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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Voltando a um dos temas do Penser l´Islam, de Michel Onfray, aqui traduzo a resposta escrita do autor a uma pergunta que lhe foi feita por Le Point, imediatamente após o atentado perpetrado pelo EI, a 13 de Novembro de 2015, no Bataclan, em Paris:

 

   No seu comunicado de reivindicação, o Daesh fala, referindo-se às vítimas do Bataclan, em "centenas de idólatras numa festa de perversidade". Será que essa gente odeia sobretudo o que nós somos?

   […] Com efeito, é uma guerra de civilização. Mas o politicamente correto francês proíbe que isso se diga, desde que Samuel Huntington fez excelentemente a sua análise em 1993. A civilização islâmica para que nos remete o Estado Islâmico é, na verdade, puritana. Faço observar que esta pergunta deixa entender que a França dispõe de uma "identidade nacional", que vemos melhor quando a identidade islâmica a põe à luz do contraponto histórico do momento. Mas como também é ideologicamente criminoso remetermo-nos para a identidade francesa, durante muito tempo nem se podia dizer que, na realidade, havia um modo de vida ocidental e que esse não era o modo de vida islâmico. Os turiferários do multiculturalismo confessam que há mesmo várias culturas e que, entre elas, algumas defendem o rock em noites de festa, enquanto que outras fazem desse evento "uma festa da perversidade". Têm todas as culturas o mesmo valor? Sim, dizem os tenentes do politicamente correto. Por mim, tenho tendência para pensar que é superior uma cultura que permite que a critiquem a qualquer outra que proíba que tal se faça e castigue com a morte qualquer reserva relativamente a ela.

 

   Sabes bem, Princesa, como penso que todos nós nos superamos, isto é, nos tornamos melhores, quando entendemos construtivamente as críticas que nos são dirigidas e sabemos, nós mesmos, exercer com prudência o espírito crítico. Digo aqui prudência no sentido de Santo Agostinho, que São Tomás gostava de repetir: A prudência é um amor sagaz. Quero, pois, deixar-te claro que não faz, para mim, qualquer sentido pretender que há hierarquias de culturas ou civilizações: costumo dizer que as culturas são, simplesmente, as circunstâncias das nossas vidas, ecossistemas das almas, a que naturalmente nos referimos, mas com os quais mantemos sempre uma relação dialética, que as faz evoluir. Falamos, por exemplo, da cultura europeia, mas essa não é hoje igualzinha à da Idade Média, ou da Renascença, etc., e até nos acontece dizer que está a mudar. Penso que tudo muda para sobreviver: para entendermos isto podemos observar, por exemplo, como o iluminismo e o laicismo se filiam na cultura cristã... No seu The Clash of Civilisations and the Remaking of World Order (1996), Samuel Huntington, a dado passo, escreve que civilização e cultura se referem à maneira de viver, em geral. Uma civilização é uma cultura em sentido lato. Estes dois termos incluem «os valores, as normas, as instituições e os modos de pensamento a que, numa dada sociedade, gerações sucessivas atribuíram uma importância fulcral» (Adda Bozeman, in Civilisations under Stress). Mas tal como a semente produz e o tronco sustenta, o núcleo e o esteio de uma cultura também vão criando ramos e folhas e flores e frutos, que se reconhecem na raiz comum e naturalmente se comparam com outras espécies e, por tal cotejo, também se identificam. Outra coisa deve ser o respeito mútuo: o direito à diferença é universal, não determina graus de superioridade, mas pressupõe, necessariamente, a salvaguarda da existência de todos e cada um. Posso achar que o rock - para usar o exemplo dado por Onfray - é festivo, ou perverso, mas tenho de aceitar que outrem goste do que me desgosta, e não tenha, do bem ou do mal, do belo ou do feio, o mesmo conceito que eu. Não me assiste, nunca nem de forma alguma, o direito de impor, nem me é permitido agredir.

 

   Infelizmente, a História dos homens está infestada de crimes contra a própria humanidade, mas tal não implica que sejam uma fatalidade inevitável, nem me parece que sejam imputáveis a uma ou algumas culturas. A todos nós o mal espreita, e a todos nos chama o bem. Entre ambos está a santa liberdade dos filhos de Deus, que, aliás, só pode existir no respeito pelo outro, isto é, básica e necessariamente, pela vida.

 

   O mal dos séculos, Princesa de mim, não é a desobediência, antes será a ignorância, a inconsciência. Só na liberdade da consciência, aguçado e provocante, pode inscrever-se o princípio da paz: não há bem que nos valha por nos ser imposto, só em liberdade sabemos e podemos escolher o bom, belo e vero. Do mal e de males todos sofremos, por imposição de outros ou demissão nossa. O que quero significar, quando falo em dialética de mim com a minha cultura ou circunstância, é que não sou, nem ninguém é, apenas vítima. Ontologicamente, o ser humano é relação, interage, como hoje se diz. Eu não sou só produto de uma cultura - nem cultura alguma é monolítica e inerte – evoluímos com elas e elas connosco. Parece-me importante entender isto em tempos ditos de globalização. Para que seja em paz o necessário convívio global, impõe-se, desde logo, atualizarmos o princípio socrático: nosce te ipsum.

 

   Tenho mais para te dizer, Princesa de mim, já fugi ao tema que me trouxe... 

   Mas vai longa a carta, digo na próxima.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Acerca da arquitetura de Tadao Ando (Parte II)

A herança do movimento moderno e a criação de uma linguagem individual.

 

'In 1969 I set up a small design office in Osaka. This was my first step toward resisting social injustice through my work as an architect.', Tadao Ando, 2012

 

No livro 'Tadao Ando. Conversations with Students' (2012) clarificam-se as referências mais importantes que ajudam a caracterizar a arquitetura de Tadao Ando:

 

1. A importância do contexto.

 

Tadao Ando acredita que a arquitetura requer elementos verdadeiros e tangíveis enraizados no clima e estilo de vida do lugar. Aspetos como o contexto geográfico e cultural, relacionados com a história e a identidade específica do local são essenciais. Mas também importantes são as experiências pessoais retiradas da vivência da arquitetura, de impressões e de memórias. 

 

2. A importância da intuição no processo de criação.

 

O processo de projetar em arquitetura requer uma consideração de diversos elementos, matérias e relações. É a intuição que consegue transcender todos estes domínios: 'It is within the logically indescribable or clearly unrecognizable that the unlimited potencial of analog thinking resides.' (Tadao Ando, 2012)    

 

3. A herança do movimento moderno. 

 

Para Tadao Ando a emergência do movimento moderno trouxe a oportunidade para homogeneizar o mundo das formas construídas - os arquitetos modernos acreditavam na arquitetura como volume, na geometria e na expressão adquirida através da proporção e dos materiais. Tadao Ando retirou grandes lições do Imperial Hotel in Tokyo de Frank Lloyd Wright, da Villa Savoye de Corbusier e da Casa em Farnsworth de Mies Van Der Rohe. Mas foi sobretudo através dos exemplos de La Tourette e da Unidade de Habitação de Marselha de Le Corbusier que Ando adquiriu a vontade em usar o betão na sua forma mais natural, mais escultural, mais liberta e expressiva.

