Segunda-feira, 20.10.14

De 20 a 26 de outubro de 2014.


«Um Mundo que Falta Fazer» e «A Insurreição de Jesus» de Frei Bento Domingues, O. P. (Temas e Debates, 2014) são coletâneas que, apesar de reunirem artigos publicados ao sabor do tempo, têm um sentido de unidade que lhes dá grande pertinência. A organização coube à Irmã Maria Julieta Mendes Dias e a António Marujo. E deve dizer-se que os textos não perderam atualidade nem ganharam rugas, merecendo ser lidos com especial atenção num momento em que há tantas vezes a tentação de correr atrás do que a maioria quer ouvir, em vez de se procurar a serenidade do que falta ser feito.

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UMA DISCUSSÃO SÉRIA SOBRE VALORES
Ao falar da necessidade de os europeus terem uma discussão séria sobre os seus valores, Ohran Pamuk referiu liberdade, igualdade e fraternidade. Preocupado com a defesa e salvaguarda do património cultural, não como referência ao passado, mas como desígnio do presente e do futuro, o galardoado com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva pôs na ordem do dia o que o pensador canadiano Charles Taylor tem designado como «horizontes de sentido», ou seja, a procura do fundamento das relações sociais e de diálogo, a partir das diferenças que caracterizam a sociedade aberta e plural, onde as escolhas vitais ganham importância e sentido. Sem essa base de liberdade, de respeito e de entreajuda, as escolhas tornam-se vulneráveis, relativas, indiferentes e de valor reduzido, numa palavra: perdem significado. Nunca como hoje, perante tantos perigos e tantas incertezas, Hans Küng foi tão atual e oportuno ao dizer que não haverá paz entre as nações se não houver paz entre as religiões. Esta questão é fundamental e obriga à superação da perigosa indiferença a respeito dos horizontes de sentido. Daí a importância e a dificuldade do tema da liberdade religiosa, como recordou Frei Bento Domingues no Encontro «À procura da liberdade» - liberdade que significa ter ou não ter religião, mas também a salvaguarda da pluralidade das opções, sem confundir planos, cientes de que ninguém pode considerar-se detentor de uma verdade absoluta (leia-se «Um Mundo que Falta Fazer», Temas e Debates, 2014). Como disse o Concílio Vaticano II, demarcando-se de desajustados fechamentos, em «Dignitatis Humanae»: todos os seres humanos «devem estar imunes de coação, quer da parte de pessoas particulares, quer de grupos sociais ou de qualquer poder humano, de tal maneira que em matéria religiosa ninguém seja obrigado a agir contra a sua consciência, nem impedido de atuar de acordo com ela, privada ou publicamente, só ou associado a outros, dentro dos devidos limites» (nº 2). Daí também que ciência e fé não possam confundir-se. Nem a ciência pode recusar o problema dos limites do conhecimento, nem a fé pode pôr em causa a procura crítica da verdade e a exigência de avançar no domínio do saber. Importa lembrar a etimologia original da palavra «libertas», como a qualidade da balança (libra) equilibrada e sem travão, que obriga à ponderação permanente do «eu» e do «outro». De facto, o cerne da relação plural na vida em comunidade está no respeito, na compreensão e no reconhecimento.

 

NÃO À INDIFERENÇA

Não se trata de criar um espaço de indiferença, uma terra que ninguém sente como sua, mas de garantir o reconhecimento das diferenças e das especificidades, em nome de uma integração que abra espaço de relação e de entendimento. Uma sociedade em que as pessoas atuassem com responsabilidade e atendendo ao bem comum estaria por certo mais preparada para prevenir a crise (financeira, mas sobretudo de valores) cujos efeitos sentimos duramente. Por outro lado, perante as manifestações de violência e os sinais de intolerância e de exclusão, Amartya Sen tem dito que aquilo de que se trata é de garantir a necessidade de persuadir as pessoas que chegam, por exemplo, à Europa, ou a uma sociedade diferente que seja aberta, para aceitar a ideia de múltiplas identidades que se completam e enriquecem mutuamente. Voltando a Charles Taylor, a solução não está nos métodos naturalistas (ou positivistas), segundo os quais os fenómenos humanos e sociais, incluindo a nossa subjetividade, apenas são compreendidos no modelo dos fenómenos naturais, usando cânones fechados e redutores de explanação, mas num esforço especial de reconhecimento. A modernidade que corresponde à valorização da singularidade, mas também à complexidade, não pode ater-se à lógica atomística e egoísta. O individualismo é falso. Quando as pessoas perseguem só o seu benefício próprio e imediato equivocam-se. Contra a abstração supostamente liberal preocupada com a noção mecanicista de mercado, importa pensar no imaginário social – na autonomia crítica que deve estar subjacente, na linha de Cornelius Castoriadis, e na criação de elos de confiança, um dos nossos mais importantes recursos morais. Afinal, numa sociedade que valoriza a dimensão ética (o «ethos», como morada e caráter) trabalha-se ativamente para respeitar e reconhecer a dignidade própria e alheia, a multifacetada dignidade humana, da pessoa em si e perante a natureza.

 

EM BUSCA DO MUNDO INTERIOR
Rainer Maria Rilke afirma em «As Elegias de Duíno» que «o mundo nada será se não for interior». Ao valorizar as pequenas coisas e ao reclamar o debate sobre os valores, Ohran Pamuk relaciona, no fundo, a «vida ordinária» e a interioridade humana, compreendendo que o subjetivismo absoluto tende para o vazio. A singularidade ganha, pois, pleno sentido quando se projeta na compreensão do outro e da natureza que nos cerca. A ideia de «entendimentos partilhados» e a sua procura constituem, assim, elementos essenciais para um autêntico diálogo «entre culturas», sem ilusões, complexos ou artificialismos. O valor das humanidades depende da exigência, da capacidade de superação da mediocridade e do domínio de cada um sobre si. O desenvolvimento do «eu» moderno obriga à compreensão de um percurso que não pode esquecer as noções de altruísmo, de responsabilidade, de partilha, de cuidado e de serviço público. E a fragilidade da democracia deve-se à perda do sentido de bem comum, por ausência de compromisso sério sobre os valores. O mundo secular contemporâneo é caracterizado não pela ausência de religião, mas por uma contínua multiplicação de novas opções religiosas ou espirituais a que as pessoas recorrem para que as suas vidas façam sentido (cf. Charles Taylor, «A Secular Age», 2007). A idade secular que hoje vivemos obriga a compreender o pluralismo, o respeito mútuo, o diálogo entre culturas, a exigência crítica, a recusa da facilidade e da indiferença, mas também significa que o fenómeno religioso não deva ser desvalorizado, sem que haja ortodoxia religiosa impositiva. A religião e o ceticismo vivem lado a lado e muitas vezes no mesmo indivíduo. As pessoas vagueiam entre várias escolhas e constroem o seu próprio caminho. Contudo, o vazio de valores gera, tantas vezes, o apelo à irracionalidade, às seitas e à magia (contra o que justamente alertou Adriana Veríssimo Serrão no encontro referido). Essa tentação limita dramaticamente a liberdade e a autonomia. A Europa e o mundo de hoje precisam, de facto, de uma discussão sobre os seus valores, séria, aberta e crítica. «Liberté, égalité, fraternité». Para a compreensão da história como um caminho crítico da razão é preciso não reduzir a leitura do mundo a simplificações planas. Temos de entender que as identidades são sempre complexas e que o fechamento e a perspetiva unilateral são sempre gravemente redutoras.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 



