Quinta-feira, 17.04.14

 

Os Memoráveis

 

É um facto que um sentido de responsabilidade democrática ainda não substituiu o da responsabilização autoritária que, à toa, ainda existe por todo o lado, num processo de malícia situada e lentamente abafadora de memórias e de futuros e de passados por honrar.

A minha querida Amiga Lídia Jorge tem boa razão quando neste seu romance Os Memoráveis:

Sem nada ter feito para isso, sem querer nem desejar, encontrava-me em face a um tempo longínquo, recebia mensagens de um país distante de que havia prescindido a ponto de, ultimamente, chegar a duvidar da existência real do seu presente, quanto mais do seu passado.

E Lídia!

contorce-se o tempo num país-lagarta, num país que muitos desejam que comece e acabe por citações. Mas não será assim. Foi nas mãos da Lídia, que entreguei o verde caderno para António Gamoneda. Embainhei palavras que não podiam esperar e de modo a que não perdessem forças, levou-as a Lídia ao destinatário, olhando em redor e procurando-o para lá do horizonte, deitando mão do seu veio de luz. Mulher- tempo.

Quando voltámos a conversar, eu já tinha o livro da Lídia que acima cito. Já tinha o testamento do poeta magrebino

Silêncio é morte

e tu, se te calas

morres, e nós também

e se falas

morres, e nós também

então diz e morre.

(e acrescentado à mão de um)

E nós também.

Lídia:

Temos, às vezes tido músculos de bronze maleável, que muito têm sabido refulgir sob a luz rasante do interpretar. Tanto falamos acerca…e sem dúvidas de identificar o que nos espera ou aguardou, até a música que não ouvimos e a que em nós cresceu, e até o jogo que nos fez e faz mergulhar os dedos nos cabelos, plantas enfeitiçadas pelos céus púrpuras de alegrias e choros e raivas e espaços de amor que cada uma, em ângulos de caminhos diferentes, aceitou percorrer pelas ilhas perdidas, no centro dos mundos que habitávamos e habitamos.

E do muito eis que também nada

Como um dia que havia começado com um filme de felicidade.

Nada como ser-se filho de uma revolução para se ficar acompanhado para sempre por uma multidão entre a alegria e a fúria.

Nada como nem fome, nem sede, nem cansaço, une tanto, o banho do valor requintado de alma fresca, que nos habita quando também se liberta a voz.

Lídia, assim também e por aqui, o livro Os Memoráveis deve e pode ser lido. Nele o acordar de um torpor estranho que se entranhou nas gentes, a proposta de se reajustar o espírito aos limites do tolerável e do intolerável, pois que, a escuridão se adensa, e o veleiro, curvado, já nos não dá a protecção total da sua silhueta.

Os homens metediços e ressentidos que a Lídia refere neste livro serem gentes que abalam cedo deste mundo, deles adverte, que uma boa parte do solo arável se alimenta de ossos tenros, ora,

os do rapaz dos tanques, autor daquelas conversações prolongadas no Largo do Carmo, parecem terem sido requerimento adiado sine die.

Parece-me Lídia, parece-me mesmo que o prau se fundeou lá onde regressados sem dano das visitas às memórias, não viremos nunca.

A inquietude deste livro é notável. É exposta por mulher que espreita e espia o parto que um dia viu e o confronta com a ideia do que outros querem fazer crer que dele se creia, e, mirando-se esta mulher de dentro e de fora ao mesmo tempo, permite-se que a cerquem até onde, liberta pela fortíssima tensão, faça do tempo que se passou uma íris das manhãs, e que no tempo de hoje escrevam sempre as suas mãos nestes confins torrenciais, como quem afirmará sem receios: eu estou na História, não nos limbos: afirmará a Escritora. A vida compele-me num correr de nunca submetida.

E nesta conversa-chave propõe-nos a Lídia Jorge

(…) deixando-nos (…) vinte, trinta, quarenta, cem anos, ou o tempo que ainda venha a ser necessário, para decifrarmos o que verdadeiramente se passou(…) é um tipo de ousadia que a história está sempre a engendrar.

É uma difícil verdade-alívio, remédio para uma angústia à deriva, mas que nos revela também quem somos no fim do périplo, se nos quisermos pôr à prova.

Assim te li, querida Amiga e sentida Escritora.

 

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Março 2014



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Quarta-feira, 16.04.14

Fazemos hoje uma referência final à atuação do Grupo Fernando Pessoa (GPF) no Brasil. Mas atenção – final nesta abordagem, pois poderemos sempre voltar ao assunto, quanto mais não seja na perspetiva de iniciativas teatrais e dramatúrgicas luso-brasileiras.

Em crónicas anteriores, ficaram bem patentes três ideias-base: o carater percursor da tournées do GPF, o seu alto nível cénico-dramatúrgico – textos de Pessoa representados por tão excelentes artistas portugueses – e a repercussão e a qualidade do público, bem representado pelo conjunto de escritores brasileiros que se fizeram fotografar com o Grupo e, tal como os artistas portugueses, evocados um a um nesta série de crónicas.

Iremos então agora, como nota final destas evocações, referir a existência de apreciações que alguns grandes nomes da literatura brasileira, ou residentes no Brasil, fizeram ao espetáculo e aos intérpretes, num livro de autógrafos conservado por Glória de Matos: Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Paschoal Carlos Magno, Carlos Drumond de Andrade, João Gilberto, Tomaz Ribeiro Colaço e Madalena Rey Colaço, entre outros, assinalam e elogiam o espetáculo do GFP.

Como amplamente temos lembrado, os espetáculos do Grupo Fernando Pessoa no Brasil tinham como texto principal, precisamente a “Mensagem”, publicada no primeiro número do Orpheu. Nesse sentido é oportuno referir também que na origem do Orpheu surge o escritor modernista brasileiro Ronald de Carvalho (1893-1935), diplomata de carreira, criador e estudioso da literatura e um dos nomes referenciais e referenciados da Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922), movimento renovador da arte e da cultura no Brasil.

Ronald de Carvalho, hoje bem pouco lembrado entre nós, estabelece assim uma ligação entre o início do modernismo português, via Orpheu e o início do modernismo brasileiro: e isto, não obstante as reservas que em obras diversas, formulou relativamente à literatura portuguesa.   

Ora, retomando as evocações que, nesta série de artigos temos escrito sobre Almada Negreiros e sobre Fernando Amado, é interessante então fazer mais algumas breves referencias:

Em 1935, escreveu Almada, especificamente sobre Ronald: «Na formação do Orpheu, os primeiros nomes que aparecem são os do poeta português Luiz de Montalvor e o do escritor brasileiro Ronald de Carvalho. Ronald de Carvalho, há bem pouco tempo falecido no Brasil, vítima de um desastre de automóvel, era, além de escritor, diplomata e secretário da Presidência da República, tendo sido recentemente eleito “Príncipe das Letras Brasileiras”»...

E é curiosa a referência ao Rio de Janeiro feita em 1944 por Fernando Amado: “Desembarquei há mais de quatro meses na cidade maravilhosa e, embora cheio de projetos, não consegui ser mais do que um vulgar turista, passeando, admirando, tentando perceber o que em volta de mim sucede, o que pode e quer e o que há-de vir a representar, num futuro próximo, o imenso Brasil”.

 

DUARTE IVO CRUZ



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Segunda-feira, 14.04.14


de 14 a 20 de abril 2014

 

Jacques Le Goff (1924-2014) foi um dos historiadores europeus contemporâneos com maior influência no final do século XX. «La Naissance du Purgatoire» (Gallimard, 1981) é já um clássico, onde se analisa a génese da sociedade moderna à luz da mudança de mentalidades.