 

4. A arquitetura tradicional Japonesa.

 

'Our neighborhoods became overwhelmed with banal, formulaic boxes. However, gradually, the ubiquity of the International Style led to the question: Does this truly enrich people's lives? Soon a rationalistic approach emerged that sought to reclaim a rich humanistic environment by merging architecture with a region's traditions, history and lifestyle.', Ando, 2012

 

Os materiais e as cores usados na arquitetura tradicional japonesa são muito específicos - vermelhos e verdes intensos aparecem em templos Budistas e as casas são construídas com os materiais na sua aparência mais natural. Ao trabalhar com uma limitada paleta de cores e materiais, os arquitetos são forçados a encontrar originalidade através de outras formas. De facto, no Japão existe uma cultura orientada para a natureza e por isso existe um incentivo para que se incorporem na arquitetura materiais e cores na sua forma mais natural. E é esta cultura que gera nos habitantes uma acentuada sensibilidade para todo fenómeno natural - por exemplo a presença delicada da luz numa casa é um elemento essencial, tal como descrito no livro 'In Praise of Shadows' de Juni'chirō Tanizaki. Ao viajar intensamente por todo o Japão, Ando tomou consciência do grande potencial da arquitetura tradicional e  da grande capacidade que a arquitetura tem em transmitir pensamentos e ideias. Ando acredita na transmissão espiritual da tradição.

 

5. A escultura de Isamu Noguchi

 

'Through more than ten years of interaction with him, I learned of the rigor and hardship of the artist's life. I came to truly realize that art gives rise to humanity itself.', Ando, 2012

 

De Noguchi, Tadao Ando aprendeu que se a pedra é manipulada demasiadamente nunca poderá ser uma escultura, porque a pedra morre. E por isso, Ando acredita sobretudo na importância do processo do pensamento que direciona  a execução do objeto criado. Basta por vezes uma pequena alteração a uma pedra para trazer à superfície a sua identidade e o mesmo se pode pensar da humanidade. Noguchi por sua vez aprendeu de Brancusi a desafiar continuamente os seus limites e a desenvolver com o máximo de profundidade e persistência os seus pensamentos e ideias -'each individual must work out his own truth'. 

 

'Architecture is born out of abstract ideas. However, when architecture is built within an existing context of place and diverse valise, dialog must occur as well. Architecture cannot exist without a relationship with the people who make up society.', Ando, 2012

 

Tadao Ando deseja então encontrar o espírito inserido na forma da arquitetura e assim recuperar um sentido de identidade e especificidade - ao incluir elementos naturais tais como luz, vento e água e ao expressar elementos da cultura local. Porém estão incluídos simultaneamente elementos que fazem parte de uma linguagem individual (porque a arquitetura resulta de um necessário conflito introspetivo para ser expressão de uma ideia) e universal ('Regardless of the period or style in which one is rooted, something universal can be learned from all architectural styles and cultures.', Ando 2012).

E por isso a arquitetura para Ando tem de se unir intensamente com a natureza e ser capaz de transmitir valores de simplicidade, estabilidade, homogeneidade, resistência e durabilidade porque o homem é um ser em constante relação e é mutável e suscetível de ser constantemente moldado.

 

'If you fail to cultivate within yourself a fight-back mentality, society will end up controlling you. Deciding to live with conviction will enable you to persevere. I truly believe that it is a commited approach to life that will allow you to play a vital role in society.', Tadao Ando, 2012

 

Ana Ruepp

UM ESTRANHO ENIGMA - capítulo IV

 

 

     - Como poderia ser, pensou Jaime, tinha-a visto morta e estava ali, viva da costa, com os olhos fixos nele, e ele a sentir-se já culpado da sua ressurreição?

     E lembrou-se de que a morena lhe falara da irmã gémea, tal qual como ela, a não ser um sinal a meio da coxa grossa, e ele agora perplexo. Seria esta a morta, ou seria a outra? Os jeans e o blusão impecáveis não deixavam margem para dúvidas, era da bófia, só elas se aperaltavam assim, ao contrário da que deixara morta e tinha jeans rasgados, um blusão mais para engate do que outra coisa, o cabedal sem cor, de tão coçado, e ele sempre a dizer-lhe que se aperaltasse, assim é que não iria a lado nenhum, e ela a perguntar-lhe:

     - Mas para que lado queres que eu vá?

     Tivesse ele sabido que iria encontrar a gémea, e não teria dúvida, antes de sair do prédio e que o fogo consumisse tudo, faria o que nunca tinha feito, despir-lhe-ia os jeans e confirmaria que ela tinha o sinal onde lhe tinha dito que estava, a meio da coxa grossa, agora é que não havia nada a fazer. Não ia voltar à cena do crime, falar com a médica legista que já lá devia estar e perguntar-lhe:

     - Doutora, havia um sinal tal e coiso em tal parte?

     E só avivaria desconfiança, como é que sabe do sinal? Para que quer a informação? Identifique-se.

     E ele a balbuciar desculpas, a procurar explicações, só queria confirmar que esta é uma e não a outra.

     Mas agora era tarde. Em frente da que pensava ser a gémea, mas que podia ser a outra, a morta, não sabia o que fazer, a não ser que não lhe iria perguntar:


     - É verdade que tem um sinal a meio da coxa? 

     Se lhe perguntasse, ela puxaria do cartão da polícia, e ele a ver-se metido em sarilhos, com a judite não se brinca, lá iria para o interrogatório, e sabia que iria cuspir tudo cá para fora, ainda por cima a irmã, se fosse ela, havia de querer saber da coisa ao pormenor, como é que ele sabia do sinal, que intimidades teriam, se teria sido naquele dia, naquele apartamento, que ele tinha sabido do sinal? Tê-la-ia despido, visto o sinal, teria sido droga, violação, o diabo a quatro é que ele sabia o que fora, mas a forma como ela o olhava é que não era de quem nunca o vira, e ele a tentar lembrar-se. De tantas morenas, de tantas noites, de tanta luz ofuscante em concertos em que as caras se confundem, podia ser que tivesse levado a morena para um banco de jardim, que ela lhe tivesse contado a vida toda e ele, que chatice, quero é voltar para a confusão, mas ela a insistir com a conversa.

     Pouco importa, a gémea estava morta, ele tinha pegado fogo ao corpo, e agora estava ali, viva, e ele sem saber se era ela ou a outra, e qual delas era chui? Aqui, era crime agravado: ainda se fosse a morena da vida a que ele incendiou, agora a irmã é que não, quase se sentia criminoso, afinal o que fizera fora apenas pôr-se ao fresco e não deixar pegadas, e era tão inocente que nem olhara para trás, ao atear a chama; e se o corpo não tivesse ardido, ainda haveria razões para o incriminar?
     

    E a gémea a olhá-lo, ou seria a morena? Que tem para me dizer? Confesse tudo. Onde está a arma com que matou a minha irmã?


     Olhou para Nelson, que se aproximara da gémea e a abraçara, como que a protegê-la, sentira que havia ali alguma coisa estranha, um enigma.


     E sentiu-se subitamente aliviado. Afinal, basta que pegue em Nelson por um braço e o levasse para fora dali, se ele a abraçava é porque havia intimidade entre eles.


     - Ouve lá, uma pergunta, ouvi dizer que ela tem um sinal a meio da coxa?

     E o seu reino por uma resposta, acrescentaria se tivesse cultura para tanto, pedindo a Deus, o que quer que fosse, que ele não lhe dissesse:


     - Sinal, com tanta tatuagem na coxa, como queres que eu saiba se há ali um sinal?

 

 


UM ESTRANHO ENIGMA
| Folhetim de Verão CNC 2016

Ilustração © Nuno Saraiva [Direitos reservados] 

 

Apoio         

 

 

 

 

 

Trânsito da Vida (pág. 10)

 

 

… e os deuses ordenaram

Que se fizessem muitas e grandes alegrias

A este resíduo de liberdade

A que os príncipes de grande valia

Trouxeram decifração.

Nobre causa que os olhos cegam em vê-la

Mas ao vosso coração

E peito ardente

A todos alertarei prudente

Que esta súbdita fascinação

Tem a força que não confessa

De ser filha de uma outra terra

E amante de uma outra gente!

