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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 20 a 26 de novembro de 2017.

 

«Por Tierras de Portugal y de España» de Miguel de Unamuno (1911) é uma obra fundamental, uma vez que permite, através de uma visão de fora sobre Portugal, compreender melhor a nossa realidade ontem e hoje.

 

QUE SÉCULO DE OURO?
«Sem negar o valor de alguns dos clássicos portugueses, devo dizer que, em meu entender, a literatura portuguesa, que merece ler-se, data do século passado, do período romântico, da época de Almeida Garrett e de Herculano. E creio que a sua verdadeira idade de ouro é a atual». Assim se exprime Unamuno sobre a literatura portuguesa, em texto datado de Salamanca, de março de 1907. De que fala o pensador? Naturalmente, das repercussões poderosas na geração de 1870, não escondendo profunda admiração pelos seus protagonistas – Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão. Os três primeiros já não faziam parte do número dos vivos, mas os dois últimos ainda estavam presentes. E o mestre salmantino invoca uma célebre conversa com Junqueiro: «O Cristo espanhol, dizia-me uma vez Guerra Junqueiro, está sempre no seu papel trágico: nunca baixa da cruz, onde, cadavérico, estende os seus braços e alarga as suas pernas cobertas de sangue; o Cristo português anda por costas e prados e montanhas, com a gente do povo, diverte-se com eles, merenda, e de vez em quando por pouco, para desempenhar o seu papel, regressa à cruz. (…) Aqui há o culto da morte; só que em vez de ser trágico, como em Espanha, é elegíaco e triste»… E ao dizer isto, o mestre sente encantamento. É verdade que não deixa de reconhecer, por comparação, as virtudes da literatura catalã, mas nas letras portuguesas vê um sinal da originalidade e o selo de uma identidade viva. E considera João de Deus o mais português dos nossos líricos do momento, corroborando Junqueiro esta consideração sentida. Mas Antero de Quental é outra coisa – comparável aos maiores na filosofia e na sensibilidade poética. «Em Espanha não temos nada que se assemelhe. Campoamor é a seu lado um falsificador do ceticismo. Quental foi uma das almas mais atormentadas pela sede de infinito e pela fome de eternidade. Há sonetos seus que viverão enquanto viva a memória das gentes, porque serão traduzidos, mais tarde ou mais cedo, em todas as línguas dos homens atormentados pelo olhar da esfinge». António Nobre apresenta o tom de um desespero resignado ou de resignação desesperada, que aparece noutros passos da literatura portuguesa.

 

CHORAR AMARGO, RIR BURLESCO
Quer o chorar amargo, quer o rir burlesco fazem parte da mesma atitude. E vem à baila Eça de Queiroz e as suas implacáveis sátiras que são tão dolorosas e exprimem queixume, como a mais triste das elegias. Os exemplos são significativos – A Ilustre Casa da Ramires e A Cidade e as Serras, mas também a corrosiva e supercrítica Correspondência de Fradique Mendes. Compreenda-se que é o autor do Sentimento Trágico da Vida a falar, apaixonado pelo caráter complexo do português. Há uma identidade construída num cadinho com ingredientes inesgotáveis. Mas Camilo Castelo Branco, com “alma tormentosa e apaixonada”, teria sido mais espanhol que português, com sinais de Quevedo. E Ramalho fala de proximidade com a dinastia dos Amadises e dos Palmeirins, numa participação evidente nas raízes do génio peninsular. E Oliveira Martins – o mais artista e penetrante dos historiadores - na História da Civilização Ibérica faz a análise desse génio, ilustrando-o com acontecimentos e com a demonstração das evidentes diferenças e complementaridades. Mas, para que não restem dúvidas, fica ainda para Unamuno a visão profética da língua portuguesa (e das línguas ibéricas) nas novas culturas da América do Sul, com evidentes e imprevisíveis potencialidades. Mas o pessimismo português impressiona o autor de Agonia do Cristianismo – que sobre Oliveira Martins diz que “o português é constitucionalmente pessimista”. O regicídio de 1908 deixa-o atónito, procurando compreender tão violenta expressão da ira do manso. «Neste povo doce, pacífico, sofrido e resignado, mas cheio de paixão por dentro, os crimes de sangue são raros, muito raros, raríssimos; mas entre os que ocorrem costuma havê-los muito mais atrozes e violentos que aqui em Espanha, onde por desgraça são mais frequentes tais crimes do que ali». Na literatura há manifestações contraditórias – para Herculano, a quem faltaria veia de artista, a literatura era uma missão e não um diletantismo, contudo para Garrett as coisas seriam diferentes já que usou a arte para descobrir o fundo do palpitar das entranhas portuguesas. “Que ouviu? Um coro de aflições tristes, uma resignação heroicamente passiva, uma esperança vaga, etérea na imaginação de uma jovem tísica e no desvario de um escudeiro sebastianista”. Eça cultivou a arte por ser estrangeirado…

 

ACREDITAR OU NÃO…
Miguel de Unamuno julga ver nestes diversos sinais que “estes elegíacos pessimistas não acreditavam na pátria”. E lê as últimas páginas de Portugal Contemporâneo. "Submissos até quando se rebelam”. O país dormiria e sonhava – seria dado despertar ainda a tempo? Parece haver contradição entre considerar uma idade de ouro literária e artística e verificar a persistência de uma passividade endémica. Mas é na superação dessa contradição que os homens da Geração de 1870 e da Vida Nova vão poder encontrar forças para superar o atraso. “Não foi por acaso que Herculano falou do plácido sepulcro rodeado de esperança?”. E Unamuno recorda então o culto muito português das almas do Purgatório, lembrando-nos do mar como um enorme lugar de naufrágios e de mortes. Não por acaso, a nossa criação literária alia o lirismo e a história trágico-marítima. E invoca a figura do “Desterrado” de Soares dos Reis, como um autêntico símbolo, daquilo que o escritor não sabe explicar sobre o que o atraía Portugal. “Que terá esta terra, por fora risonha e branda, por dentro atormentada e trágica? Eu não sei; mas quanto mais lá vou, mais desejo voltar. (…) Parece que por ali pousa a lúgubre sabedoria do Eclesiastes. Num povo triste, tristíssimo, as pessoas divertem-se, sem dúvida, mas divertem-se como se dissessem: comamos e bebamos, que amanhã morreremos”. Marcado pela morte do amigo Manuel Laranjeira e recordando o fim trágico de Antero, de Camilo e de Soares dos Reis, Miguel de Unamuno fala de um país suicida. “Este é um povo não só sentimental, mas também apaixonado, ou melhor dito, antes apaixonado do que sentimental. A paixão trá-lo à vida, e a mesma paixão leva-o à morte”… Cultor de paradoxos, o pensador espanhol não ilude a contradição, agravada pelas circunstâncias – o século de ouro é ditado pela forte consciência existencial e crítica. E a inércia do vulgo é contrariada pela determinação do mundo das ideias, tornando a ação arte, a arte vontade e a vontade determinação…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Contemplo mistérios nesta hora da manhã nascente, quando o irmão sol se levanta e enche o ar de uma luz de ouro amigo, que envolve os campos, e as coisas todas suas, numa carícia de deslumbre. Vislumbro ao longe, nas barreiras do lado de lá do vale, o fumo de uma queimada... Creio que ainda não estarão autorizadas, mas cada cabeça terá sua sentença... Pouca gente entende que a beleza ou bondade das coisas também nos alertam para a sua e nossa fragilidade e imperfeição. E uma vez mais me ocorre esse conceito augustiniano e tomista de que a prudência é amor sagaz...

