Quinta-feira, 18.12.14

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“Contos inéditos e crónicas de viagem” chega até nós em 2005 pela Editora A.M. Pereira na sequência da edição sistematizada da obra inédita de Natália.

Em 3 partes nos surge o “Filme Tragicómico da Vida das Praias” e justamente na III parte, Natália Correia escreve assim:

Faltam apenas minutos para o comboio chegar. Mãe e filha, em sua trágica saída de sandeiros, abandonam finalmente o campo de batalha matrimonial. Verdadeiros soldados vencidos levam, a pobre mãe mais um espinho cravado em seu coração dilatado pela dor; a filha, maldizendo aquele atrevido com quem perdera o melhor do seu tempo, arrasta a heróica resignação dos vencidos mas não convencidos.

O comboio chega e parte em seguida.

Lá longe, na estação da grande cidade, um pobre homem, bacilo duma repartição anónima irá esperá-las. Os seus olhos inquietos pousar-se-ão nos da mãe, numa muda interrogação: arrumada, a nossa filha?

Não. Não foi ainda desta vez. E ei-los a caminho de casa, quartel-general do seu sonho desmantelado, ei-los de novo na luta diária e persistente de reunir as pedras daquele «puzzle» de quimera.

Que saudades Natália! , e como bem referiste a seu preciso tempo, tinha chegado « a hora romântica dos deuses nos pedirem desobediência», e que mais não fosse pois que

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

 

A tua palavra sempre tornou audível o silêncio, a tua luta, testemunho de várias almas numa única não morará na morada dos esquecidos. Ao alto, ao alto na galeria dos atentos, sempre o teu perfil.

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Dezembro 2014



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Quarta-feira, 17.12.14

Estátua do poeta António Ribeiro, o Chiado.JPG
Estátua do poeta António Ribeiro, o «Chiado».


O ESPETÁCULO NO PRÓPRIO TEXTO –  CAMÕES, CHIADO, JORGE FERREIRA DE VASCONCELOS 

Nesta série de artigos, evocamos sobretudo os que fazem o espetáculo, a partir de textos expressos ou mesmo improvisados, mas suscetíveis de fixação e de expressão teatral. A referência específica  a atores profissionais inicia-se e desenvolve-se, como veremos em próximos artigos, ,  ao longo do seculo XIX mas  com grande relevância no século XX e até aos nossos dias : mas a partir do seculos XVI/XVII, os textos já muitas vezes definem, expressamente e diretamente, a sua dimensão de espetáculo.

Vejamos dois exemplos breves mas relevantes, quanto mais não seja pela qualidade e projeção dos autores respetivos.

E desde logo Camões. Tenho escrito que o teatro de Camões,  independentemente  de atingir a o nível e o significado incomparável de Os Lusíadas ou mesmo da Lírica, alem de breve - três peças – assume larga  projeção no contexto do teatro renascentista,  pela sua óbvia qualidade ~ou não fosse uma criação camoniana - e pelo próprio sentido “de espetáculo”, o que normalmente não é tanto sublinhado. Aliás é caso para dizer que “sentido de espetáculo”, no mais nobre e  qualificado alcance do termo, encontramos também na restante obra de Camões.

Só como mero exemplo, e são tantos ao longo dos 10 Cantos de Os Lusíadas, veja-se  a estrutura cénico -  dramática do episódio de Fernão Veloso inclusive  no contraste entre o trágico e o irónico  (Canto V- Estrofe 35):

«Disse  então a Veloso um companheiro/ (Começando-se todos a sorrir) : / “Olá Veloso amigo, aquele outeiro/ É melhor de descer do que de subir”/ Sim, é respondeu o ousado aventureiro; /Mas quando eu para cá vi tantos vir/ Daqueles Cães, depressa um pouco vim/ Por me lembrar que estáveis cá sem mim”.

Este episódio, repita-se, apresenta um conteúdo  em  si mesmo teatral, no sentido cénico e de espetáculo . Contem o diálogo, as indicações cénicas (“começando-se todos a sorrir” ) e a própria direção/ caracterização do personagem (“o ousado companheiro”) – e  ainda, a ironia e graça do texto,  que  contrasta com a situação em que se enquadra e até – mas não é caso único – com o incomparável sopro épico de Os Lusíadas.

 Mas vejamos agora o Auto de El-Rei Seleuco, representado entre 1543 e 1549. Para alem da genialidade do texto, ou não fosse de quem é, traz-nos a curiosidade de dramatizar uma representação do próprio Auto em casa de Estácio da Fonseca, Cavaleiro Fidalgo  de D. João III, almoxarife e recebedor das  aposentadorias da Corte. Um alto funcionário, diríamos hoje.

E o auto inicia-se com  o diálogo irónico do próprio Estácio com o seu moço-criado, acerca dos atores que iriam representar a  peça:
«Estácio – São já chegadas as figuras? / Moço – Chegadas são elas quase ao fim de sua vida./  Estácio_ Como assim? / Moço -  Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com frisa nem talão de sapato que saísse fora do couce. Ora viram aí uns embuçadetes e quiseram entrar por força: ei-lo arrancamento na mão: deram uma pedrada na cabeça do Anjo e rasgaram uma meia calça ao Ermitão; e agora diz o Anjo que não há de entrar até lhe não derem uma cabeça nova , nem o Ermitão até lhe não porem uma estopada na calça. Este pantufo se perdeu ali: mande-o Vossa Mercê domingo apregoar nos púlpitos, que não quero nada do alheio/ Estácio – se ela fora outra peça de mais valia tu botares a consciência pela porta fora para a meteres em tua casa»…

Assim seria o chamado meio teatral no seculo XVI…

Ora, pela mesma época, entre 1545 e 1557,  escrevia António Ribeiro Chiado o seu Auto da Natural Invenção . E também aqui se recorre a uma cena de presentação na Corte ou na alta classe mercantil. Temos aqui também  o dialogo entre o dono da casa e o seu criado:

“Dono – Almeida!/ Almeida – senhor?/ Dono – Vem cá, vem cá!/ sabes se há –de tomar o porto/ hoje este auto, ou se é morto./ Almeida – E o autor onde está?/ Dono – Em casa de teu avô torto/ ou marmelo pela perna!/ Quem por rapazes governa/ sua casa é mais rapaz/ e  rapaz que tratos traz, / com quem a malícia inverna./ Que te mandei todo hoje?/ Almeida – Que mandou vossa mercê?/  Dono – Já nada, pois que assim é, /Não mande Deus que te noja»…

Já havia pois, nesta época, comediantes profissionais e companhias. Aliás Camões, no Rei Seleuco cita o Chiado,  quando o Escudeiro Ambrósio diz que “o Moço Lançarote (…)   uma trova, fá-la tão bem como vós ou como eu, ou como Chiado”.