 

 

Teresa Bracinha Vieira

(in "TRÂNSITO DA VIDA", ed. Átrio)

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Na minha carta precedente, falei-te, muito livre e pessoalmente, da constituição e tradição dos nossos textos evangélicos. Por seu lado, o Corão deve a sua reunião em livro a um ato político, preparado pelo segundo califa (ou sucessor de Maomé), Omar, e feito pelo terceiro, Osmã. Na verdade, durante a vida e imediatamente depois da morte do Profeta fundador, apenas circulavam revelações divinas, lado a lado com ditos do mesmo Maomé, e relatos da sua vida. Tais ditos e relatos também seriam reduzidos a escritos, conhecidos, respetivamente, por Hadiths e Sira. Já as revelações divinas, recebidas pelo Profeta através do anjo Gabriel, seriam coligidas num livro a que se chamou Corão, precisamente por conter essas qurra ou recitações. Foram, aliás, os al qurrâ, os recitadores que se presumiam depositários exclusivos da revelação maometana, que mais se opuseram à versão oficial do Corão decretada pelo califa Osmã, como instrumento indispensável à preservação da unidade e força de um império nascente, que lutas intestinas, numa circunstância de rapidíssima expansão, ameaçavam. Não olvides que, após a morte do Profeta, em 632, ou seja, dez anos depois da hejira (início da era muçulmana, em 622), lhe sucederam, imediatamente, os quatro califas ortodoxos (os "bem guiados"): Abubacar, Omar e Osmã, até 657, período em que o islão conquista, para além da península arábica, o Egipto e o norte de África, e, derrotando os exércitos persa e bizantino, os territórios que hoje constituem a Síria e o Iraque; e Ali, o quarto, que Maomé teria preferido para sucessor, foi califa de 657 a 661, data em que foi assassinado. Nele radicará a secessão xiita. Apesar da importância do conceito de Umma ou comunidade dos crentes, no Islão, a continuação da mensagem de Maomé não se faz, como acontece no cristianismo primitivo, por uma Igreja independente do poder político, temporal, mas pela transmissão de um império.

 

   Escreve o doutor Nabil Mouline, no seu Le Califat - Histoire politique de l´islam (Paris, Flammarion, 2016): Desde o seu acesso ao poder, Abubacar [o primeiro califa, sucessor imediato de Maomé] tem de enfrentar um grave problema. A maioria das tribos e regiões que se aliaram à causa de Maomé, nomeadamente depois da conquista de Meca, rejeitam a autoridade de Medina [onde o Profeta falecera e está sepultado], por razões religiosas, económicas e políticas. Vários grupos estimam que o juramento de vassalagem prestado ao Profeta é estritamente pessoal. Recusam, portanto, reconhecer o novo chefe. Outros afirmam que, não deixando de ser muçulmanos e reconhecendo a preeminência de Medina, deixarão de pagar o imposto - sinal de subordinação universal. Outros grupos vão ainda mais longe: não se contentam com declarar a sua independência, mas põem profetas - que a tradição classificará como impostores - à cabeça, para se diferenciarem dos muçulmanos e mostrar que nada têm para invejar [...] Com força e determinação, Abubacar decide reprimir essas rebeliões.

 

   [Entendida esta e outras condicionantes, não quero deixar de te referir que, pouco antes de morrer, Maomé recebeu numa mesquita uma delegação  de cristãos de Najran, aos quais garantiu a proteção da Umma muçulmana. Facto para lembrar.]

 

   Mas daí também decorre outra questão quanto à interpretação das escrituras cristãs e muçulmanas: enquanto umas são consideradas inspiradas pelo Espírito Santo, mas obra humana, passíveis, portanto, de análise e interpretações que tenham em linha de conta o tempo e o modo  em que foram redigidas, ou seja, a sua circunstância, as outras são geralmente afirmadas como ditados de Alá, do Deus único que em árabe falou a Maomé, o analfabeto que as transmitiu, não por escrito, mas no seu dialeto da língua árabe, esta sendo, portanto, a língua divina por excelência. Posteriormente, é a autoridade do califa que as fixa por escrito. Aliás, talvez já Abubacar, por sugestão de Omar, que lhe sucederia, teria mandado redigir - antes, portanto da versão oficial de Osmã - a revelação de Maomé, texto que, então, viria a servir para as recitações ou qurra. Todavia, nota bem, Princesa de mim, a tentação totalitária de possuir a exclusiva revelação de Deus não envenenou apenas o islão, mas também a cristandade, como, hoje ainda, verificamos no "bible belt" dos EUA e noutras seitas de raiz cristã, ou, mais infelizmente, em agrupamentos ditos "católicos"... Também, no mundo islâmico, podemos entender diferentes achegas à interpretação, quer do Corão, quer dos hadith, quer da própria Sira, ou vida do profeta Maomé, pese embora o radicalismo intransigente de muitos imãs e ulemas.

 

   Dounia Bouzar, muçulmana francesa que a revista Time elegeu, em 2005, "herói europeu do ano", pelo seu trabalho inovador sobre o islão, respondia assim à jornalista que, em 2014, lhe perguntava se não seria necessária uma reforma teológica que impedisse os extremistas de se apoiarem em versículos do Corão, apelando à violência, para legitimarem um discurso que ignora outros trechos do Livro que defendem o respeito pelos outros: Qualquer muçulmano conhece, em teoria, a reforma de 1930, cujo objetivo era o de distinguir os passos do Corão ditos "principais" - que enunciam verdades constantes - dos "circunstanciais" - ligados ao contexto histórico da época da revelação. Ora os princípios básicos do Corão afirmam o respeito da vida humana, de toda a vida humana, inclusive a das pessoas de outras religiões ou mesmo ateus! Tal como o cristianismo conheceu episódios sangrentos - a Inquisição, o dia de S. Bartolomeu de 1572 - o islão também os teve. Mas tal não significa que a regra seja a violência. Do mesmo modo que no cristianismo, foi quando o islão se tornou religião de Estado que a violência emergiu.

 

   Acho interessante esta observação, eu próprio várias vezes te disse, Princesa, quanto receio a tentação totalitária dos monoteísmos, como de qualquer ideologia da exclusividade, tal como, em nossos dias, tantas vezes ocorre com o laicismo. Não sou, nem pretendo ser, filósofo, teólogo, historiador ou especialista seja do que for. Sou, simplesmente, um simples amador de pensar, procuro ir entendendo as coisas. Mas pensar é, também, correr o risco de me enganar. Tenho de ter a humildade de reconhecer que o erro é humano, como eu sou. Nisto de que agora te falo, penso que um problema que o islão tem com a circunstância histórica da sua revelação advém do facto desta se ter processado numa sociedade de clãs rivais e divididos, étnica, política e religiosamente, grupos que coexistiam, nem sempre pacificamente, sem um poder único que lhes fosse superior. Assim, se a pregação de Maomé se inscreve na descendência de Abraão, na linhagem do monoteísmo judaico-cristão, o ambiente em que ela se desenvolve não conta apenas com judeus e cristãos, mas maioritariamente com tribos politeístas. Além disso, o nomadismo, as caravanas comerciantes, por trilhos traçados entre oásis e poços de água, nessa terra de ninguém que é um deserto, por muitas regras e códigos de honra que se respeitem, são sempre propícios à eventualidade de afrontamentos e conflitos. Daí o pendor bélico, e a tentação do poder, na expansão original do islão. Aliás, o próprio Corão se distribui por quatro períodos de revelação, três em Meca e um em Medina, e sente-se bem, no longo decurso das sequentes discussões sobre a sucessão do Profeta, como se arrastaram fraturas e discórdias acerca da própria revelação e dos ensinamentos de Maomé. A fixação do texto do Corão, por ordem do califa Osmã, como acima te disse, é, pois, um ato eminentemente político... que se, por um lado, pretende uma versão "oficial" da mensagem transmitida pelo Profeta, por outro, não se dispõe a escamotear ditos circunstanciais, sobretudo aqueles que possam apoiar eventuais medidas coercivas.

