«Penso que só há um caminho para a ciência ou para a filosofia: encontrar um problema, ver a sua beleza e apaixonar-se por ele, casar e viver feliz com ele até que a morte vos separe – a não ser que encontrem um outro problema ainda mais fascinante, ou, evidentemente, a não ser que obtenham uma solução. Mas, mesmo que obtenham uma solução, poderão então descobrir, para vosso deleite, a existência de toda uma família de problemas-filhos, encantadores ainda que talvez difíceis, para cujo bem-estar poderão trabalhar, com um sentido, até ao fim dos vossos dias.»
Quando li estas palavras de Popper sorri-lhes como poucas vezes se pode sorrir já que inspirava através delas um perfume de plantas sagrado e vulnerável.
Considerado por muitos como o filósofo de maior influencia no sec. XX, Karl Popper habituou-nos a que nunca se desligasse da inteligência o quanto a verdade é inalcançável, e que por essa razão dela nos devemos sempre aproximar por tentativas.
Em rigor, para ele, o estado da ciência é sempre provisório, e, ao se atingir uma teoria ainda não refutada pelas observações e factos, devemos sempre perguntar-nos até que ponto é assim? Até que ponto todas as possibilidades se esgotaram, mesmo as que pareciam seguir caminhos inversos. Até que ponto a inexistente refutação nos dá segurança?
Revejo como quem diz, repenso, o quanto uma das cores que a vida nos coloca, é a de nos sabermos confrontar com algo completamente novo, algo que implique avaliação, valores, ensaios, erros, enfim tentativas resolutamente activas para que encontremos nesse novo mundo, do qual fazemos caminho, a forma de vida que nos tornará a qualquer hora descobridores por tanto buscarmos.
Atentemos, contudo, que, para que as nossas diligências decifrem, necessário se torna, diga-se, que as condições da nossa individualidade saibam viver numa desordem interior dentro do limite que detecta o erro, e, claro está, o mecanismo que o corrigirá. E logo a perpétua imperfeição essencial à vida se reorganiza como um organismo anti-valor o faria, na sua própria busca de um mundo melhor e propicio a acolhedores meios-ambientes.
Registe-se ainda o quanto a leitura de Popper é um constante esclarecimento na própria interpretação de Alber Einstein, que tanto o influenciou num mundo de propensões.
Alerta a Poppper também recebo a história, não descuidando que ela o é, com o sentido que os homens lhe dão, tentando antecipar consequências desse facto, sobretudo, as que poderão colocar em causa as favoráveis reformas.
Dizia Popper que a única atitude justificável para atingir a verdade surge pelo diálogo, pelo confronto de ideias através de meios não violentos. E sempre a sua admiração por Churchill se revelou fecunda pela percepção teimosa e lúcida deste politico, nos debates que enfrentava, seguro quanto possível do conhecimento do comportamento humano tão sabiamente verbalizado.
Afirmou Popper
“Sabemos muito pouco e cometemos muitos erros. Mas podemos aprender com eles.”
Popper será sempre um mundo a conhecer e a reflectir também sobre a génese e fundamentação ideológica dos regimes totalitários.
E acrescento que outra consequência da epistemologia de Popper reside no núcleo central da liberdade crítica como condição indispensável ao progresso do conhecimento, e, assim, somos convidados a interpretar a distinção entre uma sociedade aberta e uma sociedade fechada.
Todos os cisnes são brancos?
Ou como sentenciou Sócrates: « É preferível suportar uma injustiça do que praticá-la.»
Recomecemos de novo. E sempre pelo conhecimento. Pela busca entre a verdade e a certeza, certos de que existem verdades incertas , mas não existem certezas incertas.
O método do conhecimento científico é o método crítico ao serviço da verdade, e só fio a fio se descobre o linho, e um dia um pescador colheu-o na rede.
E assim por Karl Popper também direi, direi do mar nos teares de quem o tece.
M. Teresa Bracinha Vieira
Abril 2013
Vamos analisando, nestes textos, a colaboração e mais do que isso, a convergência de Almada Negreiros e de Fernando Amado em torno da teoria e da prática da arte do teatro. Muito colaboraram, como sabemos e temos dito, na Casa da Comédia e no CNC - aliás, ambas as entidades estão historicamente e culturalmente ligadas. Vamos referindo essa convergência através de textos e de evocações.
E precisamente: ao teorizar num texto intitulado significativamente “O Meu Teatro”, Almada abre com uma dedicatória evocativa dessa colaboração. “A Fernando Amado que pôs em cena duas peças minhas: sinto-me pago em artista e em amigo”. Outras encenações se seguiriam. A amizade e a colaboração intelectual e artística duraram décadas, e não impedia os debates e a controvérsia.
Por exemplo: a encenação e os ensaios do “Deseja-se Mulher”, peça editada em 1959 e por essa altura encenada por Fernando Amado na Casa da Comédia, em parceria com o CNC, ficou marcada por debates entre o autor e o encenador, e deles resultou um espetáculo que ainda hoje se recorda com entusiasmo.
Em qualquer caso, no texto sobre “O Meu Teatro”, Almada disserta não só sobre o (seu) teatro mas sobre a arte dramática e o espetáculo em geral. Aliás, como iremos vendo, essa teorização é constante e recorrente. No caso que agora nos ocupa, Almada elabora uma teoria geral da ligação entre o teatro e as artes em geral - e esse, insista-se, é nele um tema recorrente.
Diz Almada:
“Teatro é o escaparate de todas as artes.
Todas as artes são todas as peças da mesma coisa.
Perguntaram-me se teatro não era a mais facil das artes.
Respondi: não há artes mais fáceis, qualquer delas é facilidade. Teatro é facilidade ali à vista de todos.
