Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

O INJUSTIÇADO BOCAGE…

Bocage, em gravura de Francisco Bartolozzi.jpg

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XXI) - 21 de agosto de 2017

 

Se há poeta português que continua a ser desconhecido e injustiçado, apesar do seu talento, ele é Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805). É quem mais se aproxima de Camões na sua vida e como símbolo de português com a alma pelo mundo repartida.

 

Partiu para a Índia, ficou algum tempo no Rio de Janeiro, fez escala em Moçambique, cursou estudos regulares de oficial de Marinha em Nova Goa e foi colocado em Damão, donde desertou, indo até Macau. Fez, pois, a rota do Império e com justiça comparou-se ao lírico e épico de «Os Lusíadas»

 

     Camões, grande Camões, quão semelhante
     Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
     Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
     Arrostar co’o sacrílego gigante

 

     Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
     Da penúria cruel no horror me veja;
     Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
     Também carpindo estou, saudoso amante.

 

     Ludíbrio, como tu, da sorte dura
     Meu fim demando ao Céu, pela certeza
     De que só terei paz na sepultura.

 

     Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!...
     Se te imito nos transes da Ventura,
     Não te imito nos dons da Natureza

 

Só 40 anos de vida, um apurado sentido poético, uma sólida cultura clássica… Alexandre O’Neill homenageou-o. E hoje devemos lê-lo, em vez de seguir as historietas que por aí andam…

 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

GOM _ A VIDA DOS LIVROS.jpeg
   De 21 a 27 de agosto de 2017

 

"Diário de Viagens Fora da Minha Terra" de Eugénio Lisboa (Opera Omnia, 2017) completa os imperdíveis cinco volumes das Memórias do escritor e ensaísta - «Acta est Fabula».

 

CNC _ A Vida dos Livros.jpg

 

UM LEITOR INCANSÁVEL

Depois de termos seguido a par e passo nas Memórias as deambulações ao longo da vida do escritor, do engenheiro, do diplomata, do ensaísta, do estudioso e do crítico literário, temos direito a uma interessante sobremesa, na qual contamos com a verve e o estilo do leitor incansável, que nos acompanha em encontros e caminhadas por Montevideo, Los Angeles, Peru, Viena, Budapeste, Praga, São Tomé, Havana, Paris e Marrocos. E Antonieta está presente. É como se o escritor nos convidasse para irmos com ele ao encontro de referências culturais e literárias que nos enchem de prazer e curiosidade. As recordações de Eugénio Lisboa têm a extraordinária virtude de ser genuínas e de não embrulhar em papel de presente, com flamantes laços, o que pensa sobre o que vê, lê, conhece e encontra. Daí dizer-nos, a propósito de um obituário sobre Vergílio Ferreira, que a melhor atitude perante um autor que respeitamos é dizer o que se pensa – abrangendo os claros e os escuros, as penumbras e as luminosidades, e nesse sentido elogia a prática britânica, que se revela imbatível em rigor e respeito por quem se pretende recordar. Ao começar por Montevideo, no ano de 1996, tão próximo, parece que se retrata um momento distante, talvez do neolítico, quando, com uma dose especial de ironia, o autor nos fala de pessoas que usavam, por uma questão de estatuto, telemóveis falsos. E conta que nesse tempo em Madrid num lugar público houve um incêndio, vieram os bombeiros, o vestiário ficou intacto e, surpresa das surpresas, nos casacos deixados pelos utentes, metade dos telemóveis eram falsos. Hoje, parece anedota... E lembro o que Umberto Eco afirmou, nessa altura, sobre a utilidade dos telemóveis sobretudo, dizia ele, para intriguistas e doentes crónicos... Onde já vai tudo isso... Em duas décadas, o que avançou o mundo da tecnologia e da informação... Hoje, há mais telemóveis que habitantes nas sociedades de consumo e a dependência desses bicharocos tornou-se endémica. Mas o fait-divers serve para ilustrar um seminário académico, em que Cleonice Berardinelli pontua com charme e interligência. Eugénio gostou do Uruguai – “a gente é acolhedora e simpática e as ruas parecem, por enquanto, seguras. Mas vê-se que é um país recente, a que ainda falta um bom bocado de história. (...) Mas há um ar exterior de riqueza relativamente bem distribuída e parece que a maior fatia da população é constituída pela classe média”. Também gosto do país, que é uma espécie de domínio do “portunhol”, dadas as vicissitudes históricas. E, pensando na Colónia de Sacramento, ainda há muito para fazer para valorizar esse património que tem tudo a ver com a cultura da língua portuguesa.

