sinal dessa subversão dos valores do mundo. Sinal bem forte: o próprio Deus se humilha perante os homens, e por aí lhes diz que assim também eles deverão proceder uns para com os outros. Nos evangelhos de Mateus e Lucas, quando as multidões vão crescendo a seguir Jesus, para assistirem e, quiçá, beneficiarem dos seus milagres, Ele ensina-lhes as bem-aventuranças: Felizes os pobres, porque deles é o reino dos céus! Felizes os mansos, porque possuirão a terra, os aflitos, porque serão consolados, os famintos e sedentos de justiça, porque serão saciados, os misericordiosos, porque obterão misericórdia, os corações puros porque verão a Deus, os artesãos da paz porque serão chamados filhos de Deus, os perseguidos por amor da justiça porque deles é o reino dos céus... E se S. Lucas regista, a seguir, a maldição dos que são ricos e poderosos pela ordem deste mundo, logo insiste no apelo ao amor, até dos próprios inimigos... E S. Mateus mostra como os chamados à bem-aventurança devem ser, desde já, o sal da terra, a luz do mundo. Estes textos - o Magnificat e os outros que acima refiro - são outros tantos textos fundadores de uma reflexão mais profunda sobre a minha fé. Já antes disse que quando, perante a existência do mal, sinto angústia e revolta, recuso pensar o absurdo como logos, pois a explicação ou o entendimento não pode esgotar-se na perplexidade; perante o absurdo e a minha incapacidade de o entender, recorro ao Logos, Verbo de Deus, para iniciar um caminho de contemplação do mistério de tudo. Que logo me leva a entender, com S. Tomás de Aquino, que a vida contemplativa consiste numa certa liberdade da alma : "A vida contemplativa, diz S. Gregório, porque não se aplica às coisas temporais, mas às eternas, faz-nos entrar na liberdade do espírito." E também Boécio: "As almas humanas tornam-se necessariamente mais livres quando se põem na contemplação da inteligência divina, do que quando se dispersam pelo mundo corporal"... Assim entrego ao pensamento de Deus aquilo que não entendo ainda, mas sobre isto e a revelação divina, não posso nem devo deixar de me interrogar. Também o Ser Amor -  como Deus se revela  -  me deverá conduzir desde já às tarefas de justiça, bem-querer e paz com que se construirá na terra, nem que apenas ainda como sinal, a substância das coisas que esperamos. E ocorre-me citar Santo Agostinho nas Enarrationes in Psalmos : Dois amores fizeram duas cidades: o amor de Deus cria Jerusalém; o amor do século cria Babilónia. No livro XIV, 28, de A Cidade de Deus, escreve: Dois amores construíram, pois, duas cidades: a da terra, pelo amor de si até ao desprezo de Deus; a do céu, pelo amor de Deus até ao desprezo de si... E dirá mais tarde, quase na hora da morte: Assim, estes vinte e dois livros têm todos por assunto ambas as cidades, mas o título de todos eles vem da melhor  delas : por isso lhes chamei A Cidade de Deus... Pessoalmente, sintopenso esta cidade de deus fora do contexto maniqueu, donde muitas vezes parte o Bispo de Hipona. Antes a situo na perspectiva da vocação cristã à procura do Reino de Deus, que pressupõe o entendimento de que a ordem terrena da grandeza, poder e riqueza, tudo aquilo de que nos queremos apropriar - pelo amor de nós até ao desprezo de Deus - deverá ser subvertida pelo amor de Deus que é, necessariamente, amor dos outros, justiça e paz: a fé é a substância das coisas que esperamos. Esta nossa conversão leva-nos à denúncia da injustiça entre os homens, à comunhão no sofrimento dos desvalidos, como a de Cristo na nossa condição. Princípio de vida, que não pode nem deve ser esquecido, muito embora sejam múltiplos os dons e as opções de cada um na busca da caridade, esta sendo , não uma esmola, mas justiça para todos. Assim também, se pensar em revoluções sangrentas ou geradoras de novas injustiças, deverei lembrar-me do que frei Tomás de Aquino escreveu - em texto da Summa que já citei e aqui acrescento: ... a prudência, ou virtude política, é serva da sabedoria, porque lhe prepara o caminho, como um servo ao seu rei... a prudência considera os meios de chegar à felicidade, enquanto que a sabedoria considera o próprio objecto da felicidade, que é o supremo inteligível . Assim, se o conhecimento que a sabedoria dirige para o seu objecto fosse perfeito, a felicidade perfeita consistiria no exercício da sabedoria; mas como o exercício da sabedoria nesta vida é sempre imperfeito relativamente ao seu principal objecto, que é Deus, o acto da sabedoria é uma espécie de esboço ou de participação da felicidade por vir, que, enquanto tal, se aproxima mais da felicidade do que a prudência. Quando atrás fiz referência ao maniqueísmo, lembrava-me da ideia de pecado originalque, vezes demais, serviu para que se generalizasse o equívoco de que, para o cristianismo, o ser humano é inerentemente mau e só um qualquer castigo, sobretudo auto infligido, o libertará do maligno. Costumo dizer que, na recitação do Credo, confesso que creio na remissão dos pecados, e não que o pecado seja fé minha... Quero com isto significar que o amor de Deus - que praticamos na caridade entre os homens - não é, nem pode ser, desprezo ou menosprezo da nossa humanidade, antes pelo contrário: esta tem o valor divino que o Verbo incarnado e ressuscitado lhe trouxe. A minha fé está no evangelho (boa nova!) da alegria. Sejam pois sempre interpretadas a esta luz expressões que contrastem o amor de Deus com o amor humano. Até para não cairmos nas tentações de Nietzsche... Retenho apenas alguns dos seus juízos sobre (ou contra) o cristianismo, que me parecem ter mais relação com o que nesta folha trato. Na sua última obra, Ecce Homo, o filósofo da "morte de Deus" explica assim a acusação que, no seu O Anticristo, ao cristianismo faz de arrogância idealista: até onde for a fabricação de um mundo ideal, se vai retirando à realidade o seu significado, valor e verdade... É nessa diatribe anterior que Nietzsche acusa a religião cristã - tal como ela decorre da apresentação feita pelo clero das diversas igrejas - de promover o horror e ódio de si, e à natureza, seus instintos e pulsões (designadamente sexuais), ameaçando de castigos eternos os pecadores que não se queiram redimir através dos padres ou pastores... Tendo morrido, já louco e confinado à Villa Silberblick, em Weimar, em 1900, ele não terá tido vida e reflexão sobre os movimentos sociais cristãos subsequentes à pregação de Lacordaire e à Rerum Novarum de Leão XIII, nem sei se isso serviria outras ideias de um filósofo que também acusava o cristianismo de destruir o espírito aristocrático que diferencia as pessoas, já que o evangelho dos humildes torna as coisas mais baixas. E que lhe apontava a hipocrisia da mensagem fundadora de Jesus, que chamaria amor à ameaça do escravo contra os poderosos que correm o risco de serem condenados ao fogo do inferno... Pessoalmente, sempre me desgostou a obsessiva insistência eclesiástica no chamado pecado da carne (sexo), e sempre me sentipensei com pouco mérito mas grande alegria na comunhão de uma Igreja, em que tantos fiéis, pela sua acção, testemunham a boa nova anunciada aos pobres, cuja substância são as coisas que esperamos.