 

   Assinei hoje uma petição relativa à necessidade de maior consciência e responsabilidade na prevenção e controlo de fogos que destroem vidas e fazendas. Tê-la-ia certamente redigido de outro modo, não concordarei com todo o seu fraseado, mas entendi que devia subscrevê-la, pela simples razão de que, não culpabilizando ninguém em particular, responsabiliza-nos todos; é um grito de justa indignação - mesmo que abstrata - com que me solidarizo, e é, sobretudo, uma confissão de perplexidade, em que comungo. Fácil será sempre apontar culpas a outros, difícil é mesmo interrogarmo-nos sobre a responsabilidade, isto é, sobre as respostas a dar. A perplexidade, o não saber explicar cabalmente, é o primeiro humilde reconhecimento de que a correção do mal exige também o nosso voluntariado.

 

   O mal é inexplicável, como essa ausência ou silêncio de Deus, que todos já sentimos. Sabes, Princesa de mim, que, por isso mesmo, acredito que a presença de Deus se refaz em nós pelo amor que formos capazes de entregar aos outros. O bom samaritano, esse homem que generosamente socorre a vítima de salteadores, um desgraçado moribundo - que todavia é filho de um povo que ostraciza os samaritanos - ensina-nos que o nosso próximo tanto é o socorrido como o socorrente. Qualquer tragédia não acontece para mutuamente nos afrontarmos, antes talvez suceda para nos levar a pensarsentir que se antes houvesse amor atento, não seria necessária a desgraça : daí concluímos que o caminho fraterno quiçá nos evite novas calamidades...


   O sentimento de culpa ajuda pouco: veja-se o caso de Judas ou, em contraponto, o engano que pode ser o alívio certo preconizado pelos defensores de qualquer secreta confissão auricular. O Deus dos vivos, esse que nos anima, não marca presença no castigo, amanhece no horizonte da nossa vida quando nos chama e pede resposta. A responsabilidade é precisamente essa intenção, inteligência e vontade nossas, de aderir e cooperar no projeto de um mundo melhor. Desde o mais pequenino dos gestos fraternos às grandes construções comunitárias. Na Idade Média, sobretudo a partir do século XIII, quando uma sociedade nova ia emergindo do defeso feudal, a festa do Natal era mais calorosamente celebrada do que a da Páscoa: o mistério da encarnação do Verbo era, logo a partir das semanas do Advento, que o anunciavam, celebrado como o acolhimento do Deus connosco, o Emanuel. O tempo terrestre e humano tornava-se assim sagrado e urgia no apelo à edificação de um mundo novo...

 

   O chamamento à responsabilidade pessoal e coletiva é um convite à alegria partilhada com Deus, que devemos amar acima de tudo, e todos os humanos que amaremos como a nós mesmos... Traduzo-te agora um trecho de Les Mots, do Jean-Paul Sartre, uma narrativa autobiográfica da sua infância: Durante alguns anos mais, cultivei relações públicas com o Todo Poderoso; em privado, deixei de o frequentar. Só por uma vez tive o sentimento de que Ele existia. Tinha brincado com fósforos, e queimado um pequeno tapete; estava a disfarçar o meu disparate quando repentinamente Deus me viu e eu senti o Seu olhar no interior da minha cabeça e sobre as minhas mãos; andei à roda na casa de banho, horrivelmente visível, um alvo vivo. Salvou-me a indignação: fiquei furioso com uma tão grosseira indiscrição, blasfemei, murmurei como o meu avô: «Santo nome de Deus de nome de Deus de nome de Deus!». Ele nunca mais olhou para mim. As palavras a negro são as que, numa edição francesa da Folio, a minha filha Teresa, aos dezassete anos, aluna da Columbia University (New York), sublinhara no texto. E que me recordaram uma estrofe do poema La Conscience, na Légende des Siècles, do Victor Hugo. Traduzo:

 

               Ele disse então: «Quero morar debaixo do chão

               Como homem solitário num sepulcro;

               Nada jamais me verá, nunca verei nada mais.»

               Cavou-se por isso um fosso, e Caim disse: «Ficou bem!» 

               E logo desceu sozinho para debaixo de tão sombria abóbada.

               E quando se sentou na sua cadeira às escuras

               E sobre a sua fronte se fechou o subterrâneo,

               O olho estava no túmulo e olhava para Caim.

 

   Seria o olho do Deus bíblico, quiçá o mesmo que o jovem Sartre expulsou? Esse olhar ferozmente vigilante de Quem está sempre à procura de castigar, como no relato do livro do Génese, em que Deus expulsa do paraíso o primeiro casal humano, o tal que comeu o fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal: Depois, Yahvé Deus disse: «Eis que o homem se tornou como um de nós, para conhecer o bem e o mal! Que doravante não estenda mais a mão, não colha também o fruto da árvore da vida, nem o coma, nem viva para sempre!». E Caim, filho de Adão e Eva, concebido já fora do Éden, matará seu irmão Abel. A humana condição inicia assim uma caminhada de perdição. Tiago Voragino, de quem tanto te tenho falado, começa deste modo o prólogo da sua Legenda Aurea: A totalidade do tempo da vida terrestre divide-se em quatro: o tempo da perdição, o da renovação ou do chamamento, o da reconciliação e o da peregrinação. Noutra carta voltarei a esta ideia, a que Jacques Le Goff chamou La Recherche du Temps Sacré. Agora, quero apenas dizer-te que, nessa organização medieva do tempo terrestre pelo ano litúrgico que o sacraliza, a era da renovação culmina com o nascimento de Jesus, esse momento em que Deus vem habitar a nossa condição e toca a reunir todos para obra comum.

 

   Termina aí o tempo da perdição e o temor do Deus castigador. A todos, Cristo diz que sigam o seu caminho e não tornem a pecar. Li hoje, nos jornais, o acórdão do tribunal da relação do Porto que confirma a suspensão da pena dada aos agressores por violência e outros crimes contra uma mulher adúltera, justificando tal decisão, entre outros fundamentos, no seguinte: Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. [sic]. A memória que guardo da mulher adúltera na narrativa evangélica é a de Jesus surgir entre os que iam apedrejá-la e dizer-lhes: «Quem não pecou que lhe lance a primeira pedra». E, depois de todos se terem retirado, envergonhados e silentes, apenas disse à mulher que fosse em paz e não voltasse a pecar. Não há renovação possível sem limpeza prévia do nosso olhar sobre nós mesmos e os outros.

 

   O exercício da justiça é certamente indispensável ao bom funcionamento de qualquer sociedade. Mas sempre pensossinto, Princesa de mim, que a primeira condição prévia à justeza da justiça a fazer é a limpeza do olhar do juiz, a inexistência de preconceito. A segunda será a benevolência, no sentido de querer bem, isto é, de criar condições para que, ao tempo da perdição suceda o da renovação e da reconciliação. Para todos nos encontrarmos construtivamente cooperantes no tempo da peregrinação, que é, afinal, o da vida terrestre da nossa condição humana. Quiçá Yahvé/Deus nos tenha impedido de conhecer logo a diferença entre o bem e o mal, talvez por isso mesmo sejamos livres. Mas quando Deus se arrependeu da nossa liberdade, entregou-nos o seu filho único, para que essa liberdade fosse ainda maior: porque só o amor, que é querer bem, pode vencer a injustiça, que é querer mal. Pela nossa condição humana, somos sempre cúmplices, quer no bem, quer no mal. Por isso, qualquer sanção necessária a evitar males maiores nunca pode ser uma condenação definitiva (como a pena de morte), mas sim, seja qual for o castigo imposto, uma provação que leve o infrator a encontrar a sua responsabilidade. Não tenho, Princesa, muitas ilusões sobre sistemas prisionais que entregam a defesa dos réus a juristas ainda principiantes, sem mais apoios - por ser "mais barato" ou simples estágio - nem disponibilizam o acompanhamento clínico exigido em casos de reincidência ou simplesmente desadaptação ou desafio social. Num tempo em que tantos infelizes fatores impelem muitas pessoas a assumirem atitudes e comportamentos exibicionistas, agressivos, por mimetismo do que lhes é dado ouvir e ver... 