 


Foto: La Croix

 

PERÍODO ESSENCIAL
«Descobri que a Idade Média (disse o historiador) foi um período essencial para a formação da nossa sociedade e da nossa cultura, talvez mesmo a mais importante. Foi, com efeito, na Idade Média que se pôs em prática o elemento fundamental da nossa identidade coletiva que é o cristianismo. Foi na Idade Média que vimos aparecer o Estado e a Ideia de soberania». Então nasceram as línguas atuais, apareceram as cidades modernas e o poder tornou-se urbano, além do surgimento das Universidades e da própria ideia de Europa. «Atrás da razão, a Idade Média soube ver a paixão do justo, atrás da ciência, a sede da verdade, atrás da crítica, a procura do melhor». O historiador considerava, assim, a Idade Média como a matriz da nossa cultura, não podendo, no entanto, esquecer-se a parte sombria desse tempo (durante o qual o historiador não teria gostado viver). Ao lermos a sua vasta obra, desde a análise da intelectualidade medieval até às biografias de S. Luís de França e de S. Francisco de Assis, compreendemos que tenha procurado escrever sobre a «história global» em «La Naissance du Purgatoire», onde analisa, com rigor e vitalidade, a emergência de novas estruturas mentais, sociais e económicas. As cidades favoreceram a autonomia individual e o surgimento de uma nova classe intermédia, a burguesia, a qual vai dar importância crescente ao capital, em lugar do patrimonialismo agrário… A partir de finais do século XII verifica-se no cristianismo a exigência de superação do dualismo recompensa / castigo, paraíso / inferno. A designação para o paraíso ou para o inferno dependia dos pecados cometidos por cada um, na terra, lugar de penitências e provações, para a humanidade atingida pelo pecado original. O Deus dos cristãos é bom e justo, cheio de misericórdia, mas dotado de severidade, decorrente do facto de as pessoas disporem de livre arbítrio, que permite a punição quando a pessoa se deixa abandonar ao génio do mal. O juízo final ditaria, assim, uma sentença definitiva, positiva ou negativa. Se é certo que, desde os primeiros séculos do cristianismo, os fiéis alimentavam a esperança de que a sorte dos mortos pudesse ser melhorada, através de orações, oferendas e sufrágios, a verdade é que só tardiamente é descoberto um lugar que permitirá reconsiderar das penas do inferno. De qualquer modo, há já quem entenda, desde muito cedo, haver dois infernos: um inferior e outro superior. Este último, era para os condenados com acusações mais leves. Do ano mil ao século XIII, os padres da Igreja julgaram como insuportável a simples oposição entre o paraíso e o inferno. Daí a formulação de uma terceira realidade, o Purgatório, onde os mortos pudessem ser «purgados» dos pecados graves. Trata-se, para J. Le Goff, da «interiorização do sistema religioso, que, da intenção à contrição, reclama do pecador mais uma conversão interina do que ações exteriores». Em vez de opor bons e maus, segundo a tese agostiniana – considera aqueles que ficariam durante um certo tempo, num lugar onde suportariam penas comparáveis às do inferno, igualmente infringidas por demónios. Assim, há uma associação das faltas cometidas por cada um, em ligação com o afeto dos próximos, cujo papel é tentar abreviar a permanência no Purgatório, através das suas orações, das suas oferendas e da sua interferência: numa palavra, funciona a solidariedade entre vivos e mortos. Como salientam Philippe Ariès e Pierre Chaunu, há um suplemento de biografia purificador – o purgatório tem apenas uma saída: o paraíso. E o morto poderá finalmente ser salvo no Juízo Final.

 

TRABALHAR COM DIVERSOS EXEMPLOS
A investigação de Jacques Le Goff é de extraordinária importância e atualidade. Com a figura do Purgatório, o morto tem uma nova oportunidade, que lhe permitirá ser finalmente salvo no Juízo Final. A investigação de Jacques Le Goff, a sua visão de conjunto, é do maior significado, baseando-se na leitura e análise de documentação vária dos séculos XII e XIII, designadamente o «Dialogus Miraculorum» do monge cisterciense Cesário Heisterbach (1220), no qual se estudam «exempla» de mortos no inferno, no purgatório e no paraíso. O tema da usura é paradigmático e tem importância relevante. O usurário se quiser evitar a condenação deverá repor ou restituir o dinheiro mal adquirido e confessar a sua falta. O sistema tradicional de resgate de que o usurário dispunha durante a vida e na morte compreendia confissão, contrição, ou arrependimento e satisfação ou penitência. Como se compreende é a contrição que ganha uma importância crescente neste período em que também as conceções económicas sofrem alterações significativas. O usurário é difícil de salvar, já que obriga a uma ação cumulativa de restituição e arrependimento. De facto, muitas vezes, com a aproximação da morte, não há tempo suficiente para conseguir os dois efeitos. Os exemplos analisados pelo historiador são muito ilustrativos, até para não perderem o efeito dissuasor, procurando evitar qualquer frouxidão prática.

 

O PURGATÓRIO E A ECONOMIA
Ao estudar a génese do Purgatório, o que Jacques Le Goff fez foi investigar a génese e o desenvolvimento da economia centrada no capital, progressivamente, encontrando a preparação ainda no período medieval. Notem-se, por exemplo, as cinco «desculpas» encontradas pela tradição escolástica para as práticas próximas da usura: (a) o dano emergente, ou aparecimento inesperado de um prejuízo devido ao atraso no reembolso; (b) o lucro cessante, ou impedimento de um lucro superior legítimo; (c) a remuneração do trabalho («stipendium laboris») por terra e mar, ir às feiras e até ter contabilidade merece um salário; (d) o risco sofrido pelo prestamista, já que a exposição aos «assaltos de Satã» ou aos inimigos pode gerar perturbações; por fim, há o cálculo da incerteza, que reconhece a ponderação da dúvida, o que pode dar lugar a um preço. Le Goff conclui: que um número crescente de usurários passa a ter probabilidade de se salvar do inferno, pela moderação e pela deslocação da sua atividade para empréstimos autorizados… É uma nova economia que nasce, é o comércio que se desenvolve, mais do que os fatores naturais - passa a funcionar o capital… E eis-nos perante um tema que revela uma capacidade única para mobilizar estudiosos e investigadores. E Jacques Le Goff compreendeu-o com grande sentido prático, disciplina e entusiasmo. Pierre Nora disse que era o último dos grandes – ao lado de Marc Bloch, Fernand Braudel ou Georges Duby – além de François Furet e Le Roy Ladurie… Umberto Eco, amigo do historiador, lembrou o cidadão, o combatente contra a intolerância e o estudioso, «menos dos acontecimentos que da cultura (como filosofia e teologia), sendo o seu livro sobre o Purgatório umas obra-prima inultrapassável em erudição e como exumação de textos esquecidos».


Guilherme d'Oliveira Martins

 



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Domingo, 13.04.14

 

 

Minha Princesa de mim:

 

