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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

UM ESTRANHO ENIGMA - capítulo I

          

 

          Saltou de leve e rolou sobre o ombro para absorver momento. Duas rodas, aumento da passada, balanço, corrida e subida da parede até onde dizia Luana I love you: Jaime pôs a sola do ténis em cheio no coração. Quando aterrou, puxando o cós das calças e ajustando os fundilhos, estava um homem. Não era Luana, nem a namorada do Xavier, nem a outra que o irritava com gritinhos, era uma de quem ele nem sabia o nome, uma que morava no Bairro, morena igual às outras, lá mais para cima, ao fundo da rua. Porque se lembrava dela agora? Dali até era capaz de se ver o rio, embora se pudesse ver o rio de todo o lado. Mas era para onde os obstáculos o levavam, se ele não estivesse a pensar nisso. Havia estreitos corrimãos guardando escadas e os passeios tinham desníveis inesperados, floreiras sem eira nem beira, muros em escala, grandes caixotes do lixo camarários. Saltou de novo, galgando um banco de pedra, elevou-se e atirou-se contra o muro, o mesmo onde há dois anos partira estupidamente o nariz. Os pulsos estavam agora tão fortes que nem sentiu o peso. Subiu, deixou-se cair no terraço de baixo, correu para a escada, sentou-se equilibrado no corrimão e deslizou. Era uma figura que usava pouco, parecia-lhe brincadeira pouco séria. Desceu a rua em quatro apoios. O focinho junto ao chão vê bem o alcatrão e a gravilha. Sai dessa forma de bicho com mais balanço, mais fome de ser homem. Experimentou um parafuso, há tempos que não errava um parafuso. Começava a desenhar o projeto de um duplo mortal carpado a partir de uma varanda, e esse plano, atravessando-se no espírito, fê-lo quase falhar a receção. O esquema era desmontar a manobra em elementos simples e treinar cada um deles. Pequenos passos. Pequenos saltos. Manter o gozo, controlar a precisão, manter o gozo. Mas agora ia de obstáculo em obstáculo, concentrado apenas no prazer de saltar e de correr e escutando tudo o que o movimento queria que ele fizesse. Submetia-se ao ancestral, curado há muito do medo de cair. Trepou o muro com facilidade, tal era a leveza que trazia. A corrida levou-o através de uma porta aberta, uma cozinha sem história, uma sala higiénica; deitou o rabo do olho para o sofá de onde uma mulher deitada emanava qualquer coisa de estátua jazente. Só muito depois de ter cumprido um salto limpo voando pela janela e aterrando perfeitamente ereto no quintal é que o Jaime suspeitou que havia sangue na cena. Mas aí já ia longe, de barreira em barreira, passada larga e exacta, esquecido de tudo o que não fosse o seu próprio avanço.

 

UM ESTRANHO ENIGMA | Folhetim de Verão CNC 2016
Ilustração © Nuno Saraiva [Direitos reservados]

UMA EUROPA NO MUNDO

  

E eis que o eixo franco-alemão reúne por direito próprio e a locomotiva alemã a todo o vapor, descola. E, ainda se disse (Delors) que a Europa era um objeto político não identificado? Pois eu não lhe concebo melhor clareza política e económica se assim se continuar.

 

                         Konrad Adenauer | Joseph Bech | Johan Willem Beyen
                         Winston Churchill | Alcide De Gasperi | Walter Hallstein
                         Sicco Mansholt | Jean Monnet | Robert Schuman
                         Paul-Henri Spaak | Altiero Spinelli

 

Estes os líderes que inspiraram a criação da União Europeia. Os fundadores acreditavam numa Europa em paz, unida e próspera. Da Europa dos pequenos passos (gradua lista) até à Europa dos cafés de Steiner, qual a realidade que se vive hoje afinal?

 

Recriar a Família Europeia, era, nomeadamente para Churchill a ideia da conjugação da ação política na Europa. Lembremos o Discurso de Winston Churchill em Zurique (19 de Setembro de 1946):

 

Desejo falar-vos, hoje, sobre a tragédia da Europa. Este nobre continente, englobando no seu todo as mais agradáveis e civilizadas regiões da terra, gozando de um clima temperado e equilibrado, é a terra natal de todas as raças originais do mundo ocidental. É a fonte da fé cristã e da ética cristã. É a origem da maior parte da cultura, das artes, da filosofia e da ciência, tanto dos antigos como dos modernos tempos. Se a Europa tivesse alguma vez ficado unida na partilha do seu património comum, não haveria limite à felicidade, à prosperidade e à glória dos seus trezentos ou quatrocentos milhões de habitantes. Mas foi da Europa que jorrou essa série de assustadoras quezílias nacionalistas, originadas pelas nações teutónicas, a que nós assistimos ainda neste século XX e no nosso tempo, arruinando a paz e frustrando as expectativas de toda a humanidade. E a que situação foi a Europa reduzida?

 

Churchill não propõe, apenas, um ideal para a possibilidade para a sua realização. Tem a consciência de que este empreendimento só pode ser realizado se existir entre os europeus, uma herança e futuro Comum, nessa espécie de Estados Unidos da Europa.

 

A Sociedade das Nações não falhou pelos seus princípios ou conceções. Ela falhou por causa dos governos desses dias recearem enfrentar os factos agindo enquanto havia tempo. Esse desastre não pode repetir-se!  Lembrou W. Churchill

 

Os Europeus tinham de recuperar a capacidade de viver juntos através das suas forças criadoras.

 

Winston Churchill conhecia bem as ideias para a Europa apresentadas durante o período entre as duas guerras, e desde essa altura que acreditava na possibilidade de uns “Estados Unidos da Europa”. Considerava uma boa ideia, sobretudo, porque implicava a ideia de união, contra os ódios. No entanto, já nesse tempo, Churchill tinha consciência do natural afastamento da Grã-Bretanha em relação ao projeto europeu: “Nós estamos com a Europa, mas sem fazermos parte dela. Temos interesses comuns, mas nós não queremos ser absorvidos: permaneço no seio do meu povo.

