de 14 a 20 de Maio de 2012
«Daqui houve nome Portugal» é uma antologia emblemática da literatura relativa à cidade do Porto, da autoria de Eugénio de Andrade (2ª edição, Asa, 2000), da iniciativa de José da Cruz Santos, no ano de 1968. É sem dúvida «o mais belo retrato das pedras e das gentes do Porto». Merece estar sempre presente na nossa memória.
O CARÁTER DA CIDADE INVICTA
Eugénio de Andrade diz que "a cidade o que tem, sobretudo, é carácter - um carácter que faz do cidadão do Porto o mais belo estilo de se ser português". Tem razão. A síntese é feliz e adequada, merecendo ser compreendida. E Sampaio Bruno, mestre de várias gerações de pensadores (como Leonardo ou José Marinho), afirmava que "no Porto, o pão tem de ser laboriosamente conquistado dos lucros do comércio". Isto, enquanto Raul Brandão falava do Porto "filho do rio e do mar" e Jaime Cortesão recordava os portuenses que conquistaram "as suas liberdades palmo a palmo, em luta armada com os seus bispos, de quem a cidade fora senhorio feudal, e com os turbulentos fidalgos de Entre Douro e Minho…". Desta forma se criou no Porto uma "verdadeira república urbana, como as suas congéneres da Flandres e da Itália", distinguindo-se destas "pelo profundo sentimento de comunhão com que compartilhava as aspirações e os riscos da pátria maior". Aí "burgueses e mesteirais organizaram-se como classe e conquistaram as garantias de liberdade, sem as quais o trabalho se torna servidão e a vida perde dignidade". E nessa luta ancestral, lembre-se o Arco de Sant'Ana, escrito por Garrett no Convento dos Grilos, após o desembarque do Mindelo, no cerco heroico que culminaria com a vitória da causa liberal em Évora Monte. Aí se ilustra, com laivos de metáfora, a insurreição popular contra um bispo barregão, no tempo do rei D. Pedro I. E em ambos os casos venceu a causa emancipadora. É este o burgo medieval que Garrett descreve, que dará lugar à "cidade comercial, civilizadamente cosmopolita" desenhada por Ramalho Ortigão.
CIDADE DE CAMILO
Mas estamos ainda perante a "cidade de Camilo", segundo Teixeira de Pascoaes. Lá está a janela do cárcere na Cadeia da Relação, lembrando Ana Plácido e a escrita inspirada e intensa do Amor de Perdição. E não disse Nemésio que o Porto era "a raiz territorial e étnica que deu crescimento ao país"? Afinal, a cidade não nos deixa indiferentes e foi sempre marcante na história portuguesa. Eugénio de Andrade lembra, por isso, três figuras que se tornaram, cada uma à sua maneira, símbolos da cidade - Fernão Lopes, Almeida Garrett e Camilo. E se se fala do cronista de 1383, temos de ir ao Mestre de Aviz e a D. Filipa de Lencastre, ao Infante D. Henrique e a um tempo fundador na afirmação dos "fatores democráticos na formação de Portugal". Do mesmo modo, ao lembrarmos Almeida Garrett, temos de recordar (aqui por contraponto a Camilo Castelo Branco) a causa liberal, desde pelo menos 24 de Agosto de 1820, a liderança de D. Pedro IV, o labor legislativo de Mouzinho da Silveira, o patriotismo dos irmãos Passos e a consolidação do constitucionalismo. E de Camilo fica o enorme talento, a sua vida aventurosa e a magnífica capacidade de nos dar as imagens marcantes de um período de heroísmo e de traição - numa sociedade rebelde contra os privilégios, mas ciosa das suas tradições. Mas há ainda Júlio Dinis de «Uma Família Inglesa», que retrata a cidade laboriosa e comercial, os jantares do Águia d’Ouro, os serões de Manuel Quintino, a agitação da Bolsa do Porto, o Teatro de S. João, onde se encontram Carlos Whitestone e Cecília…
PORTO, DIFERENTE DE TUDO
Por mim, poderia dizer, como Rodrigues Miguéis: "alfacinha, tenho um fraco pelo Porto". Porquê? Pela liberdade, pela história e por sentir aqui as minhas origens. Lá está à beira da rua da Boavista, nas Águas Férreas, uma das casas das minhas raízes - as mesmas raízes que me levaram a representar, com orgulho e honra, de 1991 a 2005, o povo do Porto na Assembleia da República. De facto, o Porto é diferente de tudo. Sente-se-lhe a alma. Sente-se-lhe o inconformismo. Torga referiu-se-lhe como "velha e livre cidade", com "uma saudável consciência gregária, uma solidez de processos de conduta e relação" - a "única grande cidade castiçamente nossa". E Ruben A. não podia dizer melhor da sua cidade ao proclamar, como exemplo vivo do que é ser-se do Porto - "que ensina ao homem os seus deveres cívicos e que lhe tributa direitos que não despreza por forma alguma, cidade extraordinária de consciência política no que de mais nobre tem esta palavra em ligação com o valor humano da pessoa integrada nas defesas da comuna". E como esquecer o Porto de Agustina Bessa Luís, que invoca "uma paixão e um selo de resistência". Toda a cidade tem "uma alma de muralha" - muralha, que infunde em nós uma doce tristeza europeia, um orgulho de atividade, um desenho de pompas escravas, um sonho económico, uma impraticável fé de liberdade". A muralha fernandina lá está para atestar o carácter invicto da cidade - no Caminho Novo em Miragaia ou nos Guindais - mas também a torre medieval do solar dos Terenas e Monfalins, talvez morada do lendário Pedro Sem, na rua da Boa Nova, perto do Palácio de Cristal… Mas como não falar da Torre dos Clérigos do italiano Nicolau Nasoni? E como não lembrar o velhinho Palácio de Cristal, de inspiração britânica, cuja primeira pedra foi lançada por D. Pedro V, e que foi infelizmente demolido nos anos quarenta do século XX para dar lugar ao atual Pavilhão dos Desportos, que agora convive com a importante Biblioteca Municipal de Almeida Garrett? No velho Palácio fotografaram-se os célebres Cinco - Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro - num dia em que Eça pagou com um leque representando cinco cães uma aposta perdida ao bilhar com a sua noiva D. Emília de Castro. «Quem muito ladra, pouco aprende» (Antero); «Escritor que ladra, não morde» (Oliveira Martins); «Dentada de crítico, cura-se com pelo do mesmo crítico» (Ramalho); «Cão lírico ladra à lua; cão filósofo aboca o melhor osso» (Eça); «Cão de letras, cachorro» (Junqueiro)… E se falo de autores, tenho de referir livros e uma peregrinação imprescindível à Livraria Lello, na rua das Carmelitas, lugar mágico para acolher livros, ideias e pessoas - o que não permite esquecer as visitas para viciados à Académica, à Leitura ou à Modo de Ler… Mas o Porto moderno e cosmopolita de hoje passa necessariamente pela Casa de Serralves (que foi propriedade dos industriais conde de Vizela e conde de Riba de Ave) e pelo Museu de Arte Contemporânea - com arquitetura de Marques da Silva a Siza Vieira. E aí sente-se que o Porto se mantém fiel às "saudades do futuro". Como diria ainda Garrett: «Nós os do Porto, podemos trocar os bês pelos vês, mas nunca trocamos a liberdade pela tirania». Que melhor síntese poderemos encontrar?