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Domingo, 19.10.14

Osamu Nishitani


3. PATER NOSTER

A fé que procuro viver no dia a dia busca essa comunhão com Deus que é, necessariamente, comunhão com os homens. Enquanto acto de inteligência e vontade, exprime-se, não pela afirmação de dogmas nem pela repetição insistente de pedidos pessoais, mas, de modo mais procurado no Evangelho, pela oração que o Senhor nos ensinou: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus... O Verbo, o Filho consubstancial ao Deus incarnado, o mesmo que nos ensinou a não rezar como os pagãos - que esperam recompensa de sacrifícios e dádivas - também exclamou, na véspera do seu sacrifício na cruz: Pai, se for possível, afasta de mim este cálice! Mas seja feita a tua vontade! Jesus conhecia a vontade de Deus, e o homem que era assim teve de a aceitar. Nós não sabemos - nem para nós nem para os outros - qual é a vontade de Deus. Ao rezarmos, apenas sabemos que damos graças, porque tudo é graça, porque o nosso sofrimento subiu já ao céu, no sofrimento voluntário de Cristo! Como é possível, então, que em proclamados "santuários", se motivem as pessoas a repetirem infindáveis rosários de jaculatórias, e não a entenderem a gratuidade fundamental da sua relação mística com Deus? A verdade da oração de graças é só uma: seja feita a Tua vontade... Ocorre-me um paralelo ao que disse Osamu Nishitani, um pensador japonês nosso contemporâneo, sobre a filosofia, de que é professor: Digo que o pensamento não salva, porque o pensamento, como a sabedoria, não é remédio para qualquer doença, não é um medicamento... Podemos pensar por motivos pessoais, em busca de uma solução para uma doença, um problema nosso... Mas devo pensar para organizar a relação entre mim e os outros... E pretenderá  -  quiçá porque é essa a ideia que se transmite da nossa religião  -  que a salvação é assunto para a religião.. e a religião não é pensamento... A salvação espiritual, a salvação religiosa, é uma satisfação num meio fechado, num mundo separado, comunitariamente agrupado, mas essa comunidade é restrita. Facultará um certo conforto com a existência, mas, no fundo, funciona como rejeição. Pensar é mais aberto e arriscado. Não é safar as pessoas de sofrimentos ou becos. Antes será levá-las a caminhar de modo diferente, ajudá-las a encontrar um caminho, por vezes perigoso... Atrevo-me, neste exercício tão íntimo de me interpelar sobre a minha fé - e que partilho com quem me lê, porque amigos me incentivaram a fazê-lo - a substituir pensamento por oração, pensar por rezar, e direi então: a oração, como insistência precatória de benesses neste mundo, não salva, porque a oração não é remédio para doenças, não é medicamento. Rezo para encontrar a minha relação com Deus e os outros, porque a salvação não é contentamento pessoal, nem sintonia de grupo restrito e fechado a outras vozes. Em tal não encontro conforto, percebo rejeição. Rezar é uma abertura ao mistério de Deus, para ir buscar o caminho da fé. Por isso pedimos que venha a nós o teu Reino, o amor que esperamos encontrar, e em cujo sinal nos devemos, desde já, reconhecer. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia, a nós todos, não só a mim... Pois se olhamos para os lírios dos campos, e não há maior nem mais rica beleza do que a que Deus lhes providencia, porque haveremos de procurar tantas razões políticas, sociais, económico-financeiras, para justificar a nossa injustiça, quando nos povos do mundo, em todos eles, incluindo os nossos próximos pobres, não recebem o pão que, dia a dia, o Pai que está nos céus a todos dá? Será de Deus a culpa, a má gestão e distribuição dos bens, ou será nossa? No evangelho, o pão que Jesus manda dar às multidões famintas que O escutam, multiplica-se sempre. Quanto mais se partilha mais rende, quanto mais se deu mais se recebe e há para dar. Será essa a nossa lógica? A chamada Última Ceia, essa que foi a primeira de muitas missas, em que a acção de graças - que é o louvor absolutamente verdadeiro da união de todos com Deus e os outros - acontece nesse sinal sacramental do pão partilhado como comunhão no Corpo de Cristo, factor e função de reconciliação. Por isso mesmo rezamos ainda: perdoa-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E já nos fora feito o desafio de atirar, à mulher adúltera, a primeira pedra se nunca tivéssemos pecado, como nos fora prescrita a obrigação de nos reconciliarmos com irmãos desavindos, antes de levarmos ao altar a nossa oferta. Não quero o sacrifício, quero a misericórdia... E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. O Mal, essa ânsia obscura de destruição, ou mesmo só de diminuição, que nos habita, é um mistério inicial (e iniciático, infelizmente, em tantas seitas de que ouvimos falar), mas que, nas suas variadas designações de diabo, demónio ,satanás, etc., nos conduz sempre à ideia de divisão, separação, inimizade. Estão as mitologias cheias de deuses ferozes, sedentos de sacrifícios humanos, e até o Antigo Testamento nos fala de um Deus totalitário, ciumento e vingativo. O Mal tem tanta força, que até chegámos - nós, homens de diferentes religiões e culturas - a identificá-lo só com os outros, os diferentes de nós, talvez mesmo nossos inimigos, esquecendo-nos de que, quando assim nos persuadimos de razão, quiçá estejamos a ser, nós também, forças do mal...

    
Camilo Martins de Oliveira 



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Sábado, 18.10.14

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Fluxus e a pujança da banalidade.

Em Wiesbaden, na Alemanha, o primeiro de uma série de eventos internacionais organizado por George Maciunas, marca a formação do movimento FLUXUS e a fixação deste nome. Esta palavra está associada à palavra latina fluxus (de fluere - fluir) mas também ao processo médico da catarse bem como à descarga excrementícia e ao processo específico da transformação molecular e da fusão química. Pretende-se a partir deste movimento revelar uma percepção do mundo vista como um fluir contínuo, em vez de ser um somatório de momentos singulares – esta definição atípica pode explicar a surpresa ou a perturbação dos espectadores nestes eventos. O objectivo destes acontecimentos aparece muitas vezes associado ao entretenimento dos espectadores mais do que transmitir uma mensagem filosófica. Fluxus não distingue arte e vida e acredita que a rotina, o banal e as acções do dia-a-dia devem ser consideradas eventos extraordinários.

Em 1965, Maciunas escreveu no ‘Manifesto on Art / Fluxus Art Amusement’, o seguinte:

‘Para conceder estatuto não profissional aos artistas na sociedade, o artista tem de demonstrar que não é necessário e que não é exclusivo, o artista tem de demonstrar auto-suficiência perante o público, o artista tem de demonstrar que qualquer coisa pode ser arte e que qualquer um a pode fazer.’

A arte-entretenimento deve ser simples, não-teatral, divertida, despretensiosa, centrada nas insignificâncias (um jogo ou um trocadilho), requerendo inabilidade ou inúmeros recursos, não tendo utilidade ou valor institucional. O valor da arte-entretenimento deve ser baixo para a produzir ilimitadamente, e poder ser obtida por todos e eventualmente produzida por todos. Multiplicam-se as actividades – concertos, festivais, musicais, performances, publicações, arte postal, qualquer gesto e acções efémeras. Em certa medida aproxima-se da arte conceptual porque insiste na participação do espectador para poder concretizar-se.

O movimento Fluxus tem como referência máxima a figura de Duchamp, tentando fundir o Dadaismo com o Produtivismo. Foram ínumeros os membros do Fluxus, como por exemplo: Nam June Paik, George Maciunas, Ben Vautier, Daniel Spoerri, Robert Filliou, Wolf Vostell e Joseph Beuys.