Camilo Martins de Oliveira



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Quinta-feira, 23.10.14

 

Amigo, querido amigo:

Sei que a correspondência vem também com o puxão do nascer. Nasce uma carta e um postal que não teriam nascido se não houvesse esperança. E pode aparecer um Deus que fecunda.

Tal como o meu amigo, gosto da verdade humana, e, sobretudo, daquela que me não diz o que uma revolução quer de mim.

Afectuosamente,

Teresa Bracinha Vieira



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Quarta-feira, 22.10.14

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André Brun, caricatura de Francisco Valença 

 

ANDRÉ BRUN, DA COMÉDIA E DA REVISTA À TRAGÉDIA DA GUERRA

Há um paradoxo, e não é pequeno, nesta evocação das comédias e das revistas de André Brun: é que a oportunidade e a calendarização surge no contexto das comemorações do início da Primeira Grande Guerra: e no livro de recordações intitulado “A Malta das Trincheira - Migalhas da Grande Guerra – 1917-1918”, o capitão André Brun descreve, num realismo simultaneamente cómico e trágico, os dois anos que passou no Norte de França, nas trincheiras do Corpo Expedicionário Português.

Desde logo se diga que esta narrativa, sempre dura, tantas vezes cruel nos factos vividos que descreve, não raro irónica mas sempre humaníssima, concilia-se bem com a extraordinária obra teatral do autor, que nos deixou para cima de trinta peças, sobretudo comédias e revistas. E praticamente em todos esses textos, dos mais cómicos aos mais sensíveis, o que ressalta é um substrato humaníssimo de observação de comportamentos, de situações, geralmente cómicas mas sempre com um substrato que conduz à observação e compreensão psicológica - e isto, tanto nas formidáveis comédias, como “A Vizinha do Lado” (1913) que António Lopes Ribeiro transpôs para o cinema em 1945, ou sobretudo “A Maluquinha de Arroios” (1916) que constituiu, mais de 50 anos passados, um dos maiores sucessos do Teatro Experimental de Cascais: de ambas escrevi, na “História do Teatro Português” (2001), que  “são modelares dessa textura do primeiro quartel do século XX português, com a problemática que a I Guerra reforçou”…

Ora precisamente: as memórias da guerra, vividas e descritas por Brun, transmitem um sentido simultaneamente trágico, condoído, irónico tantas vezes mas sempre solidário, da tragédia individual e coletiva da guerra. E sente-se, nestas descrições vividas, o sentido de dramaticidade, abrangendo situações trágicas mas também “cómicas” se tal se pode dizer na guerra…

Os exemplos sucedem-se, mas veja-se esta transcrição:  

«Entrevisto a minha gente.-Ah! Meu capitão! Eles mandaram aí umas “garrafas de litro”; mas cá a gente não “cortou prego”…

A quem queira fixar o português da zona de guerra, direi que os projeteis eram então divididos, conforme o tamanho, em “barris de almude, garrafas de litro e copos de meio litro”. “Cortar prego” ficou sendo ”sem medo”». (André Brun, ob. cit. Pag.41)

Ora bem: o que aqui e agora quero salientar é este extraordinário talento que permite passar da tragédia da guerra, diretamente vivida, para a exuberância espetacular da ”revista à portuguesa” como enão se dizia, para já não falar das comédias. “Se é certo que fala do medo, do sofrimento e da morte, também é certo que procurou nas condições da natureza e da condição humana aquilo que um humorista sempre procura quando admite que o riso seja temperado com o sal das lágrimas” escreveu José Jorge Letria na reedição de “A Malta das Trincheiras”. E não será por acaso que Brun a certa altura escreve, na obra citada, que “ o grande Q. G. (Quartel General), tendo acordado em que um dos meios de promover as tropas do que se chama um bom senso moral é facilitar-lhes quanto possível o bom humor, organizou a Repartição dos Humoristas com delegações nas várias estâncias da papelândia”… 

“Talento enorme de humorista,” refere Vítor Pavão dos Santos: e cita um diálogo entre a “Avenida da Liberdade” e as “Avenidas Novas”, na revista “Fado de Maxixe” (1909):

«AL – Eu sou desta aldeola em ponto grande/Desta Lisboa toda presumida/ Onde a tolice com rumor de expande/ A via mais seleta e concorrida.

“AN - Nós, Avenidas Novas/Meninas petulantes/ damos sobejas provas/ de ser- mos elegantes» …( cit. in “A Revista à Portuguesa” -   1978).

E Luís Francisco Rebello transcreve, da revista “O País do Vinho” (1909), uma “Cega – Rega do Ministério” em que o Diretor Geral, os oficiais e amanuenses, o contínuo, o porteiro, abandonam a repartição porque “O ministro foi a paço/Com certeza não vem cá/Portanto também me passo/ Que é mesmo um ar que me dá”…( in” História do Teatro de Revista em Portugal” vol. I – 1984.

