Sexta-feira, 27.03.15

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Câmara Municipal de Cascais


4. A MORTE E O DIA

Já lá irão uns dez anos, não conto bem, cheguei a esta idade em que cada década nos parece um ano apenas. Mas lembro-me desse dia como se fosse hoje. Ao tempo, pelo Verão, saía de casa muito cedo, com dois netos pela mão - uma à direita, o outro à esquerda: a Inês, a chegar aos seis anos, o Tomás com quatro e meio. Descíamos o Monte Estoril até ao mar, procurávamos, na maré baixa, uma mancha de rochas onde pudéssemos descobrir caranguejos minúsculos, burriés e conchas várias... Os pequenos, descalços e de cócoras - como eu, tal qual - encantavam-se com aquele movimento de águas e vidas, respirando a transparência da manhã, acolhendo o sol ainda tímido. Contava-lhes então como, sessenta anos antes, quando ainda não havia o paredão por onde tínhamos caminhado, com outros garotos eu andava por ali, pela costa rochosa, e apanhávamos lapas e mexilhões e os comíamos crus. Ficavam os meus netos com ganas de provar um burrié, e eu levava - os então ao mercado de Cascais, a comprar uns mariscos vários, que os três preparávamos para o almoço. Creio que também assim aprendiam a comunhão do mundo, ou como todos pertencemos à natureza que Deus criou e nos dá vida. E a tira, individualmente: mas nada se perde, tudo se transforma...  De regresso a casa, atravessávamos o Jardim dos Passarinhos, onde em certa manhã fotografei os netos em cenários quase iguais aos de retratos meus aos três anos. E quando lhes mostrava os mesmos, eles miravam-me com sorrisos que, nos olhos deles, diziam incredulidade e amor. Logo me reconheciam naquelas fotografias, porque me conheciam e sempre me tinham visto em tamanho maior e com barbas... O coração não lhes mentia. A manhã, entretanto, já se fizera dia claro, meridiano, criador. Parámos junto ao tanque em que nadavam uma tartaruguitas e outras se enxugavam ao sol. Uma delas, maior, parecia mais velha, talvez doente. A Inês puxa-me o braço direito e pergunta: - «Avô, aquela está velha, doente! Vai morrer?» Respondi-lhe que não sabia se morreria agora, mas qualquer dia haveria de morrer... «Porquê, Avô?» Porque tudo o que nasce, vive e morre. «Nós também!» Também. Puxam-me então pela mão esquerda. É o Tomás. Baixo para ele os olhos e dou com os dele, escuros e luminosos, sérios e firmes. Diz-me: «Avô, o Tomás não nasceu!». Tinha razão: somos todos eternos no coração de Deus.

 

Camilo Martins de Oliveira



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Quinta-feira, 26.03.15

22.

porventura versos 22.jpg


Às vezes morrer custa muito

Se nos surpreendeu o local, nome e sinal

Do rio que nos abraçava

E que eras tu o vizinho

Do outro lado da margem

E se esticasse o braço

A ponte, mantimento

Do nascer, firmeza

A que a natureza foi

Presente

Ai!, Muita vida ficou

E tu ou eu

 

Teresa Bracinha Vieira

2015



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Quarta-feira, 25.03.15

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Hoje, procuro a vastidão sem limite certo, o mundo estranhamente longe e perto do Poeta, e vou por onde me leva a natureza, lá onde Herberto Hélder será sempre terra que desperta o coração da palavra pescadora.

 

Teresa Bracinha Vieira

Março 2015



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Jacinto Ramos nos “Comediantes do Porto”

 

JACINTO RAMOS E O TEATRO DO NOSSO TEMPO - TNT

 

Já aqui fiz referência ao teatro Villaret, iniciativa de Raul Solnado que o dirigiu desde o espetáculo inicial em 1964, até 1968. Solnado realizou, como diretor e como ator, uma ação relevante no ponto de vista de repertório e sobretudo no ponto de vista de espetáculos e de elencos, com o devido destaque as suas próprias  encenações e interpretações. Mas ao mesmo tempo, abriu o teatro a iniciativas diversas da maior qualidade e repercussão: citei já, no artigo anterior, o célebre ZIPZIP feito  para a RTP.

