Sexta-feira, 12.02.16

 

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Minha Princesa de mim:

 

Lembras-te da minha carta de 29 de Janeiro p.p., onde me interrogava sobre alguém a quem, digo-te hoje, poderíamos chamar Fernando Ricardo Pessoa Reis? Será que Fernando Pessoa, ele mesmo, o ortónimo, poderia dizer, com pertinência, eu sou eu e os meus heterónimos? E essoutro (ou outros) que desenhei (un dessin à dessein?) e sou, ou também sou, será livre? Poderei libertá-lo, isto é, quando sou essoutro é ele que pensassente e escreve, ou serei eu que o mantenho agarrado e preso e o uso e exploro como um projecto? Serei eu próprio diferente, consoante a circunstância, o tempo e o modo? Serão os heterónimos ficções, sombras chinesas de mim, eu em caleidoscópio, ou vários eu mesmo? O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente, / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente... // E os que lêem o que escreve / na dor lida sentem bem / não as duas que ele teve, / mas só as que ele não tem... O poeta identifica duas dores numa só: a própria que dói e essa mesma que se finge. Ambas são íntimas e secretas, não podem ser sentidas por quem está de fora: só porque versos as exprimem, ambas são já outras dores, que outros sentem e o poeta não conhece. A verdadeira dor pode mascarar-se, mas é essa, essa mesma que fica ela e o seu fingimento, mas que não se comunica, com ou sem máscara. Um heterónimo será, assim, um alter ego, como se, na solidão de mim, só comigo eu pudesse comunicar. As minhas contradições pessoais tornam-se suportáveis, na minha condição de poeta, quando as partilho com os outros de mim, pois só com eles vários, e por eles, eu me posso entender e reconhecer, objectivando-me na multiplicação de mim nos meus espelhos. Liberto-me nesses outros de mim, e todos eles são os rostos diversos da minha liberdade, que cada uma das luzes destinadas  --  ou providenciais  --  vai, aqui e ali, mais adiante ou lá atrás, iluminando. Escreveu o poeta mexicano Octavio Paz: Os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia. Pessoa, que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem vacilar que se fosse directamente aos seus poemas, esquecendo os incidentes e os acidentes da sua existência terrestre. Nada na sua vida é surpreendente  --  nada, excepto os seus poemas. Mas Octavio Paz vai mais longe: O seu segredo, além disso, está escrito no seu nome: Pessoa, quer dizer pessoa em português e vem de persona, máscara dos actores romanos. Máscara, personagem de ficção, ninguém: Pessoa. A sua história poderia reduzir-se ao trânsito entre a irrealidade da sua vida quotidiana e a realidade das suas ficções. Estas ficções são os poetas Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e, sobretudo, o próprio Fernando Pessoa. O mexicano põe assim o dedo nessa ferida que é o fingimento do poeta, isso que o torna uma ficção de si mesmo. E cada persona de Pessoa é essencialmente, como o próprio, ele mesmo e o seu fingimento.

 

                                                                                             Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira



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Quinta-feira, 11.02.16

 

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Querido Camilo, grande e singular amigo de Sousa Franco:

 

No último dia do ano passado, reli Os irmãos Karamazoff e tudo me pareceu evidente, natural, como os pecados, as glórias, os ciúmes e os poderes e o amor e a dor, e tudo tão evidente quanto já me surgira em Shakespeare, e em todos, o tal crime de tentar abrir janelas no mundo que ainda hoje se encontram quietas e abafadas e eu irrequieta e explosiva.

E afinal, como pude, também tentei chamar a atenção para as essências individualmente sentidas, e que de mãos dadas fossem a opção forte face à indiferença de que fala o Papa Francisco.

Um dia retorqui ao meu muito querido Professor Sousa Franco:

Sim rezei, rezei agora mesmo, aqui e ao seu lado, aqui na Basílica da Estrela, mas sabe como?

Meu Deus não permitas que continuem a matar Mozart à nascença e que seja possível o nosso cadinho que aponte um caminho que um dia irá dar à verdade, e que eu, como sabes, só creio em Ti na medida em que aqui e hoje, volto a sentir que se vive sem assumir a essência da nossa condição humana, e que tenho medo de estar a viver um tempo de homem morto no berço de uma qualquer mãe, ela também sem interrogações e Ámen que eu tenho de fazer parte da população activa e esta é a que não conhece que Cesariny disse: - Esse pobre Mário de Sá-Carneiro, que os portugueses suicidaram em Paris. E não seja feita a Tua vontade se dela resultar este medo de não estar nos braços de ninguém. E não dou esmolas pois que me colocam em causa o metabolismo e não conheço outro modo de estar de pé que não este que te mostro, face ao mal-estar quotidiano das injustiças que são tantas que receio gostar do Che Guevara, apesar de ter sido daquelas meninas que repartia com o filho do jardineiro o pão nosso que me não faltava, e nunca gostei do moralismo do Direito Penal que pouco conhece a antropologia do criminoso nato por quem muitos burgueses sentem ternura romântica e intelectual compreensão. E mais, meu Deus!, o quanto eu amo a liberdade e os beijos dela que não reduzam o eu, e ajuda Tu o Professor Sousa Franco que ainda não sabe desta minha ladainha e já me fez exame, ai se fez!, e com ele virei sempre rezar enquanto achar que o meu medo merece a santidade com que Tu me olhas.

Sim, Professor, está mais ao menos tudo aqui no papel. A oração vai até mais longe, mas não me lembro onde coloquei a versão toda. Sim, leve-a para sua casa. A Rua de S. Bernardo que se acautele ainda que o abade francês reformou a Ordem de Cister e eu acredito que estes atrevimentos podem trazer compreensões.

Teresa, disse-me:

Amanhã pode dar a 1ª aula? Tenho um doutoramento trabalhoso.

Sim, claro. A actividade financeira?

Sim. E olhe se acaso tiver outra oração escrita traga-ma, sim? Ficava-lhe grato. Vai para casa? Chamamos um táxi? O que vai fazer neste quase primeiro dia do ano?

Professor, pois vou começar por escutar de novo, C'est la vie de Emerson, Lake & Palmer. Já ouvi o tradicional concerto da Sala Dourada do Musikverein. Um dia será sob a batuta de Franz Welser-Möst, dizem.

Pois Teresa, dizem. E eu digo que gosto muito de estar com a Teresa. Oferece-me sempre a sua verdade e quem lucra sou eu, fomos feitos para comunicar. Afinal e sempre pelo acesso ao conhecimento.

Sim, sempre por aí.

