Quarta-feira, 04.05.16

 

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MÁRIO DE SÁ CARNEIRO, DIRETOR DE UMA COMPANHIA DE TEATRO EXPERIMENTAL

 

Temos aqui alternado a referência a atores profissionais com a referência a individualidades dominantes da literatura, da cultura ou da política, que em fases diversas da vida, participaram em espetáculos teatrais, como atores ou encenadores. Essa tradição, há que insistir, vem das origens vicentinas e inclui situações por vezes episódicas mas nem por isso menos significativas: e basta lembrar Almeida Garrett, em 1843, a fazer de Telmo Pais na estreia do “Frei Luis de Sousa”.

No início do ano assinalamos aqui o início do centenário da morte trágica, auto-infligida, de Mário de Sá Carneiro, ocorrida em 26 de abril de 1916, tinha o autor 26 anos. Evoquei então a sua intervenção como diretor de um movimento teatral, a Sociedade de Amadores Dramáticos, para além da sua própria produção dramática: ou melhor, daquilo que, nessa linha de criação, chegou até nós, com destaque para duas peças – “Amizade” escrita com Tomás Cabreira Júnior (1912) e “Alma” (1913) esta escrita com Ponce de Leão.

E citei títulos que, ou não chegaram até nós, ou que deles restam apenas estratos: “O Vencido” (1905), “Gaiato de Lisboa” (1906), “Pesar de Estudante” (1907), “Feliz pela Infelicidade” (1908), “A Farsa” e “Irmãos” (ambas de 1913) além de uma tradução/adaptação de “Aveugle” de Michel Provins. Fiz aí referências a estudos anteriores da minha autoria e de Luis Francisco Rebello e François Castel.  

Acrescente-se, de Sá Carneiro, “O Vencido” e “Feliz pela Infelicidade”, bem como um estrato inominado, publicados pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda com estudos de Manuela Nogueira e Maria Aliete Galhoz: e há referência a mais textos perdidos (in Mário de Sá Carneiro – “Juvenília Dramática”- INCM 1995).

Neste contexto de celebrações dos 100 anos da morte do escritor, damos aqui notícia de duas iniciativas muito recentes.

A Biblioteca Nacional inaugurou uma exposição intitulada “Mário de Sá-Carneiro - «O Homem são Loco»”, citação de Fernando Pessoa, comissariada por Ricardo Vasconcelos e Jerónimo Pizarro, catálogo com retrato da autoria de Júlio Pomar,  mostra  essa que  exibe  e documenta um conjunto muito interessante de livros, textos e imagens referentes à vida e obra do autor.

E aí, assinalo um aspeto curioso, ligado à produção teatral de Sá Carneiro. É que a sua primeira peça publicada, “Amizade”, identifica na capa os dois autores, mas por ordem inversa daquela que é hoje referida por todos os historiadores de teatro e literatura: Tomás Cabreira Júnior e Mário de Sá Carneiro, diz a capa da edição, dando assim “prioridade” ao malogrado primeiro co-autor, que poria termo à vida em 1911 - tal como Sá Carneiro faria 5 anos depois…

Esta sequência de nomes dos autores foi entretanto totalmente alterada posteriormente (“Amizade” de Mário de Sá Carneiro e Tomás Cabreira Júnior, assim citada), pois a relevância de um e de outro não se pode comparar, mas a edição original é como referimos.

Por seu lado, o Jornal de Letras Artes e Ideias (JL - 27 de abril / 10 de maio de 2016) dá grande destaque ao centenário da morte de Sá Carneiro, a partir de textos de um conjunto relevante de escritores, em edição devidamente ilustrada com gravuras e desenho na capa de João Abel Manta. E aí, reproduzem-se designadamente dois textos relativos à atividade teatral de Sá Carneiro, ambos em francês.
Trata-se em primeiro lugar de uma carta data de 3 de Julho de 1911, assinada por Tomás Cabreira Júnior e Mário de Sá Carneiro, destinada a um jornal e onde se esclarece que a peça “Amizade” dos signatários foi escrita em 1909 e não é plágio de uma “Amitié” publicada por Jules Lemaitre.

E ainda uma notícia (também em francês) publicada mas não datada nem identificada, onde se informa que foi fundada em Lisboa, em Março de 1912, uma nova sociedade teatral de amadores, a Sociedade de Amadores Dramáticos, indicando o repertório dos quatro primeiros espetáculos. Primeiro: “Les Fossiles” de François de Curel; segundo: “O Relógio do Senhor Cura” de António Ponce de Leão e a “Amizade” de Cabreira e Sá Carneiro; terceiro: ”Interieur” de Maurice Maeterlinck, “Le balcon” de Gunnar Helberg e ainda “Les Bouligrin” de Courteline; e o quarto: “Mentiras” de Ponce de Leão.

 

DUARTE IVO CRUZ



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Terça-feira, 03.05.16

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The Red Hurricane Ken, 2016-20

De rompante irradia-se luz. O Labour Party avista finalmente o elefante do anti-semitismo que tem no centro da sala. E paquidérmico é o choque em vésperas do reino ir a votos, a começar aqui no City Hall. A liderança abre um inquérito sobre sucessão de incidentes com hate speech. Grave: Dois Members of Parliament e um Local Councillor são suspensos.

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 Pior: o histórico RH Ken Livingstone é acusado de ser “a racist and Nazi apologist.” — Chérie! Maintenant que la bière est tiré, il faut la boire. Solução do Team Corbyn para um problema de mindset e que assenta na questão israelopalestiniana? Todos seguem para reeducação cultural, da linguagem às maneiras, com os Corbynits ainda na defesa contra complôs, intrigas e afins… dos Blairites. Agrada a parte das manners, pois os dias sempre revelam quão útil é a aquisição, mesmo que tardia, das basic skills. — Humm! Do not be wise in words, be wise in deeds. O Prince Harry of Wales recruta a elite política mundial para promover os 2016 Invictus Games. RH Nicola Sturgeon e o SNP agitam com novo referendo independentista dos Scotties. O Hillsborough Inquest entrega o veredicto e a polícia sofre censura, 27 anos depois da morte dos “96 of Liverpool.” O National Living Wage recebe subtil aplicação prática: HM Government sobe o salário e as empresas diminuem tudo o mais nas despesas com pessoal. A Princess Charlotte of Wales completa o primeiro ano de vida.

É mau conjugar os contornos de Die Endlösung, mas malíssimo vem a caminho. A tempestade parecia já esfumar, sob o beneplácito do Speaker of The House, quando, junto dos jornalistas, Mr Livingstone sai em sua defesa e forma medonho ciclone. Afirma ele que nada a desculpar há a Mrs Shah, pois, e cito, “let’s remember when Hitler won his election in 1932. His policy then was that Jews should be moved to Israel. He was supporting Zionism (…) before he went mad and ended up killing 6 million Jews.” Depois da saída de emergência, eis o Führer e a Shoah introduzindo fortíssima pressão em bizarro debate durante... o Passover do povo hebreu. Será que o Hurricane Ken visa o pleno do volumoso voto londrino de matriz islâmica!? Mesmo se a expensas do dos primos! É que a tese é conhecida, historicamente contestada e na essência glosa a ideia dos Zionazis — uma moderna forma de demonizar os judeus. Como antisemita logo é denunciada por RH John Mann, também do Lab, em plenas escadas de Westminster Hall e em termos concludentes. Ora, com deputados em alta voz e em frente das câmaras televisivas, o líder começa por negar qualquer crise. Com ar quente a espiralar entre a comunidade judaica, RH Jeremy Corbyn anuncia, mais tarde, um inquérito interno e lá suspende os neorevisionistas. A seguir, face à concentração de nuvens entre backbenchers e doadores, comunica a elaboração de um código de conduta para os militantes. Acaba a declarar, ontem, junto à Nelson's Column, que o Labour não acolhe antisemitas ou racistas de nenhuma estirpe. O espantoso é que tudo isto ocorre, braviamente, na última milha da corrida eleitoral para o vizinho City Hall! Regressando dentro de momentos, assim repousa o sensível eurosufrágio do 23rd June: Only 51 days to go…

