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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Bem-aventurança

 

Da janela

Um pássaro

De recados

Transmitiu-me

Que o que seja

Há-de andar rápido

Ou não voasse a minha poesia

Para a tua direção

E eu máscara

E eu mulher

Loucura que finge não sentir dor

E tu

Tu

Sei que nunca encontraste

Uma magia de amor

Tão cheia de intenções

Que há tempos que

Não termino uma coisa

E aqui estou

Mais outro resto de noite

Por contar

A estender-te o coração

O peito, a mão e o olhar

E eis-me a mulher que bem conheces

Agora a dizer-te

De um ponto de vista diferente

Que em salvação morrerei

Sendo sempre capaz de te amar

A partir dessa experiência que não conheço

Mas que há-de ser a mesma

Contida no recado do pássaro

E que reside na história que vive

Dentro de ti, de mim, de nós

E que não sendo impostura

O que quer que seja

Há-de andar rápido no para sempre

Ou não voasse a minha poesia

Para a tua direção

Nossa

Ou não fosse escusado dizer

Que esta é a minha história

Tu

E que só irei embora depois de roubares

Dela a minha parte

Tu e eu

Embrulhados na árvore que ambos já tecemos

À espera do beijo, beijando-nos sempre

E enfim, restará a espera

De ouvir bater o meu caminho

Naquela canção que te escrevi

Em ti

No quanto

A minha provocação foi

Quando nos amávamos

Sem que fossemos mais uma experiência

Antes uma noite de magia e eu

Tu

À espera que esta verdade

Fosse a cura

Na busca das palavras 

Que assim te canto

 

Teresa Bracinha Vieira

2016  dezembro

Teatro Cine de Gouveia

 

Evocação dos Teatros de Gouveia, a propósito do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira


Assinala-se este ano o centenário do nascimento de Vergílio Ferreira.
Nascido em Melo - Conselho de Gouveia, em 1916 e falecido em 1996, o que nos remete para a evocação também dos 20 anos da sua morte. Esta circunstância justificará uma evocação do imponente e hoje em plena atividade Teatro Cine de Gouveia, construído em 1942 e devidamente restaurado e requalificado no ano 2000.


Mas também devemos evocar, não só o grande escritor, dramaturgo episódico e teorizador da arte do teatro, que dá o nome à Biblioteca Municipal da cidade, e também a própria tradição de edifícios e atividade teatral de Gouveia.


E nesse aspeto, é interessante recordar, no seguimento destas crónicas, que a então interioríssima Gouveia do século XIX inaugurou o seu primeiro teatro em 1878, denominado Teatro Hermínio, iniciativa de uma então pujante Associação de Beneficência Popular. A obra foi dirigida por José Pinto de Sousa e o espetáculo de estreia esteve a cargo de uma companhia protagonizada pelo ator Francisco Taborda, então um nome primordial no teatro português como aqui temos dito.


Transcrevemos a propósito parte da referência que o sempre citável “Diccionário do Theatro Português” de Sousa Bastos dedica, em 1903, a este Teatro Hermínio de Gouveia: “Tem 13 camarotes, 20 cadeiras, 94 lugares de plateia e 111 de galeria.  (…) É lindamente iluminado a luz elétrica. (…) 

Ultimamente têm sido feitos grandes melhoramentos na sala havendo ao centro do arco do proscénio um escudo com o nome de Taborda”

Vejamos então o que se passou com o Teatro Cinema de Gouveia.
Foi inaugurado em 13 de novembro de 1942 com uma sucessão de espetáculos a cargo da Companhia Rey Colaço - Robles Monteiro, na época, como bem sabemos, referencial (e de certo modo ainda hoje…) do meio teatral português. A companhia permaneceu três dias em sucessivos espetáculos, o que também é de assinalar. A lotação rondava os 350 lugares.


Mas sobretudo, impunha-se a imponência modernista do edifício, com galeria exterior e dupla fachada em que domina a própria designação programática de Teatro Cine numa coluna vertical em rotunda, a unir as duas fachadas, uma delas totalmente envidraçada: exemplo notável de arquitetura de espetáculo.

 

 

Vergílio Ferreira escreveu uma única peça, “Redenção”, que publicou em 1949 na revista “Vértice” mas que não inclui na sua bibliografia. Mesmo, assim, tal como noutro lugar já referi, é um texto com interesse, no conflito existencial do “poeta”, que se encerra na sua própria solidão angustiada e “hesitante” recusando a participação que os amigos lhe propõem para no final morrer no terror desse mesmo isolamento social.


É, repita-se, a sua única peça conhecida.


E no entanto, no livro intitulado “Pensar” (1992) Vergílio Ferreira traça uma longa e profunda análise sobre a arte do teatro, que aqui transcrevemos em parte:


“De todas as artes espetaculares a que o mais o é, é o teatro. Ela é por isso mesmo aquela de que mais normalmente se diz que é um «espetáculo». E de tudo o que se caracteriza por um grande efeito público se diz que é «espetacular» (…) Isso explica ainda porque é o teatro a forma de arte privilegiada para um tempo de ação revolucionária, um tempo em que, estando-se fora dele pela arte, está-se dentro dele pelo que de real e imediato há nesse estar em público de seres reais que são os atores” …


DUARTE IVO CRUZ

 

 

LONDON LETTERS

 

Andrew Sacks, 1930-2016

 

Morre o grande Manuel de Barcelona, o Manuel ‘knows nothing’, eterno contraponto de Basil em Fawlty Towers (BBC, 1975). Com Mr Andrews Sachs, nascido Herr Andreas Siegfried Sachs na Berlin de 1930,

fenece aos 86 anos uma estrela da British Comedy.  — Chérie! À chacun selon ses oeuvres. Hoje é o dia 1 do Brexit verdict no Supreme Court. HM Government desafia sentença adversa ao uso do Royal Prerrogative Power. O suspense acompanha uma brava vitória dos Liberal Democrats na by-election em Richmond Park, transformada em euroconsulta local. Com a perda de mais um MP na maioria Tory, o cenário de sufrágio geral sobe nas probabilidades. Já RH Boris Johnson enuncia quatro pontos centrais nas negociações com Brussels. — Well! Trees that bear leaves but not fruit have usually no pith. A power play permanece acesa também na Europe. France avança agora com as primárias à esquerda, rumo às eleições presidenciais, com Monsieur François Hollande a recusar a recandidatura ao Palais de l'Élysée. O Premier Manuel Vals é hipótese em ponderação, mas a tela está ainda indefinida. Este Sunday, Austria e Itália fazem o teste populista numa European Union alheada dos ventos reformistas. Viena prefere o moderado Herr Alexander Van der Bellen como presidente ao candidato nacionalista. Mas Rome vê cair o PM Matteo Renzi após a sua derrota no referendo à Nuova Costituzione. Nos US, in a changing world, as recontagens nos batlleground states obscurecem as críticas nomeações do President-elected Donald J Trump para a White House.