 

JOSÉ RÉGIO VEM À LEMBRANÇA

Em Los Angeles, José Régio vem à lembrança. A encenação de Lisistrata de Aristófanes é motivo de regozijo. “Fiquei contente. E o Régio também ficaria, se fosse vivo”. Mas sobre os excessos da criatividade interpretativa, lembra-se Yehudi Menuhin no King’s College a dizer que cada intérprete dá sempre a sua interpretação de uma partitura, mas esta só admite uma certa margem de variação... O reparo visa em cheio certas liberdades teóricas que nada têm a ver com o sentido original, para além da margem do bom senso... Entre contratempos burocráticos e contactos inteligentes, na companhia do amigo Boris Katz, um médico cheio de solicitações, o escritor encontra a afirmação de Charles Townes, especialista em Eletrónica Quântica: “Se olharmos para aquilo de que a religião se ocupa, verificamos que ela visa compreender o propósito e o significado do universo. A ciência tenta compreender funções e estruturas. Se existe algum significado, a estrutura terá muito que ver com esse significado. A longo termo, chegarão a convergir”. Mas Eugénio Lisboa fica cético e fala de especulação e de wishful thinking... O mundo do conhecimento está naturalmente cheio de dúvidas e contradições... No Peru, “pobrete e nada alegrete”, vai ao encontro da filha Geninha e família, e depara com o “país vivendo de desassossego em desassossego, até que um dia salta uma erupção qualquer, que um ditador sem escrúpulos, como Fujimori, sufocará, legislando no sentido de dar às forças de repressão imunidades que são uma vergonha”. Sente-se uma situação de incerteza e instabilidade – e na passagem por Caracas (era 2005) ainda não se sentia todo o inferno em que a Venezuela se transformou. Já a peregrinação ao Império Austro-Húngaro – a Viena, Budapeste e Praga – é singular. Apesar das pequenas desilusões culinárias, é Graham Greene, do “Terceiro Homem”, a ser recordado, como símbolo da transição após o fim da catástrofe da Segunda Guerra, que prolongou por trinta anos o inesperado conflito iniciado em Agosto de 1914. Há um fundo musical mozartiano nesta invocação vienense. Os Habsburgos, o Palácio de Belvedere, o principe Eugénio,  e compreende-se que a ponte Francisco José tenha as luzes apagadas, por contraste com a iluminação da ponte Sissi – que é venerada, “farta das peneiras austríacas, veio viver para Budapeste e não quis mais nada com os seus compatriotas, que abominava...”. Depois vem Kafka: “Habita-me a presença de Kafka que, obviamente, não cabia aqui”... Eugénio parece-se fisicamente com Kafka, já o diziam Vergílio e Régio... A inesgotável matéria-prima kafkiana poderia não ter chegado até nós... E a imersão total parisiense lembra que “foi bom ter-te conhecido, em 1953, ter-te visitado, depois, uma dúzia e meia de vezes e ter estado contigo, agora, mais uma – que será, provavelmente, a última. Que milagre ter nascido e que milagre maior ter nascido entre aquele número muito reduzido de pessoas a quem foi dado conhecer cidades e tesouros, como tu, Paris...”. E se a capital francesa é uma referência civizacional, Cuba é o lugar mítico que recorda Fidel e Che a descerem da Sierra Maestra em 1959, para pôr fim à ditadura de Fulgêncio Batista. Depois o regime começou a endurecer, a eternizar-se no poder  e a perseguir e prender os dissidentes. E com que emoção, na viagem a S. Tomé, Eugénio Lisboa fala de Isaura Carvalho, que com João Carlos Silva era a alma da deslumbrante roça de S. João dos Angolares. Deixou-nos há pouco – com uma voz lindíssima e um português que era um modelo de perfeição... As memórias tornam a vida presente...  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

O CASO DAS TULIPAS ASTRONÓMICAS…

O CASO DAS TULIPAS ASTRONÓMICAS

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XX) - 20 de agosto de 2017

 

Como foi a primeira grande crise financeira dos tempos modernos?

Oiçamos a história e pasme-se como a humanidade tem memória curta…

 

Em 1593, Carolus Clusius trouxe uns bolbos de túlipa de Constantinopla para Amesterdão, para os aplicar em fins medicinais. Perante a plantação que o botânico fez, os vizinhos, apercebendo-se da raridade e beleza da planta, roubaram diversos bolbos para com eles fazerem negócio… E assim nasceu uma autêntica corrida às túlipas – que, no início do século XVII, se tornaram sinal de estatuto social. Os preços dos bolbos de túlipa subiram e os especuladores perceberam que podiam lucrar com essa moda.

 

Os preços chegaram a valores astronómicos. Num só mês um bolbo passou a valer vinte vezes mais. A certa altura, a venda de um bolbo podia assegurar o sustento da tripulação de um navio durante mais de um mês.