E pela mesma época, Jorge Ferreira de Vasconcelos, na comédia Aulegrafia também cita Chiado e põe na boca do personagem D. Ricardo este elogio  ambíguo: “Em algumas cousas teve veia esse escudeiro”!

Termino com três citações.

Hernâni Cidade encontra nos Anfitriões de Camões uma “ternura que Plauto desconhece” (in Obras Completas de Camões vol.III); Clarice Berrardbnelli e Robnaldo Menegaz comparam a peça do Chiado com a de Camões, na convergência “de uma auto (B), dentro de um outro(A), mas enquanto Camões nos dá uma trama unida (…) o Chiado vai ao sabor da sua natural invenção traçando os fios e deixando as pontas soltas” (in Autos de António Ribeiro Chiado, ed. Rio de janeiro 1968); e Maria Odete Dias Alves assinala que Jorge Ferreira de Vasconcelos “povoa o palco de figuras portuguesas da sua época: é o ambiente de Quinhentos que vive nas suas paginas” (in A Linguagem dos Personagens de Jorge Ferreira de Vasconcelos  - U Coimbra 1972). 


DUARTE IVO CRUZ



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Terça-feira, 16.12.14

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The Christmas truces, 1914

A guerra já deveria ter terminado por estas semanas, segundo a leitura de muitos dos políticos que a haviam decidido nas chancelarias continentais. Ao invés, em 1914 December, a escalada de violência espraia-se e a mobilização geral divide as famílias por toda a Europe.

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 Nos dias 24 e 25, progressivamente, canhões e espingardas silenciam-se. Ecoam cânticos de Natal em diversas pautas. Ao longo das 27 milhas da Western Front, tropas alemãs e britânicas confraternizam à volta de adaptadas árvores natalícias. Apertos de mão humanizam o momento. — Chérie, ce la est aussi notre nature! Muitas teorias explicam a Christmas truces da First World War. Uns inclinam-se para o alto desconforto vivido nas invernosas trincheiras. Outros para a baixa animosidade existente no arranque das hostilidades que ceifam toda uma geração. — Hmm! Peace at Wolf Wall. O inesperado armísticio na primeira guerra global contrasta com a triste ementa de terror servida por estes dias à volta da terra. Sidney vive 16 longas horas de sequestro num café, que termina com três mortos, dois reféns colhidos a tomar o café da manhã mais um louco apanhado na fantasia de uma Jihad privada. No remoto Pakistan, em ataque taliban, uma escola de Peshawar é massacrada e 126 crianças são assassinadas por dito crime da educação.

Cloudy, rainy and cold weather prepara nova Christmas season, desta feita com os aeroportos mais caóticos que o usual. À intensidade do tráfego somam controlos aéreos atempadamente impedidos de se modernizarem pela austeridade.

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Westminster fará algures as contas aos prejuízos de desasisada poupança ditada pela ideologia. Já há 100 anos Britain move man of good will. O país diligencia uma mais veloz distribuição das muitas cartas dos soldados. A British Expeditionary Force dobra as amenidades. Private Mullard, do London Rifle Brigade, descreve aos seus o Natal na Flanders: "We heard a band in the German trenches, but our artillery spoilt the effect by dropping a couple of shells right in the centre of them." Também o General Walter Congreve estreita distâncias em missiva à esposa redigida no Xmas Day. “Darling dear – as I cannot be with you all, the next best thing is to write to you for so I get closer."

O milagre que então ocorre na No man's land, entre inimigos beligerantes, é descrito neste epistolário. A morte vive aqui, travestida de balas, artilharia e nuvens de gás venenoso. As tréguas cedo são ilustradas nas páginas do The Illustrated London News, entre outros, muitos até questionando a sua veracidade. Mas as cartas militares conservam a reflexão futura. Os Archives at Staffordshire County Council guardam agora as palavras escritas pelo General Congreve, aliás um dos distintos militares que recebe a Victoria Cross na sangrenta Great War. Do British Headquarters sito em Neuve Chapelle (Northern France), o relato pertence-lhe: "We have had a “seasonable weather” day – which means sharp frost & fog & never a smich of sun. I went to church with 2 of my battalions in an enormous factory room & after lunch took down to the N. Staffords in my old trenches at Rue du Bois Mother’s gifts of toffee, sweets, cigarettes, pencils, handkerchiefs & writing paper." O oficial cruza-se ali com algo maior: "There I found an extraordinary state of affairs – this a.m. a German shouted out that they wanted a day’s truce & would one come out if he did; so very cautiously one of our men lifted himself above the parapet & saw a German doing the same."
O centenário da primeira guerra global marca indelevelmente o ano que agora finda. Terão os decisores e os povos aprendido as lições do pesado legado histórico? Olhando em volta dir-se-á ser pouco provável. Ainda assim, a memória de 1914 acalenta algo fundo na memória europeia. — Dear and kind reader, Happy Hollidays and a Happiest New Year 2015.


St James, 16th December

Very sincerely yours,

V.



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Segunda-feira, 15.12.14


De 15 a 21 de dezembro de 2014.