 

 

It is freeze out there. A London dezembrina tem renovados encantos. Em contraste com a favila das ruas gélidas e das gentes apressadas de urbe cosmopolita, a luz cromática das colunas brancas de St James’s Church parece revestir-se de mais forte aura e a visão converge inelutavelmente para aquela cross-shaped window. A sort of may-be aplicável às promessas de boa vontade epocal. Sinto a partida do good old Manuel e revisito por momentos a cândida personagem de Fawlty Towers em comédia intemporal. Também a cena política aquece o termómetro em Westminster District. Aqui ao lado, mesmo a par das Houses of Parliament, no edifício de Middlesex Guildhall, aquém do famosíssimo pórtico construído em 1805 por Mr Samuel Pepys Cockerell, debatem-se os primeiros argumentos do Brexit Case. HM Government apela da sentença do High Court que remete para os MPs o poder de acionar o Article 50 do Lisbon Treaty, decisão que simplesmente revoga o resultado do referendo de 23rd June e motiva furore com manchetes como a do Daily Mail: “The Enemies of The People” aposto sobre as fotografias dos seus três juízes. O processo tem desde o início marca de água e promete contemporâneo rebalanceamento entre os poderes do parlamento e da coroa através do governo. Onze juízes, os mais altos sábios das leis do reino, ouvem a exposição das teses do Executivo na abertura pelo Attorney General RH Jeremy Wright. Na bissetriz da Sky, o procurador sinaliza que “the powers invoked by the Government to begin divorce procedures from the European Union are not an out–of-date ‘ancient relic’ but a pillar of the British constitution.”

 

O novo episódio do Brexit legal challenge ocorre em vésperas de ida a votos em Lincolnshire e na esteira de os eurófilos Liberal Democrats arrecadarem uma saborosa vitória eleitoral a fechar semana difícil para o May Government. Em todas as situações, a linha de fronteira lá continua; todos britanicamente europeus, uns a favor e outros contra a European Union. Ora, após campanha partidária que cobre de pródigo amarelo o verdíssimo Richmond Park, a única hoste partidária proudly europeísta encurta a maioria conservadora para dez deputados na House of Commons e anula um Tory grandee: nenhum outro senão RH Zac Goldsmith, o blue name na corrida de 2016 a Mayor de London. O evento tem estória de exceção. O Brexiteer é quem provoca desnecessária eleição, ao demitir-se em protesto contra o n.º 10 por causa da expansão do Heathrow Airport, cumprindo, como honest man que é, o compromisso ambientalista. Perde para Mrs Sarah Olney, ironicamente casada com um construtor da controversa infraestrutura. Já acima dos contornos locais, logo o resultado é hasteado por dita aliança progressista de Lib-Dems e Blairites como a Brexit backlash. Conclusão que se afigura deveras excessiva, porque o triunfo reflete tendência continental existente numa afluente circunscrição historicamente liberal - além de berço do real parque criado por Charles I, elo que não deixa de soar a divina mofa.

 

Na ambiência política assim gerada desaparece mais uma vez o Labour Party de RH Jez Corbyn, mas surge o Brexiteer mor a realinhar a agenda mediática, igualmente polvilhada por revezes como a fuga de um Memo dando Mrs Theresa May a ditar o afastamento do seu Cabinet de quem faça escapar qualquer elemento sobre as negociações da Brexit. Apenas, porém, um incidente em série de percalços declarativos das fontes de Whitehall, abundantemente espalhados por jornais, rádios e televisões. A alta sensibilidade na gestão da informação em torno do Brexit Plan revela-se quando a Prime Minister prepara uma visita oficial ao Bahrain para se tornar “the first woman to attend the annual meeting of leaders from the Gulf Co-operation Council.” Contra a perceção de desnorte no leme do Brexiting reaparece The Honourable Bojo, também ele alvejado com notícias atribuindo-lhe algo que nega. Mas mesmo RH Boris Johnson só no Weekend recentra as atenções públicas por entre a fanfarra jornalística com o que diz ser “the four-point blueprint the Government wants to achieve when it negotiates the UK's exit from the EU.” O Foreign Secretary aponta que London quer assegurar com Brussels o controlo das fronteiras, dinheiros e leis mais a liberdade para acordar tratados comerciais. Estas linhas genéricas denotam sobretudo que a procissão ainda continua no adro.

 

Fecho com Manuel e o seu refrão, naturalmente, na partida de um recatado excelente ator. Mr John Cleese descreve o comparsa de Fawlty Towers como "a beautiful soul."  Traça um doce epitáfio de Mr Andrew Sachs (1930-2016): “A very sweet gentle and kind man and a truly great farceur.” Filho de um judeu e de mãe católica, o senhor vem com os pais fugidos da Nazi Germany. Ficam em London. Estreia-se na rádio e faz vida no teatro durante sete décadas. O Python vê-o no Habeas Corpus em 1973: “I could not have found a better Manuel. Inspired.” Entre palcos e tvs, marca o celuloide com o célebre empregado de mesa catalão. Entre as dificuldades com a segunda linguagem e as iras do patrão, o well-meaning but inept Spanish waiter capta a imaginação popular na série de 1975. Desconheço como é que a personagem concebida como alemão emerge como um simpático de Barcelona, mas certo é o cândido marcar as aventuras hoteleiras dos Fawlty e sobreviver à prescrição do tempo. Com mérito figura nos clássicos da Britcom. A sua catchphrase surge no episódio “Communication Problems.” É um perplexo criado às voltas com as apostas de Basil e uma infuriating conversation que o reconfigura como Manuel Knows Nothing. Sempre depois resiste ele ao conteúdo de tal ideia: “You always say Mr Fawlty, but I learn. I learn. I learn. I get better.” Uma bem-humorada jornada, Mr Sachs. Thank you for all the good moments. - Er. Allow for what Master Will notes down on the value of eloquence in the exchanges: - Conversation should be pleasant without scurrility, witty without affectation, free…

 

 

St James, 5th December 2016
Very sincerely yours,
V.

