Domingo, 02.08.15

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Kenzaburo Oê

 

Minha Princesa de mim:

 

No crepúsculo  de uma semana de voluntária solidão, pus-me esta manhã à escuta do concerto para violoncelo do meu homónimo Saint-Saëns. Por qualquer oculta inspiração, logo a melodia inicial do instrumento solista acordou em mim ecos de muita meditação sobre a condição humana e a dignidade da pessoa. O escritor japonês Kenzaburo Oê (Prémio Nobel em 1994) completa este ano os seus 80 de vida. Em entrevista conduzida por Philippe Pons para Le Monde (24/25 de Maio de 2015), faz afirmações que aqui traduzo para tua reflexão: Edward Saïd era meu amigo. Tínhamos a mesma idade. Comunicávamos por carta e visitei-o várias vezes quando estava doente. Falávamos deste período da vida que era doravante o nosso: esta catástrofe pessoal da morte que se aproxima. A idade devia trazer a serenidade, mas não é bem assim: as obras tardias são marcadas pela intranquilidade. E foi precisamente nesse momento da minha reflexão sobre o fim da minha vida que se deu o acidente na central nuclear de Fukushima, em Março de 2011: as duas catástrofes, a pessoal e a coletiva, confundiam-se. ... Sou um homem vulgar envelhecendo, que recebeu uma educação democrática e se atém a ela: é esse o meu compromisso. Um escritor é alguém que assume a sua época, com as suas esperanças, as suas contradições, os seus dramas. Tento reflectir sobre o que é a dignidade do homem, e defender os valores humanistas que me parecem fundamentais. Enquanto romancista o meu trabalho está, sem dúvida, acabado: em três anos escrevi umas sessenta páginas... Servi para alguma coisa à sociedade? Duvido. Mas continuo a participar em meetings e a lembrar que, se nos esquecermos da catástrofe nuclear de Fukushima, outras acontecerão. Sou como um saltimbanco que vai de aldeia em aldeia, a cantar o seu refrão... Terá impacto? Penso que não. Mas o importante é que as pessoas se reúnam à volta de uma ideia. É no sobressalto para superar as catástrofes pessoais ou colectivas que reside uma parte da dignidade humana. Está aqui posta uma questão fulcral, marca-se um ponto de partida para a reflexão e o debate sobre os acontecimentos, as previsões e interrogações que afligem o nosso tempo: nada deverá nem poderá ser feito ou respondido sem a referência fundamental ao respeito da dignidade humana. Mas o que é a dignidade humana? Factores de ordem cultural, religiosa, ideológica, política, económica, têm-na diferentemente definido. O conceito de dignidade, como o de honra, longe de ser unívoco e consensual, tem sido variável. Assim, talvez nos seja necessário fazer o esforço de encontrar um denominador comum e defender os valores humanistas fundamentais. A dignidade do homem é igual em todos, não depende de cada um, e qualquer de nós só pode - e deve - reconhecê-la como tal, em si e nos outros. Tal atitude de princípio impõe-nos, consequentemente, o reconhecimento de valores fundamentais que são direitos e deveres recíprocos e universais. A consciência dessa dignidade humana começa por cada um de nós. O primeiro livro de Kenzaburo Oê que li intitula-se M/T to Mori no Fushigi no Monogatari (M/T e os contos das maravilhas da floresta), fala-nos dos mitos e lendas relativos ao nascimento e fortaleza da aldeia natal do romancista, tal como sua avó lhos contara, em cumprimento de velha tradição oral: História antiga, quem sabe se falsa, se verdadeira? Mas como é um conto velhinho, tens de acreditar nele, mesmo que seja mentira... Era ainda menino, o Kenzaburo, nesses anos em que deflagrava a Grande Guerra do Pacífico, e no Japão se aclamava, jurava e servia a bandeira do Dai Nippon (grande Japão ou Japão maior) com o seu disco solar, enorme e vermelho, emitindo raios invasores... Na escola, o professor da 3ª classe mandara os alunos fazer um desenho de como era o mundo em que viviam, e fez, ele mesmo, no quadro negro, uma ilustração do tema: Desenhou o arquipélago do Japão, até às Sacalinas, e integrando Taiwan e a península coreana e, além do mapa do Império do Dai Nippon, destacou, a giz vermelho, o continente chinês e os diferentes territórios ocupados na Ásia. E, por cima, nas alturas, rodeados de nuvens, os rostos de "Suas Majestades" o Imperador e a Imperatriz... ...Tracei, por minha vez, na minha folha de desenho, uma representação semelhante. Mas em lugar do mapa dos vizinhos do Japão, desenhei o vale na floresta e, em vez do Imperador e da Imperatriz, escrevi M/T. São estas as iniciais escolhidas para referir Oshikomé e Meisuké Kamei, dois entes míticos ou lendários, fundadores da identidade própria da aldeia do romancista. Reconheço aqui uma fórmula de afirmação da dignidade, sempre única, de uma pessoa. Nenhuma fabricada grandeza, nem tentativa nem tentação de a absorver, a poderá destruir, ou sequer diminuir. A dignidade é íntegra e eterna, e o cristianismo ensina que é o valor divino do humano. E todos somos igualmente dignos. Mas nem sempre assim nos entendemos. Somos obsessivamente propensos a distinguirmo-nos, e até os apóstolos, discípulos amigos de Jesus, caíram na tentação de reclamar lugar cimeiro numa imaginária hierarquia celeste... A necessidade social de diferenciar funções e estabelecer organigramas e hierarquias, e regras de relacionamento, todavia, não elimina a verdade ontológica da dignidade humana: o escravo, a prostituta, o santo, a benemérita, o rei ou juiz, como o facínora, são essencial e igualmente dignos, não por mérito próprio, mas pela sua natureza. E mesmo quando o demérito dos seus comportamentos for razão de sanção social, não se esqueça nunca a sua dignidade ontológica. O que mais me ofende na pena de morte é pensarsentir que o roubo de uma vida é fechar a porta à conversão, vocação da dignidade humana. Bem sei que a consideração da dignidade de uma pessoa nem sempre é espontânea, muito menos fácil. Ela não é obra nossa, antes será uma graça essencial e constitutiva de todos e cada um. Talvez, mesmo, escape ao nosso entendimento, e não depende, certamente, do relativismo das nossas culturas e religiões. Descobrimo-la por uma fé sem religião necessária nem cultura propiciatória. O que não impedirá - antes e muito pelo contrário - um cristão de pensarsentir que a dignidade da pessoa humana está no âmago do sopro divino que nos criou. Basta ler os evangelhos para saber que a boa nova é essa alegria da vocação de todos nós, perdidos e achados, sem precedências, ao reconhecimento de Deus. Sabes como me entristece, ou mesmo horroriza, a audição ou leitura de discursos de cristãos - até, e sobretudo, de padres - que não têm uma palavra sobre o amor de Deus, mas apenas falam de um deus-polícia, que eles construíram à sua imagem e semelhança. Essa inversão da consciência religiosa, contrariando a mensagem evangélica, atinge, por vezes, tais proporções que o próprio papa Francisco tem admoestado representantes de organizações católicas, tal como, na última festa do Corpus Christi, lembrou que a eucaristia é o sacramento, por excelência, da reconciliação, e não um prémio dado aos bem comportados... Surgem, nos dias de hoje, muitas questões acerca da dignidade humana: migrações e guerras, assassinatos e genocídios, violações e abortos, xenofobia e outros receios e ódios ou raivas, homossexualidade e transgéneros, prolongamento da vida e manipulação de genomas humanos... Tantas são e tão fortes, que este teu admirador, isolado em silencioso casarão rural, mesmo sem cajado onde sustente o queixo, baçamente se pergunta: que Homem somos? Por onde anda a alma? Há dias assim. Quiçá dos tais em que só com Deus conseguimos falar. Assim nos guarde em sua misericórdia. Dou-te a mão.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira



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Sábado, 01.08.15

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A proposta nº 5 de Eugénio dos Santos.

‘O rigor não é um limite à dinâmica do processo. O rigor deve estar estritamente ligado à real possibilidade de progresso, à maturidade e à capacidade de responder ao processo e sempre presente. O rigor não é um limite à imaginação.’, Álvaro Siza, 1976

A reconstrução de Lisboa, logo após o terramoto de 1755, foi atribuída ao engenheiro-mor do reino, Manuel da Maia. Manuel da Maia, assim realizou uma dissertação acerca das hipóteses de reconstrução para a cidade de Lisboa. Traçou três principais ordens de solução: reedificar a cidade tal como era, apenas com edifícios novos, de altura limitada a dois pisos sobre loja, e arruamentos alargados; arrasar a cidade velha, na sua parte central ou baixa e planificá-la com inteira e conveniente liberdade; e ainda abandonar a Lisboa antiga, deixando os proprietários antigos agir à sua vontade e edificar uma cidade completamente nova, para os lados de Belém. A decisão pela opção acertada para Lisboa pertencia ao Rei. A escolha contemplou o programa de reedificação integral da parte baixa da cidade antiga – Manuel da Maia pretendia uma planta nova com as ruas livremente desenhadas, prevendo para cada rua a mesma simetria de fachadas. Já se desenhava o conceito da Baixa regular, com soluções respeitantes ao sistema de esgotos e de escoamento das águas.

Seguindo estes desígnios foram definidas com mais desenvoltura seis planta, concebidas por engenheiros militares. A peça/planta fundamental deste processo de decisão foi a proposta n.º 5, elaborada por Eugênio dos Santos. A planta é constituída por uma malha de dinamização do conjunto. Afirmam-se dois pólos, finalmente alinhados e regulares – o Terreiro do Paço e o Rossio. Desenham-se três arruamentos principais que desembocam no Terreiro do Paço, relacionando-o com o Rossio. É a proposta n.º 5, de Eugênio dos Santos, a origem do processo de gestação da Baixa, como hoje se conhece. As directrizes fundamentais estavam assim traçadas.

A legislação considerava que cada proprietário recebesse uma área de terreno igual à perdida, mas geometricamente configurada, uma indemnização pelos espaços ocupados e pelos novos arruamentos, ficando o proprietário obrigado a construir no prazo de cinco anos após termo de responsabilidade. Os trabalhos relacionados com a concretização da proposta iniciaram-se a 1758. Sendo assim, definiram-se as ‘ruas principais’ (com sessenta palmos de largura) e as ‘ruas secundárias’ (com quarenta palmos de largura) – cada lado do arruamento apresentava passeios. O desenho das fachadas determinava, para as ruas principais, sacadas nos primeiros pisos e para as ruas secundárias janelas de peito. As ruas principais correm de norte para sul, ligando as duas praças.

A Praça do Comércio destinava-se aos comerciantes de capital autorizados a edificar uma bolsa, contudo pretendia igualmente afirmar-se como praça real, dentro da tradição europeia – ‘Real Praça do Comércio’. O conjunto, determinado por Eugênio dos Santos, é enobrecido pelos torreões/pavilhões terminais e pelo arco que marca a existência da Rua Augusta, a principal neste sistema igualitário.

O Rossio desenhava-se em metade da área da Praça do Comércio e continha o Palácio da Inquisição.

Os prédios de rendimento apresentavam-se em quatro pisos, determinando a existência de três tipologias A, B e C. Os diferentes tipos diferem nas frontarias, reflectindo a hierarquia existente no próprio plano. A homogeneidade prevalece, nem as igrejas se destacam de dentro deste conjunto, totalmente controlado.

As obras da Baixa – iniciadas pelo processo de legislação, em 1758-59, e comandadas pela Casa do Risco – manifestaram-se segundo um evoluir lento e moroso. Esta inércia contrastava com a evolução construtivamente rápida noutros pontos da cidade como: Cais do Sodré, S. Paulo, S. Francisco, Portas de Sta. Catarina, S. Bento, Estrela e Buenos Aires.

O traçado da Baixa traduz-se numa vontade do Estado em regular e controlar em absoluto a ordem social através de elementos urbanos. O iluminismo expressa-se assim, na proposta de Eugênio dos Santos, através de uma matriz eficaz na capacidade de oferecer a todos, equitativamente, espaço urbano.