DUARTE IVO CRUZ



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Terça-feira, 21.10.14

Who runs Britain, 2014-17

Who runs Britain, 2014-17.JPG 

Hesito entre o cadeirão e os elevadores. Por onde começar, pois? Talvez pelo adeus de quem preside à European Commission durante a última desoladora década. O Senhor José Manuel Barroso vem a London dar uma lição sobre comando e controlo na sua etapa final ao leme de Brussels. Destinada a estremecer a coroa na gestão das fronteiras, o Ukip saúda-o, aplaude-o e agradece-lhe. — Et voilá! Noblesse toujours oblige, chérie. O elo entre esforço e recompensa que alicerça a abertura aos talentos no reino quebrou-se algures e HM Social Mobility and Child Poverty Commission exige reparação sob pena de mal maior na meritocratic Britain. Esta é uma das conclusões no State of the Nation 2014 Report agora apresentado nas Houses of Parliament. — Hmm! What is the good of a sundial in the shade? Monsieur JC Juncker apresenta em Strasbourg o programa e a equipa de comissários europeus. Mrs Nicola Sturgeon ascende ao trono no Scottish National Party em Glasgow após a derrota no referendo autonómico e arma a Holyrood card para novo jogo em Westminster. O British Museum acolhe em London a art exhibition “Germany: Memories of a Nation.”

A blue-hazed autumn sky cá pelas ilhas do North Atlantic quando a fiscalidade adere a modernaço código de cores: impostos sim, mas verdes. Na balança da competitividade, mesmo com baixos salários, é tudo receita para brilharete nas vésperas do 2015 Paris Climate Summit. Já a qualidade da meritocracia britânica entra no debate público por via de um crítico relatório que desvenda falhas severas no sistema educativo e debilidades abundantes em mercados laborais dominados pela pobreza dos low wages. Grave: Assim se compromete o objetivo oficial de erradicar a child poverty durante os 2010s. A comissão liderada por Mr Alan Milburn conclui: “2020 could mark a watershed between an era in which for decades there have been rising living standards shared by all and a future era where rising living standards bypass the poorest in society.”

Qual emissário imperial na sua farewell tour às portas da Hadrian Wall, ou como outgoing elephant in a china shop, o Senhor José Manuel Barroso afirma em London que os controlos no UK da emigração vinda da Europe são ilegais e prediz que Britain terá "a marginal influence" nos global affairs se acaso abandonar a European Union. As reações à afoiteza trovejaram a par da imediata ovação dos ukkipers. O Prime Minister David Cameron recorda who is the boss in the Kingdom. Ora, ao invés de revisitar a fiabilidade dos mecanismos de Schengen na circulação de criminosos indesejáveis, Sr Barroso adverte assertivamente o No. 10 que não desafie o sagrado princípio do free movement de pessoas e capitais nas euronegociações. Acaba a estimular as propostas domésticas de Brexit. A retórica aquece com a resposta de que as políticas de HM Government não são definidas por euroburocratas, antes pelo British people.

Nos 25 anos da queda do Berlin Wall, o British Museum apresenta impressiva exposição sobre as flutuantes fronteiras no passado imperial e na presente New Germany entre o rino de Dürer e telas de Goethe até ao VW Beetle. A BBC Radio 4 acompanha a iniciativa com uma série de programas sobre a história alemã desde o Holy Empire. Além Atlantic, o editor do Washington Post no memorável caso Watergate parte aos 93 anos. “Just get it right” é o motto com que Mr Benjamin CB lidera várias gerações de repórteres e marca o jornalismo de investigação, num tempo em que outros newspaper editors abdicam da lealdade às essências neste serviço público. — Farewell, Mr Ben Bradlee.

St James, 22th October

Very sincerely yours, V.

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Segunda-feira, 20.10.14

De 20 a 26 de outubro de 2014.


«Um Mundo que Falta Fazer» e «A Insurreição de Jesus» de Frei Bento Domingues, O. P. (Temas e Debates, 2014) são coletâneas que, apesar de reunirem artigos publicados ao sabor do tempo, têm um sentido de unidade que lhes dá grande pertinência. A organização coube à Irmã Maria Julieta Mendes Dias e a António Marujo. E deve dizer-se que os textos não perderam atualidade nem ganharam rugas, merecendo ser lidos com especial atenção num momento em que há tantas vezes a tentação de correr atrás do que a maioria quer ouvir, em vez de se procurar a serenidade do que falta ser feito.

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UMA DISCUSSÃO SÉRIA SOBRE VALORES
Ao falar da necessidade de os europeus terem uma discussão séria sobre os seus valores, Ohran Pamuk referiu liberdade, igualdade e fraternidade. Preocupado com a defesa e salvaguarda do património cultural, não como referência ao passado, mas como desígnio do presente e do futuro, o galardoado com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva pôs na ordem do dia o que o pensador canadiano Charles Taylor tem designado como «horizontes de sentido», ou seja, a procura do fundamento das relações sociais e de diálogo, a partir das diferenças que caracterizam a sociedade aberta e plural, onde as escolhas vitais ganham importância e sentido. Sem essa base de liberdade, de respeito e de entreajuda, as escolhas tornam-se vulneráveis, relativas, indiferentes e de valor reduzido, numa palavra: perdem significado. Nunca como hoje, perante tantos perigos e tantas incertezas, Hans Küng foi tão atual e oportuno ao dizer que não haverá paz entre as nações se não houver paz entre as religiões. Esta questão é fundamental e obriga à superação da perigosa indiferença a respeito dos horizontes de sentido. Daí a importância e a dificuldade do tema da liberdade religiosa, como recordou Frei Bento Domingues no Encontro «À procura da liberdade» - liberdade que significa ter ou não ter religião, mas também a salvaguarda da pluralidade das opções, sem confundir planos, cientes de que ninguém pode considerar-se detentor de uma verdade absoluta (leia-se «Um Mundo que Falta Fazer», Temas e Debates, 2014). Como disse o Concílio Vaticano II, demarcando-se de desajustados fechamentos, em «Dignitatis Humanae»: todos os seres humanos «devem estar imunes de coação, quer da parte de pessoas particulares, quer de grupos sociais ou de qualquer poder humano, de tal maneira que em matéria religiosa ninguém seja obrigado a agir contra a sua consciência, nem impedido de atuar de acordo com ela, privada ou publicamente, só ou associado a outros, dentro dos devidos limites» (nº 2). Daí também que ciência e fé não possam confundir-se. Nem a ciência pode recusar o problema dos limites do conhecimento, nem a fé pode pôr em causa a procura crítica da verdade e a exigência de avançar no domínio do saber. Importa lembrar a etimologia original da palavra «libertas», como a qualidade da balança (libra) equilibrada e sem travão, que obriga à ponderação permanente do «eu» e do «outro». De facto, o cerne da relação plural na vida em comunidade está no respeito, na compreensão e no reconhecimento.