 

A VIDA DOS LIVROS

  

De 5 a 11 de dezembro de 2016.

 

«União Europeia – Reforma ou Declínio» com Coordenação e Introdução de Eduardo Paz Ferreira (Vega, 2016) reúne um conjunto de reflexões de grande atualidade sobre o presente e o futuro do projeto europeu e sobre a própria democracia no velho continente e no mundo.

 

 

QUE FUTURO?
Ninguém sabe qual o desfecho dos atuais acontecimentos no futuro da União Europeia, mas importa não cometer o erro crasso da indiferença ou da ilusão. Quando os britânicos fizerem, com o rigor a que nos habituaram, o cálculo dos custos e benefícios sobre o Brexit, a decisão que tomaram de abrir a Caixa de Pandora, só então poderemos vislumbrar o que irá passar-se. Até lá é prematuro tirar conclusões e não haverá adivinhos para revelarem o que lhes dizem as bolas de cristal. Uma coisa é certa – com ou sem Reino Unido, a União Europeia está muito frágil e sem soluções. A saída britânica desequilibra a frente atlântica e pode enfraquecer a componente ibérica. No entanto, será um erro muito grave continuar a discutir-se quem dos elos mais fracos vai ser apontado como mal-comportado da classe, quando o que está realmente em causa é melhorar a prestação de toda a turma que está longe de corresponder ao que dela se exige! Ouve-se no discurso político comum, na Europa de lés-a-lés, a ideia de que a resposta nacional e o fechamento das sociedades e das economias poderia ser uma resposta às dificuldades atuais. Tal lógica é a do salve-se quem puder. Se considerarmos, porém, os desafios do mundo global, depressa percebemos: que os problemas atuais se devem à incapacidade de espaços económicos médios criarem condições para o crescimento e para a coesão social; que as fragilidades dos Estados nacionais se projetam nos espaços supranacionais (a braços com a ausência de mecanismos de defesa de interesses comuns); e que a paz e a segurança obrigam à coordenação de políticas públicas que favoreçam a inovação, a melhoria da eficiência e equidade e a busca de novas possibilidades de criação de valor. A Europa fechada manterá o ramerrame da economia estagnada. A falta de audácia no tocante à mundialização impedirá o avanço do desenvolvimento humano. Eis por que razão os temas do investimento reprodutivo e da cooperação para o desenvolvimento, capazes de criar capital social e de favorecer a formação sustentável de riqueza, têm de entrar na ordem do dia. E sejamos claros: apesar da importância das medidas adotadas e aplicadas pelo Banco Central Europeu, no «Quantitative Easing», continua a faltar motivação prática dos agentes económicos para investir, correr riscos e ter condições para poder acreditar nos efeitos práticos dos recursos aplicados na qualidade do trabalho, no emprego, na aprendizagem, na experiência e no conhecimento.

 

O CUSTO DA NÃO-EUROPA
Percebe-se que o custo de não ter Europa ou de ter menos Europa é insustentável. Mas não se pense que falamos de um Superestado, uma superestrutura ou de uma burocracia desumanizada, falamos, sim, de uma coordenação fundamental, que seja capaz de ligar moeda, crédito, concorrência, competitividade, coesão, convergência e desenvolvimento. Tudo isto obriga a uma partilha de encargos e responsabilidades. Não se trata de harmonizar ou homogeneizar sociedades e pessoas, mas de favorecer a criatividade das diferenças. Precisamos de transformar a informação em conhecimento e o conhecimento em inovação. Não se deve esquecer o que um dia disse o grande cientista Ilya Prigogine da Europa: temos de compreender que a nossa melhor riqueza é o conhecimento e a capacidade inventiva e criadora. Se repararmos bem, a maior influência de grupos populistas deve-se não ao fenómeno europeu, mas à necessidade de criar uma explicação exterior, mesmo que ilusória, para justificar a incapacidade das instituições nacionais a fim de assegurarem a integração social e a estabilidade. Sabemos que não teríamos a paz e a prosperidade de que beneficiamos se não houvesse instituições europeias. A democracia supranacional europeia tem de ser um ponto de encontro de todos – e tem de envolver a participação efetiva dos cidadãos. Esse é um ponto crítico. Não podemos continuar a pensar numa União Europeia sem uma legitimação clara de Estados e cidadãos. O tema dos refugiados obriga a soluções justas e duradouras. O crescimento e o desenvolvimento humano têm de ser objetivos comuns. O potencial económico e a capacidade para fazer frente a choques assimétricos tem de corresponder à ideia de convergência económica e social. A mobilidade dos estudantes e a prioridade da educação e da formação, da ciência e da cultura são fundamentais. Dir-se-ia que estamos apenas a reviver problemas passados e conhecidos. Todavia, hoje a sua persistência e a emergência dos egoísmos nacionais poderá ter efeitos mais dramáticos que nunca. Se o desespero destruir a frágil democracia europeia não haverá uma segunda oportunidade para salvaguardar a paz e a dignidade… A frente atlântica europeia não pode ser enfraquecida. Se Londres tem tido um papel crucial no mercado financeiro europeu e numa política europeia de segurança comum, a verdade é que tal apenas pode ser preservado se prevalecer um reformismo interno solidário, em lugar de se optar por atirar ao chão o tabuleiro de xadrez. Setenta anos de paz na Europa só foram possíveis mercê da prevalência da coesão sobre a fragmentação, e da razão sobre o medo. A estagnação económica europeia e o fechamento alemão fomentaram a fragmentação. O surgimento de tensões ditadas pela crise dos refugiados e pela difusão de um medo persistente do desemprego favoreceu as forças nacionalistas e incentivou o populismo – pano de fundo que abriu uma lógica antieuropeia e fragmentária. Nestes termos, a crise do Euro não tem a ver com a falta de credibilidade da moeda europeia, mas com a ausência de perspetivas imediatas de crescimento económico na Europa, por ausência de uma política ativa de investimento. Trata-se de uma moeda forte, que limita o espaço de manobra das economias com maior grau de dependência externa.