Uma das perguntas que mais tenho feito desde que soube da morte de Sousa Franco, é, se o mundo que me interessa é o desta comunidade organizada em repartições, concursos, processos disciplinares, supostas alternativas, súbitos reconhecimentos de méritos, ou se é aquela dos homens de boa vontade e de rectas intenções onde soube viver o meu querido Professor António Luciano de Sousa Franco. E esta pergunta não a coloco afinal há muitos e muitos anos. É modo de dizer.

Sei que não quero burocratas de homens livres com cinzentas marcas tremendamente humanas. O que eu quero é o grande sopro. A irrupção saudável e única do grande sopro. Também o inesquecível Professor Sousa Franco cheio daquela fantástica Amizade com que me premiou, não se esqueceu de me dizer que a sua Igreja nunca seria a do sabe tudo, mas antes a da insegurança com que se faz ao medo e arrisca a fala do coração, afinal aquela para a qual está menos preparada.

Hoje, meu amigo Camilo, esta a forma quase confessional em que ainda me questiono e questionei ao lado do grande saber e da ternura de um Mestre que se não esqueceu de me transmitir a consciência critica, e quando esta transmissão aconteceu por muitos silêncios, aí se encontrou a sua morada certeira. Não a esquecerei nunca.

Desejo-lhe um ano de 2016 tão tranquilo quanto possa vir a ser.

A Sua amiga

Teresa Bracinha Vieira

 2.1.2016

 



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Quarta-feira, 10.02.16

 

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UM LIVRO SOBRE ATRIZES PORTUGUESAS DO SÉCULO XX

 

Faço aqui referência a um livro muito recentemente publicado, da autoria de Luciano Reis, “As Grandes Divas do Século XX” (ed. Parsifal – dezembro 2015) onde se recorda e analisa a atividade artística de 15 atrizes portuguesas de primeiro plano, algumas ainda em atividade, mas todas com longas e notáveis carreiras. As biografias artísticas cobrem assim o historial do teatro português contemporâneo, a partir do final do século XIX - início do século XX, caso de Palmira Bastos, que se estreou em 1890, Maria Matos (estreia - 1907) ou mesmo Amélia Rey Colaço (estreia - 1917): e assim se percorre mais de um século de historial de espetáculo, dado que, repita-se, algumas atrizes evocadas estão felizmente vivas e em atividade.

Iremos vendo, ao longo desta série de artigos, alguns dos casos mais destacados no historial do espetáculo português do século XX – e por vezes, do XXI!

Sem entrar aqui em pormenores, refira-se entretanto desde já as grandes linhas gerais destes currículos, na perspetiva dominante do significado no contexto do teatro português contemporâneo. E desde logo algumas vertentes desta atividade artística/profissional, porque comuns e dominantes nas variadas carreiras evocadas, merecem referência global. O que não impede que, em certos casos, se remeta para as exemplificações específicas, em artigos intercalados da série.

E logo em primeiro lugar, realce-se uma certa continuidade profissional, ou pelo menos, de meio ambiente cultural. Não são esporádicos, de facto, os exemplos de tradição familiar próxima ou imediatas no meio teatral. Quer dizer: algumas destas atrizes chegam ao teatro na continuidade de carreiras familiares, digamos assim: filhas de artistas, ou familiarmente relacionadas.

Também é interessante apreender a diversidade de início das carreiras. Se é certo que encontramos casos repetidos de frequência do Conservatório, também são comuns as situações profissionais iniciadas diretamente no meio teatral propriamente dito, em colaborações esporádicas ou desde logo regulares, em companhias de teatro. Algumas muito jovens, para interpretar personagens muito jovens, quando não crianças, o que está longe de ser pouco habitual no teatro - sendo certo, entretanto, que, no caso de crianças em cena, o interprete é muitas vezes mais velho do que a personagem desempenhada.

Em qualquer caso, temos, no livro de Luciano Reis, depoimentos de atrizes que pisaram o palco antes dos 10 anos: e a maioria iniciou carreiras profissionais muito antes dos 20. E essas carreiras prolongam-se por dezenas de anos, em certos casos, repita-se, até aos nossos dias.

Refiro hoje apenas duas situações.

Palmira Bastos estreou-se com 15 anos, em junho de 1890, por iniciativa de Sousa Bastos, com quem viria a casar, e que é autor de um livro aqui muitas vezes citado, “Diccionário do Theatro Portuguez” (1908). A peça, hoje esquecida, intitulava-se “O Reino das Mulheres”.

E a última apresentação de Palmira em público foi em 1966, um ano antes da morte, com a gravação televisiva, com público, no Teatro Avenida, do enorme sucesso de “As Árvores Morrem de Pé” de Alejandro Casona, antes durante meses em cartaz.

Já aqui evocamos o último espetáculo de Amélia Rey Colaço, no papel de Rainha em “El-Rei Sebastião” de José Régio, duas récitas realizadas no Teatro Portalegrense a 19 e 20 de outubro de 1985, numa homenagem a Régio, durante anos professor do liceu local. (cfr. Atores, Encenadores – LIX, 11 de novembro de 2015).

Recorde-se que Amélia era filha de um dos grandes expoentes da vida artística da época, o pianista Alexandre Rey Colaço. A sua estreia em récitas familiares ou de beneficência, como jovem declamadora, vem da primeira década do século passado, mas desde logo assumiu uma dimensão internacional, tendo Amélia estudado em Paris e inclusive participado numa récita em Madrid na presença do Rei Afonso XIII, isto em 1915, informa Luciano Reis.

Mas a estreia profissional de Amélia Rey Colaço ocorre em 17 de novembro de 1917 no Teatro República, hoje Teatro São Luiz, no papel da Vagabunda da peça “Marianela”, de Benito Perez Galdoz. Dirigia a companhia e dirigiu o espetáculo o grande ator Augusto Rosa.

Quanto a Maria Matos, havemos de a evocar em outra crónica, com realce para a sua longa carreira no teatro e no cinema.

E também evocaremos outras atrizes referidas no livro de Luciano Reis.