Guilherme d’Oliveira Martins
(Pedro Cunha - in Público)
Falar de Bernardo Sassetti é referir um dos mais talentosos músicos portugueses de sempre, com dimensão internacional. Digo-o sem receios. E se dúvidas houvesse bastaria referir a sua participação no filme de Anthony Minghella «O Talentoso Sr. Ripley». A melodia que lembramos é «My Funny Valentine», o intérprete é Matt Damon. O pianista escondido era o nosso Bernardo. E Minghella tanto gostou que lhe pediu para tocar nas ante-estreias do filme em Chicago, Los Angeles, Nova Iorque e Roma - a partir de obras por si compostas com o trompetista Guy Barker - o mais famoso inglês na sua disciplina. Esta história não vale só por si - corresponde ao reconhecimento exigente do talento de Berrnador Sassetti. Era uma pessoa modesta, mas consciente do que podia fazer com a sua qualidade artística. A literatura era uma das suas paixões, como a fotografia, a pintura, o cinema - tudo afinal o que era o mundo. E insisto no facto de ser uma das grandes referências da arte contemporânea. Ouvi-lo é como senti-lo a usar as cores, os claros, os escuros, as impressões. Falei com ele longamente da sua paixão pela poesia de Sophia de Mello Breyner - e era espantoso o seu amor pela literatura como vida. Há dias fomo-nos despedir de Fernando Lopes e lembrei-me de «98 octanas» - mas também de «A Costa dos Murmúrios» de Margarida Cardoso e Lídia Jorge» ou de «Milagre segundo Salomé» de Mário Barroso e Rodrigues Miguéis. Mas havia também o teatro como em «A Casa de Bernarda Alba» (com encenação de Diogo Infante e de Ana Luísa Guimarães) ou «Frei Luís de Sousa, na leitura de Ricardo Pais. E depois (ou antes de tudo) o extraordinário concertista, com Mário Laginha e Pedro Burmester, ou como Carlos Barretto e Alexandre Frazão. Originalíssimo compositor, cultor da música contemporânea - capaz de ligar o popular, o jazz, o clássico, em suma,uma linguagem universal da arte e do coração
Guilherme d'Oliveira Martins
de 7 a 13 de Maio de 2012
Os Catálogos da Biblioteca Nacional de Portugal têm-se singularizado pela sua qualidade. Tal é o caso agora de «Alfredo Margarido – Um Pensador Livre e Crítico», exposição comissariada por Isabel Castro Henriques, com coordenação de Fátima Lopes e Manuela Rêgo. Trata-se de um documento importante que apresenta ao público em geral e aos estudiosos sobre a lusofonia e as literaturas africanas de expressão portuguesa em especial o contributo crítico de um intelectual empenhado e de qualidade, como foi Alfredo Margarido.

UMA EXPOSIÇÃO OPORTUNA
A exposição organizada pela Biblioteca Nacional sobre Alfredo Margarido (1928-2010) homenageia «um pensador livre e crítico» e permite abrir horizontes sobre o tema da lusofonia. Personalidade multifacetada, conheceu muito bem África e pôde assumir uma reflexão para além dos diferentes lugares comuns de matizes múltiplos ou de quaisquer paternalismos. Nesse sentido, constitui uma referência fundamental para assumirmos, de forma desafogada, o «humanismo universalista», de que falou Jaime Cortesão, em termos abertos e inovadores, a partir de um movimento plural e centrífugo, entendendo a língua portuguesa como ponto de encontro de várias culturas. A sua personalidade libertária e inconformista, o seu labor incansável, a diversidade de temas e de interesses que cultivou constituem elementos fecundos que nos permitem ganhar novas dimensões da idiossincrasia lusófona sempre que lemos os seus textos e os seus ensaios.
Se nos ativermos ao «Dicionário de Autores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa» do saudoso mestre Aldónio Gomes (nome que não pode ser esquecido, e cuja obra continua a exigir a maior atenção) com Fernanda Cavacas, Alfredo Margarido usou na sua extensa e profusa obra, além do seu próprio nome, pseudónimos como Lúcio Câmara, Manuel Kandiba e Paulo Saraiva, sendo inicialmente técnico agrícola e jornalista, e depois licenciado e doutorado em França. Expulso de Angola por motivos políticos, viveu muitos anos em Paris, tendo sido investigador, pensador, poeta, romancista, ensaísta e crítico literário. «É reconhecido como um dos históricos dos estudos literários africanos com Mário de Andrade e Manuel Ferreira». E como não lembrar Manuela Margarido, sua primeira mulher, figura essencial na lusofonia africana, que conheci pessoalmente na UNESCO, e que teve uma presença forte na ligação à cultura africana de Alfredo?
UM ESPÍRITO LIVRE
Eugénio Lisboa bem o definiu: «Era, como os melhores, um monte de contradições: um rezingão inteligente que disfarçava os seus afetos, um cultor da palavra acerada e perscrutadora que escondia, com pudor e alguma malícia, o seu talento de artista plástico, um erudito sólido que fazia, com desenvoltura, poesia e romance, um provocador profissional que amava o convívio e sabia cultivar as amizades, um professor que gostava de desarrumar a sabedoria estabelecida e convidava à irreverência fundamentada, em suma, um cavalheiro de opinião diferente, sempre preparado para nos contradizer, com um sorriso malicioso e uma voz mansa que amaciava o tumulto». Dificilmente se poderia dizer melhor. Estávamos diante de uma inquietude iluminante, de quem tudo lia e por tudo se interessava. E o catálogo da exposição, contando com uma extraordinária apresentação de Isabel Castro Henriques, ilustra bem essa faceta de desassossego. Trata-se, afinal, de um repositório tocante e exaustivo, onde podemos acompanhar um percurso extraordinário de quem foi «um dos pensadores mais lúcidos da nossa realidade» (Perfecto Cuadrado).