 

Ana Ruepp

 



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Sexta-feira, 31.07.15

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Estátua de Zeus em bronze – Museu Arqueológico de Atenas

 

23. A QUEM

 

Zeus, Theos, Deus, Alá, ou só Quem É,

nenhum nome te importa ou mudará...

És mistério só: quem te alcançará?

Talvez só quem no teu Quem tenha fé...

 

E que me importa a mim como te chamas,

se só me muda e move o eu chamar-te,

e sempre só me morde procurar-te:

onde haverá amor quando não amas?

 

Onde, chegado ao fim do alfabeto,

acharei letra ou verbo com afecto

que me recolha além do fim que espero...

 

Foi só de amor mordido a minha vida,

pelo mesmo mais achada que perdida...

Quem és, amor fiel, feroz e fero?

 

P.S. Começando pela letra Z, é este o último soneto de amor mordido. Foram 23, quiçá por pudor antigo me querer resguardar no alfabeto que, menino e moço, aprendi...        

 

Camilo Martins de Oliveira



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Quinta-feira, 30.07.15

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1. DUBLIN

Dezenas de ruas, na horizontal e na vertical, frequentadas por milhares de pessoas, num espaço limitado e massificado. Centenas de estabelecimentos altamente concentrados, lado a lado, em ruas exíguas, medianamente largas, poucas vezes generosas. Hotéis, bares, restaurantes, lojas comerciais de todo o género, sem esquecer os caraterísticos pubs irlandeses. Onde há um pub há conversa e o culto da bebida, aí reinando o whisky e a cerveja. Onde os pubs imperam há música, cantos, danças, gritos, alegria, que o álcool fomenta e desinibe. Têm o seu lado positivo, pela beleza artística de alguns e pela força centrípeta que emanam e proporcionam em convívio. Um deles, mundialmente conhecido, qual ícone irlandês, o Temple Bar, é fotografado, filmado, procurado e propagandeado até à exaustão, por nacionais e turistas. Com a negatividade daí decorrente: massificação e banalização no serviço, onde nem sempre é possível entrar ou estar, dada a confusão em acotovelamentos, atropelos e vozaria. Carteiristas também os há. Urge ter cautela. Há noites em que passear ou conviver por ali, pode ser uma festa. De preferência em grupo, com um amigo, uma companhia, para “beber um copo”.
Irlandeses embriagados, durante a noite, em especial ao fim de semana, são parte integrante da paisagem humana. Muitos fora de si, necessitando de ajuda, aqui e ali interpelados pela polícia. Nas ruas pedonais, há quem cante, dance ou toque música. Quem seja chamativo com acrobacias, malabarismos ou ilusionismos. Aqui e acolá, por entre adolescentes e jovens raparigas quase adultas, de saias curtíssimas e saltos descomunais, tropeçando e exibindo-se num chamariz constante. Dia e noite, dezenas de mendigos de todas as faixas etárias, irlandeses e emigrantes. Uns, de boa aparência, indiciavam uma vida anterior com dignidade, que a atual crise irlandesa puniu. 
Eis a impressão que retive do centro de Dublin, num espaço pequeno, apertado, compacto e consumista, onde tudo flui e se dispersa, num vai e vem permanente de milhares de transeuntes e dezenas de vias públicas apologistas do consumismo. Com o consequente arrastamento de todos os grupos sociais, desde os mais bem-sucedidos e endinheirados, aos mais vulneráveis, incluindo desempregados e mendigos. Sem negligenciar músicos, passeantes, emigrantes e turistas. Em termos gerais, uma urbe de média dimensão, não monumental, nem exuberante, sem deslumbramentos ou ostentação, nem de gratas belezas para exaltar. Agradável, pacata, pacífica, avessa a correrias, dada a sua leveza e mediania. Com um rio, o Liffey, pouco apelativo.
Falta-lhe grandeza, mesmo que discreta, um golpe de asa que a conduza a outros voos. As ruas, avenidas, igrejas, imóveis em geral, na sua pequenez e modéstia, dão-lhe uma vivência mais familiar e intimista, menor dispersão e potencialidades de maior entreajuda. Seria expectável contar com mais, num aglomerado citadino cosmopolita diferenciado pelos pubs, colorido das tradicionais portas georgianas, a que acresce, como capital representativa da Irlanda, um meritório historial de nomes consagrados mundialmente. Vultos como Jonathan Swift, Edmund Burke, Oscar Wilde, Bernard Shaw, William Butler Yeats, James Joyce, Patrick Kavanagh, Samuel Becket, entre outros, merecem memórias mais consentâneas com a projeção que fazem da pátria. Por que não homenagens mais ousadas e vanguardistas, embelezando e dignificando em arquitetura e largueza de vistas o principal centro urbano irlandês? Por que não uma mestria mais arrojada e digna perpetuando os seus notáveis mais valorativamente para a posteridade? Por que não um turismo cultural e paisagístico mais qualitativo, sem esquecer a mais valia que daí adviria para a identidade e universalidade irlandesa? Mesmo os testemunhos do seu passado histórico, na sua contida dignidade, não suscitam diferenciações exclamativas de admiração e encantamento, desde a Christ Church Cathedral e St`s Patrick Cathedral, ao Dublin Castle e Trinity College. Há um culto pelo simples e discreto, pelo funcional, sem alaridos e deslumbramentos, nem megalomanias, a que não será alheio um passado não imperial e de ex-colónia inglesa, ao invés de nós, fundadores e perseguidores de impérios, de mentalidade imperial e de ricos, mesmo quando pobres. Quanto ao presente, é imperdoável não falar na agradável surpresa da visita à Guiness Storehouse. A exposição sobre esta cerveja, um símbolo internacional de marca, que acrescenta valor à marca Irlanda, é um máximo. Distribuída por sete pisos, criativos em novas tecnologias, com conseguido impacto formativo e visual, é exemplo a reter. Não só em termos de sedução, mas também de receitas.
Excluídas, desde logo, urbes emblemáticas como Nova Iorque, Paris, Londres ou Roma, Dublin não rivaliza com outras suas congéneres capitais europeias, como Lisboa, Praga, Viena ou Budapeste, de igual modo em países de pequena ou média dimensão territorial ou populacional. Não rivaliza nem ultrapassa Estocolmo. Supera, para mim, e nesta perspetiva, Helsínquia. Rivaliza com Oslo. Apesar das suas particularidades, e cada caso ser um caso, aproxima-se mais de urbes metropolitanas não capitais, como o Porto.