Os trabalhos de Ben Vautier representam o humor e o espírito paradoxal do Fluxus nos seus manifestos, os quais são habitualmente escritos em telas negras com a sua letra manuscrita específica. Amplia a ideia do Fluxus em seus dois extremos: ‘tudo é arte’ e ‘nada é arte’. Também ’Das Leben ist Kunst; wenn die Kunst überall ist, warum dann Kunst machen’ (A vida é arte. Se a arte está em todo o lado, porquê a arte?) ou ’Wenn alles Kunst ist wie soll man keine Kunst machen’ (se tudo é arte, como podemos não deixar de fazer arte?) – que é a manifestação do princípio do ’tudo ou nada’, embora ponha o ‘nada’ em questão. Também é visão corrente nesta época o criar sempre novas artes/estilos etc. O que o leva a pôr esta questão: ’Se o novo não é mais novo não fazer do novo este novo’.

Wolf Vostell reflectiu o aspecto do movimento Fluxus no projecto ‘Fluxus-Zug’ (Comboio Fluxus), que percorreu várias cidades como espaços expositivos em movimento. Também a performance da viagem da ‘caixa de salada’ (Salatkiste, 1971) reflecte o aspecto da degradação do objecto em 365 dias. Em oposição a este movimento, Vostell colocou um cadillac numa caixa de cimento numa das ruas mais frequentadas da cidade de Colónia e chamou-lhe o ‘tráfego silencioso’ (Ruhender Verkehr).

O entendimento de Robert Filliou da arte também reflecte os aspectos compreendidos neste leque de possibilidades: ‘A arte pode ter três estados: Bem feita, Mal feita e Não feita.’ (Filliou, 1988)

Tendo-se tornado num crítico professor de arte desde 1961, em Düsseldorf, Josef Beuys apesar de ter participado activamente em algumas das acções do movimento, os outros artistas do Fluxus viam nele um autor com um contributo muito específico alemão. A sua ideia principal assenta na ‘Escultura Social’ (‘Soziale Plastik’). Beuys concebe a escultura como sendo uma actividade estética de prática social que se prolonga para além da matéria. A formação da sociedade é para Beuys um aspecto de criação, é como que uma escultura, a partir daqui funda a ideia de que todo Homem é um artista, porque todo o Homem pode formar e mudar a sociedade. Desde o momento que se forma sociedade o Homem faz arte. E Beuys confrontou o sistema com esta nova concepção do artista que é a partir de agora o escultor da sociedade. Um outro aspecto importante, do seu trabalho é o espectáculo, que era diferente das provocações históricas, sociais e políticas das vanguardas do início do século XX. O seu propósito de provocar escândalo e choque, prende-se a uma necessidade de criar um certo protagonismo do artista através do espectáculo – como se o artista fosse um guru. Beuys concebe a performance como um género de ritual sempre de forma cultual ou shamanica – só assim pode ter influência sobre a sociedade e transformá-la. As suas performances podem ter uma motivação política – por exemplo, quando brincou com um discurso de Goebbels durante uma das suas performances, ou quando declarou abertamente que o Muro de Berlim deveria aumentar 5cm para melhorar as proporções arquitecturais, na sua autobiografia, mas também estavam associadas a experiências inconscientes de um passado dramático, a uma memória histórica e a representações grotescas do presente.


Ana Ruepp


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Sexta-feira, 17.10.14


Santa Hildegarda von Bingen

 

2.FIDES EST SUBSTANTIA SPERANDARUM RERUM  

 