 

TIRAR LIÇÕES PARA O FUTURO
Eduardo Lourenço tem repetido, com a lucidez que lhe conhecemos, que «a Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa (nós, portugueses) temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa». Mas há ameaças e perigos, e até a indiferença e a acomodação. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Contudo, a Europa fechada definha. Importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um pequeno e eficaz núcleo de interesses e valores comuns. O perigo da não-Europa espreita como o risco da não-democracia. A crise europeia deve-se à ausência de um ideal mobilizador e à falta e de uma coordenação política capaz de romper com a estagnação e de assegurar uma convergência social que permita aos cidadãos europeus sentirem-se não só participantes mas também incluídos, num desenvolvimento humano justo, baseado na qualidade de vida e no bem-estar – mas essencialmente no respeito da dignidade humana. E quem acredita na importância do projeto europeu, menos como utopia, e mais como um meio de garantir a paz e a cooperação, tem de fazer do compromisso político, cívico, social, cultural e económico, algo de concreto, com resultados.

 


Guilherme d’Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

Para Alberto Vaz da Silva

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No decorrer dos anos 69 ou 70, descobri o esplendor de Lisboa e, ao mesmo tempo, o esplendor de maravilhosas amizades. Tinha sido convidado por António Alçada Baptista, que animava a revista "O Tempo e o Modo", rodeado de uma pléiade de espíritos jovens apaixonados por liberdade e por justiça em pleno centro da ditadura salazarista. Entre esses amigos, ligou-me à Helena e ao Alberto um especial entusiasmo. Gostava profundamente de ambos. Ela, com o seu alegre dinamismo, a sua luminosa vitalidade; ele, com a sua reserva, a sua contensão, a sua sabedoria púdica. Nascidos e criados num mundo de tradições, tinham-se emancipado dele, fazendo em alguns anos o itinerário de três gerações: eu acabava de chegar da Califórnia e eles já estavam parcialmente californizados, ainda que conservando a sua lusitaneidade interior. Alberto era advogado e eu nunca soube dessa sua profissão. O que nos ligou foi o seu profundo sentido do mistério da vida, e lembro-me de uma longa noite em que, enquanto a minha mulher falava com a Helena, nós ficámos os dois, com o Alberto a fazer-me o horóscopo com um cuidado meticuloso: ele revelou-me a mim próprio traços da minha personalidade que nunca tinham aflorado à minha consciência. Qualquer coisa de comum nos unia um ao outro. Uma noite inteira nos ligou fraternalmente e esse sentimento fraterno perdurou.  
Voltei muitas vezes a Lisboa durante os anos 70, e tive a sorte de testemunhar a revolução dos cravos, momento de êxtase na história portuguesa que, como todos os grandes êxtases da História, nos marcou para sempre com a sua poesia, iluminadora e fugitiva, antes que o mundo volte a cair na prosa. Voltei nos anos seguintes, mas consagrei-me depois à América Latina, especialmente ao Brasil, filho de Portugal. Soube, com desgosto, da morte da Helena em 2002, mas não tive conhecimento da do Alberto e só mais tarde a notícia chegou até mim. Tal como o derradeiro brilho duma estrela morta há milhões de anos-luz que nos atinge com toda a sua intensidade muito mais tarde, assim me marcou a morte de Alberto. Direi do Alberto que possuía uma presença poética. Emanava dele uma aura de gravidade sorridente, de bonomia, de doçura extrema. Ser inesquecível, é por mim inesquecido e lamento por razões de última hora não poder estar fisicamente presente na homenagem que lhe é prestada. 


Edgar Morin 

29 de Novembro de 2016  

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Mary Heilmann, autobiografia plástica.

 

Narrativas pessoais são abordadas através de uma linguagem depurada, de cores vibrantes, tintas espessas e brilhantes.

Cada bloco de cor transmite memórias, amizades, lugares e músicas.

 

'Each of my paintings can be seen as an autobiographical marker'., Mary Heilmann

 

Mary Heilmann (São Francisco, 1940) pinta a sua própria vida. As grelhas, as riscas, as cores planas referem-se a experiências pessoais - a momentos específicos do passado e do futuro projetado. Cada pintura dá forma física a uma realidade mental. Cada pintura inclui num só espaço, vários tipos de espaço. Heilmann, enquanto pinta, trabalha com a ideia de que o olho e a mente vão-se alternando assim como o sentido de espaço - para a frente e para trás, para cima e para baixo. É uma pintura capaz de conter simultaneamente o limite que separa e a linha que aproxima; o contorno do espaço e a forma das coisas; o que rodeia e o que se sobrepõe. Heilmann consegue mover no tempo, um momento estático - uma só pintura pode assim ser olhada durante horas, como se de um filme se tratasse. 

Heilmann estudou cerâmica, escultura, literatura e poesia. No final dos anos sessenta, as suas esculturas eram informadas pelo trabalho de Bruce Nauman, Richard Serra e Eva Hesse. Porém em 1969, tal como Heilmann escreve em The All Night Movie (1999): 'I was devastated not to be included in Anti-Illusion, a turning point show in 1969 at the Whitney. As a result, I abandoned the sculptural work I was doing and as a rebellious move, switched to the much-maligned practice, painting.'

Heilmann resolveu assim dedicar-se à pintura, apesar de ter sido dada como 'morta', apesar de ir contra a corrente conceptual que dominava o cenário artístico de então, apesar de que na verdade nunca iria abandonar a cerâmica nem a escultura (isto porque as suas cadeiras coloridas são sem dúvida também objetos).  

Briony Fer, no texto 'Mary Heilmann, Painting, Her Way.' afirma que na prática de Heilmann tudo parece inacabado, provisório e por decidir. Embora Heilmann queira afirmar a pintura como a sua prática principal, fica sempre a dúvida se a tela saturadamente colorida é simplesmente um objeto, ou vários objetos que se encaixam e que se completam. 

Foi no final dos anos setenta, após um agitado período em Nova Iorque, que Heilmann voltou a São Francisco e que descobriu um sentido novo (o mesmo que ainda hoje determina e justifica a sua maneira de trabalhar) para as suas pinturas geométricas coloridas - agora o trabalho apresenta um conteúdo totalmente singular, e tem uma origem puramente pessoal: 'Instead of working out of the dogma of modernist nonimage formalism, I began to see that the choices in the work depended more on content for their meaning. It was the beginning of postmodernism. It was a big minute for me. Everything would be different.  I was listening to Brian Eno and John Cale and getting the idea that the work's style could be the work's content.'