Arte é tornar fácil o difícil. O difícil é o espontâneo. Este vem no fim. Pois quando foi primeiro não estava lá o próprio”.
O texto, tal qual como Almada o escreveu, contem já de si, na estrutura dos parágrafos, uma oralidade “espetacular” - no sentido mas abrangente do termo!
E podemos cruzar este texto de Almada com o Prólogo que Fernando Amado leu na estreia da sua peça “A Caixa de Pandora”:
“Este é o Prólogo, É o pequeno ato representado por uma única personagem, antes da peça.
O que se vai dizer não intervém diretamente na ação. Também não é arrazoado inútil.
Corresponde a uma ideia teatral, já se vê. As palavras proferidas aquém do reposteiro têm algo de confidência. E os espetadores costumam apreciá-las - sobretudo os que detestam o improviso - porque nelas transparece o cuidado do autor em aproximar a plateia da cena.
Para que não haja equívocos nem percam tempo em imaginações”…
DUARTE IVO CRUZ
The arts of power, 2013
A mobilização para a obediência possui as suas artes. E estas são observáveis à luz do quotidiano. A British Library tem agora patente uma nova exposição que justamente oferece um curioso caleidoscópio sobre esta face obscura do poder. ‒ Chérie, c’est toujours une question orwellian! De segunda a domingo no 96 Euston Road, em London, está aberta uma mega mostra sobre Propaganda: Power and Persuasion, com uma gama de materiais tal que algures se deambula já entre a gargalhada, a indignação e até o espanto. – Well, power does not corrupt. Fear corrupts! A exibição é uma panóplia de mensagens, técnicas e suportes, a ilustrar como diferentes estados recorrem à manipulação das massas para suscitar a adesão ou quebrar a resistência dos cidadãos aos seus projetos em tempos de guerra e de paz. Resulta uma lição política.
Um manual de história e lapidar epigrama de Mr George Orwell serão boa parceria na visita à casa de King’s Cross. Grafa ele no incontornável 1984: Who controls the past controls the future. Who controls the present controls the past. A falsificação do real é traço forte na propaganda, acesa em culturas ditatoriais mas não de todo ausente no alarido democrático que tanto impressiona Mr Alexis de Tocqueville. Com maior ou menor subtileza, clássicos ou nem por isso, a exposição apresenta cartazes, filmes, artigos, banda desenhada, enfim, sugestivos objetos, sons e textos que amiúde desnudam o lado demagógico, senão sinistro, no exercício do poder por líderes que basicamente não confiam nos seus concidadãos.
Há anos atrás, aí nas vossas redondezas, na belíssima Madrid, visitei uma outra exposição em torno da arte do poder. Foi no Museo del Prado e recordo sobretudo um esplêndido Tiziano de 1548 com Carlos V a caballo. Se recordo bem, larga parcela das peças seiscentistas provinha da Real Armería e o evento insistia tanto em armaduras da primitiva modernidade quanto em retratos epocais. Do ouro de umas às cores sombreadas de outros, El arte del poder projetava a aura do sic transit gloria mundi: o garbo dos cavaleiros manifestamente contrastava com os corpos estropiados em enlameadas cenas de batalha. O espírito imperial que gera o euromundo produz a ars moriendi, a denúncia de Machiavelli e excelentes manuais de criação de cavalos – estes, aliás, obrigatórios na biblioteca de qualquer country house. Mas que ficará destas artes na idade dos spin doctors e dos social media, quando os discípulos de Herr Goebbels rivalizam com os fãs de Frau Riefenstahl?!
Cenário de divertida incursão literária de David Lodge, a British Library tem nestes summer days uma outra estimulante proposta. Illustrating Shakespeare é um livrinho local de Peter Whitfield, que disponibiliza um olhar sobre o modo como personagens e tramas de Master Will são captadas ao longo de três séculos por artistas tão notáveis quanto os William’s Hogarth e Blake, Mr John Waterhouse, o Baronet John Millais ou até Monsieur Eugene Delacroix, o de Liberty Guiding the People (1830). Saboreie-se. ‒ Yeah! None but the brave deserve the fair.
St James, 21st May
Very sincerely yours,
V.
de 20 a 26 de maio de 2013
O dia de anos de Eduardo Lourenço é 23 de maio. Assinalamos a data e teremos o gosto de o ter connosco no dia 20 para nos apresentar a reedição aumentada de «Os Militares e o Poder seguido de O Fim de Todas as Guerras e a Guerra Sem Fim» (Gradiva, 2013). A 5 de junho o Centro Nacional de Cultura associa-se à Biblioteca Nacional de Portugal em torno de uma indispensável mostra bibliográfica. Mais de que homenagens, do que se trata apenas é de agradecer a vitalidade e a força intelectual do nosso sócio honorário, que fez no CNC, no ano de 1956 a sua primeira conferência em Lisboa, na presença de Almada Negreiros. Bem haja, Eduardo!
Visão.
