Quinta-feira, 27.11.14

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Fogueira de lenha verde”
 

O título deste livro é um paradoxo, um absurdo (…)porque já não sou uma estreante, porque já não sou uma rapariga, fogueira que eu ateasse devia ser de lenha seca.

Alice, Alice Gomes, oh!, os prados imensos das idades, que grandes campos pelos quais devagar chegamos aos bosques. Não é um paradoxo o título deste teu livro: pego-lhe na leitura palpitante. Ora!..., tu sabes como é…

Alice Gomes, foi irmã de Soeiro Pereira Gomes e do matemático Alfredo Pereira Gomes. Dedicadíssima professora do Ensino Primário, abriu-se como escritora, cujas obras dedicou às crianças. Casou-se com o escritor Adolfo Casais Monteiro e ficou Alice como um expoente da nossa Literatura Infantil e só?

Do livro “Fogueira de lenha verde”:

- O que é verdade, minha senhora, é que nem todas as cabeças foram feitas para chapéu. (…) Tinha conseguido o que ambicionava: ser independente, mas sentia a possibilidade de ser feliz. Aquela felicidade que Eduardo lhe tinha oferecido na ternura da sua mocidade, como lhe parecia remota! Aquele passado de há seis meses apenas (…)

(…)DIREITO À VIDA é, sobretudo, uma chamada às mulheres para que organizem a sua vida, de forma a poderem assumir as suas responsabilidades.(…) Não quererão os Leitores e as Leitoras aplicar a sua imaginação, a sua criatividade, e concluir a minha história, como bem lhes parecer?

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Professor diz-me porquê?

 

Professor diz-me porquê?

Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?

Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...

Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.

É a luta professor
a luta em vez de amor.

Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.

Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.

Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...

E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.

Alice Gomes (1946)


Alice, em estilo dialogante, também tem o dom de contar histórias do real pelo maravilhoso ou pelo sonho, e por elas a poesia e o teatro. Contos Risonhos e

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Bichinho Poeta (1970), livro de poemas, a Lenda das  AmendoeirasNau Catrineta peças teatrais de Alice Gomes, ou  as reflexões que deixou expressas em Aprender sorrindoLiteratura para a Infância, 1979, bem demonstram a justiça do prémio que a Câmara Municipal de Tabuaço criou para o atribuir anualmente.

Alice Gomes, quero dizer-te:

Estendi grinaldas da minha janela à tua e assim realizo todas as lembranças da escrita que sabe como se dá o nó.

 

Teresa Bracinha Vieira

Novembro 2014



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Quarta-feira, 26.11.14

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UMA DRAMATIZAÇÃO DA HISTÓRIA DA REVISTA

Temos recorrido com frequência aos estudos de Luiz Francisco Rebello sobre a história do teatro português, e designadamente, da revista. É pois oportuno evocar aqui uma das últimas peças de Rebello, “Portugal, Anos Quarenta” (1982), pois precisamente concilia, com forte expressão dramática, uma abordagem histórico-politica dos anos 40 em Portugal, pontuada pela evocação e transcrição – isto é, encenação - de diversas revistas da época, conciliando assim drama com comédia, e teatro declamado com revista.

Trata-se de uma abordagem política, a partir dos problemas existenciais e sociais da “família Meneses: Meneses, a Mulher, o Filho e a Filha”, ao longo da década de 40, concretamente “da entrada do novo ano de 1940” ao “Ano Novo, que acaba de entrar nos domínios do Tempo para receber das mãos do Velho Ano o comando de 1949”: e essa cena que abre a 10ª Sequencia (1949) da peça, constitui transcrição literal do “Quadro de abertura da revista Ora Agora Viras Tu” de Carlos Lopes, nesse mesmo ano estreada em Lisboa. E a longa transcrição do quadro inicial da revista contrasta com a expressão dramática do texto de Rebello.

Precisamente, esse contraste constitui, a essência da peça, ao longo das 10 “sequências” correspondentes aos 10 anos de evocação histórico-politica: e a alternativa sequencial é marcada pela citação recorrente de sucessivas revistas que mais acentuam o registo dramático, repita-se, eminentemente e essencialmente contrastante.

E esse contraste cénico e dramático, no sentido mais abrangente do termo, marca a problemática pessoal e política da peça, além de enquadrar uma conjunto importante de situações e cenas revisteiras que conferem uma relevância peculiar no historial do teatro português: e recorde-se as referências bibliográficas que temos feito sobre o teatro de revista, acrescentando agora os diversos volumes de “Parque Mayer” da autoria de Jorge Trigo e Luciano Reis, que assinalam a renovação do género ”sobretudo nos anos do pós-guerra” (ed. 2002-2006).

Importa então referir as revistas de que Rebello transcreve e de que integra cenas, numa alternância dramática com o seu próprio texto:

“Manda Ventarolas”; “Zé Povinho”; “De Fora dos Eixos”; “O Bacalhau a Pataco”; “Há Festa no Coliseu”; “Travessa da Espera”; “Sempre em Pé”; “Se Aquilo que a Gente Sente”; “Ora Agora viras Tu”…

E acrescem transcrições de poemas e outros textos dramáticos em prosa e verso, letras de canções e poemas de autores relevantes como designadamente Adolfo Casais Monteiro, José Gomes Ferreira, Lopes Graça, Reinaldo Ferreira, Júlio Dantas e Lorca, além de diálogos de filmes portugueses e das marchas e de canções populares da época.

Nessa linha, que se integra poderosamente na estrutura da peça, citam-se e transcrevem-se cenas e textos extraídos dos filmes “João Ratão”, “O Pátio das Cantigas”, O Costa do Castelo”, “Capas Negras”, além de citações literais ou dramatizadas de textos de imprensa, conciliando por forma teatralmente muito hábil as citações hoje históricas (já lá vão mais de 60 anos) com a temática de conflito histórico- politico que marcava o país: e nesse aspeto, são recorrentes, ainda, transcrições literais de discursos de dirigentes políticos nacionais e estrangeiros e mais textos e referencias a personalidades da época - Carmona, Salazar, Hitler, Afonso Costa, Pétain, o Duque de Windsor, Otto de Habsburgo, Saint-Exupéry, Carmen Miranda, Marica Rokk,  Sarmento Pimentel, José Rodrigues Migueis, Jaime Cortesão, Eva Perón,  Fernando da Fonseca,  Maria Barroso, Norton de Matos e muitos outros. 

 O próprio Rebello explica a estrutura e a metodologia de construção da peça: “Dramaturgicamente, a técnica de colagem pura e simples seria a solução mais fácil; por isso a rejeitei. Entendi que para o espetáculo cumprir a sua função didática (…) era necessário combinar o documento com a ficção, o testemunho com a memória, a linguagem literal e a linguagem audiovisual com a intertextualidade” (in “Todo o Teatro” INCM 1998; cfr. “O Passado À Minha Frente – Memórias” 2004).

E assim é esta interessante peça, que, independentemente dos conteúdos políticos , representa um belo texto dramático, misto de teatro declamado e de revista – e nesse aspeto, a recuperação de textos de revistas, como de poemas e diálogos de filmes, valoriza, no ponto de vista histórico, a peça em si.

O que é coerente com a notável obra de Luiz Francisco Rebello no âmbito da História do Teatro Português.