 

   Diferentemente, cristianismo primitivo desenvolve-se principalmente em meio judeu, quer na Palestina, quer na Diáspora. No meio dum povo submetido ao império de Roma, isto é, ao poder político de um estado estrangeiro e ocupante, praticante de outra religião, que divinizava o imperador. O cristianismo torna-se, nessa época, não só na esperança do cumprimento da promessa messiânica ao povo judeu, mas num movimento de vocação universal e subversiva que, por outro lado, não tem qualquer possibilidade de pegar em armas. Aliás, até ideologicamente, o cristianismo inicial é uma variante do judaísmo que, deste, expressamente rejeita o projeto político da realização temporal do Reino de Deus: o meu Reino não é deste mundo. Ou ainda: a Deus o que é de Deus; a César o que é de César. Mas tal não significa que não tivesse havido, no próprio seio da Igreja, ou nas igrejas primitivas, divergências quanto a doutrinas e cultos, designadamente quanto à relação do cristianismo nascente ao judaísmo, quer no tocante à secessão da nova religião (lembra-te das polémicas em redor da obrigatoriedade de serem circuncidados os gentios que se convertessem à Boa Nova), quer à sua própria universalização, em oposição ou ultrapassagem da implantação próxima do reino messiânico prometido ao povo judeu. Ao São Paulo que defendia não haver, aos olhos de Deus, diferença entre judeu e gentio, escravo e homem livre, grego e romano, homem e mulher, igrejas cristãs - em Jerusalém ou na Galácia, por exemplo - insistiam na filiação prévia no povo eleito, o judeu, de qualquer pretendente a cristão. Aliás, os diferentes evangelhos atribuem ao Jesus histórico afirmações que tanto abonam um lado como outro. Serve este parêntese para ilustrar que tudo isso se passou em meio humano, cultural, tal como muitas outros debates e acontecimentos na vida da Igreja. Mas esta nasceu no Pentecostes, tem consigo e por si a fé em que o Espírito Santo vai soprando a vida do mundo...

 

   Alcorão começa por invocar o nome de Deus clemente e misericordioso. E todas as suas suras, exceto a nona, assim se iniciam. Tal é a fé de Abraão que, para as três religiões do Livro é o pai de todos os povos. Cronologicamente sendo o último dos monoteísmos vindos de Abraão, diz Ghaleb Bencheikh, doutor do Islão, franco-argelino de reconhecida autoridade, que a tradição religiosa islâmica se quer continuadora do ensinamento da Tora e propagadora da mensagem evangélica. Os seus valores assentam num alicerce ético comum ao judaísmo e ao cristianismo. Por muito tempo, aliás, a pregação maometana não falava de "islão", mas antes da imutável religião da coorte de Abraão. Em próxima carta falarei contigo sobre este tema.

 

   Sabes bem, Princesa, que sempre cuido mais de procurar o que aproxima do que o que separa, inclino-me mais para a descoberta da comunidade intrínseca da condição humana do que para a denúncia de conflitos de culturas ou civilizações. Onfray, a dado passo da sua reflexão sobre o islão, recorre às teses de Samuel Huntington. Todavia, eu penso que, para além da presença universal e indiscriminada do bem e do mal - ainda que, evidentemente, o tempo e o modo possam ser, e têm sido, mais ou menos propícios a um ou a outro - nenhuma etnia, cultura ou religião é necessariamente maligna ou benigna, nem qualquer conflito fatalmente inevitável. Não concordando com a opinião de muitos, inclusive Michel Onfray, de que há civilizações superiores a outras, prefiro uma achega antropológica e histórica, que nos ajude a compreendermo-nos nas nossas diferenças e a procurar o significado partilhado de um humanismo.

   Fica para outra carta, Princesa.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

  

LONDON LETTERS


A country that works for everyone, 2016-2020

 

Another very big week in British Politics! Entra a PM Theresa May e sai o MP David Cameron. Em 24 horas muda-se o Her Majesty Government sob o estandarte azul do Conservative Party. A RH Member of Parliament for Maidenhead ergue-se como a 76.ª residente do Number 10 e a 13.ª Prime Minister do reinado de Elizabeth II.

E é todo um admirável mundo sob a novel liderança, a qual hasteia a justiça social como o North magnetic de onde se declinarão as estratégias, as políticas e os protagonistas. — Chérie! En toute chose il faut considérer la fin. A House of Commons aprova a renovação do nuclear Trident. São £31b num orçamento militar que atualiza a combinatória no mapa geopolítico de ameaças e de capacidades.  — Humm! Do as you may, if you can't do as you could. O horror regressa a France com massacre de famílias em Nice, durante as festas do Bastille Day, nas vésperas de decisiva batalha do Élysée entre o centre-right e a far-right. Também Ankara vive sangrento ensaio de golpe de estado, com a vingança do Turkey President R Erdogan a perturbar a gestão dos refugiados e as fronteiras da NATO. Nos USA há mais polícias abatidos a tiro no exercício do dever. O candidato da law and order Mr Donald J Trump reforça a mensagem securitária, ao apresentar o Indiana Governor Mike Pence como vice na turbulenta convenção republicana em Cleveland (Ohio). Para a semana são os democratas a aclamar Mrs Hillary R Clinton em Philadelphia.

 


Bright hot, hot days at Central London and… another PM at Downing
. A honorável Press glosa a march of the meritocrats na formação do novo executivo, mas a bolsa dos talentos ressoa sequela da Night of the Long Knives. Assim: Se, em 1962, RH Harold Macmillan estremece Whitehall ao exonerar 6 ministros, 1/3 do Cabinet, como classificar agora a exoneração de 11 high-profile colleagues perpretada por Mrs May? O Daily Mail di-la "the bloodiest clear-out in modern history." É o fim, por agora, do Notting Hill set que domina a era Cameron. Sénior Tories como o Chancellor George Osborne ou o Justice Secretary Michael Gove caem das nuvens. Do frio retornam exilados heróis populares,  entre os quais os three glorious Brexiteers: RHs Boris Johnson, David Davis e Liam Fox, um triunvirato que arrisca a Brex-sitcom em eventual silly season. A Icaro Operation tem tanto de brutal eficácia quanto de profissional macieza. A Lady of The House, que hoje declara prontidão para accionar o botão nuclear em caso de ataque ao reino, poupa os white & black princes a passear face ao batalhão de jornalistas acampados no Ten. Antes opta pelo telefone, pois que tais auxiliares sempre são centrais em eficiente mudança da guarda.

 

Os recrutamentos governamentais têm por cá ilustrosa história. Dois episódios revelam quer a vera finalidade na escolha dos perfis políticos, quer ainda quão o subtil British humour enreda a linear e ascensional razão partidária. O primeiro caso refere o modo nativo como o exatíssimo confidente do talhante no 1957-63 Cabinet se salva de apuros. Remonta à constituição do Churchill Govt, quando o Leader nos Commons durante o plot das facas longas é pela primeira vez nomeado para o Tory frontbench. Chamado a Downing Street, convite formulado e aceite, RH Iain Macleod logo inquieta a esposa que o aguarda nos portões da residência oficial. “Please drive me to the nearest telephone box,” diz. O carro familiar arranca; rolam perguntas. O novo ministro oferece desconcertante visão do ofício: "I have to take over the department and I've got no idea where it is, so think I had better look up the address in the telephone book." The Great Man ouvira-o consistentemente demolir Mr Nye Bevan (Labour MP) no Parliament. O segundo é um evento recente e revelado por RH David Cameron nas suas últimas PMQs, pautadas por doce aplauso de todas as bancadas pela statesmanlike leadership (leia-se: sem a aventura euroreferendária). Conta o ex PM sobre os tempos de Leader of the Opposition quando forma inicial Shadow Cabinet: “I was trying to get him [RH Kenneth Clarke] to join my Front Bench. He was on a bird-watching holiday in Patagonia; it was almost impossible to persuade him to come back.”