Esta citação de S. Paulo (Hebreus, XI,1) serve, a S. Tomás de Aquino, no Prooemium da sua Expositio in Symbolum Apostolorum, para com força resumir o que é isso a que chamamos Credo: a fé é a substância das coisas que esperamos. A meio da sua sétima década de vida, que coisas poderá esperar um homem tão banal como eu? Há quem creia que revive invocando saudades e cenas do seu passado mais gostoso ou prazenteiro, ou tentando irremediavelmente reconstituí-las na decadência de si, como o velho tonto do Foten Roji Nikki do Tanizaki, diário de um ancião que teima em agarrar-se a médicos e delícias... Outros há que procuram esquecer e deslizar mansamente para o sono... Outros ainda se sentirão invadidos pelo terror de recordações, arrependimentos tardios e temores do inferno... Alguns pedirão a algum deus esquecido uma oportunidade de reparação, uma qualquer indulgência, mesmo dessas que antigamente se vendiam por preços estabelecidos em espécies que variavam da moeda sonante à repetição apressada e longa de locuções precatórias... Quantos se lembrarão simplesmente da fé? Como diz frei Tomás de Aquino, nesse texto que referimos, per fidem inchoatur in nobis vita aeterna: nam vita aeterna nihil aliud est quam cognoscere Deum. Isto é: pela fé começa em nós a vida eterna: nem a vida eterna está alhures, senão no conhecimento de Deus. Mas esse não o temos já aqui, apenas nos é dado acreditar que veremos a Deus, que essa esperança será cumprida. Ou, quiçá, a visão de Deus seja já antecipada por sinais... Não me refiro a visões, aparições ou quaisquer ilusões. Penso simplesmente no ensinamento de Jesus: amai-vos uns aos outros, por esse sinal vos reconhecerão. Ou ainda no que S. Paulo diz do amor, quando refere que é ele a maior das virtudes : a fé e a esperança morrerão connosco, o amor durará eternamente. Assim sendo, se a fé é a substância das coisas que esperamos, a substância da fé é o amor. Volto a Feuerbach, tantas vezes apontado como um dos filósofos da morte de Deus... Eu mesmo assim o entendi, até ter percebido que é, muitas vezes, um certo pretenso rigor "fundamentalista" cristão que, afinal, esconde o sol da fé, que é o amor de Deus. Passou-se de um credo apostólico, dessa simples confissão das testemunhas da vida, paixão, morte e ressurreição do Verbo incarnado, para uma "fé" cada vez mais codificada, enchendo-se de dogmas adventícios, conformes aos receios, combates e devoções dos tempos que iam passando... Deu-se à Igreja, una, santa, católica e apostólica, uma aparência de seita, sujeita a uma hierarquia clerical legiferante e ciosa de saberes e poderes que não são legitimamente seus sem o consenso das assembleias dos fiéis em comunhão. Quiseram fechar  o Corpo Místico de Cristo num palácio monárquico, surdo às vozes do Povo Sacerdotal. Na sua Expositio in  Symbolum Apostolorum, o Doutor Angélico diz claramente: Sicut videmus quod in uno homine est una anima et unum corpus e, todavia, tem vários membros, assim também a Igreja é um corpo com diferentes membros, sendo o Espírito Santo a alma que lhe dá vida. E adiante enumera as qualidades da Igreja: una, santa, católica (i. e. universal), forte e firme. Sempre me detive nos fundamentos que S. Tomás aponta para a unidade da Igreja: a unidade na fé, a unidade na esperança da vida eterna, a unidade na caridade, ou seja, a união no amor de Deus e no amor mútuo. E insiste nesse amor que reúne pela compaixão e cuidados recíprocos, concluindo: cada um deve servir o próximo com a graça que lhe tiver sido dada por Deus. Portanto ninguém despreze nem permita ser afastado ou excluído dessa Igreja... A Igreja é a comunhão dos crentes no amor de Cristo, Deus incarnado, e por isso mesmo é sinal da fé, cuja substância é a esperança das coisas que esperamos. E o que todos esperamos é a plenitude do amor, a eternidade da paz, em graça e em verdade. Assim deverá a caridade ser o cimento da comunidade eclesial, e esta o sinal, o anúncio a todos, de que é universal, no tempo e no espaço, a vocação do amor de Deus. Tal anúncio da boa nova, não é para ser imposto coercivamente, nem deverá ser pretexto de afastamento ou repúdio de outros e suas crenças, mas é, em virtude da sua própria razão essencial, testemunho de que a verdade de Deus é o amor. S. Bernardo, monge reformador da Ordem de S. Bento, fundador dos cistercienses, grande amigo e protector da mística abadessa Stª. Hildegarda von Bingen, autora literária e musical, defensora da dignidade das funções eclesiais das mulheres, também pregou uma cruzada... No seu sermão 66 (cf. Super Cantica) diz: Fides suadenda est, non imponenda, a fé deve ser persuadida, não imposta. Mas era homem do seu tempo, numa cristandade europeia, rodeada por mouros, a sul, alguns ocupando mesmo largo território da Península Ibérica, enquanto a sudeste o Islão também já ameaçava o Império Romano do Oriente... Contra infiéis e hereges, diria pois: quamquam melius procul dubio gladio coercerentur... mas talvez seja melhor coagir pela espada do que facultar a alguns a propagação dos seus erros! Todos nós, de quando em vez, sofremos a tentação de instintivamente confundirmos a prudência com o medo. Para S. Tomás, a prudência é serva da sabedoria (sendo esta um esboço ou prévia participação na felicidade por vir), leva-nos a ela, preparando-lhe o caminho.  Na Summa (2ª parte, II, quaestio 47, art. 1º) retoma, citando-a, a definição de Stº. Agostinho: A prudência é o amor que escolhe com sagacidade. E creio que a escolha do amor é a alegria do testemunho da fé, antes e acima de qualquer agressiva afirmação sectária ( i.e., que divide, separa) daquilo que pensamos ser  verdade nossa. Termino esta página, com referência a Ludwig Feuerbach. Sobre ele já falei e escrevi noutra ocasiões, a sua Das Wesen des Christentums certamente me ajudou - tal como a consideração de outras religiões e filosofias, incluindo reflexões pertinentes ao pensamento católico - a interpelar-me acerca da minha fé, cuja substância são as coisas que esperamos, quiçá esse Deus que todos chama e a quem cada um vai respondendo consoante a graça que lhe for dada: não fostes vós que me escolhestes, mas Eu que vos escolhi. O amor sendo a própria substância da minha fé, não acredito que Deus deixe alguém de fora... No prefácio à sua bela tradução de A Essência do Cristianismo (2ª edição, Lisboa, Gulbenkian, Outubro de 2001), a Profª. Doutora Adriana Veríssimo Serrão diz muito bem aquilo que também penso: E se a meditação de Feuerbach exalta a religiosidade genuína e sincera da fé viva, ao contrário das doutrinas em que Deus é metafisicamente concebido como primeiro princípio do mundo ou como abstracta ordem moral, o mesmo não sucede quando a fé se cristaliza numa visão do mundo que ultrapassa o indivíduo para se tornar um corpo institucional rígido e um instrumento de dominação. A severa crítica da teologia é simultaneamente uma advertência  ao caminho que conduz da crença inofensiva intimamente praticada à separação violenta dos homens em sectores inimigos, e que acontece sempre que a fé se converte em dogmática, e esta na intolerância e no fanatismo que transformam o bom princípio da união no mau princípio da divisão e da exclusão... Comentando The Heart of the Matter , de Graham Greene, a escritora britânica Lesley Hazleton diz que a dúvida é essencial à fé: aboli as dúvidas, e ficareis apenas com convicção pura, fonte da arrogância e de todos os fundamentalismos... Relendo o enunciado, ocorre-me que qualquer palavra é sempre ela e a sua circunstância... (E aqui lamento não ter ganho mais tempo a estudar caracteres chineses, esses que os japoneses chamam kanji, para perceber melhor como a localização de um ideograma lhe pode mudar o significado...). Isto é: há dúvidas e dúvidas, há, por exemplo, interrogações e desconfianças, e, entre umas e outras, quase sempre, só o amor que temos ao sujeito ou objecto da nossa interpelação definirá a diferença. E é neste ponto preciso do que agora digo que me encontro com a análise crítica desse passo de Feuerbach: A essência secreta da religião é a identidade da essência divina e da essência humana - mas a forma da religião, ou a sua essência manifesta e consciente é a diferença. Deus é a essência humana, mas é percebido como uma essência diferente. O amor é o que revela o fundamento, a essência oculta da religião, mas a fé o que constitui a sua forma consciente. O amor identifica o homem com Deus, Deus com o homem e, por isso, o homem com o homem; a fé separa Deus do homem e, por isso, o homem do homem, e então Deus mais não é do que um místico conceito genérico de humanidade, por isso a separação de Deus e do homem é separação entre o homem e o homem, a dissolução do vínculo comunitário. Pela fé, a religião entra em contradição com o sentido ético, com a racionalidade, com o sentido simples e humano da verdade... Mas, pelo amor, ela volta a opor-se a esta contradição. A fé isola Deus, faz dele um ser particular diferente,  mas o mor universaliza, faz de Deus um ser comum, cujo amor coincide com o amor humano... O amor tem Deus em si, a fé tem-no fora de si. O que eu quero dizer, falando da minha fé, é que, apesar da análise de muitos tratados e doutrinas, afirmações erga omnes de diversas instituições religiosas, incluindo discursos oficiais da Igreja Católica, nos levarem muitas vezes a concluir que faz todo o sentido essa afirmação de que a fé tem o amor fora de si, por não reconhecerem que tantos daqueles ateus, agnósticos, hereges ou infiéis - que tanto bem querem e fazem aos outros - são membros do Corpo Místico de Cristo, eu acredito que o amor é o modo permanente da fé. E assim os sinto comigo, a esses estrangeiros, na presença de Deus. Todas as vocações totalitárias - católicas, islâmicas ou marxistas,  "fundamentalismos" nascidos da carne e do sangue, da vontade dos homens - caem na armadilha da religião como forma, na definição necessária de uma "fé" militante e exclusiva. Que divide e antagoniza os homens e os afasta da Fé, dessa cuja substância é o amor de Deus, a speranda res, aquilo que devemos esperar.

                                                                                             
Camilo Martins de Oliveira 



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Quinta-feira, 16.10.14

 

Querido amigo:

Demorei a responder-lhe pois estava na Índia, mas entenda que esse facto não me levou a esquecer a sua carta. A sua carta a Saramago foi para mim um telefonema para a terra e não para o céu. Uma intimidade espiritual de si para si, eterna, no escutar-se e no dialogar-se. Foi também uma mão aberta de silêncios do existir, no qual o mergulho é feito por agua e fogo interpelando a vida acordada. A eternidade que refere nesta sua carta, é para mim uma tentativa de unir o ser dividido que somos, e dar-lhe todo o tempo que só a morte interrompe.

Todo o seu tempo fora de Portugal é também parente da intensidade a favor de uma existência, afinal nunca descuidada, e de uma tranquilidade que sempre lhe regressa quando quer. Este, talvez este, o seu futuro e o de tudo o que lhe vai sendo único.

Talvez esta a mensagem de um passageiro requerente da vida. 

Aceite um abraço solidário,

Teresa Bracinha Vieira



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Quarta-feira, 15.10.14

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GUERRA JUNQUEIRO, INESPERADO AUTOR DE REVISTA

Em 17 de janeiro de 1879 o Governo Civil de Lisboa proíbe a representação, no Teatro Ginásio, da “revista do ano” -  como então se dizia - “Viagem à Roda da Parvónia”, de um tal Comendador  Gil Vaz, estreada na véspera, em ambiente de escândalo. E de tal forma, que o comunicado do Governo Civil“ mand(a) a qualquer agente da policia que intime a empresa  do Teatro ginásio Dramático para que retire imediatamente de cena a revista (…) cujas representações ficam proibidas; bem como para que seja desde já contra-anunciado o espetáculo desta noite”…! Curiosamente, este desconhecido Comentador Gil Vaz ocultava uma  inesperada parceria revisteira: nada menos do que Guerra Junqueiro e  Guilherme de Azevedo: Junqueiro já  na altura era um nome referencial; Azevedo era jornalista de grande nomeada, porem de escassa expressão dramatúrgica (“Rosalino” – 1877).