DUARTE IVO CRUZ



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Terça-feira, 25.11.14

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Democracy and its critics, 2014-15

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Há algo de Under the vulcano no ar, inclusive com uma sombria pitada do elemento faustiano. O próprio tempo adquire diferenciados ritmos como no romance de Mr Malcolm Lowry (1947). — Chérie, la varieté plait! A by-election em Rochester and Strood dá nova vitória ao UK Independent Party e o segundo purple MP na House of Commons. Os resultados no Kent espelham a very British revolution on the way. Os Tories descem para a segunda posição e os Liberal Democrats caem para o quinto lugar. Sobem os Greens e o Labour, mas este tropeça num episódio menor que acaba na demissão da Shadow Attorney-General RH Emily Thornberry à boca das urnas. Se a campanha de Mr Mark Reckless no Kent baralha as estratégias partidárias, sobretudo condiciona os big parties em hot themes como a emigração e a Europe. — Hmm! All men are enemies. All animals are comrades. Os USA revivem os dias das lutas raciais dos 60’s e retomam idas marchas pelos direitos humanos. Em Strasbourg, 23 anos após a histórica visita de John Paul II ao beacon of civilization, Pope Francis centra as atenções na pessoa e adverte que a democracia requer defesa de “unseen empires.” O criticismo no European Parliament entusiasma os eurocéticos.

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Cold weather with showers around in a very good morning. A metamorfose na paisagem política doméstica avança mais um passo rumo a um sistema multipartidário em Westminster. Com os conservadores em estado de tensão no No. 10 adjustment bureau e muitos MP’s a temer o desemprego vitalício, a vitória dos ukkipers não se fez sem o habitual humor de Mr Nigel Farage e um coro mediático a desqualificar o voto popular na bela Medway. Daí a insurreição eleitoral se reconduzir a funny Python’s script. Algures entre a Brian’s mother (“Now, you listen here! He's not the Messiah. He's a very naughty boy!”) e o mercador em dia de apedrejamento (“Stones, sir?”) face a Angry mob (“Ooooh!”) e a um incontornável Public Official (“Blasphemy! He said it again!”).

Da substância da democracia descontente e seus by-products informa ainda a intervenção papal no European Parliament, a exigir que se re-leia devagar. O discurso escrito confirma a perceção auditiva do novel euroceticismo de Rome. Fixem-se as palavras do Pope Francis: “The true strength of our democracies – understood as expressions of the political will of the people – must not be allowed to collapse under the pressure of multinational interests which are not universal, which weaken them and turn them into uniform systems of economic power at the service of unseen empires.” O apelo romano ao humanistic spirit da escola de Athens é claro e cristalino é o rigoroso diagnóstico: Europe está “somewhat elderly and haggard,” como a “grandmother, no longer fertile and vibrant’ e até “old, aloof and harmful.”

A requerer reflexão cívica, e consequente ação política, está ainda a emigração e as suas dolorosas facetas. A radicalização dos jovens No-No (no school-no work) é matéria prioritária, envolta que anda num digital ring of Gyges. Depois das questões em torno da cidadania fiscal, o inquérito ao atentado contra o soldado Lee Rigby numa rua de London, em plena luz do dia, coloca as Internet companies debaixo de fogo por disponibilizarem santuários a facebooked terrorists. O escrutínio parlamentar do Intelligence and Security Committee (ISC) sobre a atuação dos serviços conduz também ao reforço orçamental na segurança, sem todavia obscurecer que melhor é expetável do MI5, SIS e GCHQ dentro das malhas da lei.
Além Atlantic, com Southern  Ferguson still in flames, o US President Barack Obama galardoa a unique Mrs Meryl Streep. Desconheço se o reconhecimento do talento contém quaisquer mordomias à custa do erário público ou se o merecido prémio suscita desfavores na Fox & co. Já do lado de cá do oceano muitos convergem na oportunidade de legalizar ilegítimas rendas vitalícias, numa daquelas cenas without honour dissecadas na Nicomachean Ethics por Aristotle. — Well, the best is always few and rare.


St James, 26th November

Very sincerely yours,

V.



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Segunda-feira, 24.11.14

De 24 a 30 de novembro de 2014.

 

«Al-Úliá» é a revista do Arquivo Municipal de Loulé, dirigida por Manuel Pedro Serra, que reaparece, depois de quatro anos de interrupção, (nº 14, 2014) representando um bom exemplo de qualidade científica e cultural, bem como de uma assinalável persistência, digna de muito apreço.

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 UM NÚMERO SUCULENTO
O sumário deste número é bastante suculento e atrai não apenas o leitor comum, mas também o especialista, o historiador, o arqueólogo ou o professor. De facto, o que se pretende é levar o Arquivo Municipal até junto dos interessados e cidadãos, permitindo dar a conhecer a documentação existente ou os elementos históricos e arqueológicos disponíveis, mas, mais do que isso, permitir incentivar os investigadores e os estudiosos no sentido de promover nos diferentes campos do saber o aprofundamento e o desenvolvimento de diversas ciências. Por isso, faz sentido a proposta do dr. Manuel Pedro Serra orientada para uma maior exigência na investigação e nos critérios de aferição da qualidade dos textos publicados, de modo a garantir que os mesmos sejam considerados nos currículos científicos dos seus autores, segundo as regras internacionais de avaliação. Antes de mais, o texto relativo ao tema antigo e misterioso das «estelas» com escrita do Sudoeste presentes em monumentos funerários no concelho de Loulé dá-nos um repositório sobre as diversas interpretações relativas à controversa questão. Por um lado, a chamada escrita do Sudoeste (associada a tartéssios e turdetanos) representa uma referência mediterrânica, na qual as civilizações do Levante se projetaram na Península Ibérica. Por outro, e esse é o ponto essencial do texto, verifica-se que a integração das estelas na construção das sepulturas pode eventualmente ser vista como uma intenção de atribuir aos espaços funerários um valor simbólico relacionado ou diferente do que teriam os referidos elementos no seu contexto original e primário. José Leite de Vasconcelos, Estácio da Veiga, Mário Lyster Franco, Abel Viana são referenciados nas suas investigações, completadas pelas mais modernas descobertas sobre a controvérsia antiga. Um segundo texto refere-se aos assentamentos rurais romanos no Barrocal algarvio, com especial ênfase para os primeiros trabalhos no sítio romano do Espargal. Trata-se de um projeto internacional da maior importância, envolvendo a coordenação da Universidade alemã de Jena, com apoio do município de Loulé. É exemplar hoje este tipo de cooperação, já que permite maiores avanços da investigação, mercê da comparação e da circulação de resultados relevantes. Neste caso, só trabalhos futuros permitirão saber quais as especificidades das unidades agrícolas romanas no interior do Algarve por comparação com a colonização do litoral. O terceiro tema tem uma especial atualidade, uma vez que se refere à escavação arqueológica da «casa das bicas» e dos estabelecimentos balneares do período islâmico – o edifício «Hammam» de Loulé. A referida investigação ocorre no centro de Loulé, no coração da cidade, constituindo um fator essencial para o melhor conhecimento do período anterior à reconquista cristã, sabendo-se que para a cultura muçulmana o ritual da limpeza, corporal e espiritual, é determinante. Mesmo depois da reconquista e do foral concedido por D. Afonso III essa função manter-se-á. Atualmente é já visível parte da sala quente, grande parte da sala temperada e uma pequena parte da sala fria, além das chaminés no interior dos muros…