A mudança da guarda tem agora outros segredos, a par de rigoroso ritual junto da Queen. Cumprido o privado juramento em Buckingham Palace, a PM recebe as chaves do Number 10. O July 13 começara com o último ato de RH David Cameron na casa que ocupa desde 2010. Nas departing words aponta escolhas políticas, celebra que “the spirit of service is one of this country’s most remarkable qualities” e assinala concludente lição da experiência. ― “For me politics has always been about public service in the national interest. It is simple to say but often hard to do. But one of the things that sustains you in this job is the sense that, yes, our politics is full of argument and debate, and it can get quite heated, but no matter how difficult the decisions are, there is a great sense of British fair play, a quiet but prevailing sense that most people wish their Prime Minister well and want them to stick at it and get the job done.” So, wishing well to you and yours lovely family, goodbye Mr Cameron.

 

A new Britain’s Prime Minister entra então em Downing St, acompanhada do marido Philip. E é a fantastic flying start desta tradicional Tory, mais movida por senso moral que por ideologia. Apenas minutos antes da transição demolidoramente suave vem ambicioso first statement sobre a missão que ali a conduz. Fala para os comuns. ― “The government I lead will be driven not by the interests of the privileged few, but by yours. We will do everything we can to give you more control over your lives. When we take the big calls, we’ll think not of the powerful, but you. When we pass new laws, we’ll listen not to the mighty but to you. When it comes to taxes, we’ll prioritise not the wealthy, but you. When it comes to opportunity, we won’t entrench the advantages of the fortunate few. We will do everything we can to help anybody, whatever your background, to go as far as your talents will take you.”

 

O reino aplaude as primeiras palavras e decisões da Prime Minister. RH Theresa May mexe com Whitehall como nunca Sir Cameron ousa. O novíssimo governo é formado em dia e meio. Consigo vem sério pessoal político, concorde-se ou não com a respetiva substância ou as ideias. A melodia de fundo agrada. Eis um executivo que, desde 1945 e RH Clement Attlee, maior número de pessoas saídas de compreensive schools possui. O sinal importa. Donde, no No. 10, a very watchful woman and a very clear cut with the past. O imprint meritocrático está dado. No mais, as prioridades da governanta: 1) Brexit; 2) reindustrialização. O todo denota a visão e a confiança da senhora! A gestão do dossiê da EU é pedra de toque. Aqui, tanto nomeia os três mosqueteiros como logo viaja até Scotland e Wales para dialogar com a líder dos contrários e seu contraparte, enquanto aquieta as mentes dentro e fora do reino. Afinal, com maior autonomia certamente, o UK não muda de posição planetária e o Channel “will not get wider!” Isto mesmo transmitirá aos líderes europeus quando esta semana rumar até Paris e Berlin.

 

 

Diverso é o retrato oferecido no outro lado do tablado político. Deveriam ser The Most Loyal Opposition of Her Majesty, mas apenas se opõem entre si e ocupam contra RH Jeremy Corbyn. O Labour Party está in a terrible place, como o demonstra a centena de MPs ao lado dos Tories no voto de ontem sobre a UK new nuclear age. A telenovela está em estádio tal, aliás, que tende para ida aos tribunais. Nos intensos últimos dias, além das costumeiras catch all marchs em London para protestar contra a austeridade, a guerra, o racismo ou outra coisa qualquer (quando o partido é internamente denunciado como homofóbico e antisemita), aparece nova candidatura à liderança trabalhista. Ao lado de Mrs Angela Eagle corre agora Mr Owen Smith, em nome da confiança, mas dividindo a frente anti Corbynista, enfraquecendo a esquerda e dando a free run aos refrescados Conservatives.

 

Ora, o sistema de Westminster assenta no dual governo parlamentar: requer tanto a functioning government como a functioning opposition. No momento falta-lhe a segunda parte na equação. Por isso, e antes até que os dois Labs se materializem em novo partido como acontece nos 70s, deve Comrade Jez Corbyn resignar de vez e alguém capaz ali desempenhar o papel de Leader of the Opposition. É um mínimo, quando o eleitoral trabalhista desespera, o Ukip irrompe pela rua operária e a agenda redefine o posicionamento do UK no mundo após a European Union. — Well! Be aware of how Master Will plays with the traps of the ambition in Twelfth Night: Be not afraid of greatness; some are born great, some achieve greatness, and some have greatness thrust upon 'em.

St James, 19th July 

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

A VIDA DOS LIVROS, por Guilherme d'Oliveira Martins 

De 18 a 24 de julho de 2016.

«Apenas uma Narrativa» (1942) de António Pedro (1909-1966) é um marco na cultura portuguesa, deixado por alguém que foi pioneiro nos caminhos surrealistas entre nós e que foi uma personalidade de influência decisiva na afirmação do teatro moderno.

 
PERSONALIDADE DE MÚLTIPLAS VOCAÇÕES
António Pedro, cujo cinquentenário da morte agora passa, foi uma personalidade de múltiplas vocações. Para a minha geração foi um homem de teatro e um interrogador de caminhos de vanguarda inéditos e precursores. Um dia disse sobre o seu código genético: «Esta metade galaico-minhota e irlando-galesa do meu sangue fez-me gostar de gaitas de foles, de instrumentos de percussão e da conquista do impossível. Como meus tetravós celtas, se eu pudesse, atiraria setas ao sol. Minha família, no entanto, é de gente burguesa e bem pensante». Isto significa que António Pedro se sentia muito português, ligado a esse misterioso fundo céltico, que é sinal distintivo do Portugal matricial. Aliás, falando de raízes, temos de referir a sua ligação a Moledo e um amor especial ao Norte: «Este Moledo do meu encanto, onde tinha uma casa e onde, desde a infância, vinha passar, sempre que podia, alguns meses por ano (…) De Moledo descobri o Porto. Foi uma grande descoberta. O Porto é uma cidade de província, mas de uma província que pertence à Europa»… E, se é certo que essas raízes eram muito marcadas, a verdade é que a ligação cabo-verdiana torna-o uma personalidade ligada ainda à viagem e à descoberta. Não por acaso, os estudiosos da sua vida e da sua personalidade falam do seu pendor experimentalista e da tendência para testar permanentemente a força da imaginação. «Ser é mudar. Mudar, como morrer, uma perpétua sequência de metamorfoses»… A ideia de vanguardas pensantes entusiasmava-o. Vemo-lo começar com os nacional-sindicalistas na «Ação Nacional», com Rolão Preto, mas, pelo inconformismo, depressa está em choque com o Estado Novo, partindo para Paris (1934-35), onde vai ao encontro do mais moderno e experimental se faz na Europa. Realiza na escultura ou na instalação o curioso «Aparelho Físico de Meditação», associa-se aos dimensionalistas, publica poemas visuais (15 Poèmes au Hasard) e em 1935, já em Lisboa, organiza na Galeria UP a primeira exposição de Maria Helena Vieira da Silva. Do dimensionalismo dirá: «a poesia precisa casa vez menos de palavras. A pintura precisa cada vez mais de poesia».