Mas a partir de 1965, faz agora exatos 50 anos, o Teatro Villaret como que se desdobra e acolhe uma iniciativa especificamente dramática, com risco calculado e muito bem sucedido – o que é notável – de simultaneidade de espetáculos. A chamada Companhia do Teatro do Nosso Tempo – TNT (não confundir com o TNP - Teatro Nacional Popular de Francisco Ribeiro, anos antes no Trindade) fazia espetáculos no Villaret, em sessões de fim de tarde ou alternando com os espetáculos da companhia de Raul Solnado. O sistema era arriscado mas funcionou… o que se deve à qualidade dos  repertórios e dos elencos de ambas as companhias.

O TNT era dirigido por Jacinto Ramos (1917-2004), o qual desde 1945 marcava posição como ator em grupos profissionais e experimentais, com destaque para a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, onde ingressa em 1950, numa colaboração intermitente mas de dezenas de anos. Esteve entretanto ligado a outras colaborações, mas destacando sempre uma qualidade e exigência de repertório e de interpretação que duraria até final da carreira.

Em centenas de peças e de autores, cite-se designadamente entre os dramaturgos portugueses, desde Gil Vicente a Garrett, Eça de Queiroz (adaptação de Os Mais por Bruno Carreiro no Teatro Nacional) mas também, designadamente, Raul Brandão, António Patrício, Alfredo Cortez, Júlio Dantas, Romeu Correia, Alves Redol, Luis Sttau Monteiro, Bernardo Santareno, José Cardoso Pires...

Acrescente-se a participação na televisão e em cerca de 10 filmes, com destaque para o Chaimite de Jorge Brum do Canto.

Ora bem: como vimos, em 1965, Jacinto Ramos cria e dirige, no Teatro Villaret, a companhia do Teatro do Nosso Tempo, com um  elenco de grande qualidade e  um repertório de atualidade.

E nesse aspeto, salienta-se o repertório contemporâneo, desde logo com peças iniciais  da atividade da companhia: por exemplo O Segredo de Michael Redgrave a partir de um conto de Henry James, ou especialmente a Antígona de Annouilh, este um belíssimo espetáculo pela qualidade do texto e pela interpretação, com destaque para  Maria Barroso na protagonista,  no que viria a ser, cremos, o seu último grande papel  como atriz.

Recordo o comentário que na altura escrevi acerca do espetáculo de estreia da companhia, com O Segredo: “é uma peça bem construída de desenvolvimento certo e que enquadra com a maior segurança o conteúdo denso, cheio de implicações. O ritmo lento marca com clareza a intemporalidade ambiental, a repetição genérica de movimentos, de vidas e de psicologias.” E a análise crítica prosseguia com referências específicas ao encenador Paulo Renato, que poderemos um dia evocar nesta série de artigos.

 

DUARTE IVO CRUZ



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Terça-feira, 24.03.15

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The election weather man, 2015

A economia conquista progressivamente conversas e debates em plena contagem decrescente para as eleições gerais de 2015 May 7. The Chancellor of the Exchequer apresenta na House of CommonsThe election weather man 2.JPG o último e o mais político The Budget da presente legislatura. Iluminando êxitos e obscurecendo insucessos, qual fabuloso eclipse solar que nestes dias assombra o North Atlantic, RH George Osborne é o perfeito weather man ao introduzir clássico orçamento de cash-for-voters. — Chérie, chat échaudé craint l'eau froide. O ex Scotland First Minister Alex Salmond enuncia na BBC os termos em que o SNP quer ditar novo programa económico por apoio a eventual governo minoritário do Labour. RH Ed Milliband diz que tal não acontecerá neste milénio. Os ânimos aquecem em torno do líder do UKIP durante um almoço familiar de MEP Nigel Farage num pub em Downe (Kent). — Hmm. It's the exception that proves the rule. O US President Barack Obama recebe no Oval Office HRH Charles of Wales. Singapore decreta luto nacional de uma semana no passamento do founding father Mr Lee Kuan Yew, o Premier da cidade-estado nos seus gloriosos 30 anos. A Leicester Cathedral recebe as ossadas do King Richard III, caído na Bosworth Battle em 1485. Também Madrid anuncia o achamento do esqueleto do Signor Miguel de Cervantes. The Wee smoked white tea de Perthshire é classificado como the finest in the world.

