Terça-feira, 09.02.10
Manuel Serra, 1931-2010
por Joana Lopes

Morreu no passado dia 31, mais um grande lutador antifascista em Portugal.
É na Juventude Operária Católica, aos 17 anos, que Manuel Serra toma consciência da pobreza, repressão e injustiças que o rodeiam – o motor de arranque para uma longa e agitadíssima caminhada.
Já como oficial da marinha marcante, integra-se na corrente mais extremista da campanha de Humberto Delgado para a presidência da República, em 1958, onde defende o recurso à luta armada para o derrube do regime.
Na noite de 11 para 12 de Março, chefia os civis no falhado
Golpe da Sé, sendo detido e levado para o Aljube onde permanece seis meses, depois de cinco dias de tortura de sono. Numa primeira fuga espectacular, sai pelo seu pé do Hospital Curry Cabral onde se encontrava internado: vestido de padre, segue directamente para a embaixada de Cuba em Lisboa, onde pede asilo. Apesar de vigiado em permanência por quatro agentes da PIDE, chefiados por Rosa Casaco, estuda um novo plano de fuga, muda de visual muito rapidamente, cortando o cabelo e a barba, e aproveita uma mudança de turno para, uma vez mais, sair em pleno dia para a embaixada do Brasil, já que o seu objectivo era precisamente juntar-se a Humberto Delgado naquele país.
Parte em Janeiro de 1960 e começam então os preparativos para o que viria a culminar no
golpe de Beja, em 1 de Janeiro de 1962. Depois dos factos que são do conhecimento público, Manuel Serra tenta esconder-se no sul do país, mas acaba por ser detido em Tavira. Segue-se então um mês de grande violência, com tortura de sono e espancamentos, um julgamento com condenação a dez anos de prisão e longas estadias em Peniche e em Caxias. Liberto no início de 1972, é ainda detido por um curto período em Novembro de 1973.
Tudo somado, quase doze anos passados em prisões da PIDE.
A seguir ao 25 de Abril, é um dos fundadores do MSP (Movimento Socialista Popular) que mais tarde se integra no Partido Socialista com grupo autónomo, mas divergências internas precipitam a saída, em Janeiro de 1975, para a criação da FSP (Frente Socialista Popular). No quadro deste pequeno partido, participa nas campanhas de Otelo Saraiva de Carvalho para a presidência da República. Em 1980, foi um dos fundadores da FUP (Força de Unidade Popular).
Ontem, tudo acabou. Ficará na história dos belos lutadores da resistência em Portugal, que aliaram a coragem à aventura e até ao prazer do risco. Na memória dos que o conheceram pessoalmente, restará um enorme sorriso e um coração do tamanho do mundo – será sempre assim que o recordarei.
Joana Lopes
Fotografia e fonte para a elaboração deste texto: Rui Daniel Galiza e João Pina, Por teu livre pensamento. Histórias de 25 ex-presos políticos portugueses, Assírio & Alvim)
Segunda-feira, 08.02.10
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de 8 a 14 de Fevereiro de 2010
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“Outra Margem – Estudos de Literatura e Cultura Portuguesas” de Ana Nascimento Piedade é um percurso de pesquisa sobre a modernidade portuguesa, que provém de Eça de Queirós e da Geração de Setenta, para chegar ao século XX, em especial aos tempos de “Orpheu”, vindo também à “presença” e a Eduardo Lourenço. Como disse o mesmo Eduardo Lourenço, na apresentação do livro no Centro Nacional de Cultura, trata-se de ver o fenómeno literário e cultural no Portugal moderno com os olhos de uma “outra margem” e com a capacidade de tentar compreender melhor, para além dos condicionalismos do tempo… E Vergílio Ferreira esclarece bem que essa situação singular é “ser apenas do lado da vida em que não passa muita gente, se é quase anónimo, fora do alvo que é visado pela notoriedade, curiosidade pública, grande reputação. Ser em humildade, na discrição de nós, na curta dimensão de nós”.
“Praia das Maçãs”, José Malhoa, 1918.
UMA SOMBRA PELOS CAFÉS
Simbolicamente, no último texto do livro, a autora cita Eça, cuja sombra está omnipresente em toda a obra, e fá-lo a propósito de “Lisboa nos Cafés”. A citação é conhecida, mas mostra a contradição íntima de alguém entusiasmado com os ventos parisienses, a seguir ao fracasso de Sedan e à proclamação do Reich em Versalhes, ciente de todas as incertezas do poder caído na rua, entre barricadas, tiros, bombas e mortes. “O que eu conspirei! Jesus, o que eu conspirei! O meu desejo era filiar-me na Internacional! Uma noite, em torno de um café, exclamámos todos, pálidos de furor, cerrando os punhos: - É necessário barricadas, é necessário descer à rua! Descer à rua, era a ameaça terrível! E descemos o degrau do Martinho!”. Era o Martinho do Rossio, lugar mítico de tantas gerações e de inúmeras esperanças e desilusões. A recordação diz quase tudo. Fala-nos da necessidade de ter o coração a bater ao ritmo da Europa, da exigência de viver a modernidade, da força do apelo da justiça e da igualdade, da vivência de um ideal, mas também de uma ironia tremenda, da distância e da serenidade de poder gozar um ambiente liberal, que era o do tempo de António Maria Fontes Pereira de Melo, improvável discípulo de Saint Simon, o mesmo que entusiasmou, por razões bem diferentes, Augusto Comte e Karl Marx… Os cafés foram, de facto, os espaços públicos por excelência dos dois séculos passados, mesmo que Mário de Sá-Carneiro tenha dito a Fernando Pessoa, sobre o dito Martinho do Rossio: “Não sei porquê mas esse café, não os outros cafés de Lisboa, esse só – deu-me sempre a ideia dum local onde se vem findar uma vida: estranho refúgio, talvez, dos que perderam todas as ilusões, ficando-lhes só, como magro resto, o tostão para o café quotidiano – e ainda assim, vamos lá, com dificuldade”. Que diferença de atitude, de Eça até Sá-Carneiro, um português retinto (mesmo quando fora de Portugal, em andanças diplomáticas), o outro mergulhado no cosmopolitismo parisiense (atacado quiçá pelo mal da civilização de que padeceu Jacinto). São as vicissitudes da modernidade, com Álvaro de Campos (o mesmo que tanto perturbou José Régio, no Montanha) a falar nas “metafísicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte”…
PORQUÊ LER EÇA NO SÉCULO XXI
Num tempo em que, mais do que relativamente a este ou àquele autor, a pergunta a fazer sobre as razões para ler no século XXI tem a ver com o próprio acto de ler, Eça de Queirós permite-nos ter uma resposta. E, para responder, devemos recorrer a Fradique Mendes, a complexa figura que encerra em si as contradições de uma geração dramática e irónica, fruto da liberdade de expressão e do anseio de um banho lustral de internacionalismo cosmopolita. Afinal, tratar-se-ia de retornar à “nobreza do estado primitivo” ou de alcançar a regeneração finissecular – numa purificação consistente em ter “o crânio limpo de todos os conceitos” e “o espírito escarolado do pó e do lixo de longos anos de literatura”, tudo isso «a fim de recuperar essa notável aptidão que permitirá, enfim, “proceder soberbamente, a um exame inédito das coisas humanas”». E Fradique, o açoriano emblemático, dá-nos razão para a perenidade, que leva, ainda hoje, a entender a necessidade de regressar à leitura de Eça, ou à leitura “tout court”, para compreender tudo, rindo e castigando os costumes, como na máxima latina. Afinal, está na ideia mesma de modernidade (uma actualidade que ultrapassa a transitoriedade dos acontecimentos) a pertinência da obra e do seu símbolo Fradique, ou não fosse Ana Nascimento Piedade estudiosa atenta do Fradiquismo, que “nunca foi verdadeiramente um autor, mas tão-só, uma espécie de símbolo problematizador, condição aparentemente modesta e incipiente, mas, na realidade, deveras exigente e ambiciosa, uma vez que sobretudo o desoculta como um paradigma dessa transitoriedade caótica, tipicamente finissecular, através da qual se reflectem o sincretismo inquieto e a impossível unidade da sua, e por conseguinte nossa, contemporaneidade”. E o certo é que as pontes que, ao longo da obra, se vão estabelecendo, entre as várias formas de assumir a modernidade, desde as Conferências do Casino e a “Tertúlia Ocidental”, na designação feliz de António José Saraiva, até ao “Orpheu”, têm a ver com a necessidade subjectiva de duplicação da consciência dos criadores (Eça, Antero e Fernando Pessoa) – a partir da “desagregação do Ego transcendental” actuante no universo sócio-histórico do final do século XIX e começo do século XX.
UM FIO CONDUTOR
Se percorrermos os temas, chegamos à tentativa de encontrar a chave para alguns dos enigmas da cultura portuguesa, através da análise de uma transição marcada pelo pós-Romantismo. Aí estão, por isso, as estratégias da modernidade, os modos de ser moderno, a estética da ironia, as afinidades e os contrastes entre os jovens do Casino e do Orpheu, os encontros e os desencontros, Cesário, Eça, António Feijó, Pessoa, Sá-Carneiro, Régio, Eduardo Lourenço, António Lobo Antunes… E o que une essas gerações inconformistas e modernas? A audácia, a irreverência, o desafio, o humor e uma insólita energia vital. A comparação mais fecunda é, sem dúvida, a que põe frente a frente a Geração de Setenta e Orpheu. «Certo espalhafato mistificador que em parte permaneceu como emblema distintivo das duas gerações (diz a autora), terá funcionado, sobretudo, como uma espécie de aval protector dessa ousadia de querer pensar e praticar a inovação sem limites. E nisto consistia exactamente o propósito em que de modo radical se empenharam os dois grupos de jovens criadores, ao procurar operar a subversão e iniciar a renovação da literatura e da mentalidade portuguesas. Dito de outro modo, se o desejo de mistificação é um sinal necessário em tempos de ruptura e transformação, é porque ele é ‘o preço que deve ser pago, e sempre será pago, por uma atitude que não tem por definição nenhuma garantia do passado’». E é Eduardo Lourenço quem aponta esta capacidade de libertação em relação a qualquer garantia do passado como o sinal premonitório e renovador que permite abrir um caminho novo e ser seguido. Trata-se, afinal, de romper o laço visceral relativamente às gerações anteriores. Antero de Quental salientou-o como marca original de quem fez as Conferências do Casino, passando de um mundo de crença para uma recriação do mundo a partir da vontade de criação. Fernando Pessoa e Almada Negreiros repetiram-no a seu modo, no seu tempo axial. “O criador está só e tem de inventar o mundo” (disse ainda Eduardo Lourenço no CNC). E Eça, ao escrever sobre Antero no “In Memoriam”, procedeu à auto-mitificação da geração e do seu epicentro heróico, a partir da compreensão das temporalidades diversas da história humana. Do mesmo modo, Fernando Pessoa deu o sinal inovador ao exprimir a vontade de ruptura e ao propor um critério universalista para a consciência portuguesa. E se o incompreendido mito dos vencidos ainda é recorrentemente invocado, Eça esclarece que “para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou, mas do ideal íntimo a que aspirava”…
Guilherme d'Oliveira Martins
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Sexta-feira, 05.02.10
Sérgio Nazar David: de Garrett a uma poética de fogo lento
Sérgio Nazar David (n. 1964, Além Paraíba, Minas Gerais, Brasil) é sobretudo conhecido, entre nós, como investigador de qualidade nascido do outro lado do oceano, experimentado e obsessivo garrettiano como há poucos em terras lusas. Poeta, professor de Literatura Portuguesa na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001), fez o seu pós-doutoramento na Universidade de Coimbra (2006).