PULSÃO FUTURISTA
Personalidade fervilhante, sente em si uma pulsão futurista. Graças a si, começa a falar-se em Portugal do surrealismo. No fundo, António Pedro deseja que o espírito de rutura de «Orpheu» se renove em termos diferentes. Daí a proximidade e a distância relativamente a Fernando Pessoa… Em 1940 na Casa Repe (Lisboa) organiza uma Exposição Surrealista com António Dacosta e Pamela Boden. No início dos anos quarenta, visita o Brasil, onde tem contacto com os meios da criação artística. Em 1942 publica «Apenas uma Narrativa» - de que Jorge de Sena dirá ser «uma bela e prática novela que permanece uma das melhores obras surrealistas em qualquer língua». E, olhando o criador e o artista como um todo, ainda Jorge de Sena afirma: «António Pedro trouxe a visão de um pintor imaginativo para quem a intensidade da expressão iguala a pura compreensão das formas». De facto, não podemos apreciar a força criadora deste autor, sem ligarmos a poesia, a literatura, o teatro e as artes plásticas. Por isso, o teatro experimental foi para ele fundamental, uma vez que é a arte onde tudo se liga: texto, diálogos, expressão corporal, apresentação plástica, cenários, marcações… Assim, e naturalmente, começa a interessar-se pelo teatro, pelo público, pela capacidade de encenar e de representar, de ser autor e actor. Torna-se jornalista no início de 40, funda a revista «Variante» e é chefe de redação do «Diário Popular». Parte para Londres, onde trabalha para a BBC e relaciona-se com o surrealismo britânico. Defende nas suas crónicas radiofónicas de Segunda-feira a democracia inglesa e a causa dos Aliados – o que o torna suspeito aos olhos de Salazar e do regime. Adolfo Casais Monteiro dedica-lhe o poema «Europa», ilustrado por António Dacosta, referência fundamental na defesa de uma paz europeia assente na liberdade e na democracia. Em 1945, quando regressa a Lisboa tem dissabores com a polícia política. Em 1947, é um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, com Alexandre O’Neill, Dacosta, Fernando Azevedo, João Moniz Pereira, José-Augusto Franças e Vespeira, do qual se tornarão dissidentes: Mário Cesariny, Pedro Oom, António Maria Lisboa e Henrique Risques Pereira. «O que deles (dos surrealistas) me aproxima é o sonho, os dados irracionais como ponto de partida, e o encanto sobre todas as coisas de uma imaginação barroquisante, delirante se for preciso e possível, a única faculdade do espírito que, com certeza, só o homem possui à face da terra». Mais do que uma escola o que importava a António Pedro era uma atitude!

 

A PAIXÃO PELO TEATRO
E o teatro torna-se a sua verdadeira paixão. Se desilusões várias o levam a retirar-se para Moledo, onde se dedica à cerâmica, o certo é que o vírus teatral e dramático torna-se decisivo, levando-o à direção do Círculo de Cultura Teatral – Teatro Experimental do Porto (TEP), sob proposta de Alexandre Babo e Eugénio de Andrade. Durante oito anos estará à frente do TEP, numa experiência inolvidável. Ninguém pode deixar de reconhecer o extraordinário encenador, o pedagogo de exceção e o homem dos sete ofícios da cena teatral. Era um homem de teatro verdadeiramente completo. A encenação de «A Morte de um Caixeiro Viajante» de Miller é ainda hoje lembrada como um grande momento da história do teatro português. Na RTP, são célebres as suas charlas sobre teatro, numa linguagem acessível e nova, sem tiques eruditos. Como se se tratasse de temas fáceis e acessíveis, António Pedro falava da modernidade em termos tais que levavam naturalmente os mais jovens a entusiasmarem-se pela força emancipadora do teatro. São momentos únicos de televisão que marcaram pela paixão do teatro as novas gerações. Sendo sempre fiel a si mesmo e à sua independência de espírito, António Pedro singularizava-se pela inteligência fina e acutilante. Tendo querido levar à cena no TEP «A Casa de Bernarda Alba» de Lorca não conseguiu fazer demover a interdição da censura, só levantada mais tarde, com restrições, em especial pela proibição do cartaz da autoria de José Rodrigues. Adolfo Casais Monteiro disse de António Pedro o que não podemos esquecer: «foi na hora própria a voz de todos os portugueses que não esqueceram a sua condição de europeus e cidadãos do mundo».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

   

 

 

      Minha Princesa de mim:

 

   Posso concordar ou discordar de afirmações de Michel Onfray, filósofo francês, ateu confesso, homem de esquerda ("esquerda" sendo, para mim, tal como "direita" um conceito plurívoco, quiçá equívoco, mas ele declara-se nietzscheano de esquerda e pós anarquista), ou, ainda, admitir que, pela insistência com que vai, parece-me, em jeito de maré, reiterando as suas teses, por vezes me cansa um pouco, mas reconheço a deontologia com que vai cumprindo o seu ofício de pensador. Para ele, ser filósofo é procurar refletir sobre a realidade no tempo longo, diferentemente do jornalista que dá notícias a curto prazo. Creio que já te falei do Michel Onfray, não por ser seu leitor assíduo, mas por me terem estimulado a reflexão alguns dos seus escritos e declarações sobre a questão do islamismo. São passos pensados, trabalhados, mesmo se partindo de pontos de vista que eu nem sempre partilho, ou chegando a conclusões um tanto ou quanto divergentes das minhas próprias. Adiante te dou alguns exemplos desse meu secreto diálogo com o filósofo francês, sobretudo em volta do seu Penser l´Islam, que a Grasset editou em Março de 2016.

 

   Respondendo a interpelações da jornalista argelina Asma Kouar sobre vários aspetos da questão islão/guerra/terrorismo, afirma, quando ela lhe pergunta se não será injusto visar os muçulmanos, acusando o islão de ser globalmente responsável pelo terrorismo atual: Há pelo menos duas maneiras de ser muçulmano, conforme as suras sobre as quais cada um constrói o seu islão: ou as que afirmam «Exterminai os incréus até ao último» (Corão VIII, 7) e, ainda, «Matai qualquer judeu que apanheis» (Sira,II, 58-60), «Matai os politeístas seja onde for» (Sira XVII,58); ou, pelo contrário, as que dizem «Não haja coação em matéria de religião» (Corão II, 256) ou, ainda, «Aquele que salvar um só homem é considerado como se tivesse salvo todos os homens» (Corão V, 32) - e digamos, a talho de fouce, que esse mesmo convite, nos mesmos termos, se encontra também entre os judeus (Micha Sanhedrin, 4:5). Os segundos podem afirmar que o islão é uma religião de paz, de tolerância e de amor, mas em detrimento das suras invocadas pelos primeiros, que tornam possível um islão de guerra, de intolerância e de ódio. O mesmo se passa com o cristianismo, que permite - se nos reclamarmos do Jesus que oferece a outra face, perdoa os pecados, responde ao ódio com amor, convida ao amor do próximo e ao perdão dos pecados - um cristianismo pacífico, tolerante (o de Montaigne); ou que permite o contrário, se se reclamar, nos próprios Evangelhos, do Jesus que expulsa a chicote os mercadores do Templo (o passo dos Evangelhos que Hitler preferia), ou que diz: «Não vim trazer a paz, mas a espada» (Mateus X, 34-36), uma espada que se tornará no símbolo de São Paulo, com o qual o cristianismo oficial construiu a sua ideologia, mais do que com o Jesus da paz, da tolerância e do amor, esse que nunca teria tornado possíveis as cruzadas, a Inquisição, o Index, a colonização e o genocídio dos povos da América.