 

Acontece que os bolbos só florescem 7 a 12 meses depois de plantados – e quando a floração acontece dura apenas uma semana na Primavera, aparecendo os bolbos no verão, de junho a setembro. Para obviar a esta dificuldade, os especuladores passaram a vender contratos sobre túlipas. Ao assinar o contrato o comprador assumia a obrigação de comprar uma túlipa no final da temporada – como hoje acontece nos contratos de futuros.

 

Em 1636 as bolsas holandesas negociavam bolbos e tulipas e os lucros eram fabulosos. Com os preços muito inflacionados estava-se perante uma bolha mercantil. Como normalmente acontece nestes casos, há um momento em que se descobre que os valores são absurdos e irreais.

 

No inverno de 1636-37, em Harlém, quando um negociante não honrou o seu contrato gerou-se o pânico e depressa os preços passaram para… um centésimo do que estava a ser praticado. A bolha tinha estourado… A crise das tulipas deu origem a uma depressão económica sem precedente e para evitar a miséria o governo foi obrigado a cobrir pelo menos dez por cento do valor dos contratos…

 

Convém, assim, não esquecer as lições da história. Sem criação de riqueza não pode haver prosperidade - e a ilusão gera a miséria.

 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Era muito ténue a madrugada, mal despontava a alba, quando a passarada desatou sinfonias bem sonoras: surpresa anunciando surpresas? Certo é que a canícula seca destes últimos dias não me deixara prever a súbita libertação de águas celestes que, mal os pássaros se calaram, foi abençoado refresco... Só não sei se tantas aves canoras a pressentiram ou, simplesmente avisadas, celebraram, anunciando-a. Esta manhã, a alegria precedeu o nascer do sol. E logo o peso de outro dia quente me reavivou a memória de imagens tremendas, o choro magoado de tanta gente que o incêndio raivoso de Pedrógão Grande privou de entes queridos e de bens estimados pelo valor do trabalho que os criou. Eis que agora apenas o silêncio dos pássaros me habita, e fecho os olhos: não quero ver a explicação que não encontro. Talvez espere que a contemplação do mistério de tudo me volte a reconciliar. Talvez esse fado da meninice que diz:  É tão bom ser pequenino / ter pai, ter mãe, ter avós, / ter confiança no destino / e ter quem goste de nós... Se possa cantar assim:  É tão bom ser pequenino, / tão fracos, tão pobres, tão sós, / sem sabermos do destino, / querer quem goste de nós! Ninguém sabe como se ressuscita, a fé encontra-se no que devemos esperar.

 

   Aqui há dias, lia no Philosophie Magazine alguns artigos glosando o mote Quel part d´enfance gardons nous? - e encontrei várias citações de autores celebrantes da infância, momento construtor do nosso ser, talvez por ser a idade da esperança, aquela em que um olhar ou um sorriso ainda pode apagar desgosto e tristeza, por vir ao encontro do indestrutível núcleo de qualquer de nós, dessa força vital que é a tal esperança. Recorda-se o sentido evangélico da palavra de Jesus que diz se não fordes como estes pequeninos não entrareis no Reino, ou o ensinamento taoista - que contrariamente ao confucionismo, para o qual a infância é uma situação que deve ser abandonada, por ser o estádio das nossas incapacidades - a considera, não algo para ser deixado para trás, mas um objetivo, um fim a atingir, como nos explica Alexis Lavis, da Universidade de Rouen: Abra-se o livro atribuído a Laozi, o Dao De Jing. Em vários passos, Laozi, "o Velho Mestre", se serve da infância como imagem com valor de modelo. Ali se lê que " o sábio é semelhante ao menino nu. Enquanto os adultos complicam inutilmente a vida, o menino é um símbolo de simplicidade, de despreocupação. Para nos realizarmos, não precisamos de capitalizar saberes nem de entrar no jogo das interações sociais, mas de regressar a essa inocência primeira. Laozi até chega a comparar-se a uma criança de mama. Num trecho espantoso, diz de si mesmo: "ainda mamo na minha mãe"... ...Não se trata, é evidente, de um apelo à regressão, à infantilização absoluta. A "mãe", aqui, remete para o que os taoistas chamam o "Dao", ou Tao, a "Via", que é o fundamento de tudo o que é, o princípio de todo o movimento. O sábio "mama" porque se alimenta nessa fonte da vida - está numa relação de intimidade com o Dao. Em cartas antigas, Princesa de mim, também te falava do Shinto nipónico - essa Via dos Espíritos - tal como te referi o amae, palavra japonesa que resume a doçura do amor, da dependência da mãe, e afinal nos diz essa saudade fundadora da nossa pessoa. Lembro-te ainda duas expressões, uma de Gilles Deleuze, outra de Charles Baudelaire, neste Philosophie Magazine (junho de 2017): Só a infância é capaz de reanimar um adulto como se reanima uma marionete, injectando-lhe conexões vivas... E ...O génio mais não é do que a infância reencontrada à vontade. É, digo eu, essa nossa capacidade de renascer e recriar.