Publicou, em Portugal, O Século de Silvestre da Silva – vol. I – Estudos sobre Garrett, A. P. Lopes de Mendonça, Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis (ensaio, Lisboa, Editora Prefácio, 2007) e O Século de Silvestre da Silva – vol. II – Estudos queirosianos (ensaio, Rio de Janeiro / 7Letras, 2007), tendo organizado uma excelente edição de Cartas de Amor à Viscondessa da Luz (Famalicão, Quasi Edições, 2007), de Almeida Garrett.
Nesta obra, de leitura obrigatória, não só o estudioso do autor de Frei Luís de Sousa actualiza a ortografia das cartas – fazendo os termos da época surgir na sua cor original –, como corrige transcrições defeituosas e decifra palavras. O Garrett que Sérgio Nazar David nos apresenta, na singular introdução, é um ser de «estranha inquietude», usando a expressão de Freud, analisado também segundo a psicanálise e a antropologia social, ou seja, à luz da perturbação interior, da culpabilização, do conflito entre amor e desejo sexual. É ele quem vê Rosa «com olhos da alma», adorada e anjo, e com ela mantém uma relação clandestina que terminará num irreparável desencontro que nem a iminênciada morte do escritor recomporá.
Membro da Equipa Garrett do Centro de Literatura Portuguesa (CLP), sob a orientação de Ofélia Paiva Monteiro (OPM), Sérgio Nazar David prepara agora a Correspondência Familiar do autor de Viagens na Minha Terra, com publicação prevista para 2011, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda [ler dossier na Colóquio/Letras (nº 174), disponível em Maio, dedicado à edição crítica desta última obra, organizada por OPM]. O volume inclui, ao todo, 105 cartas, 64 ao irmão Alexandre, 52 das quais inéditas, 40 à filha Maria Adelaide (onze inéditas) e uma outra (inédita também) à mulher Luísa Midosi.
É, no entanto, o poeta perplexo, apaixonado por Portugal e sua literatura, que trago a este espaço, aquele que reinventa, no quotidiano, o conteúdo da escrita, atribuindo-lhe, como escreveu Boris Pasternak a Rainer Maria Rilke1, em tempos diversos nomes diferentes. Que é da poesia se não desenha, a traços claro-escuros, uma a uma as coisas do mundo, uma cartografia da condição humana?
Sérgio Nazar publicou, até agora, dois livros de poesia: Onze Moedas de Chumbo (Rio de Janeiro, 7Letras, 2001) e A Primeira Pedra (Rio de Janeiro, 7Letras, 2006, nomeado para o Prémio Portugal Telecom 2007). Regra geral, trata-se de uma poesia elíptica a sua, de dimensão narrativa e grande apego a um quotidiano que a palavra torna onírico, como se o poema fosse laboratório e o modelo romanesco se transformasse em companhia no seu atelier de autor contaminado por uma cultura oitocentista.
Servem-lhe os versos para agudizar formulações mais vastas de interrogação interior, seguindo o autor um ritmo cuidado, tão lírico como, por vezes, áspero. Não existe o verbo no intervalo da batida, na tensão criada entre silêncio e som, abrindo-se o texto tanto à harmonia quanto à ruptura? Nos inéditos que se divulgam agora, do novo livro de Sérgio Nazar David, Tercetos Queimados, Portugal é personagem não só enquanto função emotiva, mas paisagem, pormenor autobiográfico ou pessoana deriva.
As dissonantes notas desta escrita de nostálgica celebração dão o mote a uma poesia/prosa subtil de suavidade, atravessada por um fogo lento, estanhado. Nesse sentido, podem ler-se os inéditos – nos quais o sentimento de ausência, de finura líquida, se vai densificando –, a partir de um sujeito poético que revela sinais da enevoada incompletude, de esmagamento do desejo, de uma breve existência entre a exaltação e uma força sombria.
Veja-se como a cultura portuguesa atravessa a seiva destes poemas.
Ana Marques Gastão
Inéditos de Sérgio Nazar David
1.
Não tenho poema. Tenho (quase ponho tremo)
já agora pouco para ti. A vírgula, o acento
inútil, tão pequeno, ainda sabe entretanto
a Amor. É estranho amar-te, ver-te atrasado
num email de aniversário com palavras desiguais...
Tudo tão distante – balões que vão sonhando –
e estranho, amor, amar-te ainda. Tenho deixado tudo:
num velho caderno as notas de viagem de Berlim,
no ap de Lisboa os hieróglifos da tua mão
quando nevou, na pedra em que repouso
o fado de misérias. A coleção dos teus ditos
telegráficos (talvez ainda falte algum) segue
e até rio do castelo de cartas que compus.
Devagar empalidece a rosa em que dormíamos.
2.
Numa tarde, num café de Lisboa
(por instantes se pode fugir do tédio,
do absurdo desejo de sofrer), um livro
trouxe-me o que um dia eu quis
e o corpo reteve (a alma não).
O difuso (ou parte incorpórea?)
dá-se em livro, agora, urgência
recoberta de cinza e espinho.
Haverá outro modo de tocá-lo
que não este, alheio à geografia
do poema? Quis para sempre
o livro e os três quartos de hora
que passei, morto, lendo. Porém -
como à tarde na cidade ou dentro
do passado que relembro - vivo
em tudo às cegas, não entro em nada
por completo. Agora, por exemplo,
me pergunto: por que me abro,
por que me entrego e nunca estou liberto?
3.
Queria agora dizer-te espera,
espera um pouco mais... Tendo
vivido à tua espera, vi-te entrar-me
num 27 de fevereiro, sexta-feira,
com um chinelo gasto, um short,
um maço de cigarros, poucas palavras,
nenhuma sorte e uns poucos gestos,
que mesmo o amor tratou de comer.
Naquela fria e leda madrugada,
depus jogos e armas: vinha de noites
antigas (não disse quais), mostrei-te
os óculos azuis (já não posso usá-los
como queria), disse-te ser um animal
que pouco pode com o som estrídulo
dos verbos. Por mais finos, são,
com abstrusas derivas, grito engolido,
carne ultrajada, osso que salta do corpo
sem preparação. Teus braços foram-me
um rio que sai de repente das pedras.
Hoje não quero ser nada senão aquele
que corria aos cafés de Lisboa a ler
mensagens telegráficas.
Morri com
as tábuas que gravei lembrando-te
e ainda hoje daria o pouco que sou
por ver-te como eras:
rosa impura, que o tempo
macerou.
4.
O rosto mais rubro
do silêncio era tua moeda e morada
(se já não estavas).
Com elas compus um verso livre
a dizer-te: "quando
vieres, seja dormindo." Que não te lembres
depois do que fizeste
comigo e das palavras que dizes enquanto
cruzas-me o corpo.
Quero entregar-me sonhando como
se fosse morto.
1 Correspondance à trois (Rilke, Pasternak, Tsvetaiëva), Paris, éd. Gallimard, 1983, p. 35; Correspondência a Três – Verão de 1926, Rainer Maria Rilke / Marina Tsvétaïeva / Boris Pasternak, Lisboa, Assírio & Alvim, trad. Armando Silva Carvalho, 2006).
Quinta-feira, 04.02.10

OS MEUS SETE PAPAS (II)
1. Como alguns se lembrarão, estava perto do Taj Mahal quando, tarde e a más horas, soube da morte de João Paulo I, por tão pouco tempo meu quinto Papa.
De lá segui para as Pirâmides e para o Egipto, mas não foi entre faraós que soube do Papa posto em vez do Papa morto. Já tinha regressado à pátria, findo o meu mês de orientes, quando apareceu fumo branco por Karol Wojtyla, que, como o seu efémero predecessor, escolheu dois nomes e os mesmos dois nomes: João Paulo II. Tinha 58 anos e era o mais novo Papa desde 1846 e desde a eleição de Pio IX com 54 anos. Esse Pio IX que morrera cem anos antes da eleição de João Paulo II (a 7 de Fevereiro de 1878) e fora o pontífice de mais longo reinado na história da Igreja (32 anos), se não contar a incerta duração do papado de S. Pedro. João Paulo II, que reinaria 27 anos, seguiu-os de perto.
Mas, em 1978, a grande novidade não foi a "tenra" idade do novo Papa, mas a sua nacionalidade. Pela primeira vez, desde 1523, ou seja, durante 455 anos, o Papa não era italiano e pela primeira vez, em quase dois mil anos de Igreja, o Papa era polaco. Com Wojtyla acabou uma era, que, em categorias adaptadas da história geral para a história da Igreja por Cristiani, no monumental Tu Es Petrus, correspondem à Idade Moderna (1447-1870) e à Idade Contemporânea (1870-1978). Desde o fim do Cisma do Ocidente até ao "ano dos três papas", dos 55 pontífices que se sentaram no trono de S. Pedro durante cerca de 540 anos, apenas dois não foram italianos: o aragonês Calisto III (Papa de 1455 a 1458, que, apesar das suas origens, gerou os italianíssimos Borgia) e o holandês Adriano VI, o tal que pontificou entre 1522 e 1523 e que tanto contrastou com os Medici que o precederam e lhe sucederam (Leão X e Clemente VII) em desgosto pelas artes e pelos ofícios. Mas isso já são outras conversas, pois que nenhum deles foi Papa das minhas vidas, embora nos renascentistas me tenha ficado muito da melhor parte delas. Das outras e desta.