 

   Em cartas várias te tenho dito como sempre me parece mais positivo insistir na versão pacífica do islão, do que apontar-lhe um carácter necessariamente bélico... E em muitas conversas e escritos outros vou apresentando exemplos de tolerância e convivência de muçulmanos com gentes e culturas diferentes. Nunca me parece demais insistir na lembrança dos construtores de paz. Tal como não posso negar nem devo escamotear episódios da história da cristandade que, infelizmente, revelam sobranceria, intolerância, antagonismo e inimizade. Ainda hoje deparamos com muitos cristãos, sobretudo clérigos, que se dedicam mais a denunciar e ser contra do que a anunciar a alegria da boa nova da misericórdia de Deus. Felizmente, sempre foram e vão surgindo reações evangélicas, como, em séculos passados, as de Bartolomeu de las Casas e outros dominicanos, na América Central, e dos missionários jesuítas, na do Sul, à exploração e ao abuso colonialista dos índios americanos. E, hoje em dia, as de um Papa Francisco! A tal história dual da Igreja, de que já te falei. Também a personagem de São Paulo terá muito que se lhe diga, como ele mesmo muito teve para dizer. Mas a espada com que a iconografia cristã o distingue, nem sequer é a que, antes de se converter, usou contra os seguidores de Cristo: é, sim - como tão bem se vê na Decapitação de São Paulo, do Petrini, pintura de 1710 exposta em San Giulio, Altavilla Monferrato - aquela que lhe cortou a cabeça, fora das muralhas de Roma, como a lei romana determinava que fossem executados os seus cidadãos. Aliás, se bem me lembro, Princesa, Santo Ireneu diz algures, no seu Adversus Haereses, que o evangelho de São Lucas - também conhecido, precisamente, por evangelho da misericórdia - é aquele que S. Paulo pregava. Na verdade, Lucas, pagão convertido ao judaísmo e, depois, ao cristianismo, era discípulo de Paulo, que acompanhou em muitas viagens. Tenho, recentemente, tido conhecimento da tese, entre alguns historiadores e exegetas do Novo Testamento, de que os evangelhos sinópticos terão sido todos, primeiro, redigidos antes do ano 70 (data da destruição do templo de Jerusalém por ordem do imperador Tito), quiçá em aramaico e hebraico, registando assim as tradições orais correntes nas várias comunidades cristãs. Muito embora os originais tenham desaparecido, terão deixado rasto em aramaicismos e hebraísmos reconhecíveis na versão grega, aquela que a Igreja reteve. Se o de Lucas transmite a pregação ou tradição paulina, o de Marcos traz a de São Pedro. O de Mateus, abraçando essas correntes e outras, será aquele que mais proximamente regista as palavras do próprio Jesus em terras da Galileia e da Judeia, sendo Levi (Mateus), o seu autor, a julgar pela sua profissão, homem necessariamente letrado, tal como Lucas era médico, e Marcos, de acordo com outros estudiosos, o autor do evangelho mais antigo, escrito a pedido dos cristãos de Roma, pessoa culta. O evangelho de São João é mais obra de autor, e mesmo já uma construção teológica, além de quiçá ser o historicamente mais rigoroso, sobretudo no relato da fase final da vida de Jesus, e do seu ministério público. Mas todas estas hipóteses continuam sendo discutidas por especialistas e investigadores: o professor Geza Vermes, da universidade de Oxford, por exemplo, judeu húngaro regressado ao judaísmo depois de se ter convertido ao catolicismo e ser ordenado padre (creio que jesuíta), sendo considerado um dos mais sagazes investigadores do Jesus histórico, afirma a veracidade da crucifixão do Nazareno (consulta os seus The Authentic Gospel of Jesus The Passion, ambos na Penguin, um em 2003, o segundo em 2005) atestada não só pelos escritos neotestamentários, mas ainda pelos historiadores romanos coevos Josephus e Tácito, bem como, indiretamente, pelo Talmud judeu. No primeiro dos seus livros que te indiquei, Vermes procura determinar, entre vários ditos atribuídos a Jesus, aqueles que Ele terá realmente proferido, concluindo que, mesmo assim, surgem, consoante qual dos evangelhos, e em que trecho, discrepâncias e aparentes contradições. Mas nada suficiente para desvirtuar a mensagem fundamental de amor, de misericórdia e paz, a tal que, no decurso da História, muitas vezes a "Igreja oficial", a cristandade, ou cada um e qualquer de nós, tem esquecido ou afastado. Também não creio que a datação certíssima dos textos evangélicos originais, nas suas presumíveis línguas, ainda que disciplina importante, seja essencial ao seu entendimento. Lembra-te de que há "casos piores". O primeiro aspeto insólito é o facto de os primeiros poemas da literatura europeia terem sido compostos numa língua que nunca ninguém falou. O grego da Ilíada e da Odisseia é uma língua artificial, que mistura elementos de dialetos diferentes: jónico, eólico, árcado-cíprico, ático, etc. (Frederico Lourenço, no Grécia Revisitada, Lisboa, Cotovia, 2004). Como também seis séculos separam Virgílio dos seus primeiros manuscritos conhecidos, treze Platão, dezasseis Eurípides. Apenas retenho para aqui que exegetas cristãos, e não cristãos, não se cansam de procurar entender o que o Jesus histórico terá mesmo dito e pretendido transmitir. Mas tanto não obsta a que a tradição cristã fundamental - afinal sempre revisitada e recorrente - incessantemente nos recorda o mandamento do amor, e que a fixação dos textos canónicos, por oposição aos apócrifos, se foi fazendo durante três séculos (do II ao IV), pelo labor de sínodos e concílios, respeitando três critérios sine qua non: datarem da geração apostólica, enunciarem verdades ortodoxas sobre Jesus Cristo, serem reconhecidos pela maioria das comunidades eclesiais. Se atentares bem nestes critérios, Princesa de mim, verificarás que, antes de se revestir dum autoritarismo central e hierárquico - ainda hoje invocado por muitos, mas sempre igualmente contestado - a tradição católica se enraizou na vinda e na vida humana de Jesus, e na reunião da Igreja, por obra e graça do Espírito Santo. É a Tradição do Pentecostes no Povo de Deus. Por muito que contrarie ou exaspere os chamados "fundamentalistas", defensores de uma interpretação literal dos textos bíblicos - o que, aliás, fatalmente os empurra para perplexidades, consequentes afrontamentos emotivos e múltiplos sectarismos - a Igreja sempre acreditou que a revelação se descobre nos textos, sim, mas ainda na tradição que os vai lendo e interpretando. Assim também se explica a diversidade de correntes e a atualidade de debates no seio da própria Igreja, bem como, em contracorrente, a propensão do clericalismo conservador para o autoritarismo.

 

   Penso, Princesa de mim, que se atentarmos, sem preconceito nem hipocrisia, para a tradição islâmica, descobrindo que, nela também, há correntes inspiradas pelo espírito da misericórdia e da paz, encontraremos o muito de essencial que temos em comum com os fiéis muçulmanos. E veremos ainda como a graça ou propósito de distinguir entre a mensagem de Deus e o poder temporal, político, e entre a letra e o Espírito (com propósito uso aqui um E maiúsculo) tem sido (como, apesar dos desvios e abusos do autoritarismo clerical ou político, foi mais livremente acontecendo na cristandade) fator fulcral de uma dialética de debate e concórdia, de progresso e atualização.

 

   Mas fica mais disto para próxima carta.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

 

 

Acerca da arquitetura de Tadao Ando (Parte I)

A importância do vazio.