 

... e entusiasmos facciosos, clubistas ou partidários, as levam a gritar indignações e pedir vindictas... o exercício da justiça social deve ser, cada vez mais o da prudência no juízo - o tal amor sagaz - e o da inteligência que desvenda a repetição banalizadora de acusações, a promoção de bodes expiatórios, a indignação epidérmica, como sinais certos dos demónios disfarçados que nos espreitam. 

 

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

DOIS TEATROS EM MONÇÃO

 

Já aqui invoquei o chamado Teatrinho do Palácio da Brejoeira, em Monção: destacando a sala de teatro que valorizou o, já em si mesmo notável Palácio. Recordei então a relevância deste acrescento dedicado às artes do espetáculo, o que, na altura o referi, não é muito habitual, no histórico da arquitetura e da sociedade portuguesa.

 

Recordei também que começou a ser construído em 1806 e dado como concluído em 1834 segundo projeto inicial de um arquiteto com projeção na época, de seu nome Carlos Amarante. E referi que se processou como que uma conciliação estilística do tardo-barroco comum na época com uma expressão romântica, valorizada no jardim e nas evocações históricas que em conjunto, desde o lago a uma torre gótica e ao recurso ao estilo inglês.

 

Evoquei nesse texto a intervenção de Ventura Terra, a quem se deve o Teatrinho, mas também não poucos teatros (e não teatrinhos...) por esse país fora: deste logo o Teatro de Esposende, o Salão Nobre do Teatro de São Carlos, o Teatro e Cinema Politeama, que é referido com encómios por José Augusto França, que aliás ao Arquiteto dedica extenso estudo:

 

“O Politeama, em Lisboa, construído em 1912-13, com o seu amplo espaço interior e a fantasia decorativa do janelão do 1º andar foi a melhor obra do género neste período, bem inscrita dos trabalhos de Ventura Terra” (cfr. “A Arte em Portugal no Século XIX” volume II 1966 pág.78).

 

E José Augusto França refere também o Palácio de Brejoeira com expressões de encómio: “o último grande solar fidalgo português (…) curiosa construção de carater híbrido” salientando “a importância do seu portal setecentista, a vastidão das suas fachadas em L, já viradas para Oitocentos”. Cita designadamente “o pequeno e elegante teatro” instalado em meados do século passado. (ob. cit. volume I pág. 182).

 

O Teatrinho, com cerca de 50 lugares em suave declive, além de mostrar os interesses culturais dos proprietários, revela uma harmonia e uma ambiência que se concilia com a funcionalidade do palco, não obstante as reduzidas dimensões da sala.”

 

Tudo isto foi escrito e aqui publicado na perspetiva do património de teatro e de espetáculo pelo país fora... E justamente, no que se refere ao Monção, é agora oportuno evocar o Cine-Teatro João Verde.

 

Trata-se agora de um exemplar característico da geração dos cineteatros de meados do século passado. Projetado pelo arquiteto José Esteves, foi construído e inaugurado em 1949, numa fase de atividade descentralizadora, digamos assim, das atividades de espetáculo por todo o país. Com uma lotação inicial de cerca de 300 lugares, marcou pela estrutura interna, aliás comum na época, mas aqui com indiscutível qualidade: e desde logo, pela fachada, que prefigura como uma torre, o que de certo modo concilia a modernidade com a tradição urbana regional.

 

E a sala propriamente dita segue também esse conceito de modernidade epocal com a capacidade de exploração, conciliando o moderno com o tradicional. O projeto é dominado por uma torre e comporta uma estrutura interna de plateia, balcão e até alguns camarotes.

 

Só que, no inicio dos anos 80, os proprietários resolvem demoli-lo. Valeu então a Câmara Municipal de Monção, que adquire o Cine-Teatro que em boa hora se mantém em atividade.

 

DUARTE IVO CRUZ

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXVIII - UMA VISÃO PESSIMISTA

 

O americano Steven Roger Fisher, coloca a hipótese de no futuro a língua portuguesa desaparecer e ser substituída pelo portunhol. 

 

Argumenta que dentro de 300 anos o Brasil falará um idioma muito diferente do atual, em face da enorme influência da língua espanhola, tendo como provável que surja uma espécie de portunhol.

 

Além de fazer parte da própria dinâmica evolutiva das línguas, reforça a sua posição dizendo que o Brasil está rodeado de países falantes de espanhol, desde argentinos, uruguaios, chilenos, colombianos, bolivianos, paraguaios, peruanos e venezuelanos, que também irão usar expressões do português do Brasil, o que contribuirá para que haja uma fusão, com a agravante de ter os dois idiomas de origem ibérica muito parecidos.

 

Esta pressão de múltiplos países falantes de um mesmo idioma sobre um que tem um idioma diferente e parecido, aliada ao facto de existirem no mundo menos falantes de português do que espanhol, leva Fisher a ter como hipótese maioritária que o Brasil está destinado a trocar o seu idioma pelo portunhol. 

 

Não obstante, diz: “O português não será substituído pelo espanhol. O que irá acontecer é a mistura das duas línguas. Numa escala menor, é o que deve acontecer com o inglês também. Sem dúvida, o idioma que mais influencia hoje o inglês é o espanhol”.     

 

Embora considere que o português do Brasil e o de Portugal é a mesma língua, entende que há entre ambos grandes diferenças, apontando para a separação, se essa tendência se acentuar. Ao inverso do inglês, dado entender que o britânico e americano se aproximam cada vez mais, uma vez que a influência dos Estados Unidos é cada vez maior, desde o fim da segunda guerra mundial, através de filmes, músicas, programas televisivos, informática e novas tecnologias.

 

Trata.se de uma visão de raiz anglo-saxónica, que peca, desde logo, por defeito.

 

Fala tenuemente de Portugal. E do Brasil como monopolizador da língua portuguesa. Ignora os demais países lusófonos falantes de português, lusófilos e o potencial crescente do português em termos demográficos e como língua de exportação. Tem o continente americano e o seu país natal como o centro do mundo e orientador de tendências linguísticas futuras. 

 

Tomarei posição mais detalhada, em próximos textos, sobre a perspetiva otimista e pessimista da língua portuguesa, que acabo de expor.

 

14.11.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA


Existe sim uma tristeza nas gentes daquilo que possa acontecer. E é estranho que este sentir que intuo no ar e nos olhos, dorme ao lado da felicidade. Na fusão da noite dos sentimentos, o medo não enfraquece, antes mina e deixa-nos a temer todas as realidades como modo de ocupação permanente, desde a hora em que o despertador nos acorda até à hora da sonolência cansada nos levar ao sono, e este ao sonho que abarca também a possibilidade de nele perdermos alguém que amamos, como se esse perder nos levasse o amor que por esse alguém sentimos.

 

Dá a sensação de que os passos das gentes assentam em coisas demasiado transitórias e insustentáveis. Em compromissos estranhos de entendimentos, em pactos de silêncio e de sofrimentos.

 

Será tudo isto afetação própria da época em que se nasceu? Não será tudo isto mais conjeturado do que propriamente verdadeiro? Não haverá aqui algo de nonsense pelo nonsense? tal como o princípio que decreta a arte pela arte?, ou a congruência de tudo o que é incongruente? A aptidão da inaptidão? Pergunto-me se os matemáticos estão a fazer férias demasiado grandes deixando espaço a inversões descomprometidas por parte do lógico? E só de o pensar, dá-me calafrios.

 

O que seja a biblioteca de cada um, não lhes passa pela cabeça retirá-la da estante. Contudo vejo bolhas de sabão. Muitas. E, enquanto mundo e nele gentes, em intervalos lúcidos de insanidade, vendo-se a braços com as bolhas de sabão, desnorteiam com sentido, e eu só consigo desejar-lhes casa, desejando-me e desejando-lhes também sítio de mundo para onde queiram sempre voltar no encalço das razões dos livros clássicos.