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Cloudy sky, light rains and a roasting political atmosphere em Great London. Como escrever, dear Robert? Todo o mês de férias ocupado na persuasão sobre the return of Good Old Labour para tamanha prova dos 9! Como quem está no convento é que sabe quanto lá vai dentro, pausei então. Em dia de bank holiday, porém, o resultado está à vista e para além do ponto de ceticismo. O partido de RH Clement Attlee é hoje uma caricatura de si mesmo, incapaz até de entender o significado da visão de Jerusalem nos versos de Mr William Blake “And did those feet in ancient time / Walk upon England's mountains green? / And was the holy Lamb of God / On England's pleasant pastures seen?” O caos trivializa-se nas fileiras. No May Day canta-se a Free Palestine, em Trafalgar Square, no culminar

da uma semana eleitoral cuja ementa é dominada por Herr Hitler e o Zionism. Custa a acreditar!? Bom, desta feita, a sarabanda por “anti-Semitism row” incide sobre protagonistas e não sobre figurantes. Em foco estão o anterior London Mayor, a Bradford West MP, acompanhados, hoje, do Nottingham City Councillor Mr Ilyas Aziz. Do trio somente RH Naz Shah ensaia reganhar o moral ground ao apresentar desculpas na House of Commons, por, como cidadã, sugerir transporte dos israelitas para os States — como “solution” para o drama palestiniano. 

Neste cenário, better than fiction, bemvinda é a leveza das iniciativas públicas pelos membros mais novos da Royal Family. Se o Kensington Palace revela adoráveis fotografias da pequena Charlotte e a Duchess of Cambridge posa em estilo casual na exposição centenária da Vogue, quem por aqui leva divertida palma em disputa familiar é o tio Henry of Wales ao contracenar com a avó Elizabeth II.

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O Prince Harry, KCVO, com 32 anos, de novo abraça em 2016 a bandeira dos Invictus Games. Para divulgar o "paralympic-style sporting event for injured servicemen and women," com edição agendada para Orlando (USA), recorre às hodiernas redes sociais e alista patrocínios políticos e outros de London a Washington. Daqui resulta divertida micrometragem promocional, onde pontuam HM The Queen, a kind Old Granny dizendo “Oh, no. Please” quando desafiada a acolá competir, e um vigoroso duo Flotus & Potus: os honoráveis Michelle e Barack Obama. O vídeo circula no Twitter e tanto apoia os veteranos das forças armadas quanto introduz sorriso suave no diálogo transatlântico. Well! Yet, consider the words and the intensity of Master Will in “The Merchant of Venice:” I am a Jew. Hath not a Jew eyes? Hath not a Jew hands, organs, dimensions, senses, affections, passions; fed with the same food, hurt with the same weapons, subject to the same diseases, heal'd by the same means, warm'd and cool'd by the same winter and summer, as a Christian is? If you prick us, do we not bleed? If you tickle us, do we not laugh? If you poison us, do we not die? And if you wrong us, do we not revenge? If we are like you in the rest, we will resemble you in that.

 

St James, 2nd May                       

Very sincerely yours,

V.



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Segunda-feira, 02.05.16

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De 2 a 8 de maio de 2016.

Amadeo de Souza-Cardoso regressa a Paris em todo o esplendor da sua obra. O catálogo da exposição do Grand Palais mostra-nos o amigo de Amedeo Mondigliani como ninguém antes o viu na capital francesa – com uma originalidade que nos deixa assombrados.

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DE NOVO EM PARIS
Regressar a Paris é sempre uma festa e não falo de uma referência pessoal, mas de um regresso histórico, de alguém que viveu em Paris um dos momentos fundamentais da sua vida e da criação artística. É Amadeo de Souza Cardoso que refiro e o seu regresso em glória ao mítico Grand Palais, que nos recorda a Exposição Universal de 1900. E a verdade é que hoje é um momento muito especial para esta Exposição, quando a geração de «Orpheu», a começar com Fernando Pessoa, se tornou grande referência europeia. Amadeo não tem, porém, ainda a aura do «Livro do Desassossego», mas tem uma singularidade que reforça a consistência da encruzilhada criadora que viveu. O certo é que agora regressado numa mostra referencial ao Grand Palais podemos contar, mais uma vez graças à Fundação Calouste Gulbenkian, com uma exposição sublime, em que o pintor se revela como um dos nomes maiores do seu tempo. E se digo mais uma vez graças à Fundação, é porque, antes de tudo, foi a compra da coleção, quando o Estado Português havia recusado nos anos cinquenta adquiri-la por incompreensíveis razões, que foi possível salvá-la como maravilhoso conjunto, que a história tem valorizado em todo o seu esplendor. São 150 obras de Amadeo e dos seus amigos Mondigliani, Brancusi, os Delaunays… E o certo é que se os heterónimos de Fernando Pessoa nos dão a multiplicação de uma personalidade criadora, que interpretou como ninguém os novos tempos de uma modernidade contraditória e inesgotável, foi a capacidade de Amadeo de Souza-Cardoso dar um sentido universal a uma obra multifacetada, mas produzida num tempo relativamente curto, impressiva e assente em raízes fecundas, que revelam uma espécie de recriação ou reconstrução da realidade e do mundo. Na revista «Portugal Futurista», Álvaro de Campos coincide com Amadeo - «só tem direito a exprimir o que sente em arte, o indivíduo que sente por vários». Almada Negreiros disse que Amadeo «é a primeira descoberta de Portugal na Europa do século XX» - e, maravilhado, deu nota de como partiu de uma identidade próxima para a tornar global - «toda a arte reflete o seu rincão natal. E nunca é o rincão natal o que o pintor retrata. O seu rincão natal são as próprias cores. Foram estas cores que teve para começar a sua mensagem de poeta».


NO GRAND PALAIS
O Grand Palais invoca a Exposição Universal de Paris de 1900 e faz-nos lembrar Walter Benjamin a dizer que «as Exposições são as únicas festas verdadeiramente modernas», como antes Baudelaire falara da «embriaguez religiosa das grandes cidades». Esse pavilhão emblemático é dos poucos (como a Torre Eiffel e o Trocadéro) que se manteve depois das Exposições de que fizeram parte. A presença de Amadeo nesse lugar ilustra o que ainda o autor de «Fleurs du Mal» disse (em 1855) da modernidade: «é o transitório, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é eterna e imutável». O Grand Palais representa o ecletismo do fim do século, desde as colunas jónicas à arquitetura do ferro, num conjunto que envolve o Petit Palais e a Ponte Alexandre III. O novo século marcava pela novidade, pela técnica, pelo exotismo e pelo diferente. Amadeo no Grand Palais funciona como um símbolo (como foi o caso de Picasso-Mania, um grande diálogo de influências há pouco terminado em torno do célebre artista). Dir-se-ia que são as duas metades definidas por Baudelaire que se encontram neste artista que soube lidar com o tempo – ligando a herança e a necessária transformação pela arte. Numa célebre entrevista ao jornal «O Dia» Amadeo Souza-Cardoso proclamou solenemente: «Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram, Nós, os novos, só procuramos a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstracionista? De tudo um pouco. Mas nada disso forma uma escola». A insatisfação é a marca dominante ao longo do seu percurso criador. José-Augusto França fala da impaciência, da angústia e de uma criação expressiva e colérica, «misturando na sua definição uma grande liberdade plástica e uma grande necessidade de dar força e imagens, violentas ou irrisórias, a uma ideia do próprio mundo que o pintor pressentia para além de uma aldeia que o destino lhe dera».