 

Todavia sentia a consciência de que Uma União Europeia sem o Reino Unido ficaria muito mais dominada pela dimensão política e económica da Alemanha, o que se refletiria num desequilíbrio evidente, dada a fragilidade e declínio económico da França. Ele tinha profundo entendimento acerca do modo de construir a Europa, a Europa a que eu gostaria de chamar a dos Laços de Pertença, da igualdade de direitos, da que respeita a justiça, da que só sabe comunicar a sua força em solidariedade, a Europa do Estado de Direito, este tão profundamente macaqueado que facilmente permitiu o pulular de políticas popularuchas, desintegradas da cultura de cidadania, desinteressadas dos interesses dos homens, demagogicamente colocadas nas secretas associações privadas ou nas arruadas sem eira que as conceba ou beira que as suporte.

 

Há quem refira, a propósito da democracia inglesa que, somar a uma família real na chefia do Estado mais de 800 lordes vitalícios que supervisionam a legislação dos eleitos do povo é, formalmente, pouco democrático e, no entanto, muito se refere e exalta a democracia inglesa e não se o faz em vão. Bem se sabe. Contudo na democracia inglesa, diga-se, que o poder é igualmente assegurado por pessoas que têm direito a ele apenas por terem nascido na família “certa”. Mas não nos cabe colocar em questão, neste momento, a vitalidade e a legitimidade desta democracia que tantas provas deu e dá, a não ser para, talvez não esquecer o quanto a mesma pode desunir dentro de si mesma o núcleo que a fez dourar ainda que sob os defeitos que se lhe apontaram.

 

Escutei na Universidade Nova alguns debates que desembocaram na chamada geopolítica da desunião. Lembrei há pouco tempo, numa reflexão sobre os desafios da Europa, o quanto nós somos os mesmos que construímos a Europa, esta Europa que não explicámos, nem ensinámos a sentir ou a lutar nela pelo bem comum. Nós somos os mesmos do tal lixo financeiro com que vamos aceitando cognomes de porcos países consoante amemos mais ou menos a submissão total a um materialismo estonteado. Nesta mão de destino com que querem impor o medo na alma dos povos ao seu justo direito de, em conjunto, serem felizes pelo progresso e pelos valores comuns, a esta mão de destino, há que a substituir por uma força que será aquela que, sobretudo, quando os países apartados estejam na discussão dos destinos, nunca desconheça o retorno comum às arribas da verdade da vida dos povos, e de um estar cultural na Europa também e enquanto desafio ao imenso caos do mundo.

 

Existe uma necessidade de ordem poética e de verdade interna à linguagem com que se identificam as realidades na Europa de hoje. Há que dar significado ao universo informe que nos desorienta e comanda. Há que derrubar de vez a falsíssima ideia que existe uma equivalência entre inspiração e libertação, tal como ainda há pouco li. Basta que esta “inspiração” que temos vivido assente na obediência cega ao impulso de uma despudorada escravidão para que se entenda que a mesma surge pelo desconhecimento entre o que se é e o que se sabe realmente. Entre o que se tem de rechaçar por incompatibilidade total e o que se tolera por circunstância do mundo tolerante.

 

Digamos que tudo o que conhecemos é um método aceite, e esse não deverá ser o consentido na Europa, naquela única que sempre reconhecerá sim, a sua dívida para com os clássicos.

 

Teresa Bracinha Vieira
Junho 2016

Reflexão sobre o Brexit (II)

 

   A maioria dos comentários e declarações, debates e interrogações que, acerca do BREXIT, por aí vamos ouvindo continua a soar de modo teatral e dramático: preferem-se ecos emocionais à serenidade da investigação analítica e da reflexão crítica. E a uma atitude mais ética. Poderei andar enganado - oxalá estivesse! - mas receio que a generalizada inquietação gerada pelo referendo britânico irá agravar as divisões existentes, emergentes e latentes, nas sociedades europeias, levando todas as partes a comportarem-se, ainda mais, em função dos seus próprios interesses, ou do que tomam como tal, e de opiniões mais decorrentes de medos e fobias do que de pensamento e diálogo. Porque todos vão sofrendo de surdez e cegueira, o que poderia ter sido uma oportunidade de esclarecimento sobre projetos políticos, económicos e sociais, tornou-se um teste de cruz, a que muitos terão respondido sem quiçá sequer saberem o necessário sobre a justeza e a justiça - ou a falta delas - de uma UE, reagindo apenas ao que, neste momento, sentem, com agrado ou desagrado, como vantagens ou inconvenientes de um regime de vida com outros. Joga-se o destino de milhões de pessoas pela contagem de respostas a uma pergunta simplista, porque seria bem mais trabalhoso ir-se explicando os princípios e mecanismos pelos quais nos vamos governando, e tentar que, muito democraticamente, possamos cada vez mais, em comunidade, governarmo-nos do que sermos só governados...

 

   Creio que um olhar atento e analítico aos resultados apurados descobrirá a realidade de que falo.

   Vejamos:

  1.   No conjunto dos votantes britânicos, 17,4 milhões (51,9%) foram pelo OUT, 16,1 (48,1%) pelo IN.

  2.   53,4% dos ingleses e 52,5% dos galeses OUT, 62% dos escoceses e 55,8% dos norte irlandeses IN.

  3.   Tal distribuição geográfica vai-se esclarecendo, pois surgem mais óbvias as razões da opção das gentes de Gibraltar (95% IN), da City (75,3% IN), ambas ultrapassando o IN de Edimburgo, na Escócia (74%), ou Belfast, na Irlanda do Norte. Os motivos são, compreensivelmente, particulares. Como se vê também em Londres, maioritariamente IN.

  4.   Isto até nem é uma história de esquerda ou direita, como o "critério" futebolístico da gente lusitana se compraz em imaginar o mundo... Porque 32% dos eleitores Labour votaram OUT, tal como apenas 46% dos Conservative disseram Remain in...

  5.   Maioritariamente, reformados, desempregados, fregueses da assistência social, votaram OUT. Não terei, penso de explicar porquê.

  6.   Claro fica que a gente com trabalho, mesmo a tempo parcial, tal como os "imigrantes"  já com direitos políticos (independentemente de suas raças ou credos) votaram IN.

  7.   Também sabemos que por IN votaram 64% dos titulares de um diploma de ensino superior, 73% dos menores de 25 anos, 81% dos estudantes em geral... Parece que o futuro quer IN.