 

O CÉLEBRE REGUENGO DE QUARTEIRA

O artigo sobre o Morgado do Reguengo da Quinta de Quarteira, desde a Idade Média até ao século XIX, constitui um excelente repositório histórico que permite compreender a evolução de um espaço fundamental que hoje é ocupado pelo empreendimento turístico de Vilamoura. Historicamente, o Reguengo de Quarteira liga-se à evolução do Algarve no contexto da história portuguesa. Não podemos deixar de lembrar a importância que essa propriedade teve no período dos Descobrimentos e no povoamento das ilhas do Atlântico. E, se houve controvérsia entre Vitorino Magalhães Godinho e Armando de Castro sobre a cultura da cana-sacarina, a verdade é que o antigo Morgado teve sempre uma importância significativa. Tratou-se de uma propriedade régia reservada para si por D. Afonso III no citado foral de 1266, que foi sendo objeto de aforamentos ao longo do tempo. Gonçalo Nunes Barreto obterá Quarteira por contrato de escambo com o rei D. João I, sucedendo-lhe os seus herdeiros por várias gerações, até que em final de seiscentos o Morgado ficará na linhagem dos condes de Vale de Reis, depois Duques de Loulé. Em meados do século XVIII, Quarteira é referida como um lugar «povoado de cabanas em que vivem os moradores que quase todos são pescadores que, com as suas artes, pescam abundante sardinha…». Joaquim Romero Magalhães fala de «choças de palha e junco», ocupadas no verão, num porto em que só entravam pequenas embarcações e em que grassava muita malária para os seus moradores. Compreende-se, através deste bosquejo, como se desenvolve a economia algarvia, desde o reinado de D. Afonso III até ao período liberal. Outros textos merecem cuidada atenção, como o respeitante a «Maninhos, baldios e bens do concelho no Algarve Medieval» ou o relativo à «Magia e sociedade no Algarve na quarta década do século XVII». Por irónica coincidência, Lídia Jorge situa o seu «Dia dos Prodígios» em Vila Maninhos e faz da magia o motivo do romance. Se maninho significa lugar inculto e baldio propriedade comunitária, a verdade é que o Algarve é um lugar onde a imaginação se desenvolve, em torno de temas mágicos e prodigiosos. Já Frei João de S. José dizia em 1577, haver «neste reino do Algarve muitas cousas notáveis e maravilhosas e tão particulares dele só, que não se acham em outro algum, assi, na própria natureza da terra como também nos costumes de que usam os moradores dela». O texto dá-nos uma ampla panóplia de situações, bem como de dissuasores sociais, que revelam uma evidente especificidade…


PATRIMÓNIO MATERIAL E IMATERIAL
O caso da Ermida de Nossa Senhora da Conceição de Loulé é um caso especial de qualidade artística que é apontado como exemplo da valorização do património na oferta turística algarvia. Poderá, aliás, associar-se a este pequeno exemplo o caráter inovador da Convenção do Conselho da Europa, assinada em Faro em 27 de outubro de 2005, que relaciona património material e imaterial, criação contemporânea e cultura de paz. Num registo diverso o Prof. Luís Reis Torgal apresenta-nos um documento da propaganda do Estado Novo, o filme de António Lopes Ribeiro (que chegou a ir até Eisenstein – de «O Couraçado Pontemkin» - , para colher ensinamentos) sobre «A morte e a vida do Engenheiro Duarte Pacheco». O ilustre louletano e a obra são apresentados como referências modelares do seu tempo… Os elementos biográficos do Professor Joaquim Magalhães («um algarvio natural do Porto ao serviço da cultura e do próximo»), professor, escritor, divulgador do talento de António Aleixo, homem de cultura e diálogo, dão-nos um paradigma do cidadão e do educador, que tão intensamente marcou a sociedade algarvia do seu tempo. Sobre a atividade tipográfica no concelho de Loulé, poderemos recordar o papel fundamental desempenhado pela imprensa local (merecendo referência especial José Maria da Piedade Barros e a «A Voz de Loulé). Por fim, além da invocação pelo Prof. Melo Sampaio sobre o Instituto Superior D. Afonso III, Maria Aliete Galhoz, grande referência da cultura de Loulé (pessoana da primeira hora e estudiosa das tradições culturais) apresenta-nos um romance de Reis na tradição oral do concelho de Azambuja dispondo do mesmo paradigma de um vilancico produzido na Lisboa seiscentista. Os temas são todos apaixonantes… 

 

Guilherme d'Oliveira Martins



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Domingo, 23.11.14

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Vitrais de Chartres

 

7. CONHECER É IR CRESCENDO 

 