Publicamos hoje o resultado de uma investigação inédita sobre a identificação e cronologia das refeições dos chamados «Vencidos da Vida» (publicada em primeira mão pelo JL, na passada semana), graças à consulta do jornal «O Tempo», dirigido por Carlos Lobo d’Ávila (coleção da Biblioteca Nacional de Portugal). Foi, assim, possível chegar à identificação correta das datas em que o célebre grupo se encontrou, pondo termo às dúvidas existentes.

imagem.JPGDa esquerda para a direita: Sabugosa, Soveral, Mayer, Ficalho, Junqueiro, Ramalho, Lobo d’Ávila,
Pindela, Eça de Queiroz e Oliveira Martins. Foto de 2 de maio de 1889, tirada por Augusto Bobone,
no jardim da casa de Bernardo Pindela, onde decorreu um almoço.


UMA BOA OPORTUNIDADE

Um dia destes, uma investigadora de questões de moda fez-me chegar a pergunta sobre onde estaria o original da fotografia dos «Vencidos da Vida» tirada em casa de Bernardo Pindela (depois Conde de Arnoso), na Rua de S. Domingos, à Lapa, em que dez dos onze membros do grupo se encontram de pé e alinhados, podendo-se apreciar as respetivas indumentárias. Sempre conheci duas outras fotografias tiradas nesse almoço do grupo, uma das quais ainda se encontra na posse de meu Pai, tendo pertencido a Oliveira Martins. A primeira vez que vi a reprodução da imagem que me era referida foi em setembro de 1983, graças a Guilherme de Castilho, na sua edição da «Correspondência de Eça de Queiroz». Devo esclarecer que o escritor referia tratar-se de uma fotografia pouco conhecida, reproduzindo-a de um recorte de revista. Até hoje nunca a vi o original, e na última edição da Fotobiografia de Eça, o meu amigo arquiteto Campos Matos conseguiu uma boa digitalização da mesma. Tive, no entanto, oportunidade para verificar haver falta de informação sobre o momento em que a referida fotografia foi tirada, pelo que vou procurar arrumar ideias sobre o dia provável em que a fotografia foi tirada, e sobre a razão de ser do suposto «vencidismo», que se desenvolveu como mito, criticado desde muito cedo pelos próprios intervenientes do grupo.

A CRONOLOGIA
Mas vamos às refeições, na maior parte dos casos jantares. Sigamos a sua cronologia. Os convivas iniciais teriam sido os parlamentares das duas câmaras – Ficalho, Oliveira Martins, Carlos Lobo d’Ávila e António Cândido Ribeiro da Costa. O primeiro de todos os ágapes foi no restaurante Tavares e seguiu-se ao discurso do Conde de Ficalho na Câmara dos Pares de 28 de junho de 1888, em que se denunciava a inaceitável paralisia da vida política. Logo em julho de 1888, Oliveira Martins, nas colunas de «O Repórter»: perguntava: «Por que não haverá um jantar semanal, um jantar alegre e até um bom jantar, a carta constitucional de um partido novo?». Mas, a que se deve a designação de «Vencidos da Vida»? O autor de «Os Filhos de D. João I», ao ouvir, nesses dias, o seu vizinho do terceiro andar da Calçada dos Caetanos, Ramalho Ortigão, ler uma descrição sobre a voga parisiense dos jantares, achou que podia usar o exemplo. À semelhança do caso então referido da Villa de Médicis - «les uns glorieux, les autres battus de la vie» - eis que o historiador considera ser uma boa ideia para o novo grupo: Vencidos da Vida… Aos parlamentares, seguiram-se os literatos (Ramalho, Eça de Queiroz e Junqueiro) e depois os palacianos, próximos do Príncipe D. Carlos (Bernardo Pindela, Sabugosa, Soveral e Mayer). Esclareça-se que é o grupo alargado que está em causa, nos jantares de 1889. E é o «Tempo», jornal de Carlos Lobo de Ávila, que nos permite fazer o seu elenco. Em 16 de fevereiro de 1889, juntam-se oito em casa de Bernardo Pindela (Ficalho, Sabugosa, Ramalho, Oliveira Martins, António Cândido, Carlos Mayer e Lobo de Ávila). Em 11 de março, há jantar no Hotel Braganza. A 20, «os vencidos» encontram-se no mesmo hotel para acolher Luís de Soveral, chegado de Londres, onde era 1º secretário da Legação portuguesa. Em 26 de março, ainda no Braganza, recebem Eça de Queiroz, vindo de Paris, tendo Guerra Junqueiro justificado a falta, por se encontrar no Minho, com o envio dois alexandrinos. Em 29, foi a vez de Carlos Mayer oferecer jantar em sua casa, a que também não compareceu Junqueiro… Neste caso, houve música, tendo Ramalho e António Cândido tocado rabeca e todos seguido para o S. Carlos, onde se cantava o «Otelo» de Verdi. Mas voltemos à lista: a 10 de abril, encontraram-se no Tavares e no dia 2 de maio regressaram a S. Domingos, à Lapa, para almoçar na casa de Bernardo Pindela. Na semana seguinte, a 9, o regenerador António Serpa Pimentel foi convidado pelo grupo, no Braganza (o que causou grande vozearia e especulação política). No dia seguinte, Jorge O’Neill convidou para sua casa, tendo faltado Junqueiro, Pindela e Cândido. Em 14 de maio, houve jantar em casa do Conde de Valbom, com a presença de Junqueiro, Eça e Oliveira Martins, Pindela e Alberto Braga. A 17 de maio, celebraram-se os 29 anos de Carlos Lobo de Ávila, em casa de seu pai, o Conde de Valbom, onde foi cantado, com versos de Sabugosa, o hino humorístico do grupo, com música da «Rosa Tirana». Por fim, a 21 de maio, houve novo jantar em S. Domingos, à Lapa, a que faltaram Ficalho e Sabugosa. Esta é a lista coeva, tudo apontando, assim, para que tenha sido 2 de maio de 1889 o dia em que o fotógrafo Augusto Bobone (1852-1910) realizou as fotografias que chegaram até nós, nas quais apenas falta António Cândido. Há, pois, só uma fotografia, realizada em estúdio, com a equipa completa dos onze membros, de que não temos indicação quando foi realizada em 1889.