The election weather man 3.JPGApprehensive sunny skies and light winds em Central London. Por momentos o sol confirma-se a grande estrela da galáxia. The Parliament esperava um amistoso orçamento em ano eleitoral, mas o documento quase é obnubilado pelo otimismo retórico de RH George Gideon Osborne. Tory austerity!? A tentação eleitoralista é irresístível no Number 11. So sorry, but here we are dancing by the old music. O leque de medidas contém goodies para este, aquele e mesmo aqueloutro segmento votante. Com um horizonte pautado por crescimento cifrado nos 2.5% em 2015 e 2.3% em 2016, a par de desemprego na casa dos 5% equiparado à taxa do défice, obscurece-se a manutenção da monumental Government debt: £1.48 trillion (80.4% do GDP) em 2014/15, sob perspetiva de descida real para £1.63 trillion (71.6%) em 2019/20. O insólito do debate orçamental em curso é lateral, pois. Ao “economic plan” dos conservadores contrapõem os trabalhistas “a better plan” e os liberais esgrimem agora “a better alternative.” The Treasury Secretary Danny Alexander discursa nos Commons com uma Lib Dem yellow box para diferenciar o parceiro da Coalition da Conservative red box, evento sectário que lhe vale a admoestação do RH Speaker John Bercow sobre regras e institucionalismo.

O formato e a data para a realização dos Election TV debates entre os partidos estão finalmente decidos, após prolongado jogo de taticismo protagonizado por Downing Street. A ITV recebe a April 2 um full debate entre o Prime Minister e o Opposition Leader mais os Party leaders do Ukip, Greens, SNP e Plaid Cymru (os dois últimos de natureza regional, por Scotland e Wales). No 2015 General Election tracker mantem-se penoso impasse numérico: Labour – 34.02%; Conservatives – 33.16%; Ukip – 14.9%; Lib Democrats – 7.9%; e Greens – 4.73%. Faltam 44 dias para o ballot day.

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Mrs Kristin Scott Thomas recebe a sua Damehood no Buckingham Palace das mãos de Elisabeth II “for service to drama.” A ilustre nativa de Cornwall junta-se assim a restrita galeria onde avultam as notabilíssimas Judi Dench e Maggie Smith. A atriz (de 54 anos) ultima os preparativos para levar a personagem da monarca (de 88 anos) aos palcos, corporizando um papel até agora interpretada por Dame Helen Mirren em The Audience. Quando ainda está na retina The English Patient, do novo projeto diz a própria living royal person: “Quite a challenge.” A peça de Peter Morgan (da película The Queen) estreia em London's West End no próximo mês e retrata as reuniões privadas semanais entre Her Majesty e os UK Prime Ministers ao longo das seis décadas de reinado, aliás, uma série iniciada com sir Winston Churchill. — By me princes rule, and nobles, all who judge rightly.

 

St James, 23rd March

Very sincerely yours,

V.



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Segunda-feira, 23.03.15

Presidente_livro_2.jpg
De 23 a 29 de março de 2015

 

Em ano de diversas celebrações, não esquecemos o centenário de dois dos fundadores dos «Cadernos de Poesia», Ruy Cinatti e Tomaz Kim, enquanto o centenário de José Blanc de Portugal passou em 2014. Para os promotores dos «Cadernos», «a Poesia é uma só» e o poeta é um "homem destinado a nele se definir a humanidade. Um ser capaz de ter todo o passado íntegro no presente e capaz de transformar o presente integralmente em futuro", através de uma "atitude de lucidez, compreensão e independência". Hoje voltamos a recordar Cinatti, um «cavaleiro de aventuras», retratado por Ruben A.