 

E pergunto-me se os poetas se conseguem erguer tendo no céu e no chão tantas nuvens por determinar, quer no crepúsculo do nascer ou do pôr-do-sol.

 

Teresa Bracinha Vieira

AGOSTINHO DA SILVA

 

Muito me reprovo e o aprovo tanto quanto outrora aprovei o que hoje me reprovo.

Agostinho da Silva

 

Já várias vezes tentei escrever nesta página acerca da minha admiração profunda pela cultura de Agostinho da Silva. Nunca sei se o que escrevo é o que senti de o ler, de o ouvir e o ter conhecido um pouquinho – orgulho meu – por com ele ter estado duas vezes após conferências a conversar um nadinha, ao meu sentir, um nadinha grande, ou, se o que escrevo dele, agarra-se sempre ao fascínio que em determinada altura senti pelo estudo dos milenarismos e por aí o segui, ou o final dos tempos não trouxesse um novo mundo de paz e felicidade e não fosse esse motivo bastante para lhe perguntar o quanto a vinda do Messias interrompia esta esperança; o quanto um reino com duração de mil anos é reino indefinido e curto para mudanças.

 

Depois (antes?) não sei, procurei-lhe nas palavras aquela liberdade única a que se referia com excelência como sendo a mais importante qualidade do ser humano e sendo que só através dela se mudaria a sociedade. 

 

Um dia, numa conferência, com o Mário Soares na mesa, começou Agostinho a falar de protocolo, afirmando nada saber a respeito, e durante mais de uma hora, deixou-nos extasiados com o seu poder de explicar o protocolo num imenso mundo de o saber como sendo um tema que o ligaria ao ser-estrangeiro, numa inteireza acordada de gestos e sinais em comunhão de escuta e de encontro com a «norma», a fim de se poder ser-se reconhecido num determinado papel de influência de grupo. E por aí adiante. E quando se sentou dando por terminada a intervenção, ficámos todos- diria assim - numa expectativa de identificação com um lugar que, ao menos com a clareza que o explicou, nunca o tínhamos visitado.

 

Sempre na luta desafiando melhores dias, também Agostinho da Silva escrevia poemas fortificados como este

 

Queria que os Portugueses

Queria que os portugueses 
tivessem senso de humor 
e não vissem como génio 
todo aquele que é doutor 

sobretudo se é o próprio 
que se afirma como tal 
só porque sabendo ler 
o que lê entende mal 

todos os que são formados 
deviam ter que fazer 
exame de analfabeto 
para provar que sem ler 

teriam sido capazes 
de constituir cultura 
por tudo que a vida ensina 
e mais do que livro dura 

e tem certeza de sol 
mesmo que a noite se instale 
visto que ser-se o que se é 
muito mais que saber vale 

até para aproveitar-se 
das dúvidas da razão 
que a si própria se devia 
olhar pura opinião 

que hoje é uma manhã outra 
e talvez depois terceira 
sendo que o mundo sucede 
sempre de nova maneira 

alfabetizar cuidado 
não me ponham tudo em culto 
dos que não citar francês 
consideram puro insulto 

se a nação analfabeta 
derrubou filosofia 
e no jeito aristotélico 
o que certo parecia 

deixem-na ser o que seja 
em todo o tempo futuro 
talvez encontre sozinha 
o mais além que procuro. 

Agostinho da Silva, in 'Poemas' 

 

Saudade tenho de o saber entre nós. Saudade terei sempre de o ouvir a convidar-nos a não ter medo.

 

Teresa Bracinha Vieira

Novembro 2017

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

 

DE JOHN MOHUNE A JON WHITELEY
OU DE FRITZ LANG A AUGUSTE-DOMINIQUE INGRES

 

 1. Julgo que é o título mais comprido desta série de crónicas, quer as das antigas e românticas sextas-feiras, quer as dos novos e frustres domingos onde ainda não conseguiram arranjar lugar para me sentar. Quando se escolhe um título longo, é, normalmente, para ser mais explicativo, como é o caso, por exemplo do Everything You always Wanted to Know About Sex, but Were Afraid to Ask. Não é o caso deste meu, de hoje. Dou um doce a quem, mesmo muito sabido, perceber que relação existe entre John Mohune e Ingres, ou mesmo entre o pintor e Fritz Lang. Essa relação construiu-se, para mim, nos últimos três anos e só há três dias se concretizou. Apetece-lhes ouvir a história? A mim, apetece-me contá-la.

 

2. John Mohune é o nome do jovem herói do romance de John Meade Falkner Moonfleet, publicado em 1898. Um desses romances de aventuras escritos para pré-adolescentes do sexo masculino, que descende de Stevenson ou, mais remotamente, de Dickens ou de Kipling, e que foi muito popular na Grã-Bretanha, dos alvores aos meados do século que passou. A ação situa-se no século XVIII. John Mohune é o filho de Olivia e a família é tão importante naquela parte da Escócia que o próprio nome da povoação que dá título ao romance provém dela. Moonfleet é contração de Mohune e Fleet. Não eram senhores muito amados os Mohune. John, órfão aos nove anos, é informado pouco depois (pouco depois da morte da mãe, que o pai é outra história) que o nome não é propriamente um nome benquisto na aldeia de contrabandistas e piratas onde se situa quase toda a ação.
A primeira vez que o vi foi no filme homónimo de Fritz Lang, estreado em 1955. Tinha os mesmos nove anos, era muito ruivo e de cabelo encaracolado, a cara cheia de sardas, olhos azuis determinados. Por uma noite sem lua, com um céu coberto de nuvens púrpuras ou amarelas, caminhou à procura de um homem que julga ser seu amigo. A certa altura pára, para tirar um seixo de um dos buracos das solas das botas. De repente, aparece-lhe - é o termo - um anjo enorme de olhar vazio e expressão inquietante. Será estátua? Será gente? Uma mão que se vê em cima de um muro parece apontar para a segunda hipótese. John Mohune tenta fugir, tropeça e desmaia. Quando acorda, está no fundo de um poço e é do fundo desse poço que nós, com ele, vemos em contra-plongée vertical uma série de caras patibulares. O miúdo caiu às mãos de 40 ladrões. Mas recupera depressa a coragem e insiste que o levem à presença de Jeremy Fox, para quem traz uma carta. Carta da mãe, que, ao morrer, o confiou aos cuidados desse homem. Quando lhe somos apresentados (a Jeremy Fox), o aspecto e as maneiras do personagem (o ator é Stewart Granger) não prometem nada de bom. Nem dele, nem dos companheiros dele (onde avulta, para mim, a voz incomparável de Joan Greenwood), nem da dançarina que dança para ele. Só muito pouco a pouco percebemos algumas coisas e nem todas são esclarecidas. Jeremy Fox tem as costas marcadas por dentes de cães que os Mohune lhe atiçaram. Plebeu, estava na companhia de senhora, senhora que só podia ser uma Mohune, para a família se enfurecer de tal modo. Se ela, ao morrer, confiou o filho ao homem que fora pasto da matilha, as probabilidades são muitas de John Mohune ser filho de Jeremy Fox, embora no filme nunca tal se diga e o miúdo nunca o suspeite. No livro? No livro nem sequer há nenhum Jeremy Fox, tal era, nesses bons tempos, a fidelidade dos estúdios aos textos originais. Mas se John Mohune nunca suspeita que Jeremy Fox é seu pai, também nunca duvida que ele seja o amigo que a mãe lhe disse que era. Contra todas as evidências, porque Jeremy Fox passa o filme a enxotá-lo. Mrs. Minton, uma das amantes dele, pergunta a Jeremy: "Que vais fazer dele? Corrompê-lo e destruí-lo, como fazes a toda a gente?" "Há um perigo bem maior", responde Jeremy, "é ser ele a destruir-me." No final do filme todos morrem, menos John Mohune, que tem finalmente toda a razão para dizer: "It"s good to have a friend."
Para interpretar John Mohune, a Metro-Goldwyn Mayer, em 1955, chamou Jon Whiteley, um miúdo escocês que se estreara nas telas aos 6 anos, em 1951, e aos oito ganhara um Óscar especial da Academia pela sua interpretação em The Kidnappers de Philip Leacock. Em 1956, aos 11 anos, desapareceu das telas. Os pais acharam que cinco anos de filmes e estúdios, entre Londres e a Califórnia, já chegavam. Mandaram-no estudar.
Mas quem ama Moonfleet como eu amo - e estou cada vez mais acompanhado - nunca mais conseguiu ver John Mohune sem ver Jon Whiteley seguindo com um cão o seu amigo e roubando para ele o tesouro do Barba Ruiva. Cinemascope, mar, o obsessivo decote de Joan Greenwood, a voz de Joan Greenwood. E, evidentemente, Jon Whiteley. Cemitérios, lousas quebradas, poentes castanhos, rochas escarpadas. A fotografia de Robert Planck e a música de Miklos Rozsa. E, evidentemente, Jon Whiteley.