O SOL INTENSO DE PORTUGAL
Em 1908, no ano dramático em que Unamuno escreveu sobre Portugal, a presença invisível de Amadeo estava próxima de Pascoaes e Manuel Laranjeira. Hoje, podemos ligar as referências – já que o jovem pintor pôde projetar com pujança o que tanto interessava ao mestre de «Sentimento Trágico da Vida». O artista interpreta o que é genuíno e diferente na terra que conhece. Isso faz parte integrante da sua existência como artista que recusa a mediocridade que vê em volta. Amadeo regressa a Paris e escreve à mãe: «Gostei muito de estar em Manhufe. Fazia um sol intenso. A montanha inundava-se de luz. E que grandiosidade aquelas montanhas! Fiz lá uma oito manchas e estava progredindo bastante, começava a interpretar melhor a natureza. Agora estou em Paris, não imagina a tristeza que me fez ontem esta atmosfera parda, este sol anémico. O que me valeu foi encontrar o Vianna e levamos o dia a falar do Portugal prodigioso, país supremo para artistas. É pena que não haja um forte meio de arte». Sente-se aqui a força original da sua obra. Como Almada Negreiros disse: «o seu rincão natal são as próprias cores». Foram estas as que teve «para começar a sua mensagem de poeta». Das raízes da terra e da luz, do «Portugal prodigioso» parte-se para a procura das mudanças necessárias. Por estes dias passa o centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro, e o acontecimento do Grand-Palais associa-se também naturalmente à efeméride. Lembramo-nos da colaboração de Amadeo no número 3, que nunca veria a luz do dia, de «Orpheu». E, se se fala de Sá-Carneiro, recordamos José Régio a considerar a poesia e a personalidade deste como uma mediação para a melhor compreensão da primeira geração modernista. Ora, no campo da criação artística, Amadeo de Souza-Cardoso também foi, à sua maneira, um mediador, por insuscetível de ser encerrado num rótulo ou numa escola, podendo ligar fundamentos, raízes e modernidade. E se muitas vezes houve quem compreendesse mal o lugar de Amadeo na história da nossa Arte, por razões, aliás, contraditórias, tal deveu-se à independência, à originalidade e à insatisfação do artista. Está em causa a ligação entre Manhufe e Paris, entre a proximidade poética a Teixeira de Pascoaes e à Renascença Portuguesa e ponte para a força inovadora de «Orpheu». Almada Negreiros reconhecerá, assim, nele um sinal marcante. Mas, como diz Helena de Freitas, Amadeo é dificilmente definível, «não tem um discurso regular, desloca-se com destreza entre vários registos na vida e na obra. Percebe-se na diversidade da pose (entre o provinciano e o cosmopolita), no estrilo versátil da escrita, na letra instável, no desconcertante traçado das assinaturas»…  

 
Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença



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Domingo, 01.05.16

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   Minha Princesa de mim:

 

   Para São Tomás de Aquino, o belo é propriedade transcendental do ser. Aliás, no pensamento medievo europeu e cristão, o belo, o vero, o bom estão indissociavelmente ligados, Deus é, ontologicamente, beleza, verdade, bondade. E Santo Agostinho gostava de lembrar aquela afirmação de Platão, que dizia que o Belo é o esplendor do Vero. Nos seus escritos sobre o pensamento na Idade Média, Umberto Eco sublinha tal visão otimista e feliz do ser. E, grande admirador do Aquinense, realça como a própria Summa Theologiae alimenta essa visão e essa esperança: Frente à heresia dos cátaros e ao ressurgimento dessa nova manifestação do maniqueísmo, que dividia o Cosmos entre essas duas forças antagónicas, do Bem e do Mal, impunha-se reafirmar o valor e, sobretudo, a bondade inerente a cada ser. Pessoalmente -- bem sei que sou um "bota-de-elástico" -- penso que a dissociação que, na nossa cultura, se foi operando, entre o belo e o bom, resultou na divisão da própria verdade, isto é, deixámos de aderir, sempre com o coração e a cabeça (ou, diria S. Tomás, apetitivamente e cognitivamente) a uma ideia, a uma obra,  podendo assim considerar boa uma coisa feia, ou feia uma coisa boa. A arte deixou de ser uma aspiração ascensional, uma superação, para se tornar complacente, um comprazimento com as nossas limitações. Pode representar-se ou contar-se o sofrimento, com dor e compaixão, o que é diferente de fazê-lo com sadomasoquismo. Chama-se hoje concertos também a desconcertos, ainda mais barulhentos, dos ruídos que invadem o nosso quotidiano, classificam-se como artes plásticas ou grande literatura as representações violentas ou abstrações caóticas da realidade que nos circunda, da gente que povoa o nosso mundo, do nosso próprio pensarsentir, em que, sobretudo (falo do que mais me choca), se torna exasperante uma alma dominada, não pelo gosto, mas pela amargura, desgosto ou raiva de tudo. Até os próprios noticiários quase só abrangem desgraças e crimes, pecados e ódios que se generalizam, como se a humanidade fosse necessariamente coisa feia e detestável. Assim também os filmes mais populares, nas salas de cinema e na televisão, prenhes de violência, de traições, de fantasmas do mal. Chafurdamos na nossa miséria interior, com paixão bruta, sentimos prazer em não desafiarmos os nossos limites. Como se o sentido da humanidade fosse pôr luto por si. Frequentemente me lembro de que a palavra luto vem do latim lutum, que quer dizer lodo, como aliás também resultou em português. E ainda hoje encontramos, em textos jurídicos, a expressão nojo, para dizer luto.

   Apetecia-me gritar aquele dito do Saint-Exupéry de que ser homem é medirmo-nos com o obstáculo, para o vencermos; ou dizer a todos, com o papa Francisco, a alegria do amor, amoris laetitia... Felizmente, não sou o único, nem o melhor: há hoje, também, por este mundo fora, cada vez mais harmonias bonitas, orquestras que salvam inúmeros jovens de ambientes de miséria e vício, e tantos outros que chegam a partir, nas suas férias, para assistirem gentes distantes, solidários e fraternos. E cada vez mais gente vai descobrindo o valor inestimável dos nossos sorrisos e abraços, da beleza que preservamos ou de que cuidamos: a desta terra que é nossa casa comum, a do património que é um presente dos nossos antepassados, a do que hoje pintamos, esculpimos, escrevemos, desenhamos e construímos, não para acumularmos dinheiro ou ganharmos popularidade pelo culto do lado sujo de tudo e satisfação de curiosidades mórbidas -- mas para partilharmos alegria, e o bem estar da concórdia e da paz.