E também se diga que Junqueiro pouco se dedicou ao teatro: alem da revista que aqui recordámos, colaborou noutro texto, “A Fábia” (1873), récita de finalistas da Universidade de Coimbra. E só em 1896 publicaria a versão final do poema dramático “Pátria”, critica violenta à situação histórico-politica a partir do Ultimato inglês de 11 de janeiro de 1890.  A génese deste exercício teatral foi lenta e assumiu formas e designações diversas -  “Portugal no Calvário” no próprio ano do Ultimato, “A Agonia” em 1891/2 e finalmente a versão final, “Pátria”.

Como se sabe, D. Carlos é violentamente criticado: mas, como noutro lado, escrevi, “Junqueiro reconheceria a tolerância do reu relativamente ao seu poema” (in “História do Teatro Português” pag. 234. E tal como refere Luciana Stegagno Pichio, a “Pátria identificava Portugal vilipendiado e politicamente frustrado com o doido da tradição medieval” (in “História do teatro português” pag. 310).  Por  seu lado, Álvaro Manuel Machado reconhece no poema “uma vibração elegíaca e saudosista” que é relevante em termos de literatura dramática. (in “Dicionário de Literatura  Portuguesa” pag. 254, verb. Junqueiro, A. M. Guerra).

Mas voltemos À Viagem à Roda da Parvónia” O texto assume um criticismo feroz, que ainda hoje se faz sentir, especialmente pela capacidade e potencialidade “de espetáculo”, num fase mais ou menos inicial do teatro de revista.  Para já, são pAra cima de 60 personagens, evidentemente desdobrados em termos  da representação teatral, mas que cobrem, no seu sentido critico mordaz e tantas vezes violento, um universo variadíssimo de  carateres e determinam um choque permanente de situações.

 A politica domina o texto, a critica e até a cena: não por acaso, o Quadro I do Ato I  “representa uma arcada do Terreiro do Paço. – Vários grupos conversam – De quando em quando rapazes atravessam apregoando cautelas – Vendilhões de agua fresca gabam e excelência do liquido”, nada menos! E segue uma delirante sucessão de situações, que põe em cena populares, poetas, deputados,  ministros , estátuas, deuses clássicos, as  quatro estações, candidatos, eleitores…  e mais Matusalem, Apolo, o Judeu Errante…

 Luis Francisco Rebello, NA História do teatro de Revista em Portugal,  (vol. I -1984) evoca a lista de personalidades que, a pedido dos autores, comentaram e a edição do texto: João  de Deus, Antero, Oliveira Martins, Filho de Almeida,  Ramalho Ortigão,, Pinheiro Chagas, Gervásio  Lobato,  Julio César Machado, Magalhães Lima… E cita uma cena na Camara dos Deputados, que constitui, na verdade, uma tremenda critica à vida politica da época…
O Teatro Experimental de Cascais repôs muito recentemente  a "Viagem à Roda da Parvónia". E o espetáculo mostra como o texto não perdeu oportunidade!

DUARTE IVO CRUZ



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Terça-feira, 14.10.14

The newest populist politics1.JPG





The newest populist politics, 2014-15

The newest populist politics2.JPG
A crise de sinceridade que devora os políticos contemporâneos produz os primeiros resultados em Westminster. Um pioneiro Ukipper MP senta-se já na House of Commons e traz consigo a proposta de antecipar o Brexit referendum para June 2015. — Chérie! Il faut casser le noyau pour avoir l'amande. Por escassos 600 votos em Heywood and Middleton mas eleito com 60% em Clacton, RH Douglas Carswell não está acompanhado por outro independentista num first-past-the-post system ora com furo na blindagem. — Hmm, Vit. Very interesting times.Also dangerous, naturally. Os Nobel Committees galardoam os heróis das ciências e nobilitam a jovem Malala no mundo desencantado de espécies invasivas como o Isis ou o Ebola. O Mayor of London recorda no livro The Churchill Factor como e de quê Sir Winston salva Britain nos darks years ao rejeitar, combater e vencer uma alinhada aliança com os Nazis.

The newest populist politics3.JPGRainy, grey and shorter days cá pelas ilhas. Os Commons vivem um momento alto após novo Ukipanic episode protagonizado por um honorável MP ora apresentado com notabilíssimo election certificate no bar of the House pelos pares Mr Zac Goldsmith e Mr Bob Russell (a Tory and a Liberal Democrat sponsors). O pesado silêncio sossobra aos risos quando o Tory defector saúda a sua anterior bancada, uma e outra vez, na tradicional cerimónia do juramento. Ei-lo de viva voz face à Bible na despatch box: “I,  Douglas Carswell, swear by Almighty God that I will be faithful and bear true allegiance to Her Majesty Queen Elizabeth, her heirs and successors, according to law. So help me God.” Se as formalidades respeitam o Reformation and the Supremacy of the Crown Act 1562, bem como o Promissory Oaths Act 1868, memorável é ainda esta estreia parlamentar. Partido até agora nos 3%, os Ukippers elegem o primeiro deputado no Essex com esmagadora maioria de 59,7% após colapso do voto Tory (queda de 28%). Grave: ameaçam a vitória dita segura do Labour Party em Lancashire ao impor a visão de um quase segundo MP no acaso de mais umas poucas portas abordadas durante a dura campanha que elege Mrs Liz McInnes na by election do fim de semana. Ora, a análise revela que as transferências de votos afetam todos os partidos. Se Mr Nigel Farage informara os big three de Westminster que “we were after you,” a mesma mensagem ecoam os constituintes desde a revolta nas últimas eleições europeias. É que, seja qual seja o ângulo, o ocorrido na Toryland de Clacton é histórico, mas é o observado em Red Greater Manchester que assume foro extraordinário e confirma efetiva erupção nas placas tectónicas do eleitorado na Austerity Britain.

The newest populist politics4.JPGO Twitterminster confirma que muitos parlamentares temem perder o emprego num five-party system esculpido pelas vagas do populismo verde ou azul. O sentimento nas ruas é claríssimo: as pessoas não estão dispostas a ser tratadas como cidadãos de segunda por políticos que empregam para dirigir os assuntos do país e os enganam em jogos despudorados de interesse próprio e sobrevivência de facção. Mas nestes dias de leitura obrigatória da nova biografia de Sir Winston Churchill onde Mr Boris Johnson privilegia os menos conhecidos casos vividos nas Houses of Parliament durante os anos da II World War, há mais na maioria silenciosa. Em Democratic stress, the Populist signal and Extremist threat (2013) afirma Anthony Painter: “To see the current political situation as ‘anti-politics’ is a spectacular error. Instead, a new individuality, new forms of social interaction creating new expressions of identity, technology as a driver not simply a catalyst, the rise of a patrimonial politics, and the fracturing of economic security and opportunity, coalesce into a formidable threat to the political mainstream.”