 

   No meu pensarsentir, ser criança é ser ainda capaz de acreditar em que tudo poderá ser melhor, nós e os outros e o universo inteiro, pois que tragédia mesmo é só o inexplicável e há muitas, muitas coisas que só entenderemos quando formos "crescidos". E nenhum de nós sabe quando será nem se nos será então dado o apocalipse. A esperança não é, não pode ser, a pretensão de poder definir e decidir o destino do que se quer que seja, é apenas, autenticamente, a confiança infantil de que o porvir sempre virá por bem. Tal é quase impossivelmente aceitável pela nossa geração, tão convencida ela está de que tudo é controlável, ao ponto de tão facilmente apontar a outros culpas e responsabilidades pelos desastres que nos escapam... Não se prevê, precavê ou investiga, é sempre mais fácil a gente descartar-se.

 

   Dois grandes escritores e pensadores europeus, Stefan Zweig e Georges Bernanos, estiveram exilados no Brasil, onde o segundo, aliás, recebeu a visita do primeiro na sua casa, em Cruz das Almas. Conta Geraldo França de Lima que Bernanos acolheu Zweig com amiga ternura e grande compaixão pelo drama interior que o judeu austríaco atravessava naqueles atribulados anos 40 do século passado. O escritor católico francês admirava nele o espírito europeu, europeísta e pacifista, e ainda a sua marcada defesa dos perseguidos e humilhados. Sentimento com raízes certamente muito profundas no autor do Journal d´un Curé de Campagne, Les Grands Cimetières sous la Lune, ou desse diário que, considero, será a sua mais bela obra: Les Enfants Humiliés. Os humilhados foram também personagens muito afetuosamente queridas por Stefan Zweig, um homem mundano que, todavia, nas suas novelas, se coloca sempre, como que por dever ético, do lado dos humilhados. Jean-Yves Masson, curiosamente, aponta ainda outro aspeto que, no contexto desta carta, gostaria de te mostrar: Um dos textos que mais me tocou foi uma das suas primeiras novelas, O Segredo Ardente. Uma criança é testemunha duma aventura entre a sua mãe e um homem. Mas nada diz, protege sua mãe. Encontramos aí o fascínio de Zweig pelo segredo, pelo que não se deve nem pode dizer. É também um grande texto sobre a infância.

 

   Stefan Zweig suicida-se em Petrópolis (Brasil) no ano de 1942. À pergunta que lhe foi feita por Le Monde, sobre se o escritor austríaco não teria tido forças para recomeçar a sua vida no Brasil, de que tanto gostava, o mesmo professor da Sorbonne, Jean-Yves Masson, responde: ... Esse suicídio é misterioso... porque, afinal ele estava salvo, não estava na miséria. Mas tinha nele mesmo, há muito, um permanente fascínio pelo suicídio. Não como gesto de protesto, mas como gesto de liberdade, um modo de levar em conta o facto de que pertencia a um mundo que já não renasceria. A um mundo perdido, que ele viu acabar-se. Não quis ver o que se seguiria, o renascimento noutro mundo. Seria então um estrangeiro, não por feito do espaço, mas por feito do tempo. O que era verdade.

 

   As pessoas, como as instituições, sejam estas nações, estados ou igrejas, existem enquanto assim podem, mas só são conforme forem capazes de ressurreição que, subjetivamente, é a confiante esperança da infância. Quando, logo após o suicídio de Stefan Zweig, que tantas elegias provocou, Bernanos escreve no brasileiro O Jornal (6 de março de 1942) um texto sobre as Apoogias do suicídio. Diz: Léon Bloy escreveu que devemos a verdade aos mortos. Desse lugar de repouso - locum refrigerii, lucis et pacis - donde doravante lhe é dado observar o mundo que a nossos olhos aparece como a exposição permanente de todas as formas da ignorância ou do ódio, mas de que certamente saberemos um dia que está perdido na imensa piedade de Deus, como um pequeno seixo no mar, o Sr. Stefan Zweig vê a verdade melhor do que nós, e tenho a certeza de que preferiria o silêncio a certos panegíricos sobre o seu acto desesperado... E mais adiante explica: O suicídio do Sr. Stefan Zweig não é, aliás, um drama privado. Mesmo antes e ter sido lançada a última pazada de terra sobre o caixão do célebre escritor, já as agências transmitiam a notícia ao público universal. Milhares e milhares de homens que tinham por mestre o Sr. Zweig, e como tal o honravam, podem ter pensado que esse mestre tinha desesperado da causa dele, e que essa causa estava perdida. A cruel deceção desses homens é um facto ainda muito mais lamentável do que o desaparecimento do Sr. Stefan Zweig, porque a humanidade pode dispensar o Sr. Stefan Zweig ou qualquer escritor, mas não pode ver, sem angústia, reduzir-se o número de homens obscuros, anónimos, que, sem nunca terem conhecido as honras nem os proveitos da glória, se recusam a consentir na injustiça, e vivem do único bem que lhes resta, uma humilde e ardente esperança. Quem toca nesse bem sagrado, quem arrisca a dissipar uma parcela dele, desarma a consciência do mundo e despoja os miseráveis.