LIBERTAÇÃO DOS MITOS
Se há pensador português contemporâneo que pratica o sentido crítico plenamente, ele é Eduardo Lourenço, empenhado (neste belo tempo de aniversário) em libertar-se da consideração de «mito cultural», que, relativamente a uma geração anterior, entendeu criticamente ter sido assumida por António Sérgio. Ao interrogar permanentemente a identidade portuguesa, fê-lo como genial criador da língua e da literatura, articulando a intuição poética e a manipulação experimentada e hábil dos mitos, que o ensaísta usou como reveladores dos grandes enigmas de uma nação antiga que teima em persistir e em lutar, contra todas as lógicas e evidências. E assim seguiu as pisadas de Joaquim de Carvalho e de Sílvio Lima por sendas diferentes. «Na aparência, o país que (…) podia justificar um livro como “O Labirinto” já não existe» - disse-o o ensaísta na reedição do ano 2000 da sua mais falada obra. E afirmava ainda, que no tempo decorrido, «não mudámos apenas de estatuto histórico-político, de civilização e de ritos sociais que julgávamos, lamentando-o, característicos de uma sociedade quase marginal em relação aos padrões europeus. Mudámos literalmente falando, e sem quase nos darmos conta disso, de mundo. Mudámos porque o mundo conheceu uma metamorfose sem precedentes, não apenas exterior, mas de fundo». Passámos a viver noutro planeta, caiu o muro de Berlim, deixámos de ser «potencial ou imaginariamente» senhores dos nossos destinos, houve uma «avassaladora dissolução das entidades clássicas a que chamávamos nações», sobrevieram «microidentidades virulentas ou superidentidades simbólicas». E sofremos «o fim da civilização europeia sob paradigma cristão e iluminista, se é lícito associar estas duas matrizes da milenária e agora defunta Europa». Mas onde estamos? Quem somos? «Como todo o Ocidente, tornámo-nos “todo o mundo e ninguém”. A nossa visceral “hiperidentidade” nada tem de irónica, tal como era descrito no “Labirinto”. Somos, sim, quem sempre quisemos ser. E todavia, não estando já em África, nem na Europa, onde nunca seremos o que sonhámos, emigrámos todos, coletivamente, para Timor». E, por momentos, então, parecemos regressar ao centro do mundo… Mas o certo é que essa ilusão momentânea, enquadrável na ciclotimia nacional, depressa deu lugar à depressão das crises que se foram instalando, ao cairmos em nós, depois do chuveiro de euros, como tinha acontecido no século XIX com as libras do Sr. Fontes.
UM ENSAÍSMO DE PRESENÇA
Em vários momentos, Eduardo Lourenço explicou-nos que o ensaísmo que praticou e pratica nunca foi feito por ele próprio para recuperar o país, que verdadeiramente nunca perdeu (sendo ele, afinal, um ausente presente), mas para o «pensar», com paixão e sangue-frio intelectual, lembrando o tempo antigo da «felicidade melancólica» do tempo em que era um «prisioneiro de alma». E aí está a extraordinária originalidade do discípulo de Montaigne e de Kierkegaard – ele, que quis pensar-se em simultâneo como universo pessoal em ligação com o universo mitológico da pátria – ilustrando plenamente o verso de O’Neill, «Portugal, questão que tenho comigo mesmo». Assim se entende a sua visão dos mitos, na linhagem de Antero e de Oliveira Martins – não como mitos da pura alienação, mas como mitos enquanto ideias projetadas no devir por um povo que toma consciência de si. Aliás, hoje, deve ler-se «O Labirinto da Saudade», a partir do magistral texto publicado na revista «Raiz e Utopia», prosseguindo com a luminosa análise de «Portugal como Destino». Os mitos e os contramitos são vistos como autorrepresentações críticas, irónicas, motivadoras, ilusórias, entusiastas ou redutoras – mas sempre como pistas para explicação ou para o conhecimento. E o ensaísta sabe, e di-lo com clareza meridiana, que não há uma mitologia nacional, mas mitos na história, que circulam e são sinais de permanência e de metamorfose. Daí que o escritor recorra aos poetas do seu santuário – Camões, Antero e Pessoa – para melhor avaliar o sentido das mitologias, compreendendo, pela reflexão e pelo pensamento, quais projetam esperança no futuro (no sentido da «maravilhosa imperfeição») e quais são provas póstumas e sinais de decaimento, como no sebastianismo. Nesse ponto, Vieira é um companheiro também presente nessa apaixonante busca de palavra e utopia…
MEMÓRIA ESPONTÂNEA E CULTIVADA
Lembremo-nos do que escreveu Eduardo Lourenço em «Nós e a Europa – Ou as Duas Razões»: «Povo com larga memória espontânea e cultivada de si mesmo, nação com definição política, territorial e cultural de muitos séculos, Portugal não parece exemplo particularmente interessante dos fenómenos, hoje tão angustiosos para outros povos, comunidades ou continentes inteiros, de “crise de identidade”. Nós pensamos saber quem somos, por ter sido largamente quem fomos, e pensamos que nada ameaça a coesão e a consistência da realidade que constituímos». Daí a «hiperidentidade» detetada pelo escritor, centrada numa «quase mórbida fixação na contemplação e no gozo da “diferença” que nos caracteriza». As fragilidades ligam-se ao fazer das fraquezas forças. E vem à lembrança a analogia com o povo judaico, com uma diferença: Portugal não espera o Messias, o Messias é o seu próprio passado, convertido na mais consistente e obsessiva referência do seu presente, podendo substituir-se-lhe nos momentos de maior dúvida sobre si ou constituindo até o horizonte mítico do seu futuro». Não por acaso, Eduardo Lourenço descobre em Fernando Pessoa, muito para além do que alguns quiseram ver na «Mensagem», a essência da multiplicação e a capacidade de ver de dentro e de fora, abarcando o mito na sua heterogeneidade: «a poucas nações se aplicaria tão bem, como a Portugal, a imagem do navio-nação e melhor ainda a de “nação-navio”, pela identidade de destino e o projeto que encarnou, deslocando-se no espaço e no tempo, mas tão sempre a mesma na diferença apenas apreciável que a História vai constituindo». E há ainda o paradoxo, que não pode ser esquecido, de uma sublime vocação de não-identidade dos portugueses («aptos a ser tudo e todos», caso em que «não seríamos ninguém»). Veja-se, aliás, a atual crise e o certo regresso a questões de sobrevivência. De novo a imagem da «nação-navio» faz sentido, ao lado da metáfora do cais de partida e de chegada. E Eduardo Lourenço ainda acredita na lógica cosmopolita, do universalismo autêntico (agora relembrado, pela reedição de «A Chave dos Profetas» do Padre Vieira), capaz de fazer «ressuscitar, como Novalis o sonhou, uma outra-Europa, onde não triunfem apenas instâncias obscuras, sem outra ideologia que a da gestão do “ouro do Reno” wagneriano, convertido em deus do coração humano. Sem a música do génio para redimir tão sinistros atores do nosso destino coletivo. Sempre era uma consolação» (Público, 24.11.2012). Vamos, apesar de tudo, conhecendo-nos melhor, e pondo a vontade no lugar próprio, em vez do fatalismo.