Heilmann, a partir de então, teve a intenção clara de criar a sua própria pintura. Segundo Briony Fer, a noção de estrutura exterior (como se de um andaime se tratasse) é a origem de toda a pintura de Heilmann - e que constrói e cria composições em zigzag, com xadrez, com bolas, às riscas, com teias e rachas. Mas também, claro, a cor, é o instrumento mais poderoso e elástico que se estende pela pintura ou conjunto de pinturas e objetos que, por sua vez, se espalham na parede. É a cor que separa e que liga, que aproxima e que afasta, que dá leveza e que dá peso. A sua paleta de cores é muito variada - verde, preto, rosa, vermelho, amarelo, azul...- e é escolhida pela artista segundo um critério autobiográfico e não teórico ou pré-fabricado. A cor da pintura de Heilmann deixa transparecer a experiência plástica da cerâmica - o processo de moldar, de derreter, de fixar, de solidificar.

 

Sendo assim, a pintura autobiográfica de Heilmann é constantemente experimental e elástica - permanentemente suscetível de deslocar as coordenadas da vida de quem a observa.

 

Ana Ruepp

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XVIII - A UNIÃO EUROPEIA E O ACORDO DA PATENTE UNITÁRIA                                                                                                                                                       
1. Num mercado cada vez mais competitivo, inovar é uma obrigação. Neste contexto, um bom e eficiente sistema regulador dos direitos privativos da Propriedade Intelectual, nomeadamente de marcas e patentes, é fundamental para o sucesso da inovação e desenvolvimento tecnológico. No âmbito das patentes, para inovar é essencial conhecer o que já existe e foi inventado. No domínio da Propriedade Intelectual, destaca-se a exigência legal de todas as patentes em vigor em Portugal terem de ser traduzidas para português. De modo acessível é-nos disponibilizado, na nossa própria língua, toda a informação, tida por útil, para poder ter início um processo de inovação. Com benefícios na atualização e modernização da língua portuguesa, a nível da inovação científica e tecnológica, fortalecendo-se como língua de ciência, de tecnologia e internauta.
Sucede que tal poderá deixar de suceder se o Acordo relativo ao Tribunal Unificado de Patentes da União Europeia entrar em vigor, tendo sido Portugal, até hoje, um dos países a aderir e a ratificá-lo. Embora os pedidos de patentes possam ser apresentados em qualquer idioma da UE, terão de ser obrigatoriamente acompanhados por uma tradução em inglês, francês ou alemão, os idiomas oficiais do Instituto Europeu de Patentes. Também no novo regime judiciário especial a criar, onde se inclui um Tribunal Unificado de Patentes, os conflitos serão dirimidos num daqueles três idiomas. À luz do qual se prevê que Portugal deixe de exigir a tradução para português, devendo adotar como sua, neste quadro, o inglês, o francês ou o alemão, transitando o custo da tradução das patentes para as nossas empresas, quando necessário.

2. A favor da cooperação reforçada no domínio da patente europeia unitária, que privilegia o inglês, o francês e o alemão, defende-se, entre nós, ser a patente da UE um imperativo nacional, não ofensiva da nossa língua, que é e continuará a ser um desígnio, impondo-se o português por si mesmo, demograficamente e não por lei ou por “nichos”, reforçando tal cooperação menos custos e maior competitividade das empresas, que gastam fortunas na tradução das patentes para várias línguas. O que trará grandes benefícios para a inovação na UE, tornando-a mais forte e competitiva, dado uma patente europeia custar, em média, dez vezes mais que uma norte-americana.
Em desfavor, argumenta-se ser o português a terceira língua europeia global, falada e disseminada mundial e internacionalmente, não podendo ser visto numa perspetiva meramente eurocêntrica, mas global e mundial. Como língua de comunicação global em número de falantes, à frente do alemão, francês, italiano, polaco e russo, está ao mesmo nível dos idiomas europeus de comunicação global como o inglês, francês e espanhol. Tudo o que enfraquece o estatuto europeu da nossa língua, diminui-a como língua global, devendo Portugal opor-se, na UE, à afirmação e formação de espaços linguísticos regionais, baseados na seleção de algumas línguas, excluindo o português, uma língua global de comunicação internacional. Em termos lusófonos, somos o país que, na UE, tem maior responsabilidade em afirmar a língua comum, sob pena de, omitindo-a, os que a partilham connosco se sentirem legitimados, nos seus espaços geo-naturais e estratégicos, a igual conduta. Além de ferir o português como idioma oficial consagrado, passando o trilinguismo europeu a ser o idioma oficial no âmbito da propriedade industrial e intelectual, desqualificando-o como língua científica e tecnológica e excluindo a mais-valia da obrigatoriedade da tradução portuguesa para a economia nacional.

3. A ideia inicial consistia em propor como única língua de trabalho o inglês, uniformemente aplicada a todos, argumentando-se que a não puder ser de outro modo, haveria que aceitar e transigir, mesmo que pontualmente, nesta ou naquela área específica, em benefício da língua veicular contemporânea por excelência. Tanto mais que a esmagadora maioria das patentes são redigidas em inglês. O que acabaria por não singrar pela oposição permanente da França, que não aceitou, em caso algum, que se excluísse o francês. O que levou a idêntica tomada de posição da Alemanha, Itália, Espanha e Polónia, entre outros, ao invés de Portugal, que foi o oitavo país a ratificar o Acordo, em 2015, após a França, Luxemburgo, Bélgica, Dinamarca, Áustria, Suécia e Malta. Embora de adesão livre, para entrar em vigor era necessário, à data, ser ratificado por treze países, entre os quais, obrigatoriamente, a França, a Alemanha e o Reino Unido. Espanha e Itália não aderiram e impugnaram-no junto do Tribunal de Justiça, dado que os seus idiomas não foram aceites como parte integrante do núcleo duro e central da patente europeia unitária.
Não deixa de ser revelador que quando Portugal ratificou o Acordo, fosse a língua portuguesa a mais falada, à escala global, por confronto com a dos demais países que anteriormente o ratificaram (em número de sete). Sendo globalmente mais falada que o alemão e francês, que fazem parte da nova patente anglo-franco-alemã. Sendo sabido   que a projeção global do inglês não reside na sua força europeia, mas sim mundial. Com a agravante de que com a saída do Reino Unido da UE, apenas a Irlanda o representará, sendo este país o seu único paladino na zona euro. Pelo seu peso, perceção e projeção global, a língua inglesa nunca será excluída do regime de patentes, aconteça o que acontecer.