 

NÃO À INDIFERENÇA

Não se trata de criar um espaço de indiferença, uma terra que ninguém sente como sua, mas de garantir o reconhecimento das diferenças e das especificidades, em nome de uma integração que abra espaço de relação e de entendimento. Uma sociedade em que as pessoas atuassem com responsabilidade e atendendo ao bem comum estaria por certo mais preparada para prevenir a crise (financeira, mas sobretudo de valores) cujos efeitos sentimos duramente. Por outro lado, perante as manifestações de violência e os sinais de intolerância e de exclusão, Amartya Sen tem dito que aquilo de que se trata é de garantir a necessidade de persuadir as pessoas que chegam, por exemplo, à Europa, ou a uma sociedade diferente que seja aberta, para aceitar a ideia de múltiplas identidades que se completam e enriquecem mutuamente. Voltando a Charles Taylor, a solução não está nos métodos naturalistas (ou positivistas), segundo os quais os fenómenos humanos e sociais, incluindo a nossa subjetividade, apenas são compreendidos no modelo dos fenómenos naturais, usando cânones fechados e redutores de explanação, mas num esforço especial de reconhecimento. A modernidade que corresponde à valorização da singularidade, mas também à complexidade, não pode ater-se à lógica atomística e egoísta. O individualismo é falso. Quando as pessoas perseguem só o seu benefício próprio e imediato equivocam-se. Contra a abstração supostamente liberal preocupada com a noção mecanicista de mercado, importa pensar no imaginário social – na autonomia crítica que deve estar subjacente, na linha de Cornelius Castoriadis, e na criação de elos de confiança, um dos nossos mais importantes recursos morais. Afinal, numa sociedade que valoriza a dimensão ética (o «ethos», como morada e caráter) trabalha-se ativamente para respeitar e reconhecer a dignidade própria e alheia, a multifacetada dignidade humana, da pessoa em si e perante a natureza.

 

EM BUSCA DO MUNDO INTERIOR
Rainer Maria Rilke afirma em «As Elegias de Duíno» que «o mundo nada será se não for interior». Ao valorizar as pequenas coisas e ao reclamar o debate sobre os valores, Ohran Pamuk relaciona, no fundo, a «vida ordinária» e a interioridade humana, compreendendo que o subjetivismo absoluto tende para o vazio. A singularidade ganha, pois, pleno sentido quando se projeta na compreensão do outro e da natureza que nos cerca. A ideia de «entendimentos partilhados» e a sua procura constituem, assim, elementos essenciais para um autêntico diálogo «entre culturas», sem ilusões, complexos ou artificialismos. O valor das humanidades depende da exigência, da capacidade de superação da mediocridade e do domínio de cada um sobre si. O desenvolvimento do «eu» moderno obriga à compreensão de um percurso que não pode esquecer as noções de altruísmo, de responsabilidade, de partilha, de cuidado e de serviço público. E a fragilidade da democracia deve-se à perda do sentido de bem comum, por ausência de compromisso sério sobre os valores. O mundo secular contemporâneo é caracterizado não pela ausência de religião, mas por uma contínua multiplicação de novas opções religiosas ou espirituais a que as pessoas recorrem para que as suas vidas façam sentido (cf. Charles Taylor, «A Secular Age», 2007). A idade secular que hoje vivemos obriga a compreender o pluralismo, o respeito mútuo, o diálogo entre culturas, a exigência crítica, a recusa da facilidade e da indiferença, mas também significa que o fenómeno religioso não deva ser desvalorizado, sem que haja ortodoxia religiosa impositiva. A religião e o ceticismo vivem lado a lado e muitas vezes no mesmo indivíduo. As pessoas vagueiam entre várias escolhas e constroem o seu próprio caminho. Contudo, o vazio de valores gera, tantas vezes, o apelo à irracionalidade, às seitas e à magia (contra o que justamente alertou Adriana Veríssimo Serrão no encontro referido). Essa tentação limita dramaticamente a liberdade e a autonomia. A Europa e o mundo de hoje precisam, de facto, de uma discussão sobre os seus valores, séria, aberta e crítica. «Liberté, égalité, fraternité». Para a compreensão da história como um caminho crítico da razão é preciso não reduzir a leitura do mundo a simplificações planas. Temos de entender que as identidades são sempre complexas e que o fechamento e a perspetiva unilateral são sempre gravemente redutoras.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 