2. "O ano dos três papas" (Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II) foi expressão corrente para o ano de 1978. Às vezes, penso em como teria vivido esse ano um amadíssimo amigo meu, poeta de 35 Poemas, que partiu deste mundo e destes papas em 1968, dez anos antes do ano trino. Digo-o porque, em 1963, quando morreu João XXIII, ele viveu premonitoriamente a febre papal que em 78 já subira uns pontinhos e em 2005 entrou no delírio a que se assistiu. Foi ele o primeiro a inventar a expressão "totopapa", enviando-me, e a outros amigos comuns, antes e durante o conclave, listas de probabilidades com os nomes que os eleitos escolheriam, caso viessem a ser os contemplados.
Dentre os inúmeros cartões rectangulares que me mandou, escritos a tinta encarnada, copiei estes: Probabilidades (Flos Florum)
1 - Siri (Pio XIII, de que Deus nos guarde)
2 - Montini (Pio XIII, João XXIV ou Leão XIV que: vá lá com Deus)
3 - Lercaro (João XXIV - Deus queira)
4 - Confalonieri (João XXIV, Bento XVI ou Clemente XV, que talvez Deus queira)
Hipóteses desvairadas más
1 - Ottaviani (Alexandre IX, Calisto IV, Anastácio V ou Júlio IV)
2 - Larraona (Anastácio V)
3 - Marella (Bonifácio X)
4 - Cerejeira (Urbano IX)
Na altura, todos nos ríamos com estes totopapas, que ele corrigia, emendava e voltava a enviar. Mas a realidade excede sempre a ficção: tanto na morte de João Paulo II, como na eleição de Bento XVI, televisões e jornais ultrapassaram em excentricidade e delírio o meu amigo das "profundidades intactas". Muitos dos cardeais já nem sei quem são, como esse Lercaro que, pelos vistos, era o favorito dele. Não previu nenhum Paulo VI, mas previu um Bento XVI, que seria - se tivesse sido - o cardeal Confalonieri, "que talvez Deus queira".
Em 1963, no interior de círculos muito restritos e - vá lá - muito especiais, vivia-se assim a eleição de um papa, guardando segredo para os não iniciados que já suspeitavam da nossa sanidade mental, mesmo sem saberem destes desvarios. Quem nos diria - quem me diria? - que 42 anos depois, milhões viveriam momentos desses em delírio ainda maior, imaginando papas hindus, argentinos, chineses e até (como sempre) portugueses?
Tudo - tamanha mudança! - talvez se deva a esse Papa polaco que, entre 1978 e 2005, fez mais pelo pope system do que todos os seus antecessores reunidos. E volto a 1978.
3. Estou a começar a dizer mal de João Paulo II, ou, como alguns já lhe chamam, de S. João Paulo Magnus? Não estou. Quando foi do Jubileu dele, escrevi, neste mesmo jornal, um artigo em que disse o que pensava e penso dele, exaltando sobretudo o homem da fé.
Escrevi então e mantenho: "Não é o "Papa da minha vida", no sentido em que o foram, dos que conheci, João XXIII ou João Paulo I. Não é o Papa que me dê mais esperança ou que eu ame mais do que os outros. Mas tudo o que me separa dele de nada conta quando o vejo - sobretudo nos últimos anos - dar um tamanho testemunho que só consigo explicar pelo inexplicável mistério da Fé." Acima citei a idade com que foi entronizado. Mas parecia muito mais novo, respirando saúde física por todos os poros, o que muitos atribuíam a um passado de desportista. Três anos depois - apenas três anos dessa imagem pletórica - o atentado da Praça de São Pedro fez esse Papa de 60 anos envelhecer 20 em poucos meses. De então para cá, a pujança original quase que se esqueceu e o "atleta" deu lugar a um velhinho, atacado por mil doenças, até, no fim, mal se conseguir mexer ou falar.
Alguns lhe censuraram - velada ou abertamente - o lugar que deu, na sua própria biografia, ao dia 13 de Maio de 1981, em que quase se realizou a sarcástica profecia de Buñuel no filme La Voie Lactée. Mas não é muito fácil compreender como é que se deu tal mudança num homem. Não é a questão da sobrevivência, pois que outros têm recuperado de coisas ainda piores. É a consciência, não proclamada, mas crescentemente interiorizada, de que a sua salvação teve e tem um sentido e que esse sentido só podia ser desvelado com a crescente transfiguração do corpo quebrado num corpo oferecido. Muito e muito se há-de escrever - pressinto-o - sobre os vários sentidos a dar a essa maceração. Por um lado, há a "papolatria" ou os riscos dela, tão temida nos anos 60 e tão escancaradamente recuperada nesta viragem de séculos. Mas reduzir à papolatria o calvário de João Paulo II é perder a dimensão fundamental dele. Falou-se do seu imenso carisma, do seu imenso magnetismo. Que querem dizer essas palavras? Quem saiba que explique e João Paulo II nunca explicou. Acreditou, não só com toda a sua alma (expressão já de si incompreensível), mas com todo o seu corpo e, como só este lhe podia ser imagem, fez dele o grande plano para um mistério insondável. Por agora - e por mais algum tempo - se falará ainda e muito do Papa que venceu o comunismo, sob o qual viveu desde os 25 anos. Mas não faltam nos textos papais - antes e depois da queda do Muro - advertências ainda mais graves contra a sociedade permissiva e libertária que era, aparentemente, a grande inimiga dos chamados "socialismos reais". Qual o significado da sua presença junto a Fidel em Cuba, tão estranho, por parte de um, como por parte de outro? Qual o sentido das suas mil viagens? Qual o sentido dos "estádios cheios e das igrejas vazias"? Qual o sentido do seu altivo moralismo? Porque o aplaudiam milhões de jovens que depois não fundavam famílias de 14 filhos, como nos tempos de Maria Teresa da Áustria, ou nem sequer se precipitavam para os ter, como nos tempos da geração dele? Quanto mais medito na acção deste Papa, mais ela me parece paradoxal, mas de um paradoxo que não desafia a razão, antes a busca. Por isso, grande parte do mistério de João Paulo II só será percebido com a passagem do tempo e com os pontificados que se seguirem ao deste Papa tão tirolês quanto carpático ou, se se preferir, tão terra a terra, como céu a céu.
4. Sabe-se como foi recebida a eleição de Bento XVI, conhecem-se os juízos que já se fizeram. Mas não se tem reparado muito (ou então sou eu que tenho andado muito distraído) que ao turbilhão de Abril (velório e exéquias de João Paulo II, conclave, etc.) se seguiu um estranho e agudo silêncio. Ouve-se Bach no Vaticano (talvez pela primeira vez).
Perguntam-me o que penso. Pensei mal, quando pensei depressa e me vieram dizer que Ratzinger era o novo Papa. Agora espero para pensar. Bento XVI já não é Ratzinger. É o meu sétimo Papa. Seja minha a solidão deste silêncio, como escreveu o poeta dos 35 Poemas, e dos trinta e cinco cardeais.
20 de Maio 2005 in PÚBLICO
Segunda-feira, 01.02.10
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de 1 a 7 de Fevereiro de 2010
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O Prof. Vitorino Magalhães Godinho acaba de dar à estampa um pequeno volume intitulado “Os Problemas de Portugal – Mudar de Rumo” (Colibri, 2009). É de saudar a vitalidade de espírito do mestre da historiografia moderna portuguesa, que nos apresenta um conjunto de temas, de reflexões e de propostas, que constituem um desafio estimulante a que haja um debate aprofundado sobre o presente e o futuro. E o certo é que, muito mais importante do que uma proposta política, o que está em causa neste contributo é uma reflexão intelectual séria, que merece especial atenção e que deve constituir-se em estímulo e desafio para todos. Nada pior do que continuarmos a oscilar entre o conformismo fatalista dos que preferem ver só os aspectos negativos da vida nacional, sem cuidarem de saber os caminhos que podem e devem ser trilhados, e o optimismo primário dos que julgam que poderemos superar as dificuldades sem trabalho, disciplina, exigência e vontade.

PARTINDO DA SITUAÇÃO PRESENTE, o ensaísta fala-nos de uma crise estrutural, de “entranhadas raízes”, a que se junta uma crise conjuntural de índole económica e financeira. Ora, o único modo de superar este estado de coisas passa por não insistir nos erros passados nem pela tentação de dizer que, passada a borrasca, regressaremos ao anterior “dolce far niente”. Se tal vier a acontecer, arriscamo-nos a ter uma recaída global de efeitos muito mais negativos do que os que sofremos no último ano. E olhando para o mundo, temos de reconhecer que “as políticas de combate à crise pecam desde logo por não se dirigirem contra a verdadeira e complexa crise, e se reduzirem a paliativos”. Eis por que razão a reflexão em causa ultrapassa uma lógica puramente nacional, ainda que parta do caso português. No campo das relações internacionais, é muito pertinente a afirmação da necessidade de valores e princípios universais: “cabe à UNESCO garantir a universalização da concepção humanista, rejeitando a concepção totalitária que atribui direitos aos conjuntos institucionais, mas não à pessoa humana singularmente considerada”. De facto, uma cultura de paz obriga a que o primado do direito internacional se associe a um entendimento da globalização a partir da dignidade humana, do equilíbrio de poderes e influências e de uma legitimidade democrática. Jaime Cortesão falou-nos do “humanismo universalista”, e temos de o entender não como abstracção, mas como construção de vontades e coordenação de esforços, em lugar dos egoísmos nacionais e dos proteccionismos, que apenas tenderão a eternizar as raízes fundas da actual crise. Quanto à União Europeia é conhecido o cepticismo de Vitorino Magalhães Godinho (apesar do seu apego a uma Europa aberta e cosmopolita), no entanto é bom que se oiçam os seus alertas, que constituem avisos à navegação, muito bem-vindos para quem entende que é necessário avançar mais numa Europa de cidadãos e do direito, capaz de coordenar esforços e vontades, de ter voz na cena internacional, de ter um governo económico (não confundível com uma lógica burocrática) e de reforçar a coesão social e económica e a justiça distributiva. E é certo que Portugal deva ser um “estrénuo defensor da pluralidade cultural, contribuindo com todas as outras nações para a cultura comum”.