ÚLTIMOS JANTARES: VENCIDOS OU VENCEDORES?
Eça referirá ainda um «jantar de Vencido» em Paris com Luís Soveral, na Maison d’Or, com bacalhau, após o que foram, com o Príncipe D. Carlos, visitar a Torre Eiffel, em 27 de agosto de 1889. E António Cândido dirá, em entrevista a Gomes Monteiro (ABC, 16.3.1922): «Oh! Os Vencidos da Vida! – como isso vai distante. (…) A ideia da formação do grupo surgiu um dia, espontânea, imprevista, entre uma colherada de doce e uma gargalhada de champanhe no restaurante Tavares, na rua Larga de S. Roque. Oliveira Martins lembrara o título Vencidos da Vida, que todos aplaudiram e, pouco depois, o Conde Sabugosa compunha uns versos que, com música da Rosa Tirana constituíam o hino do nosso grupo. (…) Soltando sempre as suas gargalhadas espirituosas e cáusticas continuavam a fazer servir jantares elegantes em que se chegou a gastar dezoito vinténs de pão e bacalhau e dezoito mil réis de champanhe…». E a «águia do Marão» lembrava ainda o jantar de despedida, oferecido a Antero de Quental, de finais de maio de 1891, no Tavares… «Pobre amigo! Parece-me estar a vê-lo… No seu olhar melancólico e profundo, em que se adivinhava a nostalgia do Além, pairava já a visão da morte que tão tragicamente o arrebataria. Pobre Antero!»… Sabugosa (lembrado por Silva Gaio) disse que o «vencidismo» era difícil de classificar. «Foi um estado de espírito originado de afinidades já existentes e das que uma convivência delas nascida, mais avolumou e multiplicou». E Eça recordou que os detratores talvez se irritassem pelo facto de se chamarem a si Vencidos «aqueles que para todos os efeitos públicos parecem ser realmente vencedores». Este, no fundo, é o grande tema. A cultura portuguesa do século XX foi profundamente marcada por esses homens que se chamaram de vencidos criticamente por causa daquilo que Eduardo Lourenço sintetizou: «interrogávamo-nos apenas pela boca de Antero e de parte da sua geração, para saber se ainda éramos viáveis, dada a, para eles, ofuscante decadência». Daí Unamuno ter considerado esse o nosso século de ouro. Não poderia haver fatalismo, mas sim sentido crítico, para que os mitos não se tornassem bezerros de ouro.

 

© Direitos reservados. Centro Nacional de Cultura.
Guilherme d’Oliveira Martins.



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Domingo, 14.12.14

Muro de Berlim.JPG

Muro de Berlim

 