Por sua vez, os irlandeses são prestáveis e simpáticos. Dos povos nórdicos, pelo que conheço, os mais parecidos com os do sul da Europa. Mais alegres e prestativos que os ingleses. A comida é melhor que a incarateristicamente usual alimentação inglesa.
Há quem veja grande semelhança entre Portugal e a Irlanda. Fosse a Irlanda solar e de bom clima, em vez de chuvosa e fria, substituísse a cerveja pelo vinho, aí teríamos um novo Portugal e o inverso. Trata-se de uma caricatura, de um exagero, com o seu quê de real, ressalvadas as distâncias. Têm como património comum o mar, porque ambos países marítimos, a que acresce a insularidade irlandesa.
A língua de Camões, Pessoa e Machado de Assis foi-me audível, várias vezes, de turistas e emigrantes portugueses e brasileiros, essencialmente via Brasil. Mas não a vi escrita, nem a ouvi falada, em avisos e informações de autocarros turísticos e na visita que fiz à National Gallery de Dublin. Em alemão, francês, inglês, italiano, castelhano, japonês, por vezes em holandês e sueco, isso sim. Mas não em português… Dia 12 de Agosto de 2013, na National Gallery, tentaram disponibilizar-me um áudio-expositivo em castelhano, dada a ausência no meu idioma. Tentando supri-la com uma educada e satisfeita observação: “Sir, please, but we have spanish”. Lamentando a omissão, optei pelo inglês. Expus as minhas razões, compreendidas pela minha interlocutora, que se mostrou recetiva a que as expusesse por escrito, o que fiz em inglês. Sendo o português um dos idiomas mais falados, com perspetivas crescentes de internacionalização, à frente do alemão, francês, italiano, holandês, sueco, japonês, russo, polaco, entre outros, manifestei o desejo que ocupasse o lugar que merece, por direito próprio.
No dia anterior, no início da visita à Guiness Storehouse, foi o castelhano a língua sugerida, num opcional roteiro em grupo, por falta de guias de português. Agradecendo, eu e demais família recusámos, argumentando que a omissão do nosso idioma não era suprida por outro, por muito respeito que nos merecesse. A termos que optar, ser-nos-ia mais compreensível o inglês. Fizemos a visita familiarmente com o benefício de nos ter sido facultado na bilheteira um mapa em versão portuguesa do percurso, que também existia na Christ Church Cathedral e St`s Patrick Cathrdral. A Nando e o café Costa surgem como marcas e nomes nacionais globalizados de emigrantes lusos de sucesso. Progressos graduais que não justificam a indiferença geral de emigrantes e turistas lusófonos quanto à língua comum. Senão mesmo de um complexo de inferioridade (o que assim aparenta ser, pelo menos no que toca à maioria dos portugueses).
Curiosa a tentativa de renascimento do gaélico, notória no aeroporto. Embora não seja pelo idioma, mas sim pelo catolicismo, que a República da Irlanda, vista do exterior, mais se particulariza, por confronto com o restante norte europeu. Em particular em relação ao vizinho Reino Unido, de que foi colónia. O que não inviabilizou a adoção e aproveitamento do inglês como língua de projeção global por excelência. Com notórios benefícios para o anterior tigre celta, não obstante a crise que vive.
De Dublin memorizo ainda um impressivo Caravaggio (Prisão de Cristo) e um retrato de mulher, de Goya, na National Gallery. Ou O`Connell Street, principal eixo de trânsito norte-sul, tido como a grande avenida, conquanto com largueza na largura e enfezada no comprimento.
A que acresce um tempo muito marginal em chuva, aprazível para a ilha, tornando a estadia mais confortável, afastando os receios não confirmados, neste contexto, de que na Irlanda chove todos os dias.
Enfim, duas opções são plausíveis quanto a um eventual regresso. Uma é não regressar, ficando Dublin em arquivo, dado outras urbes serem mais encantatórias, excitantes e vanguardistas, com novidades e atrações permanentes para ver, rever e voltar, às quais se regressa sempre. A alternativa é regressar, saboreando Dublin sem pressas, ao sabor do momento, tirando partido do já conhecido, a conhecer ou a rever, sem falta de tempo, nem tempo perdido.
Sem encantamentos exaltantes nem deslumbramentos exclamativos, eis Dublin no seu modesto esplendor.                                                                                                                      
Impressões pessoais de Dublin em Agosto de 2013  
Texto original revisto em 29 de Junho de 2015  
Joaquim Miguel De Morgado Patrício



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Foto de Noé Sendas, Cidade da Praia, 2004

 

Corsino Fortes, poeta maior da cultura cabo-verdiana e da língua portuguesa, cidadão exemplar, democrata de sempre, Embaixador, antigo governante, era um amigo de há muito do Centro Nacional de Cultura, sendo um dos elos fortes de uma relação riquíssima ao lado de Germano de Almeida, Vera Duarte ou de Fátima Bettencourt. Todos nos lembramos do memorável encontro que tivemos na cidade da Praia, no âmbito do ciclo «Os Portugueses ao Encontro da Sua História» em que Corsino Fortes representou a Associação de Escritores Cabo-verdianos. Colaborador da revista «Claridade», presente na antologia «Modernos Poetas Cabo-verdianos», é autor de «Pão e Fonemas», «Árvore e Tambor», «Pedras de Sol e Substância», «A Cabeça Calva de Deus», obras fundamentais para a compreensão da saga do povo de Cabo Verde. Foi o primeiro Embaixador de Cabo Verde em Portugal (1975-1981) e aqui reforçou amizades e ligações afetivas muito fortes e inesquecíveis. Estamos a ouvir a sua voz suave, a sua camisa imaculadamente branca, como lembra o nosso querido Germano de Almeida. Era o mais generoso homem que poderíamos conhecer. Quando eu chegava à Praia arranjava sempre um tempo para falarmos… A sua poesia é feita de memória e de ponderação certa de cada palavra. No fim da vida, apaixonou-se pela poesia japonesa e pelo uso parcimonioso das palavras. E o seu último livro, saído poucos dias antes da partida, deve ser lido com respeito religioso: «Sinos de Silêncio: Canções e Haicais». Querido Corsino Fortes – um grande abraço, não te esquecemos!