The newest populist politics5.JPG
Boas decisões chegam do North, à medida que The Norwegian and Swedish Nobel Committees desvendam o nome dos humanos heróis para 2014. Miss Malala Yousafzai do Pakistan e Mr Kailash Satyarthi da India ganham o Nobel Peace Prize pelos contributos “in helping to promote universal schooling and protecting children worldwide from abuse and exploitation.” Monsieur Patrick Modiano recebe o Nobel Prize for Literature, constituindo-se como doce surpresa a escolha do discreto autor de Rue des boutiques obscures, Un cirque passe e outras obras sobre o regime de Vichy e a perturbação identitária gerada pela Nazi occupation. Com Paris agora absorvida com resistências germanófilas de Brussels à sua gestão orçamental, num singular teste ao limite das eurointerferências nas soberanias, um outro gaulês arrecada o Nobel Prize in Economics. Monsieur Jean Tirole vence pelas teses pós-fordistas da organização e regulação prudencial (ler Theory of Corporate Finance, de 2005), após acesa disputa nas apostas com dois discípulos de Herr Ludwig von Mises: os americanos Mr Israel Kirzner e Mr William Baumol. — Well, that young lady said it all-- and wonderfully. One child, one teacher, one book and one pen can change the world.


St James, 14th October

Very sincerely yours,

V.



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Segunda-feira, 13.10.14

De 13 a 20 de outubro de 2014.


Ao lermos «S. Paulo» de Teixeira de Pascoaes, publicado há oitenta anos (1934), estamos perante uma obra maior das letras portuguesas (hoje reeditada pela Assírio e Alvim). O texto é tantas vezes surpreendente, uma vez que a biografia ultrapassa em muito o acompanhamento de um percurso. Trata-se de uma reflexão existencial, em que Pascoaes não só é fiel à compreensão da personagem difícil que acompanha, como também a reinterpreta à luz de uma especial sensibilidade humana que aqui revela sumamente.

Teixeira de Pascoaes

UM INCOMPREENSÍVEL SILÊNCIO
Por razões muitas vezes incompreensíveis, a sombra do silêncio esconde exemplos fundamentais da cultura e da arte. «S. Paulo» é um desses casos. O escritor de Gatão, ao ter-se exilado cedo para longe dos centros literários, contribuiu para um certo esquecimento, mas o tempo tem vindo a revelar que o autor é muito mais do que as simplificações criadas por antigos aduladores e críticos. Pascoaes continua a ser lido, com interesse renovado, descobrindo-se contributos premonitórios e duráveis, saudados por criteriosos leitores e críticos. Mais do que clássico é moderno, é alguém que compreende como poucos o tempo e a sua projeção na vida humana. Por vezes, quando se marca uma pessoa com determinada bandeira, as paixões digladiam-se pela repetição de argumentos a favor e contra, o que afasta quantos não se sentem atraídos pela contenda. Cesariny compreendeu muito bem a força intemporal do escritor. No caso de Pascoaes houve quem se fixasse no saudosismo, mas quem conheça a obra prolífera do autor facilmente pode perceber que essa questão é mínima para a apreciação serena da força do mestre. O próprio António Sérgio, crítico severo desse simbolismo, não negou o talento e as qualidades do singular homem de letras. Hoje, passado o calor distante dessa contenda e revelado o reconhecimento dos contemporâneos de insuspeitas tendências, podemos atribuir a Teixeira de Pascoaes o justo lugar, entre os mais relevantes no nosso panorama literário. E esta obra demonstra-o com clareza.

UM LIVRO GENIAL
António-Pedro Vasconcelos diz: «Estamos perante um livro genial». E põe-no como criador em paralelo com Pasolini. E acrescenta: «Desterrado no Gatão, como São Jerónimo na sua gruta, Pascoaes desgostoso do seu tempo cujas figuras e episódios por certo lhe não estimulam a lira nem suscitam o espanto, (à parte Brandão e Unamuno que venera) convive com outros personagens: Hamlet e D. Quixote, Napoleão e Jesus Cristo. Não distingue os Heróis consagrados pela História dos que foram inventados pela fantasia dos poetas. Trata de igual para igual Vénus e Santa Teresa, Camões e o Adamastor. Qual deles tem mais realidade? (…) “Nem a ilusão tem nada de ilusório, nem a realidade tem nada de real”, dirá Pascoaes. Não é uma blague. Ou por outra: é uma blague autêntica…». E assim, o poeta não precisa de ser atual. É ele mesmo. A sua singularidade levará a ser alvo de injustas e desenfreadas campanhas. Confessará a Unamuno: «Sim, os católicos estão furiosos contra mim». Hoje percebemos que se tratava de miopia e de incompreensão, de quem não lera ou de quem nada entendera… Lemos o «S. Paulo» e vemos que há uma compreensão serena e livre do cristianismo vivido nos ermos ibéricos, mesmo que Saulo aqui não tivesse chegado ou estado em pessoa. É uma literatura animada de espírito, em que nos é dado ver o que é descrito como se estivéssemos ante uma fidelíssima representação pictórica ou cinéfila: a delapidação de Santo Estevão, a conversão na Estrada de Damasco, a evangelização, as epístolas, o discurso aos Atenienses no Areópago, o regresso a Jerusalém, o naufrágio na ilha de Malta, a prisão, o julgamento, a entrada em Roma, a loucura de Nero, a morte de Agripina, o massacre dos cristãos no Coliseu, o incêndio de Roma… Oiçamos o analista lúcido: «Paulo, presidindo à lapidação de Estêvão, cometeu um crime, origem do seu remorso tão fecundo! Repetiu a tragédia divina em drama humano. Identificou-se ao Criador e Redentor. Quem lhe apareceu na Estrada de Damasco foi o seu remorso personificado em Jesus Cristo, o deus da sua vítima. A vítima empeceu ao carrasco, vinda do céu, envolta num relâmpago infinito. Empeceu-lhe, transfigurada no seu Deus, em Jesus Cristo. Empeceu ao carrasco e dominou-o completamente. O Deus de Estêvão ficou a ser Deus de Paulo». Pascoaes sente-se, assim, próximo de Paulo. Daí o seu encontro natural com Miguel de Unamuno, muito mais do que companheirismo. «O homem é religioso por lembrança da Origem, que é Deus, ainda em si, todo contido no primeiro ímpeto genésico». E o poeta, em ligação à mãe natureza de Marânus, lembra: «No Paganismo eram as criaturas sacrificadas à Divindade. Agora é Deus sacrificado às criaturas, na pessoa do Filho. O Cristianismo é a conclusão do Paganismo; ou este é a primeira fase daquele. O corpo antecede a alma; ou, como diz S. Paulo, a alma vivente antecede o espírito vivificante». Não admira que com toda esta liberdade de espírito tenha havido tantas incompreensões. Mas sentimos a força do homem religioso (como Herculano, Antero, Unamuno, ou Régio e Eduardo Lourenço), sem peias, procurando entender a alma contraditória e ansiosa de Paulo de Tarso. «A aurora é grega, o calor do meio-dia é judaico e é da Ibéria o sol poente, morto na cruz». E é essa morte que se torna vida… «Agora, o homem novo é S. Paulo, o cristão, o morto redivivo, o Deus que os desgraçados esperavam».