Guilherme d'Oliveira Martins
Por: Guilherme d’Oliveira Martins

Para a cultura portuguesa a festa do Pentecostes tem uma importância especial. As celebrações do Espírito Santo são um sinal do «humanismo universalista», de que falou Jaime Cortesão, e devem ser recordadas como uma exigência de esperança, de liberdade e de igualdade. A coroação de quem não tem poder, uma criança normalmente, a abertura dos Impérios do Espírito Santo e a vivência comunitária de uma refeição de que todos são beneficiários sem exceção (desde a sopa do Espírito Santo à massa sovada, passando pela alcatra e todas as iguarias) são a prefiguração de um tempo de reconciliação e de paz, a que nenhuma sociedade ou pessoa pode renunciar. E, num contexto de dificuldades, como o atual, estes símbolos ganham uma importância acrescida, uma vez que se trata, a um tempo, de dizer que há motivos para mobilizar vontades em torno da justiça, e que a esperança tem de se construir num horizonte em que o sentido comunitário deve ser reforçado, como lógico complemento, da singularidade e da dignidade. Afinal, caridade é cuidado, atenção, entrega e não mero assistencialismo…
Lembramo-nos da memória histórica, desde a influência dos franciscanos espirituais à invocação da Idade do Espírito Santo do monge calabrês Joaquim de Flora, nos tempos do reinado de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel, até à seiscentista «História do Futuro», à «Chave dos Profetas» e ao Quinto Império do Padre António Vieira – tudo isso nos leva à consideração de que o Pentecostes é um momento de significativa importância religiosa, teológica e cultural. A reminiscência dessas festividades antigas ultrapassa em muito a ideia de um acontecimento popular, sem repercussões espirituais. O Espírito procede do Pai e do Filho – e traduz o reconhecimento pleno da dignidade da pessoa humana, como pedra angular da justiça e da paz. Estamos longe de uma recordação de ancestrais movimentos pagãos. O sentido da comunidade e do amor (agapé), a dignidade das pessoas e o igual respeito por todos são mais fortes do que quaisquer elementos folclóricos. Há poucas festividades com um sentido tão profundamente ligado à Verdade e à Vida como a de Pentecostes – e quando lemos as referências culturais a essas tradições, depressa percebemos que estamos no coração da nossa identidade (apesar do Concílio de Trento ter levado para fora – Açores e Brasil – uma festa tão genuína), devendo entender-se que são as pessoas que estão no epicentro dos desígnios e aspirações deste acontecimento.
Como lembrou António Quadros, «há uma poderosa relação desta cerimónia com o Sermão da Montanha» e acrescentava: «o Império do Espírito Santo será também aquele em que nada do que é espiritual, nas sete partes do mundo e ao longo dos milénios, poderá perder-se. Não será um Império por amputação, mas um Império por acréscimo: acréscimo do Espírito de Verdade em todos e cada um dos modos de diálogo do humano com o divino, e de valorização do humano na sua dimensão integral». Essa era, aliás, para o Padre António Vieira a verdadeira «chave dos profetas», não confundível com um projeto político ou de conjuntura, mas como uma aspiração universalista de paz e de justiça. Oiçamos o Padre Joaquim Alves Correia: «sem caridade, não passa a melhor doutrina de um tinir de chocalho ou de badalar de sineta. Com a caridade, tudo feito e tudo ganho: porque a caridade será depois a vida definitiva e em cheio, a vida coroada de alegria, a vida-felicidade, quando a fé já não for precisa, quando a esperança já não tiver objeto (porque se não espera o que se possui» («De Que Espírito Somos»). As palavras são clarividentes.