Guilherme d’Oliveira Martins



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O alagoano e escritor de nomeada Graciliano Ramos quando foi preso em 1936 sob a alegação de que seria comunista, diz um dia numa carta à sua mulher: “Estou resolvido a não me defender. Defender-me de quê? Tudo é comédia e de qualquer maneira eu seria um péssimo ator.”

Esta atitude, dizemos, constitui um forte enrijecimento da liberdade interior face à realidade de que somos todos os demais escravos das técnicas impostas pela produção e pela reprodução do igual e seu vazio. Estamos no terreno da mimese. Cada artista que deixe claro que é pela arte que o mundo da liberdade é possível e que se entenda o quanto a arte se impõe  também como antítese da sociedade.

Hermenegildo Bastos no seu livro “O pássaro-Inspeção” ( EBRASA – Editora de Brasília, 1970)

intui claramente o quanto este pássaro leva a cabo um verdadeiro ajuste de contas da escrita com ela própria, isto é da necessidade de expurgar da arte incontinências ou confusos limites na percepção das palavras, e dele estes percursos interiores


(…)5
poesia, inacreditável simetria.
os futuros
(sua vegetal percepção)
sabem.

6
demasiado tudo.
humanas coisas, seu falar
demasiado.

do planalto central
eu medito o centro
         dentro e fora
porque as mãos independem,
e eu
não sou apenas
o que faço.

E dou a mão a Graciliano de novo quando afirma “ Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever deve fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” 


E de Hermenegildo o possível diálogo

A poesia já está pronta

fora do poeta

como a vida

                     completa

 

O poeta vai e fere a poesia

quebra-a, destrata-a

mas não a esgota

 

Daí essa coisa gritante

que é ter o poeta

de fazer novos

poemas sempre

 

mas não como o rio dá peixe

sim como o peixe

na sua prática de rio

reinventa o nado

 

Está resolvido Hermenegildo a igualmente se não defender como Graciliano aquando da sua prisão. A sua não defesa é feita através da sua escrita por nós lida do lado de fora, do lado de cá do nascimento, quando se expõe a roupa lavada na corda ou no varal, agora como um mosaico de oportunidades.

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Julho 2015



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Quarta-feira, 29.07.15

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Ramada Curto

O INÍCIO DO EXPERIMENTALISMO TEATRAL


Evocamos hoje dois movimentos que marcaram, no início do século XX, a renovação e atualização, em termos da expressão teatral-experimental, o teatro português, no plano integral -  o único verdadeiramente significativo – do texto, do espetáculo, da cena e da dramaturgia: movimentos “experimentais”, diríamos hoje, na altura efémeros, mas que modernizaram, insiste-se, o teatro português, e iniciaram uma linha de renovação, em companhias profissionais ao longo do século passado e de que hoje  temos exemplos mais modernos, marcantes em plena atividade – o Teatro Experimental do Porto ou o Teatro Experimental de Cascais, por exemplo.

Esta linha de renovação surge, repita-se, com o início do século XX, designadamente em duas iniciativas, então efémeras, que marcaram profundamente a cultura teatral da época. Trata-se concretamente do Teatro Livre, de 1904, e do Teatro  Moderno, de 1905, há exatos 110 anos, o que é também de assinalar.

E ambos se devem a um ator muito marcante na época, Luciano de Castro, desde 1892 ligado a peças e espetáculos que, na altura, constituíram também fator de renovação e modernização da dramaturgia portuguesa, com autores então em plena atividade e modernidade: por exemplo D. João da Câmara ou Marcelino Mesquita, Afonso Gaio, Bento Mântua e sobretudo o jovem Ramada Curto, com a peça inicial da sua vastíssima dramaturgia, “O Estigma”, estreada em 1905, tinha o autor 19 anos!
Na época ator muito apreciado, Luciano de Castro mereceu encómios do seu contemporâneo Sousa Bastos: “belo elemento para o drama, muito distinto na comédia, e até na revista, tirando partido da simplicidade e naturalidade com que representa”… (in Diccionário do Teatro Português -  1908; idem -  fotografia do ator Luciano de Castro).

Ora bem: hoje, alguns daqueles dramaturgos são expressões “históricas” do teatro português, mas na altura eram expressões de modernidade – e hoje como na altura são expressões de indiscutível qualidade.

E aí, destaco Manuel Laranjeira, autor  só lembrado por “especialistas” na história da dramaturgia portuguesa mas que, na  época, marcou e percorreu as grandes linhas de renovação e atualização. A existência malograda deste dramaturgo, que pôs termo à vida em 1912 com 35 anos, reflete-se nas duas peças que chegaram até nós, “…Amanhã” e “Às Feras”, cenas  de sentido social e temática ligada a problemas socio-económicos então extremamente sensíveis.

Para lá da produção dos espetáculos, o Teatro Livre e o Teatro Moderno marcaram ainda o meio teatral com uma teorização avançada para a época. Glória Bastos e Ana Isabel Teixeira de Vasconcelos recordam as grandes linhas do manifesto do Teatro Livre, claramente modernizante, do movimento, que se propunha “trazer um sopro de vida à dramaturgia portuguesa” e “redimir pela Arte e vencer pela  Educação”: notável programa, se considerarmos o que era o teatro profissional e o público habitual no início do século XX. (in “O Teatro em Lisboa no Tempo da Primeira República” ed. Museu Nacional do Teatro - 2004).