DE QUE CULTURA SE DEVE FALAR?
De uma “constelação de valores, assente em três pilares – espírito científico, contribuição artística e cidadania”. Como tenho repetido, impõe-se, assim, que a identidade e a diferença se afirmem numa ligação permanente entre pedras mortas e pedras vivas e entre a consciência histórica e a criação contemporânea. O pluralismo exige diversidade de culturas, mas também ligação entre povos e cidadãos. “Porque (como diz o autor) Europa ou é investigação científica e criação cultural ou não é Europa”. Quanto à economia, o historiador fala-nos da necessidade imperativa da economia real, numa palavra, de uma industrialização, desde que planeada. E insiste nas responsabilidades do Estado, fala da urgência da coordenação, descrê de um mercado auto-suficiente… “A iniciativa pública e a iniciativa privada devem conjugar-se”. Modernização e internacionalização têm de se ligar. A nossa experiência histórica ancestral tem de ser, por isso, lembrada. Não podemos continuar dependentes. “A acção do Estado tem de obedecer a directrizes de uma nova estruturação válida para a longa duração”. A melhor maneira de recusarmos o fatalismo do atraso é anteciparmos as iniciativas indispensáveis para que possamos tirar o maior partido possível do que somos e do que temos. Daí a necessidade de ligar economia, ciência, educação e cultura. Se não aprendermos com a experiência, se não formos mais exigentes na educação e na formação não avançaremos. Daí ainda a insistência especial na reestruturação do Estado – constituído por um conjunto de sistemas organizacionais, cada qual com a sua especificidade. Trata-se, todavia, de um tema em profunda mutação, devendo compreender-se que há espaços novos de partilha e articulação de soberanias que têm de ser compreendidos e aprofundados. Não falamos apenas do Estado tradicional, mas de um Estado moderno que é, a um tempo, grande e pequeno de mais, e que precisa da coordenação supranacional, da afirmação nacional, da desconcentração e da descentralização. Alexandre Herculano dizia aos eleitores de Sintra “é necessário que a vida pública renasça”. E afirmava ainda que “a descentralização é a condição impreterível para a administração do país pelo país”. Eis o que teremos de ter em linha de conta, devendo haver capacidade de orientar, de coordenar e de planear.
E O SISTEMA EDUCACIONAL?
O “seu papel é tanto mais relevante, quanto a economia em todas as suas facetas supõe agentes com uma base de cultura geral que lhes permita o pensar”. Para que a aprendizagem seja o factor essencial do desenvolvimento, impõe-se que haja ligação entre educação de qualidade para todos e vida activa, e que haja relevância das formações (artísticas, técnicas, profissionais). Daí a consideração da especificidade dos diversos níveis de educação – capazes de permitir que se conheça melhor “o mundo em que vivemos”, “a nossa pátria e os seus rumos” e o “ser humano, no singular e no plural”, numa palavra, precisamos que haja consciência geral da dignidade humana. Precisamos de ser culturalmente mais exigentes, para que deixemos de estar condenados à periferia, à mediocridade ou à menor relevância. E falar de uma política de cultura é pensar na herança histórica, na memória e no património, mas (e não é de mais insistir) também na educação, na criação contemporânea e na ciência. Bibliotecas, arquivos, museus, preservação do património arqueológico e artístico, ligação à protecção do meio ambiente – tudo tem de ser devidamente entendido e protegido, mas sempre em ligação com o ensinar e o aprender. Releia-se António Sérgio nas suas páginas luminosas sobre a Educação Cívica. Estão actualíssimas e representam a melhor herança republicana.
UMA CITAÇÃO OPORTUNA
Jacques Attali, é citado pelo Professor Magalhães Godinho, quando, a propósito da justiça e segurança, diz sobre a corrupção: “não devemos perder tempo a atacar os jogadores, mas sim a mudar as regras de jogo”. Trata-se de um domínio da maior importância para a confiança dos cidadãos. Mais do que todas as considerações gerais ou demagógicas, preocupadas em encontrar bodes expiatórios, é preciso ir à etiologia do mal. E diz-nos o ensaísta: “o que chamamos corrupção não passa, salvo casos precisos, de regular funcionamento da economia na sua estrutura actual, e se queremos debelar o mal, temos é de mudar essa estrutura…”. Eis por que razão a prevenção se torna prioritária, para que se não confunda combate da corrupção e procura de efeitos imediatos sem qualquer resultado a prazo largo. É a confiança das pessoas que está em causa, o que obriga a clareza e simplicidade das leis, a celeridade dos procedimentos e a boas práticas de um Estado que tem de se afirmar como pessoa de bem. Daí que haja a necessidade de combater as disparidades em nome de uma sociedade saudável “não desequilibradamente inigualitária” e de construir sistemas de serviços públicos eficazes (saúde, educação, segurança, disponibilidades materiais, organização política e acesso à cultura) – do mesmo modo que se impõe o ordenamento do território e a regulação da população e das migrações, bem como a coordenação e a articulação de acções e de níveis de decisão (centrais, regionais e locais). Afinal, debater ideias pode-nos levar a melhorar, deixando as duas atitudes de que nos queixamos – do derrotismo ao optimismo infundado. Precisamos sim de reflexão e da modéstia (concordando e discordando livremente) que nos levem a cultivarmos vontade e ética partilhadas. (J.L., 27.1.2010).
Guilherme d'Oliveira Martins
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Domingo, 31.01.10
por Joana Lopes

Se é totalmente incorrecto fazer coincidir o início da oposição dos católicos ao salazarismo com a década de 60, não há dúvida que foi nela que se deu a verdadeira explosão de actividades daquela oposição. Dois factores contribuíram decisivamente para que isto acontecesse: dentro da Igreja, as perspectivas de abertura criadas pelo Concílio Vaticano II e o conservantismo da Igreja portuguesa; na sociedade em geral, a ausência de liberdades elementares e a manutenção da guerra colonial, com todas as insuportáveis consequências que arrastou. Ao invocarem a sua condição de católicos em iniciativas cada vez mais radicais, aqueles que o fizeram atingiram um dos pilares ideológicos mais fortes do regime e este foi acusando o toque.
É certo que se tratou de uma oposição que manteve sempre uma certa informalidade organizativa. Concretizou‑se em iniciativas e instituições, mais ou menos ligadas entre si através dos seus membros, mas, em parte propositadamente, sem uma estruturação sólida e definida. Daí derivaram fraquezas e forças e, definitivamente, características específicas.
A Pragma foi uma dessas instituições – com uma importância e projecção ainda relativamente desconhecidas. Foi fundada por um grupo de católicos, em Abril de 1964, como uma «Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária». Porquê uma cooperativa? Porque foi a forma de tirar o partido possível de uma lacuna legislativa: as cooperativas não tinham sido abrangidas pelas limitações impostas ao direito de associação e, por essa razão, nem os seus estatutos eram sujeitos a aprovação legal, nem a eleição dos seus dirigentes a ratificação pelas entidades governamentais. Forçando uma porta entreaberta por um lapso do poder, os fundadores da Pragma puseram mais uma peça no puzzle da oposição ao regime – cuidadosa e imaginativamente.
Desde o seu núcleo inicial, a Pragma não se restringiu ao universo «intelectual» e incluiu também sócios provenientes do meio operário, nomeadamente dirigentes e militantes das organizações operárias da Acção Católica. Os horizontes abriram-se rapidamente e muitos dos seus futuros membros nem sequer seriam católicos. Aliás, a Pragma acabou por funcionar também como uma espécie de plataforma aglutinadora de elementos da esquerda não-PC que, por não estarem integrados em qualquer estrutura organizativa, nela identificaram um espaço de debate e de encontro (foi o caso, por exemplo, de muitos activistas das lutas estudantis de 1962).
Subjacente a este novo projecto estava, obviamente, um posicionamento de oposição ao regime como um todo, à falta de liberdades, à guerra de África. Pretendeu‑se explorar mais uma janela legal de oportunidades, complementar outras iniciativas, criar possibilidades para acções concretas e úteis, aumentar a consciência política e social de um número cada vez maior de pessoas.
Os três primeiros anos
Mário Murteira foi o sócio nº 1 e o primeiro Presidente da Direcção. Nuno Teotónio Pereira, sócio nº 2 e segundo Presidente, manteve-se até ao fim como o seu principal animador.
«Oficialmente», os Estatutos definiram como objecto da Cooperativa: «a) – Facultar aos seus sócios a maior defesa económica nos artigos que possam adquirir ou produzir; b) – Promover o aperfeiçoamento moral, cultural e técnico dos sócios e suas famílias [...]; c) – Instalar casas de férias para sócios e famílias.»

Durante os primeiros três anos, estes objectivos, nomeadamente os dois primeiros, foram concretizados num número absolutamente notável de iniciativas.
Na área da promoção cultural e técnica, para além de um ciclo de cinema e de exposições, organizaram-se, em três anos, largas dezenas de cursos (com muitas aulas), colóquios (com várias sessões), conferências e reuniões temáticas. Nalgumas destas iniciativas, participaram centenas de pessoas. Escolhiam-se os títulos «possíveis», o que se passava na realidade ia bem mais além…

Em Abril de 1965, por ocasião de um colóquio sobre Planeamento económico e progresso social, a Pragma organizou uma exposição baseada no Parecer da Câmara Corporativa sobre o Plano Intercalar de Fomento para 1965‑1967: sessenta painéis com fotografias, gráficos e comentários, em que os textos e dados estatísticos foram extraídos dos documentos oficiais. O Parecer, que era muito crítico, tinha sido elaborado por Francisco Pereira de Moura, então Procurador à Câmara Corporativa. Depois de exibida em várias localidades, acabou por ser apreendida pela PIDE, em S. Mamede de Infesta.
A PIDE esteve atenta à Pragma desde o início. Em processo próprio arquivado na Torre do Tombo, há informações sobre actividades e pessoas ligadas à Cooperativa desde 1964, bem como relatórios de informadores da PIDE.