Vi no Tokyo Kokuritsu Hakubutsukan  -  o Museu Nacional de Tokyo  -  dois  zosh, rolos de papel que se abrem na horizontal e se vêem ou lêem da direita para a esquerda, descrevendo cenas arrepiantes do Jigoku ou inferno budista, e pintados nos finais do sec.XII, na transição da era Heian para a de Kamakura. Um Jigoku-zoshi imagina a cena horrível de vermes necrófagos a desfazerem o corpo nu de uma senhora de alta linhagem; o outro é um Gaki-zoshi, pinta-nos uns danados (gaki)  famélicos e esqueléticos a devorarem, numa ignóbil fossa, excrementos humanos... Já um século antes, uma Fujiwara no Michitaka, primeira mulher do imperador Ichijo, encomendara, para sua espiritual admoestação, um biombo com representações do inferno. Mas não conseguira olhar mais para ele... Porquê? Teria sido só por repugnância, por nojo? Nojo, aliás, é ainda hoje o que juridicamente se adjectiva aquele período em que o luto nos dispensa de outras obrigações. Ou seria por avassalador sentimento de culpa, ou por medo? O primeiro tem que ver com o temor do inferno, o qual é um caleidoscópio das nossas angústias... O segundo, que  é temor imediato e não apenas interrogação sobre um eventual castigo futuro, tem só que ver com a consciência da nossa condição... Aí, medo é o receio do desconhecido: quem somos?, donde vimos?, para onde vamos?  -  receamos a resposta, não por ela, mas pela nossa ignorância. O medo do inferno agita-se perante nós, e todos nos perguntamos como, com que obras, dádivas ou actos de contrição e reparação, poderemos fugir aos horrores dessa eterna prisão e tortura. Conta o Evangelho que, só depois de no Jigoku já ter caído, um rico se lembrou de Deus e de Lázaro, esse pobre que ignorara em vida, in tempore oportuno. Para então suplicar que fossem avisados os seus (dele rico) familiares de que a injustiça e o coração fechado só ao inferno conduzem... Teria sido tarde, talvez, na parábola certamente o foi. Na misericórdia de Deus, tudo, ainda hoje, como sempre, dependeu e dependerá da resposta que quem tiver ouvidos, depois da escuta, quiser dar. A dureza crua dos Jigoku-zoshi contrasta com a serenidade das representações do Buda Amida, esse que promete a Terra Pura.  Muitas vezes me interroguei sobre a tranquila, seráfica aparência de Buda, contraposta ao sofredor retrato de Cristo, seguido da imagem triunfante do Redentor. .. Talvez tenha a ver com uma diferença, quase imperceptível (e S. Francisco Xavier que o diga!), entre o conceito de felicidade alcançável pela imanência transcendente da meditação, e o da bem-aventurança possível pela encarnação de Deus, transcendência imanente... Mas não me deu hoje o fígado para teo-filosofias. Antes me surpreendeu, nesses zoshi, a lembrança da marmórea pedra tumular de Guillaume de la Salle, cavaleiro da Ordem de Malta, no pavimento da catedral de S.João, no esplendor do sec. XVIII: um capuz envolve a caveira, desdentada quase, do fidalgo. São só acusações de si, os olhos e as narinas. Ossos ainda vertebrados, o pescoço. Está ali a morte, não se enfeitou, é monástica. Não é estátua, ainda que jazente, de triunfos passados ou futuros. Se ressurgir, será para um imprevisível juízo. E logo me ocorreu outra imagem  -  que religiosamente guardo comigo  -  de um Buda magríssimo e sofredor, como outro com que  deparei na Tailândia. Pintou-a o devoto Yamamoto, artista filho de um colaborador meu, que me dizia como, para ele, Buda teria vivido o sofrimento misericordioso de Cristo. Assim também me veio à cabeça outra lembrança: a de tantos e tantos monumentos tumulares que, na cristandade, procuraram enaltecer, para a eternidade, as desejáveis e imaginárias virtudes de muitos que, com pretensiosismo, se apontam como vencedores da morte. Como se a vitória sobre a morte não fosse a humilhação da vida que se perde, para se ganhar outra... Sobejam, na cristandade, exemplos do que eu  chamaria quase ganância de canonização, pois esquecidos terão ficado tantos promotores de que a vitória definitiva sobre a morte conseguiu-a a paixão de Deus que se reduziu à humilhação da condição humana. Assim a morte é como o nosso esqueleto: descarnada e pobre. Como todos os pobres que, em vida deles e nossa, foram sendo esquecidos. Hieronimus Bosh representou tentações que são infernos, e infernos que continuam a ser tentações.O hediondo do mal que não nos larga a porta de casa. Desde esse misterioso instante, perdido algures, na escuridão dos tempos, em que ser humano se tornou em abrir os olhos e ver... E o que viu primeiro foi a morte, a sua morte, conscientemente. A morte com ele mesmo nascida, e que ele sabe, objectivamente, que não é só as mortes que vê à sua volta, mas a sua própria. Como sabe, precisamente porque a morte lhe habita a consciência, que não é apenas quando com ela actualmente se defronta e luta que terá de a olhar... Para o homem, a morte não é só uma eventualidade: é uma vocação que lhe traz muitas outras interrogações e representações. Seja qual for o nosso tempo e o nosso modo, a nossa fé ou o nosso desânimo. Piero della Francesca, na sua Ressurreição de Cristo (1463), hoje conservada na pinacoteca municipal de Sansepolcro, sua terra natal, mostra-nos um Senhor triunfante da morte, segurando com a mão direita a bandeira da cruz, e com o pé esquerdo bem firme sobre o túmulo que soldados adormecidos em vão guardaram... Já Matthias Grünewald nos dá um Cristo luminosamente explodindo, como saudação de vitória e paz, de um túmulo, cujos guardas ficam deslumbrados e caem... Dum e de outro modo se exprime a vitória da vida sobre a morte. Mas Cristo é Deus, e nós humanos apenas...  Gosto muito das histórias sobre a  dormição da Virgem Maria, tal como são contadas em textos, todos eles apócrifos, escritos em muitas línguas, do grego ao etíope, do copta ao arménio, do siríaco ao eslavo, do arábico ao latim, língua em que são conhecidas sob o título genérico de Transitus Mariae. Sobre esses contos assenta a iconografia cristã da morte e assunção de Nossa Senhora. Nas cenas da morte, ou surge o anjo anunciador que lhe estende a palma com que entrará no céu, ou a rodeiam e assistem os apóstolos, como naquela Morte de Maria, de Joos van Cleve, hoje na Alte Pinakothek de Munique, em que S.Pedro administra o santo viático. Muitas e várias são as representações da assunção, mas uma me tocou especialmente, numa visita à Galleria dell´ Accademia, em Florença: Nossa Senhora do Cinto, de Francesco Granacci. Diz a lenda que S. Tomé estaria ausente do trânsito e subida ao céu de Maria. Neste quadro, uma Virgem irónico-bondosamente sorridente, que anjos elevam ao céu, olha para Tomé ajoelhado junto ao túmulo que ela deixou  -  e onde florescem rosas  -  e oferece-lhe ,como prova de que é mesmo ela que está lá em cima, o cinto que a cingia... Na National Gallery, em Washington D.C., um quadro do Mestre da Lenda de Santa Luzia, mostra-nos Maria, Rainha do Céu, e resume bem o texto de Tiago Voragino (que na sua Legenda Aurea retoma  lendas e narrativas apócrifas que considera merecedoras de crédito e de devoção) que para ti aqui traduzo: Foi assim que a alma de Maria deixou o seu corpo, e que ela voou nos braços de seu Filho e foi poupada a qualquer dor carnal, tal como fora preservada da corrupção. O Senhor disse aos apóstolos: «Levai o corpo da Virgem minha mãe para o vale de Josafat, colocai-o no sepulcro novinho em folha que lá encontrareis e esperai três dias até que eu volte para perto de vós». E logo as rosas flores de rosa  --  a assembleia dos mártires  --  e os lírios dos vales  --  o exército dos anjos, dos confessores e das virgens  --  a rodearam. Os apóstolos chamam-na,gritando: «Para onde vais, ó Virgem cheia de clarividência? Lembra-te de nós, ó Nossa Senhora!» O concerto dos anjos que ascendiam encheu de espanto as tropas que estavam no céu; precipitaram-se ao seu encontro e, vendo o seu Rei, que em braços levava a alma de uma mulher, e que esta se apoiava nele, exclamaram estupefactos: «Quem é esta mulher que sobe do deserto coberta de delícias e se apoia no seu bem-amado?» Os que a acompanhavam disseram-lhes: « É a mais bela das filhas de Jerusalém, que vístes cheia de caridade e amor». E foi assim que, cheia de alegria, ela foi acolhida no céu, colocada num trono de glória à direita de seu Filho, e os apóstolos viram que a sua alma tinha tal  pureza que nenhuma língua mortal poderia exprimi-la. Mas, por uma qualquer associação temática, cromática, ou simplesmente de impressões minhas ou de composições e estilos que povoam o meu museu imaginário, o Maria, Rainha do Céu evoca-me O Juízo Final do Fra Angelico, em San Marco, Florença. Dizia Sto Agostinho que, depois da morte, só há dois lugares: o céu e o infrerno. Nos séculos XII/XIII inventámos mais um, uma espécie de câmara de descontaminação: o purgatório. Aliás, já Agostinho meditara sobre o rigor extremo de um juízo final: não poderia, ao fim e ao cabo desta vida, existir um lugar,uma condição, em que se fossem apagando, por prestações, tantas outras faltas que talvez fossem mais veniais e não merecessem o eterno exílio? A ideia dessa condição de purga  --  conhecida por Purgatório  --  foi ganhando corpo, esperança e crença na cristandade, facultando até a venda eclesiástica de indulgências, uma espécie de bilhetes de primeira classe na barca de Caronte... Talvez por isso, na Reforma do sec.XVI, Lutero rejeitasse o conceito de purgatório... Mas a fé e o temor populares mantiveram-no nas devotas prácticas católicas, quiçá mais lembradas do êxito da oração de Abraão, pai dos povos, suplicando a Deus que da destruição poupasse cidades inteiras se nelas encontrasse um justo. Assim, então, mais esquecidos do insucesso do rico que, em vão, lhe pedira que prevenisse, do risco de eterno ostracismo, os seus familiares, como narra o Evangelho. No Juízo Final do Angelico  --  e quando voltares a San Marco, olha bem para essa magnífica pintura  --  um Cristo pantocrator e trinitário, sentado no trono eterno da realeza celeste, preside, nesse acima de tudo que é o Céu, a assembleias  de arcanjos e anjos a seus pés, com a Virgem sua mãe puríssima, sentada também e, toda de branco luminoso vestida, humana elevando-se acima deles, rodeados todos pelos apóstolos e os padres e fundadores religiosos da Igreja. Abaixo. à sua direita gozam já dos prazeres do paraíso, entre flores e frutos, santos desconhecidos, eleitos. E, mesmo à beirinha do abismo fechado junto a túmulo aberto que os separa dos outros, dos que se irão danar, santos já reconhecidos e venerados rezam contra a coacção que demónios exercem sobre cardeais,turcos,frades e freiras,senhores e campónios,que o diabo empurra para o inferno. Este ali está representado, em cenas de sofrimento infringido em cinco andares subterrâneos, aos quais, de foice em punho, preside a morte esquelética e feia... No seu A Morte e a Extrema Unção, H. Bosch pinta-nos um moribundo no seu leito de morte, assistido por rezas familiares e sacramentos administrados. Ao centro da cabeceira da cama, a morte espreita, com o seu dardo já apontado. Mas logo à esquerda do transeunte final, um monstro demoníaco o aguarda. Ao lado deste, um anjo de asas brancas (em tendo-as,voava ao céu...), espera-o. É a misericórdia de Deus, e talvez ganhe. Mas tu sabes bem, Princesa de mim, talvez melhor do que ninguém, como penso que é humilde o amor. Como o perdão. Perdoar, aliás, quer dizer que nos convertemos quando nos damos. Assim Deus se fez homem. Dou-te a mão, pensando no Fantôme Espagnol dos Bob et Bobette... A morte também se representa por divertidos fantasmas que nos ensinam que o purgatório, no cenário deste ou de outro mundo, é sempre e só o esforço gostoso de tentar amor maior.