Minha Princesa de mim,
De Brantôme para Congar, de frei Ivo para o Japão, onde me espera uma reflexão partilhada sobre experiências estéticas, cá estou no avião e,preparando,no caderno,umas notas sobre estética,dou com outras sobre esse paradoxo tradicional da nossa cultura que encerra a mulher numa fúria mental de diabolização-santificação... E que tantas vezes a inferioriza: discutiu-se (até em concílio!) se a mulher teria alma humana, Aristóteles, no cadinho de certos "ideais" helénicos (que aliás se reflectiram em comportamentos sexuais) considerou-a uma frustração ou incompleição da natureza. E o Doutor Angélico, fiel ao seu método dedutivo e ao rigor da sua dívida para com o filósofo ateniense, terá achado de somenos importância aprofundar ou discutir um conceito que não se agitava no seu tempo. (Mas que teria dito,um século antes,Santa Hildegarda de Bingen?). S. Tomás de Aquino vai buscar a Aristóteles o conceito e a justificação da inferioridade congénita das mulheres. Assim, afirma em resposta à "quaestio" 92 da "Summa Theologiae" : "Pela própria operação da natureza,a mulher é inferior e é um erro. A causa agente que está na semente masculina tenta produzir algo completo em si, um macho. Mas quando é produzida uma fêmea, isso deve-se ao facto de a causa agente ter sido frustrada, ou por inadequação da matéria recipiente, ou por qualquer interferência deformadora, como ventos do sul, que são demasiado húmidos, como lemos no "Conceção Animal" (de Aristóteles). A esta visão da natureza da mulher, atribuirá ele a primeira razão de recusa de ordens sacras a pessoas do sexo feminino: "Como nenhuma precedência de superioridade pode ser expressa no sexo feminino,que tem um estatuto inferior,esse sexo não pode ser ordenado. Não há aqui qualquer fundamento bíblico nem argumento teológico. Trata-se de uma afirmação decorrente de um princípio aristotélico que, para nós, já não tem qualquer base científica aceitável. À ideia de inferioridade natural da mulher desde logo se associa a da sua impureza, designadamente manifestada pela fisiologia menstrual. Nas religiões antigas, e no próprio judaísmo, eram vários os interditos relacionados com esse período,em que o contacto com a mulher era considerado causa de impureza. Assim,não deviam os sacerdotes aproximar-se de suas mulheres por essa altura, sob pena de não poderem oferecer as preces e sacrifícios rituais. Aliás, é também por esta linhagem de interditos que,já no século XI, a Igreja Católica importá o celibato aos seus padres. Até aí, a castidade não era condição sine qua non do ministério pastoral e sacramental, mas um voto, em regra exigido a quem professasse numa comunidade religiosa, feito por quem escolhia uma vida de consagração especial. Há em tudo isso uma atitude e uma tradição misógina, que até se esquece de que o primeiro papa era um homem casado, cuja sogra foi curada por Jesus... E em lado algum está dito que Pedro tenha enviuvado ou repudiado a sua mulher. Mas sabemos, pelos evangelhos sinópticos, que Jesus curou uma mulher que sofria de um fluxo de sangue, uma hemorragia que, mesmo fora do período menstrual, determinava a impureza canónica. E diz-nos S.Lucas que Jesus não encarou logo com quem lhe tocara a veste, mas disse: "Quem me tocou? ... Alguém me tocou,pois senti sair de mim uma força!" Há algo de sacramental nessa afirmação. As representações do episódio "Noli me tangere" são recorrentes na história da arte europeia, desde os primórdios do cristianismo, como no fresco romano na igreja de Santi Pietro e Marcellino em Roma. A presença importante das mulheres na vida e na Igreja primitiva de Jesus foi relatada por S.Paulo nas suas epístolas. Na primeira aos Coríntios,pergunta: "Não teremos o direito de levar connosco uma senhora cristã, como os restantes Apóstolos, os irmãos do Senhor e Kefá?" Nessa carta,em que se preocupa e procura desenhar linhas de comportamento desejável para as mulheres --- que, por serem cristãs (emancipadas?) não perdem todavia o estatuto social e as conveniências impostas pela sociedade do seu tempo --- afirma: "Aliás,no Senhor,nem a mulher se compreende sem o homem, nem o homem sem a mulher. É que, assim como a mulher provém do homem, assim também o homem existe por meio da mulher; e tudo vem de Deus". Na carta aos Romanos, recomenda "a nossa irmã Febe, que é diaconisa da Igreja..." e refere-se a muitas outas, incluindo a mulher de Andrónico: "Saudai Andrónico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, que são insignes entre os apóstolos e me precederam em Cristo." Santo Agostinho, num dos seus sermões, aconselha: "Devíamos ponderar a providencial aptidão da obra de Nosso Senhor. Assim,como o Senhor Jesus Cristo fez com que fossem mulheres os primeiros a testemunhar que ele tinha ressuscitado. Porque o homem caiu por uma mulher, e porque a virgem Maria deu à luz Cristo, mulheres deveriam proclamar que Ele tinha ressuscitado. Através da mulher, morte? Através da mulher,vida!" E não era o bispo de Hipona - que aliás repudiara a mulher aquando da sua conversão ao cristianismo - muito propenso a enaltecê-las, nem sequer a Mãe de Jesus: não deixou escrito um só sermão sobre Nossa Senhora, mas referiu-se a Maria de Betânia como símbolo da contemplação e à Madalena como símbolo do amor. Das duas naturezas, humana e divina, coexistentes na pessoa de Jesus,Maria de Nazaré é só mãe da primeira. E como mulher só é confiada por Jesus, do alto da cruz, a João, para que este tome conta dela e não o contrário. É esclarecedor do seu pensamento sobre o poder de intercessão de Maria,o comentário de Agostinho sobre as bodas de Caná: "Porque ela não era mãe da Sua divindade,e o milagre que ela pedia tinha de ser feito pela Sua divindade, ele respondeu-lhe desta maneira: Que podes querer de mim,mulher? Mas para que não penses que não te reconheço como mãe, acrescento que ainda não chegou a minha hora. Então reconhecer-te-ei, quando a fraqueza que deste à luz tiver começado a sua hora na cruz." Será quando entregará a mãe ao cuidado do seu discípulo. Morrendo antes de mãe, para ressuscitar antes da mãe, Ele, como ser humano entrega a outro humano o cuidado desse