A realização de sessões públicas pressupunha uma autorização prévia concedida pelo Governo Civil. A Pragma submeteu por isso um pedido relativo a uma conferência sobre Emigração – situação de crise ou factor de progresso?, que deveria ter lugar em 28 de Fevereiro de 1967. Depois de consultada a PIDE, que considerou «inconveniente» a realização da sessão, o Governo Civil de Lisboa indeferiu o pedido. Compreende‑se a razão – emigração era um tema especialmente sensível, já que, em 1966, tinham sido 125.000 os portugueses que, legal ou clandestinamente, tinham deixado o país. Devido à recusa de autorização por parte do Governo Civil, o ciclo sobre emigração ficou limitado aos sócios, que assistiram às duas primeiras sessões na sede da Cooperativa. A terceira deveria ter tido lugar precisamente no dia em que a sede foi encerrada pela PIDE.
Começou então uma nova etapa na vida da Pragma. Entretanto, a Cooperativa tinha crescido rapidamente ao longo dos três primeiros anos: de 111 sócios em Dezembro de 1964, passara para 216 no fim de 1965 e para 305 no de 1966. Em Abril de 1967, tinha 340 sócios.
O encerramento da sede e as reacções
No dia 6 de Abril de 1967, quando se encontravam na sede da Cooperativa, na Rua da Glória, Natália Teotónio Pereira e António Macieira Costa, apresentou‑se uma brigada de agentes da PIDE, com ordem para realizar uma busca às instalações. Esperaram por Nuno Teotónio Pereira, então já Presidente da Direcção, entretanto avisado. Um painel com documentos sobre emigração atraiu imediatamente a atenção dos agentes. Deveria realizar‑se, nessa mesma noite, a já referida terceira sessão sobre aquele tema, intitulada Visão histórica da emigração portuguesa, sob a orientação de Joel Serrão e com a colaboração de Vitorino Magalhães Godinho.
Enquanto decorriam as buscas, chegou alguém que passou a ser objecto de comportamento reverente por parte dos agentes e que foi apresentado a Nuno Teotónio Pereira como o «Subdirector Sachetti». Agitado, apontou para o painel e terá dito:
«Ali está o que nós suspeitávamos! São estas as ideias que vocês espalham. Hão‑de ver na Polícia a criminosa acção que estão a fazer. Um desgraçado em África traiu os seus camaradas e disse que a culpa era toda vossa!»
As instalações foram seladas para que a diligência pudesse continuar no dia seguinte. Nuno Teotónio Pereira seguiu com os agentes para a sede da PIDE – de táxi – e foi mais tarde levado para a prisão de Caxias. A caminho da cela, iniciou este extraordinário diálogo com o guarda que o acompanhava:
- Tem havido muito movimento?
- Não, pouco, isto está muito parado e muitas celas estão vazias. E o que dá ainda alguma coisa é a emigração. Políticos agora são menos. O senhor é da emigração ou dos políticos?
- Sou dos políticos.
- Pois é, disso tem havido pouco. Compreende: cada um trata mas é da sua vida.
Vinte e quatro horas depois, foram presos outros elementos da Direcção: João Gomes, António Macieira Costa, Nuno Silva Miguel e Ana Marques [hoje Ana Vicente]. Em todos os casos, houve buscas domiciliárias, interrogatórios na sede da PIDE e detenção em Caxias, até 10 de Abril, dia em que foram libertados juntamente com Nuno Teotónio Pereira.
Acontece que, para o dia seguinte, estava marcado um serão de convívio comemorativo do terceiro aniversário da Cooperativa, a ser realizado na Sociedade Nacional de Belas Artes. A PIDE proibiu a realização da sessão, comunicou essa proibição aos dirigentes da Pragma antes de os pôr em liberdade e obrigou‑os a comprometerem‑se, por escrito, a fazê‑la respeitar.
Nesse 11 de Abril, precipitaram-se vários acontecimentos. Os jornais publicaram uma Nota Oficiosa da PIDE sobre as razões para o encerramento da sede da Pragma. Uma resposta, enviada imediatamente pela Direcção, foi cortada pela Censura e não foi portanto divulgada por nenhum órgão de comunicação social.
Alguns membros dos órgãos dirigentes pediram uma audiência ao Cardeal Patriarca de Lisboa para o porem ao corrente dos acontecimentos. Pouco antes da hora prevista para a dita audiência, os sócios tomaram conhecimento da proibição do serão de convívio, através de um aviso afixado na porta fechada da Sociedade Nacional de Belas Artes. Resolveram dirigir‑se também para o Patriarcado, onde os dirigentes esperavam a reunião com Cerejeira. Aglomeraram-se à entrada mais de duzentas pessoas. Tinham entretanto chegado forças da PSP, mas as portas abriram‑se e todos entraram para o átrio, o que evitou males maiores.
Com data de 13 de Abril, foram redigidos dois abaixo‑assinados, um dirigido ao Presidente da República, outro aos Bispos Portugueses. O primeiro foi assinado por 280 pessoas de vários quadrantes políticos, todos sócios ou colaboradores da Pragma, católicos ou não, o segundo por 547 católicos. Houve 124 assinaturas comuns aos dois documentos, o que significa que, em conjunto, estas iniciativas mobilizaram 827 pessoas – número absolutamente notável e excepcional para a época.
Organizaram-se verdadeiras brigadas para recolha de assinaturas e não só em Lisboa. Por exemplo no abaixo‑assinado endereçado aos bispos Portugueses, houve larga participação do Porto, e também de Coimbra, Estremoz, Évora, Leiria, Santarém e Marinha Grande. Entre os subscritores, contavam‑se vinte e cinco padres ou membros de ordens religiosas.
Importa sublinhar o esforço que representou esta recolha de assinaturas. Se hoje é possível criar uma Petition Online na Internet em menos de um minuto e se podem obter milhares de adesões em pouco tempo, a vida era bem diferente em 1967: recolha porta a porta, em papel azul de vinte e cinco linhas, sem Internet, sem telemóveis, com telefones fixos vigiados pela polícia, com correio apreendido, com poucos automóveis. (Os serões que eu passei calcorreando Lisboa, «cravando» um amigo mais timorato mas com posses para ter carro, que me esperava enquanto eu subia lanços e lanços de escadas – é que também não havia assim tantos elevadores…)
Foi também grande a repercussão do encerramento da sede da Pragma na imprensa internacional, tanto de orientação católica (Informations Catholiques Internationales, Témoignage Chrétien, etc.), como de grande circulação (Le Monde, New York Times, The Times).
Tempos difíceis
Depois de ouvidos advogados, foi considerado que o facto de a sede estar inacessível, e de os seus dirigentes serem objecto de instauração de um processo pela PIDE, não impedia que a Cooperativa prosseguisse as suas actividades.
Iniciou‑se então um árduo percurso, recheado de iniciativas e assente em fortes laços de solidariedade que permitiram cedências de locais e de outros meios logísticos. Sociedade Nacional de Belas Artes, Bombeiros Voluntários Lisbonenses, Centro Nacional de Cultura, Casa da Imprensa, Capela do Rato, Igreja de S. João de Brito e outras instituições foram abrindo as suas portas para reuniões, colóquios, conferências, Assembleias-gerais. Entre Abril e Dezembro de 1967, o número de sócios aumentou de 340 para 390.
Intensificou‑se também, naturalmente, a acção da PIDE quanto a proibição de sessões. Em 9 de Setembro de 1967, agentes da PIDE impediram a discussão sobre As possibilidades económicas no acesso à Universidade – Inquérito Geral à Universidade promovido pela Juventude Universitária Católica. Nuno Teotónio Pereira foi chamado à PIDE para prestar declarações, depois de um debate que foi possível realizar em 16 de Novembro, na Igreja de S. João de Brito, com a participação de mais de 500 pessoas, sobre O III Congresso Mundial para o Apostolado dos Leigos. (Repare-se na «perigosidade» dos temas acima indicados…)
Paralelamente, deu‑se início a um longo processo de contestação do encerramento da sede, que incluiu um recurso para o Supremo Tribunal Administrativo. Este viria a tomar uma posição favorável à Pragma, em Julho de 1968, embora essa decisão não tenha tido quaisquer efeitos práticos.
* * *
Existiam, paralelamente à Pragma, outras cooperativas mais ou menos afins. A mais próxima era a CONFRONTO, fundada no Porto à imagem e semelhança da Pragma. Regressado de Angola, Mário Brochado Coelho liderou este projecto e, em 27 de Julho de 1966, foi eleito Presidente da Direcção, sendo Francisco de Sá Carneiro o Presidente da Assembleia-Geral e sócio nº 1.
A CODES, uma cooperativa de carácter cultural e socioeconómico, tinha sido criada em 1962 e alguns dos seus membros foram, desde a primeira hora, sócios ou estreitos colaboradores da Pragma. Mais tarde, foram fundadas a DEVIR, ligada ao Partido Comunista Português, e a CED – Cooperativa de Estudos e Documentação, afecta aos primórdios do Partido Socialista.
Entretanto, já durante o marcelismo, em 27 de Novembro de 1971, foi publicado um decreto (570/71) que assimilou as cooperativas que exercessem qualquer tipo de actividade cultural, independentemente do seu objecto principal, às outras associações. Estatutos e dirigentes passaram então a ficar sujeitos a aprovação governamental, o que provocou uma forte contestação no seio do movimento cooperativo. Os dirigentes da CED entregaram aos deputados da Assembleia Nacional uma longa exposição, pedindo-lhes que não ratificassem o decreto. Obviamente, não veriam este seu pedido satisfeito…
A Pragma prosseguiu. Em 20 de Janeiro de 1972, ainda realizou uma Assembleia Geral nas instalações do Centro Nacional de Cultura. Participou, no dia seguinte, numa Reunião Nacional de Cooperativas, que teve lugar em Coimbra. Em 3 de Fevereiro de 1972, a PIDE emitiu um ofício interno, assinado pelo chefe Mortágua, ordenando uma busca às instalações da antiga sede da Pragma na Rua da Glória, «a fim de apreender livros, documentos, valores ou objectos, que possam interessar à instrução de uns autos em curso na Direcção Geral de Segurança». Recebeu como resposta que, na referida morada, se encontravam, desde há quatro anos, os «Armazéns Primavera», dedicados ao comércio de roupas… Não encontrei documentos sobre actividades da Cooperativa posteriores a estas datas. Mas sei que nunca foi legalmente encerrada.
A história da Pragma é uma bela história. Ela ilustra bem alguns ambientes da última década do fascismo. Mobilizou muita gente, abriu horizontes, influenciou muitos jovens que foram chamados para combater na guerra colonial – alguns desertaram, outros tiveram um papel activo, como milicianos, na alteração de mentalidades, e na preparação do 25 de Abril.