No endereço aleqt.com mora o jornal em linha na rede electrónica Al-Eqtisdiah, em língua árabe, publicado pela Saudi Research & Publishing Company, de Riad,  Arábia Saudita. Jornal liberal, tem um acordo com o britânico Financial Times, de que publica notícias e artigos. Corresponde à necessidade crescente de um espaço de opinião e  debate de ideias que faixas importantes da sociedade saudita  - que se cosmopolitizam, após contacto com o mundo exterior, pela educação em universidades europeias ou americanas, ou através de negócios e actividades profissionais, ou, mais simples e generalizadamente, pela frequentação das redes de comunicação eletrónicas  -  vão manifestando... Assim, o regime wahabita, apesar do sectarismo, primitivismo e intolerância da sua ideologia, vai consentindo umas válvulas de escape. Um artigo publicado em 19 de agosto p.p. e assinado por Tawfiq Al -Saif, propõe um passo em frente à consciência moral do Islão, na consideração dos atentados e homicídios que vão sendo perpetrados pelos movimentos terroristas que se reclamam do islamismo. Achei curiosa a referência inicial do autor ao "nosso" Ibn-Khaldun (1323-1406), ao qual aliás voltarei adiante : O pai da sociologia, Ibn-Khaldun, destacou, entre outras coisas, a propensão dos povos vencidos a imitarem a cultura do vencedor. Tal ideia influenciou muitos intelectuais árabes, designadamente islamistas. Assim, o falecido teólogo Taher Al-Khaqani teve sempre posições intransigentes sobre o modo como os muçulmanos deviam conceber as suas relações com as outras nações do mundo. Quando o interroguei sobre isso, explicou-me que procurava por aí evitar que o baixo povo se deixasse influenciar pelos modos de vida dos vencedores... A terminar o seu texto, Tawfiq Al-Saif, volta a uma tese de Ibn-Khaldun  - a do passado prestigioso dos quatro primeiros califados do islão  -  sem todavia estabelecer qualquer referência ao grande pensador do sec. XIV: Transmitimos uma visão seletiva da nossa história, que descreve um passado glorioso, sem lhe expor os aspectos negativos, nem os custos humanos, económicos e morais. São assim muitos os que consideram sagrado esse passado e o procuram ressuscitar seja como for. Isso traduz-se até em vestuário e atitudes de membros de grupos como o Daech (EI). Temos de libertar as nossas sociedades da "angústia identitária", isto é, desse profundo sentimento de ser fraco, marginalizado e destituído face ao resto do mundo, que se teria coligado contra nós, muçulmanos, para nos destruir. Essa "angústia identitária" é um dos principais factores que permitem que os grupos violentos recrutem adeptos e beneficiem de apoios financeiros.  Reencontramos aqui esse complexo sentimento de humilhação, desamparo e desadaptação, que antes várias vezes referimos como factor de instabilidade emocional, social e política. Cabe claramente aos muçulmanos de boa vontade continuar a desmistifica-lo e corrigi-lo. Mas compete ao "ocidente"  encarar o islão com a racionalidade necessária à compreensão dos factos, e dos motivos de atitudes e comportamentos, e com a solicitude indispensável à aproximação e ao diálogo, reconhecendo ainda a sua responsabilidade pelos erros cometidos, designadamente nestes últimos cem anos, no tratamento do espaço islâmico mediterrânico, quer quanto às interferências políticas, como às intervenções bélicas e, de modo insidioso, amoral e interesseiro, na área económica. Teremos de perder o nosso complexo sentimento de superioridade, incluindo a mania de que somos detentores de modelos sociais, económicos e políticos de valor e aplicação universal. Quando, ainda por cima, sabemos cada vez melhor como o falhanço do nosso sistema económico - que até se reflecte na crescente ubiquidade de um poder financeiro politicamente incontrolável - é concomitante a uma desadaptação dos nossos regimes sociais e a uma crise perturbante das nossas democracias... Cumpre-nos, portanto, ter igualmente a coragem de enfrentar os nossos erros e carências de juízo e reforma, tal como o jornalista saudita que entretanto também escreveu : Fui interpelado pelas reações dos ulemas às exacções do Daech contra cristãos e yezidis  no norte do Iraque. A maioria deles não condenou essas exacções enquanto tais, mas disseram que elas prejudicavam a imagem do islão no mundo...  E depois de reconhecer que os textos islâmicos reforçam a propensão dos muçulmanos a suspeitarem dos fiéis de outras religiões e que, em tempos críticos, tal propensão pode tornar-se em agressividade, interroga-se sobre se o que esses mesmos textos contêm de benevolência não será frequentemente esquecido por pregadores mais inclinados a corresponderem ao gosto da cultura pública dominante,e afirma: O que se passa no norte do Iraque revela-nos o perigo desse estado de facto. Por isso devem as nossas elites dizer explicitamente que a suspeição e a hostilidade para com não - muçulmanos são condenáveis em si. O problema não está no atentado à imagem do islão. É imperativo condenar esses crimes enquanto tais. A parte VI do livro I do Muqaddima de Ibn-Khaldun trata de As diversas espécies de ciências, métodos de ensino, e estados que os afectam e começa por um preâmbulo, assim : «Sobre o pensamento humano, que distingue o homem dos animais, o guia para a aquisição dos seus meios de subsistência e para a colaboração com os seus semelhantes com vista àquela, assim como para a consideração dAquele que ele adora e das mensagens transmitidas pelos Seus enviados. Deus submeteu ao homem todos os animais e colocou-os sob o seu poder. Deu-lhe, graças ao pensamento, a superioridade sobre muitas das suas criaturas». E escreverá adiante, em título de capítulo, que o mundo das coisas criadas se cumpre a partir da acção, graças ao pensamento. A cosmologia do pensador mouro, tal como o seu antropocentrismo e confiança na racionalidade, não é diferente da dos cristãos do seu tempo, a ponto de, ao ler o capítulo acima titulado, me lembrei do que, em crónicas publicadas no blogue do CNC, pelo Natal de 2012, chamei O Presépio Cósmico de Tiago Voragino. Tratava-se aí da visão do mundo cristocêntrico que o dominicano arcebispo de Génova revela na sua Legenda Aurea, escrita no século XIII. Tampouco será estranha à inteligência cristã do seu tempo, a nomenclatura das ciências racionais apresentada no Muqaddima : aquelas são naturais ao homem enquanto dotado de pensamento. Não são apanágio de uma religião particular. Pelo contrário, são estudadas pelos adeptos de todas as religiões, os quais são igualmente aptos a aprendê-las e a empreender investigações sobre elas. Existem na espécie humana desde que a civilização surgiu no mundo. Chamam-se «ciências da filosofia e da sageza». São quatro. E enumera-as : a lógica, que ensina o método e o rigor do pensamento; a física, que estuda as coisas sensoriais, minerais, vegetais, animais e corpos celestes, os movimentos naturais e o que os anima; a metafísica, que investiga as essências espirituais, o que está para além da natureza apreensível pelos sentidos; as matemáticas, que estudam as grandezas e se dividem em geometria, aritmética, música e astronomia. Se, em vez de contarmos as matemáticas no seu conjunto, enumerarmos apenas estas quatro mais as três anteriores, chegaremos a sete ciências, número perfeito. De todos os povos cuja história conhecemos, os que mais cultivaram estas ciências foram as duas grandes nações pré-islâmicas dos Persas e dos Rum (Rum são os bizantinos, herdeiros da cultura greco-romana). Segundo as informações que nos chegaram, as ciências eram por elas muito honradas, porque eram civilizações florescentes, e eram elas que governavam o mundo dantes e até ao advento do islão... Esta referência ao advento do Islão tem peso maior do que poderíamos julgar : na verdade, o advento do Islão, nesse pensamento, vai dividir a história entre antes e depois, e vai retirar à tradição da civilização e cultura islâmicas qualquer desempenho das funções próprias à natureza racional do ser humano como factor de interpelação do tempo e do modo e, consequentemente, motivador de progresso. À categoria das ciências naturais aos homens enquanto seres racionais, e independentemente das religiões que pratiquem, junta-se a categoria das «ciências tradicionais positivas». Estas apoiam-se todas sobre informação proveniente de uma instituição religiosa (o Corão e a Suna, próprios ao islão, e que o separam das outras religiões e modos de pensamento). A razão, aí, só intervém para religar as questões derivadas aos princípios. Com efeito, as coisas particulares que sucessivamente vão acontecendo não fazem integralmente parte da tradição desde a instituição desta. Devem ser-lhe ligadas por raciocínio analógico. Todavia, esse raciocínio fundamenta-se numa informação segundo a qual o juízo é estabelecido na origem. Isso depende da tradição. O raciocínio analógico pertence pois à tradição, porque deriva dela... Faço observar que esta ideia de tradição também tem sido acolhida por meios mais "conservadores" das igrejas cristãs, incluindo a católica, na qual, todavia, outro conceito de tradição tem facultado a evolução do pensamento teológico e o diálogo com as ciências racionais, ou seja, integrado o progresso. Na verdade, a tradição não é só o que herdámos, nem substancialmente tudo aquilo que se pretenda dar por rigorosa e definitivamente estabelecido, chamando-lhe, por exemplo, "doutrina da Igreja". A tradição é todo o processo de revelação, o crescimento contínuo do conhecimento que se transmite para continuar a busca da perfeição. Será o ancião mais sábio e prudente do que o jovem, mas a velhice de cada um não deve determinar a aceitação passiva do envelhecimento da humanidade. Já Prisciano dizia Quanto sunt juniores tanto sunt perspicaciores! , quanto mais jovens mais perspicazes. E é a confiança na razão humana  -  a que frei Tomás de Aquino não temia entregar a reflexão sobre a fé  -  que tem permitido a contemporaneidade da interpelação da fé cristã. João de Salisbúria (1115-1180) fala, no seu Metalogicon, de um seu contemporâneo: Bernardo de Chartres dizia que somos como anões às cavalitas de gigantes, pois podemos ver mais coisas do que eles e a maior distância, não graças à acuidade do nosso próprio olhar nem à estatura dos nossos corpos, mas porque somos erguidos e mantidos em altitude pela grandeza dos gigantes... A tradição é, assim, uma pirâmide humana, em que o conhecimento cresce em novidade e abrangência.    