UMA VISITA ELOQUENTE
Visitei há dias a exposição da Biblioteca com o meu querido amigo Eduardo Lourenço. É sempre um fascínio ter esta companhia, depois de termos andado às voltas com o papel dos mitos na interpretação da História. Com uma atenção especial a todos os pormenores, foi exprimindo uma sincera admiração pela capacidade de compreensão e de argúcia de Alfredo Margarido, sempre comparando a evolução dos textos e da reflexão com a belíssima obra gráfica. Há uma rara sensibilidade manifestada nos desenhos expostos, o surrealismo é assumido com doçura e ironia, o colorido suave ilustra uma espécie de representação onírica da literatura – o que entusiasma Eduardo: aqui, os vários heterónimos pessoanos num turbilhão ou num caracol de cabeças; acolá Caeiro pastor de rebanhos, mais adiante Pessoa passeando sobre os telhados ou segurando um balão… Luciana Stegagno Picchio fala de «uma notável técnica de aguarelista», que aproveita «a lição surrealista, modalidade portuguesa de uma geração ilustrada por Alexandre O’Neill ou um Mário Cesariny».
SINGULARIDADE NA EXPRESSÃO ARTÍSTICA
Entre a descoberta dos textos, das referências, das pequenas e grandes audácias, aqueles desenhos entusiasmam o visitante. Eduardo Lourenço recorda o primeiro contacto, no já distante ano de 1953, através de «Poemas com Rosas». Depois lembra o surrealismo em Luanda, com Cruzeiro Seixas («o Margarido era muito sociável e eu preferia o sol e o mar, encontrar um estranho búzio, as noites e a gente jovem»). Perfecto Cuadrado fala da singularidade da expressão artística de Alfredo Margarido. «Lúcido, crítico e livre, poeta no olhar, no pensar e no dizer uma realidade que continua a precisar de uma profunda reabilitação desde os territórios concêntricos e sucessivos do moral, do ético, do político e do estético». E convém lembrar Teixeira de Pascoaes, que tanto entusiasmou o jovem A. Margarido - «a luz é cada vez mais luz». Eduardo Lourenço recorda a importância e o prestígio dos textos no «Diogène» (como «Incidences socio-economiques sur la poèsie noire d’expression portugaise» de 1962) - e vem à baila Marc Ferro a dizer: «Il avait la sagacité de Fernand Braudel, l’inventivité d’Eric Hobsbawm, la curiosité multiforme de Roland Barthes». Lá estão os «Cadernos de Circunstância», com Manuel Villaverde Cabral e Fernando Medeiros.
UMA LÍNGUA VIVA DOS SEUS FALANTES
Os textos têm uma rara pertinência, e ao vê-los num conjunto, percebemos que o autor manteve-se sempre atento aos novos fenómenos, sabendo que o desenvolvimento moderno precisa de autonomia e diálogo, de singularidade e reciprocidade. E Eduardo Lourenço aponta-me uma frase, que obriga a um sério repensar. Sinto que se coloca abertamente ao lado de Margarido: «A nossa modernidade, criada pelas independências africanas, obrigou o país a cortar uma parte substancial dos seus laços com o Atlântico, que foi sempre o Oceano das nossas grandes incursões, mesmo se o Índico não pode ser afastado desta reflexão (…). A invenção da lusofonia procura com algum desespero devolver-nos uma parte desse espaço (…). A maior parte dos missionários da lusofonia agem como se não tivéssemos atrás uma longa história de relações polémicas com aqueles que escolheram falar português». Este é um tema fulcral. E Eduardo Lourenço sente que ali estão as suas preocupações fundamentais: «A língua nasceu em Portugal e pertence aos portugueses. Não se consegue aceitar o princípio simples de que a língua pertence àqueles que a falam! Aceitemos a leitura crítica do passado, o que será sempre ocasião para impedir que alguns dos nossos melhores vícios se transformem em virtudes». É esse aguilhão da crítica que tem de funcionar, para tirar as lições dos erros e para fazer dos mitos motivo de compreensão.
Guilherme d’Oliveira Martins
Por M. Teresa Bracinha Vieira
Há dias assim: acreditámos e bem que o filme sobre a vida do boxeur Belarmino Fragoso em 1964 constituiu um marco de sensibilidade única na tela e uma forte referência ao que ficou conhecido por Cinema Novo.
Assim, e não apenas com esta riqueza nos deixa Fernando Lopes.
Fernando Lopes que tão bem escrevia, era a par com Manoel de Oliveira, uma das grandes referências devidamente apontada pelo Plano Nacional de Cinema.
“Uma Abelha na Chuva”, adaptação do romance de Carlos de Oliveira ao cinema não nos deixa dúvidas acerca da magia no manejo das artes por este inesquecível Ser humano.
Foi condecorado pelo Governo francês com a Ordem do Mérito Artístico e Mário Soares atribui-lhe a Ordem do Infante D. Henrique.
Por nós foi quem nos condecorou com a medalha do aprender melhor a olhar de frente os sempre sedentos deuses das artes e dentro destes os deuses de uma generosa sétima arte.
2.05.12
Sec. XXI
Por Teresa B. Vieira
Faz parte da vida dos livros, revisitá-los. Os Poemas Escolhidos, de Yorgos Seferis surgiram- me numa tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis editado pela Relógio d’Àgua em 1993.
Yorgos Seferis nasceu em Esmirna em 1900. Diplomata conceituado, advogado, estudante na Sorbonne em Direito e Letras e Professor na Universidade de Atenas, foi considerado um dos mais importantes poetas gregos do século XX.
Nobel laureado “ Pela sua escrita lírica, inspirada por um sentimento profundo do mundo helénico e da sua cultura”, no seu discurso no Banquete
Nobel em 1963 afirma com particular enfase:
«A poesia tem as suas raízes na respiração humana (…) é um acto de confiança e quem sabe se o nosso mal-estar não é devido a uma falta de confiança?»
Deste modo de pensar e de sentir a escrita poética surge-nos um escritor num desencadear provocativo de organizadas questões fulcrais, um escritor que pretende que se não esqueça o homem dos banhos em que foi afogado ou dos jogos cósmicos do eterno presente.
No poema intitulado O último Dia, eis:
Como morre um homem? Estranho, ninguém reflectiu nisso.
(…) Todavia a morte é algo que é feito; como morre um homem?
Todavia alguém ganha a sua morte, a sua própria morte,
que não pertence a nenhum outro
e este jogo é a vida.
E no mesmo poema, continua
(…) Um casal passou a conversar:
«Fartei-me do crepúsculo, vamos para casa
Vamos para casa acender a luz».