 

DUARTE IVO CRUZ

 



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Terça-feira, 09.02.16

 

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As you like it‒ or not, 2016-18

O UK-EU Deal ganha contornos e o voto Brexit explode nos jornais, social media, sondagens e mesmo nas conversas de ocasião. Quem ama Britain algures estremece ao ler as linhas da meia dúzia de páginas lavradas por Brussels em negociação com Downing Street,

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sob sinete tudesco, mas as paixões transbordam é com a onda de comentários que suscitam aos mais altos responsáveis europeus. — Chérie. La nuit porte conseil. O Daily Mail fixa o Brit mood na manchete “Who will speak for England?,” que coteja a defesa do national interest para o Bremain por RH David Cameron a funesto papel agitado no ar pelo Prime Minister Neville Chamberlain em 1939! O sismógrafo YouGov dá agora 36% ao Remain e 45% ao Leave. — Hmm! Wit is needful to him who travels far. As escolhas coalham também na White House Race. New Hampshire é a nova etapa após as primárias do Iowa ganhas por Mr Ted Cruz e Mrs Hillary Clinton. O reality check permite ao aparelho republicano bater Mr Donald Trump e insuflar a candidatura de Mr Marco Rubio enquanto o senador Bernie Sanders ombreia como credível rival à ex-First Lady. A corrida democrata oferece, aliás, diálogos memoráveis na história dos debates políticos em torno das ligações perigosas nas campaign finances. Já Pope Francis constrói pontes na Season of Lent e reúne em Cuba com o Patriarch Kirill, da Orthodox Church. A mansão da Baroness Thatcher no 73 Belgravia está à venda por £30m.

So: Cold days, showery conditions and sunny moments em London. A palco de Knightsbridge regressa o folhetim do fundador do Wikileaks, após painel da UN disputar a legalidade do mandato de captura que recai sobre Mr Julian Assange. Os 69th Annual BAFTAs igualmente assomam à cena, com a BBC One a preparar direto atlântico com a BBC America e as películas 45 Years, Amy, Brooklyn, The Danish Girl, Ex Machina e The Lobster nomeadas para o 2016 Outstanding British Film. O Pegida UK emerge, apela e marcha

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contra a “islamicisation of the West.” No mais tudo se liquefaz numa palavra: deceção. E a dedo apontado ao Tory PM: out of touch with both party and country. Assim se reage ao draft de acordo entre o No 10 e a European Union, o qual frusta as piores expetativas e é aqui encarado como… uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Dispenso exame ao inventivo projeto, mas destaco a análise glacial do biógrafo de Lady Thatcher, Mr Charles Moore, no insuspeito The Daily Telegraph: “Not only is it unimpressive, it is insulting. The declared purpose of Mr Cameron’s frenetic diplomacy has been to change the situation so that people like himself – self-declared sceptics – could now see their way clear to voting to Remain. Yet the feeble result makes almost no difference to the question on which we shall vote. The strong arguments – for and against – stay the same. The public interest has been ignored in favour of party games.”

Viremos as atenções para coisas agradáveis, pois, que o euroreferendo popular ditará o futuro. A Britain propõe visita a Oxfordshire com pergunta convincente: “What could be lovelier this Spring than an escape to Britain’s rural paradise that is the Cotswolds?” No número de March, a gazeta de culture, heritage & style mapeia os primores do condado de Eynshart a Chastetton, saindo via Witney, Crawley e Minster Lovell a Burford, em verdejante

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peregrinação de Ascott-under-Wychwood a Chastteton House ‒ sempre com pausa em St Mary the Virgin ou Bliss Tweed Mill na primoministerial Chipping Norton. Muito há para great walkings do Windrush River ao Evenlode Valley. Ressoam those feet in ancient times na macieza dos water mills ao longo do Cherwell até Rousham Park, para se exalar fundo no Blenheim Palace onde nasce Sir Winston S Churchill e regresso ditoso a Oxford por Woodstock e familiar lar. É preciso estar para saber que a respiração é outra, entre a lisura florida das thatched cottages, a imponência trabalhada das medieval manor houses e a civilidade das gentes nas farmhouses, inns & pubs. Nas belíssimas aldeias honey-stone ao gosto dos amantes de Downton Abbey há que abalar de spa’s e afins, porém, vendilhões da Aquae sulis tradition, para acharmos o English countryside. Eis o suão de Stratford-upon-Avon, solo do bardo, no coração da “green and pleasant Land” que a mão humana forma nos hills enquanto a mente cria a personal freedom e ergue o admirado Elizabethan State. Privilegia-se então o arvoredo ao invés da arbúscula, que a há para acolher a parvidade, mas é aquele que atrai os épicos birds & blossoms que honram os outeiros com mais história do que estes dirão. — Well! Even Master William Shakespeare intone them in his Sonnets: From you have I been absent in the spring, / When proud pied April, dressed in all his trim, / Hath put a spirit of youth in every thing.

 

St James, 8th February
Very sincerely yours,
V.

 



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Segunda-feira, 08.02.16

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De 8 a 14 de fevereiro de 2016

Nuno Teotónio Pereira mostrou-se muito interessado pela saída do livro «Liberdade da Cultura – Preparar o 25 de abril – Uma história pouco conhecida com o Centro Nacional de Cultura» (Gradiva, 2015). Infelizmente já não pôde enviar o depoimento que planeava para a sessão de lançamento com Roselyne Chenu.

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TEMPO DE SEMENTEIRA
Trata-se de recordar com intensidade um tempo em que Nuno lançou à terra sementes do direito à diferença. Nesse livro lembra-se como, sob o impulso generoso de António Alçada Baptista, e com o apoio do grande poeta francês Pierre Emmanuel (ao lado de Roselyne Chenu), foi possível a um conjunto de personalidades marcantes na vida cultural portuguesa preparar o terreno no qual viria a florescer a democracia portuguesa. Trata-se da invocação da Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias, que representou, a partir de 1965, em Portugal o Congresso para a Liberdade da Cultura, a que estiveram ligadas figuras prestigiadas mundialmente como Karl Jaspers, Jacques Maritain, Bertrand Russell, John Dewey e Benedetto Croce. Além de Nuno, a lista portuguesa integrava João Bénard da Costa, Nuno Bragança, José Cardoso Pires, José-Augusto França, João de Freitas Branco, Luís Filipe Lindley Cintra, Maria de Lourdes Belchior, João Pedro Miller Guerra, Mário Murteira, José Palla e Carmo, José Ribeiro dos Santos, Rui Grácio, João Salgueiro, Adérito Sedas Nunes, Joel Serrão e o Padre Manuel Antunes. A lista fala bem por si, e o testemunho de Teotónio Pereira que está integrado no livro é bem significativo – demonstrando como pessoas tão diferentes, mas unidas por uma atitude comum na defesa da liberdade, puderam pôr em marcha uma iniciativa que ainda hoje constitui um exemplo de coragem, de inteligência e de determinação.