humano de onde lhe veio a humanidade". A condição humana de Maria de Nazaré - que a tornava herdeira do pecado original - foi reafirmada por S. Bernardo, todavia um devoto de Santa Maria e pregador de cruzadas. A piedade popular fez constar que Deus teria então marcado de negro a sua alma... o que não dissuadiu S. Tomás de Aquino, passado um século, de se pronunciar contra a Imaculada Conceição, não só porque tal significaria negar a Cristo a natureza humana (posto que nascido de uma mulher), como ainda "retirar-lhe a honra de ser o salvador de todas as pessoas"... Enfim: discussões escolásticas cuja subtileza me escapa e que não impediram a proclamação desse dogma no sec.XIX. Nem a insistência crescente na mediação de Maria, que a piedade do povo católico foi impondo à doutrina oficial da Igreja. Aproximo-me dos meus 80 anos, Princesa, nasci, cresci e vivi, num mundo em que as mulheres não podiam seguir os cursos de estudos facultados aos homens, nem votar em eleições "democráticas" (muito embora, no passado, por direito divino ou genealógico, tivessem sido rainhas e imperatrizes), nem ser diplomatas, juízes ou militares. Hoje, a pouco e pouco vão podendo ser tudo isso, e em Igrejas cristãs irmãs da nossa na fé, mesmo conservadoras (como a anglicana/episcopaliana), até já vão acedendo às ordens sacras... Mas é na Igreja Católica, e nas ortodoxas, que o culto de Maria, como medianeira entre céu e terra,mais foi e tem sido cultivado. E não se define a função sacerdotal como essencialmente medianeira? Interrogo-me acerca deste ostracismo,não tenho que me pronunciar, apenas pergunto porquê. Já que, na verdade, nada, que eu saiba, exclui as mulheres desse munus no Novo Testamento. Recordo,nesta cabine de avião onde te escrevo,prestes a aterrar em Tokyo,o texto em que Congar explica como,nessas sagradas escrituras,nem sequer surge qualquer fundamento para o sacerdócio ritual que certo "machismo" eclesiástico reclama (esta frase é minha, não de frei Ivo): "Eis os factos. A palavra "hiereus" (sacerdote, o que oferece sacrifícios) surge mais de trinta vezes no Novo Testamento, e a palavra "archiereus" mais de cento e trinta. A utilização destas palavras é tão constante, que claramente denuncia uma intenção deliberada e altamente significante, sobretudo porque os escritores da primeira geração cristã seguem cuidadosamente a mesma linha. Neles, tal como no Novo Testamento, "hiereus" (ou "archiereus") é utilizada para designar quer os sacerdotes da ordem levítica,quer os sacerdotes pagãos. Aplicada à religião cristã, a palavra "hiereus" só serve para falar de Cristo ou dos fiéis. Nunca se aplica aos ministros da hierarquia da Igreja". Já apertei o cinto de segurança. É quando, nos aviões em manobras de voo, mais se reza. E eu rezo também, para que a nossa Igreja se entenda com a sua circunstância. Não por relativismo, mais ou menos oportunista. Mas porque, como Cristo, é incarnada. E vive na história dos homens." Camilo Maria não voltaria, por modo epistolar, a assuntos eclesiais. Mas,pela atualidade de um texto escrito nos anos setenta do século passado, transcrevo uma citação do Cardeal Congar,inserta num apontamento avulso do Marquês de Sarolea: "Os conceitos de Povo de Deus e de Sacramento da Salvação impõem-se como ponto de partida para o que se procura: uma Igreja desclericalizada, uma Igreja para o mundo. Enquanto que,até ao concílio (Vaticano II) vimos o mundo a partir da Igreja, tendemos a ver a Igreja a partir do mundo,correndo o risco de a secularizar e de equecer o facto de que, por muito que ela seja feita para o mundo, ela é uma coisa diferente do mundo: é fruto de iniciativas divinas sobrenaturais,irredutíveis à criação ou à história. Por outro lado, um estudo histórico, a valorização de um laicado activo, e também o diálogo ecuménico levam-nos a reler e alargar a teologia dos ministérios..."
Camilo Martins de Oliveira
SOBREVINDA
O que me deixa insaciada é o lance
O sobressalto de cada dia
Minha hora
agora
Ideia liberta por se saber algures
lampejo e fulgurante mundo
Puro tecido de palavras até à aproximação
do teu beijo
E já seguro
no olhar
Os pontos de improváveis espessuras
o provocador big bang
o fio até ao umbigo do amor
E esforço-me por olhar sempre «de dentro»
A vontade de ser nascente
Meu tempo de origem
meu amor
Enquanto teu conhecimento ajusta
O que me deixa insaciada é o lance
Sem a caução de nenhuma divindade
Ajuste apenas de finalidade, nexo
e sonho.
TERESA VIEIRA
Abril 2013
Sec.XXI
Temos referido o caracter inovador e globalizante, perdoe-se a ênfase dos termos mas são justos e adequados, da colaboração de Almada Negreiros e de Fernando Amado nas actividades teatrais, sejam de criação dramatúrgica, sejam de espectáculo. Diga-se agora que foi sobretudo neste plano que ambos mais directamente colaboraram, designadamente no Centro Nacional de Cultura ou na Casa da Comédia, nos anos 50/70. Mas o relacionamento pessoal vinha muito de trás e cruzou-se logo nos anos 20, nas primícias do modernismo teatral.
Luis Francisco Rebello recorda no Teatro Estúdio do Salitre ( 1946) “a presença de Almada Negreiros, Fernando Amado, Branquinho da Fonseca e João Pedro de Andrade, todos já então com uma considerável e relevante bagagem dramatúrgica mas ainda virgem da experiencia do palco” (in Teatro Estúdio do Salitre - Anos 60” ed. SAP e Publicações D. Quixote -1996). Assim é, mas a colaboração, repita-se, era muito mais antiga e assentava num relacionamento pessoal-familiar que se cruzaria por exemplo nos bailados da Condessa de Castelo Melhor, verdadeira iniciação do modernismo .
Nesse sentido, importa ter presente que tanto Almada como Amado são dramaturgos de grande relevo no plano da inovação estética - mas também, um e outro, na própria abundancia de produção. Almada já foi referido e iremos continuando a recordar e analisar, em próximos artigos, a sua dramaturgia.
No caso de Fernando Amado, temos notícia de algo como 28 peças, das quais cerca de 5 se terão perdido. As restantes estão publicadas e percorrem uma variedade considerável de registos estéticos e de vocação de espectáculo, digamos assim. Também as iremos analisar em próximos artigos.