Daqui até ao livro As seis noites na Acrópole, traduzido por Susan Mathias (2007) vai um passo de extrema coerência por entre uma modernidade poética de não fácil acesso, mas dotada de uma trajectória de seta apontada ao alvo.
Afinal, digo hoje, que fora isso o que mais me impressionara no seu livro Os Poemas Escolhidos. As palavras surgiam-me inamovíveis, conquistando a sua própria morte na eternidade da hora em que eram colhidas pelo leitor. Assim, Yorgos Seferis foi e é para mim um conquistador da existência, do valor, do direito à vida quando já nada nos demove dos princípios e das energias.
Surgiu-me hoje a expressão a Yorgos como sendo a sua escrita um acordado sono do mar, e não é que um dos seus poemas também reza:
O sono preenchia-o com sonhos de frutos e folhas;
A vigília não o deixava colher nem uma amora.
Ambos dividiram os seus membros pelas Bacantes.
A verdade é que arriscamo-nos a adoecer se não revisitarmos os livros sobretudo pelo lado que mais se arrisca. Pelo lado em que o soro também nos penetra com uma branda e acutilante ironia.
20.04.12
Sec. XXI
de 30 de Abril a 6 de Maio de 2012
«Corpo e Transcendência» de Anselmo Borges recentemente reeditado pela Almedina (coleção «O Tempo e a Norma», 2011; a 1ª edição é da Fundação Engº António de Almeida, 2003) é uma obra desafiante que põe em diálogo a existência humana em carne e osso e a importância do espírito. Encontramos, aliás, um tema que tanto ocupou Miguel de Unamuno, no «Sentimento Trágico da Vida», e o nosso António Alçada Baptista, em especial em «Peregrinação Interior» - sobre a compreensão da importância da corporalidade na vida pessoal, em contraste com a lógica do pecado essencialmente ligado à carne. De facto, o mistério da Encarnação cristã obriga a olhar com especial atenção a ligação incindível entre corpo e espírito.

EXPERIÊNCIAS NUCLEARES DO TEMA RELIGIOSO
Para Gianni Vattimo há três experiências nucleares que estão na base do renascer contemporâneo do interesse religioso: «a experiência da morte de pessoas queridas com quem tinha pensado percorrer um caminho muito mais longo»; depois a questão da religião tem a ver com a fisiologia da maturação e do envelhecimento; e finalmente, precisamente os limites temporais da realização humana têm como consequência «avivar a esperança» de que a coincidência entre a existência de facto e o seu significado, que «não parece realizável no tempo histórico e no decurso de uma vida humana média, possa realizar-se num tempo diferente». No fundo, o fenómeno religioso leva-nos à interrogação sobre os limites. E que é a inteligência senão essa capacidade de compreender a fronteira para além da qual a razão fica limitada, não podendo fazer mais do que duvidar, interrogar-se ou ter fé e esperança. Longe da ideia de que os limites apelam à irracionalidade, estamos diante do cruzamento exigente e inexorável da razão e da fé. Não estamos nem no domínio da demonstração, nem no campo da certeza, mas sim perante a exigência de aceitar que a incompreensão existe e apela à transcendência – que o cristianismo consagra na aproximação ao próximo ou «ao outro através do não outro, Deus». Pedro Laín Entralgo fala-nos de um corpo vivo num determinado momento histórico, que «trata de entender-se a si mesmo». E assim distingue cinco momentos: «o que sou como resultado de um ato criador (eu e a cosmogénese); o que sou como resultado de uma evolução biológica (eu e a filogénese); o que sou como resultado de um desenvolvimento embriológico (eu e a ontogénese); o que sou como resultado de um devir histórico (eu e a história); o que sou como resultado de um processo biográfico (eu e a minha personalidade)». Deste modo, há um fio condutor que é animado pela esperança e que permite «manter um diálogo sempre aberto e introduzir uma intenção fraternal nos mais ásperos debates» (no dizer de Ricoeur). E estamos, nessa esperança que nos supera, ante um elemento escatológico que unifica e eterniza.
AMOR E MORTE, FACES DA MESMA MOEDA
O percurso dos textos de Anselmo Borges começa exatamente nesse «corpo que espera», continuando: no homem como corpo-pessoa-no-mundo-com-os-outros que interroga o crime económico; nos temas da morte e da eutanásia; do ateísmo, da ética e da mística (dizendo Simone Weil que «Deus é o bem», pelo que «nenhuma revelação no momento da morte pode provocar desgosto» ou arrependimento); na questão de Deus em Fernando Pessoa; no diálogo inter-religioso; no tema do ministério ordenado; - terminando num notabilíssimo ensaio sobre «o tempo para além do tempo». Afinal, como afirma Hannah Arendt: «A questão da natureza do homem não é menos teológica que a questão de Deus». Daí que a pobreza cristã não seja o esquecimento dos bens terrenos e da propriedade, mas sim a lembrança da liberdade e da dignidade - «não sejais escravos de vós próprios». Por outro lado, é a consciência de ser mortal que me força a pensar, colocando-me em estado de constante e inquieta interrogação e abertura ao mistério. Como disse Gabriel Marcel: «Amar um ser é dizer-lhe: tu não morrerás». E Montaigne ensinou-nos que o pensamento é a permanente aprendizagem da morte. Contudo, nos dias de hoje, encontramos, a cada passo, a tentação da indiferença ou a recusa da compreensão da morte, como se, esquecendo o tema, fosse possível resolver o mistério. A sociedade em que vivemos dominada pela tecnociência pratica paradoxalmente o excesso terapêutico e ao mesmo tempo defende a eutanásia ativa, que tem como modelo a realização técnica da morte. O tema é difícil e melindroso e os abusos dos dois termos da contradição deixam-nos perplexos. E Anselmo Borges (que trata do tema com extremo cuidado) pergunta: «Não será precisamente neste paradoxo que se manifesta de modo claro a crise de uma sociedade poderosíssima nos meios, mas sem finalidade humana?». E, se Camus pergunta se é possível ser-se santo sem Deus, o que está em causa é a procura incessante do bem e da dignidade humana, onde quer que se encontrem, sem preconceitos, indo ao encontro de todas as pessoas, quem quer que sejam e onde quer que se encontrem, crentes e não crentes.