   Já tenho pensado que aquela propensão para não gostarmos do belo, nem o considerarmos necessariamente bom, terá quiçá raízes, na história recente da nossa cultura, quiçá na natural repugnância e reação aos totalitarismos de cariz vário (dos fascistas aos comunistas, e não só) que também nas artes e nas letras, para além da censura, pretendiam impor modelos de bondade e beleza, de ideais "verdadeiros". Longe de mim pensar em qualquer desejável ou recomendável imposição de valores estéticos ou outros. Antes sugiro que nos viremos para o alto de nós mesmos, isto é, como acima disse o Umberto Eco, para o valor e, sobretudo, a bondade inerente a cada ser. Não quero obcecar-me a opor bem e mal, não promovo visões fictícias de combate contra o maligno, antes procuro precaver-me de confrontações ou afrontamentos mais emotivos do que racionais, mais acusadores dos outros do que melhoradores das nossas circunstâncias comuns. O clima de medo, por vezes patético, do islão, por exemplo, foi certamente despertado por atos de terrorismo bárbaro, absolutamente condenáveis, mas nunca será vencido, antes se irá  agravando, se não nos curarmos de alguns exageros e histerias. À força de culparmos os outros, vamos olvidando a nossa cobardia, e as nossas "culpas" históricas. Ao acusarmos os muçulmanos de terem já demasiadas mesquitas na Europa, esquecemo-nos de que eles estão cá porque, depois do "ocidente" lhes ter ocupado e dividido o território -- e nele ter combatido, em busca de petróleo e alianças várias, duas grandes guerras entre potências europeias – os "importámos" por necessidade de mão de obra, tal como os tínhamos mobilizado para as nossas guerras; e também não nos lembramos de que eles são, cidadãos franceses, alemães ou ingleses, cada vez mais europeus muçulmanos, pela simples razão de que os abastados europeus, ditos cristãos, nem com subsídios querem ter mais filhos... etc... etc... O romance (?) Soumission do Houellebeq, não é, a meu ver, um panfleto islamófobo... é uma ficção realizável! Há hoje, na Europa nossa, magrebinos e outros vizinhos muçulmanos que não são terroristas -- antes pelo contrário, eles condenam essa barbárie -- até são intelectuais e professores em prestigiadas universidades europeias, gente de bem e inteligente, mas que já percebeu como a fraqueza da europa, dantes cristã, vai abrindo as portas do poder ao islão... dado o nosso progressivo abandono ou esquecimento dos valores próprios! Porque a fraqueza da Europa não será, propriamente falando, muscular só, nem militar apenas, ou política (que também é): é intrínseca à cultura europeia, que substituiu a generosidade pelo preço, o valor moral pelo dinheiro. Pessoalmente, Princesa de mim, choca-me ver como mesmo gente que se afirma religiosa anima iniciativas de organizações que privilegiam o lucro de poucos -- com a promessa vaga da posterior distribuição da riqueza adquirida por aqueles muitos que a criaram também -- quiçá consolando-se depois com obras de assistência social, obras essas cuja razão deveria apenas ser a urgência de acudir à emergência de um desastre, a uma falha, mas nunca ser desculpa moral para uma situação de injustiça económica e social que, ou visivelmente se agrava, ou disfarçadamente vai dispondo, em condições pelo menos discutíveis, pessoas humanas ao serviço do maior ganho de quem, vezes demais, até nos governos "democráticos" manda. Antes de clamarmos contra outros, como cão que ladra porque tem medo, devíamos interrogarmo-nos sobre porquê e como fomos consentindo na degradação de valores pilares da nossa cultura, chegando ao ponto de esquecermos o espírito cristão de fraternidade, para fazermos do dinheiro a medida de todas as coisas. Recebi, num dia destes, a lição do bom samaritano, dada por uma refugiada síria que, na televisão, assim falava da mão que o papa Francisco estendera a três famílias muçulmanas: Ele não é da nossa religião, não pertence ao nosso povo, não fala a nossa língua, mas é o primeiro a cuidar de nós. O amor, Princesa de mim, além de alegria, tem muita força.

   E volto ao "meu" São Tomás, e a essa virtude da prudência ou amor sagaz, como lhe chamou Santo Agostinho. As virtudes, escreve o Angélico, são potentiae autem rationales, quae sunt propriae hominis, non sunt determinatae ad unum, sed se habent indeterminatae ad multa... São potencialidades racionais, cujo fim são atos (finis autem potentiae actus est) que, ordenados e repetidos, constituem hábitos. Quer isso dizer que a virtude é o hábito de agir, em circunstâncias múltiplas, de acordo com a inteligência de certos princípios (capacidades ou potencialidades). E na sua Summa, II, 2ª parte, quest.49, prooemium, ele vai definir as oito partes da prudência: Deinde considerandum est de singulis prudentiae partibus quasi integralibus. Et circa hoc quaeruntur octo. Primo, de memoria [memória]. Secundo, de intellectu vel intelligentia [inteligência]. Tertio, de docilitate [docilidade]. Quarto, de solertia [sagacidade]. Quinto, de ratione [ponderação]. Sexto, de providentia [previdência]. Septimo, de circumspectione [circunspeção]. Octavio, de cautione [precaução]. Se refletirmos cuidadosamente, Princesa de mim, na virtude que em si reúne estas oito qualidades, e nos interrogarmos sobre se e como as aplicamos para recordar, perspetivar, perceber, ajuizar e cuidar o andamento do nosso mundo, talvez tenhamos de concluir que temos sido muito imprudentes. Há que arrepiar caminho. 

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 



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Sábado, 30.04.16

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O Hotel do Mar
 

O Hotel do Mar (1958-1964), desenhado por Francisco Conceição Silva, situa-se em Sesimbra, numa encosta de forte declive, exposta a sudoeste. Entre o mar e o castelo, o hotel abrange uma admirável vista sobre a baía e o velho casario.

O Hotel do Mar faz parte das novidades que surgiram a partir dos anos cinquenta nos programas hoteleiros. A existência de hábitos novos no que respeita a férias de sol e de mar; a viragem para sul; a descoberta do Algarve; e o anúncio da construção da ponte sobre o Tejo (cujo contrato de construção foi assinado em 1957, vindo a inaugurar em 1966); fizeram de Sesimbra, antiga vila de pescadores próxima de Lisboa, um dos primeiros pólos de atração deste turismo.

Nos anos cinquenta, a par da produção de grande qualidade e em pequeno número e a par da continuação do programa das pousadas de promoção oficial, tende a iniciar-se o boom turístico dos anos sessenta, protagonizado pelo setor privado.

Inaugurado em 1963, o Hotel do Mar foi um dos primeiros a contrariar a tendência dos grandes hotéis que utilizam o modelo do paralelepípedo perfeito – como o Grande Hotel da Figueira da Foz (inaugurado a 1953), construído paralelo ao mar, ou como o Hotel Ritz (1952-59), edificado no cimo do Parque Eduardo VII, em Lisboa. Ao invés, o Hotel do Mar integra-se organicamente num aglomerado urbano caracterizado pela tradição e pela vida em torno do mar. Francisco Conceição Silva optou por fragmentar o volume, de modo a adaptar o conjunto naturalmente à encosta. O hotel pretendia ser uma presença discreta, tentando manter a vista a quem circula pelo arruamento que se desenvolve a norte. Conceição Silva caracterizou duas zonas importantes do hotel – o corpo dos quartos e a sala de convívio.

O corpo dos quartos, pela sua orientação, permite um contato direto com o mar e com o sol. Setenta quartos estão distribuídos por 4 pisos. Desenvolve-se uma ideia de dentro para fora. O quarto é o elemento principal do hotel e por isso a relação entre o espaço interior e exterior, a sua intimidade e utilização, foram cuidadosamente estudados de modo a garantir uma vida independente das zonas comuns do hotel. O corte do conjunto, em degraus, permite que o espaço exterior, privativo de cada quarto, seja utilizado como um seu prolongamento, mantendo a necessária intimidade. A varanda descreve o módulo do quarto. Entre o interior do quarto e a varanda, Conceição Silva criou uma janela com bancos fixos, tal como se encontra na arquitetura popular portuguesa. E estas referências à arquitetura popular são muito importantes para a formalização do hotel porque cada quarto é como que uma unidade branca que existe no meio do casario branco, nas encostas de uma povoação piscatória.