 

   Penso e sinto muito, minha Princesa de mim - agora que te escrevo uma carta que não terá continuação tão cedo, já que outros trabalhos proximamente me aguardam - esta minha união a Les Enfants Humiliés do Georges Bernanos, pelo poder da saudade da infância como esperança regeneradora, talvez a força que me faz escrever, bem pior do que ele, como acreditando que, afinal, ainda tudo está ao nosso alcance. Dou-lhe a palavra:

 

   Falar uma linguagem cristã, uma linguagem que toque os corações, ganhe corações - não quero dizer uma linguagem somente ortodoxa, aprovada pelos censores, irrepreensível, mas uma linguagem cristã, Deus meu!... Quantas vezes, desde a vossa infância, ouvistes realmente falar cristão?...   ... Não sei para quem escrevo, mas sei porque escrevo. Escrevo para me justificar. - Aos olhos de quem? -- Já vo-lo disse, mas desafio o ridículo de o redizer. Aos olhos da criança que fui. Que ela tenha deixado de me falar, ou não, que importa, não me acomodarei ao seu silêncio, responder-lhe-ei sempre. Quero mesmo ensiná-la a sofrer, não a desviarei do sofrimento, prefiro vê-la revoltada do que desapontada, pois a revolta, o mais das vezes, mais não é do que um passo, enquanto que a deceção já não pertence a este mundo, está cheia e densa como o inferno.

 

   Por muito que me tivesse doído escrever-te tudo isto, sobretudo pelo receio de não me entenderes, dou graças a Deus e fico com saudade maior do menino que fui.

 

Camilo Maria   

 

Camilo Martins de Oliveira

O CASO DA NÃO CRIAÇÃO DE PORCOS…

O CASO DA NÃO CRIAÇÃO DE PORCOS

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XIX) - 19 de agosto de 2017

 

Esta também foi contada, cheia de pormenores, pelo António Alçada, como ilustração do analfabetismo da tecnocracia.

 

Millor Fernandes dizia que «a economia compreende toda a atividade do mundo. Mas nenhuma atividade do mundo compreende a economia». A este propósito recorda-se o célebre caso da não criação de porcos.

 

Abreviando razões, trata-se de um subsídio por cabeça para a não criação de porcos - e do requerimento para o efeito feito ao Ministro. Basta ler a parte final para entender tudo.

 

«Excelência. Estes porcos que não criaremos teriam comido 10 mil sacas de trigo. Ora, assegurando-nos que o governo indemnizará igualmente os agricultores que não cultivem o trigo. Nesta ordem de ideias, poderemos esperar que nos deem qualquer coisa pelas sacas de trigo que não serão cultivadas para os porcos que não criaremos. Ficar-vos-emos extraordinariamente reconhecidos se nos responder o mais rapidamente possível, porquanto julgamos que esta época do ano será a melhor para a não criação de porcos e, por isso, gostaríamos de começar quanto antes. Queira Vossa Excelência, Senhor Ministro, receber os protestos da maior consideração. P.S. – Excelência. Não obstante o exposto poderemos engordar 10 ou 12 porcos para nós, sem que isso venha a perturbar a nossa não-criação de porcos? Queremos assegurar que esses animais não entrarão no mercado e não significam mais do que a maneira de termos um pouco de toucinho e presunto para o inverno».

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“O MUNDO DERRUBADO” - Referências dramatúrgicas na exposição da Fundação Calouste Gulbenkian

Tudo se desmorona © Arquivo Municipal de Lisboa.j

 

A Fundação Calouste Gulbenkian organizou um relevante ciclo de atividades evocativas da participação de Portugal na guerra de 1914-18, numa perspetiva histórica, cultural e literária que prolonga e completa a importante exposição simbolicamente denominada “Tudo se Desmorona - Impactos Culturais da Grande Guerra em Portugal”. Trata-se de notabilíssima mostra de documentos e textos evocativos da intervenção de Portugal, numa análise historiográfica da sociedade e da politica da época, mas também da expressão cultural subjacente - e tão relevante ela foi e é!..