 

           Camilo Maria



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Sábado, 12.04.14


The John Lewis list
, 2014

 

 

Um articulista equipara tais momentos na Westminster bubble a um daqueles snowglobes que conheceis com pitada de horror ao inútil. Não servem para apurar nada ou resolver coisa alguma. Agita-se, há uma artificial queda de neve e depois volta tudo à quietude de reino pacífico. Já boa parcela condensa estes casos no champagne lifestyle na eterna passagem pela euforia no ciclo político. — Chérie, les gens font toujours le loup plus redoutable que lui! Um membro do governo é questionado sobre o teor das despesas apresentadas como parlamentar eleito e coagido a repor £5,800 pagas pelo contribuinte, indevidamente assalariadas e por isso ainda também compelido a apresentar desculpas na House of Commons. O governante em causa faz uma meteórica 32-second apology. O Prime Minister encerra o revés.  —Humm. Islands in the clouds! A controvérsia preenche a nuvem mediática há dias, denotando nada senão a dificuldade de extrair conclusões aquando da tomada de conta face à john lewis list. Teme-se até que a atual auditoria pela IPSA menos valha que o velhinho rol de armazém fino. Para uns quantos, como sempre, mas mais cara, a vegetarian cookbook for carnivores.

Belos estão os dias em privilégio meteorológico: solares e frescos. As plantas e os autóctones agradecem. Na House of Commons anda também o negócio animado. Em novo episódio de abuso nas MPs’ expenses e seco pedido de desculpas à câmara, aliás: algo a louvar no Hansard porque conciso e preciso, sobem os pedidos do género red queen em torno da Culture Secretary, Mrs Maria Frances Miller. — Cortem-lhe a cabeça, clamam em uníssono jornais da manhã e vozes das fileiras conservadoras. A lacónica MP por Basingstoke tem apoio do Prime Minister, mas Mr David Cameron não sacia o desejo de sangue nos Tory green backbenchers a braços com o ascenso do UKIP. Já o caso, em si, expõe o problemático e privado sistema de compras em Westminster, com tendência a agravar se inconsequente e não somente a envergonhar elementos desaforados de todos os partidos.

A razoabilidade das faturas apresentadas a ressarço era usualmente feita por comparação com preçário de famigerados armazéns: os John Lewis. O 2008 MPs’ expenses scandal trouxe reforma e avaliação pela IPSA – Independent Parliamentary Standards Authority. Por bizarro que fosse o antigo método, o ruído em torno do caso de Mrs Miller revela fragilidades no 2009 Act. Afinal, ao invés do passado, o abuso não conduz já a demissão ou despedimento sob forte sanção pública. Ora, o historial destas contas parlamentares revela que a velha régua possuía vantagens. A JLL mostrava intuitivamente o quão desadequado é debitar ao erário público aposentos em London mais sete second-homes dispersas pelo countryside, tal qual quão sovina é solicitar restituição por itens como um limão (23 pences) ou uma colher de pau (26p) e ainda quão inteligente é requerimento para reembolsar uma libra entregue para caridade. São exemplos reais, aos quais o eleitorado tirava medidas. Agora não é assim. Pior: para a computação importava o Member of Parliament tropeçar na regalia da numerária e não que confiasse em apoio de aliados no crime way up.

As fronteiras jurídicas e morais são assunto sério. Em viagem ao UK vem o President of Ireland. As relações com a green, three-leafed & wild flower evoluem em sereníssimo processo político com a mestria de HRM Elisabeth e do Duke of Edinburgh. Mr. Michael D. e Mrs Sabina Higgins avistam o Prince of Wales e Duchess of Cornwall na Irish Embassy a abrir ceremonial welcome, após saudados no Heathrow Airport pelo Lord-in-Waiting, Viscount Hood. Algo impensável há uma década atrás. Acolhidos no Royal Borough com a carriage procession e um State banquet no Windsor Castle, o casal presidencial visita ainda o palácio e a abadia em Westminster. Aqui discursa o líder irlandês para uma assembleia conjunta de ambas as câmaras em painel histórico. — Indeed, good memories are our second chance at happiness.

 

St James, 8th April

 

Very sincerely yours,

 

V.



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Sexta-feira, 11.04.14

 

Minha Princesa de mim:

 