Muitos dos sócios, dos colaboradores, e mesmo dos dirigentes, estavam longe de ser perigosos esquerdistas!… Queriam a liberdade, a paz, o desenvolvimento e o progresso social – um país decente.
Quarta-feira, 27.01.10
OS MEUS SETE PAPAS (I)
1. Agora que isto acalmou um bom bocado, quer em matéria de papas quer em matéria de vigílias, posso dar-me ao luxo de desfiar, nos meus romanizados rosários, contas dos papas da minha vida e de os relembrar um a um, entre arminhos e solidéus, sédias gestatórias ou detidas. Setenta anos, sete papas. Muitos anos? Não há dúvida. Muitos papas? Assim agora não me parece ou me aparece, mas a uma média de dez anos por papa, pode ser que as aparências iludam. Embora eu tenha vivido o terceiro pontificado mais longo de que a Igreja conserva memória (João Paulo II) e um dos pontificados mais curtos dos últimos sete séculos (João Paulo I).
2. A bem dizer, o meu primeiro Papa Papa de mim não foi, embora o dr. Freud, que morreu sete meses e dezasseis dias depois dele, me tenha querido ensinar, sem grande resultado, que foi o Papa de que o meu inconsciente mais ouviu falar. Refiro-me a Pio XI, o Papa Ratti, que reinava em Roma quando eu nasci e morreu, três dias depois de eu fazer quatro anos, a 10 de Fevereiro de 1939, aos 81 anos. Aos quatro anos, alguém se lembra de papas? Acreditem-me ou não, se não me lembro dele, lembro-me muito bem (vá-se lá saber porquê) do dia da morte dele. Era à hora de almoço. Eu estava em casa de uns tios postiços que moravam no mesmo prédio do que eu, no segundo andar que ficava por baixo da casa da minha avó. Na casa de jantar, havia uma telefonia, dessas com ponteiro, olho luminoso verde e lãzinha branca a aconchegar os baixos. E foi da dita, ou na dita, que deram a notícia da morte do Papa. Não devo ter prestado atenção, pois o que recordo é a voz acaciana do meu velho tio (com idade para ser meu avô) a dizer-me solenemente: "Morreu o Santo Padre." Talvez tenha ficado confundido com a ideia de os santos morrerem. Talvez não associasse padres a santos, de tanto ouvir dizer que os padres ralhavam. Talvez outra razão qualquer. Mas a morte de Pio XI chegou-me em directo. Mais tarde, já grandinho ou já velhote, o Papa que queria que o futuro o conhecesse como "o Papa da Acção Católica", o papa da Mit Brennender Sorge e da Non Abbiamo Bisogno, o Papa que "tarde, demasiado tarde na vida", descobriu que as ameaças à Igreja não vinham só de um lado, e que as do lado oposto não eram menos fortes, esse Papa, Pio XI, dizia eu, olhei-o sempre com particular afecto. A paz de Cristo no Reino de Cristo. Seis meses depois da morte dele, findo um pontificado de dezassete anos (1922-1939) começou a guerra do diabo.
3. Não me lembro de ninguém me ter dito que a 2 de Março desse mesmo ano, ao fim de três escrutínios e no primeiro dia de conclave (coisa que há trezentos anos não acontecia), o cardeal Pocelli, que nesse mesmo dia completava 63 anos, fora eleito e tomara o nome de Pio XII. As minhas primeiras imagens dele, ascético e severo, remontam aos dias em que Roma deixou de ser cidade aberta e houve igrejas bombardeadas. Pio XII deixou então o Vaticano para consolar os feridos e chorar os mortos. Quando a guerra acabou, gregos e troianos louvaram o Pastor Angelicus e a sua acção em favor da paz. Em 1950, ex cathedra, num Ano Santo a que só não fui pela maldição de uma bruxa, proclamou o Dogma da Assunção de Maria e, aos 15 anos, extasiei-me, mais do que me interroguei, com essa solene afirmação da infalibilidade papal, a primeira (e a única) desde os tempos de Pio IX.
Depois, ele foi o Papa dos meus anos de brasa, os anos da Acção Católica. Formei-me com a Divino Afflante Spiritu, que relançou os estudos bíblicos, ou com a Mediator Dei sobre a renovação da liturgia. Morreu, diz-se, ouvindo a Sétima Sinfonia de Beethoven, que amava mais do que as outras e Jorge de Sena dedicou-lhe um belíssimo poema na Fidelidade: "Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo / mesmo no mal que consentis que eu faça / por ser-Vos indiferente, ou não ser mal / ou ser convosco um bem que eu não conheço." Foi a 9 de Outubro de 1958 e soube da notícia no mesmo dia em que soube que ia ser pai pela primeira vez. Para mim, morrera mais do que o meu primeiro Papa. Morrera o meu único Papa. O Papa por antonomásia.
4. Foi assim com algum escândalo (obviamente, o escândalo admissível num crente então fiel e obediente à Igreja) que, a 28 de Outubro, soube que fora eleito Papa o cardeal Roncalli, quase a completar 77 anos, ou seja, muito mais perto das idades com que morreram Pio XI (81) e Pio XII (82) do que das idades com que tinham sido eleitos, em papados sensivelmente com a mesma duração. Um amigo meu deu voz ao que eu sentia: "Os cardeais terão mesmo ouvido o Espírito Santo ao escolherem um Papa de transição?" (era a explicação mais correcta para a surpresa da escolha: após dois pontificados longos e fortes, um pontificado breve que servisse para pensar no futuro). A primeira surpresa veio com a escolha do nome de João XXIII, recuperado a um anti-Papa de 1410 a 1415 e que ninguém usara mais desde o século XV. Depois vieram todas, todas as surpresas desse papado inacreditável: a convocação do Concílio, a inauguração do Concílio, a Mater et Magistra a Pacem in Terris. O bom Papa João. Repararam bem quão estranho é chamar bom a um Papa? Mas foi com esse cognome que ele ficou, tão amado pelos não crentes como pelos crentes ou mais ainda pelos primeiros do que por muitos segundos. Vivi, sob ele, os mais exultantes anos do meu catolicismo. Não chegaram a ser cinco. João XXIII morreu a 3 de Junho de 1963, aos 81 anos.
5. Já quando Pio XII morreu, eles haviam sido os mais "papabile". Refiro-me aos cardeais Alfredo Ottaviani e Giovanni Montini. O primeiro era chefe do Santo Ofício e acusavam-no de reaccionarismo. O segundo, arcebispo de Milão, com fama de homem aberto ao novo e ao moderno. "Cantemos ao Senhor um Cântico novo." Os dois voltaram a ser falados em 1963. O que eu rezei para um Papa chamado Montini! E ele chegou, sob o nome de Paulo VI, a 21 de Junho, com 65 anos. Foi um dos dias mais felizes da minha vida e eu tinha apenas 28 anos! E o nome do Papa era o nome do Apóstolo das Gentes.
Poucos meses depois, já se falava de "fundo Roncalli, forma Pacelli", contrastando a rigidez do novo Papa com a bonomia do seu antecessor. Mas o Concílio continuava, começavam as viagens papais (a histórica peregrinação à Terra Santa em Janeiro de 1964) e foi a continuidade muito mais que a ruptura que eu li na encíclica Ecclesiam Suam de Agosto de 1964. Lembro-me que o meu elogio ao texto papal, nas páginas de O Tempo e o Modo, me valeu uma resposta zangada de um amigo ex-católico, então muito mais à esquerda do que eu. Ele, que, agora muito mais à direita, manda para braços anglicanos todos os "protestantes" (mesmo os mais silenciosos) à eleição de Ratzinger, acusava-me então de poetizar e lembrava-me que ao contrário do que dizia o alemão Novalis (compatriota de Ratzinger) o mais poético podia não ser o mais verdadeiro.
Paulo VI na ONU, em 1965. Mas, bruscamente, fez há muito pouco tempo trinta e oito anos, Paulo VI em Fátima, recebido por Salazar. Foi a única vez que vi um Papa. Foi o único Papa que eu vi. Não em Fátima, mas junto ao Mosteiro da Batalha, quando de Fátima ele regressava em carro aberto, olhos imensamente azuis, como nunca até esse dia eu os supusera. Por esses anos, por esses tempos, mudou muito a imagem pretérita de Pio XII, quando os silêncios do Vaticano perante a Alemanha nazi começaram a ser muito falados. Pio XII devia ter falado? Paulo VI devia ter recusado vir a Portugal? Essa questão - ou essas questões - ainda hoje as não resolvi dentro de mim. Se os olharmos como chefes institucionais (e a Igreja é uma instituição), eles defenderam-na como a deviam ter defendido, sem atrevimentos inauditos e sem riscos temerários para a unidade que lhes cabia preservar. Mas se os olharmos como pastores do povo de Deus (e a Igreja é o povo de Deus) por que temeram se o próprio Cristo garantiu a Pedro que as portas do Inferno nunca prevaleceriam contra as da Igreja? E foi no tempo do Papa que eu mais "elegi" que eu cheguei à conclusão que o sumo pontífice não podia ser um modernizador mas um contemporizador, não podia ser uma Antígona mas um Creonte (para recuperar uma imagem antiga). Podia escandalizar intelectuais impacientes como eu, mas não mansos ou feros pobres de espírito. Em 68, com a encíclica Humanae Vitae, Paulo VI enfrentou de peito aberto a revolução sexual nesse ano triunfante. Católicos insurgiram-se por todo o mundo, numa contestação inédita. Quem mudará? Eu, por certo, mudei, nesses últimos dez anos do pontificado de Paulo VI. Octogesima Adveniens? Mas 80 anos depois da Rerum Novarum, onde estavam as coisas novas? Onde estão hoje, em que a Humanae Vitae é menos contestada do que os seus contestatários de 68? Talvez por isso esse Papa seja, na minha memória, o mais amargurado e o mais torturado dos papas da minha vida. Por que é que pensar nele me faz pensar na morte?