4. A obrigatoriedade da tradução para português das patentes permite ao nosso idioma acompanhar, em adaptação, atualidade, empregabilidade, exportação de serviços e permanência, a inovação científica e tecnológica, evitando a probabilidade séria de as empresas portuguesas terem de dirimir em tribunais estrangeiros ações de infrações de patentes, com as desvantagens daí provenientes.
Portugal, com as suas limitações europeias e força global da língua portuguesa, tem todo o interesse em não ceder a impérios linguísticos europeus elitistas  no regime de patentes, que discriminam e despromovem o português, devendo lutar pela defesa de um idioma europeu de comunicação global, a terceira língua europeia global e do ocidente, língua intercontinental e de comunicação global entre a Europa e demais continentes, a quinta ou sexta a nível mundial, a mais falada do hemisfério sul, a terceira das Américas e de África, uma língua da Ásia, dos Orientes e internauta. Opondo-se, por todos os meios, a que seja lesado o português enquanto língua universal, reafirmando a centralidade estratégica (e não periférica) da língua portuguesa (e de Portugal) na Europa e no mundo, em cooperação com a lusofonia, lusofilia e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

 

21 de novembro de 2016

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

Eis um regresso. Eis um fio de um quase indizível projeto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LUC FERRY

 

Viver sem medos é talvez o princípio da precaução para que possamos proteger o desconhecido por razões desconhecidas.

 

Quando li A Nova Ordem Ecológica do filósofo Luc Ferry julguei ter entendido que Ferry propunha uma realização diferente a todos nós, mas não contida num ideal, antes uma realização numa espécie de domicílio ainda por dizer, mas sugerido já por essas páginas com impacto na vida concreta.

 

Passou Ferry a fazer parte das minhas aulas desde então.

 

Depois com o livro Aprender a Viver (agraciado com o Aujourd’hui 2006) julguei entrar numa proposta instalada mais perto de cada ser, na sua própria vida quotidiana, diria. Vi neste livro o desafio claro do ser humano a uma convicção do quanto a Filosofia harmoniza as diferentes forças da vida ao mesmo tempo que leva o homem a refletir sobre a sua finalidade.

 

Levei aos alunos até onde fui capaz uma história das ideias do fim e do não-fim com um impacto na vida concreta.

 

Disse-lhes e digo-lhes o quanto, um dia, a minha docência no seu clarificar, me tinha sido nata no não confundir profundidade com obscuridade, e o quanto, mal ousamos e desde logo em nós se inicia a revolução. A Filosofia.

 

No caminho das palavras de Luc Ferry temos medo de tudo: dos aquecimentos globais, do sexo, da velhice, dos organismos geneticamente modificados, da mundialização, diria, enfim, de tudo o que compõe o mundo ocidental no que respeita à proliferação dos medos.

 

Por aqui melhor entendi o quanto Platão, Epicuro, Montaigne, Nietzsche e a cada ano, Kundera é relido por Luc.

 

A Filosofia, sabe-se, não deve encorajar o medo, mas ajudar-nos a ultrapassá-lo e a vivermos o nosso presente, acima de tudo impedindo outros tempos de minarem as interpretações de sossegos ou desvarios, mas ainda assim, eles e as suas circunstâncias, poderem ter a liberdade de se exporem e nunca a serem ultrapassados por outros tempos que lhes pertencem nas afinidades e não nos núcleos.

 

Viver sem medos depois desta leitura da Revolução do Amor de Luc Ferry em pleno sec. XXI é, em muito, ensinar o homem a viver bem, a viver com a mão das escolas gregas da Antiguidade: é o amor a dar sentido.

 

Afinal podemos morrer por aqueles que amamos.

 

Afinal teremos nascido para uma nova espiritualidade que já mudou o nosso olhar sobre o mundo e nós sem nos darmos conta?

 

Poderemos dizer que as pátrias mudaram os motivos e os locais no nosso coração?

 

Hoje, século XXI, qual o sentido da vida? Residirá no conforto, no sucesso, em qual? No do prestígio ou no do silêncio? No que olha ou no que nos olha?

 

Luc Ferry, pensador francês, defende um Humanismo Secular, através do qual, bem-estar é realização pessoal. Viver, constitui um harmonizar das diferentes forças da vida e perceber?, bom, perceber é toda uma capacidade criativa. É toda uma obra de vida rara, um inovar do que desejaríamos vivenciar.

 

Coloca Luc Ferry neste seu trabalho, A Revolução do Amor, ao serviço de uma espiritualidade laica, ao serviço de um reaprender a viver renovando-se os discípulos e soltando-se as escolas gregas.

 

Toda esta leitura a sinto também num alertar para o quanto o tédio de consumir não é um medo, enquanto a catástrofe vender melhor do que as boas-novas.

 

O espírito crítico desenvolve-se nas democracias e nas sociedades humanistas, mas acreditando que nenhum perigo existe no questionar: esse lapso interpretativo, um espaço de enorme tragédia para uma só vida. Digo.

 

A imprensa desliza e não desdiz o que com deficiente expressão não restaura, pois que a geometria onde habita, é a dos condenados da terra colonizados e infelizes no formidável paradoxo que estamos longe de resolver: refiro-me ao recolhimento na diferença, na revolução, no amor, mundos de que afinal são prisioneiros e fiéis guardas os arautos das liberdades expressivas.

 

Afinal só os inversos são verdadeiros se ressingularizarmos os modos de vida, se os rediferenciarmos contra todas as uinidimensionalidades do mundo moderno. 

 

De outros jeitos já encontrei no livro de Ferry, A Nova Ordem Ecológica, uma siderante passagem da revolução à contra-revolução, quando o objetivo não era então, chegar a um consenso acerca dos problemas em análise, mas pelo contrário, provocar o aprofundamento das posições particulares dissonantes.

Ponta e mola nesta Revolução do Amor é um elaborar a Odisseia de Homero quando toda a história recomeça no caos e o sentido da viagem é o da harmonia da vida e seu sentido.

 

A guerra, a guerra não é local de ordem cósmica, não é sequer a paz um caminho para chegar a uma imortalidade, já que viver feliz é algo que supera a desassossegada imortalidade.