 

   Estes dados de facto falam por si, dizem-nos muito sobre a realidade, não só britânica, mas europeia: como escrevi em reflexão anterior - leiam-se cuidadosamente as entrelinhas - a Europa está prisioneira de interesses particulares. Claro que a City, praça financeira, vota IN e, com os outros mercados financeiros, vê dinheirinho a fugir e se assusta com o resultado OUT. Tal como evidente é que a pequena e média burguesia e o operariado, já entradotes na idade e desconfiados do cumprimento da recompensa prometida, ao fim de muitos anos de labuta, desejem o que lhes parece mais obviamente fácil de conseguir: a barragem ao que chega de fora. Numa sociedade que se foi descultivando e materializando, a ganância e a reivindicação vão comandando tudo, ou quase. Debatemo-nos entre pretensos imperativos do "mercado" e outras "exigências". Apaga-se o diálogo, pior, a possibilidade dele. Não olhamos para nós, nossos problemas e esforços necessários, mas procuramos bodes expiatórios.

  

   Nem sequer olhamos para a realidade, nossa circunstância. Todavia, é nela que estamos, com as nossas imperfeições. O "ocidente" também é responsável pela guerras no mundo islâmico, pelas migrações e refugiados, pela chocante desigualdade na distribuição de recursos, bens e seus rendimentos, por todos quantos acolheu para "rendibilidade" das suas economias, já que os "de fora" eram trabalho mais "em conta" do que os eleitores domésticos, cujos sonhos era necessário alimentar para conseguir os votos desejáveis. Este referendo britânico é mais um exemplo de cobardia política. E os outros que por aí se vão reclamando, à "direita" ou à "esquerda", são de um oportunismo "político" apenas comparável à imagem de uma avestruz que esconde a cabeça, porque essa olha e pensa, num buraco de areia.

 

   Isto dito, não se dramatize o BREXIT. Há, como escrevi, enquadramentos jurídicos, políticos e diplomáticos, já ensaiados, para pôr o que sobrar do RU, em lugar próprio. O que nos deve ocupar será o equacionamento renovado da UE, em equidade, justiça e paz. 

    

Camilo Martins de Oliveira

 

LONDON LETTERS

 

  

 

The New Atlantic Revolution, 2016

 

What a week! Britain vota a saída da Europe Union, perde o Prime Minister, o Chancellor of Exchequer quase desaparece, a Most Loyal Opposition planeia despedir o líder, Lord Hill, o comissário em Brussels, exonera-se a si mesmo, Mr Toni Blair está de novo nas televisões nos interregnos da vida na sua fortaleza

de Oxfordshire e Monsieur Jean-Claude Juncker ameaça maltratar o Free UK. Woah! Mais no zapping: os ingleses sonham alto com St George, os escoceses idealizam novo referendo sobre a autonomia mas talvez sem St Andrew, os irlandeses temem o retorno dos troubles e os galeses rejeitam a integração política por St David. Ainda: milhões de pessoas assinam petição para re-run the EU eureferendum! Confesso-me cética face aos ‘cristãos novos’ da democracia de Westminster. — Chérie. La nuit porte conseil. O choque da Brexit no sistema global ainda vai nos primeiros passos. RH David Cameron discursa na House of Commons. Berlin e Paris acordam um processo que arrisca a implosão da EU, quando a libra e o euro estão sob fogo dos mercados. Este será a rational long good-bye. — Well! The name of the game is cricket. Se o voto do Old Liberalism agita as posições do New Liberalism, também o New Labour ameaça o Old Labour. Desde ontem que o Team Corbyn assiste à demissão dos membros do Shadow Cabinet à razão mediática de um por hora. Abrem os Wimbledon Championships 2016. RHs Boris Johnson e Teresa May avançam para a Tory crown. Lá longe, o Iraqi Army informa da conquista final ao Isis da cidade de Fallujah. Nos US, uma sondagem nacional fotografa a White House Race. Mrs Hillary R Clinton lidera a competição com 51% face a 39% para Mr Donald J Trump.

 

 

A glorious English Summer. Sunny and with fresh showers to ease up the hot environment at Central London. A volátil metereologia denota o ambiente de incerteza política que se abate sobre o reino unido das four nations com o histórico voto referendário de 23rd June: os Britons dizem não à permanência na European Union. O Project Fear fracassa ao toque do bom humor. Também o name & shame da diabolização dos Brexitters falha, mas deixa feridas para sarar. Há no ar um quê de restituição moral do que é essencial na ordem do destino. Garanto-vos isto: pelo rosto dos que passam, julgo saber se votaram In or Out. Os primeiros estão jubilantes enquanto os segundos andam entre a tristeza e a fúria. Políticos profissionais há nas televisões que ousam pensar e se atrevem a dizer dos 1001 modos para reverter o resultado. A campanha dura demasiado e o voto espanta as elites! As Sunday Politics agitam até Westminster District. O transeunte acidental julgaria haver a Parliament Sitting. Afinal, apenas uma nova tentativa de golpe no Labour Party para derrubar o eurorelutante RH Jeremy Corbyn. Já os analistas exploram as clivagens de idade, região, literacia e até qual o dedo no gatilho. Na bissetriz, um denominador comum há a reter: a blue collar democratic election. O Labourism descobre agora que não representa o povo operário, com este a votar em sentido contrário às suas indicações, cansado de ouvir que a disputa pelos recursos nas comunidades locais is good for you, worker. A compaixão seletiva algures assombra as boas almas. Fora de London, após a razia escocesa, temo pelos Lab MPs com os empregos em risco…

 

 

Há cinco momentos do filme da eurocampanha que se colam ao olhar. Primeiro, os inenarráveis argumentos do PM em torno do EU deal e da derrota que blind self-serving 27 leaders lhe impõem, em Brussels, nas noites de February e as fear flags saídas dos Numbers 10 e 11 com orquestração global. Segundo, a chamada Battle of Thames, quando umas quantas pequenas traineiras com improvisados letreiros da Brexit são quase desbaratadas por um iate de luxo com potentíssimas colunas de som que estremecem até o Palace of Westminster e um milionário rockeiro a gritar impropérios ao líder do Ukip - se  dúvidas havia sobre o sentido do voto das gentes ligadas ao setor primário e de quantos aquilo vêem e escutam, ali logo se liquidificam, mesmo se contra um Mr Nigel Farage que moverá muitos Outers para a cruzinha no Bremain. Terceiro, o reluctant European Lab Leader - surdo, cego e mudo ao que o eleitorado working class lhe grita nos arredores de London, acerca dos efeitos demográficos da emigração massiva no esmagamento dos salários e no emprego, na habitação, hospitais, transportes ou escolas. Quarto, o assassinato de RH Jeremy Cox MP e a miscelânea de choque, horror e oportunismo assim tristemente gerada no Yorkshire. Quinto, a fechar o último dos veros debates televisivos, a incrível explosão de aplausos na Wembley Arena quando Bojo simplesmente diz “Stand Up. For Democracy in our Country and Liberty across Europe.” O mesmo RH Boris Johnson MP que hoje acalma as hostes nas páginas do Daily Telegraph, com a positividade bretã.