 

3. Mas se era evidente, era tão evidente que nunca me lembrei de perguntar por ele. Nem eu, nem (aparentemente) mais ninguém. Todas as celebridades do filme disseram da sua graça, e a maior das vezes da sua desgraça. Fritz Lang só no fim da vida se reconciliou com um filme em que passou as passas do Algarve. John Houseman, o produtor (que não era nada imbecil), dizia que só os franceses é que achavam que o filme era uma obra-prima. Por "perversidade ou por lealdade para com Fritz Lang". Mas Jon Whiteley nunca foi tido nem achado, apesar de se dizer que Lang, "ditatorial e déspota", tratara com especial e teutónico sadismo o seu jovem intérprete. Provavelmente, o assunto teria morrido por aí (e hoje não me estavam a ler), se, em finais de 2001, por ocasião de um seminário sobre cinema e pintura no Convento da Arrábida, Henri Zerner não me tivesse perguntado: "Você sabe que Jon Whiteley é meu colega e professor de História de Arte em Oxford?" Não fazia a mais pequena ideia. Mas como cinema, pintura, Moonfleet fazem trindade indissociável, pensei em convidá-lo quando saísse o livro em que esse seminário desembocou. Convidá-lo para vir a Lisboa e apresentar Moonfleet. Ao princípio correu mal: de Oxford disseram-me que o prof. Whiteley (hoje com 60 anos) estava em ano sabático algures nos Estados Unidos. Mas havia mails. Há sempre.
Já com poucas esperanças, mailei. E, na volta, tive a resposta mais simpática do mundo. Que adorava voltar a Portugal, que conhecia como turista e que adorava apresentar Moonfleet, que (e agora sublinho bem) nunca ninguém o tinha convidado a apresentar.
Em janeiro, Jon e Linda Whiteley desembarcaram em Lisboa e eu vi subitamente na minha frente, aos 60 anos, o miúdo de 9, de 1955. Mesmos cabelos ruivos, mesmos olhos azuis, mesmas sardas. E, na fantástica apresentação do filme, o mesmo medo e a mesma coragem para defender Fritz Lang, acabar com a lenda das malfeitorias e falar da conspiração de produtores e atores contra aquele velho barrigudo e monocular que ousara pular para cima de uma mesa e explicar à famosa bailarina Liliana Montevecchi como é que se devia dançar a dança que ele queria que ela dançasse para endoidar os homens e empalidecer as mulheres. Fritz Lang, o realizador que "composed scenes in the manner of a painter and treated actors like a puppet-master". "This perhaps annoyed his actors but it did not trouble me." Depois falou-me de Ingres, seu pintor favorito, e prometeu-me o livro que sobre ela tinha escrito e há muito se esgotou.

 

4. A fama dessa palestra de Lisboa chegou a várias partes. Este e aquele começaram-me a pedir o Whiteley de Lisboa. Até que, postos os feriados de junho e os dias de montanha russa entre Guimarães e Salamanca, Salamanca e Belmonte, recebi, com data de 8 de junho, uma carta dele e o livro sobre Ingres. Na carta dizia-me que "as a result of your invitation to Lisbon and the showing of Moonfleet" recebera um convite para comentar o filme num festival em Procida. Sabia que a cópia a ser projetada era a nossa (a melhor cópia de Moonfleet que por aí anda e não é para me gabar). "Any chance of seeing you? I hope so very much." Não, não vou rever em Procida o meu John Mohune feito John Whiteley, criatura de Lang e criatura de Ingres, igual aos 9 e aos 60 anos, na sua busca pela amizade e na certeza dela. Mas ganhei o livro azul, com o retrato da viscondessa de Haussonville que está na Frick Collection. E nele recordei que a duquesa de Guermantes, depois de o ter execrado como o pior dos académicos, descobriu, no fim da vida, que ele fora o genial precursor do Art Nouveau. "Como os arquitetos do barroco, Ingres ultrapassou o domínio da arte clássica para inventar uma linguagem expressiva de regras quebradas, através das quais deu forma exterior aos doces, nostálgicos, ambiciosos, sensuais e vingativos desejos que sempre possuíram a sua imaginação." Ingres, certamente. Mas também Fritz Lang. "A deeply sensuous nature." John Mohune começou na encruzilhada de Moonfleet. Mas lembrou-se que estavam por ali senhoras. Foi nos banhos turcos de Ingres.

19 de junho 2005 PÚBLICO

LONDON LETTERS

 

The Remembrance Sunday, 2017

 

O Prince Charles of Wales conduz a sua primeira cerimónia no Cenotaph de homenagem aos War Fallen. HM The Queen e o Prince Philip of Edinburg acompanham a parada das Army Forces, a par da Royal Familý e dos dignatários políticos e militares, em moldura humana polvilhada por veteranos e cadetes.

A celebração fica marcada por uma lágrima de Elizabeth II. — Chérie! La voix du sang parle toujours plus fort que les autres. HM Government tem dois novos membros. Mr Gavin Williamson substitui Sir Michel Fallon na defesa e Mrs Amy Mondaunt reveza Mrs Priti Patel no desenvolvimento internacional. Nos bastidores aposta-se no derrube da Prime Minister RH Theresa May MP e a Loyal Opposition, de novo, pede a cabeça de The Rt Hon Foreign Secretary Boris Johnson MP. — Umm. A rolling stone gathers no moss. Há 100 anos, em calendário ajustado, os Bolsheviks tomam o poder em St Petersburg e abrem à revolução comunista. O President Donald J Trump cumpre o primeiro ano de mandato na White House e reinventa-se a oriente, indiferente ao avanço dos Democrats and a lot of firsts nas US State and Local Elections. O Met anuncia temperatures colder than the Artic in the United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland. O Smithsonian revela a descoberta de um templo a Ramses II junto ao Cairo (Egipt).