Cadernos de Poesia.JPG

QUE CAVALEIRO DE AVENTURAS?...
«A Torre da Barbela» de Ruben A. é um dos romances portugueses mais entusiasmantes do século XX. Só um escritor dotado, a um tempo, de imaginação prodigiosa e de um belíssimo conhecimento da nossa história e cultura, poderia escrever uma narrativa onde, sem sombra de anacronismo, usufruímos um diálogo rocambolesco entre personagens vindos de oito séculos de existência portuguesa. O historiador experimentado associa-se ao romancista culto para nos dar, num registo aparentemente leve, um exemplo de criação moderna de primeiríssima exigência. Ruben A. é na cultura portuguesa contemporânea um caso – desde as suas memórias («O Mundo à Minha Procura») até à investigação histórica sobre o primeiro homem moderno que houve em Portugal – D. Pedro V –, passando pela capacidade de imaginar e sonhar, encontramos a preocupação de ultrapassar a mediania e de fazer da cultura algo que valha a pena e que permita sermos melhores. Foi, assim, um lutador contra a indiferença, a irrelevância e a mediocridade – e por isso arcou com intrigas, incompreensões, invejas e as mais diversas safadezas. Lembro o romance e o seu autor, a propósito de um seu amigo, cujo centenário passou há dias – Ruy Cinatti. Foi ele que inspirou a figura mais complexa e inusitada do enredo romanesco, o Cavaleiro da Barbela, protagonista do amor fantástico pela «prima das franças», Madeleine, que levou Eduardo Lourenço, com a sua proverbial perspicácia, a dizer: «o romance de Ruben A. (…) é o relato dos nossos oito séculos de santa felicidade absurda, do nosso repouso provinciano, perturbado pela presença da nossa longínqua e desenvolta prima francesa, Madeleine. Para Ruben A., a história do amor louco do Cavaleiro da Barbela pela sua prima Madeleine é a história do nosso imaginário erótico, cultural e literário» («Nós e a Europa ou as duas razões», tradução nossa do francês). «Ah, como nós precisamos de ir lá fora aprender essas coisas! Sabe, estamos para aqui a cozinhar bacalhau e a ver navios na barra de Viana. Exportamos enguias e trutas assalmonadas – o resto é esperar por morrer sem ter tomado parte na vida. Passa-nos ao lado».

 

NÃO SOMOS DESTE MUNDO
Não foi por acaso que Ruben escolheu o seu amigo Ruy Cinatti para inspirar o Cavaleiro da Barbela, no retrato do «drama lírico das nossas deficiências, corrosivas, o tacanho de nossa convivência, radiografia que deixa a nu a falta de progresso em oito séculos de procriação, o monólogo de diálogo que não existe e a beleza de uma paisagem que existe»… No romance o cavaleiro percorre os montes com o garrano da Ribeira Lima, Vilancete, seguido por Abelardo, o falcão imprescindível na caça. É o mais lendário do mundo triangular da misteriosa torre, sintetizando «um sem número de atributos» com permanência «flutuante a um grau acima da maré cheia do equinócio». O encontro com Madeleine é surpreendente, saindo o cavaleiro do seu sono letárgico, com referências que estão a anos-luz das da francesa – o sonho, a aventura, o idealismo, a liberdade e a natureza. Mas essa aproximação constitui a chave da intuição que Ruben A. a propósito da pergunta sobre quem somos. Só um poeta idealista, empenhado em procurar horizontes novos, poderia corporizar o que o romancista queria nesta obra pela qual se sentiu apaixonado. Ruy Cinatti é o contemporâneo que Ruben considera ser uma espécie de alter-ego de si próprio, também dividido entre o respeito das raízes seculares e a necessidade da sua transformação; entre a tradição e o impulso fortíssimo para abalar os fundamentos. Ruben e Cinatti sentem dentro de si essa contradição e a exigência do inconformismo. E, no caso do Cavaleiro, estamos diante de um Quixote à nossa medida, misturado com o «pobre de mim» de Fernão Mendes Pinto. O amor louco que o Cavaleiro protagoniza com Madeleine (e o inesperado rapto por esta) contrasta com o fechamento e a acomodação dos mortos-vivos, que são os Barbelas e que representam Portugal. Contudo, o romancista, por um lado, e o poeta seu modelo, por outro, recusam o fatalismo da irrelevância. Por isso, o Cavaleiro é uma referência singular e única. «Ali, lado a lado, Madeleine e o Cavaleiro digladiavam-se na procura da felicidade que cada um trazia dentro de si. Dois mundos que se mediam animados pelo fogo de uma chama intransmissível».