DIÁLOGO COM OS TESSALONICENSES
Lembremo-nos de Tessalónica. «Paulo, como Silas, vai a pé, curvado, com os olhos inflamados de luz, e o fantasma de Estêvão, ao seu lado leva um fruto na mão, para o comer. Oferece-o ao primeiro mendigo. Nada lhe pertence na terra, porque a terra não lhe interessa. E só o que nos interessa nos pertence. A Terra é dos bichos, como a Lua é dos lunáticos. Todos os tolos reinam naquelas planícies desertas, onde cai a sombra de altíssimas pirâmides, sem a mais leve mistura de claridade, dum negro absoluto e recortado. (…) Paulo é deste mundo interior que envolve o mundo e os outros mundos, e ninguém sabe onde ele acaba, vê para dentro, ouve para dentro, pois, dentro de si, é que ele descobre tudo, - o Infinito. A nossa memória é universal, e excede o próprio Universo, quando aliada à fantasia criadora (…). Paulo está com os escravos e os famintos, contra as classes dominantes. O seu fim é criar uma sociedade religiosa, em que todos sejam irmãos em Jesus Cristo, o único Senhor. Todos senhores no Senhor; e cada um no seu espírito liberto ou em Deus. Deus é liberdade». Miguel de Unamuno compreendeu bem o «S. Paulo» de Pascoaes, porque entendeu a poesia do mestre: «a filosofia poética de Teixeira de Pascoaes é uma filosofia assombrosa – não sombria. As realidades diluem-se e dissolvem-se nelas em sombra, e as sombras tornam-se e consolidam-se como realidades (…). Para Teixeira de Pascoaes, a obra do homem tem mais realidade que o homem mesmo». Há, no fundo, uma outra leitura de «Do Sentimento Trágico da Vida». Mas, mais do que uma leitura, é verdadeira ilustração.

Guilherme d'Oliveira Martins



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Domingo, 12.10.14


S. Jerónimo de Duhrer (MNAA)

 

1. IN PRINCIPIO ERAT VERBUM

Assim começa, na Vulgata ou versão latina de S. Jerónimo, o Evangelho segundo S. João. Nos meus tempos de rapaz, antes das reformas litúrgicas do Concílio Vaticano II, nessa língua se lia, a encerrar todas as missas, o prólogo desse Evangelho. Talvez por isso me tivesse familiarizado tanto com ele, ao ponto de o ter decorado no texto grego original... E ainda hoje o considero um dos mais importantes de toda a literatura mundial, e indubitavelmente fundador, não só da formulação da fé cristã, como do seu pensamento teológico. Na verdade, ali se afirma que no princípio era o Verbo  -  como, em título, escrevemos em latim  -  en arcsi in ó Logos -  em grego assim transcrito em caracteres latinos ... Ambos os termos  - Verbum e Logos  -  são traduzidos em português por Verbo ou Palavra, o que talvez nos reduza a compreensão do que o texto original quer dizer : pois Logos não diz só palavra, mas também causa, motivo, razão, e até promessa; e Verbum estende a palavra a dizer expressão, discurso que explica. Hoje, quem não se entendeu um pouco com as línguas clássicas, perceberá melhor o que se quer dizer, pensando em expressões como "tem lógica" (percebe-se, faz sentido) ou farmacologia ( a logia sendo aí a explicação ou o entendimento dos fármacos). No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Estava Ele no princípio com Deus. Tudo por Ele foi feito, e nada de quanto se fez foi feito sem Ele. N´Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a receberam. Houve um homem enviado por Deus, chamado João, o qual veio como testemunho, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por via dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Era a luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem a este mundo. Estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O reconheceu. Veio para o que era seu e os seus não O receberam. A todos, porém, quantos o receberam, deu Ele o poder de se tornarem filhos de Deus, quer dizer, àqueles que crêem no seu nome, que nem do sangue, nem do desejo da carne, nem da vontade do homem, mas só de Deus nasceram. E o Verbo se fez carne e veio habitar entre nós; e nós vimos a sua glória, glória do Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e verdade... Assim, do século XVI (Concílio de Trento) à  segunda metade do século XX (Vaticano II), ouviam os fiéis o relato joanino, evangélico, histórico e teológico, do mistério da Incarnação de Deus, início da história e economia da Redenção que terminará no apocalipse final da glória cheia de graça e verdade. Cabe aqui notar que o nome de missa - que se popularizou na Igreja Latina como designação do que a Igreja Oriental, de língua grega, sempre designou por Santo e Divino Sacrifício - vem da locução Ite, missa est! (Ide, sois enviados!) com que, até ao sec.IV, se despediam, depois das leituras bíblicas, homilia e recitação do Credo, os catecúmenos, reservando-se para os já batizados a liturgia da consagração e comunhão. A expressão acabou por generalizar-se, e talvez isso explique a introdução mais tardia da profissão joanina: a confirmação da fé antecedia o envio para a missão. Não sendo eu historiador, nem hermeneuta, nem exegeta, nem sábio seja em que ciência for, não me compete analisar nem debater hipóteses sobre a identidade de João Evangelista: seria ele filho de Zebedeu e, com seu irmão Tiago, pescador e discípulo da primeira hora...ou antes seria membro da alta aristocracia de Jerusalém, da família de sumos sacerdotes judaicos, homem culto e rico, em cuja casa terá tido lugar a Ceia do Senhor? Muitos peritos em escrituras , história e sociedade daquele tempo, inclinam-se hoje para esta probabilidade. De si mesmo, o evangelista diz que era "o discípulo que Jesus amava", aquele que, sobre o ombro do Mestre reclinou a cabeça. e a quem Ele, do alto da cruz, confiou a Senhora sua mãe. Os sábios nossos contemporâneos que, na esteira de Jean Colson (L´Énigme du Disciple que Jesus aimait, Paris,1969) seguem a tese de que era um patrício de Jerusalém, identificam-no também por um testemunho do século II, assim referido pelo historiador Jean-Christian Petitfils no seu magnífico Jesus (Paris, Arthème Fayard, 2011): Mas o testemunho essencial sobre a identidade do autor do quarto evangelho é o de Polícrato, bom conhecedor das tradições de Éfeso, de que foi bispo, como foram cinco membros da sua família antes dele. O testemunho é de peso. Invocando, em carta ao papa Víctor, de 190 a 198, "as grandes luzes" que se tinham extinto na Ásia, cita Filipe, « um dos Doze, que falecera em Hierápolis» e «João, que repousara a cabeça sobre o peito do Senhor, que foi hiéreus (sacerdote) e, a esse título usara o pétalon ( pétala de ouro), testemunha e  didaskale (docente). Faleceu em Éfeso ». Muitos autores contemporâneos, católicos, protestantes e não só, reconhecem, para além da sua evidente singularidade, ao Evangelho de S. João, frente aos outros três (os sinópticos),  características que, resumindo a descrição delas por Petitfils, podemos enumerar assim: "unidade literária, homogeneidade de estilo, de pensamento e de visão teológica... uma arquitectura narrativa extremamente complexa, revelando notáveis conhecimentos, não só da Bíblia hebraica, mas da organização do Templo, das festas e da vida em Jerusalém...  um pensamento típico do judaísmo do primeiro século da nossa era...  a oposição entre o bem e o mal, a luz e as trevas, como a que encontramos em Qumrân...  João insiste na Incarnação e na carnalidade da Ressurreição (S. Tomé é convidado a pôr o dedo nas chagas de Jesus)... " Por mim, que apenas escrevo para dar testemunho da minha fé, direi que, apesar de ler os sábios, e de com eles me interrogar sobre o maior ou menor rigor da fixação ou interpretação de um texto, sou sempre intimamente surpreso e preso pela força da sinceridade de João Evangelista, e acredito no que ele nos diz na sua primeira epístola (1, 1-3): O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos apalparam acerca do Verbo da Vida - porque a Vida manifestou-se, e nós vimos e atestamos, e vos anunciamos a Vida eterna, que estava junto do Pai e nos foi manifestada - o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos igualmente a vós, para estardes, vós também, em comunhão connosco; e a comunhão que temos é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. E escrevemos isto para a nossa alegria ser completa. A minha fé cristã é a fé da alegria.  Foi-nos dada uma boa nova, que brilha no coração das nossas trevas: tomando, pelo seu Verbo  -  que está com Ele e é Ele, centro criador do mundo e seu motor - a nossa condição, Deus faz-se carne , sofre, morre e ressuscita. Para que assim nos aconteça também, no termo desta cosmogénese de que somos parte. A presença ubíqua do mal, que a nossa consciência humana angustiadamente sente como existência absurda,  encontra novo sentido, ao descobrirmos o sofrimento pela perspectiva do amor misericordioso de Deus. Madre Teresa de Calcutá  -  que, tal como as suas irmãs e seguidoras, as Missionárias da Caridade, dedicou a sua vida ao acompanhamento da morte dos mais pobres  -  escreveu : God is everywhere and in everything and without Him we cannot exist, A fé cristã é a fé da alegria no sofrimento, no nosso sofrimento identificado com o sacrifício de Cristo, até à morte e à ressurreição. Deus está em toda a parte e em todas as coisas, não podemos existir sem Ele, até no nosso sofrimento está presente. Infelizmente, a meu ver, este sinal redentor do sofrimento como promessa de ressurreição e vida também deu azo a correntes de tendência masoquista no cristianismo, aliás conducentes à prática de sacrifícios ou renúncias muitas vezes entendida como preço a pagar pela obtenção de especiais favores divinos, ou ainda à auto inflicção de castigos corporais pesados. Todavia, nem sempre aos crentes ocorria reflectir no sofrimento imposto a multidões humanas, quer por calamidades naturais, quer  -  e bem pior ainda  -  por descuido, desleixo, aborrecimento ou crueldade de outros homens. E bem podia ser que, pensando na obrigação de levar a terceiros o alívio ou a consolação possíveis, melhor entendessem o que o Senhor Deus significa quando diz que não quer o sacrifício mas a misericórdia. Sintopenso muito que a Igreja - de que Cristo é a cabeça, e os fiéis a presença visível do Verbo neste mundo - nem sempre cumpre como devia - e contra mim falo também - a sua missão de anunciar a boa nova aos pobres, estando mais com eles, e contra o poder maligno que gera ódio e guerra, injustiça e desespero. Porque, na verdade, nem eu, nem fiel algum, nem tampouco milagre há capaz de mudar, da noite para este dia nosso, o mal em bem, o sofrimento de miríades de seres humanos em súbito bem-estar. As obras de misericórdia e caridade, esses pequenos gestos que fazemos com boas intenções, servirão muitas vezes -  para os que menos razão de queixa tenham da vida, da vida tal como neste mundo se publicita a felicidade - servirão, digo, ou talvez sirvam, para consolar as nossas próprias almas aflitas... Quando, à noite, finalmente o silêncio nos envolve a escuridão e lhe dá luz, pensossinto que a minha circunstância não é só essa que, no dia a dia, faz parte de mim, mas outra, maior, muito maior ainda, comunhão universal, em todos os tempos e modos, da alegria que é dor, onde tudo é graça, desse Deus incarnado no sofrimento da nossa condição. Para o cristão, o mal não é desejável, nem sequer aceitável, combate-se. E combatê-lo é opor-lhe o bem, o bem que, pela graça de Deus, cada um de nós fizer, conforme os seus dons, talentos e possibilidades. O sofrimento que o mal nos causa, esse é redentor sempre que transformamos a negação de um bem, que ele traduz, em força positiva, em esperança. Todos conhecemos a história de Job, narrada no livro com esse nome, no Antigo Testamento: num ápice, perdera tudo, bens e família, ao ponto de poder dizer Saí nu do ventre de minha mãe e nu para ele voltarei...  Mas profetiza assim: Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia se levantará sobre a terra. Revestido da minha pele, estarei de pé; na minha carne verei a Deus. Eu mesmo O verei, meus olhos O hão-de contemplar. Dentro de mim suspira o meu coração.