No meio das minhas aflições, nem sempre sei onde estou. Estarei, presumo, entre cá e lá. Melhor diria  -  quiçá  -  que todos nós, afinal, somos entre cá e lá. Vivemos em circunstâncias várias, mas numa só condição: essa de ser interrogação, trânsfugas de uma natureza, que, em nós, se tornou também  memória e desafio. Para além do instinto e da reacção a estímulos, a consciência humana que, aliás, se foi emancipando da pertença à consciência do grupo, da malta ou da horda, para a consciência de si ( aqui, o cogito ergo sum  de Descartes ganha  sentido), vai-se defrontar sozinha com o desconhecido, inicia-se na apreensão e na escolha, responsabilidade própria a cada um... Esta tem a sua relação ou referência social  --  e, nesse sentido, talvez eu possa dizer, parafraseando Ortega y Gasset, que el hombre es un transfuga de la naturaleza... y de su circunstancia...  -  mas, por cima ainda, depara com a interrogação metafísica do antes e do depois. Assim, todas as mitologias e filosofias antigas, mesmo as anteriores ao desenvolvimento do que já se chamou lógica de negação no pensamento de diversas culturas, representaram uma qualquer relação de vai-vem entre o mundo percetível e o invisível. Já me ocorreu pensar na narrativa bíblica da transgressão do preceito que proibia comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, como sendo simplesmente o conto do aparecimento da consciência moral: o ser humano sai assim de uma condição onde nenhum comportamento é bom ou mau, posto que é determinado por necessidades do funcionamento da natureza (animais matam outros no "cumprimento" da regra da cadeia alimentar, e diz o princípio de Lavoisier que na natureza nada se cria,nada se perde, tudo se transforma), para cair, descobrindo que está nu, não no mundo subterrâneo  -  como os anjos demonizados  -  mas neste nosso mundo intermédio a que chamamos terra. Nesta encontrará de tudo, mas tudo lhe é dado para seu proveito, na condição de o fazer frutificar e desenvolver pelo seu trabalho. E do mesmo modo que conceberá técnicas de cultivo, terá de criar regras de organização social e normas reguladoras de conflitos e comportamentos. A isso chamo cultura: ao eco-sistema onde, em cada sociedade humana, no tempo e no modo se constroem as referências orientadoras de uma visão do mundo, e de acções que poderão ser boas ou más. Assim, na condição humana, a bondade ou maldade da mãe-natureza, não se afirma per se, antes resulta da nossa percepção do ser, do devir e do dever ser. A ideia judeo-cristã do pecado original não será, pois, primitivamente, no mito do Génesis, a explicação do mal existente como castigo de uma transgressão inicial da mulher e do homem  -  na perspectiva, de influência maniqueísta, de Sto.Agostinho, primeiro passo no posterior desenvolvimento milenário de uma lógica de negação do mundo no pensamento cristão ocidental. Negação, entenda-se, no sentido de propósito de libertação, através do percurso da vida como ascese merecedora da paz além prometida, onde o mal não existirá, pois Cristo venceu a morte. Mas pelo lado interior dessa narrativa interpretada como sendo a do surto da consciência moral, poderemos dizer que essa negação é um regresso à inocência: o mal que conhecemos resulta, na perspectiva do devir universal, da auto-percepção da consciência humana como fuga à natureza inicial e matriz.

Na ópera Orfeo ed Euridice de Gluck, o herói desce ao mundo subterrâneo de Hadés e, pelo comovedor encantamento da sua lira, consegue trazer de volta à vida a sua amada. De novo a perderá, porque, por ela rogado, para ela olha na ascensão de regresso, transgredindo assim uma condição sine qua. O mesmo se passava na narrativa mitológica grega, segundo a qual as bacantes depois despedaçaram Orfeu... mas na versão setecentista de Christoph Willibald Gluck (com libreto de Calzabiggi), aparece finalmente Cupido, que volta a reunir os dois amantes. Na verdade, a estreia da ópera foi em 5 de Outubro de 1762, em Viena, na festa do santo onomástico do imperador: um fim trágico seria impensável, ainda por cima em terra cristã e em pleno século de luzes! Mas já no mito greco-latino de Clore (a quem Ovídio identificará Flora, a primavera), que noutra carta te contei, esta é libertada do mundo de Hadés por sua mãe Deméter , para que a Terra possa florescer e frutificar. Irá e virá, todos os anos, de um para outro mundo. No Koji-ki japonês (narrativa das coisas antigas), compilado no período Nara (710-783), mas certamente redigido um século antes  --  e de que também já te falei  --  aparece um mundo celestial: Takamagahara, a alta planície celeste, paraíso cujos montes e campos, rios e vegetação, em tudo se assemelham aos que se viam em Ashihara no Nakatsukuni, reino terrestre ou intermédio, cuja paisagem é, afinal, a de Yamato, o primitivo Japão. Durante a Era dos Deuses, muitos deles e heróis vários, circulam de um mundo para outro, incluindo para o país das trevas Yumi no Kuni. Mas estes três mundos situam-se nas mesmas coordenadas geográficas, como três patamares do mesmo território. Não há correspondência do primeiro com o que, mais tarde, sob influência budista, se chamaria Tokoyo no Kuni ( o país da imortalidade ou reino dos céus), nem podemos confundir este país das trevas com o inferno (Meido), morada dos mortos ou dos fantasmas. Vou buscar ao professor Ienaga Saburo a lenda do pescador Urashima que, por ter salvo a vida a uma tartaruga   --  animal que,aliás, na mitologia sino-nipónica é símbolo de longevidade  -  foi acolhido por uma princesa ( terás sido tu...) no Ryugujô, palácio no fundo do mar. Apesar de cumulado de mimos, a saudade da terra natal leva-o a pedir à princesa que o liberte e deixe regressar. Ela consente e dá-lhe um cofre que ele não poderá abrir, sob pena de velhice e  morte. O que virá a acontecer, em resultado de uma transgressão, como com o fruto da árvore de Adão e Eva ou o olhar amoroso de Orfeu a Eurídice. No Mannyô-shu, antologia poética dos meados do sec.VIII, diz-se: Ele teria podido viver sem jamais envelhecer ou morrer,e ,dando a mão à princesa, transpor o limiar de sumptuosa moradia,no interior do palácio do deus dos oceanos... Comenta o prof.Ienaga: Mas esse país de imortalidade mais não é do que a imagem idealizada de um país distante,separado pelo mar.  A narrativa da visita de Tajimamori ao país da imortalidade, tal como a lenda do pescador Urashima, podem ser interpretadas sem hesitação como simples viagens a um lugar impreciso, além mar. Esse aí, mesmo que se lhe acrescente uma idealização qualitativa,não deixa de ser, com toda a evidência,um sítio espacialmente ligado ao território japonês... No relato do Nihon-shoki (coisas do Japão), esse Tajimamori, acima referido por Ienaga, é um herói que o imperador Suinin mandou ao país da imortalidade buscar o elixir da vida eterna, viagem em que passou dez anos. Lembra-me a babilónica Epopeia de Gilgamesh, o  qual também regressa frustrado da sua busca da planta da vida, que lhe foi roubada por uma serpente... Voltando ao citado professor japonês, transcrevo-te este passo: Aquilo a que chamamos diferença entre mundo aparente e mundo escondido parece-se muito com a diferença entre mundo real e mundo metafísico: mas segundo Motoori Morinaga (outro estudioso do Japão antigo), isso mais não exprime do que a diferença entre o território japonês e o país das trevas. Mesmo Tachibana Moribe que, contra essa opinião, insistiu no significado da «coisa escondida», reconhecia que o mundo da «coisa escondida» não pode existir fora do mundo humano. Assim, não é possível encontrar nas lendas e narrativas da Antiguidade um mundo do Além que seja concebido enquanto negação do mundo real. Paralelamente à visão do mundo contínuo,a especificidade essencial do pensamento antigo residia no conceito afirmativo da vida...  O mal sendo, para os Antigos, facilmente ultrapassável, qualquer conceito de vida que pretendesse sabotar os fundamentos dos prazeres reais seria estranho ao seu modo de pensar. Afirmando a realidade enquanto tal, eles não podiam evidentemente imaginar um mundo transcendente baseado na negação do mundo da realidade. Por mim, vou pensando que a ideia de transcendência ou, se quiseres, os conceitos de salvação e vida futura no Além, só puderam surgir quando a evolução da consciência humana a coloca já num patamar de ruptura com a realidade  sensorialmente apreensível, para a levar a considerar a fugacidade das variações do mundo real e a necessidade de controlo dos comportamentos humanos,de modo a libertar-nos do que é efémero e doloroso para nos elevar até à serenidade do que é eterno e não sofre. É universal este salto, este sentimento novo. Certo dia, visitando o Byodo-in, em Uji, junto a Kyoto, vi o raio de sol que, pela abertura propositadamente desenhada para o efeito na fachada do Pavilhão da Fénix, onde se acolhe a estátua dourada do Buda Amida, vai iluminar esta imagem, como promessa de salvação e vida na Terra Pura. Esculpida por Jocho em 1052/53, foi nessa data ali colocada, por ordem de Fujiwara no Yorimichi que, aos sessenta anos, decidira transformar em templo budista da Terra Pura, um seu pavilhão de repouso e recreio. Fujiwara no Sukefusa, alto funcionário da corte imperial   -  que os seus familiares de classe superior governavam, e de cujo diário  te falei noutra carta  -  já por essa altura registara os temores e apreensões da nobreza de Heian, que iriam conduzi-la a uma certa contemptatio mundi, desprezo ou negação deste mundo:  ...Já não tenho esperanças de promoção. Os meus bens não foram poupados. Mas porquê? Porquê? ...  Os éditos imperiais já não são eficazes...  Começa uma era perturbada... É o fim dos tempos!... Ai de mim! Que tristeza! como vivemos numa época em que Bodisatva desapareceu, mais vale fazer-me monge. A vida neste mundo não serve para nada! No teto do Pavilhão da Fénix e nas paredes circundantes do Amida dourado, hiten, seres celestiais ou apsaras voam e tocam música, como anjos celebrando a salvação. Séculos antes, no reverso de um espelho de bronze datado da era dita "das grandes sepulturas", cenas de música e dança exprimem a alegria natural da vida numa realidade cheia de prazeres... Esta é uma alegria espontânea, natural, como o bem-estar físico, acontece na sua brevidade, mas não tem medida. A outra é uma promessa, nascida da memória do sofrimento e da esperança de uma libertação. Assim vista, será ela desejo de finalmente escapar ao mal, que é imperfeição, precaridade? Ou, antes, será ela negação do determinismo que nos corta a vida e a felicidade? Só o ser humano, desde que a consciência o arrancou à natureza, sente para tão grande amor tão curta a vida... Dou-te a mão, Princesa, para não me sentir só, entre cá e lá...  