 

Recordo Heidegger na sua desconstrução da metafísica e sinto Luc a seu lado a soletrar uma energia limpa, tão sugestivamente limpa que nunca aconteça pois Tristão ou Don Juan em todos os verões se relacionarão no sentir de Ferry, como uns apaixonados da razão por conta do compromisso.

 

Ferry é defensor do Humanismo Secular, contrapõe à religião, o uso de uma razão crítica, que leve aos homens uma paz na intrigante violência da morte, ou da felicidade ou do amor incondicional nas condições de cada ser.

 

Afinal A Revolução do Amor é também um alerta: nenhuma vida humana é boa se não aceitarmos a morte.

 

O sábio aceita-a para assim vencer o medo. E todos poderemos na luz de Luc reconciliar a ordem cósmica com o universo harmonioso que nos rodeia num fragmento, muito fragmento de eternidade, e ainda assim numa estética de vida que no seu alfa e ómega a não procure.

 

Afinal o ponto de partida e a finalidade última poderá ser o conhecimento do amor, se a nossa vida for uma pergunta, algo que tenha a medida de uma interrogação que aos olhos de Schopenhauer seja apropriada para vencer medos, seguir caminhos pouco frequentados, reconhecer as limitações profundas da autocritica, e que o sentido absoluto da absurdidade da vida seja um lugar de onde se parta.

 

Afinal e talvez o perigo resida naqueles que se contentam com as tiradas vagas e fáceis, do género, a vida não tem sentido e só nos resta a arte, e afinal são tão terrivelmente curtos os que a reconhecem com a modéstia de conseguir que até os estóicos lhes sorriem.

 

Os conhecidos momentos de champanhe duram um certo período, mas nunca ninguém saltará de alegria pela partida de um amado, o que gera também um medo, mas não é um medo da felicidade, no limite, dizê-lo é uma indecência.

 

Será antes uma insuportável fórmula que nos é companheira por excesso, ou não será a prova do quanto o amor dá o sentido como diz Luc, não às nossas existências, mas nas nossas existências.

 

De fato não é a perseguição cega das realidades conhecidas por interesses que poderão salvar o mundo, mas a lógica da fraternidade e da entreajuda, do prazer de dar mais do que receber. Estou convencido de que os Europeus começam a compreendê-lo e a converter-se a isso, muito lentamente sem dúvida, mas de forma bem irreversível.

 

Estas as palavras de Luc Ferry no seu livro de que tanto, mas tanto gostei, A Revolução do Amor – Para uma espiritualidade laica.

 

Estas mesmas palavras, as faço minhas, num contributo ao cessar da indiferença. Numa formidável salva de palmas a quem do pensar faz palácio onde habita.

 

21 de setembro, mais um dia de vindimas em Portugal no ano 2011. Rougemont não se recordou. Contudo Albertine não escapa ao Douro sedutor.

 

Teresa Bracinha Vieira

O Teatro Pax Julia de Beja


REVIVALISMO MOURISCO EM TEATROS DO ALENTEJO

Não se pretende neste artigo referir exaustivamente o conjunto de Teatros e Cineteatros do Alentejo, mas salientar, numa primeira abordagem que depois se irá especificando, a evocação de um chamado “estilo mourisco” em sucessivas salas de espetáculo da região, construídas a partir de finais do século XIX e em muitos casos ainda hoje em plena atividade. De tal forma que, repita-se, a algumas delas voltaremos com mais detalhe.

 

O mais significativo dessa linha arquitetónica será o Teatro Garcia de Resende, de Évora, já estudado nesta série: projeto do Arquiteto Silva Monteiro, datado de 1887, constituiu até hoje um dos grandes centros de cultura teatral da região. Mas também oportunamente referiremos por exemplo o Teatro Marques Duque de Mértola ou o Cine-Teatro Sousa Teles de Ourique, entre outros mais.

 

Hoje falaremos do Teatro Pax Julia de Beja, já pelo edifício em si, já pela própria trajetória funcional, cultural e arquitetónica e da relevância que sempre assumiu, em funções diferenciadas (e não pouco!...) mas sempre muito relevantes.

 

Com efeito, estamos neste caso perante a adaptação do antigo Hospício de Santo António, contíguo ao Convento da Conceição, ao qual pertencia quando foi contruído nos anos 20 do século passado. E é caso para dizer que o processo de intenções, no sentido de dotar Beja de um Teatro, vinha pelo menos de 1866, ano em que se começou a falar da necessidade de um teatro…

 

O edifício atual foi inaugurado em 1928. Em 1949 sofre obras profundas de atualização e reforça a atividade de exploração cinematográfica. Por essa altura, introduz-se um segundo balcão e procede-se à demolição das frisas e camarotes originais. Não é caso único por esse país fora: e em qualquer caso, funcionou como cinema até ao início dos anos 90.

 

Em 1994 a Câmara Municipal de Beja adquire o Cinema Pax Julia e um edifício vizinho, para reformulação da sala de espetáculos. Beneficiando de apoios do Ministério da Cultura, a Câmara procede então a uma vasto programa de obras de restauro, conduzidas segundo projeto da Arquiteta Maria Francisca Romão. E desde logo, no edifício contíguo, é instalada uma sala-estúdio que reforçou e de certo modo diversificou a atividade de espetáculos.

 

E talvez devido a esse prolongamento de vizinhança, o velho Teatro Pax Julia beneficia também de profundas alteações estruturais.

 

Desde logo, um segundo balcão, acrescentado nas obras de 1949, é suprimido, adequando melhor a sala, precisamente, a espetáculos de teatro e não de cinema. Ganha-se espaço para equipamentos técnicos e áreas de apoio ao espetáculo. E também a própria plateia é reduzida para maior conforto dos espetadores.

 

Desse modo, a lotação do Teatro reduz-se a 650 lugares: mas o termo “reduz-se”, num teatro, é força de expressão!

 

E fazemos ainda referência a dois Teatros que, na proximidade geográfica e cultural, assumem também, como o Pax Julia, evocação do estilo arquitetónico “mourisco”, digamos assim mesmo.

 

Desde logo, o Teatro Marques Duque, de Mértola, sala de pequenas dimensões, construída em 1913, restaurada pelos Arquitetos M. Andrade e Manuel Transmontano, hoje com menos de 170 lugares. E o Cine-Teatro Sousa Teles, de Ourique, este praticamente abandonado no princípio do século mas agora recuperado pelas Arquitetas Céu Oliveira Pinto e Luisa Biscaia, lotação de 183 lugares, com uma área e uma função museológica relevante.