 
Camilo Martins de Oliveira 



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Sábado, 11.10.14

Soulages.jpg

Pierre Soulages e a luz reflectida
 

‘Le geste véhicule généralement des états d’âme‘, Pierre Soulages, 2002
 

No livro ‘Pierre Soulages. Noir Lumière. Entretiens avec Françoise Jaunin.’ (2002) afirma-se Soulages (1919) como o pintor do negro. Mas o seu material primeiro é a luz - ‘Negra luz’. O negro de Soulages faz nascer o espaço e a poética da luz.

E pintar o que significa?

Para Soulages, pintar existe para dar sentido à vida daquele que cria e daquele que frui. Entende os seus quadros como objectos capazes de receber o que cada um está pronto a projectar. E só compreende o que procura no momento em que pinta. A sua pintura é assim, um espaço físico de questionamento e de meditação onde o sentido que lhe é atribuído pode ser simultaneamente feito e desfeito. Porque o objecto criado vive sobretudo do olhar que lhe é transferido. Soulages não cessa de afirmar que a pintura é o estado da ausência de palavras e que aquilo que se produz não pertence ao domínio da linguagem. O pintor é aquele que possui o verbo claro, concreto e preciso. E a pintura é o resultado da relação trina que se estabelece entre o sujeito que pinta, o objecto pintado e o sujeito que frui.

Soulages concebe ainda que a pintura não se consegue através de ideias preconcebidas – o acto de pintar é um exercício de liberdade. No entanto, o acto de pintar e a reflexão estão intimamente ligados. Há uma pulsão e um desejo que precedem a acção. Mas tudo se concretiza em simultâneo. É preciso saber estar sempre receptivo ao desconhecido. E a pintura de Soulages está totalmente enraizada na matéria e por isso não vive só no domínio da imaginação. A realidade da pintura ao ser concreta é bem mais rica do que todas as ficções que se fazem à priori acerca dela – ‘Je ne représent pas, je présent.’ (Pierre Soulages, 2002). Para Soulages, toda a pintura implica um gesto – porém o que é importante é a forma produzida e não o gesto em si. O gesto ao formar suscita o desejo de aprofundar, intensificar e de complexificar. Forma é o resultado de superfície, cor e matéria. E é feita de modo a produzir tensões, concentrações, acentuações, pontos fortes, dinamismo, peso, profundidade e luz.

Para Soulages, a pintura abstracta dá expressão e liberdade às proporções, cores, espaço e ritmos. Na sua pintura coexistem questões que controla com factores que desconhece. Alternados períodos de maturação lenta e períodos de revelação instantânea. As suas pinturas são como que músicas sem palavras cantadas. O aleatório e o acidental não interessam a Soulages, na medida em que o importante é o esforço da procura – e procura implica uma abertura ao desconhecido, ao inesperado e ao desconcertante.

‘J’aime les causses, les déserts, les arbres nus. J’aime ce d´pouillement qui nous ramène à l’essentiel.’, Soulages, 2002

Segundo Soulages, o negro é a cor das primeiras pinturas pré-históricas conhecidas. É uma cor violenta mas é aquela que encoraja a internalização, abrindo um campo mental próprio. Negro é gravidade, evidência e autonomia. È ao mesmo tempo cor e não cor. O negro contém em si a ausência da dimensão e da forma – a sua força concretiza-se na densidade e na textura. Inclui todas as outras cores, mas no entanto é a que está menos presente na natureza. Por isso, o negro tem o grau mais elevado de abstracção. Para Soulages, o negro tem a capacidade de aclarar as cores sombrias, de criar contrastes muito fortes e assim que a luz se reflecte no negro, ela transforma-o, conferindo-lhe uma qualidade emocional muito particular. O negro é usado na pintura de Soulages não no sentido da monocromia mas sim para pôr em evidência a luz reflectida e transformada pelas suas estrias e texturas. Soulages esclarece que a sua pintura propõe a contemplação, o silêncio, a concentração e a interioridade. 

Ana Ruepp


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