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Domingo, 19.10.14

Osamu Nishitani


3. PATER NOSTER

A fé que procuro viver no dia a dia busca essa comunhão com Deus que é, necessariamente, comunhão com os homens. Enquanto acto de inteligência e vontade, exprime-se, não pela afirmação de dogmas nem pela repetição insistente de pedidos pessoais, mas, de modo mais procurado no Evangelho, pela oração que o Senhor nos ensinou: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus... O Verbo, o Filho consubstancial ao Deus incarnado, o mesmo que nos ensinou a não rezar como os pagãos - que esperam recompensa de sacrifícios e dádivas - também exclamou, na véspera do seu sacrifício na cruz: Pai, se for possível, afasta de mim este cálice! Mas seja feita a tua vontade! Jesus conhecia a vontade de Deus, e o homem que era assim teve de a aceitar. Nós não sabemos - nem para nós nem para os outros - qual é a vontade de Deus. Ao rezarmos, apenas sabemos que damos graças, porque tudo é graça, porque o nosso sofrimento subiu já ao céu, no sofrimento voluntário de Cristo! Como é possível, então, que em proclamados "santuários", se motivem as pessoas a repetirem infindáveis rosários de jaculatórias, e não a entenderem a gratuidade fundamental da sua relação mística com Deus? A verdade da oração de graças é só uma: seja feita a Tua vontade... Ocorre-me um paralelo ao que disse Osamu Nishitani, um pensador japonês nosso contemporâneo, sobre a filosofia, de que é professor: Digo que o pensamento não salva, porque o pensamento, como a sabedoria, não é remédio para qualquer doença, não é um medicamento... Podemos pensar por motivos pessoais, em busca de uma solução para uma doença, um problema nosso... Mas devo pensar para organizar a relação entre mim e os outros... E pretenderá  -  quiçá porque é essa a ideia que se transmite da nossa religião  -  que a salvação é assunto para a religião.. e a religião não é pensamento... A salvação espiritual, a salvação religiosa, é uma satisfação num meio fechado, num mundo separado, comunitariamente agrupado, mas essa comunidade é restrita. Facultará um certo conforto com a existência, mas, no fundo, funciona como rejeição. Pensar é mais aberto e arriscado. Não é safar as pessoas de sofrimentos ou becos. Antes será levá-las a caminhar de modo diferente, ajudá-las a encontrar um caminho, por vezes perigoso... Atrevo-me, neste exercício tão íntimo de me interpelar sobre a minha fé - e que partilho com quem me lê, porque amigos me incentivaram a fazê-lo - a substituir pensamento por oração, pensar por rezar, e direi então: a oração, como insistência precatória de benesses neste mundo, não salva, porque a oração não é remédio para doenças, não é medicamento. Rezo para encontrar a minha relação com Deus e os outros, porque a salvação não é contentamento pessoal, nem sintonia de grupo restrito e fechado a outras vozes. Em tal não encontro conforto, percebo rejeição. Rezar é uma abertura ao mistério de Deus, para ir buscar o caminho da fé. Por isso pedimos que venha a nós o teu Reino, o amor que esperamos encontrar, e em cujo sinal nos devemos, desde já, reconhecer. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia, a nós todos, não só a mim... Pois se olhamos para os lírios dos campos, e não há maior nem mais rica beleza do que a que Deus lhes providencia, porque haveremos de procurar tantas razões políticas, sociais, económico-financeiras, para justificar a nossa injustiça, quando nos povos do mundo, em todos eles, incluindo os nossos próximos pobres, não recebem o pão que, dia a dia, o Pai que está nos céus a todos dá? Será de Deus a culpa, a má gestão e distribuição dos bens, ou será nossa? No evangelho, o pão que Jesus manda dar às multidões famintas que O escutam, multiplica-se sempre. Quanto mais se partilha mais rende, quanto mais se deu mais se recebe e há para dar. Será essa a nossa lógica? A chamada Última Ceia, essa que foi a primeira de muitas missas, em que a acção de graças - que é o louvor absolutamente verdadeiro da união de todos com Deus e os outros - acontece nesse sinal sacramental do pão partilhado como comunhão no Corpo de Cristo, factor e função de reconciliação. Por isso mesmo rezamos ainda: perdoa-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E já nos fora feito o desafio de atirar, à mulher adúltera, a primeira pedra se nunca tivéssemos pecado, como nos fora prescrita a obrigação de nos reconciliarmos com irmãos desavindos, antes de levarmos ao altar a nossa oferta. Não quero o sacrifício, quero a misericórdia... E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. O Mal, essa ânsia obscura de destruição, ou mesmo só de diminuição, que nos habita, é um mistério inicial (e iniciático, infelizmente, em tantas seitas de que ouvimos falar), mas que, nas suas variadas designações de diabo, demónio ,satanás, etc., nos conduz sempre à ideia de divisão, separação, inimizade. Estão as mitologias cheias de deuses ferozes, sedentos de sacrifícios humanos, e até o Antigo Testamento nos fala de um Deus totalitário, ciumento e vingativo. O Mal tem tanta força, que até chegámos - nós, homens de diferentes religiões e culturas - a identificá-lo só com os outros, os diferentes de nós, talvez mesmo nossos inimigos, esquecendo-nos de que, quando assim nos persuadimos de razão, quiçá estejamos a ser, nós também, forças do mal...

    
Camilo Martins de Oliveira 



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Sábado, 18.10.14

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Fluxus e a pujança da banalidade.

Em Wiesbaden, na Alemanha, o primeiro de uma série de eventos internacionais organizado por George Maciunas, marca a formação do movimento FLUXUS e a fixação deste nome. Esta palavra está associada à palavra latina fluxus (de fluere - fluir) mas também ao processo médico da catarse bem como à descarga excrementícia e ao processo específico da transformação molecular e da fusão química. Pretende-se a partir deste movimento revelar uma percepção do mundo vista como um fluir contínuo, em vez de ser um somatório de momentos singulares – esta definição atípica pode explicar a surpresa ou a perturbação dos espectadores nestes eventos. O objectivo destes acontecimentos aparece muitas vezes associado ao entretenimento dos espectadores mais do que transmitir uma mensagem filosófica. Fluxus não distingue arte e vida e acredita que a rotina, o banal e as acções do dia-a-dia devem ser consideradas eventos extraordinários.

Em 1965, Maciunas escreveu no ‘Manifesto on Art / Fluxus Art Amusement’, o seguinte:

‘Para conceder estatuto não profissional aos artistas na sociedade, o artista tem de demonstrar que não é necessário e que não é exclusivo, o artista tem de demonstrar auto-suficiência perante o público, o artista tem de demonstrar que qualquer coisa pode ser arte e que qualquer um a pode fazer.’

A arte-entretenimento deve ser simples, não-teatral, divertida, despretensiosa, centrada nas insignificâncias (um jogo ou um trocadilho), requerendo inabilidade ou inúmeros recursos, não tendo utilidade ou valor institucional. O valor da arte-entretenimento deve ser baixo para a produzir ilimitadamente, e poder ser obtida por todos e eventualmente produzida por todos. Multiplicam-se as actividades – concertos, festivais, musicais, performances, publicações, arte postal, qualquer gesto e acções efémeras. Em certa medida aproxima-se da arte conceptual porque insiste na participação do espectador para poder concretizar-se.

O movimento Fluxus tem como referência máxima a figura de Duchamp, tentando fundir o Dadaismo com o Produtivismo. Foram ínumeros os membros do Fluxus, como por exemplo: Nam June Paik, George Maciunas, Ben Vautier, Daniel Spoerri, Robert Filliou, Wolf Vostell e Joseph Beuys.