 

Mas desses dois teatros falaremos em outra crónica.

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

LONDON LETTERS

 

The Crown, 2016

 

I am a little bit confused! Ergue Cuba contra quem o desconhece, elimina quantos vê como obstáculo, mata quem lhe tenta fugir, tortura opositores e dissidentes, silencia jornalistas ousados.

Alguma direita toma-o como um icónico vilão e alguma esquerda com RH Comrade Jeremy Corbyn incensa-o como “a social justice hero.” Romantizado por uns e vilificado por outros, libertador ou tirano do seu povo, morre o último dos grandes revolucionários marxistas do 20th Century: El comandante Fidel de Castro (1826-2016). — Chérie! Le temp c’est le grand sculpteur. O Governor do Bank of England ultima planos para a reunião de 14-15 December do European Systemic Risk Board. Mr Mark Carney leva consigo propostas de arranjos comuns em torno da Brexit. — Well! In Peace: Goodwill. HM Government lança um Green Paper com medidas para cortar na corporate greed e reequilibrar o pay gap. O republicano Speaker da House of Representatives quer um tratado comercial USA-UK, contrastando com o obamiano back of the queue. Mr Paul Ryan soma ao President-elected Donald J Trump na abertura atlântica. Também Europe se move. A bandeira do free global trade triunfa em France, com Monsieur François Fillon nas primárias da direita, enquanto Italy treme com o referendo constitucional que ameaça o PM Matteo Renzi. A Netflix completa a série The Crown. No mais, call to Brussels: Tell me how much, please!?

 


Cold and bright days
at Central London. À luz da vaporosa consistência da ideological war que acompanha o passamento do Signor Fidel de Castro, do tipo o nosso tirano é melhor que o vosso, mesmo que em linha dinástica de um despotismo no poder, esquecido já o ideal da Sierra Maestra e talvez rumando para uma Cuba Libre lavrada por aleatórias forças em economia de mercado, quase se entenderá a sanha antidemocrática da triádica conjura: Deny, delay, subvert. A manobra de sabotagem do Brexiting está a céu aberto, com cavar das trincheiras. Em contraste com digno silêncio de Sir David Cameron, que na demissão do No. 10 extrai lição dos resultados do voto de 23rd June, surge o antigo PM RH John Major a secundar o ido sucessor RH Tony Blair em pedido de um segundo euroreferendo durante renovada chuva de fumegantes meteoritos estatísticos. Também de Brussels vem peculiar manobra. Mr Guy Verhofstadt, um dos EU Parliament's lead Brexit negotiators, quer que os Britons mantenham a cidadania europeia caso queiram e a paguem. A retórica envolvente é forte: acenam com tocquevilleana “tiranny of majority,” fustigam com a ignorância do eleitorado, acionam as roldanas de transmissão e constituem-se como abrigo para os “political homeless.” Vozes amigas dizem duas palavras a tais protagonismos tardios: “Edwina” e “Chilcot.” Receio, porém, que venha aí dilúvio eleitoral, a marear até a forma da House of Lords. Não dissertando sobre nova consulta escocesa, cabe recordar, com The Right Honourable Edmund Burke (1729-97), que “all that is necessary for the triumph of evil is that good men do nothing.”

 

Mas conversemos de coisas diferentes. Após atraso ditado por hectic days visiono The Crown. Com a certeza de Victoria na ITV mas ainda com o desapontamento da Royal Night Out na retina, eis cauto espectador imparcial face à série televisiva de 10 episódios produzida pela Left Bank Pictures para a Netflix. By the way, where is the BBC?! Criada e escrita por Mr Peter Morgan, o autor teatral de The Queen e The Audience, será nova dramatização sobre os Royals das vésperas da era elizabetheana até ao fecho nos dias do fim de Sir Winston S Churchill em Downing Street. O gelo fragmenta-se aos primeiros acordes de soberbo Herr Hans Florian Zimmer (Madison Gate Records). O senhor cria extasiante tema, quase um hino à Royal House of Windsor, que ressoa na filigrana da coroa como se contido crescendo abrir de mítica flor de lótus. Com ouvidos abertos, sucedem-se familiares tramas da providencial ascensão de HM Elizabeth II. A morte de George VI (Mr Jared Harris) e a sombra do Duke of Windsor (Alex Jennings) nunca perdoado da abdicação, os amores da Princess Margaret (Vanessa Kirby) e o jovem casal Lillibeth e Philip Mountbatten da House of Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg (Claire Foy e Matt Smith). O que se narra interessa ranto quanto aquilo que se apaga. No aprendizado da arte de reinar avulta a figura dominante do Last Lion, protagonizado por um Mr John Lithgow cuja estatura obriga a elevar a altura da porta do 10, mas sobretudo ecoam palavras da Queen Grandmother Elizabeth (Victoria Hamilton): “Monarchy is God's sacred mission to grace and dignify the earth. To give ordinary people an ideal to strive towards, an example of nobility and duty to raise them... Monarchy is a calling from God. That is why you are crowned in an abbey, not a government building. Why you are anointed, not appointed. It is an archbishop that puts the crown on your head, not a minister or public servant. Which means that you are answerable to God in your duty, not the public.”

Últimas palavras para a great party havida em London, na qual lamentavelmente não participei, em dia do mais recente marco no UK Independent Party. Se cabe um cheers a Mr Paul Nuttal como líder hoje eleito dos Ukipppers, sob bandeira da mobilidade social e em missão nortenha de caça ao voto Labour, atenção momentânea para a festa dos 25 anos do partido em pleno Ritz Hotel. RH Nigel Farage MEP é o anfitrião e os relatos são de viva diversão, entre Coronation chicken e English roast beef, regados com Sparkling wine dos vinhedos no Kent de Lord Ashcroft e ainda com Pol Roger – o champagne favorito de Sir Winston, logo guarnecido pelos seus cigars. Declara quem assiste que high spirits acompanham os hurrahs às vitórias do “No” referendário e de Mr DJ Trump nas presidenciais norte americanas… a par dos chocolates Ferrero Rocher. — Wow! Well declares Master Will in The Merry Wives Of Windsor: — Why, sir, for my part I say the gentleman had drunk himself out of his five senses.

 

St James, 28th November 2016

Very sincerely yours,

V.