6. Estava em casa diante da televisão, quando, em Agosto de 1978, pouco depois da morte de Paulo VI, aos 81 anos e com quinze de pontificado, nos foi anunciado novo magnum gaudium. Contra todas as previsões, apareceu-me como Papa João Paulo I, Albino Luciani, patriarca de Veneza (como João XXIII) aos 65 anos. Nunca me esquecerei da alegria - infantil ou angélica - com que surgiu à varanda e com que deu a primeira bênção. Foi o primeiro Papa a usar dois nomes, em dupla homenagem aos seus mais imediatos antecessores. À época escrevia crónicas no Diário de Notícias. E o meu texto sobre a eleição de João Paulo I foi tão delirante que Mário Mesquita (à época director do jornal) se espantou com a minha inabalável fé (fé de um ex-católico) no Espírito Santo, que escolhera para Papa o papa do Pinocchio. Depois fui até aos Japões e pensei mais em budistas, à Sylvia Sidney, do que em papas. Já no regresso, no aeroporto de Nova Deli, vindo do Taj-Mahal, folheei um jornal. Numa página interior, em corpo pequeno, falava-se da morte do Papa. "Meu Deus" - pensei eu - "como este jornal é antigo, o Papa já morreu há quase dois meses." Quando li a notícia, percebi. Quem morrera a 28 de Setembro, depois de um pontificado de 34 dias, fora esse mesmo João Paulo I, de que eu esperava nem sei bem o quê, mas sei quanto. Nunca acreditei na tese absurda do assassinato. Mas acredito que Deus, às vezes, atravessa muito depressa a vida dos homens. (continua)
13 de Maio 2005 in PÚBLICO
Segunda-feira, 25.01.10
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de 25 a 31 de Janeiro de 2010
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Edgar Morin (1921) publicou em 1997 “Uma Política de Civilização” (Instituto Piaget, s.d.), com Samir Naïr, onde os dois autores se interrogam sobre o futuro indecifrável em que estão lançadas as sociedades contemporâneas. Com a crise da ideia de progresso, nasce a incapacidade de reflectir sobre os problemas globais e locais, enquanto ocorrem tendências para a intolerância e o fanatismo. Para os pensadores, é indispensável mudar de rumo, redefinir a vida em comum e elaborar o que designam como “política de civilização”, considerando-a como um renascimento que reponha o ser humano, a pessoa, como meio, fim, sujeito e objecto da política.

EM BUSCA DOS FUNDAMENTOS…
Os temas do livro correspondem às tarefas fundamentais exigidas ao mundo contemporâneo: a busca dos fundamentos perdidos; a relação entre a mundialização, o liberalismo e as novas oportunidades lançadas pela inovação e pelo desenvolvimento, bem como a consideração da incerteza democrática e da ética política. Daí dizer Edgar Morin: “tal como é necessário estabelecer uma comunicação viva e permanente entre passado, presente e futuro, também é preciso estabelecer uma comunicação viva e permanente entre as singularidades culturais, étnicas, nacionais e o universo concreto de uma Terra pátria de todos”. Por isso, as finalidades propostas pelos autores tornam-se urgências: salvar o planeta do desenvolvimento técnico-económico e do nosso subdesenvolvimento moral e mental; regular e controlar os processos de transformação; reflectir e reformular o desenvolvimento humano, respeitando a diversidade das culturas; e last but not least repensar, instaurar, restaurar e regenerar a democracia. Numa palavra, importa civilizar a terra, solidarizar, confederar a humanidade, no respeito pelas culturas e pelas pátrias, e transformar a espécie humana em humanidade. E como E. Morin afirmou no seu livro célebre “La Méthode”: «temos de compreender que a revolução dos nossos dias joga-se não tanto no terreno das ideias boas e verdadeiras, opostas numa luta de vida ou de morte às ideias más e falsas, mas no terreno da complexidade do modo de organização das ideias». Daí a necessidade de uma política de civilização, que pretende ser uma política multidimensional na qual todos os problemas humanos têm hoje um dimensão política. E essa política deve ter como imperativos: solidarizar (contra a atomização e a compartimentação); revitalizar (contra o anonimato); conviver (contra a degradação da qualidade de vida) e moralizar (contra a irresponsabilidade e o egocentrismo). Num texto recente, publicado no “Le Monde” (11.1.2010; El Pais, 17.1.2010), Edgar Morin foi mais além do que tinha ido anteriormente e retomou o tema, desenvolvendo-o à luz dos acontecimentos recentes. Aí refere que “para evitar a desintegração do ‘sistema Terra’ é urgente mudar os modos de pensar e de vida”. O título da reflexão é, significativamente, “Éloge de la métamorphose”, e a proposta é de uma profunda transformação geral, para encontrar novas razões de esperança. Mais do que a “revolução”, trata-se de apostar em algo mais fundo e duradouro, que designa por “metamorfose”.
ELOGIO DA METAMORFOSE
“Quando um sistema é incapaz de tratar os seus problemas vitais, degrada-se, desintegra-se, ou então é capaz de suscitar um meta-sistema para tratar dos seus problemas, metamorfoseando-se”. A verdade é que há sinais de alarme – perigos nucleares, degradação da biosfera, desregulação da economia mundial, regresso das fomes, conflitos étnicos, políticos e religiosos, que podem transformar-se em guerras de civilizações… Estamos, por isso, confrontados com um perigo real de fragmentação e de desintegração, que Morin considera provável. Assim, a hipótese da metamorfose torna-se improvável, mas possível. A natureza está cheia de exemplos de metamorfoses – a lagarta encerra-se na crisálida, num processo de auto-reconstrução; e o nascimento da vida pode ser encarado como a metamorfose de uma organização físico-química. A formação das sociedades históricas no Médio Oriente, na Índia e na China, no México e no Peru fez-se por metamorfose, a partir das organizações arcaicas, que produziram as cidades, o Estado, as classes sociais, a especialização do trabalho, as religiões, a arquitectura, as artes, a literatura e a filosofia – e também a escravatura e as guerras. No século XXI, a evolução das sociedades históricas para uma “sociedade-mundo” prenuncia o perigo da destruição da humanidade. Francis Fukuyama fala mesmo, dialecticamente, de um esgotamento das capacidades criadoras da evolução humana, mas Edgar Morin contrapõe que devemos pensar que, ao invés, é a história que se esgota, e não as capacidades criadoras da humanidade. Para o pensador francês de origem sefardita, a noção de metamorfose é muito mais rica que a de revolução, uma vez que preserva a radicalidade transformadora, mas liga-a à conservação, da vida e da herança das culturas. Sendo impossível travar a tendência que conduz aos desastres, devemos pensar que as grandes transformações começam com uma inovação, uma nova mensagem desviante, marginal, modesta, tantas vezes invisível… Não foi assim com as novas religiões ou até com o capitalismo? E na ciência, o que fizeram Galileu, Bacon e Descartes? Afinal, tudo está por repensar e por recomeçar. Importa, deste modo, aproveitar o movimento criativo que está a despertar um pouco por toda a parte. “São essas vias múltiplas que poderão desenvolver-se em conjunto, conjugando-se para formar o novo caminho, que nos conduzirão à metamorfose ainda invisível e inconcebível”. Se a consciência de que há uma Terra-pátria se afirma e consolida, é preciso que a mundialização e a desmundialização coexistam, afirmando-se esta última pela proximidade, pela ruralidade periurbana ou pelas comunidades locais e regionais. Já no tocante ao crescimento e ao decrescimento, é preciso fazer crescer os serviços, as energias verdes, os transportes públicos, a economia plural (incluindo a economia social e solidária), os alojamentos humanizados das megapólis e a agricultura biológica, mas também fazer decrescer as intoxicações consumistas, a alimentação industrializada, a produção de objectos não recicláveis, o tráfego automóvel e a camionagem (em benefício do caminho de ferro). Quanto ao binómio desenvolvimento / envolvimento, Morin chama a atenção para ir além dos bens materiais, da eficácia, da rentabilidade e do calculável, devendo haver o regresso de cada um às suas necessidades interiores, à vida interior e ao primado da compreensão do outro, do amor e da amizade. E mais do que denunciar é preciso enunciar.
CINCO PRINCÍPIOS DE ESPERANÇA
Edgar Morin formula cinco princípios de esperança: (a) o surgimento do improvável; (b) as virtudes geratrizes e criadoras inerentes à humanidade; (c) as virtudes da crise; (d) a combinação com as virtudes do perigo; (e) a aspiração multimilenar da humanidade à harmonia. O autor de “La Méthode” começa por recordar que foi a resistência de Atenas ao poderio persa que criou condições para que a democracia começasse a dar os primeiros passos e se implantasse e lembra ainda a reviravolta da 2ª Guerra aquando da ofensiva alemã diante de Moscovo, que parecia invencível. O improvável pode surgir e tem de ser aproveitado pela humanidade. Por outro lado, se no corpo humano há células mãe dotadas de aptidões polivalentes, também na sociedade humana há virtudes regeneradoras, geratrizes e criadoras que, embora adormecidas, podem entrar em acção. “Onde cresce o perigo, cresce também o que salva”, a oportunidade máxima é inseparável do risco supremo – assim o pensador aponta no sentido de não se dever aceitar qualquer posição conformista ou fatalista. Por fim, recorda as generosas aspirações da humanidade, desde que existe, afirmando que elas renascem periodicamente, alimentando os caminhos reformadores e as transformações necessárias. Nesta linha, urge renovar a esperança e retomar as causas e os ideais, que parecem ter-se desvanecido nas últimas décadas. E o certo é que, aqui e agora, trata-se de salvar a humanidade profundamente ameaçada. “A esperança verdadeira sabe que não é certeza. Trata-se da esperança não no melhor dos mundos, mas num mundo melhor. A origem está diante de nós, como dizia Heidegger. A metamorfose será efectivamente uma nova origem”.
Guilherme d'Oliveira Martins
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Outros livros...
Sexta-feira, 22.01.10
Faleceu Francisco Vasconcellos e Sousa, personalidade ligada ao grupo de fundadores do Centro Nacional de Cultura.
Licenciado em direito, teve um papel importante no final da década de 50, na fase em que alternavam na direcção do CNC um grupo monárquico e um grupo democrático mais interventivo políticamente, aquela em que Francisco Sousa Tavares e Sophia de Mello Breyner Andresen marcaram a presidência e vida do Centro.
Francisco Vasconcellos e Sousa nunca se afastou da vida cultural, tendo sido vice-presidente do Centro Nacional de Cultura que lhe presta aqui a sua sentida homenagem.