EM PROL DA CONDIÇÃO HUMANA
Há dias, a convite de um amigo, o escritor timorense Luís Cardoso, participei na celebração do centenário do nascimento de Ruy Cinatti (1915-1986). Foi a generosidade e a determinação desse «Cavaleiro de aventuras» que lembrámos, como poeta maior da nossa língua e como timorense do coração. «Dizia o que pensava – sua magnânima qualidade». Ele nos ensinou que o mundo da língua portuguesa é um condomínio e que o humanismo universalista nos leva à confluência entre uma língua de várias culturas e uma cultura de várias línguas. E em Timor, Cinatti não apenas procurou colocar-se ao serviço do povo que tão intimamente amava, mas também usar a sua experiência de agrónomo e antropólogo em defesa de uma natureza luxuriante ameaçada. Foi uma personalidade complexa e fascinante, o amor fraterno atraía-o, o sonho era o seu ambiente natural, a descoberta das diferenças a sua paixão, a ciência e o espírito andavam sempre consigo, numa ligação fecunda. Poeta dos «Cadernos de Poesia» (1940), com José Blanc de Portugal e Tomaz Kim, bem como da causa de Timor, sobre ele Peter Stilwell escreveu «A Condição Humana em Ruy Cinatti» (Presença, 1995), obra imprescindível para compreendermos não só a qualidade poética do autor de «Nós Não Somos deste Mundo», mas para entendermos a importância da sua capacidade criadora e da sua espiritualidade.


UMA AURA INULTRAPASSÁVEL
Francisco de Sousa Tavares falou do poeta seu amigo como possuidor de uma «aura inultrapassável»: «era necessário que a rara magia da sua personalidade única ficasse presente na nossa consciência como um traço de uma raça superior em que não havia ódio nem ambição desmedida e a relação dos homens fosse regida por uma lei primária – a lei da generosidade e do amor». É difícil dizer melhor sobre quem foi figura única, que sonhava com a verdade e a justiça, que muito dificilmente encontrava em fugaz vislumbre. «E eu – pobre de mim! – tão grande calma / Faz-me sofrer por não saber dar mais. / Oxalá que alguém viesse ensinar-me / O silêncio que, a sós, vai purificar-me: / Senhor! Porque não vens, porque me atrais?!». Eis o paradoxo e a dualidade. Sempre que estive em Timor-Leste recordei a lição de Ruy Cinatti. Foi das pessoas que levantaram o véu sobre essa terra e esse povo, vivendo intensamente o drama da distância e da proximidade: «O sol enche de luz um espaço meu / Maromak-Oan / (macho-fêmea). / Bandeira em pleno! / Timor em festa! / Timor tão longe que não vejo / passos meus andando praias / - Suai-Tíbar! / Ó Lulik acorda os homens. / Ergue-os ao ápice arbóreo! / (…) Timor surgindo / Mar indomável!...».