 

 

As conversas e a busca de sã reforma na Europe que sirva às partes começa. Não quando irados eurocratas dizem, mas quando o novo consenso dos main global political powers decida. Meanwhile the EU regrouping... Como o prometido é devido, consciente dos hardest works ahead, registo o meu voto de admiração a The Few and, The Brave. A história ensina sobre Athens, Rome e Jerusalem, tal qual a vida vem demonstrando que there will be always London. No bat-and-ball game há muitas triangulações a construir, mas a bola está já em hábeis mãos. — Well! By the voice of Hamlet writes Master Will on the fortune’s wheel: There's a Divinity that shapes our ends, / Rough-hew them how we will.

 

 

St James, 27th June
Very sincerely yours,

V.

 

A VIDA DOS LIVROS

 


De 27 de junho a 3 de julho de 2016.

 

«Homens Livres» foi uma revista publicada em 1923, apenas com dois números, que uniu personalidades de horizontes políticos diferentes dispondo-se hoje de uma edição de 1978 da autoria de João Medina, com o título «O Pelicano e a Seara» (Edições António Ramos).

 

 

 

UMA EXPERIÊNCIA SINGULAR

Quando falamos de cultura portuguesa, invoca-se sobretudo o conteúdo literário e artístico, mas cada vez mais é necessário lembrar também a cultura científica, como fazia questão sempre de lembrar José Mariano Gago, que compreendeu melhor que ninguém essa importância. Urge não esquecer, afinal, Pedro Nunes, Garcia de Orta ou D. João de Castro – e tudo o que representam numa cultura aberta e relevante. O tema leva-nos a recordar dois textos de 1923 sobre o tema. Numa experiência fugaz, animada por António Sérgio e Afonso Lopes Vieira, a que se associaram diversos elementos dos grupos da «Seara Nova» e do Integralismo Lusitano, foram publicados dois números da revista «Homens Livres», que tinha como objetivo fundamental favorecer o diálogo intelectual de pessoas muito diferentes, que Sérgio considerava poderem criar um «modus vivendi» pluralista e civilizado – forma de prevenir as tentações totalitárias que se perfilavam no horizonte. «Homens Livres» tinha como subtítulo «Livres da Finança & dos Partidos» e referia uma epígrafe de Camões - «Livres e seguros»… Do que se tratava, na palavra do autor dos «Ensaios», era de «utilizar o que está morto para a vitalidade do que está vivo, - eis o papel da Inteligência; marcar ao que está vivo o ideal da sua vida, - eis o da Razão». A experiência parecia surpreendente e paradoxal, talvez prematura, mas o certo é que hoje se compreende como alguns intelectuais se apercebiam da necessidade de fazer funcionar uma sociedade política com a colaboração de influências diferentes, que pudessem evitar as soluções de força de carácter excecional, que viriam a ocorrer nos anos trinta e a culminar na Guerra. Se nos lembrarmos do percurso de António Sérgio, facilmente percebemos que em vários momentos da sua vida (até à candidatura de Humberto Delgado, em 1958) procurou que a racionalidade democrática se impusesse, como nos países mais avançados. À distância, sabemos que seria sempre difícil contrariar uma tendência dramática de fragmentação e de incapacidade para regenerar as instituições republicanas. No entanto, percebemos haver uma tentativa séria, mas impraticável, para mudar o curso dos acontecimentos.

 

«HOMENS LIVRES»

António Sérgio, António Sardinha, Raul Proença, Jaime Cortesão, Simões Raposo, Aquilino Ribeiro, Afonso Lopes Vieira, Augusto da Costa, Reynaldo dos Santos, Bettencourt Rodrigues, Celestino da Costa, Ezequiel de Campos, Quirino de Jesus e Castelo Branco Chaves são os autores dos textos publicados, dispondo-se hoje de uma edição de 1978 da autoria de João Medina, «O Pelicano e a Seara» (Edições António Ramos), com a totalidade do conteúdo das revistas. O facto de nos referirmos a essa experiência deve-se, porém, a dois curiosos textos que merecem a nossa atenção por tratarem da necessidade da cultura portuguesa dar mais atenção à investigação científica e ao reconhecimento do mérito dos estudiosos. Muitos anos passaram, o mundo mudou radicalmente, a cultura científica em Portugal conheceu uma evolução de grande relevância, mas o tema merece ser recordado, a partir dos contributos de Reynaldo dos Santos e de Celestino da Costa. Afinal, esses textos, aparentemente marginais, na iniciativa dos «Homens Livres» têm a ver com o essencial da atitude de António Sérgio, na sua preocupação de sempre no sentido de favorecer a «fixação» de inteligências e de recursos e de colocar Portugal ao ritmo da civilização – numa linha de fidelidade ao pensamento e ao magistério de Almeida Garrett e Alexandre Herculano, bem como à plêiade que acompanhou Antero de Quental nas Conferências do Casino. Lembremo-nos de que da fugaz passagem de Sérgio pelo Ministério da Instrução Pública (dois meses) resultou a criação do Instituto Português de Oncologia e o projeto da Junta Propulsora de Estudos, visando a criação de bolsas no estrangeiro para os nossos investigadores…

 