O MISTÉRIO INSONDÁVEL DO TEMPO
A obra é extremamente rica abrangendo um conjunto de temas e reflexões que nos levam da mística à ética, da esperança ao amor. O ensaio sobre o tempo é, assim, um magnífico culminar, pondo em contacto tudo quanto ao longo da obra encontramos numa busca fecunda de um humanismo universalista. Como disse Agostinho de Hipona: «Se ninguém me perguntar, eu sei o que é o tempo; mas se alguém me puser a questão e eu tiver de responder, já não sei o que é o tempo. De facto, o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente quando queremos captá-lo já lá não está». A partir daqui pensamos todos os mistérios que nos abalam. Kant afirmou que o tempo é a «intuição pura». E Pascal, ao falar de toda a eternidade que o antecedeu e de toda a eternidade que se seguirá, afirmou: «Só vejo infinidades por todo o lado, que me encerram como um átomo e uma sombra que dura só um instante sem regresso. Tudo o que sei é que vou morrer em breve; mas o que mais ignoro é esta própria morte que não poderei evitar». E Leslek Kolakowski recorda-nos: «Deus não pode criar uma evidência empírica da sua existência que pareça irrefutável ou mesmo sumamente plausível em termos científicos», pois, para isso, teria de fazer «um milagre lógico em vez do físico». Eis por que motivo fé e razão se completam naturalmente, em domínios diferentes. E o certo é que, desde os gregos, que o tempo é naturalmente ambíguo – entre Cronos que devora os seus próprios filhos, sendo uma divindade mecânica, repetitiva e efémera; e Kairos, filho de Cronos, mas referido à liberdade, à duração e à eternidade. E estamos, deste modo, algures entre o físico e o metafísico…, entendendo a relação fecunda entre corpo e transcendência.
Guilherme d’Oliveira Martins
de 23 a 29 de Abril de 2012
Assinalaram-se, no dia 18 de Abril, 170 anos do nascimento de Antero de Quental (1842). Daí que, para homenagear o poeta açoriano chamemos à atualidade o intenso e muito fecundo diálogo que Eduardo Lourenço tem, ao longo do tempo, estabelecido com o poeta micaelense. Por isso mesmo, o ensaísta faz questão de assumir a necessidade de uma compreensão da importância dos mitos para a solução dos nossos grandes enigmas.

UM SEGUIDOR CRÍTICO DA GERAÇÃO DE 70
Eduardo Lourenço é, parece não haver dúvidas, um seguidor crítico da Geração de Setenta. E, ao lermos hoje «As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares» de Antero de Quental depressa percebemos que há ecos evidentes desse momento fundador da modernidade no ensaísmo de Eduardo Lourenço. Se bem lermos «As Causas», compreendemos que há aí uma curiosa convergência de preocupações e ideias no sentido da especificidade da cultura portuguesa, como idiossincrasia resultante de várias influências que confluíram na Finisterra peninsular, que significa, a um tempo, síntese das diferenças e apelo à abertura. E é assim que encontramos, neste duplo movimento de integração e de dispersão, um sentido crítico e heterodoxo, bem simbolizado em Antero, a pensar uma decadência, que procura denunciar e superar, e uma exigência de um caminho de emancipação, capaz de conduzir ao reencontro com as raízes e a uma renovação assente na evolução e na justiça. Para trilhar um novo sentido, haveria que fazer a crítica das condições propiciadoras da decadência: “Erguemo-nos hoje a custo, espanhóis e portugueses, desse túmulo onde os nossos grandes erros nos tiveram sepultados». E encontramos os fenómenos capitais definidores desse decaimento: «três, e de três espécies: um moral, outro político, outro económico. O primeiro é a transformação do catolicismo, pelo Concílio de Trento. O segundo, o estabelecimento do absolutismo, pela ruína das liberdades locais. O terceiro, o desenvolvimento das conquistas longínquas. Estes fenómenos assim agrupados, compreendendo os três grandes aspetos da vida social, o pensamento, a política e o trabalho, indicam-nos claramente que uma profunda e universal revolução se operou, durante o século XVI, nas sociedades peninsulares». E o que Antero verbera é o afastamento e a distância dos povos peninsulares relativamente a uma Europa “pensante e industriosa” e a perda de qualidades antigas - «o seio do povo era fecundo; saíam dele santos, individualidades à uma ingénuas e sublimes, símbolos vivos da alma popular, e cujas singelas histórias ainda hoje não podemos ler sem enternecimento».
A SOMBRA DAS CONFERÊNCIAS DO CASINO
Sente-se na leitura da conferência do Casino Lisbonense a compreensão de que há potencialidades culturais que importa aproveitar e desenvolver – que se demarquem do dogmatismo e da intolerância. Mais do que a herança do iluminismo, que deve ser entendida e superada, estamos perante o abraçar da mensagem liberal de Garrett e Herculano adicionada pelo valor da igualdade, que deveria completar a liberdade, como resposta às novas injustiças do industrialismo. Temos então uma ideia de Europa a reconciliar com a liberdade e a justiça, capaz de ultrapassar os efeitos das guerras religiosas. E é assim que o poeta dos «Sonetos» assume a ligação entre uma vocação universalista e aberta e uma heterodoxia demarcada de um pensamento conformista e acrítico. E vem à memória o diálogo de Damião de Góis e de Erasmo de Roterdão, que até pode dizer-se prolongado no sentido crítico do Padre António Vieira, facto tanto mais evidente quanto é certo que conhecemos hoje a «Clavis Prophetarum» e podemos perceber que, apesar do seu providencialismo, há um núcleo muito interessante e rico que pressupõe uma ideia fecunda e premonitória de universalismo crítico, que permite relermos o «Quinto Império» à luz de um humanismo de horizontes abertos, que pressupõe a génese de uma cultura de respeito mútuo, assente na eminente dignidade das pessoas. Os dissabores de Vieira com a Inquisição, a procura de um entendimento com judeus e cristãos-novos e a ideia de um império espiritual são elementos que contrariam, no fundo, uma leitura apressada e conjuntural da obra do orador. E, numa perspetiva mais ampla, lembramo-nos de Jaime Cortesão e da sua inteligente ligação entre fatores democráticos, universalismo humanista (de raiz franciscana) e respeito crítico. Longe de qualquer tentação anacrónica, Antero vem dizer, com muita clareza, que não somos um povo eleito nem enjeitado, que temos virtudes e defeitos, como todos, mas que compreendemos a exigência de uma sociedade mais humana.