Camilo Martins de Oliveira



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Sábado, 22.11.14

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Raoul De Keyser e a pintura gestual do lugar concreto.

 

‘Monochromes are not really monochromes they always relate to something.’, Raoul De Keyser, 2012

'Pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.', Clarice Lispector In 'A Hora da Estrela' (1977)

Raoul De Keyser (1930-2012) apresenta nas suas pinturas a visão de um mundo concreto. Segundo uma perspectiva muito individual, evidencia no seu trabalho o lugar específico que o homem ocupa, num determinado momento e num determinado local. Estabelece uma ligação ao passado (através de referências directas à história de arte abstracta e através de referências directas a trabalhos já por si feitos), ao futuro (no sentido de fazer evoluir uma linguagem que cria através da sua circunstância específica) e passando pelo presente (determinante para situar as suas pinturas no espaço e no tempo concreto).
O que rodeia De Keyser estende-se para o que pinta, criando assim uma continuidade espacial. Existe também a ideia de uma continuidade histórica, porque algumas das suas pinturas trazem à memória composições da tradição abstracta - através do uso da cor pura e através da linha e do espaço que têm uma ligação emocional. De Keyser anseia por materializar uma interpenetração entre o interior (visão própria e individual) e o exterior (a árvore, o canto da sala, a maçaneta, o campo de futebol da sua rua, o corredor escuro, as portas e as escadas). Permanece sempre a preocupação de enfatizar o lugar que o sujeito ocupa. Localizar o sujeito que concebe é muito importante – situá-lo no presente, integrando o passado e olhando para o futuro. Durante anos, De Keyser pintou exaustivamente as linhas brancas do campo de futebol que via da sua janela – tentando criar um diálogo entre o vizinho que pintava na relva e ele próprio que transportava para a tela o mesmo gesto.

A questão da realidade concreta é uma questão que se põe com grande afinco. Tornar visível o que é invisível a todos de maneira não óbvia, ainda que eternamente circunstancial. A escala das suas pinturas é humana e íntima – os quadros de De Keyser são aproximações (do pintor à sua circunstância, do fruidor ao universo particular do pintor).

‘Quero acrescentar, que vivemos exclusivamente no presente.’, Clarice Lispector (1977)


Para conseguir transgredir os seus próprios limites, De Keyser pinta sobre uma realidade, já que essa o ultrapassa. De modo a tornar nítido o que está quase apagado à vista de todos, só De Keyser é testemunha da sua realidade – só ele vê o que está para dentro e para fora da sua janela. Procura assim por uma verdade – porque a sua pintura é corpórea e revela a verdade do seu tempo. De Keyser desenvolve uma obra autónoma, para a qual não existe um programa prévio. As suas composições evocam a efemeridade impressiva do mundo – do seu mundo, à volta de sua casa. O presente real que o rodeia penetra nos seus quadros.

‘Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.’, Clarice Lispector, 1977

A simplicidade do trabalho de De Keyser adquire-se através de muita experimentação (visível nas telas riscadas e raspadas). A acção que se cristaliza nas suas pinturas talvez resulte de uma materialização do sujeito no seu objecto – tão imensa é a necessidade de possuir a realidade que o rodeia e na qual se integra diariamente. E a tela é o lugar dessa fusão entre si próprio e a realidade concreta que lhe está próxima, todos os dias, ali… A verdade da sua pintura igualmente implica um contacto com o interior e o inexplicável – o gesto, a marca e a intensidade do traço do pincel são muito importantes para a afirmação da sua pintura. E por isso, dá-se uma união entre o indivíduo e o objecto e a sua percepção e a realidade. Pintar para ser mais do que se é, numa tentativa de possuir, fundir, completar e descobrir. Pintar para suportar, possuir e eternizar uma rotina concreta.

'Paintings are not very planed before. I let the circumstances speak.’, Raoul De Keyser, 2012

O carácter aleatório das suas pinturas é muito concreto. No resultado final das suas obras, o que é importante é a impressão do transitório, do provisório, do circunstancial e a impressão de um processo, o processo de pintar. Nas pinturas de De Keyser a correcção e o erro são muitas vezes visíveis como meio para questionar a própria pintura. Deste modo, De Keyser assegura-se do fundamento da sua pintura através do seu suporte físico – visível também por exemplo ao pintar as lombadas dobradas da tela, ao engradar de novo uma tela já pintada numa grade um pouco maior de modo a que a madeira da grade surja ou criando pinturas em fatias tridimensionais.

Sendo assim, a pintura de De Keyser incorpora uma reflexão profunda e o gesto intuitivo. E é um exercício espontâneo de acesso ao espírito do lugar do sujeito. O mundo pintado de De Keyser aparece fluído e evidencia o essencial da condição do sujeito. De Keyser consegue então pertencer ao seu tempo e ao seu lugar e apesar de diverso formalmente, apresenta uma obra de grande estabilidade e que garante uma continuidade entre o passado, o presente e o futuro.

 

Ana Ruepp



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Sexta-feira, 21.11.14

Istambul.JPG

6. O LUGAR DA HISTÓRIA 

 