E é ainda de assinalar que diversos destes espetáculos foram dirigidos  por António Pinheiro, notável ator/encenador da época, que haveremos aqui também de evocar.

Como havemos de evocar outro movimento teatral da época, também claramente renovador mas efémero – o Teatro da Natureza que, no verão de  1910, sob a direção do ator-encenador Augusto Pina, atuou no Jardim da Estrela.

Mas esses temas ficam para próximas crónicas.

 

DUARTE IVO CRUZ



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Terça-feira, 28.07.15

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The Summer silly season, 2015

A época é propícia, todos o sabem. Ainda assim, tudo indica que o Labour Party vive inquietos dias de excesso entre os quatro candidatos na corrida à liderança, as advertências de Mr Tony Blair contra o regresso às fileiras da doença infantil do esquerdismo e agora até a apimentada queda em desgraça de um dos seus mais destacados representantes na House of Lords. — Chérie! À chaque fou plaît sa marotte.

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A perspetiva de RH Jeremy Corby MP ser entronizado com o seu Lenin hat na leadership election de 12 September 2015 simplesmente coloca os trabalhistas à beira de sério ataque de nervos. A gerir a tormenta está a Interim Leader RH Harriet Harman, a braços com a rebelião de 48 MPs contra a sua orientação de voto abstencionista na Tories’ Welfare Reform & Work Bill. A coisa vai de tal modo que a Press tanto escreve sobre a possibilidade de o Lab se partir quanto clama pelo imperativo de ter operativa Her Majesty's Most Loyal Opposition. — Hmm. The wise do at once what the fool does at last. Para variar, bons ventos sopram no Channel. Mr Chris Froome vence a Tour de France, sendo o único Brit a averbar tal feito pela segunda vez. Turkey dá sinais de adesão ao combate contra o Isis. Dez meses depois do voto unionista, RH Alex Salmond finalmente declara que um segundo referendo sobre a Scottish independence é inevitável. Também Mr Paul Krugman afirma no New York Times que a Grexit “is still inevitable.”

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Brave Summer tales around. O Kent está em quase estado de sítio devido a longuérrimas filas de trânsito, à crise dos migrantes a salto e ainda uma pacífica invasão de turistas continentais. Com o tempo a oscilar entre delicado sol e eventos metereológicos a escalar até os yellow warnings de ventos e chuvadas, as notícias revelam o gosto local pelo excêntrico qb. Assim: gaivotas atacam merendas em Brighton e um esquilo causa estragos num English pub, onde, narra bem informado jornal, depois de uma entrada ilegal, “got drunk, and went on a rampage.” Pior, porém, em paragens nortenhas: após 24 anos em busca do ilustre Loch Ness monster, o Nessie dos vitorianos, um desapontado explorador conclui que “Scotland’s fabled beast is just a big catfish.” Que dizer desta ementa para conversas de praia no glorioso South East England?

Mais em linha com o arraial no Labour Party em dias de ímpeto dos Scottish spirits e de um fantástico Lord filmado em festival de sex & drugs com comentário político à mistura, diversas singularidades surgem nestas leituras na areia. Primeira, uma “still inevitable Grexit” que Mr Krugman profecia com exame da estagnação económica no European South: “This is what happens when self-indulgent politicians ignore arithmetic and the lessons of history.” Segunda, um don’t worry that Europe hates us pela pena de Herr Yannick Nock no Süddeutsche Zeitung: ”European leaders have repeatedly begged Chancellor Angela Merkel to «take the helm» and lead the Eurozone out of its debt crisis. She did—but nobody is grateful. Instead, much of the European press blames Germany for imposing harsh austerity measures on Greece. (…) They want Merkel to show more sympathy... But schmoozing is not Merkel’s forte… She makes tough decisions and owns them. And the truth is, plenty of other European leaders, notably from Finland, the Netherlands, and Austria, are only too happy «to hide behind Merkel’s broad shoulders»… Germany’s best response to this media thunderstorm is to slip on a raincoat and let the hostility simply wash over.”

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Ora, o Guardian noticia uma mudança de tendência nas leituras deste 2015 Summer. Ao invés da perceção de uma preferência por something undemanding, os ledores antes optam por "large and testing books." Em alta obviously está Go Set a Watchman, de Mrs Harper Lee, raiz do quase sagrado Kill a Mockingbird (passado à tela por Robert Mulligan em 1962, com o encantador Mr Gregory Peck). As tabelas dos mais vendidos na Waterstones, Foyles &tc mostram títulos como The Mersault Investigation (de Kamel Daoud), The Buried Giant (Kazuo Ishiguro) e ainda a trilogia das Neapolitan Novels (Elena Ferrante). Destaque para o primeiro livro, da autoria de um jornalista algeriano do Quotidien d’Ouran, como ousada reinvenção do clássico L'Étranger pelo amado Monsieur Albert Camus. Vencedor do English Pen Award e do Goncourt du Premier Roman, trata-se da história do irmão mais novo do nunca denominado árabe morto numa praia de Algiers no romance original de 1942. Uma obra e outra arrancam sob o signo da mátria árabe: “Mother died today. Or, maybe, yesterday; I can't be sure,” abre o 1957 Nobel Prize in Literature. “Mama’s still alive today,” lê-se nas linhas do escritor cedo acusado de blasfemo colaboracionismo por radicais islâmicos. O assassino francês dá agora o nome à investigação, mas é a voz e o olhar do jovem Harun que conduzem a visitação ao drama familiar subsequente ao desaparecimento de Musa, num país então em vias de revolucionária libertação colonial. — The history is good to forget; that is why it is good to know.

 

St James, 27th July                

Very sincerely yours,

V.



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Segunda-feira, 27.07.15

livros de verão.JPG
Livraria Lello


Como habitualmente, apresentamos uma lista de livros para este Verão. O Estio é uma oportunidade para o encontro com a leitura. Talvez haja mais tempo ou disponibilidade. O livro permite-nos ir ao encontro da vida. Muito se tem discutido sobre o futuro do livro tradicional, em papel, com o calor próprio de algo que nos completa. Em uma escolha de 18 obras, que permitirá certamente compreendermos que o futuro do livro não está em causa.