Ao olhar os líderes políticos junto aos pacíficos Cenotaph e Arboteum, por momentos alinhados, interrompem-se as (lacklustrean) querelas partidárias. Simplesmente se celebra the human spirit. A Pestminster Operation prossegue, agora talvez com maior cuidado, após o alegado suicídio de um alegado suspeito na hoste do Labour Party, despedido sem acusação mas logo queimado na praça mediática. A generalidade dos MPs cuida da Brexit e prepara mais justo mapa orçamental, ou assim esperam famílias, empresas e regiões, às voltas com o rosário do dia-a-dia. O negócio para a saída do UK da European Union entra na sexta ronda, com a iniciativa privada a diligenciar esforços junto do 10 Downing Street para reduzir a incerteza. No mais, em teste real e com a vida de uma cidadã a jogo, a British-Iranian Mrs Nazanin Zaghari-Ratcliffe, regressa o sempre gracioso get Boris sport…Expecting the snowing trees at London. As luzes de Oxford Street iluminam já a quadra natalícia, com as zonas em volta afadigadas no movimento comercial, à espera de boas novas do próximo orçamento do Chancellor Philip Hammond e das áreas verdes prometidas pelo Mayor Sadik Khan. No coração de Whitehall é a festa do fim da Great War, to end all wars. O Remembrance Sunday é assinalado aquém e além Channel, com romagens aos Dead Memorials por toda a British Commonwealth, das Ardennes, India e Israel a South Africa, do Middle East e Afghanstan a Japan, Hong Kong e China. Her Majesty acompanha a cerimónia local de uma varanda do Foreign Office, comove-se e comove-nos. Para os veteranos é ainda o reencontro fraternal e para os demais é o contato com inspiradoras histórias de coragem e sacrifício. Nas zonas de conflito à volta do globo, muitos depositam coroas de red, white and purple poppies nas campas de familiares e amigos. 2017 é um ano especial a muitos títulos. Assinala quer a passagem do 99th Anniversary do fecho da First World War, quer o centenário do serviço feminino militar regular, bem como os 100 anos da Battle of Passchendaele e da criação da Commonwealth War Graves Commission. Marca ainda os 75 anos sobre a Battle of El Alamein e a génese do RAF Regiment as well as os 100 anos do nascimento da forces' sweetheart, Dame Vera Lynn. No Armistice Day, à eleventh hour, o reino cumpre dois minutos de silêncio. Em Paris, enquanto escreve no Spectator sobre uma euroreforma trough sovereignty and democracy, também o French President Emmanuel Macron repete o rito na Tomb of the Unknown Soldier do Arc de Triomphe. Como one thing is one thing and other thing is other thing, Germany delibera sobre o batismo do Anne Frank Train.

 

Em hectic days, por motivos alheios aos gentle readers, duas notas finais de natureza bibliográfica. Mr Stephen Fry acaba de editar, em livro e audiolivro, Mythos, A Retelling of the Myths of Ancient Greece (Michael Joseph, 2017, 432 pages). É uma viagem ao paganismo grego, abaixo do Olimpo, entre musas e titãs. Uma sua entrevista a Mr Steve Allen - na LBC, claro - atiça o apetite de o ler. E revisitar o foco ecológico do Pope Francis quando este, em Rome, suscita o debate teológico em torno do casamento dos sacerdotes para cristianizar Amazone. O mesmo apelo à leitura contém a última Spectator, no rol de Christmas Books I. Os abrégés são de tal modo tentadores que, desta feita, impõem misterioso saco natalício cá em casa. — Well. Meanwhile, why not read Master Will and that unique Sir John F in The Merry Wives of Windsor (Act 2 Scene 2): — “Falstaff: Of what quality was your love, then?  / Ford: Like a fair house built on another man’s ground."

 

St James, 13th November 2017

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 13 a 19 de novembro de 2017.

 

«As Viagens na Minha Terra» de Almeida Garrett são um repositório de grande atualidade sobre o valor do património cultural, e a necessidade de o preservar e proteger.

 

ROTEIROS DE PATRIMÓNIO VIVO
Com o Ano Europeu do Património Cultural (2018) já no horizonte, devemos perguntar o que será essencial para que esta celebração se não fique pelo mero formalismo de uma festa. Naturalmente que é importante que os especialistas se encontrem e aprofundem as suas reflexões ou estudos, mas urge lançar pistas novas e fecundas que ponham a defesa e salvaguarda do património cultural na ordem do dia. E as escolas devem ser chamadas à primeira linha da ação. Como impedir que a memória seja votada ao abandono? Como conhecer melhor a História? Como saber de onde vimos, onde estamos, para onde vamos? Como dar valor ao que recebemos dos nossos antepassados? Como tornar a memória um fator de melhor aprendizagem? Como transformar a informação em conhecimento? Mais do que fogos-de-artifício ou ambiciosos e estimáveis programas, do que precisamos é de conhecimento e de motivação. Como Anselmo Borges dizia, há dias, em Santarém, na Fundação Passos Canavarro, temos de saber ler e de ganhar o hábito de ler – em vez da superficialidade dos efeitos especiais das novas tecnologias. Saber ler é saber refletir, pensar, repensar – não esquecendo que a educação se faz olhos nos olhos, a conversar, a dialogar, a conhecer, a transmitir e a trocar. E não se interprete mal, o erro não está nas tecnologias, que são instrumentos, belíssimos quando ao serviço de boas ideias, mas na falta de sentido crítico e de capacidade criadora. A ciência contribui para avançarmos no conhecimento e na compreensão das coisas e do mundo. As técnicas e as tecnologias completam-se e complementam-se – coexistindo umas com as outras ou até substituindo-se, no entanto não podemos confundir pessoas e robôs. Precisamos de voltar a ouvir T. S. Elliot quando nos diz: “Qual é o conhecimento que perdemos na informação e qual a sabedoria que perdemos no conhecimento”.

 

DE PORTAS ABERTAS
A experiência das Jornadas Europeias do Património, promovidas pelo Conselho da Europa, com o apoio da Comissão Europeia, nasceu em França nas Jornadas Portas Abertas, em 1984, tendo evoluído, depois de diversos países terem adotado iniciativas semelhantes, em 1991, para o modelo atual. Aí esteve Helena Vaz da Silva. Foi a experiência inovadora das Jornadas que levou à necessidade da aprovação da Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na sociedade contemporânea (2005), assinada na cidade de Faro. A concentração no início do Outono de cada ano de eventos correspondentes a uma chamada de atenção para o Património Cultural, material e imaterial, monumentos, sítios, museus, paisagens, tradições, costumes e idiomas, constitui um modo de mobilizar a atenção e o cuidado dos cidadãos para a herança e a memória. No entanto, o culto do património cultural obriga a tornar essa preocupação permanente, aberta e prospetiva – e não momentânea, fechada e retrospetiva. Daí que o Ano Europeu de 2018 deva constituir-se numa chamada de atenção para as políticas públicas de cultura – que têm de articular a proteção do património e a criação cultural contemporânea, em nome da coerência e da qualidade, da liberdade e da inovação. E quanto à identidade, estamos perante o velho paradoxo filosófico do Navio de Teseu, a embarcação que foi de Atenas a Creta para pagar o tributo pela morte de Androgeu, filho de Minos… Depois do gesto heroico de Teseu os atenienses preservaram o Navio mítico, que ia sendo reparado e cujas madeiras iam sendo substituídas. E surgiu a pergunta: qual o verdadeiro navio, o que está renovado ou os seus despojos? Naturalmente, como disse Leibniz, o que importa é a identidade que prevalece – o navio renovado e não o que restou do primitivo… Como o Navio de Teseu, o património e as identidades culturais devem ser abertas para se enriquecerem – ao invés de qualquer fechamento, que perigosamente se traduz na destruição da memória.