 

“O Mundo Derrubado” é identificado como o «Jornal da Exposição». Nos textos que o preenchem fazemos aqui referências a aspetos especificamente ligados à dramaturgia e à produção teatral portuguesa no contexto da intervenção de Portugal na Guerra.

 

E desde logo se salienta o que pode parecer algo paradoxal, a saber, a evocação da guerra no teatro de revista. O tema é abordado por Carlos Silveira, na perspetiva da criação artística em si mesma - textos, espetáculos, atores, autores - mas também na temática política, e ainda em variadíssimos aspetos pessoais da intervenção na guerra.

 

Citam-se aí diversas revistas da chamada «Parceria», tríade de autores que, durante anos, dominaram em Portugal o teatro ligeiro, a saber, Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos.

 

Bermudes definiu deste modo a estrutura das revistas:

1º ato - Quadro de Abertura, estruturado em fantasia; quadro de comédia; quadro de rua, com as atualidades; apoteose.

2º ato - Dois quadros de variedades, números com cenários próprios e apoteose…

 

Damos um exemplo extraído da revista «O Novo Mundo» (1916), da Parceria, citado por Luís Francisco Rebello, na sua “História do Teatro de Revista em Portugal” (ed. D.Quixote 1984):

«Meus amigos, esta vida / Pra quem lida / A moirejar cá na roça / É uma grande subida / Que se leva de vencida / Como quem puxa a carroça. / Quando a gente desanima / E a coisa vai parar / Ai ó! / Então adeus ó vindima! / Se não vem chicote acima / Somos uns homens ao mar»  

Na publicação da Fundação Calouste Gulbenkian acima citada, Carlos Silveira refere que os autores da Parceria “intuíram lucidamente os impactos do conflito nas camadas populares. São vários os fados de assunto social que animam estes quadros”. E salienta a temática política na época dominante nos anos seguintes à guerra, especificando os teatros onde as peças foram representadas:

«Em “Adão e Eva” de Jaime Cortesão (Teatro do Ginásio,1921) estreado dois meses depois de “Zilda” (de Alfredo Cortez) o protagonista Marcos é um revolucionário idealista que sacrifica o amor à família pela causa da revolução. (…) Em “A Casaca Encarnada” (Teatro Politeama, 1922) anunciada por um cartaz de Almada Negreiros, Vitoriano Braga reproduz o ambiente de promiscuidade e moralidade duvidosa entre o mundo empresarial e a vida desregrada dos clubes noturnos. (…) Ramada Curto, um dos dramaturgos mais representados no período entre guerras, levou à cena drama de conteúdo semelhante, “O Caso do Dia” (Companhia Rey Colaço - Robles Monteiro, 1926)».

 

E termina-se esta remissão com a transcrição do comentário que Raul Brandão faz em “Vale de Josafat” (1933), citado na publicação que aqui referimos: «Os teatros transbordam. O dinheiro perdeu o valor (1921-1922). Todos caminhamos com febre - a febre de quem não confia no dia de amanhã»

 

DUARTE IVO CRUZ

 

      

MÁ CONSCIÊNCIA...

CNC Diário de Agosto _ dia 18.jpeg

 

Esta também se passou com o António Alçada Baptista. O problema da má consciência é que funciona muitas vezes como motivo de cegueira e de falta de um mínimo de racionalidade.

 

Uma vez na UNESCO, onde António Alçada estava a convite do saudoso Eduardo Portella, que nos deixou há pouco, um suíço, num discurso inflamado, condenou severamente os espanhóis por terem descoberto a América.

 

Felizmente, estava presente um egípcio que pôs os pontos nos ii: «Quando se fala da história dos nossos povos, parece que depois da chegada dos europeus é que tudo ficou muito mal. Ora, não é possível esquecer que, antes da chegada dos europeus, os nossos povos tinham expressões de escravatura e de exploração, tanto mais graves do que aquelas que os europeus trouxeram. Mas há uma coisa que se esquece (referiu o egípcio, com particular ênfase): é que, se os nossos povos viveram um dia a liberdade, isso é devido aos valores da democracia e dos direitos humanos, que foram trabalhados e divulgados pela Europa, que ela levou para lá e constituem hoje a nossa única esperança…».