No seu notável ensaio «Ibn-Khaldun au prisme de l´Occident», o professor Krzysztof Pomian insiste em que, para aquele pensador andaluz, «o mundo não varia. No seu tempo estacionário se desenrola o tempo dos homens. E este é descontínuo. Com efeito, tudo o que os Antigos produziram foi anulado pelo islão, que assim é tido por um começo absoluto, quer da verdadeira fé, quer da organização política, das letras e das artes...  ... Em todos os domínios o islão se basta a si próprio. A atitude de Ibn-Khaldun face ao passado pré-islâmico contrasta com a que os Latinos adoptam face ao passado pré-cristão... ... Mais ainda, o advento do cristianismo não traz o repúdio das obras literárias, históricas ou filosóficas impregnadas de crenças pagãs. Na cultura das elites letradas da cristandade latina, um polo escriturário e patrístico coexiste com um polo antigo, um polo puramente cristão com um polo pagão. Isso provoca tensões e coloca os indivíduos perante opções que, por vezes dolorosamente, vivem. Também provoca conflitos entre os que querem manter essa bipolaridade e os que preconizam o abandono da tradição literária pagã. Mas estes nunca tiveram ganho de causa». O surto renascentista iniciado nos séculos XIII-XIV iria colocar a Europa cristã na senda do uso da razão, que desabrocharia no Iluminismo. Teria sido possível, em país de mouros, o paganismo simbólico que, por exemplo, serve Os  Lusíadas ? Para o cristianismo, a história do mundo gira à volta de Cristo, o alpha e ómega está no centro da história. O Verbo iniciador fez-se carne, entrou na vida terrena e na história dos homens, não já para a iniciar mas para a redimir e levá-la ao seu fim, que é a eternidade com Deus. Ao tempo da permanência da Igreja neste mundo se chamou aevum, a longa duração do que, estando ainda no tempo, afinal é fora dele. Assim, ontologicamente, a Igreja não tem passado, presente e futuro: como Cristo ela abraça o que, na história, antes foi, hoje vemos, e está por vir. Mas na duração do aevum, sua idade temporal, esse abraço chama-se tradição. No seu grandioso estudo «La tradition et les traditions», publicado em 1960, pouco antes do Concílio Vaticano II, o dominicano frei Yves Congar, depois de referir a tradição oral que precedeu o registo escrito da Bíblia hebraica  - é claro que as disposições da lei mosaica regularam a vida de Israel, e os salmos exprimiram a sua oração, muito antes de terem sido transcritos  -  escreve: Nascidos na tradição, ou mesmo da tradição, os escritos bíblicos surgem-nos transportados por uma realidade religiosa viva, que os precedeu, a saber, na sua totalidade, ou nas partes mais puras e representativas dessa totalidade, a comunidade do Povo de Deus. Foi esse também o caso do Novo Testamento. E recorrerá, mais adiante, ao jesuíta Karl Rahner que propôs vermos o facto da inspiração escriturária no quadro da eclesiologia ou, pelo menos, da história da Salvação, isto é, da acção pela qual o Espírito Santo constrói o povo de Deus : a inspiração escriturária corresponde ao momento em que Deus cria a Igreja quanto ao seu elemento constitutivo de conhecimento... E, noutro passo, realçará que S. João Damasceno, ao falar da Igreja no seu A Fonte do Conhecimento, a vincula à tradição : Aquele que não acredita em conformidade com a tradição da Igreja católica não tem fé... ...Não reconheço aos decretos imperiais o direito de regular a Igreja. A Igreja tem a sua lei nas tradições dos Padres, escritas e não escritas... O mesmo S. João de Damasco, em defesa do culto das imagens, e contra os iconoclastas, cita o seguinte texto de S. Basílio: Entre as "doutrinas"  e as "definições"  que a Igreja guarda, temos umas pelo ensinamento escrito, outras foram recolhidas, transmitidas secretamente, da tradição apostólica. Todas têm a mesma força aos olhos da piedade, assim concordará quem tiver, ainda que pouca, experiência das instituições eclesiásticas : pois, se tentássemos afastar os costumes não escritos por não terem grande força, atingiríamos, sem querer, o Evangelho, em pontos essenciais... O damasceno dá, como exemplo de tais tradições, o culto das imagens, a adoração da Santa Cruz, a instituição dos sacramentos, a oração feita em direcção do Oriente... Personagem histórica invulgar, João de Damasco, nessa cidade síria nascido por volta de 650, ainda sob império bizantino, numa família cristã, de apelido Mansur, seria, portanto, um cristão sírio-palestiniano. Seu pai exerceu funções importantes na administração financeira do Estado, primeiro sob o imperador cristão de Constantinopla, mais tarde sob o califa omíada Yazif I que, aliás, fora educado, juntamente com João, por um monge italiano capturado na Sicília. E o nosso damasceno será chefe dos serviços fiscais do califa até ao afastamento dos cristãos de qualquer função administrativa. Retira-se então para um mosteiro em Jerusalém, onde se dedicará à oração e à escrita de uma obra teológica, apologética, litúrgica e musical que, no futuro, não será só considerada na Igreja ortodoxa grega, mas ainda pela Igreja católica romana, até à sua proclamação como Doutor da Igreja pelo papa Leão XIII em 1890. O nome deste cristão árabe foi, durante a sua longa vida (terá morrido em 749, com quase cem anos!) Yuhannâ bin Mansur bin Sarjun, e os seus textos apologéticos (em defesa do cristianismo) e polémicos (contestando o islão, que ele classifica como heresia do cristianismo) não só serviram de conforto à fé cristã das populações que o califado omíada (cuja duração, no oriente, coincide sensivelmente com o tempo de vida do Damasceno) havia submetido após vitória sobre o império bizantino, como também estabeleceram circuitos de discussão e confrontação com religiosos e pensadores muçulmanos, ao ponto de se considerar S. João de Damasco como um dos fundadores da teologia islâmica. Recorde-se ainda que a designação de islão (abandono ou submissão a Deus) se aplicará à religião de Maomé e à comunidade dos seus fiéis precisamente a partir do califado omíada. Mas a obra deste Doutor da Igreja debruçou-se muito mais sobre a iconoclastia vigente por decreto imperial, quer no império omíada (por Yazid II, em 723, proibindo o culto das imagens por qualquer religião), quer no bizantino (pelo imperador Leão III, em 730, interdição que duraria até 11 de Março de 843, quando um sínodo de bispos restaurou esse culto tão popular e importante na tradição cristã oriental). A iconoclastia em Bizâncio ter-se-á afirmado por influências monofisitas e judias, bem como islâmicas : não esqueçamos que o imperador Leão III era natural de Síria ; nem que era muito permeável, à circulação de ideias e transmissão de comportamentos, a fronteira algo vagabunda que separava a Anatólia e a Arménia cristãs da Síria recentemente conquistada pelos omíadas. Em pleno território islâmico, João Damasceno, em nome da tradição, defenderá que a veneração das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos não é um acto idolátrico, ou seja, de adoração de uma figura material, mas uma relação com o invisível através de uma imagem visível. Li recentemente na Der Spiegel um artigo de Navid Kermani, escritor alemão de origem iraniana, sobre a iraquiana Nadjaf, cidade santa, que muitos consideram o Vaticano do chiísmo. No centro dela se situa um extensíssimo cemitério, em que milhões de sepulturas se juntaram ao mausoléu do imã  Ali, o quarto califa, primo direito do Profeta e marido de sua filha Fátima,  que foi assassinado ali perto, em Kufa, a capital que precedeu Damasco. Esta impõe-se com a conquista omíada, e a dinastia que acedeu ao poder depois de ter eliminado o califa Hassan, filho de Ali e neto de Maomé. Aí começa, com a derrota do partido legitimista, a tradição chiíta, oposta ao sunismo maioritário. Indo ao texto de Navid Kermani: O "partido" de Ali  -  tradução literal da palavra shi´a  -  é uma religião de lamentação e de penitência; até muito tarde no sec. XX, ela foi uma religião de interioridade e retiro do mundo. Os seus doze imãs, sucessores directos de Maomé, foram todos assassinados de modo cruel, pérfido, ignominioso  --  não por infiéis, mas por muçulmanos. Para os chiítas, esta traição à família e à mensagem do Profeta continua a repetir-se ao longo de mil e quatrocentos anos. O domínio dos sunitas, sob o qual sofreram durante séculos no Iraque, as centenas de milhares de chitas  -  dos quais 9000 religiosos  -  que o ditador Saddam Hussein fez assassinar a partir de 1991, o avanço das ideias wahabitas (ideologia sunita ultraconservadora, predominante na Arábia Saudta) no conjunto do mundo islâmico, e agora as acções do EI: cada nova ameaça se inscreve nesse esquema da traição interna. «Receia pelo mausoléu?», perguntei a um guarda, senhor idoso, de cabeça rapada e fato amarrotado, a seguir à oração de 6ª feira. Respondeu com firmeza: «Não! o EI nunca avançará até tão longe em território chiíta». O artigo de Navid Kemani encerra com o relato da sua entrevista, em Nadjaf, com o grande aiatola Al-Sistani e um dos seus filhos, Mohammed Reza Al-Sistani. Referem-se estes  à Alemanha, perguntam pelo modo como ultrapassou o seu passado e interrogam sobre as relações do Estado com a Igreja. Elogiam a criação de cátedras de estudos islâmicos nas universidades, como modo de evitar surtos de extremismos... E vale a pena encerrar esta crónica com a transcrição de passos dos últimos parágrafos daquele artigo: «Mohammed Reza interroga-me sobre outras entrevistas que fiz anteriormente. Confidencio-lhe que todos procuram atribuir a responsabilidade dos azares aos outros, sobretudo ao ocidente. Ele responde-me que isso não passa de um pretexto, as causas reais sendo a ausência de sentido do interesse geral, a corrupção, a anarquia, a ausência de liberdade e o egoísmo que reinam na maioria dos países islâmicos. Porque é que uma jovem mulher como a matemática Maryam Mirzakhani, que obteve o prémio Fields, não teve no Irão a possibilidade de pôr o seu génio ao serviço da sociedade? «Na verdade, os alicerces da nossa sociedade estão tramados». Mohammed Reza Al-Sistani tece louvores à União Europeia, que transformou povos inimigos em amigos. No mundo islâmico, os pequenos países do Golfo, que partilham a mesma língua, a mesma cultura, a mesma religião, nem sequer conseguem formar um mercado comum. E como se essas divisões não bastassem, ei-los a querer ainda dividir os Estados existentes por etnias e confissões. Interrogo também o grande aiatola sobre a expulsão dos cristãos do Iraque. Trata-se, para ele, de uma catástrofe de alcance histórico. « No plano teológico», acrescenta  --  referindo-se provavelmente às imagens, às procissões, ao culto de Maria, às orações de intercessão e à ideia de redenção da Igreja Católica, que o chiísmo também conhece  --  « o chiísmo está próximo do cristianismo»...». A mim, pessoalmente, foi-me ensinando a vida que dividi pelos continentes da terra que os seres humanos se podem descobrir muito mais próximos do que tantas vezes julgam. Ser humano diz bem o que é a nossa condição, e nada daquilo que é humano pode ou deve ser-nos estranho. A glória de Deus são os homens de boa vontade. 