 

       Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira 



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Quinta-feira, 10.04.14

 

Julgo que quem analisar ao vivo um conjunto de mecanismos como os que perscrutam e se infiltram nas atmosferas políticas dos dias de hoje, depreenderá que, afinal, tinham surgido, pelo menos duas opções muito claras por entre os regimes e os sistemas políticos existentes e em relação aos quais, qualquer voto bafeja, e até mesmo a abstenção.

 

Referimo-nos à possibilidade de se poder optar por entre uma ditadura arejada ou uma democracia abafada, ou ainda por uma osmose das duas, se abandonarmos de vez tudo quanto constitui um princípio em si mesmo.

 

O papel destas opções, quais energias curativas da intranquilidade das sociedades, são edificadoras de um estilo de pensar à sombra do sol.

 

Ainda assim, as opções que acima referimos, ou mesmo a união de ambas constituem um infalível caminho de destruição da liberdade. Ao menos da responsável liberdade criativa, única que, no nosso entender responde à altura pelo nome.

 

Aliás, exactamente por essa razão de bem se orgulhar esta liberdade do seu nome, e do que representa, é que nasceram estas opções a que acima nos referimos, numa aproximação artística de destruir autor e peça ou cansar ambos, ao ponto de confundir humanidade e expectativas, mas seguro ser o controlar de feição supostamente aternurada qualquer esfera de vida.

 

Como refere o Professor Doutor Paulo Otero no seu magnífico livro A Democracia Totalitária, o totalitarismo surge (…) reunindo todo um conjunto de dogmas radicalmente opostos do modelo do Estado liberal então vigente na Europa e, deitando mão das palavras de Nicólas Pérez Serrano, acrescenta, o quanto o totalitarismo comporta em si um verdadeiro esforço de divinização do Estado.

 

Ora, como não chegasse ter acontecido ao mesmo tempo, entre mim e o Professor Paulo Otero, a comunhão de pensamentos e de investigação sobre a temática que se aborda no presente texto, a verdade é que, ontem, ao relermos as palavras de Albert Camus na Peste, e outras por nós escritas num texto publicado no Jornal Euronotícias sob o título O Tirano Que Sulca A Democracia, concluímos o quanto o bacilo da peste, de facto, nunca morre, mas antes se transforma numa suposta possibilidade de ditadura arejada e perversamente aberta a eventuais fenómenos democráticos que logo castra, e, uma democracia abafada, igualmente perversa e sedutora, por entre as naftalinas que tanto matam bicho como apodrecem ilusões e forças.

 

Em rigor o espaço de uma vida é curto para lutar contra as tais novas opções que a realidade nos demonstra existirem, e igualmente pouco, o tempo necessário para que os homens acreditem que estão mais aptos à não liberdade do que ao desafio que ela consigo traz.

Referimo-nos à tal liberdade criativa e responsável, grande caminho que muitos seres não vêem ou dele se arredam para que se cumpram as vidinhas no descanso podre de um jornal matinal que mecaniza o pensamento até que à noite de novo o leve o sono.

 

Afinal, troca-se, como dizia Hobbes, a obediência pela protecção obediente, quando se aceita o tal pacto de sujeição, nele se englobando o direito de pensar e decidir.

 

Assim, quando no exercício da docência procuro transmitir aos meus alunos, o quanto se inquinam gerações vendendo-lhes por comerciáveis os direitos inalienáveis, apenas os estou a alertar para os perigos dos modernos autoritarismos que, bem sabem dividir entendimento e resistência, soluções e salvaguardas, numa proximidade de uma interpretação de Maquiavel, quando transfere para a imensa burocracia o poder anestésico de eliminar o homem.

 

Todavia, lembremos que também do Homem faz parte o fogo grego, único que arde debaixo de água, único que herda e transmite o quanto a dignidade humana é inviolável, o quanto, qualquer forma de desprezo pelo ser humano, subverte os fundamentos da própria democracia, ao ponto de sob ela se erigirem as tais supostas novas opções politicas.

 

M. Teresa Bracinha Vieira

27.02.11

Sec.XXI



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Quarta-feira, 09.04.14

Com Manuela de Freitas, terminamos esta série de evocações do Grupo Fernando Pessoa no Brasil. Ou melhor: terminamos a análise crítica da tournée e das atividades artísticas dos participantes, mas iremos ainda ouvi-los acerca desta grande viagem. Viagem que serviu de primeira internacionalização para alguns destas jovens atrizes e atores, mas também, de afirmação, no exigente meio cultural e teatral brasileiro, de uma cultura e de um profissionalismo que na época – estamos em 1962! - não seria comum em Portugal.

Serviu ainda para afirmar o nome e a obra de Fernando Pessoa, na altura bem menos conhecido do que é hoje, sobretudo na sua dimensão poético-dramática.

Nesta rememoração da tournée do Grupo, importa agora referir a carreira de Manuela de Freitas. Tem a especificidade de uma larga continuidade no cinema, com mais de 30 filmes, sobretudo, mas não só, filmes portugueses.

Mas entre esses, podemos já referir que 9 foram dirigidos por João César Monteiro, quatro por Manoel de Oliveira, três por Jorge Silva Melo: mas como se disse, estamos perante uma carreira cinematográfica que passou as fronteiras, o que não é, como bem sabemos, habitual entre nós.

E que tem como remate coerente a colaboração na Cinemateca Nacional.

Vejamos um pouco a participação nos filmes de Oliveira. Desde logo, pela relevância e qualidade do realizador: mas é interessante notar que esses filmes reportam a peças de teatro ou a obras de ficção de autores também do maior relevo – e desde logo Vicente Sanches (“O Passado e o Presente” – 1971 – “nunca a câmara de Oliveira foi tão ágil” – João Bénard da Costa), Camilo (“Amor de Perdição” – 1978), Agustina Bessa-Luís (“Francisca” – 1981), Paul Claudel (“Le Soulier de Satin” –1985).

Este último filme teve como Conselheiro Literario Jacques Parsi, autor de um estudo sobre Manoel de Oliveira, onde designadamente refere o sucesso unanime na estreia em Paris: “O filme conseguiu pôr de acordo L’Humanité e La Croix!” (“Manoel de Oliveira” ed. Centre Culturel Calouste Gulbenkian Paris 2002).    

Mas também não estará fora deste registo a colaboração de Manuela de Freitas com outros realizadores e em especial com João César Monteiro, com quem trabalhou regularmente de 1971 a 2003, ou com Jorge Silva Melo, que como sabemos reparte a sua atividade entre o cinema e a encenação e produção teatral.