 

UM RENOVADOR DA SUA ARTE
Quando nos deixou, foram muitas e justas as referências à importância de Nuno Teotónio Pereira na renovação da arquitetura portuguesa. O papel que desempenhou foi fundamental. Como salientou Ana Tostões: «ao longo da sua vasta produção manteve-se fiel a uma criação implicada com o real, com o lugar e as pessoas. Do compromisso social ao político é esse o sentido de uma obra aberta à participação» (DN, 21.1.16). A compreensão do lugar das pessoas e da sua dignidade e o desígnio da justiça e da solidariedade são elementos cruciais na vida do prestigiadíssimo profissional. E todos nos lembramos da saída dos presos políticos de Caxias. O facto de o arquiteto estar entre eles representou que a cidadania e a liberdade, a coerência criadora e a compreensão da relação entre as pessoas e as cidades se ligam indelevelmente. O percurso pessoal é esclarecedor, desde a Escola de Belas-Artes de Lisboa, do I Congresso Nacional de Arquitetura (1948), da militância a favor da Carta de Atenas ou da experiência de Corbusier, do trabalho nas Habitações Económicas, dos quatro prémios Valmor, do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR) simbolizado na igreja do Sagrado Coração de Jesus, mas também do jornal clandestino «Direito à Informação» ou da Comissão de Socorro aos Presos Políticos… - tudo merece atenção como um conjunto significativo. O depoimento no livro «Liberdade da Cultura» fala por si. Eis o que nos diz: «embora contasse, entre os seus membros, amigos já de longa data (como o grupo do “Tempo e o Modo”), muitos deles companheiros nas lutas em que eu e a Natália estávamos envolvidos, tive ali a possibilidade de conviver com personalidades ímpares da intelectualidade portuguesa nos mais diversos domínios, analisando os acontecimentos e trocando opiniões – ora convergentes, ora divergentes. Isto, porque os momentos que o país atravessava eram de clarificação de posições e de separação de águas, no tempo em que o Centro Nacional de Cultura era dirigido por Francisco Sousa Tavares e pela Sophia. Alguns, ainda acreditando na Primavera Marcelista, outros francamente envolvidos na oposição ao regime. A cooperativa Pragma, por exemplo, em que eu estava com o Mário Murteira, o João Gomes e muitos outros, fora já encerrada pela PIDE em 67, mas o apoio financeiro da Associação (para a Liberdade da Cultura) ajudou a que prosseguisse clandestinamente a sua atividade ainda durante algum tempo. (…) Efetivamente a Associação e o CNC eram uma casa só, onde a luta contra a ditadura e a guerra colonial encontravam cada vez mais acolhimento, paredes meias com a sede da Pide…». Alguém me lembrava como na Rua António Maria Cardoso, 68 funcionava um lugar de acolhimento, de reunião e uma pequena escola de cursos livres.

 

REFERÊNCIA CÍVICA
De facto, (no CNC e não só) Nuno Teotónio Pereira foi uma referência cívica permanente, cuja lição fundamental foi o inconformismo – como ele próprio disse em diversas circunstâncias. A sua presença era uma constante pedagogia e um exemplo – mesmo nos seus gestos mais inesperados. E pode dizer-se que, mais do que por uma qualquer orientação política ou atitude, foi influente pela sua coerência e pela capacidade de ver para além do imediato. O curto prazo político importaria pouco… E nessa capacidade ombreou com personalidades marcantes do Centro, como Almada Negreiros, Fernando Amado, Gonçalo Ribeiro Telles ou Helena Vaz da Silva. Se António Alçada Baptista (homenageado há pouco pelo Município de Lisboa, que atribuiu o seu nome a um dos seus arruamentos) foi o eixo de gravidade na iniciativa recordada, que representou a imagem de vitalidade e força do pluralismo democrático, deveremos sublinhar que Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares foram elementos chave para a criação de um espaço único de abertura e de respeito pelas diferenças e pelas liberdades. Um dia, aliás, Sousa Tavares conseguiu salvar uns exemplares clandestinos do «Direito à Informação» e do «Boletim Anticolonial», escondendo-os no congelador do velho frigorífico do CNC, o que impediu os agentes da Pide de os apreender, com as consequências previsíveis… Compreende-se, pois, que nas cerimónias de despedida de Nuno Teotónio Pereira tenham estado presentes os poemas de Sophia – como «Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar» e a sentida «Carta aos Amigos Mortos» do «Livro Sexto». Quando o CNC fez 70 anos foi com este poema que Maria Barroso, sem que alguém o pudesse prever, se despediu de nós… «E eu vos peço por este amor cortado / Que vos lembreis de mim lá onde o amor / Já não pode morrer nem ser quebrado / Que o vosso coração já não bate / O tempo denso de sangue e de saudade / Mas vive a perfeição da claridade / Se compadeça de mim e do meu pranto / Se compadeça de mim e do meu canto». Mais do que a cronologia biográfica, fica o sentido humano de quem, até ao fim, acreditou nas pessoas e nas suas diferenças…


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

 



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Domingo, 07.02.16

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   Minha Princesa de mim:

 

   Têm-me feito companhia os sermões do padre António Vieira. Consola-me  --  nesta angústia quotidiana com que nos apertam as notícias incessantes de tanta pobreza, de multidões de pessoas humanas que a fome e as guerras arrancam às sua pátrias para as atirarem à embirração de gente "civilizada" que, infelizmente, vezes demais preferiria esquecê-las, enterrá-las ou afogá-las na indiferença, ou, simplesmente, expulsá-las  --  consola-me, sim, a esperança feita da memória de que sempre houve quem olhasse para e pelos desvalidos, por entender que é o próprio Deus quem sofre na miséria dos homens. E que, se a nossa salvação vem por essa incarnação, todos nós somos responsáveis por anunciá-la, efectivamente, através de actos de atendimento e libertação, a boa nova aos pobres. Nem pode ser livre quem esquece, ignora, cala e nada faz para libertar os que a desgraça oprime.