 

 

 

  

 

     DIÁRIO DE AGOSTO

     por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

Meret Oppenheim .jpg

 

XVIII - SURREALISMO – V

 

AS SURREALISTAS

 

Há no surrealismo nomes no feminino que merecem referência. Exceções à regra estabelecida pelo cânone oficial masculino sempre existiram, como Sonia Delauney, Lyubov Popova, Aleksandra Ekster, Natalia Goncharova, Marianne Brandt, o mesmo sucedendo no movimento surrealista com Méret Oppenheim, Frida Kahlo, Leonora Carrington, Louise Bouirgeois e Dorothea Tanning. Mesmo se consagradas eram secundarizadas, se não mesmo omitidas, num mundo gerido esmagadoramente por homens. Apesar de mulheres como Elena Diakonova, conhecida por Gala, ser acusada de controlar a vida (amorosa e financeira) de Dalí, Peggy Guggenheim, norte-americana colecionadora, galerista e negociante de arte moderna ser abastada em homens, dinheiro e poder, e Gertrude Stein ser influente na vida artística de Paris.

 

Foi numa exposição de mulheres artistas, sugerida ousadamente para a época por Duchamp a Peggy Guggenheim, numa galeria desta, em Nova Iorque, em 1943, que sobressaiu Méret Oppenheim, com a obra Objeto (O Pequeno-Almoço em Pele), com uma chávena de chá, pires e colher revestidas de pele, de interpretações e referências de vária índole. Desde a sensação repulsiva ou agradável de uma chávena peluda levada à boca ou tocada, associações de culpa pelo uso burguês aleatório de pêlo de animais em falares fúteis de salões de chá, a conotações sensuais e sexuais explícitas, há toda uma metamorfose do agradável em desagradável, do prazer em desprazer e outras antinomias, num jogo com a ambiguidade semântica da obra. Também transformou sapatos de mulher em coxas de frango, pintou mesas com patas de pássaros, em metamorfoses surreais cheias de ironia, piadas picantes e algo sinistras.

 

Frida Kahlo foi a primeira artista mexicana do século XX a integrar a coleção do Louvre, em Paris, urbe onde era vista como uma curiosidade exótica, dada a sua origem. Optou por ser artista, e não médica, no decurso de vários meses hospitalizada e após um acidente de autocarro quando regressava da universidade, tendo ficado com a coluna vertical, clavícula e duas costelas partidas, sendo perfurada e trespassada por uma vara de metal e ferros do veículo, sofrendo onze fraturas na perna direita e ficando com o pé esmagado. Este sofrimento, a que sobreviveu, inspirou a obra A Coluna Partida, em que a autora surge com o corpo rasgado suportado por uma coluna de metal, tipo espingarda, que simboliza a sua coluna fraturada, cujos coletes de aço simbolizam os ortopédicos que usou para a fortalecer. A paisagem desértica envolvendo a sua figura é a continuação do seu sofrimento. Chegou a dizer: “Fui tantas vezes aberta, partida, repartida, recosida. Sou como um puzzle”.

 

Refutava o pensar de André Breton de que era surrealista, dizendo: “Nunca pintei os meus sonhos, pintei a realidade”. Mas consentiu que as suas telas fossem exibidas em mostras surrealistas, entre elas a sugerida por Duchamp. Onde não foram alheias as crenças, mitos e rituais da cultura nativa mexicana, onde o ideário surrealista foi beber influências e novidades, dada o ambiente escaldante, atrasado e exótico do México tido, para Breton, como o país mais surrealista do mundo. E apesar de Frida não teorizar nem partilhar em pleno os mesmos conceitos do surrealismo dominante, há obras suas em que estão presentes elementos surrealistas, a começar pelos elementos fantásticos atribuídos aos sonhos, mesmo quando não se desprende totalmente da realidade. É o que sucede com a sua tela O Sonho (1940), cujo título, em si, é paradigmático, onde o sono, o sonho e a morte, dor, sofrimento e feminilidade estão fortemente interligados com contornos e influências marcadamente surrealistas e da cultura mexicana. Há nela um esqueleto que dorme por cima de Frida, uma espécie de amante da sua vida real, segundo Diego Rivera, seu marido, dado que dormia com um de papel no dossel da cama. A cama flutua no céu e a morte no ar. Um ramo de flores (para campa) surge nas mãos do esqueleto. Ao invés dos arbustos cobertos de espinhos que rodeiam o corpo de Frida. O que talvez justifique a sua despedida, surreal, para muitos: “Espero que a saída seja alegre. E espero nunca mais voltar”.

 

Dúvidas não subsistem quanto ao surrealismo da britânica Leonora Carrington, amiga de Frida Kahlo, que após viver com o surrealista Max Ernst, passou de fugida por Espanha e Portugal, tendo conhecido em Lisboa Renato Leduc, escritor mexicano, com quem se mudou para o México, onde morreu.