A PSICANÁLISE MÍTICA
Ora, Eduardo Lourenço tem, nesta linha, procurado persistentemente procede a uma «psicanálise mítica do destino português», com base no sentido crítico e autocrítico, na demarcação heterodoxa e na síntese de diversas dimensões culturais centradas na ideia de imperfeição. Diz-nos o ensaísta num texto hoje esquecido: «a mitologia é a verdade dispersa, túnica rasgada de um deus morto a quem só podemos ressuscitar juntando com paciência piedosa todos os pedaços. Esta tarefa é superior às nossas forças. Por isso, os egípcios confiavam a Ísis a missão divina de caminhar sozinha através da noite para fazer da seara cintilante das estrelas o corpo único do seu esposo ressuscitado, Osíris, o sol brilhante». E o certo é que nesse texto, intitulado «Ísis ou a Inteligência», de 1954, publicado recentemente na revista «Relâmpago» (nº 22, 4/2008), vê-se a atitude fundamental do pensador na sua relação com o mito e a História, compreendendo que a grande dúvida de Antero e da sua geração tinha a ver com a inserção dos mitos na tarefa de compreender e interpretar a evolução histórica. Os mitos procuram interpretar os acontecimentos. Oliveira Martins aproximou-se dessa ideia ao falar de um fundo céltico no sebastianismo e na personalidade coletiva dos portugueses. De facto, os mitos não servem por si para explicar, mas para desnudar, para revelar e para abrir o horizonte da crítica. Diz ainda Eduardo Lourenço: «perceber uma coisa é ver outra no lugar daquela que estamos vendo. Entender uma ideia é ver outra no lugar dela. Sempre a ausência é o pano de fundo da presença, mas essa ausência é a grande presença. O dia não brilha enquanto é dia, mas brilha na ausência, brilha e é dia sob o fundo da noite. Dia e noite jamais dormem na mesma cama, mas a nossa onde dormimos é noite e dia». Ao lermos este fragmento, vem-nos à memória a poesia de Jorge de Sena e a paixão de António Tabucchi por Fernando Pessoa. O mistério da interpretação heteronímica do autor do «Livro do Desassossego» tem a ver com aquilo que, melhor do qualquer outro, viu o ensaísta do «Labirinto»: para além da interpretação positivista ou formal, puramente racional ou idealista, tudo está na compreensão crítica da complexidade e da diversidade. Por isso, Eduardo Lourenço tem sido acusado de pecados contraditórios, ao recusar a interpretação unilateral e simplificadora, sabendo que a crítica deve ser sempre ambivalente, interrogando a ausência, porque «perceber uma coisa é ver outra no lugar daquela que estou vendo». O mito de Ísis está presente. E, quando na obra de Antero se fala de ironia espiritual para explicar a ambivalência pascaliana, temos de compreender que esse dilema é a vivência do sentido crítico como expressão da liberdade.
Guilherme d’Oliveira Martins
Por Guilherme d’Oliveira Martins
Assinala-se hoje o “Dia Internacional dos Monumentos e Sítios” sendo este ano proposto o tema “Do Património Mundial ao Património Local – Proteger e gerir a mudança”. Temos de entender que a cultura entra na ordem do dia como sinal de criatividade e de humanismo. No fundo, só há economia para as pessoas se compreendermos as raízes, a história, a memória, a herança e cultura como criação. Assinalamos ainda o 40º aniversário da aprovação da Convenção para a Proteção do Património Mundial Cultural e Natural, adotada na 17ª Conferência Geral da UNESCO de 1971, importante instrumento internacional no qual se assume um compromisso solene de defesa da cultura e da natureza, num tempo em que os riscos de destruição do património e de esgotamento dos recursos afetam gravemente o desenvolvimento humano. Com efeito, “o património cultural e o património natural estão cada vez mais ameaçados de destruição não apenas pelas causas tradicionais de degradação, mas também pela evolução da vida social e económica que os agrava através de fenómenos de alteração ou de destruição ainda mais importantes”. Este documento tornou-se referencial uma vez que consagra obrigações especiais no campo da cultura. Os monumentos, os conjuntos e os lugares de interesse devem ser devidamente considerados e respeitados. Contudo, não se trata apenas de cuidar das edificações, mas sim de considerar essas marcas de civilização como polos de desenvolvimento humano. As raízes e a história dizem-nos de onde vimos, mas também apontam para a necessidade de nos respeitarmos mutuamente. As culturas só se enriquecem abrindo-se e cooperando. Apenas dando e recebendo podemos contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável e aberto. Por isso, falar de Monumentos e Sítios é abrir horizontes para que a sociedade assuma projetos de humanismo e de solidariedade, de respeito, de liberdade e de igualdade. A cultura é marca de exigência e de rigor. Através dela encontramos a distinção da qualidade. Através dela percebemos que a economia e a poupança são valores positivos contra a destruição e o desperdício. Eis por que razão a cultura tem de estar no centro da ação contra a crise, contrapondo sobriedade à mera austeridade.
Realiza-se este ano em Portugal o Congresso Europeu do Património Cultural, organizado pela Europa Nostra e pelo Centro Nacional de Cultura, culminando a 1 de Junho com a sessão solene de entrega dos prémios europeus nos Jerónimos. Trata-se da mais importante realização sobre o Património Cultural que todos os anos tem lugar, constituindo oportunidade para o reconhecimento do que de melhor se faz nesse domínio, incentivando as boas práticas e as melhores experiências. A circunstância desta iniciativa ter lugar em Lisboa, atraindo as organizações europeias de defesa e salvaguarda do património histórico, é significativa, uma vez que se trata da demonstração de que um país antigo como Portugal tem de assumir um claro protagonismos neste domínio. Saliente-se, aliás, que há menos de um ano, a 1 de Junho de 2011, entrou em vigor a mais moderna Convenção Internacional sobre esta matéria – a Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o Valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea, assinada em Faro em 27 de Outubro de 2005. Nesse importante instrumento que completa as Convenções de Granada, La Valetta e Florença consagra-se pela primeira vez, com todas as consequências, o conceito de património imaterial da UNESCO em estreita complementaridade com o património material, ou seja, as pedras vivas e as pedras mortas, a que se liga a criação contemporânea.
Em suma, o Património Cultural deixa de poder ser entendido apenas numa lógica retrospetiva, passando a corresponder a uma ideia dinâmica em que a História se liga com a vida atual e em que as políticas públicas da cultura passam a articular a conservação e a criação (veja-se o nosso Património, Herança e Memória, Gradiva, 2ª ed., 2011).