   No Sermão Décimo Quarto da série Maria, Rosa Mística, pregado na Baía, à Irmandade dos Pretos de um Engenho, no ano de 1633, vinte e dois anos antes do Sermão do Bom Ladrão, o missionário jesuíta, a dado passo, afirma que Ao Ladrão deu Cristo menos do que lhe pediu...  ... porque o Ladrão pediu-lhe a memória, e (Cristo) deu-lhe o Reino... Afinal, Vieira pretende mostrar àqueles escravos africanos no Brasil o valor divino das suas pessoas, pese a humilhação da sua condição:

   David (aquele santo rei, que também teve netos na Etiópia, filhos de seu filho Salomão e da rainha Sabá), entre os salmos que compôs, foram três particulares, aos quais deu por título: Pro torcularibus, que em frase do Brasil quer dizer para os engenhos. Este nome torcularia, universalmente tomado, significa todos aqueles lugares e instrumentos em que se espreme e tira o sumo dos frutos, como em Europa o vinho e o azeite, que lá se chamam lagares; e porque estes em que no Brasil se faz o mesmo às canas doces e se espreme, coze e endurece o sumo delas, têm maior e mais engenhosa fábrica, se chamam vulgarmente engenhos. Se perguntarmos pois: -- qual foi o fim e intento de David em compor e intitular aqueles salmos nomeadamente para estas oficinas?  -- respondem os doutores hebreus que o intento que teve o santo rei, e fez se praticasse em todo o povo de Israel, foi que os trabalhadores das mesmas oficinas juntassem o trabalho com a oração, e em lugar de outros cantares com que se costumam aliviar, cantassem hinos e salmos... Se pensarmos, Princesa, no exílio e escravidão do povo judeu em Babilónia, por exemplo, talvez alcancemos o fundamento da esperança na fé, a razão íntima do louvor a Deus, mesmo no desassossego e no desamparo. Quando António Vieira procura convencer escravos negros a rezar, na humilhação da sua labuta forçada, ele não lhes diz, nem quer dizer "aguentem-se, depois da morte há para vós um reino!", antes lhes repete que a fé é a substância das coisas que devem ser esperadas, porque, se a Ressurreição de Cristo venceu a morte, vencidas também são as razões da servidão... O que lhes propõe  --  verás pelos trechos que adiante transcrevo  --  é a consciência da sua identificação com Cristo, e dos trabalhos no engenho com a divina Paixão. Por outro lado, não esqueças que as audiências do pregador não eram compostas apenas pelos escravos africanos  --  a maioria dos quais, aliás, dificilmente entenderia a língua portuguesa, sobretudo uma tão trabalhada como a de Vieira  --  mas integravam os senhores brancos, colonos fazendeiros, militares e oficiais da administração, cuja atenção para a enormidade da exploração de seres humanos identificados com Cristo os sermões reclamavam...

   A dado passo, o pregador afirma que torcular [assim se diz lagar em latim] se chama o vosso engenho ou a vossa cruz, e a de Cristo por boca do mesmo Cristo se chamou também torcular: torcular calcavi solus [pisei sozinho o lagar]Em todas as invenções e instrumentos de trabalho parece que não achou o Senhor outro que mais parecido fosse com o seu, que o vosso. Repara, Princesa, que a citação latina é tirada de Isaías (43 - 3), é um versículo inserto num texto zangado, revolucionário, exaltado. Clama o profeta: No lagar pisei solitário, da gente do meu povo ninguém estava comigo. Então esmaguei-os na minha cólera, pisei-os no meu furor e o sangue deles molhou-me as vestes, e manchei tudo o que vestia. Porque tenho no coração um dia de vingança, eis que é chegado o ano da minha retribuição. Olho: ninguém me ajuda! Manifesto a minha angústia: ninguém me apoia! Então o meu braço veio em meu socorro, a minha fúria sustentou-me. Esmaguei os povos com a minha cólera, quebrei-os com o meu furor, e derramei o seu sangue pelo chão.

   António Vieira exprime assim a intenção do seu discurso: A propriedade e energia desta comparação é porque no instrumento da cruz e na oficina de toda a paixão, assim como nas outras em que se espreme o sumo dos frutos, assim foi espremido todo o sangue da humanidade sagrada...  ...E se então se queixava o Senhor de padecer só... ...e de não haver nenhum dos Gentios que o acompanhasse em suas penas... ...vede vós quanto estimará agora que os que ontem foram gentios, conformando-se com a vontade de Deus na sua sorte, lhe façam por imitação tão boa companhia!

   É conhecida a acção e a oratória do jesuíta na protecção dos indefesos, na defesa dos explorados. Com a mesma convicção e força da alma com que, por exemplo, um punhado de frades dominicanos denunciaram a perversão anticristã com que, na ilha de Hispaniola (actualmente Haiti e República Dominicana) os espanhóis tratavam os ameríndios, tal como nos conta frei Bartolomeu de las Casas, outro paladino da exigência de justiça cristã para com as populações indígenas, na sua Historia de las Indias. Lembro-te um trecho do célebre sermão de frei António de Montesinos, proferido precisamente na cidade de Santo Domingo, a 21 de Dezembro de 1511, frontalmente dirigido aos governantes e colonos espanhóis: Esta voz declara que todos estais em pecado mortal e nele viveis e morrereis, pela crueldade e tirania que usais com estas inocentes gentes. Dizei: com que direito e com que justiça tendes estes índios em tão cruel e horrível servidão? Com que autoridade fizestes tão detestáveis guerras a estas gentes que estavam nas suas terras , mansas e pacíficas, onde consumistes um número infindável delas com mortes e estragos nunca ouvidos? Como é que os tendes tão oprimidos e esgotados, sem lhes dar de comer nem curar as suas doenças, que pelos excessivos trabalhos a que os sujeitais vos morrem, melhor será dizer que os matais, para arrancarem e conseguirem ouro todos os dias. E que cuidado tendes em que sejam doutrinados e conheçam o seu Deus e criador, sejam baptizados, oiçam missa, guardem as festas e domingos? Estes não são homens? Não têm almas racionais? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Não entendeis isto? Não sentis isto? Como estais adormecidos num sono tão profundo e letárgico? Tende como certo que no estado em que vos encontrais não vos podeis salvar mais que os mouros ou os turcos, que não têm e não querem a fé de Jesus Cristo. Vem este sermão narrado na referida Historia de las Indias, onde frei Bartolomeu de las Casas relata este e muitos outros episódios da luta dos missionários pelo respeito da dignidade humana. Aliás, Princesa, conta ainda como, neste caso, os colonos enviaram a El-Rei cartas acusatórias dos frades dominicanos. E conclui: Estas cartas, chegadas à corte, deixaram toda a gente alvoroçada; escreve o rei mandando chamar o provincial de Castela [padre superior dos dominicanos castelhanos], que era o prelado dos que aqui [em Hispaniola] estavam, porque ainda não havia aqui província autónoma, queixando-se dos seus frades que tinha enviado para cá, que o tinham desfavorecido muito, pregando coisas contra o seu estado, com alvoroço e escândalo de toda a grande terra; que remediasse isso rapidamente senão seria ele que o mandaria remediar. Vedes aqui quão fáceis são os reis de enganar e quão infelizes se tornam os reinos por informação dos maus e como se oprime em terras onde não ressoe nem respire a verdade.