E encontramos esta mesma exigência, digamos assim, na carreira teatral. Manuela de Freitas estudou em Londres, e em Lisboa, trabalhou com Alfredo Gutkin, Peter Brook, Bob Wilson, Grotowsky, Fermando Amado, Luis de Lima. E praticamente todos os encenadores portugueses de relevo. Esteve ligada à Casa da Comédia com João Mota, com quem iria fundar A Comuna.

E interpretou textos de António Patricio, Almada, Fernando Pessoa, Bertold Brecht, Paul Claudel, Samuel Beckett, Natália Correia, Arrabal, Tenessee Williams, Eugene ONeill,  mas também  Strindberg, Shakespeare,  Racine, Eurípedes…

Resta dizer que esta série de referências sobre o Grupo Fernando Pessoa justificará a recolha de uns depoimentos de atores que estiveram na tournée ao Brasil.

 

DUARTE IVO CRUZ 



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Segunda-feira, 07.04.14

de 7 a 13 de abril 2014

 

«Os Memoráveis» de Lídia Jorge (D. Quixote, 2014) é um romance que ultrapassa em muito a invocação de um acontecimento histórico, a revolução democrática portuguesa de 1974, já que estamos perante uma reflexão atual sobre a liberdade, a resistência e a esperança. Ao longo do livro, encontramos o ceticismo e a vontade, a dúvida e o empenhamento, mas sobretudo a imperfeição natural das sociedades humanas, que não podem ser aprisionadas pela indiferença ou mesmo pela utopia…

 

 

O VALOR DA LIBERDADE
«Os Memoráveis» de Lídia Jorge leva-nos, no título, quase sem querermos, a Xenofonte, mas há algo que aproxima e algo que afasta a obra do clássico antigo, de um lado, os ideais e os princípios, de outro, as pessoas, os sentimentos e as tentações. A liberdade, afinal, quando entra na normalidade das coisas vai perdendo o fulgor. Péguy resumiu o tema de um modo emblemático: «tudo começa em mística e acaba em política». A história funciona pendularmente, e é esse movimento que a autora procura descobrir, sem se ater apenas a um começo e um fim… A apatia, o imobilismo e a indiferença levam ao acordar. E sente-se que esta escrita tem a ver com uma obrigação de despertar e de resistir… Não há nostalgia, como na decadência, mas sentimento melancólico, que obriga a agir, não retrospetivamente, mas olhando para diante. E lembramo-nos do que Lídia Jorge disse em «Contrato Sentimental» (Sextante Editora, 2009), partindo da alternância (sempre o pêndulo) entre o herói do mar e o lixo a que alguns desejariam votar-nos (estávamos no auge dos ratings das agências): «seria ridículo garantir, com base no passado, ou mesmo no presente, alguma coisa de seguro em relação à sobrevivência futura deste tipo de convivialidade amorosa entre os outros e o tuga, o tuga e os outros, sabendo que nós mesmos em breve seremos outros, e os outros também serão outros em contacto connosco, num mundo tão amplamente aberto, sobretudo quando os mitos de representação forem diferentes e as relações de poder se alterarem, a ritmos que não podemos prever». E aí, dizia a autora, em vez de processo de integração só há processo de educação. E que educação sentimental? Como afirmou Mário Mesquita na apresentação de «Os Memoráveis», no dia em que fomos despedir-nos de José Medeiros Ferreira, o que está verdadeiramente em causa neste livro e nesta reflexão é um espírito de resistência.

 

A PARTIR DE UMA FOTOGRAFIA
Numa fotografia em torno da qual vai girar o romance, tirada no «Memories», temos as personagens cujo percurso a romancista vai acompanhar e analisar: El Campeador, o Bronze, Charlie 8, Umbela, António Machado, Rosie Honoré, o cozinheiro Nunes, o Dr. Salamida, três militares barbudos, o casal de poetas Ingrid e Francisco Pontais, o fotógrafo Tião Dolores. Ana Maria Machado, repórter portuguesa em Washington, é convidada a fazer um documentário sobre a Revolução portuguesa de 1974. A «machadinha», filha de António Machado, e a equipa da CBS (Margarida Lota e Miguel Ângelo) vão encarregar-se, assim, da investigação sobre esses protagonistas: onde estavam? O que sentiram na altura? Que balanço fazem, passados os anos? Qual a melhor imagem de tudo o que aconteceu? Daqui tudo parte. Um acontecimento histórico não se resume a um momento, é uma evolução, um encontro de sinais contraditórios. E depois da fábula, vamos descobrir a «viagem ao coração da fábula», onde se desconstrói o estereótipo do embaixador americano e onde se vai descobrir a matéria de que se fazem as vidas: ressentimento, egoísmo, inveja, maledicência. E, mais importante do que descobrir quem cada um é, a verdade é que a autora vai compondo as personagens com elementos vários que os tornam recomposições da realidade, desaconselhando o exercício de tentar descobrir o rosto que está tapado pela máscara. Há situações evidentes e outras propositadamente menos claras, já que um romance tem de deformar a realidade para a tornar verosímil. Agustina ensinou-o sempre, magistralmente, sobretudo quando se lhe apontavam as aparentes contradições na narrativa. Lídia Jorge faz muito bem esse difícil exercício. «O que me interessou foi ver o tempo a correr, perceber o que ficou, surpreender a memória no momento em que deixou de ser necessária. Porque a memória tem em si a artimanha do esquecimento» (J.L., 5.3.14).

 

COMPREENDER A REALIDADE DE HOJE
«Os Memoráveis» ajudam-nos a compreender o Portugal de hoje. Com preocupações de agora, vemos que um acontecimento como o 25 de abril de 1974 não se resume a uma ocorrência pretérita, porque a liberdade e a democracia são presentes e sempre inacabadas. Eduardo Lourenço, de «Os Militares e o Poder» está presente quando diz que «a Revolução não veio pôr apenas em causa os mecanismos do poder civil nem as relações do poder militar e do poder civil, mas a própria ordem militar». No entanto, nesta novíssima psicanálise mítica do destino português, mostra-se, entre outras coisas, «que são as Forças Armadas que estão na Nação e não a Nação nas Forças Armadas», e é a partir daí que a história pendular deve continuar a ser acompanhada. Lídia Jorge tem, por outro lado, razão quando coloca «Os Memoráveis» ao lado do seu primeiro romance - «O Dia dos Prodígios» - tendo a sensação correta de o estar a atualizar. Sentimo-lo numa leitura atenta. De facto, vamos de um ato de fixar um tempo que desaparecia até à necessidade de «compreender um tempo que está para vir»… Eis o fio de Ariadne. As personagens de «Os Memoráveis» recriam o que foi a euforia revolucionária e a desilusão que sempre se segue a um período de entusiasmo, no caminho sempre difícil, de avanços e recuos, para a emancipação. E quando lemos, no final, o argumento do filme, compreendemos por que razão se diz: «É muito importante que o Bronze, antes de mais, diga o que disse – “Classifico-o como obra de um milagre, minha senhora. Milagre, sim. Sendo eu um agnóstico, até que gostaria de usar outro termo mais sereno, mas não encontro. E milagre porquê? Pela coincidência no tempo de factos inesperados. Olhai! Registem a minha opinião antes que seja tarde”. Por razões óbvias esta passagem deve ser incorporada na íntegra. Não encontro nenhuma outra declaração que melhor defina o espírito de “História Acordada” (…) Não nos interessa escurecer o que pode ficar claro. A nós só nos interessa recuperar a metralha de flores que o tempo deixou intacta». Estamos perante uma construção de quem? O Oficial de Bronze bem insiste: «Quem desenhou o plano e comandou as movimentações a partir da Pontinha? Nem eu, nem ele, nem nós, nem vós. Foram eles, os cinco mil». Por isso, alerta para as tentações dos vários cultos do eu («…já cada um queria ter uma estátua erguida…»). E confessa-nos: «Sou franco, eu também me envolvi, também disse demasiadas vezes eu»… E a viúva de Charlie 8 lembra que este sabia que cinco mil homens «estavam a fazer rodar as agulhas sobre o mostrador». Mas o Campeador não vai ter voz no filme, intencionalmente, porque a «figura do estratega deve ser poupada à fala. Sempre que um mito fala o seu barro arrefece». A capa do livro invoca El Cid, o Campeador, Don Rodrigo Diaz de Vivar, um cavalo à beira-mar, não altivo mas de cabeça baixa, figurando o velho mito histórico: «o meu corpo será cadáver e ainda há de ganhar batalhas»… É assim que Lídia Jorge, neste momento alto da sua obra, deixa a memória esbatida, forte e sem ilusões, de uma resistência e de uma esperança que não se desvanecem.