 

Guilherme d'Oliveira Martins



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Domingo, 22.03.15

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São Sebastião

 

3. SEBASTIÃO E OS CARACÓIS

Há provas fotográficas da familiaridade de Sebastião com caracóis: senta-se ao lado eles, e sorri para a câmara, como se posasse para uma fotografia com os seus amigos da primeira classe lá da escola. Também o vi e ouvi conversar com alguns gastrópodes mais atentos, de antenas bem esticadas. Nunca lhes toca, aprendeu que cada caracol conhece misteriosamente o caminho lento que o seu pé-barriga vai percorrendo, ou que, quando se demora mais um pouco em cima de caliça, é porque absorve o calcário necessário à solidez dessa concha que é a sua casa de trazer às costas. Assim, sorridente e solidário, Sebastião vai acompanhando, horas a fio, pelo jardim e pelo terraço, o deslizar sumido dos "seus" caracóis.

Um dia destes, pela festa de São Sebastião, um avô do miúdo, em vez de lhe contar a história de um mártir crivado de setas, numa agonia de sangue, resolveu dizer-lhe que os anjos, lá no alto dos céus, tocavam corneta, cantavam e dançavam, para festejarem os meninos que se chamam Sebastião, sobretudo aqueles que são amigos dos caracóis... Estes, felizes e gratos, tinham-se reunido em grande algazarra festiva, no jardim lá de casa, e cantavam alegremente:

                     Ora viva, viva Sebastião!

                     És muito, muito nosso amigo!

                     E fizemos esta canção

                     para a poder cantar contigo!

O pequeno assomou à janela do quarto e viu o jardim coberto de caracóis cantantes. Escorregou pelo corrimão de dois lances de escada, correu à porta, que abriu sobre o jardim. Fez-se silêncio, até os caracóis todos começarem a bater as antenas - tal como nós batemos palmas - e um raio de sol, como relógio a bater os bons-dias, iluminar de alegria a manhã. Sebastião sentiu crescer-lhe e jorrar a lágrima paradoxal, veio-lhe o choro mudo da beleza boa. E o coro dos caracóis rompeu e foi subindo, cantando o va, pensiero... Vai, voa, meu pensamento, com asas de oiro leve, leva-me de volta à pátria que não podemos perder!...

 

Camilo Martins de Oliveira 



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Sábado, 21.03.15

ConcepçãoEspacial_Mies.JPG

 

A nova concepção espacial no movimento moderno – Mies van der Rohe.

 

‘A razão constitui-se no primeiro princípio da actividade humana.’, São Tomás de Aquino

 

‘I hope you will understand that architecture has nothing to do with the inventions of forms. Architecture is the real battleground of the spirit. We have to know that life cannot be changed by us. It will be changed . But not by us. We can only guide the things that can cause physical change.’, Mies van der Rohe, 1959

 

Em 1960, Ludwig Mies Van der Rohe (1886-1969) afirmava que a arquitectura pertence a uma determinada época e deve expressar acima de tudo a real essência do seu tempo. Arquitectura é uma questão de verdade pura – verdade não é um ideal, é a expressão de uma estrutura clara e concreta. Mies não deseja mudar o seu tempo, mas sim ser expressão do seu tempo. Mies sempre se interessou muito pela ideia de verdade – e descobriu a resposta ao ler São Tomás de Aquino (‘Veritas est adaequatio intellectus et rei (Verdade é o equilíbrio entre o intelecto e a coisa)’) e Santo Agostinho (‘O homem tem em si a luz da razão eterna, na qual vê as verdades imutáveis.’). 
 