A sala de convívio, por sua vez, destaca-se de todo o conjunto. Constitui-se como uma torre vigilante aberta ao horizonte, referenciada a um passado militar de Sesimbra. As quatro galerias dos quartos convergem para esse ponto, permitindo uma independência de acessos ao centro de reunião de maior interesse na vida comum do hotel.

Todo o conjunto adota a utilização de materiais construtivos correntes na região (espessos muros rebocados e caiados, a cerâmica e a madeira), valorizado ainda pela aplicação de elementos cerâmicos da autoria de Querubim Lapa.

A dimensão e a qualidade do hotel do Mar consolidaram e promoveram o atelier de Conceição Silva até então inexistente. O autor, desde início dos anos cinquenta, desenvolvia inovadoras obras de interior, nomeadamente em projetos comerciais – por exemplo o projeto da Loja da Rampa (hoje infelizmente destruída), de 1955, experimentava uma renovadora liberdade de criação ao manipular escultoricamente a rampa helicoidal como sendo o centro do espaço. Foi João Alcobia, decorador e proprietário da casa Jalco (que promoveu, em 1952, uma exposição de mobiliário da autoria de Francisco Conceição Silva), que encomendou o projeto do hotel em Sesimbra.

O Hotel do Mar marca, para Conceição Silva, o começo de uma longa série dedicada a esse tipo de férias, mas também o princípio de uma produção arquitetónica ligada a grandes operações imobiliárias e a novos grupos económicos emergentes. O atelier Conceição Silva constituiu um facto singular no panorama português e conseguiu transformar-se numa grande empresa que integrava todas as valências do projeto. No atelier colaboraram, entre outros, os arquitetos Maurício de Vasconcelos, Tomás Taveira, Manuel Vicente, José Daniel Santa Rita, Bartolomeu Costa Cabral, Arsénio Cordeiro e Pedro Vieira de Almeida e, também por exemplo os artistas plásticos Sá Nogueira, Jorge Vieira e Querubim Lapa. Obteve a sua expressão máxima no empreendimento turístico de Tróia (1970-74) e revelou a nova força das atividades terciárias na cidade de Lisboa com o edifício Castil, na Rua Castilho.

Ora, com o Hotel do Mar, o arquiteto criou um projeto de crescimento turístico para Sesimbra. Conceição Silva propôs por isso, que a ocupação turística se desenvolvesse para poente, de modo a preservar a vila histórica e a sua relação com a envolvente natural. Nos dias de hoje, o hotel é diferente daquele que o arquiteto inicialmente planeou. Um ano depois da sua inauguração, em 1964, surgiu uma piscina a céu aberto, sobre a qual foi construído um segundo conjunto de quartos. E em 1989, houve uma terceira fase de construção, já não da autoria de Conceição Silva mas do seu antigo associado Maurício Vasconcelos, que introduziu novas construções na encosta.
 

Ana Ruepp



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Sexta-feira, 29.04.16

 Prudência.jpg
Tiziano - Alegoria do Tempo governado pela Prudência
 

    Minha Princesa de mim:
 

   Refletindo sobre as muitas hesitações, variações e debates, à volta da necessidade de se reforçarem medidas preventivas, dissuasoras, e até repressivas, de atos terroristas, suas ameaças, seus suspeitos ou presumíveis perpetradores, Michel Eltchaninoff publica, no nº 98, de abril de 2016, da Philosophie magazine, um artigo intitulado Le Sabre et l´Esprit. Começa assim: Estamos aborrecidos com a força. Por um lado, precisamos dela, na nossa vida privada, para enfrentar a doença, o luto, para não cairmos no desespero ou na depressão. Nos momentos difíceis dizemos: "Sê forte!" Também preferimos viver num país poderoso e respeitado, do que num estado débil e periclitante. Mas, por outro lado, sentimos então vergonha de nós.

   Ao lê-lo, lembro-me de umas voltas de Luís de Camões ao mote De que me serve fugir / de morte, dor e perigo, se me eu levo comigo? Não resisto a transcrevê-las para ti:

 

          Tenho-me persuadido,

          por razão conveniente,

          que não posso ser contente,

          pois que pude ser nascido.

          Anda sempre tão unido

          o meu tormento comigo,

          que eu mesmo sou meu perigo.

          E, se de mi me livrasse,

          nenhum gosto me seria.

          Que, não sendo eu, não teria

          mal que esse bem me tirasse.

          Força é logo que assim passe:

          ou com desgosto comigo,

          ou sem gosto e sem perigo.
 

   E, deparando com perplexidade, com esse tal "mas que podemos fazer?", logo me ocorre o recurso a São Tomás de Aquino, pois a palavra que me veio à mente foi Prudência. Como muito bem assinala o teólogo dominicano Marie-Dominique Chenu, que aqui passo a traduzir, para o Doutor Angélico, a inteligência - inclusive a inteligência da fé -  é a regra, tanto da ação como do pensamento. Assim sendo, a inteligência não devia então ser, ela própria, para nos guiar a vida, a sede de uma virtude? de uma virtude de certo modo supervisora de todas as outras, incluindo as emoções exteriores do amor, e introduzindo na sucessão das nossas ações singulares e efémeras uma luz racional, nessa altura reguladora? Assim chegamos à pedra angular da moral de São Tomás, essa que ele tão longamente construiu, único entre os seus pares, e cuja originalidade hoje está tão mal conservada, quer pelos moralistas, quer pelos espiritualistas. Dessa virtude intelectual, o próprio nome, na linguagem moderna, lhe aponta a desvalorização doutrinal: para os moralistas, como no nosso dia a dia, a prudência é tratada como uma virtude menor, como uma habilidadezinha feita de precaução e astúcia, conferindo uma segurança empírica e um precário saber viver e saber fazer... E Chenu sublinha que, diferentemente, para Aristóteles e, na esteira deste, em São Tomás, prudência significa precisamente essa disposição estável, graças à qual a razão discerne, escolhe, impera, na mobilidade e variedade das nossas ações, a verdade da sua ordem para o fim último. Verdade prática, que nem os princípios gerais, nem as ciências, nem a própria sabedoria, podem determinar, pois está imersa na irredutível singularidade das ações e das situações. Verdade experimental, portanto, mas assegurada pela perfeita posse de um estar em andamento, graças à justa proporção dos meios ao fim, que nem boas intenções nem ardores místicos fornecem. A prudência não vem juntar-se, exteriormente, à razão e à vontade, como dever que se imponha à liberdade, para a constranger: antes é a própria razão, tornada perfeita, no seu juízo e nas suas escolhas. Interioriza, personaliza a lei, a tal ponto que só aí, em minha consciência, posso decididamente falar de obrigação. O virtuoso é a regra viva da sua ação; a sua razão apenas à sua certeza prática deve a última determinação da sua obra.