 

1) Em primeiro lugar, a «Obra Poética» de Sophia de Mello Breyner Andresen, publicada na Assírio e Alvim, revelando «uma fascinante imagem da busca de um ideal de claridade, parcimónia e nudez essenciais» E há dias, quando voltámos a ouvir Maria Barroso a ler «Porque» e «Carta aos Amigos Mortos» pudemos compreender como a palavra permite revelar o essencial da vida. É o livro do Ano!

2) Como exemplo de uma obra romântica belissimamente traduzida, refiro «Os Noivos» de Alessandro Manzoni, editado pela Paulinas com tradução de José Colaço Barreiros.

3) Para compreender a atualidade, de Jaime Nogueira Pinto «O Islão e o Ocidente – A Grande Discórdia» (D, Quixote). A pergunta fundamental do livro tem a ver com a necessidade de entender as especificidades da cultura islâmica e de não cair na tentação de exportar modelos ocidentais – procurando, sim, modos efetivos de pôr a tónica na dignidade humana.

4) Frederico Lourenço escreve, na Cotovia, «O Lugar Supraceleste», onde coexistem textos ensaísticos e autobiográficos – de um extraordinário cismador meditabundo.

5) Manuel Alegre, na D. Quixote, publicou «Bairro Ocidental». «Nau Ideia. Sem ela nós não somos nada / não mais que um bairro perdido a Ocidente / com ela se navega mesmo se / parada / só com ela se pode chegar ainda / ao que dentro de nós é sempre ausente…».

6) Ana Nascimento Piedade publica na Gradiva «Diálogo com Eduardo Lourenço». A crítica dos mitos é a procura do que somos: Antero, Pessoa, Sophia – mas também Nemésio, Agustina, Cardoso Pires. Eternamente heterodoxo pondo a arte no centro da vida.

7) Paulo Castilho escreve «O Sonho Português» - um retrato sobre quem somos hoje, na continuidade e na contradição, combatendo a mediocridade.

8) Isabel Stilwell apresenta-nos o exercício romanceado «D. Teresa – Uma Mulher que não abriu mão do poder», editada pela Manuscrito. Um exercício inteligente e acessível, com valor pedagógico.

9) Umberto Eco escreveu «Número Zero» (Gradiva). Um sério apelo a cuidar da tentação de usar na comunicação o comércio da mentira.

10) Rita Ferro escreveu o segundo volume do seu Diário: «Só se Morre uma vez» (D. Quixote). O que pode preocupar-nos para além da vertigem da violência quotidiana e da indiferença.

11) Steffen Dix escreveu na Tinta da China uma obra belíssima e imperdível «1915», sobre o ano do Orpheu, que o Museu da Eletricidade e a Biblioteca Nacional de Portugal ilustram muito bem em duas mostras fundamentais.

12) E se falo de Exposições, devo referir «Josefa de Óbidos e a Invenção do Barroco Português», sob direção de António Filipe Pimentel, como um extraordinário catálogo pode ser ilustrativo de uma identidade muito própria!

13) António Tabucchi na D. Quixote é recordado como uma obra-prima, onde se reúnem «Os Voláteis de Fra Angelico, Sonhos de Sonhos, e Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa».

14) António Mega Ferreira reuniu treze contos em «Hotel Locarno» (Sextante Editora). De facto, o Conto é uma questão Metafísica, que existe, porque tem de existir.

15) Mário Cláudio é o inspirado autor de «Retrato de Rapaz – Um Discípulo no Estúdio de Leonardo da Vinci» (D. Quixote), agora premiado pela APE.

16) Hélia Correia, agraciada com o Prémio Camões, dá-nos «A Terceira Miséria» (Relógio de Água), poesia sentida e necessária.

17) Alberto Vaz da Silva escreveu «Evocação de Sophia» (Assírio e Alvim), com prefácio de Maria Velho da Costa e Posfácio de José Tolentino Mendonça. Alberto continua entre nós.

18) Numa escolha de livros para leitura de vilegiatura acrescentamos a última Encíclica do Papa Francisco sobre o momentoso problema ecológico e ambiental - «Louvado Sejas» (Paulinas) – Carta Encíclica sobre o Cuidado da Casa Comum e uma Ecologia Integral.

 

Boas Leituras!



publicado por cnc_admin às 14:37 | link do post | comentar

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De 27 de julho a 3 de agosto de 2015.


«Ah!» de Alberto Vaz da Silva (Estuário, 1990), com fotografias de Jorge Molder, reúne um conjunto de crónicas publicadas na imprensa, através das quais podemos encontrar a diversidade de temas e interesses que o tornavam uma personalidade única e inesquecível.