A IMPORTÂNCIA DA CIÊNCIA

Reynaldo dos Santos, médico e historiador de Arte, intitula o seu pequeno texto «Portugal Hostil aos Portugueses de mérito» e refere, na tradição secular do Hospital de Todos-os-Santos, o «impulso inteligente e orientador de Manuel Constâncio, no reinado de D. Maria I», que permitiu a criação da única «Escola seguida que houve em Portugal com tradição, com prestígio e com discípulos». Trata-se, porém, de um caso excecional. Ao longo da História, o clínico queixava-se do facto de figuras fundamentais como Garcia de Orta, Rodrigo de Castro e Amato Lusitano terem tido pouca influência entre nós. Garcia de Orta viveu na Índia e contou com um estrangeiro, Charles de l’Ecluse, para divulgar o seu contributo científico. Amato foi obrigado a sair de Portugal, exercendo clinica em Antuérpia e sendo reconhecido em Ferrara, Ancona, Roma, Florença, Salamanca e Salónica – só sendo tardiamente conhecido em Portugal. Rodrigo de Castro, também judeu, estudou em Salamanca e Siguenza, criou a Ginecologia na Europa e ainda hoje é pouco lembrado. Ainda Zacuto Lusitano foi conhecido mais depressa na Holanda e no resto da Europa do que entre nós - «tendo lá escrito e lá se tendo celebrizado, longe da “dulcíssima pátria”, como ele chamava à que o não soubera guardar». Por fim, nas referências de Reynaldo, está Ribeiro Sanches, conselheiro da Catarina da Rússia, com um prestígio de que só tardiamente nos vangloriámos – formado em Coimbra, influente na reforma de Pombal, só muito tardiamente foi recordado entre nós, quando em toda a Europa era elogiado. «Nenhum deles é filho duma escola, duma educação ou duma tradição portuguesa; alguns seguem a da sua raça estudiosa e culta, que dera grandes cosmógrafos e médicos; mas todos se perdem no cosmopolitismo a que a pátria os forçou de vez, com a sua habitual ignorância dos valores, sem voltarem para criar entre nós essa influência fecundante que perpetuaria o seu génio através duma Escola ou duma geração». São essas ideias de escola, de continuidade, de abertura e de cooperação internacional que Reynaldo dos Santos enaltece. E Celestino da Costa, na mesma linha de preocupações, invoca o que Ramon y Cajal chama de «enquistamento espiritual da Península» e António Sérgio designa como «isolamento», referindo a expulsão dos judeus, que «privou a pátria de uma elite de grandes aptidões científicas» bem como as perseguições a «humanistas ilustres», acrescentando: «não nos faltam as aptidões científicas: faltam-nos as instituições que permitam o seu desenvolvimento, indispensáveis para que o culto da ciência não seja em Portugal, obra do acaso, sem continuidade nem influência (…). Toda a nossa economia, a agricultura, a indústria, a viação, a higiene pública, o comércio precisam de direção científica, de homens de ciência autênticos que criem e inventem, e não dos que, denominando-se assim, não passam de diplomados mais ou menos brilhantes, mas infecundos». Daí a necessidade de uma elite científica capaz de orientar a economia, o que pressupõe um ensino de qualidade e a capacidade de ver longe e largo.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

Reflexão sobre o Brexit

 

 

   O Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, por maioria simples dos votos dos seus cidadãos, optou por renunciar ao estatuto de membro da União Europeia. Logo se assustaram e agitaram os especuladores financeiros que povoam os chamados mercados, e se entusiasmaram - e desataram a exigir (verbo muito conjugado pelos tempos que correm) referendos também nos seus países - partidos e movimentos ditos populistas, uns emotivos que, à direita ou à esquerda, aproveitam e fomentam descontentamentos, desilusões, aspirações e sonhos populares, mais ou menos legítimos, para acicatarem reivindicações de classe ou nacionalismos. Neste caso, os bodes expiatórios que eles reclamam são os imigrados, aos quais se atribui a culpa de salários mais baixos, segurança social mais cara e aleatória, desemprego crescente, etc. O dinheiro que aqui está em jogo não é o capital nómada dos financeiros abonados, mas o do salário e da poupança de operários e pequeno-burgueses. Tudo isso teria, e talvez possa ter, soluções adequadas, desde que haja vontade e coragem política - e o necessário sentido de justiça - para se empreenderem as reformas indispensáveis. Por mim, penso que, se houver mais exits, tanto pior - sobretudo se começarem a surgir iniciativas ressentidas e loucas como as dos anos 20 e 30 do século passado - mas este agora decidido não é drama nenhum.

Explico porquê.

 

   Prevê-se que o processo de negociação da saída possa levar até dois anos, dado o estatuto já especial de que o Reino Unido beneficia, e considerando o necessário rigor para se estabelecerem contrapartidas equitativas. Vai ser preciso paciência e muito trabalho, mas já dispomos de outros exemplos de associação à U.E., como o dos países da AELC (EFTA) e, mais especialmente, da Noruega e da Suíça, para não falar da Gronelândia que, permanecendo dinamarquesa, se destacou da UE, com o estatuto de território ultramarino. Há terreno já pisado, o regresso do R.U. à "sua" EFTA surpreende-me menos do que tê-la deixado em 1973, para integrar, na altura, a CEE. Recordo que, estando a EFTA no EEE (espaço económico europeu) todos os seus membros partilham o mercado único, podendo todavia negociar, separadamente, com a UE, acordos sobre a participação, ou não, no orçamento europeu (caso da Noruega), no espaço Schengen (caso da Suíça), e outras matérias (os britânicos, por exemplo, poderão interessar-se por meios de continuar o acesso dos seus estudantes ao programa Erasmo, ou do RU a outros programas comunitários).

 

   Afinal, creio eu, os problemas decorrentes do BREXIT - o qual, já que o resultado de um referendo não é, por si, juridicamente vinculativo, deverá, para produzir efeitos, ser devidamente notificado pelo Governo de Sua Majestade à cimeira europeia de 28 e 29 deste mês - afetarão muito mais os próprios desertores do que o conjunto da União. Por exemplo, se já a possível independência da Escócia (cuja população, maioritariamente, quer permanecer na UE) é uma grande dor de cabeça, o que dizer da hipótese da Irlanda do Norte (bastião protestante inserto na ilha maioritariamente ocupada pela República do Eire, a Irlanda católica, membro da União) poder seguir-lhe o exemplo? E que poderá acontecer à City, centro financeiro da Europa, apesar de o RU não integrar a zona euro, agora que mesmo da União estará fora?