   É claro que só os ditadores, seja qual for a sua ideologia ou projeto político - e também os fundamentalistas religiosos que, por esse mundo e essa história, sempre vão surgindo, seja qual for a sua fé ou falta dela - não podem tolerar tal liberdade de consciência, porque ela se furta à aquiescência cega, simplesmente alienada num qualquer ensinamento, certo ou errado, de outrem, do presumido mestre ou comandante. Ora a prudência é a virtude, intelectual, da observação, mais do que da observância; da escuta e do diálogo, mais do que da indiferença ou contestação, tantas vezes emotiva e irracional, do outro; a prudência estuda, não se precipita a condenar, procura compreender, não quer impor. Na segunda parte, II, quaestio 47, 1, da Summa Theologiae, São Tomás de Aquino retoma, interpretando-a à luz de Aristóteles, esta expressão de Santo Agostinho, tão bonita - e que já tantas vezes te repeti, Princesa de mim: Prudência é um amor que escolhe com sagacidade... 

   Hoje, como sempre deveríamos ter feito, rezemos para que seja sagaz o nosso amor dos outros (Deus omnisciente está onde há amor), e amorosa a nossa sagacidade (até para não ser estúpida).   


   Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira



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Quinta-feira, 28.04.16

Esquilo.JPG
 

ÉSQUILO e para ele as palavras de Aristófanes:

« Ó tu, que foste o primeiro dos Gregos a construir torres de palavras majestosas e criaste um mundo de trágica ilusão»
 

De facto para se compreender hoje a cultura do mundo ocidental, é indispensável o conhecimento dos textos que Grécia e Roma nos deixaram. Que se não duvide que o Saber não se atinge, nem o percurso até ele, nos é suficiente para o atingir. Talvez cheguemos até reflexos que nos elucidam das nossas limitações, e ter essa ideia é já tanto! Parece paradoxal, mas assim é. Os valores estéticos, onde incluo os da linguagem, são-me muito caros, e, bem gostava de ter aprendido várias línguas - incluindo o grego - como indispensável acesso às literaturas. Queria ter conseguido ler os grandes autores no original já que nenhuma tradução o substitui.

Não obstante, eis-me de novo e de novo com Oresteia escrita já quase no fim da vida de Ésquilo que nascera em 525-4 a.C.

Como se sabe é Oresteia constituída pelo Agamémnon, as Coéforas e as Euménides, verdadeira obra-prima da literatura dramática de sempre. Drama e lirismo afrontam as profundas questões morais e religiosas que se colocam ao homem num mundo em permanente crise. Crise esta que, na interpretação-sentir da obra esquiliana, atinge mesmo os próprios deuses, também eles procurando a justiça perfeita. Contudo, a Justiça irá lutar contra a Justiça: Clitemnestra e o seu direito de mãe a erguer-se contra o direito do filho. E homens e deuses procuram uma solução, mas uma solução que, implacavelmente quebre de uma vez por todas a cadeia de culpa e da sua expiação.

Julgo ter chegado até mim, e muito, através de Ésquilo, o compreender a diferenciação entre culpa pessoal e hereditária, quais rainhas de destinos rasgados na alma dos homens, face a numerosos deveres que entre si se contrastam. Quantas vezes a assunção da responsabilidade de um acto, implica a ofensa a um dever? E eis-nos no cerne dos conflitos que inaugurarão eras, criarão novos árbitros de vida e de morte, enfim, sempre vinculados ao destino que não levanta hipótese alguma de libertação. E reinventa-se a polis? E são os homens reinvestidos na função de julgar?!

Antes de Ésquilo foram compostas tragédias, é certo, mas também é certo que se foram desgastando com o tempo, enquanto, Ésquilo surge com solar capacidade de expor uma forma de arte em que, dotado de insuperável excelência, expõe os grandes problemas do homem. O Poeta expôs a vida para que outro futuro se construísse, e a trilogia temática de Oresteia é-nos assim colocada nos olhos do entendimento, trazida pela Antiguidade nas augustas palavras esquilianas, as mesmas que explicam a tirania e o seu confronto com a consciência cívica.

Graças à tradução do grego feita pelo Professor Catedrático Manuel de Oliveira Pulquério, tive conhecimento também do epitáfio que se crê talvez ter sido composto em Atenas depois da morte de Ésquilo.
 

«Este túmulo de Gela rica em trigo encerra os restos mortais do ateniense Ésquilo, filho de Eufórion. Da sua famosa coragem poderão falar o bosque de Maratona e o Medo de longa cabeleira que a experimentou.»
 

Assim se mostrou a vida entregue à comunidade e em defesa do futuro. No entanto, a sua vida tinha sido inteiramente doada à arte dramática sob os grandes temas da culpa e da expiação, do sofrimento humano e do sentimento que percorre a longa marcha do tempo. Agiganta-lhe a estatura este casamento dentro de si conseguido e transmitido. A atenção constante às ciladas sob os pés, quando pisam os tapetes de púrpura. A Sorte e o ornamento, a angústia em que a razão se perde. O grito de Orestes aos frágeis de memória:

 

Estes ultrajes não te fazem despertar, pai? 

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Estudos:
Lebeck, The Oresteia, Harvard University Press, 1971;

M.O. Pulquério, Estrutura e função do diálogo lírico-epirremático em Ésquilo, Coimbra, 1964.

Traduções

Ammendola, Eschilo : Agamennone, Florença, «La Nuova Italia» Editrice, 1955;

Mazon, Eschyle, Tome I, Paris, Les Belles Lettres, 1953; Tome II, Paris, Les Belles Lettres, 1955



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Quarta-feira, 27.04.16

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COMENTÁRIO A UMA ENCENAÇÃO DO “FREI LUIS DE SOUSA”

Faremos aqui um breve comentário à encenação de Rogério de Carvalho no “Frei Luís de Sousa” levado à cena pela Companhia de Teatro de Almada no Teatro Joaquim Benite. E isto porque, em primeiro lugar, são sempre bem vindas, para não dizer necessárias, as re-encenações deste grande texto referencial. Mas também porque o espetáculo – que diga-se desde já, tem boa qualidade – concilia o rigor assumido do texto de Garrett, com uma versão moderna, renovada e renovadora: o que em si mesmo não só é obviamente legítimo como louvável pela afirmação de modernidade, mesmo que se discutam aspetos de conceção e execução.

Mas desde logo se diga que a integral do texto, encenado num registo de atualização de espetáculo, mostra a atualidade da peça em si no ponto de vista da criação direta de Garrett. Quer dizer: a peça, tal como a lemos, contem todos os valores da sua atualidade real no texto e potencial no espetáculo. E nesse aspeto, ainda dois comentários:

Em primeiro lugar, as próprias didascálias e notas de cena originais, tal como Garrett as concebeu e interpretou em 1843, podem ser devidamente “aplicadas” num espetáculo moderno, sem por isso o espetáculo deixar de ser moderno e atual. Trata-se aliás de uma expressão exemplar de teatralidade, repita-se, não só através das descrições de cena propriamente ditas, vastas e pormenorizadas na sua adequação “realista” à época do drama, mas também, modernas quando Garrett as concebeu e ainda hoje: uma versão rigorosa nunca será por isso menos eficaz na sua modernidade.

E essa modernidade concilia três planos epocais e estéticos: o da época da cena e da ação histórica (século XVII), o da época da criação da peça (século XIX) e o da época da encenação (século XXI). Nesse aspeto, insista-se, o espetáculo concebido e dirigido por Rogério de Carvalho concilia bem os planos: aliás, tal como o próprio encenador recorda numa entrevista no programa coordenado por Ângela Pardelha, “o texto é um dos melhores textos dramáticos da literatura portuguesa”, pois “a modernidade do texto é evidente”. Assim é, com efeito: o que comporta a modernidade da encenação, mesmo que não se considere sempre ao mesmo nível o tratamento e o desempenho de todos os personagens.