Tive o gosto de presidir ao grupo que redigiu a nova Convenção do Conselho da Europa e verifico com agrado o facto de este instrumento já estar em vigor, com um generalizado entusiasmo, em especial das gerações dos novos investigadores, estudiosos e profissionais. De facto, estamos perante a superação de um entendimento já ultrapassado, segundo o qual as políticas de proteção, conservação e defesa do património se contrapunham às modernas políticas públicas da cultura, para as quais a economia e a coesão social têm tudo a ver com as ações dos criadores. A cultura não é um campo excêntrico no âmbito das políticas sociais. Está cada vez mais no centro da inovação e da criatividade. A crise financeira, cujos efeitos duramente sentimos, deve-se à especulação, à ilusão, ao imediatismo e à desvalorização da criação e da cultura. Compreendendo-se que aquilo que mais vale é o que não tem preço, numa sociedade que se deixou arrastar por um mercantilismo cego, pelo fundamentalismo do preço e pela lógica de casino, temos de entender que, longe de ser um luxo, a cultura (vista num sentido amplo, ligada à educação e à ciência) está no coração das políticas públicas contra a crise. Criar espaços de qualidade, de inovação e de diálogo entre pessoas e comunidades torna-se fundamental e urgente. Contra o risco do esgotamento de recursos temos de contrapor um desenvolvimento humano sustentável no qual a cultura esteja no centro como primeira prioridade.
Por Teresa Vieira
Um dia, há sempre um dia em que nos chega a hora de uma iluminação. Assim me chegou o conhecer Torga o grande Torga pelos seus poemas, pelo que eu por eles intuía e via e já sulcava.
Via as serras, os trabalhadores da empa, os ciclos da natureza, o quanto o amor se podia fazer por cachos de uvas. Aprendia. Aprendia que não estava só no socalco da minha activa espera.
Perguntava-me muito pelas transcendências e não sei se a interrogação, no fundo, não era apenas o adiar de uma certeza que eu tinha.
Encontrava na leitura de Torga um abrir de segredos intocáveis. O Miura condenado a divertir a multidão entregava o pescoço de toiro vencido ao alívio de um gume. Ou a Terra, única mãe de ventre quente, ao legítimo fruto que fazia sair dos seios feitos arvore.
Miguel Torga o poeta, o romancista, o ensaísta, enfim o escritor e o médico já dissera:
Hinos aos deuses, não.
Os homens é que merecem
Que se lhes cante a virtude.
Bichos que cavam no chão,
Actuam como parecem,
Sem um disfarce que os mude.
In Nihil Sibi
O humanismo sentido por Torga pela obra magnífica do homem, pelo trabalho humano exposto à miséria e à doença, à condição de não ser fácil ser virtuoso, nem criador de vida, e, ainda assim um humano constrói paisagem, molda o meio, semeia penedos face à morte e malgrado o limite do homem ser bicho, este homem tão limitado pelo limite, anseia a descoberta de caminhos para chegar às coisas belas e possíveis.
Assim o senti e ainda sinto Miguel Torga, nesta poderosa acepção do perceber.
Como dele disse Mourão Ferreira, Torga vivia na intimidade das forças elementares e para as celebrar aceitava a constante luta numa rebeldia ao que o queria asfixiar.
Fui a Coimbra e visitei-o. Não sei se visitei o seu monasticismo votado à autenticidade sublime da poesia ou de uma escrita, ou a sua fidelidade à medicina: ou se visitei a visita e tão só me era tanto.
Régio e a medicina? Nemésio? Perguntei.
«Teresa, eu barafusto muito com a medicina. De Régio a Nemésio é todo um dia. Tento entender-me.»
Nada acrescentei, mas recordei-me de uns poemas dele – sabia muitos de cor mas envergonhei-me de lho dizer naquela altura.
E ele já escrevera:
A começar por mim – meu principal motivo
De insatisfação (…)
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar.
E mais além, noutra página de um livro de Coimbra de 1956, continuou:
(…) casou-nos o mito
(…) tu com sementes nos pés
(…) sei que não és mentira nem és lenda
Perder-te nada é – perde-se tudo.
No comboio que me trouxe de volta a Lisboa justifiquei cada palavra das quase nenhumas que trocámos. Voltei a agradecer-lhe o ter podido conhecê-lo. Na minha mão o beijo que nela deixou. Então recarreguei a inocência daquela ida e recordei a joaninha que ambos olhámos, olhando-nos, e afinal foi o único momento em que lhe disse «não nos deu para coleccionarmos burros». E o Torga sorriu largamente com o perto e a distância de Piódão que então eu não conhecia. E desejou:
«Que alguém te ame muito é o que eu quero!»
Parei o carro há dois anos atrás, num miradouro no regresso de Piódão, e fui ler o que estava escrito numa pedra no alto da Serra do Açor onde faltava o ar por tão nítida a aldeia, e era isto:
Com o protesto do corpo doente pelos safanões tormentosos da longa caminhada, vim aqui despedir-me do Portugal primevo. Já o fiz das outras imagens da sua configuração adulta. Faltava-me esta do ovo embrionário.
Miguel Torga
Na casa de uns anciãos de Piódão estive à conversa acerca das lides da lavra por comparação com as do solar da minha avó e veio a minha pergunta pelo Escritor.
«O senhor doutor escritor já cá não veio abaixo ver a gente. Ele gostava muito disto. Vá, era uma ideia, mas naquele dia já cá não veio comer com nós. Estava já doente e despediu-se lá de cima do miradouro. Parou ali e depois quase a correr foi embora.»
E achei que da tua mão entreaberta me deixaste aquelas casas de xisto que se apoiam umas nas outras e quando do escuro das ruas estreitas alguém diz:
«Lá veio a menina doutora que escreve, está acesa uma janela», afinal é também por ser muito por ali que eu vivo.
Assim hoje te peço coragem aos meus passos, meu poeta primeiro, minha iluminação solidária aos meus 16 anos!
E que das nossas impossibilidades se retorne à raiz que fala a favor da poeira da terra quando passa o vento em lufadas de força e movimento.
E quantas vezes, quantas vezes não dou comigo aproximando-me?
Abril-Domingo
Sec.XXI
de 16 a 22 de Abril de 2012
«Escritos Políticos» de Francisco Sousa Tavares (2 Volumes, Figueirinhas, 1996) e «40 Anos de Servidão» de Jorge de Sena (Moraes, 1982) são duas obras que merecem ser recordadas, trinta e oito anos depois de 25 de Abril de 1974, tão ligadas se encontram as duas figuras que tão intensamente lutaram pela implantação da liberdade e da democracia com grande coerência e determinação.