‘First of all I was influenced by old buildings.’, Mies, 1964
 

A nova concepção espacial introduzida por Mies van der Rohe, entre 1920 e 1933 (até à sua ida para os Estados Unidos) pode sintetizar-se através dos seguintes factores:

  1. Simbiose total entre matéria e forma, construção e ideia, tecnologia e arquitectura. Em ‘Conversations with Mies van der Rohe’ lê-se que Mies desenvolve a arquitectura através de uma estrutura clara. O resultado advém dos materiais correctos utilizados de maneira adequada. Dá-se muita importância à matéria e à técnica em detrimento da forma – porque estrutura e forma são uma coisa só. E o uso do vidro e do aço tomam uma enorme importância. ‘We use in German the word Baukunst; that are two words – Bau (building) and Kunst (art). The art is the refinement of the building. That is what we express with Baukunst. When I was young, we hated the German word for architecture: Architektur. We talked about Baukunst, because architecture is that you form something from the outside.’ Foi com Hendrik Petrus Berlage, que Mies aprendeu que arquitetura é construção, construção pura. A honestidade no uso dos materiais, principalmente através da utilização explícita do tijolo, impressionou Mies quando visitou Amesterdão pela primeira vez (sobretudo presente no edifício da Bolsa de Valores, de 1903) – Berlage escrevia no seu texto ‘Grundlagen und Entwicklung der Architektur’ (1908) que os princípios da arquitectura são a primazia do espaço, a importância das paredes enquanto criadoras de forma e a necessidade de proporção sistemática.
  2. Diluição dos espaços interiores. A hierarquia espacial é determinada através do valor material e posicional da parede. O espaço interno abre-se em diversas direcções e dá-se a aproximação do interior e do exterior. No projecto para as casas de campo em tijolo e em betão, de 1923, mesmo utilizando um material maciço, verifica-se uma disposição aberta dos planos internos. Através destes projectos, a concepção de arquitetura como um volume contido, deixou de ter sentido. E concretiza-se o carácter flutuante e mutável dos elementos que constituem a arquitectura. Esta nova concepção espacial foi, de algum modo, influenciada pela obra de Frank Lloyd Wright, que representa, para Mies, uma libertação exterior, através da implantação do edifício, mas também uma libertação interior, através da introdução da fluidez espacial. E porque para Wright, a arquitectura é assim um acontecimento primeiro e único, inimitável e irrepetível, é espaço que condiciona a existência, é acção do sujeito, é um organismo vivo. (Argan, 1992). No Pavilhão de Barcelona, de 1929 e na Casa Tugendhat, de 1930, Mies consegue abranger, pela primeira vez, o máximo do fluir interpenetrativo do espaço, através de planos internos que se tornam salientes no exterior (Giedion, 2008). Os interiores são divididos com liberdade, através de paredes móveis. O uso de superfícies puras feitas de materiais preciosos são os elementos determinantes na concepção do novo espaço.
  3. Transparência adquirida através do uso do aço e do vidro. Também Mies, tal como Bruno Taut e Gropius, foi influenciado pela leitura de Glasarchitektur de Paul Scheerbart – na execução do concurso para os arranha-céus de Friedrichstrasse, Berlim, (1919-21), Mies pretendia usar o vidro como uma superfície reflectora complexa que, sob o impacto da luz, estaria permanentemente sujeita a transformações. Em 1931, Mies concebeu para a Exposição de Berlim, uma casa de campo térrea totalmente revestida a vidro, concretizando ainda mais a unidade de espaço, plano e estrutura. Tal como acontece no edifício de apartamentos no bairro de Weissenhof, em Estugarda (1927), a estrutura de aço permite a eliminação da rigidez das paredes interiores e exteriores.
  4. A unidade da forma através de ordem, integridade e disciplina. Segundo Giedion, Mies van der Rohe, assim como Le Corbusier, estão empenhados em, deliberadamente, cultivar relações proporcionais através da sua obra construída. E o trabalho das proporções aparece naturalmente ligado ao trabalho dos materiais. Em ‘Conversations with Mies van der Rohe’ lê-se, que quando em jovem, Mies foi a Berlim para estudar atentamente a obra de Schinkel – ‘His buildings were an excellent exemple of Classicism – the best I know. I think Schinkel had wonderful constructions, excellent proportions, and good detailling.’(1960). A expressão de monumentalidade, unidade, disciplina e beleza afirmada na obra de Schinkel (como por exemplo no Altes Museum, de 1828) pretendia adequar-se ao nacionalismo militar prussiano, iniciado logo após a invasão de Napoleão em 1806 – um nacionalismo que desejava a unidade da nação através da pureza racial, contra o iluminismo francês. Igualmente o trabalho com Peter Behrens trouxe a Mies van der Rohe o sentido da grande forma, que deriva do uso e das possibilidades dos novos materiais como o vidro e o aço.
  5. Criação intencional de uma linguagem universal. Mies explora a eliminação de uma linguagem particular e individual – é essa a função do seu tempo. E estabelece um vocabulário que obedece a uma disciplina ortogonal e a um rigor. Deseja criar uma linguagem comum a todos e por isso Mies trabalha em arquitetura como se de uma linguagem se tratasse. Uma linguagem viva, mas disciplinada. ‘I think that a clear structure is a great help for architecture. To me, structure is something like logic. It is the best way to do things and to express them. I am very skeptical about emotional expressions. I don’t trust them. We wanted to develop new structural solutions which could be used by anybody. We were not after individual solutions. We were after good structural solutions.’ (1960)Ora, o aparecimento do neoplasticismo na Holanda trouxe a vontade de criação de uma linguagem universal. O sistema difundido por Van Doesburg e Mondrian baseava-se num processo de redução radical em que a aparência complexa e acidental da natureza se purificava até se converter numa retícula ortogonal irregular, preenchida em parte por rectângulos de cores primárias. A vanguarda holandesa acreditava que a lógica da máquina se pode converter num modelo para arte e para a arquitectura. O intelecto poderia assim criar formas que concretizassem uma forte aliança entre a arte, a arquitectura e a razão matemática. E arte e arquitetura passaram então a ser entendidas como algo impessoal e objectivo, não baseado no gosto individual. Concebidas através de um estilo unificado que reflectia o espírito da época e assim poderiam alcançar o seu destino histórico, o de se incorporar totalmente na vida quotidiana - ‘Van Doesburg saw these drawings of the office building. I explainded it to him, and I said, ‘This is skin-and-bones architecture’, After that he called me an anatomical architect.’