Os trabalhos de Ben Vautier representam o humor e o espírito paradoxal do Fluxus nos seus manifestos, os quais são habitualmente escritos em telas negras com a sua letra manuscrita específica. Amplia a ideia do Fluxus em seus dois extremos: ‘tudo é arte’ e ‘nada é arte’. Também ’Das Leben ist Kunst; wenn die Kunst überall ist, warum dann Kunst machen’ (A vida é arte. Se a arte está em todo o lado, porquê a arte?) ou ’Wenn alles Kunst ist wie soll man keine Kunst machen’ (se tudo é arte, como podemos não deixar de fazer arte?) – que é a manifestação do princípio do ’tudo ou nada’, embora ponha o ‘nada’ em questão. Também é visão corrente nesta época o criar sempre novas artes/estilos etc. O que o leva a pôr esta questão: ’Se o novo não é mais novo não fazer do novo este novo’.

Wolf Vostell reflectiu o aspecto do movimento Fluxus no projecto ‘Fluxus-Zug’ (Comboio Fluxus), que percorreu várias cidades como espaços expositivos em movimento. Também a performance da viagem da ‘caixa de salada’ (Salatkiste, 1971) reflecte o aspecto da degradação do objecto em 365 dias. Em oposição a este movimento, Vostell colocou um cadillac numa caixa de cimento numa das ruas mais frequentadas da cidade de Colónia e chamou-lhe o ‘tráfego silencioso’ (Ruhender Verkehr).

O entendimento de Robert Filliou da arte também reflecte os aspectos compreendidos neste leque de possibilidades: ‘A arte pode ter três estados: Bem feita, Mal feita e Não feita.’ (Filliou, 1988)

Tendo-se tornado num crítico professor de arte desde 1961, em Düsseldorf, Josef Beuys apesar de ter participado activamente em algumas das acções do movimento, os outros artistas do Fluxus viam nele um autor com um contributo muito específico alemão. A sua ideia principal assenta na ‘Escultura Social’ (‘Soziale Plastik’). Beuys concebe a escultura como sendo uma actividade estética de prática social que se prolonga para além da matéria. A formação da sociedade é para Beuys um aspecto de criação, é como que uma escultura, a partir daqui funda a ideia de que todo Homem é um artista, porque todo o Homem pode formar e mudar a sociedade. Desde o momento que se forma sociedade o Homem faz arte. E Beuys confrontou o sistema com esta nova concepção do artista que é a partir de agora o escultor da sociedade. Um outro aspecto importante, do seu trabalho é o espectáculo, que era diferente das provocações históricas, sociais e políticas das vanguardas do início do século XX. O seu propósito de provocar escândalo e choque, prende-se a uma necessidade de criar um certo protagonismo do artista através do espectáculo – como se o artista fosse um guru. Beuys concebe a performance como um género de ritual sempre de forma cultual ou shamanica – só assim pode ter influência sobre a sociedade e transformá-la. As suas performances podem ter uma motivação política – por exemplo, quando brincou com um discurso de Goebbels durante uma das suas performances, ou quando declarou abertamente que o Muro de Berlim deveria aumentar 5cm para melhorar as proporções arquitecturais, na sua autobiografia, mas também estavam associadas a experiências inconscientes de um passado dramático, a uma memória histórica e a representações grotescas do presente.


Ana Ruepp


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Sexta-feira, 17.10.14


Santa Hildegarda von Bingen

 

2.FIDES EST SUBSTANTIA SPERANDARUM RERUM  

 