O POVO QUE NÃO ESQUECE
«Povo português, vivemos um momento histórico como talvez desde 1640 não se vive: é a libertação da pátria» - este foi o primeiro discurso de um civil no dia 25 de Abril de 1974, dito no Largo do Carmo, após os momentos dramáticos de incerteza aí vividos. Quem o proferiu foi Francisco Sousa Tavares, homem livre, apaixonado pelas causas justas, de quem Sophia de Mello Breyner Andresen disse: «Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros usam a virtude / Para comprar o que não tem perdão. Porque os outros têm medo mas tu não. / Porque os outros são os túmulos caiados / Onde germina calada a podridão. / Porque os outros se calam mas tu não». Sophia e Francisco foram as grandes referências do Centro Nacional de Cultural, como lugar de liberdade, aberto às diferenças, insuscetíveis de ser fieis a outra causa que não a da procura da dignidade e da justiça. O seu exemplo tem de ser lembrado quando falamos da reconquista da liberdade. E não é por acaso que, se Francisco Sousa Tavares foi o primeiro civil a dirigir-se ao povo, numa revolução militar que devolveu as instituições aos cidadãos, Sophia proclamou «A Poesia está na rua!», com Maria Helena Vieira da Silva a corresponder com um magnífico cartaz, que ainda hoje é um dos símbolos desse momento fundador. E o certo é que Sophia será, para sempre, quem primeiro cantou o momento libertador, com a palavra certa, depois de, na circunstância oportuna, ter reclamado o «país liberto, a vida limpa e o tempo justo»: «Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial, inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo». Não é possível recordar a efeméride sem lembrar essas palavras, esses exemplos, essa afirmação da perenidade das grandes causas. E Sophia disse-o na Assembleia Constituinte, no Verão quente, por entre tantas paixões. Relendo essas suas palavras, percebemos que, mesmo na vertigem dos acontecimentos, é possível afirmar os valores permanentes – em caracteres indeléveis. Hoje, essa lembrança é fundamental, num tempo em que não podemos esquecer que a liberdade só se defende e se salvaguarda se a força da verdade e da justiça não for esquecida. A história de 1974 já foi bastamente contada, lembramos os seus protagonistas e a circunstância épica, no entanto é tempo de regressar à reflexão sobre a exigência de proteger os compromissos em torno da liberdade e do pluralismo. Agora, quando lemos os textos de Sousa Tavares de combate político ou na defesa de uma sociedade centrada na dignidade humana (demarcando-se das conceções transpersonalistas que levaram a Europa e o mundo para a tragédia do século XXI), percebemos que a liberdade de espírito e de opinião é fundamental. Não importa a pugna concreta, mas sim a salvaguarda das diferenças e do pluralismo, da liberdade e da responsabilidade. Essa foi a grande lição do advogado, do político, do jornalista, do polemista. Vêm à memória os acontecimentos de Lisboa em Dezembro de 1383 e em Dezembro de 1640, como bem foi recordado. E voltamos a ouvir Fernão Lopes: «as gentes (…) saíam à rua ver que cousa era; e começando de falar uns com os outros, alvoroçaram-se nas vontades e começavam de tomar armas cada um como melhor e mais asinha podia».
A POESIA DE JORGE DE SENA
O poeta de «Fidelidade» era amigo próximo de Sophia e de Francisco, antiga visita assídua da Travessa das Mónicas. Houve cumplicidades políticas e cívicas, como o Centro Nacional de Cultura e «O Tempo e o Modo» em fundo. Os seus poemas de 1974 são significativos. Aí vemos a esperança e o cuidado, o entusiasmo e a distância crítica. «Nunca pensei viver para ver isto: / a liberdade – (e as promessas de liberdade) / restauradas. Não, na verdade, eu não pensava / - no negro desespero sem a esperança viva - / que isto acontecesse realmente. Aconteceu. / E agora, meu general?». O poema é de 27 de Abril. O autor chegava aos dias ansiados, como dizia em «Poesia II»: «Não hei de morrer sem saber / qual a cor da liberdade». E segue em «Nunca Pensei Viver»: «E tu povo, em nome de quem sempre se falou / ouvir-se-á a tua voz firme por sobre os clamores / com que saúdas as promessas de liberdade / tomarás nas tuas mãos com serenidade e coragem / aquilo que, numa hora única, te prometem? / E agora, povo português?». E o fundo da democracia que Sena questiona, intuindo as dificuldades para além do imediato. E vem a pergunta sacramental: «Qual a cor da liberdade? / É verde, verde e vermelha. / Saem tanques para a rua, / sai o povo logo atrás: / estala enfim altivas e nua, / com força que não recua, / a verdade mais veraz. / Qual a cor da liberdade? / É verde, verde e vermelha». A data é igualmente dos últimos dias de Abril – enviada a Jacinto Baptista, no «Diário Popular», a 29 de Abril. Mas profeticamente Jorge de Sena consegue em poesia exprimir alegria e dúvida, ciente da longa espera e de tantas hesitações. «Com o país dividido quase meio século entre donos da verdade e do poder, / para um lado, o réprobos para o outro só porque não aceitavam que / não houvesse liberdade, e o povo todo no meio abandonado à sua solidão / silenciosa, sem poder falar nem poder ouvir mais que discursos de salamaleque / há que aprender, re-aprender a falar política e a ouvir política». O poeta sabia bem de que falava. Aqui política é usada no mais nobre do termo, com sabedoria e generosidade, com clareza e determinação. Havia adesivos e acomodados, e o mais importante era garantir que liberdade, verdade e justiça não fossem esquecidas. Sintomaticamente, o título desta reflexão é «Com que então libertos, hein?». Com ironia e agudeza crítica Sena deseja que a responsabilidade tome o lugar do acaso! E seria necessário «refazer Portugal sem que se dissipe ou se perca uma parcela só da energia represa há tanto tempo».
LIBERDADE, LIBERDADE, TEM CUIDADO...
Falar hoje desse tempo e de Jorge de Sena, como de Sophia e Francisco Sousa Tavares, é invocar a democracia sempre incompleta, vulnerável, exigindo o nosso empenhamento e a nossa força: «Quem te amar, ó liberdade, / tem de amar com paciência. / Sonhou-se tanto contigo / se saber como saber-te / que é muito grande o perigo / de não ver o sonho antigo / nos braços em que há de ter-te». Não se julgue, porém, que esta paciência é confundível com indiferença. Não é, não pode ser. A «Cantiga de Maio» de Junho de 1974 diz tudo, e hoje é atual e premonitória: «Liberdade, liberdade, / tem cuidado que te matam. / Que muito povo se assuste, / julgando que és tu culpada, / eis o terrível embuste / por qualquer preço que custe / com que te armam a cilada. / Liberdade, liberdade, tem cuidado que te matam». A verdade é que por muito que o tempo vá passando e os ecos de júbilo se perpetuem, com descida de intensidade, o certo é que temos o dever de manter atenção a todas as fragilidades e incertezas que ameaçam a liberdade. Nunca há garantias de perpetuação das instituições democráticas sem uma vontade clara e a mobilização efetiva de todos.
Guilherme d’Oliveira Martins
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