E ainda um reparo: a intemporalidade e certa “abstração” cénica e cenográfica epocal é em si mesma bem-vinda, sem embargo, insista-se, da qualidade, no duplo sentido, das indicações cénicas originais. Mas apesar disso, registo na encenação uma certa “homogeneidade excessiva” que neutraliza um pouco a dramaticidade crescente – e não se fala aqui de suspense ou de premonição e fatalismo, por que o texto é hoje perfeitamente universal no conhecimento que dele se tem… o que permite em certa medida exercícios de homogeneização.

Pode no entanto discutir-se a “abstração” da cena do final do segundo ato, como sabemos crucial no contexto dramático. A didascália de Garrett é rigorosa, como o são aliás todas as indicações de cena. Aqui, impõe-se o significado dramático e simbólico da descrição do Ato Segundo, com a galeria de retratos e com a extraordinária cena final: 

“Romeiro (apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal) – Ninguém” (Frei Jorge cai prostrado no chão, com os braços estendidos diante da tribuna. O pano desce lentamente)…”

E pode questionar-se aqui a encenação/interpretação que, segundo penso, de certo modo desdramatizou o conteúdo simbólico da cena de identificação do Romeiro-D. João de Portugal pelo próprio, apesar de figurar no retrato “noutros trajes… com menos anos – pintado”, como refere o Frei Jorge:

“Jorge – Procurai nestes retratos e dizei-me se algum deles pode ser.

Romeiro (sem procurar, e apontando logo para o retrato de D. João) – É aquele”.

Note-se bem: “sem procurar”…

No plano do texto em si, saliento sempre a grande fala final da Maria:

“(…) Esta é a minha mãe, este é o meu pai… Que me importa a mim com o outro? (…) Mate-me, mate-me se quer, mas deixe-me este pai, esta mãe que são meus (…) – Não há mais do que vir ao meio de uma família e vir dizer: «vós não sois marido e mulher? e esta filha do vosso amor, esta filha criada ao colo de tantas meiguices, de tanta ternura, esta filha é…» Mãe, mãe, eu bem o sabia… nunca tu disse mas sabia-o: tinha-mo dito aquele anjo terrível que me aparecia todas as noites para me não deixar dormir…”

No que respeita ao espetáculo, há certamente que o elogiar, com talvez um reparo relativo à conceção cénica ao longo dos três atos, a partir de um dispositivo uniforme de José Manuel Castanheira, contrastante com as notas de cena e descrições de ambiente de Garrett, curiosamente detalhadas e realistas. Mas nada disso prejudica o espetáculo, ainda valorizado pelas interpretações de Adriano de Carvalho, Alberto Quaresma, Afonso Fonseca, Carlos Fartura, Joana Castanheira, João Farraia, Marques d’Arede, Pedro Walter, Teresa Coutinho, Teresa Gafeira.

De facto, Garrett é um grande (e moderno) dramaturgo, o “Frei Luís de Sousa” é uma grande (e moderna) peça. Merecerá sempre por isso a reposição.


DUARTE IVO CRUZ

 

 



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Terça-feira, 26.04.16

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Shakespeare as you like, 1616-2016

Quatrocentos anos serão uma eternidade na alma do homem, mas infinitas são as palavras que inventam a sensibilidade ocidental. Master William Shakespeare morre a 23 April 1616. Lega 38 peças e 154 sonetos, mais duas narrativas e uns quantos versos de uncertain authorship. Espetáculos de teatro, música, dança, entrevistas, livros e até poemas a pedido celebram a data.

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Quem ama o inspirado universo do Bard of Avon sorri, apesar do excessivo branding dos tempos. — Chérie! Il ne faut pas juger du sac sur I'etiquette. O US President Barack Obama realiza a última visita oficial ao UK. Almoça com The Queen no Windsor Castle, reúne com o PM no N10, engarrafa o trânsito em Westminster District e advoga voto Bremain em Chicago style. As suas palestras atiçam o fogo da controvérsia. — Hmm! Shall I compare thee to the sounds of the Philadelphia‘s Liberty Bell? O Thames e St James acolhem a London Marathon da primavera com an supportive, colourful and noisy crowd. A crise dos migrantes ecoa na ementa dos líderes do G5 (US, UK, Germany, France & Italy) reunidos em Hannover, para ultimar a Transatlantic Trade and Investment Partnership. Com Mrs Hillary Clinton a solidificar posições entre os democratas, os rivais republicanos Ted Cruz e John Kasich coligam-se para travar o frontrunner Mr Donald Trump na USA Presidencial Race. Dois pássaros raros partem: Prince ‘The Purple Rain,’ aos 57 anos, e Billy ‘Me and Mrs Jones’ Paul, aos 81. Um ano após o terramoto que abala as montanhas do Tibet, o Nepal permanece terra devastada e esquecida.

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The Queen and Her People (© Courtesy BBC).

Blue sunny skyes, white cold clouds and a fantastic merry atmosphere em Central London. Sabem os Londoners que os festejos da Queen at 90 abrem com a gun salute na Bridge Tower e só descem o pano com o Summer Official Anniversary, desta feita escoltados com a fanfarra partidária das May Elections e do June EU Referendum. Modestamente faço votos para que Her Majesty sele o ano com a Derby Winner. April é momento alto do calendário local também pelo 400th Shakespeare. Comemoro a travessia do bardo nas estrelas com a esplêndida A Play for the Heart: The Death of Shakespeare, de Nick Warburton (Tinniswood Award, em 2005). A peça foca os dias do fim do Good Old Master Will e passa-se na Mary Arden's Farm, o berço de Stratford-upon-Avon. O guião é simples: Um febril escritor entretece os últimos momentos em família com personagens da vida real e imaginária. O resultado é fantástico, pelas setas de pura emoção. Parcela do caleidoscópico BBC Shakespeare Festival 2016, o espetáculo tem direcção segura de Mrs Marion Nancarrow e é protagonizada por Mr Robert Lindsay e Mrs Susan Jameson ‒ um intenso William e a doce esposa Ann Hathaway, cruzando-se com impecáveis Oliver Chris (como John Fletcher) e Gwilym Lee (William Harvey) a par de Nicola Ferguson (a filha Susanna Hall), Nick Underwood (o genro John Hall), Sam Brough (um dos gémeos, Hamnet), James Lailey (Unnamed gentleman) e Brian Protheroe (The Voice). Afinal, quem é the man with bloody hands?

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Master William Shakespeare ou a imagética filigrana de ideias e de palavras (© Courtesy BBC).

RH Theresa May entra na campanha referendária após o President Barack Obama voar sobre o Atlantic Ocean para intervir a favor da permanência do UK na European Union e em vésperas de Madame Marine Le Pen atravessar The Channel para cá defender exatamente o contrário. As fronteiras dos interesses estão a jogo, pois. Não admira que as sondagens apontem um voto still in the air. A semana é do tipo The Sound and The Fury, com Mr William Faulkner como comandante do Air Force One. Como recordarão, a estória decorre no Mississippi e centra-se nos Compson ‒ família aristocrática sulista a braços com a dissolução dos laços e da reputação. Tudo agora gira em torno de providencial visita do Mr President. Que diz, na essência, o senhor de Washington? Que o British People vote Remain e saiba que, caso contrário, irá “at the back of the queue” quando quiser renegociar um acordo comercial com os USA.