Esta citação de S. Paulo (Hebreus, XI,1) serve, a S. Tomás de Aquino, no Prooemium da sua Expositio in Symbolum Apostolorum, para com força resumir o que é isso a que chamamos Credo: a fé é a substância das coisas que esperamos. A meio da sua sétima década de vida, que coisas poderá esperar um homem tão banal como eu? Há quem creia que revive invocando saudades e cenas do seu passado mais gostoso ou prazenteiro, ou tentando irremediavelmente reconstituí-las na decadência de si, como o velho tonto do Foten Roji Nikki do Tanizaki, diário de um ancião que teima em agarrar-se a médicos e delícias... Outros há que procuram esquecer e deslizar mansamente para o sono... Outros ainda se sentirão invadidos pelo terror de recordações, arrependimentos tardios e temores do inferno... Alguns pedirão a algum deus esquecido uma oportunidade de reparação, uma qualquer indulgência, mesmo dessas que antigamente se vendiam por preços estabelecidos em espécies que variavam da moeda sonante à repetição apressada e longa de locuções precatórias... Quantos se lembrarão simplesmente da fé? Como diz frei Tomás de Aquino, nesse texto que referimos, per fidem inchoatur in nobis vita aeterna: nam vita aeterna nihil aliud est quam cognoscere Deum. Isto é: pela fé começa em nós a vida eterna: nem a vida eterna está alhures, senão no conhecimento de Deus. Mas esse não o temos já aqui, apenas nos é dado acreditar que veremos a Deus, que essa esperança será cumprida. Ou, quiçá, a visão de Deus seja já antecipada por sinais... Não me refiro a visões, aparições ou quaisquer ilusões. Penso simplesmente no ensinamento de Jesus: amai-vos uns aos outros, por esse sinal vos reconhecerão. Ou ainda no que S. Paulo diz do amor, quando refere que é ele a maior das virtudes : a fé e a esperança morrerão connosco, o amor durará eternamente. Assim sendo, se a fé é a substância das coisas que esperamos, a substância da fé é o amor. Volto a Feuerbach, tantas vezes apontado como um dos filósofos da morte de Deus... Eu mesmo assim o entendi, até ter percebido que é, muitas vezes, um certo pretenso rigor "fundamentalista" cristão que, afinal, esconde o sol da fé, que é o amor de Deus. Passou-se de um credo apostólico, dessa simples confissão das testemunhas da vida, paixão, morte e ressurreição do Verbo incarnado, para uma "fé" cada vez mais codificada, enchendo-se de dogmas adventícios, conformes aos receios, combates e devoções dos tempos que iam passando... Deu-se à Igreja, una, santa, católica e apostólica, uma aparência de seita, sujeita a uma hierarquia clerical legiferante e ciosa de saberes e poderes que não são legitimamente seus sem o consenso das assembleias dos fiéis em comunhão. Quiseram fechar  o Corpo Místico de Cristo num palácio monárquico, surdo às vozes do Povo Sacerdotal. Na sua Expositio in  Symbolum Apostolorum, o Doutor Angélico diz claramente: Sicut videmus quod in uno homine est una anima et unum corpus e, todavia, tem vários membros, assim também a Igreja é um corpo com diferentes membros, sendo o Espírito Santo a alma que lhe dá vida. E adiante enumera as qualidades da Igreja: una, santa, católica (i. e. universal), forte e firme. Sempre me detive nos fundamentos que S. Tomás aponta para a unidade da Igreja: a unidade na fé, a unidade na esperança da vida eterna, a unidade na caridade, ou seja, a união no amor de Deus e no amor mútuo. E insiste nesse amor que reúne pela compaixão e cuidados recíprocos, concluindo: cada um deve servir o próximo com a graça que lhe tiver sido dada por Deus. Portanto ninguém despreze nem permita ser afastado ou excluído dessa Igreja... A Igreja é a comunhão dos crentes no amor de Cristo, Deus incarnado, e por isso mesmo é sinal da fé, cuja substância é a esperança das coisas que esperamos. E o que todos esperamos é a plenitude do amor, a eternidade da paz, em graça e em verdade. Assim deverá a caridade ser o cimento da comunidade eclesial, e esta o sinal, o anúncio a todos, de que é universal, no tempo e no espaço, a vocação do amor de Deus. Tal anúncio da boa nova, não é para ser imposto coercivamente, nem deverá ser pretexto de afastamento ou repúdio de outros e suas crenças, mas é, em virtude da sua própria razão essencial, testemunho de que a verdade de Deus é o amor. S. Bernardo, monge reformador da Ordem de S. Bento, fundador dos cistercienses, grande amigo e protector da mística abadessa Stª. Hildegarda von Bingen, autora literária e musical, defensora da dignidade das funções eclesiais das mulheres, também pregou uma cruzada... No seu sermão 66 (cf. Super Cantica) diz: Fides suadenda est, non imponenda, a fé deve ser persuadida, não imposta. Mas era homem do seu tempo, numa cristandade europeia, rodeada por mouros, a sul, alguns ocupando mesmo largo território da Península Ibérica, enquanto a sudeste o Islão também já ameaçava o Império Romano do Oriente... Contra infiéis e hereges, diria pois: quamquam melius procul dubio gladio coercerentur... mas talvez seja melhor coagir pela espada do que facultar a alguns a propagação dos seus erros! Todos nós, de quando em vez, sofremos a tentação de instintivamente confundirmos a prudência com o medo. Para S. Tomás, a prudência é serva da sabedoria (sendo esta um esboço ou prévia participação na felicidade por vir), leva-nos a ela, preparando-lhe o caminho.  Na Summa (2ª parte, II, quaestio 47, art. 1º) retoma, citando-a, a definição de Stº. Agostinho: A prudência é o amor que escolhe com sagacidade. E creio que a escolha do amor é a alegria do testemunho da fé, antes e acima de qualquer agressiva afirmação sectária ( i.e., que divide, separa) daquilo que pensamos ser  verdade nossa. Termino esta página, com referência a Ludwig Feuerbach. Sobre ele já falei e escrevi noutra ocasiões, a sua Das Wesen des Christentums certamente me ajudou - tal como a consideração de outras religiões e filosofias, incluindo reflexões pertinentes ao pensamento católico - a interpelar-me acerca da minha fé, cuja substância são as coisas que esperamos, quiçá esse Deus que todos chama e a quem cada um vai respondendo consoante a graça que lhe for dada: não fostes vós que me escolhestes, mas Eu que vos escolhi. O amor sendo a própria substância da minha fé, não acredito que Deus deixe alguém de fora... No prefácio à sua bela tradução de A Essência do Cristianismo (2ª edição, Lisboa, Gulbenkian, Outubro de 2001), a Profª. Doutora Adriana Veríssimo Serrão diz muito bem aquilo que também penso: E se a meditação de Feuerbach exalta a religiosidade genuína e sincera da fé viva, ao contrário das doutrinas em que Deus é metafisicamente concebido como primeiro princípio do mundo ou como abstracta ordem moral, o mesmo não sucede quando a fé se cristaliza numa visão do mundo que ultrapassa o indivíduo para se tornar um corpo institucional rígido e um instrumento de dominação. A severa crítica da teologia é simultaneamente uma advertência  ao caminho que conduz da crença inofensiva intimamente praticada à separação violenta dos homens em sectores inimigos, e que acontece sempre que a fé se converte em dogmática, e esta na intolerância e no fanatismo que transformam o bom princípio da união no mau princípio da divisão e da exclusão... Comentando The Heart of the Matter , de Graham Greene, a escritora britânica Lesley Hazleton diz que a dúvida é essencial à fé: aboli as dúvidas, e ficareis apenas com convicção pura, fonte da arrogância e de todos os fundamentalismos... Relendo o enunciado, ocorre-me que qualquer palavra é sempre ela e a sua circunstância... (E aqui lamento não ter ganho mais tempo a estudar caracteres chineses, esses que os japoneses chamam kanji, para perceber melhor como a localização de um ideograma lhe pode mudar o significado...). Isto é: há dúvidas e dúvidas, há, por exemplo, interrogações e desconfianças, e, entre umas e outras, quase sempre, só o amor que temos ao sujeito ou objecto da nossa interpelação definirá a diferença. E é neste ponto preciso do que agora digo que me encontro com a análise crítica desse passo de Feuerbach: A essência secreta da religião é a identidade da essência divina e da essência humana - mas a forma da religião, ou a sua essência manifesta e consciente é a diferença. Deus é a essência humana, mas é percebido como uma essência diferente. O amor é o que revela o fundamento, a essência oculta da religião, mas a fé o que constitui a sua forma consciente. O amor identifica o homem com Deus, Deus com o homem e, por isso, o homem com o homem; a fé separa Deus do homem e, por isso, o homem do homem, e então Deus mais não é do que um místico conceito genérico de humanidade, por isso a separação de Deus e do homem é separação entre o homem e o homem, a dissolução do vínculo comunitário. Pela fé, a religião entra em contradição com o sentido ético, com a racionalidade, com o sentido simples e humano da verdade... Mas, pelo amor, ela volta a opor-se a esta contradição. A fé isola Deus, faz dele um ser particular diferente,  mas o mor universaliza, faz de Deus um ser comum, cujo amor coincide com o amor humano... O amor tem Deus em si, a fé tem-no fora de si. O que eu quero dizer, falando da minha fé, é que, apesar da análise de muitos tratados e doutrinas, afirmações erga omnes de diversas instituições religiosas, incluindo discursos oficiais da Igreja Católica, nos levarem muitas vezes a concluir que faz todo o sentido essa afirmação de que a fé tem o amor fora de si, por não reconhecerem que tantos daqueles ateus, agnósticos, hereges ou infiéis - que tanto bem querem e fazem aos outros - são membros do Corpo Místico de Cristo, eu acredito que o amor é o modo permanente da fé. E assim os sinto comigo, a esses estrangeiros, na presença de Deus. Todas as vocações totalitárias - católicas, islâmicas ou marxistas,  "fundamentalismos" nascidos da carne e do sangue, da vontade dos homens - caem na armadilha da religião como forma, na definição necessária de uma "fé" militante e exclusiva. Que divide e antagoniza os homens e os afasta da Fé, dessa cuja substância é o amor de Deus, a speranda res, aquilo que devemos esperar.