 

Camilo Martins de Oliveira



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Quinta-feira, 20.11.14

Pablo Neruda.JPG

A água andava descalça pelas ruas molhadas e ainda acrescento: para lá das folhas volteadas num prego aceso no peito sacudindo tus ojos oceânicos.
 

De tanto em tanto tempo, não sei quanto em intervalo, vejo-me a reler o discurso de Neruda na entrega do Prémio Nobel em 1971. Por aquela leitura estendo a solidão e muitos naufrágios, mas sempre de espanto, inclino-me ao que é luz e me segreda que sempre a minha sede é viagem e casa para onde enfim emigro nos meus anseios. E assim começo o colar naqueles dias.

A verdade como afirma Pablo Neruda é que não há verdade mesmo quando se sabe quão grande é o ódio da guerra dos poetas à guerra, ou, a poesia não fosse uma comunicação infinita com o sofrimento que embranquece as árvores. Digo.

Aqui deixo um extracto do discurso ao qual acima me referi. Aqui Pablo Neruda:

“Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns factos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio.

(…) Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma acção passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e a solidariedade, o sentimento e a acção, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia – o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia – numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde.

(…) Os erros que me levaram a uma relativa verdade, e as ver­dades que repetidas vezes me conduziram ao erro, ambos não me permitiram – nem eu nunca pretendi isso – orientar, dirigir, ensinar o que é chamado de processo criador, de caminhos da li­teratura. Mas pude verificar uma coisa: que nós mesmos vamos criando os fantasmas da nossa própria mitificação. Da argamassa do que nós fazemos, ou queremos fazer, surgem mais tarde os impedimentos do nosso próprio e futuro desenvolvi­mento.

(…) Escolhi o difícil caminho de uma responsabilidade compartida e, em vez de reiterar a adoração ao indivíduo como sol cen­tral do sistema, preferi entregar com humildade o meu serviço a um considerável exército que pode errar às vezes, mas que ca­minha sem descanso e avança cada dia, enfrentando tanto ana­crónicos recalcitrantes, quanto enfatuados impacientes. Porque acredito que meus deveres de poeta não me indicavam somente a fraternidade com a rosa e a simetria, com o exaltado amor e a nostalgia infinita, mas também com as ásperas tarefas humanas que incorporei à minha poesia.

(…) Acredito nesta profecia de Rimbaud, o vidente. (…)Há exactamente cem anos, um pobre e esplêndido poeta, o mais atroz dos desesperados, escreveu esta profecia:

“Ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades.”

Em conclusão, devo dizer aos homens de boa vontade, aos trabalhadores, aos poetas, que todo o futuro foi expressado nes­sa frase de Rimbaud: só com uma ardente paciência conquista­remos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens.

Assim a poesia não terá cantado em vão.”

A poesia.JPG 

Quase fora do céu âncora entre duas montanhas metade da lua.

Lua.JPG 

Recordo e me atrevo à tua chama, àquela a que Deus e deuses mandaram à tua prece num único sim,

Diciendo qué palabras?

Ay seguir el caminho que se aleja de todo! 

 

Teresa Bracinha Vieira
10.11.14



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Quarta-feira, 19.11.14

teatro da avenida.JPG

DOIS GRANDES AUTORES DE REVISTA: SOUSA BASTOS E EDUARDO SCHWALBACH

Num livro recente, Maria Helena Serôdio enfatiza a relevância da opereta e da revista na produção teatral portuguesa  da transição dos séculos XIX/XX. Cita designadamente, entre outros autores de drama e comédia, os originais ou as adaptações de André Brun (que aqui já foi evocado) numa adaptação de “A Severera” de Julio Dantas com musica de Filipe Duarte, autor também de opereta “O Fado” de João Bastos e  Bento Faria; e ainda,  num registo de “ópera cómica(…) as criações conjuntas de Gervásio Lobato,  D. João da Câmara e maestro Círiaco Cardoso, enquanto na comédia e na revista se vieram a destacar  no inicio do novo século Eduardo Schwalbach (“A Bisbilhoteira”, 1900 e “O Chico das Pegas, 1911)” e outros (in “A Republica das Artes-Teatro, 2010, pag. 17)

Precisamente evocaremos aqui Schwalbach (1860-1946) mas também o seu contemporâneo Sousa Bastos (1844-1911), que temos citado como autor do “Diccionário do Theatro Português” e de “Carteira do Artista”.   

E desde já adianto que Sousa Bastos é autor ou co-autor – uma vez que as revistas são quase sempre produto de co-autorias – de nada menos do que algo como 18 revistas. Luis Francisco Rebello selecionou cenas de algumas, e a simples leitura dessas cenas permite avaliar o sentido critico e cénico dos textos: por exemplo “Tim Tim por Tim Tim” (1889), em que a “Dívida Pública”  se auto- define como aquela “Que toda a gente condena” mas  se- auto-elogia:

 “Sou esbelta, sou catita/ Tenho atrativos aos centos;/ Como arranjo bom dinheiro/ Tenho fortes argumentos” pelo que “Quase sempre eu dou pretexto/Prós clamores da oposição…/Mas se ela trepa ao poleiro/Logo de mim lança mão!”