10. MURO

Recentemente, o Süddeutsche Zeitung, de Munique, publicava um artigo assinado por Verena Mayer que, a dado passo, depois de referir como o célebre Muro, qual Madona de Berlim, atrai hoje ainda milhares de turistas, escrevia: Mas há os que moram cá, os Berlinenses. A maioria deles quis sempre desfazer-se do Muro, quer do que existia realmente, quer daquele - tantas vezes evocado - que persistia nas cabeças. Isso fez do Muro de Berlim uma curiosidade complexa, para não dizer um monumento dialéctico. Esse estigma, que se devia imperativamente destruir e remeter para o cemitério da História, é hoje uma atracção turística apreciada e cuidadosamente tratada... Talvez por essa contradição, que torna, diz nos a autora do artigo, o Muro numa curiosidade complexa, me ocorreu a disputa secular - entre exegetas muçulmanos do Corão - sobre a interpretação do versículo  257 da segunda surata (a da Vitela) : Nada de violência em matéria de religião. A verdade já se distingue bem do erro. Para todos esses teólogos do Islão, penso eu, não há salvação possível fora da fé islâmica. Mas o castigo reservado aos infiéis, para muitos deles, está nas mãos de Deus, que conhece os corações. E parece-me natural que o livro da revelação islâmica, contemporâneo de um movimento arábico que, condenando os ídolos, apela à união de um povo pela sua conversão ao Deus único, ele próprio se interrogue sobre a fé de muitos membros desse mesmo povo - incluindo de etnia árabe - que eram judeus ou cristãos (versículo 78 da terceira surata) : Diz : acreditamos em Deus, no que nos enviou, no que Ele revelou a Abraão, Ismael, Jacó e às doze tribos; acreditamos nos livros santos que Moisés, Jesus e os profetas receberam do céu ; não pomos diferença alguma entre eles, submetêmo-nos à vontade de Deus. E logo a seguir responde (?) o versículo 79 : Quem quiser outro culto que a submissão a Deus (Islão), esse culto não lhe será aceite, e ele será, no outro mundo, do número dos infelizes. Levanta-se assim um muro a separar fiéis e infiéis. Mas o versículo 28 da surata XVIII (A Caverna) diz claramente: A verdade vem de Deus : quem quiser crer, creia, quem quiser ser infiel, seja! Pela nossa parte (Alá), preparámos para os ímpios um fogo que os rodeará de suas paredes. A separação final, só Deus a decidirá, para a outra vida. Nesta presente, as diferentes escolas de pensamento islâmico, desde os muatazilitas do sec. VIII que, sob os primeiros califas abássidas, por influência do  pensamento helénico, privilegiavam o raciocínio lógico, foram concordando em que, sendo ela o tempo da provação, faria mais sentido aceitar a liberdade religiosa dos infiéis, designadamente os "do Livro", quando muito submetendo-os ao tributo devido pela sua condição de dhimi, a djezia. E houve bastante tolerância, como regra, nos califados e reinos muçulmanos, bem como no Império Otomano. Nos nossos dias, curiosamente, talvez pela desilusão e ressentimento consequentes à decadência árabe e à queda daquele império, que colocaram os muçulmanos da bacia do Mediterrâneo sob domínio ou influência da cristandade europeia, melhor dito, das potências ou do pensamento ocidental, a reacção islâmica espraiou-se desde vários polos de reflexão sobre o islão e a modernidade até à reafirmação da vocação necessariamente universalista e dominadora do Islão. Um dos pensadores mais influentes das correntes radicais do islamismo político, como a Fraternidade Muçulmana, o egípcio Sayid Qarb (1906-1965), defendeu precisamente que, pela sua evidente verdade, o islão não tinha nem devia convencer pela coacção. Mas... -  como explica, na sua A History of the Arab Peoples, Albert Hourani, árabe e católico, professor no St. Antony´s College da Universidade de Oxford  - para Qarb, o caminho para uma verdadeira sociedade islâmica, começa na convicção individual, transformada em imagem viva no coração e corporizada num  programa de acção. Os que aceitarem este programa formarão uma vanguarda de dedicados combatentes, usando todos os meios, incluindo a jihad, que não devem todavia ser tomados até que os combatentes tenham atingido pureza interior, mas que devem ser depois prosseguidos, se necessário, não apenas para defesa, mas para destruir toda a adoração de falsos deuses e remover todos os obstáculos que impedem os homens de aceitar o Islão... O mesmo Sayid Qarb afirmava assim como o ocidente já não tem os valores indispensáveis à nova civilização material: A liderança do homem ocidental no mundo humano está a chegar ao fim, não porque a civilização ocidental esteja materialmente falida ou tenha perdido a sua força económica ou militar, mas porque a ordem ocidental já desempenhou o seu papel e não mais possui o capital de valores que lhe conferiram predominância... A revolução científica já não conta, nem o nacionalismo e as comunidades territorialmente limitadas, que no tempo dele cresceram... Chegou a vez do Islão. Mas outros pensadores antes se debruçaram sobre a capacidade de resposta daquele ao mundo contemporâneo. O sírio Sadiq Jalal al-Asm defendeu que, sendo impossível considerar verdadeiras todas as afirmações do Corão sobre o mundo e a vida, ele devia ser esquecido em qualquer discurso científico ou filosófico, até por pretender ser, por definição, a própria palavra de Deus e, afinal, não acertar sempre. Outros, como o tunísio Hisham Djait, já pedem uma separação menos radical da sociedade e da religião : Somos pelo laicismo, mas por um laicismo que não seja hostil ao Islão, e não vá buscar a sua motivação a sentimentos anti-islâmicos. Na nossa angustiada jornada temos preservado a própria essência da fé, uma profunda e desenraizável ternura por esta religião que iluminou a nossa juventude e foi o nosso primeiro Guia para Deus e a descoberta do Absoluto... O nosso laicismo tem os seus limites no reconhecimento da relação essencial entre o estado, certos elementos de conduta social e moral, a estrutura da personalidade colectiva e a fé islâmica, e no sermos pela manutenção dessa fé e pela sua reforma. A reforma não deve ser feita em oposição à religião, deve ser feita simultaneamente pela religião, na religião e independentemente dela (em "La personnalité et le devenir arabo-islamiques", Paris,1974). Afinal, o que encontramos neste texto é um apelo à tradição, tal como ela deve ser entendida e praticada, para que não haja muro entre o nosso presente e o nosso passado, entre a nossa fé e a dos outros como estigma de separação e condenação. Num mundo em que é cada vez mais impossível ignorarmos os outros como notícia de existência próxima, somos todos chamados a dar o passo fraterno de João Paulo II e Gorbatchev, que destruiu a "cortina de ferro", e de que o derrube do "muro de Berlim"  se tornou símbolo. Curiosamente, no país em que a "metade soviética" tinha na altura um líder (Honecker) que era, afirmativamente, o maior adversário de Gorbatchev na Europa de Leste… Na instabilidade em que hoje vivemos, infelizmente, o medo do outro, ou simplesmente o ódio e o incontrolado desejo de assentar poderes enclausurados em nome de hipotéticas seguranças, não só tem levado a conflitos e intervenções bélicas, como fez proliferar, por esse mundo fora, a imposição de muros por várias partes construídos. Se a queda do de Berlim, em 1989, marca uma ligeira baixa e curta estabilização do seu número total (então em cerca de 15), posteriormente, sobretudo a partir dos atentados de Setembro de 2001, ele cresce em flecha e atinge os 60 este ano. Invocando o necessário controlo de fluxos migratórios, a protecção contra ataques terroristas, a contenção de conflitos armados ou de tráfegos de drogas, ergueram-se barreiras físicas entre Israel e a Síria, Líbano, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Egipto e Jordânia, entre a Índia e o Paquistão, Birmânia e Bangladesh, o Irão e o Afeganistão, entre emiratos árabes, a Arábia Saudita e outros, em Chipre, Kazaquistão e  Uzbequistão, entre os EU da América e México, Marrocos e Saara Ocidental, enclaves espanhóis em Marrocos, África do Sul, Moçambique, Zimbabwe e Bostwana, Irão e Iraque, a Turquia e Bulgária e Grécia, e mais ainda, sem falar nas extensões e novidades previstas... O Muro ubíquo, esse está no pensarsentir dos homens, sempre que o enfraquecimento das tradições de valores de uma civilização leva as sociedades à xenofobia e à agorafobia. Temos de aprender a lidar, democraticamente  ou, melhor dizendo  -  para lembrar a palavra de ordem de João Paulo II  - solidariamente, com a globalização, num mundo complexo, cheio de mágoas da História e de injustiças presentes. Para animar a reflexão, deixo a resposta da canadiana Elisabeth Vallet, professora na Universidade de Québec e autora de Borders, Fences and Walls -  State of Insecurity? a uma pergunta feita pelo Courrier International "Porque é que montou um programa de investigação global sobre os muros?"): Os muros pareciam ser uma resposta a um mundo que tinha evoluído e ao qual tomávamos o pulso porque o 11 de Setembro de 2001 tinha acontecido. A novidade era que as democracias se muravam. O fenómeno tornava-se global precisamente quando tínhamos passado uma década a falar de um mundo sem fronteiras. Em 2007 conseguimos um financiamento para a investigação e reunimos um grupo de quase todos os que estudam os muros fronteiriços. A nossa hipótese era a de que o 11 de Setembro tinha literalmente gerado uma crispação identitária que se manifestou com a construção de muros. A nossa intuição inicial estava errada. Surgiu então a ideia de que a globalização aberta era um embuste e que a maioria das pessoas sofriam mais as consequências da globalização do que dela beneficiavam. E assim se inscrevia o muro numa lógica de roda dentada. Queiramos que a globalização se vá fazendo pela solidariedade.