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SOB O SIGNO DE SOPHIA…
A vida dá voltas surpreendentes. A crónica de hoje poderia ser sobre uma recordação simples e próxima, mas também poderia chamar-se «Carta aos Amigos Mortos». Há um mês atrás não esperaria ter de a escrever. Pelo menos, assim. No fim de maio, uma vez que havia que homenagear Sophia de Mello Breyner nos setenta anos do Centro Nacional de Cultura (CNC), Maria Barroso manifestou grande entusiasmo em participar. A melhor maneira de invocar a memória da Amiga e antiga Presidente do CNC seria através da poesia. Depois de diversas combinações telefónicas fui visitá-la à Estrela, na sede da Pro Dignitate, como acontecia muitas vezes. Encontrei-a a subir no elevador eletrónico, pois tinha sofrido uma pequena queda poucos dias antes, queixando-se de problemas de equilíbrio. Com a elegância de sempre, pediu desculpa pelo incómodo e pelo atraso. Conversámos animadamente na subida da escada. Daí a poucos minutos, já no seu gabinete, estava tudo combinado. Far-se-ia uma gravação em vídeo de dois poemas de Sophia para passar no Museu do Oriente na festa do CNC, ainda que Maria de Jesus preferisse dizer os poemas de viva voz, o que só não aconteceria por um pequeno desencontro, que daria lugar a diversos telefonemas no dia seguinte, que permitiram podermos falar de outras coisas… O primeiro poema escolhido foi o belíssimo «Porque», a melhor homenagem a Francisco Sousa Tavares, a quem o CNC deveu tudo e por cujo impulso Sophia foi presidente, atraindo uma plêiade notável de jovens poetas e escritores. Essas palavras fortes, claras, serenas ultrapassam os umbrais de qualquer momento – ficam como letras de ouro e marca indelével de liberdade: «Porque os outros se mascaram, mas tu não / (…) Porque os outros vão à sombra dos abrigos / E tu vais de mãos dadas com os perigos / Porque os outros calculam mas tu não» («Mar Novo», 1958). A voz de Maria de Jesus Barroso deu a esse poema a sua força heroica, como só ela sabia fazer. E ficou-nos na lembrança a imagem de Francisco no cimo da guarita do Largo do Carmo, no dia 25 de abril. A segunda escolha foi da própria Maria Barroso, e quando hoje voltamos a ouvir a sua expressão nítida e timbrada, ficamos com uma emoção incontida e a sensação quase de vertigem. Essa gravação derradeira tornou-se premonitória e simbólica. Tudo se passa agora como se assistíssemos a um estranho mas inexorável passar de um lado para o outro através de um espelho. Em «Carta aos Amigos Mortos», Sophia disse-nos tudo o que pode ser dito neste momento. Não só lembra quantos nos deixaram, mas também compreende a fantástica força libertadora da poesia. «Eis que morrestes – agora já não bate / O vosso coração cujo bater / Dava ritmo e esperança a meu viver / Agora estais perdidos para mim / - O olhar não atravessa esta distância - / Nem irei procurar-vos pois não sou / Orpheu tendo escolhido para mim / Estar presente aqui onde estou viva / Eu vos desejo a paz nesse caminho / Fora do mundo que respiro e vejo…» («Livro Sexto», 1962). Quando nos deixa alguém próximo, como agora aconteceu, não há palavras. Mas tudo estava dito, quando ouvimos: «E eu vos peço por este amor cortado / Que vos lembreis de mim lá onde o amor / Já não pode morrer nem ser quebrado / Que o vosso coração já não bate / O tempo denso de sangue e de saudade / Mas vive a perfeição da claridade / Se compadeça de mim e do meu pranto / Se compadeça de mim e do meu canto». A escolha foi premonitória. Esse diálogo com Sophia significa o encontro do espírito, da lembrança e da liberdade.


A PRESENÇA DE ALBERTO

No mesmo dia em que fomos dizer adeus a Maria de Jesus, Alberto Vaz da Silva também partiu. E Sophia era para ele igualmente referência fundamental. Não podemos compreender bem a importância essencial da autora de «Mar Novo» sem recorrer ao testemunho crítico de Alberto. Leia-se o pequeno livro «Evocação de Sophia», com prefácio de Maria Velho da Costa e posfácio de José Tolentino Mendonça (Assírio e Alvim, 2009). É uma preciosidade. É a melhor das sínteses para entender a importância singularíssima de Sophia. E lá estão, em diálogo, todos os elementos que nos são lembrados na Carta do «Livro Sexto». Na celebração dos setenta anos do Centro, Alberto já não pôde estar, mas o seu neto Martim recebeu, em seu nome, a Medalha de Mérito Cultural do governo português (ao lado do reconhecimento de Gonçalo Ribeiro Telles). Foi uma justa e inesquecível homenagem que há muito tardava, para um dos mais apurados conhecedores da literatura e da arte em Portugal. E se falámos do conhecimento finíssimo da obra de Sophia, não esquecemos o amor da arte e a compreensão exata de Carlos Queiroz ou de Agustina Bessa-Luís. Como gostava de recordar, citando Appolonyus de Tyana: «Ninguém morre senão em aparência, do mesmo modo que ninguém nasce senão aparentemente. A mudança do ser para o devir parece ser o nascimento e a mudança do devir para o ser parece ser a morte, mas na realidade ninguém jamais nasce nem ninguém jamais morre. É apenas um ser-se visível e logo após invisível…». De uma curiosidade insaciável, Alberto soube sempre trilhar caminhos inesperados e espantosos. José Tolentino Mendonça fez, aliás, questão de recordar essa capacidade de espanto no vocabulário único do cultor do estudo dos astros ou da grafologia, em busca de psicologia das profundidades. Nunca deixou, por isso, de reler Carlos Queiroz: «Ver só com os olhos / É fácil e vão: / Por dentro das coisas / É que as coisas são». Isto tinha muito a ver com o que o Alberto era. «Um dia serei alegre!», com a «a mágoa de não sentir / Essa alegria sem par / que têm os santos a agir / E as crianças a brincar, / Essa alegria gerada / Numa suprema inocência / que toca de transcendência / Até as coisas de nada».


UMA FRASE DE SAINT-MARTIN
Vem à baila a frase de Saint-Martin: «Houve certos seres através dos quais Deus nos amou». Alberto lembrava, assim, Helena, sua mulher, e todos quantos foi encontrando nos caminhos da vida. Era assim a sua fé, feita de afeto e espontaneidade. Afinal, o seu conhecimento enciclopédico permitia-lhe fazer compreender tudo para além do imediato. Lembrando Cristina Campo, era daqueles «que desenham com as suas vidas um mapa de tal modo original que se torna necessário à viagem dos outros». Ao longo dos muitos anos, contei sempre com o seu apoio e o seu conselho. Já tenho saudades desse tempo tão próximo. O quotidiano ligava-se ao eterno, naturalmente. Leia-se em «Ah!» com as fotografias inesquecíveis de Jorge Molder (1990): «Uma casa de chá é um refúgio no meio do atropelo gritado e egoísta das cidades de hoje. Um generoso espaço de acolhimento, recomposição e encontro, quase de meditação. Uma cidade que tem casas de chá a sério dispõe de uma rede invisível de proteção contra a entropia que corrói a existência». Era assim o Alberto, olhando sempre para os mistérios que estão para além do palpável.

 

Guilherme d'Oliveira Martins



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