                                                                                             
Camilo Martins de Oliveira 



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Quinta-feira, 16.10.14

 

Querido amigo:

Demorei a responder-lhe pois estava na Índia, mas entenda que esse facto não me levou a esquecer a sua carta. A sua carta a Saramago foi para mim um telefonema para a terra e não para o céu. Uma intimidade espiritual de si para si, eterna, no escutar-se e no dialogar-se. Foi também uma mão aberta de silêncios do existir, no qual o mergulho é feito por agua e fogo interpelando a vida acordada. A eternidade que refere nesta sua carta, é para mim uma tentativa de unir o ser dividido que somos, e dar-lhe todo o tempo que só a morte interrompe.

Todo o seu tempo fora de Portugal é também parente da intensidade a favor de uma existência, afinal nunca descuidada, e de uma tranquilidade que sempre lhe regressa quando quer. Este, talvez este, o seu futuro e o de tudo o que lhe vai sendo único.

Talvez esta a mensagem de um passageiro requerente da vida. 

Aceite um abraço solidário,

Teresa Bracinha Vieira



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Quarta-feira, 15.10.14

Guerra_Junqueiro.jpg
 

GUERRA JUNQUEIRO, INESPERADO AUTOR DE REVISTA

Em 17 de janeiro de 1879 o Governo Civil de Lisboa proíbe a representação, no Teatro Ginásio, da “revista do ano” -  como então se dizia - “Viagem à Roda da Parvónia”, de um tal Comendador  Gil Vaz, estreada na véspera, em ambiente de escândalo. E de tal forma, que o comunicado do Governo Civil“ mand(a) a qualquer agente da policia que intime a empresa  do Teatro ginásio Dramático para que retire imediatamente de cena a revista (…) cujas representações ficam proibidas; bem como para que seja desde já contra-anunciado o espetáculo desta noite”…! Curiosamente, este desconhecido Comentador Gil Vaz ocultava uma  inesperada parceria revisteira: nada menos do que Guerra Junqueiro e  Guilherme de Azevedo: Junqueiro já  na altura era um nome referencial; Azevedo era jornalista de grande nomeada, porem de escassa expressão dramatúrgica (“Rosalino” – 1877).

E também se diga que Junqueiro pouco se dedicou ao teatro: alem da revista que aqui recordámos, colaborou noutro texto, “A Fábia” (1873), récita de finalistas da Universidade de Coimbra. E só em 1896 publicaria a versão final do poema dramático “Pátria”, critica violenta à situação histórico-politica a partir do Ultimato inglês de 11 de janeiro de 1890.  A génese deste exercício teatral foi lenta e assumiu formas e designações diversas -  “Portugal no Calvário” no próprio ano do Ultimato, “A Agonia” em 1891/2 e finalmente a versão final, “Pátria”.

Como se sabe, D. Carlos é violentamente criticado: mas, como noutro lado, escrevi, “Junqueiro reconheceria a tolerância do reu relativamente ao seu poema” (in “História do Teatro Português” pag. 234. E tal como refere Luciana Stegagno Pichio, a “Pátria identificava Portugal vilipendiado e politicamente frustrado com o doido da tradição medieval” (in “História do teatro português” pag. 310).  Por  seu lado, Álvaro Manuel Machado reconhece no poema “uma vibração elegíaca e saudosista” que é relevante em termos de literatura dramática. (in “Dicionário de Literatura  Portuguesa” pag. 254, verb. Junqueiro, A. M. Guerra).

Mas voltemos À Viagem à Roda da Parvónia” O texto assume um criticismo feroz, que ainda hoje se faz sentir, especialmente pela capacidade e potencialidade “de espetáculo”, num fase mais ou menos inicial do teatro de revista.  Para já, são pAra cima de 60 personagens, evidentemente desdobrados em termos  da representação teatral, mas que cobrem, no seu sentido critico mordaz e tantas vezes violento, um universo variadíssimo de  carateres e determinam um choque permanente de situações.

 A politica domina o texto, a critica e até a cena: não por acaso, o Quadro I do Ato I  “representa uma arcada do Terreiro do Paço. – Vários grupos conversam – De quando em quando rapazes atravessam apregoando cautelas – Vendilhões de agua fresca gabam e excelência do liquido”, nada menos! E segue uma delirante sucessão de situações, que põe em cena populares, poetas, deputados,  ministros , estátuas, deuses clássicos, as  quatro estações, candidatos, eleitores…  e mais Matusalem, Apolo, o Judeu Errante…

 Luis Francisco Rebello, NA História do teatro de Revista em Portugal,  (vol. I -1984) evoca a lista de personalidades que, a pedido dos autores, comentaram e a edição do texto: João  de Deus, Antero, Oliveira Martins, Filho de Almeida,  Ramalho Ortigão,, Pinheiro Chagas, Gervásio  Lobato,  Julio César Machado, Magalhães Lima… E cita uma cena na Camara dos Deputados, que constitui, na verdade, uma tremenda critica à vida politica da época…
O Teatro Experimental de Cascais repôs muito recentemente  a "Viagem à Roda da Parvónia". E o espetáculo mostra como o texto não perdeu oportunidade!

DUARTE IVO CRUZ



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