 

'A living space should be a sanctuary.'
Tadao Ando

 

A arquitetura de Tadao Ando (1941) é uma experiência física que enfatiza o nada e o vazio. Ando anuncia simplicidade e leveza, embora através de uma arquitetura de betão, pesada, de contornos rígidos e geometrias claras e por vezes complexas. Tadao Ando deseja afirmar na sua arquitetura a importância da negação do eu perante a circunstância. Ao esvaziar-se, o homem de si mesmo pode devolver autenticidade a si próprio e assim unificar-se com tudo e com todos que o rodeiam.

 

Ando anseia assim que o homem se renuncie a si próprio e se entregue na totalidade ao espírito e à natureza sentida sempre de forma direta (grandes envidraçados abrem-se ao exterior). Os espaços organizam-se através da sensação que conduz o homem pelas entradas de luz e pelo silêncio. A arquitetura de Ando deseja dar espaço à reflexão acerca do sentido da vida. 

 

'Dwelling in a house is not only a functional issue, but also a spiritual one. The house is the locus of mind, and the mind is the locus of God. Dwelling in a house is a search for the mind as the locus of God, just as one goes to church to search for God. An important role of the church is to enhance this sense of the spiritual. In a spiritual place, people find peace in their mind.', Tadao Ando

 

Além de Ando materializar a arquitetura do espírito, o arquiteto declara uma associação franca entre a natureza e o o objeto construído. O objeto existe para o homem experienciar a profundidade e a beleza da natureza. Tadao Ando acredita deste modo que a arquitetura é responsável por evidenciar o carácter do sítio e torná-lo visível (é assim materialização viva da identidade do lugar). Esta atitude torna claro qual a relação que Ando tem com a sociedade em que se insere - simplicidade, humildade e despojamento. 

 

Os seus projetos são em betão e caracterizam-se por serem volumes rígidos e austeros de superfícies planas e aberturas estratégicas para permitirem a entrada cuidada da luz natural. Porém retomam igualmente o vocabulário da arquitetura tradicional japonesa —o intercalar vincado do cheio e do vazio, do aberto e do fechado e do grande contraste entre o escuro e o claro.

 

'The real importance of architecture is its ability to move people’s hearts deeply. Architecture is the reconciliation or synthesis of opposing concepts; it arises from the subtle interstices of conflicting ideias. In other words, it is the sublimation of polar opposites - inside and outside, east and west, part and whole, history and the present, art and reality, past and future, abstract and concrete, simple and complex - into a single expression of personal will.’, Tadao Ando

 

No livro 'Tadao Ando. Conversations with Students' lê-se que o filósofo Tetsurō Watsuji - ao afirmar a importância do espaço físico que nos rodeia porque molda a maneira de ser do homem desde o momento em que nasce - fascinou Ando, especialmente através do livro Fūdo, Climate and Culture (, vento e Do, terra). Clima para Watsuji, são as características físicas do lugar em que o homem vive, mas também os seus padrões climáticos e todo o ambiente social como a família, a comunidade, a sociedade e o modo de vida e até todo o suporte tecnológico disponível. Há assim, segundo Watsuji, uma influência mútua entre o homem e o ambiente físico que o rodeia. Clima é assim toda uma rede concreta de influências que em conjunto criam/moldam/determinam os valores e as atitudes do homem.

 

Cultura é a influência do passado sobre a cultura do presente. O que o homem é - não é só determinado por vontade do pensamento ou por uma decisão individual e solitária - afirma-se sim como resultado de todo o espaço climático que o acompanha desde o nascimento, durante a vida e até à morte.

 

As viagens são, para Tadao Ando, a mais importante forma de aprendizagem, porque segundo Ando para entender a arquitetura de verdade é preciso experienciá-la no local através dos cinco sentidos: 'however, travel is not only accomplished through physical migration. Recollection or even daydreaming can also be a means of travel. Travel is a dialogue with yourself that takes you away from the inertia of daily life (...) On climbing to the top of the Empire State Building and gaining a full view of the city, I was struck by the diversity of human endeavor that was represented before me. '

 

Ana Ruepp 

  

UM ESTRANHO ENIGMA - capítulo III

 

Um Estranho Enigma - Capítulo III

 

 

Jaime ignorava que ainda tinha aqueles olhos pregados nas costas da sua camisola de alças (na qual estava escrito Light My Fire sob o rosto eternamente jovem de Jim Morrison) quando dobrou a esquina e, com uma ligeira pressão do pé esquerdo, elevou o patim no ar antes de o encaixar debaixo do braço. A rua tinha demasiadas portas escancaradas, pelo que caminhar com naturalidade chamaria menos a atenção do que as suas gloriosas piruetas. Não lhe ocorreu – mas porque lhe ocorreria? – que também facilitava a vida a quem o quisesse seguir.

 

Mirando as roupas que pingavam dos estendais, sobretudo um gigantesco soutien vermelho, pensou então na fúria da Mamã Rosa quando soubesse que ele perdera a chave mais uma vez – era a terceira em menos de um ano –, maior ainda se um polícia lhe batesse à porta a meio do jantar com essa mesma chave na palma da mão... Antecipar os berros da negra gordíssima que lhe alugava o quarto fê-lo pensar que o melhor era desaparecer simplesmente do Bairro por uns tempos. Em não havendo novidade, regressaria ao fim de uma semana com uma mentira bem ensaiada sobre ter ido conhecer o benjamim da família – não lhe nascia um irmão quase todos os anos? –, a Mamã Rosa nem se daria ao trabalho de confirmar; e se, por azar, viesse a saber que a Polícia andara à sua procura, pelo menos já lhe levaria algum avanço. Por outro lado, pareceu-lhe que fugir adensaria uma culpa que, afinal, não lhe pertencia: a mulata já estava morta quando a encontrara, e o fogo... bem, o fogo era uma ninharia ao pé de um crime de sangue.

 

Quando chegou ao largo e se curvou sobre o chafariz – o medo secara-lhe terrivelmente a boca –, já decidira que o mais sensato era fazer como nos filmes e arranjar um álibi incontestável. Desviou-se para deixar beber uma mulher extremamente alta que ali estava à espera, limpou a boca às costas da mão e dirigiu-se então a toda a brida para o bar do Bill, onde havia sempre gente conhecida e, na melhor das hipóteses, algum mano a curtir uma ganza nas traseiras que, até por isso, não ia saber dizer a que horas ele aparecera ou quanto tempo por lá se demorara, se mais tarde calhasse ser interrogado pela Polícia.

 

– O pessoal está por aí? – perguntou, ainda à porta, ao proprietário da chafarica.

 

– O Xavier não vi. Da tua turma, só o Nelson, mas vai com pés de lã, ele está a dar uma cantada numa das gémeas.

 

– Que gémeas? – Jaime nunca vira nenhumas por ali.

 

– Bem, param cá pouco e raramente vêm juntas. Se calhar, nem conheces.

 

– E valem alguma coisa?

 

– São até meio feias, mas sorriem muito e têm coxa grossa. E já sabes como o mano Nelson se amarra em fartura.

 

Jaime sentiu um leve intumescimento dentro das calças e, antes que Bill reparasse, entrou e foi andando, bem menos discretamente do que ele aconselhara, mas o seu principal objectivo era ser visto e notado, pelo que, ao alcançar a mesa do engate, deixou cair o skate com grande estrondo. Nelson e a mulata olharam para ele estupefactos e, tal como Jaime desejava, foi-lhes impossível não dar pela sua presença: os seus olhos tinham de repente o dobro do tamanho e a boca abrira-se-lhe até ao impensável – e tudo porque a dona da coxa grossa era a réplica viva da sua morta.

 

 

UM ESTRANHO ENIGMA | Folhetim de Verão CNC 2016
Ilustração © Nuno Saraiva [Direitos reservados]

 

 

 

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