   Assim, Princesa de mim, um século e meio antes do Sermão do Bom Ladrão (1655), de que te falava na carta anterior a esta,
o tal em que o padre António Vieira começava por dizer Este sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim que lá se havia de pregar e não aqui, já também um dominicano espanhol fazia observar quão fáceis são os reis de enganar e quão infelizes se tornam os reinos por informação dos maus... Será que, nos nossos dias, também já não falamos nem escutamos, não respiramos a verdade em tempo oportuno e no devido sítio?

                                     Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira



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Sábado, 06.02.16

 

CasaArtes.jpg

 

A Casa das Artes de Eduardo Souto Moura

 

A Casa das Artes (1981-85/1988-91) é resultado de um concurso público cujo 1º lugar foi atribuído a Eduardo Souto Moura (1952). Está situada no Porto e é considerada projecto manifesto no processo de trabalho de Souto Moura. Além de introduzir uma nova linguagem tornou-se objecto exemplar para outros arquitectos de diversas gerações. Marca o início de um sistema, de um processo de trabalho facilmente perceptível e repetível.

A Casa das Artes parte da ideia de desdobrar, dar espessura e importância a um muro existente no jardim da propriedade de uma casa projectada por Marques da Silva, no Campo Alegre. O objecto deseja ser anónimo e passar despercebido. A Casa das Artes assume uma neutralidade formal quase como que se de um não-edifício se tratasse. É a negação da forma e da arquitectura. Quase imperceptível através do exterior, Souto Moura recorre ao uso de planos de pedra e de espelhos que escondem o volume. A redução linguística permite com rigor omitir, raspar, depurar não interferindo com o jardim existente.

O projecto do Centro Cultural toma como ponto de partida o jardim e aí Souto Moura descobre elementos que aparentemente secundários reforçam o equilíbrio do lugar – a intervenção torna-se assim sólida e necessária.

O programa do Centro Cultural é contido e está encaixado na periferia do jardim, sendo continuação da base da torre de nove de pisos, pré-existente, que lhe é contígua.

Dois muros desfasados, um em betão e outro em pedra aparelhada estruturam o programa dividido em três sectores: Auditório, Sala de Exposições e Cinemateca. A pedra, o betão, o tijolo e a madeira são utilizados em planos sucessivos.

O projecto da Casa das Artes assume um claro distanciamento da cultura pós-modernista que enche as cidades com exageros decorativas e que se vai afirmando pelos anos 80. O uso explícito de uma iconografia histórica, local ou popular é pouco importante para Souto Moura que antes adopta uma atitude de rigor formal e técnico. A redução linguística proposta por Souto Moura reafirma o projecto como actividade artística – na importância dada ao detalhe, à ortogonalidade, ao ângulo recto. A modificação ambiental, que Souto Moura propõe ao construir, faz-se agora através do recurso a poucos e secundários elementos que transformam e acrescentam valor.

Souto Moura ao servir-se de uma não linguagem transforma a arquitectura. A redescoberta e a reintrodução da regularidade, da redução e da essencialidade da linguagem não aparece só pela via da recuperação das vanguardas europeias do primeiro Movimento Moderno – trazendo Mies e De Stijl – mas também pela via da escultura minimalista e ambiental norte-americana.

O exemplo de Mies Van Der Rohe possibilita a Souto Moura a procura da verdade, da poética e da ciência (ou técnica, utilizada em favor da padronização formal e serial) que converge para uma racionalidade cada vez mais abstracta e compositiva. Mies conjuga realidade e abstracção. Com muitas afinidades neo-plásticas prefere trabalhar com elementos verticais, horizontais e o plano.

Souto Moura procura através do grupo De Stijl afirmar a racionalidade como comando das transformações da vida, nos diversos campos da actividade humana. De Stijl estabelece-se uma ordem nova, onde todo o acto construtivo é estético. A arquitectura pretende construir-se para a vida, eliminando implicações ideológicas – a forma resulta da elementar acção de construção e a geometria não é usada como símbolo, mas antes como elemento facilmente reconhecível, à medida do Homem.

A redução linguística que Souto Moura propõe aparece também através da escultura minimalista e ambiental americana. A ideia de arquitectura é a espinha dorsal do movimento minimalista americano, sobretudo no seu objectivo de transformação ambiental – em contraposição aos valores consumistas e sinaléticos do Pop e ao poder das tecnologias. Anseia-se modificar o ambiente através da introdução de objectos com limites determinados e com geometrias fixas – Robert Morris, Donald Judd, Sol Lewitt, Os objectos deslocam-se da galeria para o território e para um contexto histórico e cultural tornando-se ‘environmental art’, ‘earth works’, ‘land art’.

Souto Moura procura por um acto de concepção que evita a subjectividade da execução de obras integralmente fixadas à priori. Pretende antes revelar as características primárias do lugar – muitas vezes recorrendo à repetição, à analogia e à colagem – mudando o significado do contexto, subtraindo, deslocando, dividindo espaços e matérias. Os sinais morfológicos e topográficos secundários podem ser determinantes nesta nova ordem conceptual – como acontece no projecto da Casa das Artes ao reafirmar-se o muro.

Projecto, para Souto Moura, é um instrumento que, através de uma economia de gestos, traz qualidade a fragmentos do território que se tornam excepcionais. Transforma-se o sítio criando novos limites – a importância do muro como limite, como interrupção, como que marcando a diferença entre materiais – atrás do muro de granito estão contidos os auditórios que enterrados não deixam parecer que é de um edifício que se trata. Reduzem-se os elementos arquitectónicos (pavimento, cobertura plana, paredes), os planos livres são constituídos em materiais diversos e a planta é esquemática.

Ao utilizar-se a estrutura mínima a concretização exacta, no sentido de criar uma paisagem precisa, Souto Moura abre a possibilidade a um maior número de interpretações. O natural opõe-se ao artificial. As técnicas tradicionais são usadas juntamente com técnicas inovadoras – é a porta de vidro espelhado prolonga a parede de granito.