Camilo Martins de Oliveira



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Sábado, 13.12.14

ArtePovera.JPG

Arte povera e a experiência primária do real.
 

‘The commonplace has entered the sphere of art. The insignificant has begun to exist. Physical presence and behaviour have become art. They eliminate from their inquiry all which may seem mimetic reflection and representation or linguistic custom in order to attain a new kind of art.’, Germano Celant In ‘Arte povera – Im spazio’, 1967
 

No final da década de 1960, assistiu-se à desmaterialização do objecto da arte, isto é, a arte não precisa mais ter uma forma física para ser arte. Palavras como conceito, sistema, abertura, estrutura, processo, situação, informação, público e sociedade tinham particular importância na produção da arte. O trabalho do artista deve então ser feito a partir da própria situação real – podendo o fruidor intervir nessa situação e até mesmo alterá-la. Não existe mais o culto do objecto isolado. Não existe mais uma cultura universal, aceita-se trabalhar com novas e diversas realidades.  

Ora, em resposta à Pop Art e ao minimalismo surge em Itália um grupo de artistas (como por exemplo Giuseppe Penone, Michelangelo Pistoletto, Mario Merz e Marisa Merz) que reclama por uma produção de objectos de arte capaz de contrariar a ideia de riqueza, de poder, trabalhando contra a ordem tecnológica do mundo, contra a produção industrial na arte. A Arte Povera é um fenómeno que surge associado à recusa do artista em ser artista. O artista não deve fazer uma obra de arte porque a obra de arte é um objecto e numa sociedade de consumo é mercadoria associada à riqueza e ao poder. O artista não é um produtor mas um indivíduo dedicado à projecção independente da actividade humana (Christov-Bakargiev: 1999). O artista agora interessa-se pelo presente e pelo homem real. (Argan: 1992)

Ao ser arte do presente tem de ser um acontecimento integrado numa realidade próxima e reconhecível, envolvendo directamente o público em situações enigmáticas e desconcertantes. O artista e o fruidor passam a ser em simultâneo espectador-actor.

Na expressão de Germano Celant o lugar-comum entra na esfera da arte, o insignificante começa a existir, a presença física e o comportamento tornam-se arte. (Christov-Bakargiev: 1999)

O grupo Arte Povera está sobretudo interessado em descobrir intersecções entre a arte, a vida, a natureza e a cultura. É um fenómeno que se manifesta ora conceptual, ora sensual, literal ou metafórico, poético. É um processo do presente, que aceita a contradição, a complexidade, a abertura, a fluidez e a subjectividade. Os artistas não rejeitam totalmente as técnicas tradicionais – até porque esta batalha já tinha sido programada por uma geração anterior com Yves Klein e Piero Manzoni.

A Arte Povera traz de volta à sociedade acontecimentos essenciais (como a vida e a morte). E é pobre no sentido em que reduz o objecto artístico ao elementar, através de gestos e proposições áridas – é por isso um fenómeno anti-intelectual, como se pretende-se atingir um estado poético a partir dos meios mais simples (Christov-Bakargiev: 1999, p.20). A experiência que cada pessoa tem do mundo torna-se essencial, implicando uma libertação gradual de preconceitos, regras e normas da linguagem da representação e da ficção que impedem uma ligação simples e significativa do eu com o mundo. A Arte Povera não dispõe de uma técnica própria e não procede a uma selecção de materiais artísticos mas utiliza tudo o que constitui matéria da realidade mundana manufacturada (néones, vidros, panos, tubos) ou matéria orgânica (vegetais, animais vivos, madeira, terra, fogo, água) ou ainda nem mesmo utiliza material algum, tomando como tal o ambiente, as condições do aqui e do agora ou até mesmo a pessoa física do artista. Não se pretende descobrir a relação entre o natural e o artificial, mas sim entre estruturas idênticas como natureza e cultura. A arte passa a ser autêntica e espontânea, passa a ser uma experiência real, vivida directamente, primária e não mediada através de uma representação (figurativa ou abstracta), ideologia ou de uma linguagem codificada. A energia da experiência primária pretende corresponder por um lado a forças físicas básicas da natureza (como a gravidade e a electricidade), por outro lado corresponder a elementos fundamentais da natureza humana (como vitalidade, memória e emoção).

A crítica como meio credível para descodificar e avaliar o fenómeno artístico é rejeitada e antes substituída por comentários ou entrevistas aos artistas. O que interessa na Arte Povera é maximizar a experiência universal e individual com o mínimo de linguagem. É portanto uma arte pública porque se alimenta da interacção directa e concreta do Homem com o seu contexto cultural e ambiental. (Christov-Bakargiev, 1999)

Ana Ruepp



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Sexta-feira, 12.12.14

al corão.JPG
Al-Corão

3. AL-AKHTAL (630-710)
 

Poeta árabe cristão, viveu, como Djamil, que era muçulmano, já no islão dos Omíadas, tendo aliás sido considerado, pelo quinto califa daquela dinastia, ´Abd-al-Malik (685-705), o cantor da excelência dessa família reinante. Nascido numa tribo de beduínos nómadas, com a qual fazia as suas peregrinações ao santuário de São Sérgio, manteve-se sempre fiel a esse estilo de vida e à sua fé cristã, que toda a vida testemunhou por um crucifixo que trazia pendurado ao pescoço. Nada disso o impediu de gozar alguma boémia, apreciando bons vinhos e a companhia galante de cantadeiras. E era reconhecido como homem de bem, pessoa íntegra e fiel. Um dos seus elogios da dinastia Omíada reza assim:

      Grupo coeso em defesa do direito,

      aborrece as indecências verbais,

      foge a vergonha, e de paciência é feito

      o seu combate às coisas mais fatais.

      Sol de  inimizade será até quando

      recusarmos a sua direcção...

      Mas pela bondade se vai ilustrando,

      alto sol da humana condição!