 

LEMBRANDO ALMEIDA GARRETT
Em Santarém, no fim de uma tarde estranhamente quente do final de outubro, lembrámos, há dias, a célebre passagem de Almeida Garrett sobre o que hoje designamos como património cultural: “Entrámos a porta da antiga cidadela. – Que espantosa e desgraciosa confusão de entulhos, de pedras, de montes de terra e caliça! Não há ruas, não há caminhos: é um labirinto de ruínas feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso amigo, é ao pé da famosa e histórica Igreja de Santa Maria da Alcáçova. – Há de custar a achar em tanta confusão”… Garrett dá-nos conta da falta de cuidado que encontrou na histórica cidade, quando ia ao encontro de seu amigo Passos Manuel. Fala-nos de “pardieiros e entulhos”, que hoje felizmente deram lugar a uma cidade cuidada. E assim apelava a que não se deixasse ao abandono um legado histórico sagrado. Mas o grande mestre romântico faz o contraste entre as pedras mortas que encontrou decaídas, a honradez das pedras vivas e a formosura do panorama e da paisagem. “Nunca dormi tão regalado sono em minha vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante e apressurado dos sinos da Alcáçova. Saltei da cama, fui à janela, e dei com o mais belo, o mais grandioso e, ao mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda pus os meus olhos”. Eram o “vale aprazível e sereno” e “o sossegado leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre de água junto às margens, donde se debruçam, verdes e frescos ainda, os salgueiros que as ornam e defendem”… A seca prolongada deixou-nos agora severas preocupações, mas aquele glorioso momento foi mais forte que tudo, em nome de uma memória histórica inesquecível. Que é o património senão vida vivida? Vínhamos de Mangualde e de Vale da Estrela, do roteiro suculento do queijo da Serra da Estrela, no coração da Beira-Serra, com as ovelhas da raça Bordaleira ou Mondegueira, e ali estávamos com Pedro Canavarro a idear (com a presença silenciosa de Garrett e Passos) um roteiro da democracia neste rico Ribatejo – desde as Cortes de Santarém, como as de 1331, que ilustram os fatores democráticos na formação de Portugal (de Jaime Cortesão) e a aclamação em 1580 como rei de Portugal de D. António Prior do Crato (em tão boa hora agora lembrado por Manuel Alegre), até D. Pedro IV em vésperas de Évora-Monte, Sá da Bandeira, Alexandre Herculano, Rebelo da Silva, Oliveira Marreca, Anselmo Braancamp Freire, António Ginestal Machado, José Relvas, Humberto Delgado, Salgueiro Maia… Para as escolas deve haver a determinação em criar para os mais jovens o gosto do estudo rigoroso, o culto e o interesse pelo património – seja o monumento antigo, seja a paisagem ou o jardim, seja o cuidado com o uso da língua materna, seja o trabalho do artesão, seja a qualidade na tradição gastronómica. E aqui está a ilustração de um modo como podemos cuidar do património – prevenindo-nos contra o descuidado, delineando e estudando caminhos que nos permitam conhecer, recordar, alertar e salvaguardar.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

EM MEMÓRIA DE ROGÉRIO MARTINS



Minha Princesa de mim:

 

     No decurso - talvez já longo, para mim todavia ainda vago - da minha vida são inesquecíveis os momentos de usufruto de partilhas de experiências, ideias e sentidos em   jantares e almoços reunindo, com gosto de todos, amigos, conhecidos, desconhecidos. No íntimo de mim, são como celebrações eucarísticas, ações de graças por sermos vivos e estarmos juntos... Objetivamente são sempre atos diferentes, cada qual único: tanto reúnem amigos em tertúlias onde até quase calados nos entendemos, como simpatizantes que se divertem a passear, por sentidos vários, muitas opiniões e alvitres sem propósito apontado; ou, ainda, gente que mal ou nada se conhecia e mutuamente se depara em estado de surpresa... Nesta última circunstância, importante mesmo será conseguir espevitar as confrontações, com especial atenção à temperatura do caldo, para que não verta... O prémio final aos convivas será o gosto comum de se ter dito o que se pensava e sentia, tendo-o saboreado melhor ainda, pelo paladar acrescido das discordâncias e interrogações. Questionando os outros, questionamo-nos. E ganhamos direito a mais um copito, porque já ganhámos mais lucidez...

 

   Tive hoje, Princesa de mim, o privilégio de participar num inesperado almoço de amigos muito diferentes, alguns que terei visto apenas três vezes na vida, outros com que lido há mais de meio século, sempre em circunstâncias diversas e partidas por força das minhas ausências pelo mundo. A imprevisibilidade do encontro, creio, rejuvenesceu-nos a todos. A mim, lê-me bem, Princesa, fez-me feliz. Sobretudo por me ter dado a oportunidade de trazer comigo para a mesa e a conversa um grande amigo  -  meu e de alguns dos presentes - morto há poucos dias: Rogério Martins que, entre outros trabalhos da vida - como docente universitário, empresário e gestor  - , foi Secretário de Estado da Indústria no primeiro governo do professor Marcello Caetano : Estive no Terreiro do Paço quarenta meses, desde a primavera promissora de 1969 até ao verão encalmado de 1972; por mim sempre achei que o Governo não existe para a manutenção do «status quo», mas para a dinamização da sociedade, de modo a torna-la mais justa, mais aberta, mais progressiva, mais racional, mais confiante.     

               

   Foi então que o conheci, através do saudoso Dr. José Guilherme de Mello e Castro, que assisti, como jovem apoiante à "Ala Liberal" da Assembleia Nacional, logo no início da imperfeita "Primavera Marcelista". Eu regressara da Guiné, depois de ali cumprir uma comissão de serviço militar como alferes miliciano. A razão de, acabadinho de chegar, ter logo entrado a trabalhar com pessoas que procuravam uma mudança, ou progresso evolutivo do regime estabelecido, deve-se à convivência mantida, desde os tempos de faculdade e de JUC, com movimentos e tertúlias de inspiração católica que, sozinhos ou com outros sectores religiosos e laicos (lembre-se a experiência de O Tempo e o Modo, conduzida por António Alçada Baptista, aliás outro homem da Covilhã, como Mello e Castro) desejavam, como Rogério Martins acima diz, "a dinamização da sociedade portuguesa, de modo a torna-la mais justa, mais aberta, mais progressiva, mais racional, mais confiante". Fui, com muitos amigos, desde monárquicos a socialistas, um dos subscritores, em 1964, da célebre declaração "dos 101", assim conhecida pelo número de católicos que a assinaram. Com Rogério Martins trabalhei três anos, dos meus 27 aos 29, na qualidade de assessor para as relações internacionais, que me dava, por inerência, um lugar de vogal na Comissão Interministerial de Cooperação Económica Externa (presidida pelo embaixador Ruy Teixeira Guerra), nas missões ministeriais à EFTA (conduzidas pelo Secretário de Estado do Comércio Valentim Xavier Pintado) e, ainda, o de delegado de Portugal ao Comité de Indústria da OCDE. Refiro agora tudo isso, porque, quase meio século mais tarde, e depois de tanto ter percorrido os continentes do mundo, é nesse período que encontro as raízes mais fundas da minha consciência política atual. Era ainda muito novo, tive a graça de me ter encontrado entre gente de bem, e altamente competente nas respetivas áreas profissionais, de uma geração anterior à minha, brilhante, até com grande prestígio internacional - como na altura pude verificar - que hoje já poucos conhecem. Será bom recordá-los, porque também profeticamente os seus desígnios e exemplos continuam atuais em nossos dias. Por isso trago aqui alguns testemunhos do próprio Rogério Martins.

 

   Ao seu primeiro livro de discursos e outras intervenções públicas deu Rogério Martins o título Caminho de País Novo. Os textos ali recolhidos vão de março de 1969 a junho de 1970, e refletem bem a consciência das reformas necessárias ao tão ambicionado desenvolvimento do país, e das dificuldades e obstáculos que encontrariam, bem como a esperança de as realizar:  Penso que Portugal neste meado de 1970 se encontra na exata situação de o desafio a que está submetido ser tão imperioso e tão grave, que é profundamente estimulante, sem vir a tombar no extremo de ser excessivo; apela para toda a nossa energia, imaginação, imaginação, entusiasmo e capacidade de organização e realização nacionais, mas não é paralisante nem por isso fatal; tem de ser tomado tremendamente a sério ,mas é respondível.

 

   A resposta é caminho de país novo.

 

   Há coisa de dez anos atrás, isto é, quarenta depois de escritas estas palavras, o Rogério, saudoso ainda, dizia-me: «Meu caro Camilo, apesar de tudo, ou talvez por isso tudo, naquele tempo tínhamos esperança!»