 

Ana Ruepp



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Sexta-feira, 05.02.16

 

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            Minha Princesa de mim:

 

Logo a abrir o seu Sermão do Bom Ladrão, pregado na igreja da Misericórdia de Lisboa em 1655, um século antes do grande terramoto, o padre António Vieira faz observar que o mesmo não se prega na Capela Real, parecia-me a mim que lá se devia pregar e não aqui. E, depois de explicar o significado essencial do relato evangélico "Senhor, lembra-te de mim quando chegares ao teu Reino. - Hoje estarás comigo no Paraíso" (Lucas 23, 42 e 43), dirá: Levarem os reis consigo ao Paraíso os ladrões, não só não é companhia indecente, mas ação tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu Reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei. Mas o que vemos praticar em todos os reinos do Mundo, é tanto pelo contrário, que em vez dos reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao Inferno. Voltarei já ao padre António Vieira, mas ocorreu-me agora aquele passo da Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, de Frei Luís de Sousa (Manuel de Sousa Coutinho), de que em antiga carta te falei e seguidamente voltarei a transcrever. Antes, porém, lembro que o escritor e frade dominicano, nascido em 1555, um século antes do sermão acima encetado, foi considerado, pelo próprio jesuíta António Vieira, um mestre cujo estilo é claro com brevidade, discreto sem afetação, copioso sem redundância, e tão corrente, fácil e notável que, enriquecendo a memória, não cansa o entendimento. Talvez por essas razões, Almeida Garrett, já no século XIX, considerará frei Luís de Sousa o mais perfeito prosador da língua. Passo a citar o tal trecho da Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, quando, em tempos conciliares (Trento), o papa, em Roma, convida o frade arcebispo de Braga: Levou-o um dia consigo passeando até o jardim famoso dos papas, que chamam Belveder; e, mostrando-lhe as obras que se iam fazendo, disse-lhe, sorrindo-se, como quem lhe sabia já o humor, porque não fazia ele lá na sua Braga uns paços como aqueles?  - Santíssimo padre  --  respondeu o arcebispo  --  não é de minha condição ocupar-me em edifícios que o tempo gasta. ... Não ignorava o papa que havia de ser esta a resposta, e, contudo, tornou a instar e disse:  -- Pois que vos parece destas minhas obras? ... Então, com maior energia, respondeu:  - O que me parece, Santíssimo Padre, é que não devia curar Vossa Santidade de fábricas que, cedo ou tarde, hão de acabar e cair. E o que digo delas é que, de tudo isto, pouco e muito pouco e nada, e do edifício temporal das igrejas seja mais do que se faz; mas no espiritual, aí sim, que é razão ponha Vossa Santidade toda a força e meta todo o cabedal de seus poderes. Regressado ao sermão do padre Vieira, reparo na narrativa que faz daquele episódio em que Alexandro Magno, quando lhe trazem um pirata capturado, o repreende muito de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim:  - "Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?". Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza. E cita Séneca, que dissera terem o mesmo lugar e merecerem o mesmo nome ladrão, pirata como rei. E acrescenta: Quando li isto em Séneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos, em tempo de príncipes católicos e timoratos, ou para a emenda ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina... Adiante recorre a S. Basílio Magno: "Não são só ladrões, diz o Santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título, são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos". Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam... Para compor ainda esta inspiração que me vem de dois dos vultos maiores da língua portuguesa, vou ao Sermão da Dominga Vigésima Segunda, que António Vieira pregou no Maranhão, para trazer esta pérola: Isso quis significar o provérbio dos Antigos, quando disseram que a imagem de Mercúrio não se faz de qualquer madeiro: Non ex quolibet ligno fit Mercurius. E porque mais a imagem de Mercúrio que a de Júpiter, que era entre os Deuses a primeira e mais alta soberania?  -- Porque Júpiter era Deus do poder, Mercúrio da sabedoria e prudência; e a majestade do poder qualquer a pode representar facilmente; as ações, porém, da sabedoria e prudência são mui poucos os que sejam capazes de as compor e exercitar, como elas requerem. Mais fácil é parecer Júpiter que Mercúrio. Quando S. Paulo e S. Barnabé entraram em Licaónia, admirados aqueles gentios do que viam em ambos, disseram que os Deuses em semelhança de homens tinham descido do Céu à sua cidade, e a Barnabé chamavam Júpiter e a Paulo Mercúrio. Mas se Paulo, por tantas e tão excelentes prerrogativas era maior que Barnabé, porque deram a Barnabé e não a Paulo o nome de Júpiter, e a Paulo e não a Barnabé o de Mercúrio? Porque Barnabé excedia na estatura e majestade da pessoa, Paulo na eloquência, na sabedoria e na doutrina. E a representação da sabedoria requer muito maior cabedal e muito maior homem que a da majestade. Sabes, Princesa de mim, como procuro seguir o espírito clássico, e tanto admiro os nossos maiores, pela clareza dos propósitos e a justeza dos discursos que os veiculam. Não é só, nem sobretudo, por amor à forma  -  esta até pode disfarçar conteúdos vazios ou levianos  -  mas por julgar que o rigor na articulação de ideias e sentimentos (disso a que me apraz chamar o pensarsentir) e a transparência da sua expressão escorreita servem a sua verdade moral, isto é, a sua sinceridade e boa intenção. Em debates públicos, por exemplo, abusa-se hoje muito de ataques ad hominem e processos de intenção, em prejuízo evidente da apresentação e discussão de ideias, projetos e mesmo críticas. Confundem-se estas com "dizer mal", quando o exercício do verdadeiro espírito crítico é interpelar e interrogar, promover a clareza e a explicação, e nunca amarfanhar seja quem for. É ter a coragem de se dizer o que pensassente. Eis o que pode construir diálogos, em que cada parte expõe e defende a sua razão, sem receio de ser perseguido por isso, antes sabendo que a confrontação, mesmo que não resulte em consensos, é sempre promotora de luzes e progressos. Deixo-te, a este respeito, outro trecho do padre António Vieira, que poderia figurar, a meu ver, a lição de moral que retiramos da conversa de frei Bartolomeu dos Mártires com o papa: 

   Saibam estes eloquentes mudos, que mais ofendem os reis com o que calam, que com o que disserem; porque a confiança com que isto se diz, é sinal que lhes não toca e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala, é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar... Refere-se o pregador jesuíta aos nossos oradores evangélicos que, por receio, interesse ou habilidade, não pregam o que deviam. Sabemos bem que, oradores ou não, evangélicos ou outros, os que se calam muitas vezes prolongam situações de corrupção e injustiça. Tal como não ignoramos que os poderes do mundo, políticos, clericais, económicos  -  ou simplesmente marginais e secretos  -  não são, as mais das vezes, criados na cultura do atendimento e do respeito dos outros. Mas se outro recurso nos faltar, sempre nos resta este de clamar até que a voz nos doa...