Todavia, outros poemas, como o seguinte, dizem melhor o talento do poeta, o seu poder de observação, e sobretudo esse olhar realista e moralista, simultaneamente irónico e compassivo:


Um bêbado

      Abatido em combate pelo vinho

      a custo ergue a cabeça, bebe e berra,

      pesam-lhe os ossos, mexem de mansinho

      as juntas do seu corpo que se emperra...

      Sustemo-lo entre nós sempre tombando,

      arrastamos-lhe o corpo feito morto,

      alheio nem parece ir-se lembrando

      de que pensava e não andava torto...

      Colado ao chão, como se lapa fosse,

      levantá-lo é torná-lo mais pesado,

      levá-lo para o quarto, nem a couce,

      mas vai como lixo em saco arrastado.

A métrica "tawil" apresenta uma forma única do primeiro verso e três variantes do segundo. Neste poema, a rima era em "lu":  é claro que o reinventámos em português, procurando manter-lhe os propósitos.


Camilo Martins de Oliveira



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Quinta-feira, 11.12.14

Jantar CNC.JPG

Falar de cultura em tempos de crise não pode significar uma fuga à realidade. Estamos no centro das preocupações fundamentais que devem situar-se na ordem do dia da cidadania ativa. É a democracia que está em causa – num tempo em que a «legitimidade do exercício» se tornou mais importante do que nunca. É preciso encontrarmos caminhos para que a confiança e a coesão social, a verdade e a justiça sejam sentidas pelas pessoas. De que estamos a falar? Antes do mais, de um triângulo envolvendo Educação, Ciência e Cultura. A ligação entre as três realidades é fundamental. Sem o valor da aprendizagem e a capacidade de transformar a informação em conhecimento, sem ideias claras e distintas, sem o trabalho e a exigência, não combateremos a mediocridade. É uma questão de sobrevivência. O sentido crítico, a investigação e a experiência, a cooperação científica, a avaliação, a relevância e a comparação internacional são caminhos contra a irrelevância. Sem a ligação entre as Humanidades e a investigação científica, sem o diálogo entre as artes e o conhecimento, sem a defesa do património histórico, sem atenção à contemporaneidade, não haverá desenvolvimento humano digno desse nome. 

 

Não se caia na tremenda armadilha do «fatalismo do atraso» ou da condenação de tudo o que se fez. Sempre que nos acomodámos decaímos. Se avançámos na educação e formação temos de prosseguir, percebendo que nunca há conhecimentos a mais. Nos últimos quarenta anos, progredimos bastante – mas importa continuar, com exigência redobrada, já que o mundo não esteve à nossa espera. Precisamos de pôr os olhos no que de melhor se faz noutros países – apostando na colaboração e no intercâmbio, com aproveitamento dos nossos jovens que partem, e que serão auxiliares preciosos para uma internacionalização de qualidade. A nossa inserção na União Europeia deverá, por isso, ser proactiva e não meramente defensiva. Daí que as saídas económicas, o rigor financeiro público, o governo económico europeu e o desenvolvimento sustentável com justiça distributiva obriguem a valorizar a qualidade da democracia e a criação cultural. E temos de insistir na importância das Humanidades, não fechadas nos salões, mas capazes de compreender os caminhos novos do pensamento e da ciência. 

Ao entrar na celebração dos setenta anos de vida (!), o Centro Nacional de Cultura (CNC) tem procurado ser fiel ao espírito dos seus principais artífices: Sophia e Francisco Sousa Tavares, Gonçalo Ribeiro Telles, António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva ou José-Augusto França. Importa compreender o que um dia disse Vasco Graça Moura sobre o facto de o CNC fazer duravelmente o que tantas vezes o Estado não consegue. Lembremo-nos da Convenção do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural, da experiência pioneira das rotas culturais, do património imaterial da UNESCO, do «Poems from the Portuguese», do «Disquiet», dos «Portugueses ao Encontro da sua História» (de que «Na Senda de Fernão Mendes», Gradiva, 2014, é uma memória breve)… Isto, sem falar da importância do teatro de Fernando Amado e Almada Negreiros, da Casa da Comédia, de António José Saraiva, de Eduardo Lourenço, da tradição de «O Tempo e o Modo» e de «Raiz e Utopia»… De facto, a cultura não se confunde com jogos florais. Obriga a pôr a cidadania e a dignidade humana em lugar primeiro, e a garantir que o poder democrático prevaleça sobre os interesses económicos. Precisamos de apostar na qualidade e na justiça, por isso Bobbio falou-nos da liberdade igual e da igualdade livre. Como disse Eduardo Lourenço: «a cultura – mesmo a mais excitante – não é um fim em si mesma. Precisamos de um demónio crítico e irónico para nos ajudar a viver com menos delírio e euforia…» («A Nau de Ícaro», 1999). Em tempo de crise, falar de cultura, de ensinar e aprender e da investigação científica, a serio, é procurar, no fundo, caminhos de Renascença…

 

Guilherme d’Oliveira Martins



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Artur Rimbaud.JPG

Rimbaud o adolescente que apelou à necessidade de «se ser absolutamente moderno.»

Poeta que escreve o essencial da sua obra entre os 16 e os 19 anos e que se reconheceu na missão que lhe cabia na sua pertença ao que ele chamava de «mundo trespassado».

Nasceu em 1854 e ainda hoje a sua escrita tem o carácter original das visões e o modo como só elas sabem explorar os limites.

Não é vulgar tentar pensar um poeta através dos seus poemas, e, no entanto, é precisamente este o exercício que Yves Bonnefoy ofereceu de Rimbaud fazendo-lhe dialogar escrita e silêncio e vida.

«Para entender Rimbaud leia-se Rimbaud» é a divisa de Bonnefoy.

Artur Rimbaud 2.JPG 

E num saber iniciático lá no alto bem dentro do sótão, conheceu-se mundo e ciências e Oriente e amor de tristes olhos azuis e "um jovem Shakespeare” tudo influenciou de lés a lés, e Paul Verlaine, também num ocioso movimento decadente, terá entrado solícito para a mansão dos pintores passados e futuros e foi ponto assente que muito se viu do quanto basta.

Havia então que estar de partida.

I

Aos dezassete anos, não somos para nos levar a sério.