Guilherme d'Oliveira Martins 



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Domingo, 06.04.14

 

Minha Princesa de mim:

 

Comecei esta carta para começar o dia, tão lembrado de ti acordei hoje. E pensossinto-te como certeza. É certo que certeza e acerto não são necessariamente coincidentes: posso ter a certeza e desacertar, como acertar sem estar certo do meu acerto. Mas enquanto este é uma relação objectiva (e, portanto, convencional), a certeza é uma convicção subjectiva (e, portanto, moral). Sendo íntima, tem a grandeza de ser autêntica e fiel. O nosso Alberto gostava de repetir um passo do Fradique Mendes, de Eça de Queiroz: Fradique fala de um polaco, G. Cornuski, professor e crítico, que escrevia na Revista Suiça, e que (diz Fradique) "constantemente sentia o seu gosto, muito pessoal e muito decidido, rebelar-se contra obras de Literatura e de Arte que a unanimidade crítica, desde séculos, tem consagrado como magistrais... Mas sempre que a sua probidade de professor e de crítico lhe impunha a proclamação da verdade,este homem robusto,sanguíneo, que heroicamente se batera em duas insurreições, tremia, pensava: «Não! Porque será o meu critério mais seguro que o de tão finos entendimentos através dos tempos? Quem sabe? Talvez nessas obras exista a sublimidade  --  e só no meu espírito a impotência de a compreender». E o desgraçado Cornuski, com a alma mais triste que um crepúsculo de Outono, continuava, diante dos coros da Atália e das nudezas do Ticiano, a murmurar desconsoladamente: «Como é belo!». Raros sofrem estas angústias críticas do desditoso Cornuski. Todos, porém, com risonha inconsciência, praticam o seu servilismo intelectual...  ... O homem do século XIX, o Europeu, porque só ele é essencialmente do século XIX (diz Fradique numa carta a Carlos Mayer) vive dentro de uma pálida e morna infecção de banalidade...

Eu acrescentaria que hoje, já neste século que é o nosso, a essa infecção se juntou o seu efeito: o triunfo generalizado da vulgaridade. Vêem-se, ainda e felizmente, muitas excepções: jovens estudiosos e investigadores, criadores e intérpretes de várias artes, pais e professores dedicados à educação (a libertarem, para a sua realização mais plena, as capacidades das crianças e jovens), monges e missionários, artesãos e operários conscientes e capazes, movimentos de solidariedade social, de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos... Mas a cultura prevalecente vai sendo aquela que os meios de informação social e publicidade todos os dias vão desenhando e impondo, guiados apenas pelo objectivo do ganho monetário máximo com um mínimo de conteúdo espiritual e esforço crítico. Esquece-se a máxima milenária de Plotino (270 a.C.): A inteligência é o pensamento que se desvia das coisas inferiores, para elevar a alma para o que é superior. Pelo contrário, ocupa-se a gente por aí a satisfazer o mais imediatamente fácil, sem espírito crítico nem elevação. À riqueza das diferenças  -  pelo que representam em diversidade e esforço  -  prefere-se a pobreza da banalização soez de "ideias" (?) e comportamentos induzidos pelo repetido apelo à facilidade saciadora. Os heróis hodiernos ou, melhor, os que como tais nos são apresentados e sugeridos, são deuses pagãos, cheios de dinheiro, de sexo e de cosmética. Escamoteia-se a virtude  -  que é a força dos que se engrandecem, humanizando-se  - mesmo ao falar-se de desportistas ou artistas de renome, exagerando-lhes o glamour, e calando o esforço disciplinado com que conseguem os seus resultados, tantas vezes incautos e explorados. A liberdade, que é necessariamente responsável, é apregoada como libertinagem caprichosa e irresponsável. A igualdade, que é o reconhecimento da mesma condição e dignidade em todos, é procurada pela facilitação do rebaixamento, não pela promoção da excelência. A fraternidade fica assim de fora do circuito, mas, graças a Deus, continua a ser profética: por todas essas mãos que por aí se vão estendendo à diferença dos outros, à indigência de muitos, ao amor de todos. Bem hajam! Não sou elitista, nem saudosista, nem pessimista. Acredito no triunfo do bem, na recompensa do esforço, creio, profundamente, que a glória de Deus são os homens de boa vontade.  Mas desabafos de velho, resmungo muito contra o que me parece tão estúpido, que me magoa e cansa... Tivesse menos 50 ou 60 anos, iria para remotas paragens, trabalhar com quem será pobre pelos industrializados critérios e estimativas, mas solidariamente sabe construir comunidades de partilha e justa convivência. Ou talvez ficasse pela nossa Europa, aprendendo com grupos cheios de esperança inovadora, que é possível e desejável consumir menos e amar mais, muito mais... Enfim, dirás tu, fantasias de velho... Mas deixa-me que volte a esse sonho. Sonhar é fácil  -  diziam-nos na nossa juventude. Creio que não: sonhar é necessário, muitas vezes difícil. Desesperado será, valha-nos Deus!, o sonho do pobre que nada lhe traz... Mas mesmo a esse teremos moralmente de recorrer, para ganharmos a força que o nosso comodismo não nos deixa ter. Perguntaste-me certo dia se acredito na vida eterna, quando tantos crêem na metempsicose e na reincarnação, no regresso à matéria natural, ou em coisa nenhuma... Respondi-te lembrando o monge Zózimo do Dostoievsky, que ensinava que cada um de nós tem, na sua vida, uma oportunidade para amar. Se a agarrarmos, aí começa, digo-te eu, a vida eterna.  Só o amor é eterno, e Deus é amor. Bem sei que, para ti, misturo tudo, sou um velho tonto que pensa cavalgar corcéis só por andar aos saltinhos de ideias... Mas sou visceralmente fiel ao meu pensarsentir que tudo é graça sempre que, nesta vida, agarramos a mão invisível de Deus e nos deixamos conduzir pelo querer bem. Não sou fã de cânones, desconfio de canonizações, sobretudo de muitas que por aí ultimamemte se têm feito... Jesus Cristo nunca gostou de ouvir discípulos discutir sobre quem seria maior... Acredito, sim, na comunhão dos santos, na santidade escondida dessa miríade de mulheres e homens de boa vontade, que, no silêncio das suas vidas, e na alegria íntima dos seus corações, deram o que lhes pedia o amor dos outros. E não é esse o amor de Deus? Nenhum de nós tem o direito de julgar os outros para a eternidade. A justiça dos homens é certamente necessária, as sociedades só se governam por normas objectivas (convencionais). A justiça de Deus é de Deus só, os homens só a conhecem, cada um, em sua consciência (moral). Repito só, pois só com os outros sou responsável perante Deus. Olho para dois postais que nunca tinha visto juntos: comprei-os, um no Guggenheim Museum, em New York, outro no Museu da Cidade de Kobe, no Japão, com um intervalo de vinte anos. O de New York reproduz um Picasso de 1900, o Moulin de la Galette; o de Kobe, sensivelmente contemporâneo, é O Baile, de Hashimoto Chikanobu. Diferentemente iluminados, respondendo também a conceitos e preconceitos, ou a destemores e temores éticos e estéticos diversos, um no outro se reconhecem. Lembrado do japonisme na Paris de 900, e da moda ocidental no porto aberto de Kobe, com as suas gravuras coevas... Não sei quem copia quem, nem se alguém copia... Só Deus sabe. E fico assim feliz, recitando a oração com que, todas as noites, resumo o dia e a vida: In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum... What else? Assim fica a minha mão na tua.

 

                Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira 



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