 

   É certo que o RU é a maior potência militar europeia, aquela que com mais efetivos contribui para a defesa comum. Mas não depende esta mais da NATO, do que propriamente de um qualquer comissário europeu para a defesa? Ou alguém de bom senso duvidará de que o compromisso dos britânicos com a defesa da Europa - ou com a própria NATO - irá esmorecer só porque já não são cidadãos da UE, mas apenas seus associados?

 

   A tarefa dos governos e das instituições europeias, para além da negociação do BREXIT, acima referida, não pode, nem deve, concentrar-se na relação com o RU, na perda ou na saudade dele. Em princípio, a Europa seria maior e mais forte com os britânicos a 100% nela - muito embora eles sempre tenham deixado entender que o abandono de uma certa ideia de insularidade is not our cup of tea - mas também não morre como projeto, por deixar de contar, no seu âmago, com uma potência que tampouco lá estava no princípio. Atualmente, os "europeus" devem considerar os que ficam, no seu conjunto e em igualdade de estatuto e oportunidades, pelo que me desagradou a notícia da reunião de emergência dos seis Estados Membros fundadores. Não há duas UE, há só uma, e esta é uma União em construção a 27. Precisa de um projeto político comum e democrático, cujo cumprimento será necessariamente árduo e progressivo, nunca um exercício a dois, três ou seis, nem a uma velocidade para uns e a outra para outros.

Sejamos sérios. 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

A cidade é processo de transformação contínuo

A FORÇA DO ATO CRIADOR
por Ana Ruepp

 

 

"A cidade é uma espécie de movimento perpétuo e de infinitas corporizações, impossíveis de determinar, e que é um tocar, um cruzar, um sobrepor, um deslocar, um recusar de uma espécie de exercício permanente desses olhares."
Pedro Cabrita Reis, 2001

 

A existência de um lugar não depende somente das suas condições reais, mas acima de tudo varia de acordo com a atribuição humana de significados e interpretações. O homem cria o lugar, ocupa-o. Esta criação não é linear no tempo, pode sobrepor-se, substituir-se conjugar, fragmentar – movimento perpétuo. Os objetos atuais do lugar, constituem-no, são a sua realidade. A pureza do lugar ocupado pelo passado é inatingível, mas reconhecível pela simbólica atribuída, pela ausência demarcada.

 

‘Esta cidade era tão famosa nos últimos tempos, que da sua fama se criou um provérbio: Qui no ha visto Lisbona no ha visto cosaboa.’

 

No tempo, a cidade é processo de transformação contínuo. Ilustração real deste aspeto é a existência de Lisboa, diversa dos nossos dias, anterior ao Terramoto de 1755.

 

Desde quinhentos, D. Manuel II marcou estrategicamente uma ação sobre a cidade, através da marcação territorial de centros estruturantes - praças além-mar. Esses centros constituem-se Rossios albergantes de equipamentos essenciais e importantes para a vivência de uma cidade. Do Rossio partiam eixos de intensa atividade comercial.

 

Em Lisboa, o período manuelino permitiu reestruturação urbana. A reestruturação constitui-se na divisão territorial entre alta e baixa urbana. A alta ligava-se ao poder militar ou eclesiástico. A baixa, por sua vez, estabelecia-se sob domínio do poder régio e municipal - esta parte do território em Lisboa assiste a transformações significativas. Essas transformações dizem respeito à implantação da plataforma do Terreiro do Paço Real, ao longo do Tejo e à introdução do Rossio, associado a equipamento central urbano (Hospital de Todos-os-Santos). Esta reestruturação da cidade de Lisboa contribuiu, em grande medida, para a consolidação do seu centro, como espaço modelador e controlador da atividade mais determinante - o comércio.

 

Em meados do séc. XVIII, antes de 1755 Lisboa afirmava-se nesta centralidade. A descrição de Lisboa setecentista, que se segue, elabora-se segundo vários autores germânicos:

 

  • Situação: a cidade surge, num sítio privilegiado, debruçada a montante do rio Tejo, erguida sobre sucessivas colinas. Cinco dessas colinas estão cercadas por uma muralha de 39 portas (Santo Antão, São Vicente, Santa Catarina, etc.). Dessas cinco colinas, uma contem o Castelo de São Jorge - lugar gerador da cidade. Nos vales situados entre as colinas localizam-se as principais artérias da cidade;

 

  • Arruamentos e Praças: Os arruamentos de Lisboa, de então, são bastantes estreitos, porém a localização do seu traçado permite vistas sobre o rio e o descampado da outra margem. As praças são de grande amplitude. Entre o Paço da Ribeira e a Alfândega situa-se a maior praça da cidade. Importante, como já foi referido, é, igualmente, o Rossio rodeado por colinas, local de realização de mercado. O Terreiro do Paço é 'a mais bela de todas as praças';

 

  • Edificado: considera-se Lisboa, uma cidade muito dilatada e populosa e as suas edificações são magnificentes e esplendorosas. Destacam-se o Paço Real, como sendo um edifício quadrado, de quatro pisos, quatro pavilhões, dois torreões, cobertura abobadada; a Capela Real, contígua a um dos lados do Palácio Real; o Palácio do Corpo Santo, com quatro alas distintas, ornadas de torres, com galeria para passeio; o Novo Teatro ou Casa da Ópera, de Guarini Guarino; o grande mercado; as casas da Alfândega as igrejas (Dominicanos, Santo António, congregação dos Frades Descalços, Jesuítas, Madredeus, Nossa Senhora de Gratia, etc.); os conventos (S. Bento); a Confraria da Misericórdia; o Hospital de Todos os Santos; a Sé, ao erguer-se na vertente de uma colina.

 

A cidade, desde então, coordena diferentes ocupações e organizações territoriais (espontâneas e planeadas - Bairro Alto). O cataclismo natural de 1755 trouxe uma oportunidade planeada, aglutinadora e globalizante para o território real. Com ele iniciou-se a cidade do traçado não só físico mas também social. Testemunha da Lisboa, do passado, são as simbologias atribuídas aos lugares - a toponímia que fica e aquela que permanece.

 

Ana Ruepp

  

FOLHETIM :: UM ESTRANHO ENIGMA

 

 

 

O Centro Nacional de Cultura propõe-lhe o folhetim de Verão

«Um Estranho Enigma…»

 

Semanalmente, às sextas-feiras, entre 1 de julho e 2 de setembro, será publicado no blogue e no facebook do CNC um capítulo de uma história contada a dez mãos por escritores de língua portuguesa cuja identidade desconhecem entre si e que o leitor também não vai conhecer.