Gustavo de Matos Sequeira refere que Sousa Bastos assume em 1894 a direção do Teatro da Trindade, onde se manterá até 1897. E assinala que “O Sal e Pimenta de Sousa Bastos foi a grande peça de 1894. Ainda transbordou o seu êxito para ao ano seguinte. Desde julho da dezembro, a Gloriosa (sic) revista que rivalizou com o Tim Tim por Tim Tim da (do (Teatro da) a Rua dos Condes, encheu o cartaz da Trindade” ( in “O Carmo e a Trindade” vol. III pag. 407).

Mas recordo aqui ainda a revista “Em pratos Limpos” (1896) onde Sousa Bastos critica, numa sucessão de exemplos, os “galicismos”  na moda:
“A cadeira é fauteille! Bem bom!/É a gare a estação! Faz-me fel!/ A luneta é agora um lorgnon!/ E um mordomo é um maître d Hotel!” E segue-se a casa -  chateau ou chalet, estante -  étagere, bacia -  bidet,  molduras - passe partout  ,manta  -  couvre pieds,e mais 18 francesismos – “e mais não digo que a lista é comprida/ E nem mesmo eu a tenho ao alcance!/ Se à casinha que está na Avenida/ Até chamam um “chalet  d aisence!” (in Luis Francisco Rebello -  “História do Teatro de Revista em Portugal” vol. 1).

E é então altura de evocar as revistas de Eduardo Shwalbach. Das largas dezenas de revistas que escreveu, cobrindo a passagem do seculo, destacam-se títulos e sucessos  como    “Agulhas e Alfinetes”, “Formigas e Formigueiros”, “Retalhos de Lisboa” “O Ovo de Colombo”, o Dia de Juizo”  “O Reino da Bolha”, “Fado e Maxixe” entre mais.

São quadros de grande sentido cénico. Por exemplo, em “Agulhas e Alfinetes”, estão em cena, a certa altura, um professor e pelo menos 14 alunos. Mas no plano oposto, temos por exemplo “A Feira do Diabo” que põe em cena Mefistófeles, o Orçamento da Despesa e o Orçamento da Receita. Ou a ultima revista citada por Rebello, “Ao Deus Dará”: “Haja Festança. Haja folia/  Que tudo a bem se arranjará/ Se a massa chega só pra um dia/ Para os seguintes… Deus dará” ( in ob. cit. vol. 2)

Vitor Pavão dos Santos, em “A Revista à Portuguesa” (1978), destaca uma cena de  “Fado e Maxixe”(1909) escrita com João Foca. Trata-se de um dueto entre a Avenida da Liberdade e as Avenidas Novas:
“AL _ Eu sou desta aldeola em ponto grande/ Desta Lisboa tola e presumida/Onde a tolice com rumor se expande/ A via mais seleta e concorrida

AV – Nós, Avenidas Novas/ Meninas petulantes/ Damos sobejas provas/ De sermos elegantes…”

E em “O Dia de Juizo”, o confronto entre a moda masculina e a moda feminina:
“Entre piadas, entre picuinhas/ Quer para elas, quer para os seus alcaides/ Vão os gentis e belos cartolinhas/ Com as lindas e dengosas Adelaides”…

DUARTE IVO CRUZ



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Terça-feira, 18.11.14

The Rochester & Strood gates 1.JPG

The Rochester & Strood gates, 2014

The Rochester & Strood gates2.JPG 

O termómetro político está ao rubro em Westminster com nova by-election em Rochester & Strood, um tradicional bastião dos Tories no Kent de Sir Winston Churchill ora ameaçado pelo… Ukip. A confirmar-se a vitória de Mr Mark Reckless, dada como certa em sondagens e apostas, complexifica-se o grau de incerteza nas próximas legislativas para os big mainstream parties. — Chérie, à Normand Normand et demi. Para já, os Conservatives revelam criatividade na estratégia eleitoral. O seu antigo MP no estuário do Medway é apontado a dedo na literatura partidária por “studying politics at Oxford.” As hostes de Mr Nigel Farage naturalmente logo reemitem o panfleto com um irony alert. — Hmm! Arouse no expectations on any entering. Japan vai também a votos mais cedo após quebra na economia, quando Pekin igualmente desacelera e a Eurozone teme o triple dip às mãos dos fiscal disciplinarians. Jerusalem estremece com um ataque mortífero na sinagoga. Scotland acolhe Mrs Nicola Sturgeon como First Minister. O antigo Prime Minister Sir John Major avisa em Berlin que o United Kingdom tem 50/50 chances de sair da European Union. 

The Rochester & Strood gates 3.JPGThe Rochester & Strood gates4.JPGIsolated showers and sunny intervals around, quando o mind eye abre à europroeza náutica do Rosetta com a sua fabulosa aterragem no cometa 67P. No momento do toutchdown regressa the spirit of 1969, naquele espantoso primeiro passo lunar de Mr Neil Armstrong. Para se aferir da relevância deste projeto da European Space Agency (ESA) recorde-se que os errantes cometas são como que “the building blocks of the universe." Saber mais da sua estrutura e composição assemelha-se a entrada num novo domínio dos deuses: as estrelas. Acresce que o suspense acompanha a 60-hour lifetime mission.

Não menos excitantes andam as coisas na terra, sobretudo pelos solares portões na peninsular South England. A political London desertifica-se para a frenética campanha final nas Medway Towns, com os membros da Govt Coalition ativamente no terreno e ainda que a afugentar os candidatos dos seus próprios partidos. Na minha humilde perspetiva, afinal também estudei PPE em Oxford, o melhor argumento vem mesmo de Mr David Cameron na old recipe do voto útil. Face à escalada ukkiper, diz o energético Tory Premier a espantado eleitorado rival do Labour: – Travem o Ukip, votando Conservative.
 Que a genialidade desce à cidade é já iniludível. Se o sucessor de Lady Thatcher em Downing Street discursa em Germany a elencar os riscos de desagregação que pairam sobre a EU28 face a leituras musculadas do papel de Brussels no controlo das soberanias, já Mr Edward Miliband polariza o debate doméstico para silenciar os descontentes internos com regresso a pop star left idea: os ricos que paguem a crise! Depois do one nation e do togetherness, o novo conceito do honorável Doncaster MP é a zero zero economy. A ressonância vitoriana é o traço comum na tríade, pois desvenda a sociedade com zero horas nos contratos laborais e zero libras nos impostos empresariais.

The Rochester & Strood gates 5.JPG

 

 

Uma estreia nas telas do Soho estimula outros acesos debates, mas agora entre cinéfilos e historiadores: The imitation game. Com o adicional de ter como indecifrável protagonista Mr Benedict Cumberbatch (esse, o Sherlock Holmes do dia), a película de Mr Morten Tyldum narra a quebra do nazi Enigma Code durante a World War Two pelo matemático Mr Alan Turing. O criptoanalista cedo suscita eyebrows na equipa do Commander Alastair Denniston, em Bletchley Park, que continuam até ao suicídio, em 1954, a exemplo da sua Turingery. — Well, the worse the passage the more welcome the port.

St James, 18th November

Very sincerely yours,

V.



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