- Uma bela tarde, fartos das cervejas e limonadas,

Dos cafés barulhentos de lustres rutilantes!

- Acolhemo-nos às tílias verdes junto à estrada.
 

Atenta ao tesouro, encontrei-te Arthur Rimbaud na sequência e na consequência.

E não és o caos! Quanto muito a estupefacção esperou-te cedo e tu, morgado de um céu pardo e parco.

 

Teresa Bracinha Vieira

Dezembro 2014



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Quarta-feira, 10.12.14

gil vicente.JPG
Gil Vicente
 

ORIGENS DO TEXTO-ESPETÁCULO EM PORTUGAL

Pretendemos agora abordar as grandes referencias do teatro no ponto de vista de espetáculo, sendo certo que o espetáculo teatral envolve necessariamente um texto, mesmo cantado e com apoio musical, – ou na alternativa, estaremos perante dança, mimica, o que se quiser, mas não propriamente teatro. Tal como aliás, um texto dialogado pode não significar ou constituir uma expressão teatral se lhe faltar  dimensão de espetáculo.

O que envolve ainda outra dimensão estética, se a expressão me  é permitida.  Da mesma forma que textos dialogados ou roteiros de espetáculo sem texto não são propriamente teatro,  ou da mesma forma, já gora, que a essência e a especificidade do cinema reside, como bem sabemos, na realização e não tanto no argumento ou no dialogo, é também certo que a ópera é teatro – e não há que separar, em rigor, a ópera e a opereta da revista, a não ser na quantidade/qualidade da expressão musical e na intencionalidade, digamos assim. Vimos aqui exemplos de operetas e  de revistas de grande qualidade de texto – espetáculo.

Mas aí, implicitamente se remeteu para a componente musical. E caiu-se então noutra área de analise: o que distingue uma revista de uma opereta?  E mais: o que distingue o texto (libreto) de uma ópera, de um texto de revista ou de teatro declamado com suporte musical?

Damos aqui exemplos históricos.

Desde logo, Gil Vicente. Lucinana Segagno  Picchio , é taxativa: “Gil Vicente, além de autor, também era músico e ator. Muitos dos textos por ele idealizados e não só o Monólogo do Vaqueira, foram representados com o seu direto concurso. Mas da companhia que devia existir e recrutar as suas próprias forças entre aquela plêiade de cómicos que, também em Portugal, começava a constituir-se como categoria, não se lê palavra”. (in”História do Teatro Português”  pag. 85) Efetivamente, a tradição aponta para essa intervenção no espetáculo, extensiva aliás a Paula Vicente, filha de Gil Vicente e coautora, diríamos hoje, com o irmão Luis,  da “Compilaçam de Todalas Obras de Gil Vicente” ( 1562 ).

E são inúmeros os exemplos destacáveis nas “notas de cena”,  ou nos próprios textos vicentinos, a começar no iniciático “Auto da Visitação ou Monólogo do Vaqueiro”  que no final  convoca os “trinta ou mais companheiros/ porcariços ou vaqueiros” para homenagear o nacimento do futuro D. João III… Ou, entre, insista-se, tantas  evocações musicais,  que não podemos aqui enumerar - por exemplo a “cantiga feita e ensoada pelo autor” e o bailado e vilancete , ou a “ folia e cantiga “ do “Auto da Sibila Cassandra” – e  estes são meros exemplos, entre dezenas de outros, nas peças de Gil Vicente .

João de Freitas Branco, Na “História da Musica Portuguesa”, desenvolve o tema, salientando que “Gil Vicente transplantou para o seu teatro música de índole popular, conveniente aos personagens e ao ambiente em que cenicamente vivem. Mas não deixou por isso de aproveitar também os géneros musicais de corte”, chamando entretanto a atenção para a entre a  musica nas cenas vicentinas e o espetáculo de ópera.

Mas refere em particular, entre outras peças, o prologo do “Triunfo do Inverno” que indicia “uma decadência dos costumes musicais do povo na passagem do primeiro para o segundo quartel do seculo XVI” . E cita. “Em Portugal vi eu já/Em cada casa pandeiro/ E gaita em cada paleiro; / E de vinte anos para cá/Não há gaita nem gaiteiro” (… ) Se olhardes as cantigas/ todas têm som lamentado/ carregado de fadigas/ longe do tempo passado”! (cfr. pags. 58/59)

Insista-se: Gil Vicente era também ator, e de atores nos ocupamos agora nesta série de artigos. E assim, podemos e devemos voltar muito atrás nas implicações cénicas e até musicais da “História do Teatro Português” – e muito especificamente ao reinado de D. Sancho I que em 1193 faz doação de uma propriedade (casal) da coroa a dois histriões ou bobos, Bonamis e seu irmão Acompaniado , os quais, como quitação escrevem: “Nós, mimos acima referidos,/devemos ao nosso Rei um/ arremedilho para efeito/de compensação”. É Teófilo Braga quem o refere: e é esta a primeira referência direta a atores. (cfr. Teófilo Braga “Gil Vicente e as Origens do Teatro Medieval”, ed. 1898 pags. 25/26).

Mas há outras expressões teatrais que vêm da idade Média e se prolongam até às primícias do Renascimento. Refiro especialmente os chamados goliardos, aludidos no Cancioneiro Geral (1516) de Garcia de Resende através de um poema de Álvaro Brito Pestana que fala em “Estudantes pregadores/  mentem santas escrituras/ em Sermões/derivados de amores” -  e de tal forma que, recorda Teófilo , foram objeto de  proibições e condenações ao longo do seculo XVI.

Mas o Cancioneiro Geral inclui outras expressões dramáticas, designadamente as “Trovas à Morte de D. Inês de Castro” do próprio Resende, mas sobretudo Anrique da Mota, autor de poemas dialogados, sobretudo o “Pranto do Clérigo” que chora , tal como lado escrevi ”porque  lhe desapareceu uma pipa de vinho, o que permite a  ligação à (posterior) Maria Parda vicentina (in”Teatro em Portugal – 2013 pag.19). 

DUARTE IVO CRUZ



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