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Mais, além da prometida década perdida e do you just can’t: Que os jovens recusem “the isolationism, pessimism and cynicism.” Ainda: Que “love the guy, Winston Churchill,” cujo busto no first day do mandato retira do Oval Office para o 2nd Floor da White House. Os comentários vacilam: A threat! A friend advice? Acrescem dúbias notas sobre o Great Glorious Empire, a “Kenyan ancestry” e “two lame ducks indulging in a final quack!” Ora, com os Junior Doctors em greve por estes dias e a endividada cadeia de moda BHS com “11,000 jobs at risk” na montra da High Street, explorando a divisão entre os inflamados Tories, já o inefável Shadow Chancellor RH John McDonnell verseja sobre a queda do governo… nas ruas. No mais do impreciso sufrágio de 23rd June: Only 58 days to go…

O melhor da semana, porém, vem do RH Jeremy ‘Mr Nice’ Corbyn na House of Commons. Durante o tributo a The Queen@90, distanciando-se da penosa rudeza inicial para com o trono, o republicano dos quatro costados delicia as galerias com o público elogio pelo seu “clear sense of public duty” e ainda a referência de preferir líderes provindos de "a finer vintage." Well! For all the ducks i' the river, between to quack or not to quack, let us sing the Sonnet #24 of Master Will: Mine eye hath play'd the painter and hath stell'd / Thy beauty's form in table of my heart; / My body is the frame wherein 'tis held, / And perspective it is the painter's art.

St James, 25th April                    

Very sincerely yours,

V.



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Segunda-feira, 25.04.16

 

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De 25 de abril a 1 de maio de 2016

 

Miguel de Cervantes (1547-1616) e William Shakespeare (1564-1616) apenas coincidem na circunstância da morte. Os seus passos não se cruzaram em vida, mas aparentemente morrem no mesmo dia, o que permite uma associação de lembranças. Contudo, o certo é que são referências fundamentais na literatura moderna, na sua criação e consolidação.

 

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[Foto: DN] 

 

UMA COINCIDÊNCIA DE DATAS

Começando pelas datas, a verdade é que no curioso ponto de encontro das datas da morte – 23 de abril de 1616 - temos um pequeno equívoco, de facto sem importância. Enquanto a Inglaterra seguia o calendário juliano, a Península Ibérica adotava já em 1616 a contagem gregoriana. Eis por que razão, o dia 23 de abril, que os biógrafos referem como data possível do falecimento, de ambos não corresponde ao mesmo momento, mas sim a uma diferença de dez dias…

O certo, o certo é que, apesar dessa divergência momentânea, podemos associar as duas grandes figuras, pois representam, nas respetivas singularidade e originalidade, o início, cada um a seu modo, de uma nova literatura, que convencionamos designar de moderna… Miguel de Cervantes é, pode dizer-se, o introdutor do romance moderno – e, falando da língua portuguesa, podemos acrescentar que D. Quixote é com a «Peregrinação» de Fernão Mendes Pinto o começo de um novo capítulo extraordinário na história das narrativas… Com efeito, mais do que um relato autobiográfico, a «Peregrinação» é uma prodigiosa apresentação, picaresca e trágica, de uma vida de aventuras, que pressupõe a multiplicação das personagens e das respetivas peripécias. Os contemporâneos julgaram ser mentira essa prodigiosa proliferação de experiências, mas hoje sabemos que foi a criação literária a estar em causa, centrada na diversidade dos testemunhos que contêm um inequívoco fundo de verdade… Assim, D. Quixote e a Peregrinação são duas obras centrais na construção da moderna literatura ocidental… E lembramo-nos do surpreendente epílogo da obra-prima de Cervantes: «Senhores, mais devagar! (…) – O que lá vai, lá vai. Ontem fui louco, hoje estou são de juízo. Fui D. Quixote de la Mancha e sou agora, repito, Alonso Quixano, o Bom. Possam Vossas Mercês perante o meu arrependimento e verdade restituir-me à estima que lhes merecia e o senhor tabelião tenha a bondade de continuar…». Apesar desta tentativa de D. Quixote renegar a ponta de loucura que dominara a sua movimentação, os seus companheiros irão desejar que tudo continue na mesma, como se de um sonho se tratasse que deveria continuar… A verdade é que, se Cervantes faz a crítica, certeira e indesmentível, dos males dos romances de cavalaria – sendo o cavaleiro da triste figura a personificação de uma doentia figuração de quem se deixara arrastar por aventuras fantasiosas retiradas de uma mistura ilusória da imaginação e da vida -, o certo é que estamos perante uma outra atitude que tem a ver com a realidade que nos cerca. O quixotismo é o enfrentamento da realidade com sonho e sentido utópico – mas Sancho Pança procura reconduzir as coisas ao concreto e ao senso comum. Daí o paradoxo existente entre a recusa de continuar a loucura e o desejo dos circunstantes que tudo se mantenha…

 

ALMA DE UM POVO

Miguel de Unamuno disse um dia que a filosofia em Espanha se lhe apresentava na «alma» do seu povo como «a expressão de uma tragédia íntima análoga à tragédia da alma de D. Quixote, como expressão de uma luta entre o que o mundo é, tal como no-lo mostra a razão da ciência, e o que queremos que seja, segundo o que nos diz a fé da nossa religião. E nesta filosofia reside o segredo do que nos é apontado, mas que estamos longe de saber o que é». Miguel de Cervantes faz-nos o relato das desventuras de alguém que, a um tempo, nos fala de um tempo passado, assim como sonha com conquistas inverosímeis… Diversa é a atitude de William Shakespeare, ainda que haja uma evidente convergência no sentido crítico. É a alma do povo que ambos, o espanhol e o inglês, procuram…

De facto, as obras do britânico, centradas na procura de compreender o género humano, ora usando das referências míticas ou históricas (Hamlet, Otelo ou o Rei Lear), ora recorrendo a temas intemporais (como em «A Tempestade»), procuram sensibilizar o público para uma reflexão crítica do mundo da vida. E que é o teatro senão o meio por excelência para a representação crítica da humanidade? Apesar de a narrativa romanesca e o teatro terem destinatários e ritmos algo diversos, a verdade é que, desde o registo picaresco até à máxima circunspeção, do que se trata é de olhar a sociedade e de ver os caminhos diversos que a mesma pode trilhar. O caso de Próspero, duque de Milão, em «A Tempestade» é significativo. Aí sentem-se as influências de Erasmo de Roterdão ou de Montaigne, mas também do Ovídio de «Metamorfoses». É uma tragicomédia com laivos de commedia dell’arte – muito se aproximando da ideia do romance crítico. Talvez este seja um caso muito especial na obra de Shakespeare, em que há uma aproximação à narrativa… Para não falar de «Hamlet», importa lembrar «Lady Macbeth» e «O Rei Lear», onde os temas do poder e da sua atração estão bem presentes. O velho rei da Bretanha decide dividir o seu reino pelas três filhas – Goneril, Regan e Cordélia. Esta última, porque não segue a atitude aduladora das irmãs é expulsa da corte. A ambição, a cegueira, a corrupção do poder conduzem o reino pelos caminhos indesejados pelo rei Lear, que enlouquece, procurando reencontrar Cordélia. Esta será condenada à morte com o seu próprio pai, que assiste desesperado as este desenrolar dos acontecimentos, nada podendo fazer para reparar o seu tremendo erro de ter julgado erradamente Cordélia… Há um sério contraste entre a loucura do rei Lear, que presencia a vitória de tudo aquilo que desejaria combater e a apoteose de «A Tempestade», numa ilha perdida, pela mercê de um mago, em que os vivos saúdam a alvorada de uma idade de ouro… Também o quixotismo revela essa contradição entre o sonho e o absurdo – o que, à distância, permite ver a força da literatura, a unir os geniais trajetos de Cervantes e Shakespeare…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença



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