Mas aqui, importa recordar sobretudo que Amado encenou em 1949 o “Antes de Começar” de Almada e revelou, em 1963, na Casa da Comédia, o “Deseja-se Mulher”.
A colaboração entre ambos durou décadas e assumiu com um plano teórico, estético e doutrinário, que urge recuperar. Não obstante, em 1999 é publicado um elucidativo “Diálogo entre Almada Negreiros e Fernando Amado” que contém uma notável elaboração acerca do fenómeno teatral (cfr. “À Boca de Cena - Fernando Amado” dir. Vitor Silva Tavares ed. ETC 1999).
E David Mourão Ferreira caracteriza o teatro de Amado como uma “dramaturgia poética e abrupta, simbólica e desconcertante, seduzida pelo mistério que paira sobre certas situações “ (in “Dicionário do Teatro Português”). O que até se poderia aplicar a algumas das peças de Almada…
Repita-se: a dramaturgia de Almada Negreiros e de Fernando Amado exige uma mais detalhada evocação critica, que iremos fazendo em termos da colaboração reciproca ou das obras autónomas respetivas. São numerosas as peças de um e de outro. E se Almada é mais recordado que Fernando Amado, importa então lembrar não só o teatro deste como a globalidade de abordagem de um e de outro;. E a respetiva colaboração!
DUARTE IVO CRUZ
The Oxford Today, 2013
Ainda existem coisas assim, que vêm pelo correio com a simplicidade da inteligência e um sorriso. Entre estas, cá por casa, conta-se a Oxford Today. Na era em que muitos profetizam o fim das publicações em papel e tinta, e muitos mais viraram apóstolos da nebulosa digital, onde também está presente, receber em cada term uma nova edição da revista da Oxford University é desde logo um prazer. ‒ Oh-là-là. Vos affinités électives!
O último número apresenta na capa o Dr Marcus du Santoy, Simonyi Professor for the Public Understanding of Science e matemático da interdisciplinaridade, enquanto glosa nas páginas do interior várias modalidades com que o espírito do tempo hoje estremece as ideias e as pessoas, os direitos e os quotidianos, mesmo o regime das coisas nas paisagens natural e social. – Something as ours Yourcenar’s That Mighty Sculptor, Time!? Pelo grafismo cuidado, conteúdos interessantes, informações sobre ilustres alumni e mais um outro elemento que não vem de todo agora a propósito, a publicação partilha interrogações e desafios em circulação na comunidade científica. Do tipo útil na ilha como ‒ What makes the British?
The University Magazine tem sempre para ler e a idade algures ditou a preferência por ler devagar. Neste número do Trinity Term, o artigo que até agora captou a atenção aborda o financiamento da higher education. Intitulado “The Money question”, o texto assinado por Mr Richard Lofthouse baseia-se numa entrevista ao autor de um bem humorado livro: The financial history of Cambridge University. Assim descobri o Neildian Paradox: "The rate of government interference in academic matters has gone up in recent years, while the public funding of higher education has gone down". E com o cheque vêm inconfundíveis characters & methodologies.
O Professor Robert Neild examina o trilho financeiro das college universities como Oxford e Cambridge durante os séculos XIX e XX, nomeadamente aquele que conduziu ao atual estádio de riqueza e gestão profissionalizada, um e outra doando condições notabilíssimas para pensar, rabiscar e cinzelar ciência. Há um dado interessantíssimo: A academia recebeu o seu mais generoso investimento do estado nos anos do pós-guerra, os 1945-51 de Mr Clement Attlee quando a escassez de recursos era regra; esse financiamento coincide com pouca ou nenhuma interferência na vida académica, abrindo a uma golden age. Como explicar o aparente quadrado paradoxal?
Quando o voto ukkiper diz da democracy for the few e o debate sobre o cisma europeu ainda agora abriu e já sobe ao rubro, convirá talvez regressar à reflexão sobre os laços críticos do poder e saber. Afinal, a sua dissociação lógica custa caro e corrigir demora tempo. O Oxford Today ajuda com um 1957 quip do astuto Mr Harold Macmillan. ‒ Let us be frank about it: most of our people have never had it so good.
St James, 14th May
Very sincerely yours,
V.
De 13 a 19 de maio de 2013
Carlos Queiroz (1907-1949), autor de «Desaparecido» (1935) e de «Breve Tratado de Não Versificação» (1948) foi um dos poetas mais significativos do segundo modernismo português, quer pelo talento e originalidade, quer por ter sido o elo que permitiu o contacto do movimento da revista «presença» com a geração do Orpheu, em especial com Fernando Pessoa e Almada Negreiros.

QUEM FOI CARLOS QUEIROZ?