                                                                       Camilo Maria

  
 

Camilo Martins de Oliveira



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Quinta-feira, 04.02.16

 

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II - O DIREITO À LÍNGUA COMO DIREITO INEVITÁVEL, HUMANO E FUNDAMENTAL

 

1. Do reconhecimento como uma realidade clara, manifesta e evidente, decorre a inevitabilidade de um direito inevitável, humano e fundamental: o direito à língua. Por um lado, como um direito inevitável e inerente à dignidade de todo o ser humano e, por outro, como um direito à nossa identidade cultural.
Para argumentar que temos, ou não temos, o direito à língua, temos de ter, sempre, o direito à língua, inexistindo raciocínios biológicos, físicos, filosóficos, históricos, jurídicos, políticos, sociológicos, entre outros, contra tal evidência. Daí ser um direito inevitável, indispensável e imprescindível. Um direito originário e universal, propriedade de toda e qualquer pessoa, inerente à sua natureza e condição, dignidade e unidade do género humano, que não pode ser suprimido nem negado, estando acima do Estado. Sabendo-se que a língua portuguesa é o primeiro ou um dos primeiros elementos diferenciativos da nossa identidade cultural, há um direito à própria língua, no nosso caso, no imediato e em primeiro lugar, ao português, direito extensivo aos falantes dos povos e países que o partilham em igualdade de circunstâncias. Trata-se também de um direito fundamental consagrado constitucionalmente, de um direito tutelar de direitos dos indivíduos face ao Estado, vinculando os poderes públicos no âmbito de uma ordem jurídica concreta, defendendo e impulsionando a dignidade humana, à semelhança dos direitos humanos, mas a um nível mais concreto. É, ao mesmo tempo, um direito linguístico de natureza análoga aos direitos, liberdades e garantias, consoante advém do artigo 17.º da Constituição da República Portuguesa (CRP).
Sendo um direito inevitável, humano e fundamental, por que não possui visibilidade apropriada e condizente com a sua importância? Disseminando-se no espaço e no tempo, ao arrepio da matéria, sendo esta, pela lei da física, o que tem peso e ocupa espaço, visível, tocável e tangível, o mesmo não sucede com a língua, dada a sua imaterialidade, invisibilidade, uma vez incorpórea, impalpável, intangível, não dando nem tirando votos, nem se acomodando a ser chocante ou causar impactos sensacionalistas, sendo alheia às angústias e inquietudes correntes do cidadão comum. Não serve de aferidor de responsabilidade e sentido de Estado, não colhe sufrágio dos políticos profissionais, nem cabe, senão em declarações proclamatórias, na noção do politicamente correto. Não se prestando a empolamentos ou sensacionalismos, não é notícia dos jornalistas de carreira. Para alguns, há invisibilidade do direito à língua, porque o problema da língua é trânsfugo, na sua tripla vertente trans-material, trans-territorial e trans-geracional.

2. A relevância peculiar da língua portuguesa resulta não só do português ser tido como língua oficial (art.º 11.º, n.º 3, CRP), mas também ser uma das tarefas fundamentais do Estado garantir o ensino e a valorização permanente, defender o uso e promover a difusão internacional da língua portuguesa (art.º 9.º, alínea f), CRP), o que é reforçado pelos vínculos privilegiados de amizade e cooperação com os países de língua portuguesa (art.º 7.º, 4, CRP) e pelo fomento das relações culturais com todos os povos, em especial os de língua portuguesa (art.º 78.º, n.º 2, alínea d), CRP). A que acresce um princípio fundamental do nosso direito, face ao qual cidadãos estrangeiros oriundos de países lusófonos são privilegiados e objeto de uma discriminação positiva por confronto com os demais, conforme previsto pelo art.º 15.º, n.º 3, da Constituição Portuguesa: “Aos cidadãos dos Estados de língua portuguesa com residência permanente em Portugal são reconhecidos, nos termos da lei e em condições de reciprocidade, direitos não conferidos a estrangeiros, salvo o acesso aos cargos de Presidente da República, Presidente da Assembleia da República, Primeiro-Ministro, Presidentes dos tribunais supremos e o serviço nas forças armadas e na carreira diplomática”. Sem esquecer a proteção e valorização da língua gestual portuguesa (art.º 74.º, n.º 2, alínea h), CRP) e o ensino do português aos filhos dos emigrantes (art.º 74.º, n.º 2, alínea i), CRP). Tendo sempre presente que em paralelo com as liberdades culturais, como a liberdade de expressão e informação (art.º 37.º), de imprensa e meios de comunicação social (art.º 38.º), de consciência, de religião e de culto (art.º 41.º), de criação cultural (art.º 42.º) e de aprender e ensinar (art.º 43.º), há um direito à identidade cultural, onde se inclui o direito ao uso da língua.
Como fator de coesão e de identidade, como elemento constitutivo e parte integrante de nós, a língua portuguesa é uma questão estratégica nacional, não só de imagem externa, mas de afirmação cultural do nosso país, além de, num contexto alargado, ser parte da representação de uma comunidade de mais de 200 milhões de pessoas e não, numa escala local e como questão menor, representante de uma minoria de pouco mais de dez milhões de falantes. Daqui resulta uma estratégia possível, que começa, em primeiro lugar e por maioria de razão, nos seus falantes nativos. O que, no imediato, implica indagar se em Portugal são cumpridas as obrigações constitucionais e é respeitado o direito à identidade linguística dos cidadãos portugueses. O que equivale também a dizer não à glossofobia, endo-glossofobia e ao complexo de inferioridade linguístico. Em coerência com o princípio geral da não-discriminação do homem pelo homem, em que se inclui o princípio da não-discriminação linguística, em que a par da sua excelência e preservação identitária, tem de estar associada a uma língua relevante nas relações internacionais, ultrapassando as suas fronteiras naturais, sendo falada e ouvida nos fora internacionais, servindo de veículo de comunicação a outros falantes para além daqueles que a ouvem e aprendem à nascença e desde o berço.

02 de Fevereiro de 2016
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

 



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italy-10085.jpg

 

E consideraram-nos as gentes que eram muito parecidos com a beleza, mas não tinham a certeza de que fossem um caminho. O enlevo confundia-os. Pareciam-lhes estes jovens, possuídos por um temperamento maciço que os podia definhar.

Subiram então as escadas, oferecidos a uma herança que nunca os fizera felizes, assim como quem permanece no escuro, num inominável juízo de valor, canal estreito a qualquer entendimento.

 

Teresa Bracinha Vieira
Fevereiro 2016



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