 

A sua tela surrealista Self Portrait: Inn of the Dawn Horse (Auto Retrato: Cavaleiro da Madrugada), do Metropolitan Museum em Nova Iorque, é tida como a primeira e uma das mais significativas da sua carreira. Carrington, sentada numa cadeira, antecipa no tempo o futuro vanguardismo das cantoras pop da década de 1980, com uma cabeleira anarquicamente despenteada e um vestuário entre o masculino e o feminino (andrógino), tendo pela frente uma hiena fêmea cuja crina se assemelha com a dela, imitando a sua pose. Ao fundo há uma janela onde se visualiza um cavalo branco galopando numa floresta, cuja cor e galopar se repetem no de pau que salta sobre a cabeça da autora. O seu fidedigno interesse por animais transforma-a numa caçadora noturna dos seus sonhos, operando-se um metamorfismo de real e irreal, num surrealismo pleno de simbolismos, onde o seu branco cavalo galopa em liberdade, tal e qual ela nos seus sonhos. O Gato, O Grande Adeus e Labirinto são outras obras representativas do seu percurso.

 

Refira-se ainda a francesa Louise Bourgeois com a escultura Maman (1999), de dez metros de altura, em memória da sua mãe que foi tecelã. Ou a pintora, escultora e escritora norte-americana Dorothea Tanning.

 

Representavam o corpo e o desejo das mulheres à sua maneira, do modo que o imaginavam e sem medos, ao invés de surrealistas como Dalí e Miró que representavam o corpo feminino como objeto de desejo.

 

 

15.08.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

PESSOAS DE BEM…

Paiva Couceiro.jpg

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XVII) - 17 de agosto de 2017

 

Henrique de Paiva Couceiro (1861-1944) foi um resistente monárquico persistente e por isso respeitado pelos seus adversários. Em outubro de 1910 foi dos únicos que se bateu em defesa de D. Manuel II, ainda que sem sucesso. Muitas vezes foi preso, sofreu o exílio, foi julgado, condenado, mas manteve sempre a mesma coerência. 


Numa das vezes em que foi detido e estava numa das esquadras de Lisboa, Afonso Lopes Vieira, o grande poeta de S. Pedro de Moel, soube do sucedido e decidiu exprimir a sua solidariedade para com o amigo. 


Fez uma pequena mala, onde colocou um pijama, uma muda de roupa, os utensílios fundamentais de higiene e partiu para a esquadra, suponho que da Praça da Alegria. Chegado, dirigiu-se ao piquete: - Venho para ser preso! O guarda não queria acreditar no que ouvia… E perguntou: - Que deseja o senhor! O poeta respondeu: – Quero exatamente o que já ouviu – ser preso! – Mas cometeu algum crime? – Claro que não… Mas não é aqui que está Paiva Couceiro? Pois bem, aqui prendem pessoas de bem, e por isso aqui estou. O guarda ficou sem resposta e Lopes Vieira sentou-se na sala de espera com a maleta a seus pés…

 

 

 

  

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CRÓNICA DA CULTURA

 

Este ano fui às noites de Santo António procurar o cheiro das terras do meu país. Fui saudar o rosmaninho e a erva-pinheira, os manjericos, os funchos e todos os cheiros explicativos que a memória prendeu. Nada encontrei tão casto, tão idílico quanto a ideia paisagista e bucólica que tinha e que fazia o caminho inocente das tradições que nos amparavam as estações dos anos. O melhor mesmo seria, pensei para mim, que cada pedaço de terra celebrasse naquelas noites e a seu modo, as noites, numa virtude de livre concorrência até que de um justo equilíbrio do que por lá se passa, restasse para nós o imposto do consumo.

 

Afinal, há muito que o iate de recreio de Júlio Verne produziu mais impressão do que as Viagens Maravilhosas escritas pelo talento deste escritor.

 

Todos de um modo ou de outro, na procura – se procura houver - dos cheiros das terras do mundo, sempre entenderão e acreditarão que um ser possua génio, julgando, porém, dificílimo que por esse mesmo génio obtenha um barco que navegue.

 

Este ano fui às noites das aldeias do meu país; ufanei-me com o que pude, passei uma vista de olhos de estrangeira na fachada dos Jerónimos, frequentei o Chiado ladeado pelas casas dos milhões, aquelas mesmas que abrem portas para deixar sair os cinco cães de família de olhar vago e nostálgico como os dos donos. Todos, bichos e bichos homens, já procuraram remédios para a profunda tristeza que os tolhe nestes locais de mundo. Já usaram a erva-pinheira antes e depois das refeições. E nada.

 

Assim num Portugal muito longe do mundo me senti. Um Portugal de agradecimento que lhe não cabe ter me atordoou, ou não se soubesse que seu não é o turbante nem o selim que vão compondo o artefacto com o qual nunca em verdade se vestiu.

 

Teresa Bracinha Vieira

Agosto 2017