Muitas vezes se refere como um caso inexplicável a insuficiente notoriedade de um dos poetas mais importantes da sua geração. De facto, para quem lê a obra de Carlos Queiroz, fica a ideia nítida de que estamos perante um autor maior com uma personalidade própria, com uma sensibilidade bem marcada e com um domínio da língua e da cultura portuguesas, no qual a modernidade se articula com um conhecimento seguro das raízes, o que o torna a um tempo original e ciente de que a língua tem uma continuidade que vem dos seus maiores cultores históricos. Como afirmou Fernando J. B. Martinho: «pela delicada musicalidade dos versos, Carlos Queiroz» foi «exemplo maior da persistência da tradição simbolista». E David Mourão-Ferreira diz lapidarmente: «Carlos Queiroz aprendeu, como poucos, a lição dos clássicos; assimilou também os jogos dos barrocos, o rigor dos arcádicos; ouviu igualmente o canto da sereia dos românticos; e foi moderno, foi inclusive modernista, mas, para além dos formulários dos modernistas ou do que a modernidade possa ter de precário. Entre os simbolistas, no entanto, é que ele viria a encontrar os seus mais próximos antepassados». Aqui se diz quase tudo. E sentimo-lo, a cada passo, quando o lemos. Neste sentido, longe de qualquer lógica de grupo ou mesmo de uma redução particularista de identidade fechada, o poeta insere a condição de português numa preocupação cosmopolita e universalista. E o certo é que esta distinção faz especial sentido em Carlos Queiroz por diversas razões: antes de mais, o poeta foi um grande leitor quer dos autores contemporâneos quer dos clássicos; conhece bem as literaturas francesa, alemã e italiana, toma contacto com autores críticos de tribalismos e nacionalismos – como Marcel Arland, que se afastará da «Nouvelle Revue Française» de Drieu de la Rochelle. Por outro lado, procura, a um tempo, os valores essenciais e os problemas permanentes, à semelhança das preocupações não só da revista «presença» de Régio, mas também da «Revista de Portugal» de Nemésio, na qual colaborará sobretudo depois da morte do seu amigo Fernando Pessoa.
O INTERESSE PELO TEMA PORTUGAL
O tema Portugal preocupa-o, mas não como questão ideológica, e sim como tema simbólico e vivencial – o que o diferencia do registo nacional e o aproxima das preocupações existenciais que a incerteza da crise e, depois, a guerra determinariam, para além da conjuntura social e política. É muito sintomático que Queiroz diga: «Isto de ser poeta português / Não é tão simples como imaginais. / Vede em Camões, Antero e Pascoaes / O que essa estrela dúplice lhes fez // (…) Gomes Leal, Cesário Verde… tantos! / Se fossem doutro povo, doutra raça / Seriam geniais, - mas sem desgraça. / Os poetas, aqui, são como os Santos: // Não conhecem os frutos dos seus prantos / E a glória é póstuma ilusão que passa» (in «Epístola aos Vindouros e outros Poemas», organização de David Mourão-Ferreira, 1989, p. 28). Ao invés de qualquer simplificação, eis que o poeta invoca a distância e a «desgraça». Não conhecer os frutos dos prantos é sinal de incompreensão. E se há glória, ela é póstuma e é ilusão passageira. E dirá também, fora de qualquer glorificação: «Português e vivo / É diminutivo. / Só fizemos bem Torres de Belém». A ironia é propositada, e não significa desinteresse ou indiferença, mas sim apelo crítico e recusa de um autocomprazimento. O surrealismo poderia usar a mesma metáfora… Portugal é o que é, não ilusão, não passado, mas realidade imperfeita. E, projetando o passado, como pessoal e coletivo, dirá: «Ah o passado, o passado! Que ventoinha, que remoinho / Que sorvedouro inexorável»… E David Mourão-Ferreira insiste nesse cosmopolitismo de Carlos Queiroz, singularizando-o na participação na revista «presença» (1927-1937): «será das raras (colaborações) que virão conferir um caráter menos “provincial” e mais equilibradamente desenvolto à produção poética de quase todo o grupo». Aliás, no número 1 da revista «Litoral», que irá dirigir, Carlos Queiroz fala (1944) de um projeto «sem abstrair qualquer ordem de questões e interesses profundamente humanos e vitais», pelo que «aplicar-se-á, de preferência ao estudo e valorização desinteressada dos motivos eternos, dos valores essenciais, dos problemas permanentes». Há, pois, uma tentativa de imersão total na poesia como arte, como «literatura viva», e o poeta assume o seu próprio caminho, com repercussões clássicas e simbolistas. Em «Ode Pagã», publicada em 1948, desvanecem-se dúvidas: «Ilusões! A cultura, o amor, a poesia… / Não igualam, sequer, um dia à beira-mar, / Vivido plenamente, a sorver, a beijar / o vento e a maresia! // Viver é estar assim: a fronte ao céu erguida, / Os membros livres, as narinas dilatadas; / com toda a natureza, em espírito, as mãos dadas… / - O resto não é vida!». Em lugar de abstrações, é a vida que importa, e não receitas ou invetivas, palavras vazias…
UMA LEITURA REVELADORA
Em 1942, ano de tantas incertezas, Queiroz lê «Essais Critiques» de Marcel Arland, e sublinha a lápis cuidadosamente o que lê: «Non je ne souhaite un art à tendances moralisatrices, mais un art où s’expriment nos préoccupations essentielles». E também concorda com o ensaísta quando este diz que a literatura deve ser um esforço para a verdade… E, mais adiante, pensando decerto em Portugal: «Un pays ne subsiste qu’en se transformant, non pas en devenant un cloître où l’on célèbre le culte des reliques». A vida tem, no fundo, essa vocação mutante. E há uma recusa do isolamento. De novo, temos o sentido cosmopolita. E Marcel Arland representa em 1942 o contraponto ao que significará o magistério de Drieu na casa Gallimard. Afinal, um país, segundo o escritor francês sofre sempre as influências que merece, quer quando as recusa quer quando as atrai. A leitura de Carlos Queiroz é assim crítica. Ao invés do isolamento e da autarcia, sentimos uma pulsão de abertura e de transformação. A ironia poética tem uma força especial. E o mais interessante é a insistência dos sublinhados no tocante à exigência de distância política (a crítica da propaganda soviética e americana), sem que isso possa significar anomia ou indiferença. «Une œuvre, un écrivain ne m’intéressent qu’autant qu’ils échappent à une génération». Se dúvidas houvesse, eis que o poeta rompe com a facilidade e a moda. É a arte, com todas as consequências, que está na ordem do dia!
Guilherme d'Oliveira Martins
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