 

   Infelizmente, aqueles tempos de transição naufragaram, semeámos ventos e colhemos tempestades... Profeticamente, em edição de autor, Rogério Martins publicava, em 1973, o seu Tempo Imperfeito, dedicado expressamente a todos os que comigo quiseram trilhar caminho de país novo. Acrescentou-lhe, no exemplar que me ofereceu, uma extensa dedicatória manuscrita, que hoje ainda profundamente me comove. A família política a que pertencíamos tinha ainda raízes bem profundas no universalismo cristão. A Tempo Imperfeito vou buscar trechos do discurso que o Rogério proferira, em 4 de dezembro de 1964, na inauguração da "Motra", unidade industrial da Siemens no Sabugo, na presença do Presidente da República, dos Ministros da Economia e das Corporações, do Embaixador da República Federal Alemã e do próprio Peter von Siemens:

 

   Cada empresa nova, porque o é, tem assim um papel muito importante a desempenhar, ao forçar as outras a renovarem-se; que aquelas a quem esta nossa atitude possa ter parecido muito dura me desculpem pessoalmente - mas se lembrem de que só sobrevive quem tem a dureza de se preparar para isso.

 

   E afinal, a sobrevivência das empresas no agitado mar de competição moderna é talvez a primeira condição para que desempenhem a sua função social. Uma empresa é, no plano humano, uma comunidade; as leis da justiça inerentes à vida comunitária bem ordenada têm de viver nela; isso só acontece se se institucionalizarem, e se os colaboradores na obra comum sentirem a segurança da continuidade. Este deverá ser o verdadeiro objetivo económico do empresário : conseguir lucro para que por ele assegure o permanente rejuvenescer da empresa, e desse modo a sua permanência para além das vicissitudes económicas ou sociais; conseguir lucro para que a equipa que com ele trabalha possa manter-se, na livre adesão a um esforço comum progressivamente melhor organizado; e progressivamente melhor recompensado não só no plano das retribuições materiais, mas também, senão sobretudo, no das oportunidade concedidas ao desenvolvimento da personalidade, ao ascender a graus crescentes de realização pessoal, de aperfeiçoamento pessoal e humano. [E o bom Rogério, engenheiro e gestor então ao serviço da Siemens, grande empresa alemã  -  cujo idioma ele dominava, tal como mais outros sete, incluindo o catalão, além do português - ali bem visivelmente homo oeconomicus, diante das personalidades presentes, recorre ao papa João XXIII, o do Concílio]: «Uma conceção humana da empresa tem de salvaguardar, é certo, a autoridade e a necessária eficácia própria da unidade de direção; mas não pode legitimamente reduzir os seus colaboradores de todos os dias aos papel de simples executores silenciosos, sem nenhuma possibilidade de fazer valer a sua experiência, inteiramente passivos quanto às decisões que dirigem a sua atividade». Nesta casa faz-se o possível por que esta sábia reclamativa do bom Papa João seja a norma corrente do trabalho de todos. 

 

   Rogério Martins era um liberal, no sentido de defensor da liberdade de iniciativa económica, da desburocratização do Estado, da alegria de inovar e de propor andamentos novos. Como tal, incarnou bem o desejo de espaços e ares mais limpos, de mais confiança na inspiração apoiada na prudência segura, na competência técnica, ponto em que muito insistia. Lembro um passo do discurso que proferiu em 7 de abril de 1970, em Madrid, num almoço oferecido pelo ministro espanhol da indústria, Lopez de Letona: Já o Evangelho condena os que constroem na areia, e a nós, homens calejados na indústria, mais do que a ninguém repugna ignorá-lo.  Tampouco esqueçamos que foi ele quem acabou com a legislação e a política do corporativo colete do condicionamento industrial, corajosamente enfrentando poderes e interesses estabelecidos. Mas também recordo o que ele disse no Colóquio sobre Política Industrial, realizado em Lisboa, em Fevereiro de 1970, acerca das condicionantes positivas do desenvolvimento económico português e as nossas vantagens competitivas, negando qualquer prioridade à opção por um baixo teor dos salários: Este é um ponto particularmente importante, que se inscreve aliás entre os objetivos formal e solenemente reconhecidos pela Nação como prioritários nos planos de fomento: a melhor redistribuição do rendimento. O que isto significa é que o aumento dos salários deve não só acompanhar o aumento de produtividade mas tenderá normalmente a ultrapassá-lo, vindo correspondentemente o lucro empresarial, por unidade produzida, a diminuir; para manter o valor global de lucro; e para o aumentar, o empresário terá de aumentar o número de unidades produzidas; a pressão exercida por este fator social vai assim convergir com as de origem técnica, obrigando a aumentar a dimensão produtiva que exigirá escoamento em mercados maiores. Assim, ao mesmo tempo que a fração do rendimento nacional imputável à remuneração do trabalho tende a crescer para níveis próximos dos centro-europeus, concomitantemente se virá a assistir à diminuição da parcela de custo unitário que remunera o capital empresário.

 

   Em vez de vender cem ganhando por unidade dez, o industrial terá de vender mil, ganhando por unidade um: assim se traduz na forma simplificada de «slogan» este fator poderoso para a modernização industrial.

 

   Isto foi afirmado publicamente, num congresso de empresários industriais, há quase meio século, por um Secretário de Estado da Indústria do governo de Marcello Caetano. A recordação de grandes figuras do nosso passado deve servir-nos, como a lembrança dos santos do Céu, para ajudar a pensar na vida. Rogério Martins não precisa de que eu lhe escreva estas linhas. Nós é que precisamos de pensar com ele no caminho de país novo que queremos percorrer.

 

   Reflexão que, todavia, ainda que conservando e renovando o sentido profundo de um humanismo ou personalismo cristão, não deve quedar-se pelo mimetismo ou pela reprodução académica de conceitos do passado. Posso manter, e sustento, que não há real crescimento económico sem desenvolvimento social, nem este se entende sem participação comunitária e justiça distributiva. Mas já não sei bem como se fará, ou poderá conseguir, em plena globalização, que todas as empresas venham a produzir mais, de modo a venderem mil para ganhar um, em vez de cem para ganharem dez. Nem como a robotização e, mais ainda, a concessão crescente de atividades do exercício mental a meios de "inteligência artificial" virá a influenciar a evolução do emprego, quantitativa e qualitativamente, bem como a ocupação de tempos livres - a que ainda chamamos folgas -, ou seja, tudo o que, numa perspetiva evolucionista teilhardiana, poderíamos considerar transição para a noosfera... Precisamos certamente de melhor educação, para melhor nos cultivarmos. Mas voltarei, Princesa de mim, a estas questões, sobretudo para melhor as interrogar contigo. Nesta - e porque tanto te falei de Rogério Martins - sigo o último conselho que, recorrendo a Toynbee (A Study on History), ele nos oferece ao terminar o seu Caminho de País Novo:

 

   Guie-nos Toynbee na perscrutação da história: « Depois de termos descoberto, pelos nossos métodos empíricos, em diversos exemplos e variações do movimento Desafio-e-Resposta parecia ser uma "lei" funcional a seguinte: "quanto maior o desafio tanto maior a resposta", tentámos em seguida descobrir se esta "lei" que tínhamos encontrado por indução era válida de modo absoluto, ou se era sujeita, como tantas outras leis particulares, à lei geral dos "rendimentos decrescentes". O inquérito que acabamos de concluir indica que a "lei dos rendimentos decrescentes" é válida nesta perspetiva... Há desafios de uma severidade salutar que estimula o ser humano sujeito à sua inclemência a uma resposta criadora; mas há também desafios de uma severidade excessiva à qual sucumbe o ser humano sua vítima. Em terminologia científica, "o desafio mais estimulante encontra-se a meio termo entre uma falta e um excesso de severidade".» 

 

Camilo Maria  

Camilo Martins de Oliveira