 

Aceitaram participar neste “cadavre exquis” os escritores Afonso Cruz, Ana Margarida Carvalho, António Carlos Cortez, Djaimilia Pereira de Almeida, José Jorge Letria, Luísa Costa Gomes, Manuel Alberto Valente, Maria do Rosário Pedreira, Nuno Júdice e Patrícia Portela.

 

Os textos serão ilustrados por Nuno Saraiva.

É proibida a reprodução das ilustrações sem autorização expressa. Direitos reservados!

 

Esteja atento em

 

  http://e-cultura.blogs.sapo.pt/

 

  https://www.facebook.com/centronacionaldecultura

 

 

JUAN MANUEL ROCA II


Poeta, critico, ensaista, um dos mais importantes colunistas do nosso tempo, recebeu o Poeta colombiano Roca, inúmeros prémios, e a propósito dos mesmos escutei em Barcelona que Roca se lhes referia dizendo em voz alta o seu próprio poema


Arte do Tempo

O tempo permanece

Apanhado entre os livros.

Por este prodigio de apreensão,

Heraclito continua a banhar-se

No mesmo rio,

Na mesma página.

Tu continuarás para sempre

Nua no meu poema.

Enfim, Roca exorciza como resistência espiritual, o tempo que os homens lhe dão em possíveis tempos de o medir, mas nunca se asila numa tranquilidade. E Roca entende eventualmente a imensidão de prémios como se duvidasse e aceitasse a distância, ambas aldeias perdidas que mudam a canção para visitar outro país. Assim entendi.

Nuno Júdice referindo-se a Roca, afirma que a sua literatura quando fala do individuo fala sempre de ninguém e ninguém é o personagem eterno da literatura. Diz o senhor Nabokov que a literatura não nasceu quando uma criança de um vale de Neandertal chegou a gritar: Um lobo! Um lobo!, e atrás dele, as quatro patas no ar, um lobo cinzento brandia a sua língua estralejante. Diz, melhor, que a literatura nasceu quando uma criança de um vale do Neandertal chegou a gritar: Um lobo! Um lobo!, e atrás dela não vinha ninguém.

Desde então, ninguém é um personagem eterno, um fantasma nos vales dos poemas de Roca. Ninguém é o que falta, o que foi e o que será. Deste ninguém surge a obra, diria. Surge de novo Nabokov, reflectindo que entre o lobo da floresta e o da história existe um meio-termo e por esse prisma habita a arte da literatura.

Um dia jantava eu num restaurante virado ao mar em plena noite de verão. Entre mim e o mar apenas a silhueta de uma tocadora de harpa. A música untada de infinito regressou-me a Bogotá nas ruas de Paris que Juan Manuel Roca já habitava, e naquela hora em que me deslizavam sonhos


ORAClÓN AL SEÑOR DE LA DUDA
 

Más que fe, dame un equipaje de dudas.

Ellas son mi puente, mi afluente, mi oleaje.

Venga a nos el Reino de lo Incierto.

Mantén en vilo mis verdades,

Concebidas, muertas y sepultadas

En los telares del olvido. Llévame

Por las arenas movedizas,

Dame a comer el pan de la derrota,

A beber el agua del silencio.

No hay timos ni trucajes:

Estoy herido y soy mi camillero.

Sean las certezas palacios de nieve

A los que alguien asedia con el fuego.

Señor de la duda, si existieras,

Escucha la oración del descreído

 
Surgiu-me ainda aquela pequenina bíblia:
 

Lugar de aparições (Inicio)

          A mulher que amei converteu-se
          em fantasma.
          Eu sou o lugar das aparições
.

                    JUAN JOSÉ ARREOLA


A grande reflexão sobre a liberdade, caminho de vida de Roca, leva o poeta Germán Espinosa a dizer que Roca tinha em si a primavera perpétua de todo o criador. E nunca lhe foi estranho Rimbaud, entre outros, o Romantismo Alemão, a sua capacidade imensurável para escrever liricamente a realidade. Curioso que a sua única novela publicada em 2003 se intitula “Esa maldita costumbre de morir”

 

Repito que num livro de Juan Manuel Roca, a claridade tem este rosto

 

El silencio es una lengua muerta. Sólo algunos pocos lo conocen.

 

E quando falo de ti, falo sempre do lado de cá do nascimento: só a sentir.



Teresa Bracinha Vieira
Junho 2016

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Sadiq Khan

 

     Minha Princesa de mim:
 