Quarta-feira, 20.01.10
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OS ANOS DE MÁRIO SOARES
1 - Quando, em 1940, restauraram os chamados "Painéis de S. Vicente" (…) alguém observou certas semelhanças entre um dos rostos do hipotético "Painel dos Pescadores" e o semblante do Dr. Oliveira Salazar. Ao que se contava (sobre os Painéis não juro nada), quem reparou não resistiu a mandar dar uma "mãozinha" e pediu ao restaurador que retocasse a figura por forma a tornar a parecença mais sensível. Quando eu era criança e me mostravam os Painéis, o suposto Salazar era uma atracção quase idêntica ao suposto Infante D. Henrique. Se a história só tem interesse em termos hagiográficos, como manifestação do culto da personalidade, não deixa de ser verdade que Salazar, paramentado à século XV, não destoaria nos Painéis. Ele bem podia ter figurado - se fosse já nascido- entre os 58 personagens que se apertam em torno da imagem duplicada do santo. Não lhe faltava a "malinconia", a austeridade, a severidade, a solenidade, até a rudeza. Se, um dia, se vierem a identificar, com rigor, os protagonistas e figurantes dos Painéis, não me espantava nada que me viessem dizer que um avoengo do homem de Santa Comba se conta entre eles. Falei de Salazar, por causa da história que contei. Se se pensar em Vasco Gonçalves ou em Cunhal, em Freitas do Amaral ou em Cavaco, também os podemos ver prefigurados nessas tábuas. Um há, contudo, que absolutamente, não descende dos vultos dos Painéis. Esse é aquele que se chama Mário Soares e que, na próxima terça-feira, 7 de Dezembro, completa 80 anos. Porque é menos português do que os outros? Muito pelo contrário, poucos, como Mário Soares, serão tão retintamente portugueses e tão inseparáveis do nosso passado e do nosso presente. Mas é de outra família. O Vicente de quem descende não é o tristérrimo santo que nos Painéis é figura central. É o Vicente da Barca e dos Almocreves, do Juiz da Beira e dos Farelos, que passa por fundador do nosso teatro.
Nos tempos em que andei pelo Convento de Jesus a cursar Histórico-Filosóficas - Mário Soares também por lá andou -, o prof. Delfim Santos, ao explicar-nos as diferenças entre os tipos caracterológicos EAS (Emotivo-Activo-Secundário), os chamados "apaixonados", e EAP (Emotivo-Activo-Primário) os chamados "coléricos", costumava dar como exemplo dos primeiros Salazar, e como exemplo dos segundos, Francisco da Cunha Leal, então (era isto em 1955 ou 1956) o vulto mais conhecido da oposição democrática. Para grande escândalo das minhas colegas marxistas, via nessa oposição caracterial parte da razão das suas oposições políticas. Nunca conheci pessoalmente Cunha Leal, mas não tenho qualquer dúvida de que, se Mário Soares, nesses anos, já fosse famoso, Delfim Santos teria tido um bem melhor exemplo de antagonismo visceral, não desfazendo nos viscerais antagonismos ideológicos.
Para tudo resumir: a melancolia e o pessimismo lusitanos nunca pegaram em Mário Soares. Para quase todos nós, a contrição. Para ele, o júbilo. É dos raros políticos nossos de quem nunca ouvimos o fado do sacrifício, ou o fardo do dever. Fados e fardos não são com ele. Sacrifícios, ainda menos. Lembro-me de uma hora mais amarga (não lhe faltaram) em que eu o lamentei. Respondeu-me rápido: " Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele." E ele soube sempre confundir hábito com habitação. Ou, como escreveu algures Carlos Queiroz: "Só na nossa cama / É que se dorme bem / Só dorme quem ama / a cama que tem."
2 - Quando eu "acordei" para a política (Maio de 1958, campanha do general Humberto Delgado), Mário Soares, embora já com vasto "curriculum" político para um homem de 33 anos, era ainda, para o "vulgo" em que eu me situava, um nome relativamente desconhecido. Só o vim conhecer pessoalmente em 1962 e em circunstâncias que nada tiveram de político. Eu era, à época, professor eventual do Liceu Camões, e Rui Grácio, que eu tinha substituído no ano anterior no Liceu Francês, escreveu-me a dizer que Mário Soares procurava um professor de História para o Colégio Moderno (então dirigido pelo pai dele) e que lhe sugerira o meu nome. Fui visitá-lo. Entre os 27 e os 37 anos, dez anos são grande diferença, que senti mais acentuada pela pose "directorial" com que Soares me recebeu. Ele conhecia bem o meu "curriculum" de "católico progressista" do grupo da Morais e do António Alçada (de quem era muito amigo) e conhecia até, como vim a verificar pelo decorrer da conversa, o meu "curriculum" como professor errático, com três anos de inexperiência. Mas não procurou "pontes". Fez-me um interrogatório cerrado (meramente pedagógico) que me deixou pouco à vontade. Fiquei com a impressão de que não me ia entender com aquele homem (impressão que foi prevalecente durante coisa de vinte anos) e declinei o convite em que ele não insistiu. Se relato este insignificante episódio, é para salientar dois outros traços da personalidade de Soares que o futuro tão largamente confirmou: a autoridade natural, que três anos depois (em 1965) o catapultou para líder da oposição não comunista e o gosto de jogar ao gato e ao rato, quando lhe aparecia pela frente alguém com mais olhos que barriga. Mal sabia eu "que ce n'était qu'un début". Dois meses depois, quando o grupo fundador de "O Tempo e o Modo" decidiu abrir-se a não católicos, o António Alçada avançou imediatamente com os nomes de Mário Soares e Salgado Zenha, com quem julgava mais fácil estabelecer o famoso "diálogo" crentes-não crentes. Assim nós achámos todos (depois daquela história da "Avé-Maria" que eu tornei célebre) no conselho consultivo da revista, onde também tinham assento, além dos católicos da Morais, os jovens expoentes da crise universitária desse ano: Jorge Sampaio, Manuel de Lucena, Vítor Wengorovius, etc. Nessa altura, aprendi, depressa e muito, as clivagens entre esses vários grupos: o que era a ASP (Acção Socialista Portuguesa), como desconfiava dela a geração de 62, em tempos do MAR (Movimento de Acção Revolucionária), e como havia mais medos de um conluio "democrata-cristão" (nós) e "sociais-democratas" (Soares-Zenha) do que de quem guardava domingos e dias santos de guarda. Aprendi a admirar, em Soares, a diplomacia e o optimismo. Quando se tratava de engolir coisas que eu queria fazer passar, como "primado do espiritual" ou "primado da pessoa humana", Soares deixava essas guerras ao quezilento Zenha e distanciava-se ironicamente delas. Muito mais do que as reuniões, até altas horas da noite, interessavam-lhe os convívios ao jantar ou, depois das ditas, de que era o grande animador. O regime estava sempre a acabar. "Não dura até ao fim do ano", foi uma frase que invariavelmente lhe ouvi, entre 1963 e 1974. À 12ª vez acertou. Outras vezes, eram histórias heróicas da oposição, em Nelas ou em Vila Pouca de Aguiar. "Tínhamos connosco todas as forças vivas da terra." "Oh, dr. Bénard" - interrompia, sarcástico, Salgado Zenha - "o que o dr. Mário Soares chama 'forças vivas' era um farmacêutico e um notário que se borravam de medo de cada vez que ouviam falar da PIDE." Quem não tinha medo da PIDE era ele, apesar das oito ou nove prisões que já contava. Eu já conhecia, de ouvir contar, os míticos silêncios de Cunhal e a célebre história da inofensiva chave, que se recusou a identificar durante doze dias de tortura do sono. "Para perceberem que eu não falo nunca." Soares escolhera a táctica inversa. Preso, falava sem cessar, mas nunca ninguém o apanhou numa palavra que não devesse ser dita. Resistiu até a uma acareação com um denunciante, que acabou com este a desdizer-se e a pedir-lhe desculpa por ter inventado uma história que era mais do que verdadeira. Quando o deixavam isolado na cela durante meses, ocupava o tempo a escrever romances. "Quando me mandaram cá para fora, estava tão entretido, que até me apeteceu pedir-lhes que me deixassem acabar o capítulo." Algumas vezes me passou pela cabeça que aquele homem viria a ser Presidente da República? Nunca. E no entanto... E, no entanto, há um instantâneo que eu nunca mais esqueci e me está tão gravado na memória como se fosse ontem. Foi em 1964, no Cinema Europa, ali a Campo de Ourique, por ocasião de um festival de cinema qualquer. Eu estava à porta da sala e, de repente, algo me fez olhar para a entrada. Mário Soares vinha a entrar, vagarosamente, acompanhado por alguns amigos, vestindo um sobretudo de pêlo de camelo. Não se passou nada de especial, a maior parte dos presentes nem sequer o conhecia. Mas eu disse ao Nuno de Bragança: "Parece que chegou o Presidente da República." E no entanto... A despedida que Salazar lhe preparou, em 1968, quando o exilou para São Tomé, com a carga pidesca sobre quem ousara despedir-se dele (foi a única vez que fui sovado pela polícia, com requintes de humilhação) mostrava que o ditador estava menos distraído do que eu e media melhor a perigosidade daquele homem, que regressou, meses depois, quando o outro caiu da cadeira abaixo. Em 1969, andámos às bulhas entre a CEUD a CDE. Vi-o tão duro a atacar como magnânimo a esquecer. Como é que ele dizia? "Enquanto o regime durar não tenho inimigos à direita; depois, não terei inimigos à esquerda." Ou era ao contrário? Já não me lembro bem, mas tanto faz. Ele mudou sempre, mas foi sempre o mesmo. "Mudar só não mudam os burros", foi outra frase dele. O resto é conhecido. Em 1985, findas muitas desavenças, aceitei, desde a primeira hora, integrar a Comissão de Honra dele e vi-o a passar de candidato dos dez por cento a vencedor, em Janeiro de 1986. Aos 61 anos, chegava ao lugar em que eu o vira, por uns segundos, em 1964. E foram dez anos de uma gloriosa presidência, jubilosamente vivida. Da última vez que falei com ele, citou-me um adversário que, fulo com ele, começou por protestar elevada consideração pelo pai da nossa democracia e - continuou Soares - "desfiou aquelas balelas todas". Balelas? Quando um homem chega aos 80 anos e fez o que ele fez, dele e do país, e viveu o que ele viveu, ele e o país, "balelas" só mesmo na boca dele. Parabéns, Mário Soares! Todos, sempre, lhe deveremos tudo. Mesmo os que não o sabem.
3 de Dezembro 2004, Público.
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