Ana Ruepp



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Sexta-feira, 20.03.15

Mosteiro de Alcobaça.JPG
Mosteiro de Alcobaça

 

10. DE PEDRO A INÊS

 

Jurei-te amor fogoso, feroz, louco,    

e só a Deus quis ter por testemunha,

pois mesmo ao próprio Deus, Inês, se impunha

o grito do teu nome, cavo e rouco...

 

Do profundo de mim, onde fervia

a raiva do desejo e da paixão,

subiu ao Céu a minha rouquidão...

De ti, só celebrei minha agonia,

 

e p´ra ambos nós reclamei vingança,

tornando tumular a nossa espr´ança,

como se noutras mortes saciasse

 

a fúria da saudade do teu rosto,

ou o gosto de ti feito desgosto,

de mim também, até que me afogasse...   

 

Camilo Martins de Oliveira



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Quinta-feira, 19.03.15

21.

Porventura versos 21.JPG


Não quero os leves lemes

Dos outros que se partem

Em mil pedacitos

De por dentro serem secos ou podres

Não quero

O grandemente dado por certo

Que não é sequer um carinho

Quanto mais amor de alguém

Não quero estes seres sem sinal

De qualquer réstia vital

Para além das invejas e posses

Propriedades, teatros, abutres

Reinos sem qualidade, ajuntamento

De sentires, cheiros de mau pescado

Almoços fartos de mentires

Temperados por obediências cobardes

Deus ! que há muito que não quero

O que por perto ainda gira numa ira

De carrossel desatinado, tonto e tão enfartado

Que morre pedindo emprestada a morte

De outro semelhante ou igual

 

Teresa Bracinha Vieira

2015



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BLOGUE DO CENTRO NACIONAL DE CULTURA

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