   Ter-te-á passado despercebido o ligeiro sururu que, há poucas semanas, se agitou em volta de umas declarações do comissário europeu Pierre Moscovici acerca da eleição, para Mayor de Londres, do muçulmano de origem paquistanesa Sadiq Khan. O comissário francês disse então - naquele momento e no contexto do escândalo que tal decisão eleitoral produziu em certos sectores da sociedade europeia - que era sua convicção ser Europa uma comunidade de valores, um grande desígnio e um grande destino cultural. E que a Europa não é cristã, mesmo sendo verdade que no nosso continente haja uma maioria da população de religião ou de cultura cristãs. Não acredito nas raízes cristãs da Europa - ou talvez se possa falar de raízes, mas creio que a Europa é una e diversa. Deixa-me confessar-te, Princesa de mim, que me é cada vez mais difícil entender o porquê das confusões que número crescente de declarações dos nossos políticos vão lançando no "mercado". É ambiguidade favorável ao "marketing" político? Ou excessivo incómodo de pedra no sapato? Neste caso, o senhor comissário europeu, além de vir queixar-se de vários comentários "odiosos", veio defender-se das críticas de "mon ami Renaud Girard": Devo explicar-me e dizer-lhe que não sou um "tecnocrata da sociedade de consumo, para quem o homem é um ser exclusivamente económico". Pelo contrário, tenho o maior respeito pelas religiões e pela sua contribuição espiritual. Tenho horror a qualquer revisionismo histórico. Não quis ofender nenhuma consciência. Etc.. E, logo a seguir, volta a lançar confusão, quiçá por essa "fâcheuse" propensão dos nossos políticos a tudo misturar, já que diferenciar torna as coisas perigosamente claras demais. Assim, do mesmo modo que uma simpática senhora  --  falando duns milagres de Fátima, fantasia "religiosa" à qual, pessoalmente, não dou qualquer crédito  --  pretendia que, "depois da conversão da Rússia, conseguida pelos penitentes da Cova da Iria, a bandeira daquela nação passou a incluir o azul de Nossa Senhora"... (ao que eu, intimamente retorqui que me parecia também a cor do avental maçónico)... o nosso comissário, justificando a afirmação de que o projeto europeu não teve raízes religiosas, mas tão só políticas, diz que, contrariamente ao que por vezes leio, as doze estrelas da bandeira europeia não simbolizam a coroa da Virgem Maria! Pois eu creio que talvez sim ou talvez não, sendo todavia facto que os fundadores que as escolheram representavam, na altura, apenas seis países, mas optaram por doze estrelas, provavelmente por ser esse o número bíblico da perfeição, totalidade, vocação universal, e que o francês Robert Schuman - cujo processo de beatificação decorre no Vaticano - o  propôs, lembrado do número de estrelas que coroam a Virgem parturiente do Redentor que, contra o Dragão maligno, trará o mundo novo, segundo o livro do Apocalipse. Quero eu dizer, com tudo isto, que me parece tão mau inventar certas "histórias" como negar certos factos. E é facto que a cultura europeia está prenhe de valores e símbolos cristãos, nem sempre reconhecidos ou respeitados, ou ainda, muitas vezes, abusivamente agitados. Mas do facto de Schuman ter invocado aquelas doze estrelas, por cultura e fé pessoal, e por saber o que o doze simboliza, não decorre, nem se conclua, que os "pais da Europa", na sua forma de Comunidades Europeias, com a CECA, primeiro, e o Tratado de Roma em 1957, quisessem atribuir-lhe qualquer origem religiosa. É bem sabido que entre eles se contavam agnósticos (ainda que o outro francês, Jean Monnet, se tenha finalmente casado com Sílvia, mãe das suas duas filhas, na catedral de Lourdes) e defensores da laicidade das organizações políticas, e a constituição das CE é um ato político. Tal, porém, não retira à Europa, enquanto reconhecida realidade cultural e moral, o carácter original de cristandade. O próprio Moscovici reconhece que, com certeza, a fé cristã foi um fator de unificação da Europa. Dito isto, eu até concordo com quase tudo o que o comissário europeu afirma no "esclarecimento" que publicou em Le Figaro de 12 de maio p.p., muito embora lamente o facciosismo latente em trechos como: O projeto dos pais fundadores - qui étaient farouchement attachés à la laïcité - nunca foi criar um clube cristão ou religioso, mas acabar com o nacionalismo. Na verdade, não me parece necessário sublinhar o apego feroz à laicidade daqueles homens - entre os quais, aliás, se contavam também católicos devotos (como também foram os líderes das duas maiores nações pactuantes, o francês De Gaulle, com a implantação da V República, em 1958, e o alemão Adenauer) - para se concluir que tinha, o seu projeto, um objetivo político. Ao escamotear a conotação cristã daqueles, Moscovici, como outros arautos da laicidade, coloca-se em simetria com alguns cristãos "fundamentalistas" que pretendem cristianizar oficialmente a União Europeia, ao ponto de defenderem a exclusão de nações e de imigrantes que professem outras religiões ou tenham outra cultura... Eu mesmo, como muitos outros cristãos, defendo que a cristandade da Europa não pode, não deve, ser sequer tentativa ou simples pretexto de qualquer triunfalismo cristão (aliás, nem sempre o comportamento dos fiéis, e da própria Igreja, foi motivo de satisfação moral), e muito menos de exclusão ou desclassificação de outras religiões ou filosofias... O cristianismo europeu tem de redescobrir e praticar o apelo do amor de Jesus à dignidade e coexistência pacífica de todos.

 

   Surgiram-me, assim, cheias de sageza bem cristã, as declarações do papa Francisco ao jornal La Croix, periódico católico publicado em França, pátria da laicidade, também conhecida por fille aînée de l´Église. Datam de 17 de maio: Devemos falar de raízes no plural, pois há muitas. Nesse sentido, quando ouço falar das raízes cristãs da Europa, chego a recear que tenham um tom que possa ser triunfalista ou vingativo. Torna-se então colonialismo. A Europa tem, sim, raízes cristãs. O cristianismo tem o dever de as regar, mas com espírito de serviço, como no lava-pés. O dever do cristianismo para com a Europa é o serviço. No seu discurso de aceitação do prémio Carlos Magno, Francisco definiu a Europa, não por oposição aos outros, mas, sim, pelas suas diversas culturas, tal como pela beleza de vencer as clausuras, ou ainda pela sua capacidade de integração. Sobre esta, faz uma proposta nas declarações ao La Croix: No fundo, a coexistência de cristãos e muçulmanos é possível. Venho de um país onde eles coabitam em boa familiaridade...   ... Cada qual deve ter liberdade de exteriorizar a sua própria fé. Se uma mulher muçulmana quiser usar véu, deve poder fazê-lo. Tal como um católico trazer uma cruz. Sabes bem, Princesa, que eu, que também defendo a laicidade do Estado, assim tenho pensado e escrito. Recordo que Jürgen Habermas já afirmou que, ao invés do tratamento que o laicismo pretende dar-lhe, a fé não é uma opinião. E Olivier Roy conclui daí que, assim não sendo, a laicidade, para não ser intolerante - como acontece vezes demais - deve compreender a singularidade do religioso, quer no plano filosófico, quer no domínio jurídico. A liberdade religiosa não é assimilável às outras liberdades, mas o direito atual não leva isso em conta. Quando um tribunal condena a circuncisão de um menino, trata como opinião o que, para os pais dele, é obediência à lei de Deus...  ... Os laicos deveriam aceitar os símbolos religiosos, que nada significam para eles, desde que não se imponham ao seu modo de vida; em retorno, as comunidades religiosas não deveriam impor as suas normas à sociedade secularizada. Despartidarizando os temas, procurando enaltecer a convivência, o papa Francisco vai conseguindo que a Igreja participe, com outros, num diálogo que não seja discussão de poderes, mas reconhecimento mútuo de valores. Os que têm força para nos impor o respeito mútuo.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira