Sexta-feira, 19.09.14


Refeição teppatsu no mosteiro zen (Kyoto)

Refeição teppatsu no mosteiro zen (Kyoto)  


21. HORYUJI E TODAIJI


Ainda almoçámos, em Kyoto, com satisfação de todos, num restaurante vegetariano, situado no complexo de um mosteiro zen. Nesse contexto, tal cozinha dá pelo nome de teppatsu, que nos remete para uma tigela ou prato fundo de ferro, com que os monges pediam a esmola dos alimentos que, depois, nele comiam.
O budismo zen - tal como o das seitas Jodo e Nichiren - surge no Japão, no princípio do séc. XIII, num movimento de reforma do budismo então reinante, descendente das chamadas seis seitas da capital do sul (Nara), e que se tinha mundanizado e corrompido. É interessante observar como, pela mesma altura, na Igreja Cristã Ocidental se iniciava a reforma conduzida pelas ordens mendicantes, designadamente franciscanos e dominicanos.

Como já vimos, o Budismo foi introduzido no Japão em meados do séc. VI, tendo encontrado no príncipe regente Shotoku (574-622), do qual já aqui se falou, o seu protector e promotor. Foi ele o fundador, ainda na era Asuka, do templo e mosteiro de Horyuji, que em Nara visitámos. A seguir a Shotoku, foi o imperador Kotoku, que reinou de 645 a 655, a decretar o Budismo religião legítima do Império. E, já no período Nara, o imperador Shomu (reinou de 724 a 749) afirmou que o Budismo era a religião guardiã do Estado. Mas daquelas seis seitas budistas mais antigas, hoje apenas restam três: a Ritsu, a Hosso e a Kegon. Todas as três têm as suas sés em templos de Nara. A da Kegon é no Todaiji (à letra: To=oriente, dai=grande, ji=templo, isto é, o grande templo oriental, de Nara, claro), onde estivémos e de que falaremos agora.
Talvez valha a pena olhar para este templo, inicialmente erigido em 745-52, para acolher o Daibutsu (Grande Buda), uma das maiores estátuas de bronze existentes no mundo de então e de agora, com os olhos do médico e jesuíta português do século XVI, Luís de Almeida:
...Fomos ver outro templo, chamado Daibutsu ou Grande Santo. O portão principal e os que estão de ambos os lados do adro são maravilhosamente grandes e altos; o adro com o seu claustro tem 60 alas de comprimento (os templos japoneses são construídos de modo a assim podermos calcular as suas medidas num relance). O adro e os seus claustros estão bem construídos, compactos e muito agradáveis de ver, de facto uma das coisas mais amáveis que jamais vi. O templo ergue-se no meio do adro e mede cerca de 40 alas por 30; os degraus, entrada e chão do templo estão pavimentados com grandes lages quadradas, de pedra. Duas grandes estátuas de monstros estão de cada lado da entrada e guardam o portão principal. De cada lado da porta do templo estão as estátuas das sentinelas, uma chamada Tamon e a outra Bishamon, e dizem que cada uma é rei e regulador de um dos céus. Estes guardas têm mais de 14 alas de altura e são bem proporcionados, e têm ferozes expressões nos rostos. Cada um deles pisa um demónio e estrangula-o com o pé - eles são mesmo uma maravilha de se ver. Olhar para um desses ídolos é como olhar para uma torre.
No meio do templo está a estátua de Shaka com os seus dois filhos Kannon e Seishi de cada lado. A estátua de Shaka é feita de cobre e é dourada e bem proporcionada, enquanto que os ídolos dos seus filhos são de madeira. Todas estão decoradas de ouro e têm grandes raios que delas emanam; esses raios estão habilmente envoltos e o dourado tão bem aplicado que o brilho e esplendor destas grandes estátuas é deslumbrante. Apesar de estar sentada, a estátua de Shaka tem mais de 14 alas de altura, e a altura do seu pedestal (parecido a uma bela flor) é de 6 alas. Os filhos também estão sentados e têm cerca de 9 alas de altura.
Atrás deles, levantam-se as estátuas de mais dois guardas, Komoko e Zocho, que têm o ofício de guardar mais dois céus e se parecem com as sentinelas já mencionadas. Uma ala mediria cerca de 115cm, o atual Daibutsu (que também dá pelo nome de Shaka) tem cerca de 16m e 20cm de altura, reproduziu e substituiu, em 1692, o original, datado de meados do séc. VIII (a sua fundição em bronze dourado, foi ordenada pelo imperador Shomu em 743).
Tudo o mais, os guardiões e os monstros - em seus tamanhos, feições, atitudes e gestos - corresponde hoje ainda, tal como vimos, à descrição do padre Luís de Almeida. Até os seus respectivos nomes se mantêm, o que é tanto mais de admirar quanto sabemos que as variações das invocações de Buda, dos bodisatvas e apsaras, e demais seres celestes ou míticos, induziam frequentemente japoneses e estrangeiros a cair em confusões.
Todaiji não é só aquela maior estrutura de madeira em todo o mundo (Horyuji sendo a mais antiga), que abriga o monumental Grande Buda, nem apenas o destino anual de milhões de peregrinos, que ao seu grandioso portão de entrada chegam percorrendo uma alameda antiga onde gazelas mansas lhes vêm comer à mão uns biscoitos que para ali se vendem para o efeito. Todaiji é símbolo e memória da implantação espiritual, política e social do Budismo no Japão, iniciada na era Asuka, confirmada no período Nara, e dominante no Império do Sol Nascente até ao regresso do shintoísmo como religião oficial do Imperador e do Estado, por imposição da restauração Meiji em 1867.
Todaiji também deu nome à escola de escultura budista de Nara, sequência, afinal, da tradição (ou tradução?) nipónica que, um século antes, Horyuji, bem perto dali, fizera da chinesa Tang.
Relendo Luís de Almeida e outros testemunhos da arquitetura e escultura budista-japonesa, que europeus descobriram no séc. XVI, sentimos igual espanto face à grandiosidade, força - e até violência - das imagens estatuárias ou da dimensão dos edifícios... Mas, parece, não nos impressiona a serenidade misteriosa, quase alheia, do rosto do Buda: talvez não seja referência que sirva o nosso entendimento. Tampouco garanto que muitos japoneses a tivessem entendido, posto que muita guerra e perseguição houve entre seitas budistas, e entre elas e o poder político...
A arte cristã coeva também era canonicamente executada, basta recordarmos as imagens bizantinas, que apresentavam aos homens a sereníssima ordem de Deus, em sua Trindade, e dos seus exércitos. Como se a paz fosse só possível noutro mundo que desde já devêssemos contemplar. O nosso Cristo crucificado não aparenta sofrimento, é sempre vencedor magnânimo. Os anjos e arcanjos podem esmagar os demónios, castigá-los, mas Deus e o seu Cristo estão acima desse combate. O sofrimento humano, essa condição que Jesus Cristo assumiu, só mais tarde será assunto de representação, como as dores e lágrimas de Maria. Na arte cristã, o Deus incarnado levou séculos a humanizar-se.
No pagode de Horyuji, podemos ver a morte de Buda e o seu acesso ao Nirvana. O Gautama, de bronze dourado, está reclinado num divã, uma velhota se ajoelha diante dele... À sua volta, dez discípulos, alguns quase esqueléticos, se arranham e contorcem de dor, ou simplesmente se interrogam e choram. Em Horyuji também vimos Kannon, bobisatva ou "filhos" ou acólitos de Buda, já no séc. VI com aspecto feminino. Essa figura de acolhimento, vai-se tornando maternal, será progressivamente representada com uma criança ao colo...
Ainda hoje guardo, em minha casa, um baixo relevo gravado em pedaço de madeira com forma de flor de lótus, uma Kannon aureolada e de menino ao colo... No reverso, senpuku desenharam uma cruz cristã...

 

Camilo Martins de Oliveira


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Quinta-feira, 18.09.14

 

Querido amigo:

 

Daqui, desta Ericeira - nobreza antiga - atrasei-me a partir. Vou agora mesmo colocar este postal no correio para si e, não queria deixar de lhe dizer, e dizê-lo por escrito, que António Damásio nos levou ao caminho da água onde pensamento e emoção moram em cidade descoberta. 

Gostei muito que referisse António como quem abre um labirinto. No princípio, quando o li, receei pela minha poesia e resguardei-a nas furnas de mar salgado e revolto a que ninguém se atreve por aqui, e, afinal o meu amigo, chama Novalis para quem a poesia é um real absoluto da filosofia: ninho total!

Creia que Ricardo Reis nessa sua carta que me enviou, viu tudo de novo em termos diferentes, tendo-se mesmo casado num segredo com ave serena, com ave que aceita o ferimento religioso dos mistérios na soma de tudo o que viram.
Saio agora para Lisboa.

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2014 



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Quarta-feira, 17.09.14


O CINE-TEATRO IMPÉRIO


A Alameda D. Afonso Henriques constitui um referencial de certo modernismo urbano e arquitetónico da Lisboa dos anos 30/40: e o arrastar de obras trá-la para os anos 50. Assim, temos num dos topos do vale o Instituto Superior Técnico, projeto de Pardal Monteiro, construído no final dos anos 30. No outro extremo, a Fonte Luminosa, dos irmãos Rebelo de Andrade, inaugurada em 1943. E no meio do vale, o então chamado Cine-Teatro Império, de Cassiano Branco, com intervenções arquitetónicas de Frederico George e Raul Chorão Ramalho, painéis decorativos de Luis Dourdil e de João Fragoso, “solenemente” e “ espetacularmente” inaugurado em 1952, com “La Beauté du Diable”, filme referencial de René Clair.

E já agora – bem próximo, temos o Instituto Nacional de Estatística, também de Pardal Monteiro, projeto de 1936.

Margarida Acciaiuoli descreve o processo de construção, e salienta “os cuidados postos na decoração, chamando a atenção para o efeito que provocava logo à entrada o painel de azulejos de João Fragoso e as pinturas do próprio Frederico George, presentes nos foyers do primeiro e do segundo balcão” (in “Os Cinemas de Lisboa - Um Fenómeno Urbano de Seculo XX” – 2012).

O Império foi predominantemente cinema, mas o palco permitia, desde inicio da exploração, esporádicas intervenções musicais . Porem, aquilo que lhe deu uma dimensão importante e relevante , podemos dizer, na renovação /modernização do espetáculo e na cultura teatral, foi o Teatro Moderno de Lisboa.

No panorama teatral da época, o TML constitui uma poderosa e algo insólita inovação. Trata-se de uma sociedade de atores, que durou entre 1961 e 1965 sem apoio do Estado, o que na época (e ainda hoje…) era no mínimo insólito. A partir de 1963 passou a receber apoio da FCG, mas isso não rouba mérito e coragem aquele grupo inicial de 4 artistas, aliás do melhor que a cena portuguesa alguma vez já teve: Carmen Dolores, Armando Cortez, Rogério Paulo e Fernando Gusmão.

Mas o mais relevante é a qualidade do repertório e sobretudo a forma como a Sociedade Artística inovou no tipo de exploração do espetáculo e o apoio que recebeu do público, principal sustento da atividade artística e comercial, como aliás o teatro deveria sempre ser, mas raramente é. Basta lembrar para isso que o Império nunca deixou de ser basicamente um cinema de qualidade, mas de grande público – ou de outra forma, não poderia sustentar uma sala enorme e “difícil”, em quatro pisos repartidos por plateia algo elevada e dois balcões, como aliás era habitual na época, com a diferenciação inerente de preços dos bilhetes.

E o mais complicado era a simultaneidade da exploração teatral e cinematográfica. O Império foi sempre predominantemente cinema: isto é, manteve as sessões do que então se chamava primeira matinée, pelas 15.15-15.30H, e sessão da noite, pelas 21.30H. E a sessão que na altura se designada por segunda matinée, cerca das 18-30 H, e as manhãs de domingo às 11 H, era preenchida com os espetáculos do Teatro Moderno de Lisboa. Nada mais arriscado para a exploração comercial.

Mas foi um sucesso de público e de crítica, desde logo na peça de estreia, “O Tinteiro” de Carlos Muñiz, peça em que Alfonso Sastre realça “um certo realismo expressionista, um neoexpressionismo que significa uma correção crítica com relação ao expressionismo propriamente dito” (cit. in Historia del Teatro Español, dir. Javier Huerta Calvo, vol. II, 2003). E seguiu-se Fedeau, Miguel Mihura, Steinbeck, Strindberg, Adamov, Shakespeare, Luís Francisco Rebello…

Até que sobe à cena “O Render dos Heróis”, de José Cardoso Pires: e foi essa a última peça do TML, retirada de cena pela censura teatral, que aliás a tinha aprovado. Ora, tal como noutro lado recordei, a peça “representa a revolta popular da Maria da Fonte, destacando-se a recriação épica da força do povo no movimento politico e a adequação de psicologias e condutas independentemente das motivações” (cfr.Teatro em Portugal” - 2012). Levá-la à cena constituiu um dos “verdadeiros atos de resistência” à censura, como diz Luís Francisco Rebello…(in “Breve História do Teatro Português”, 2000; cfr. também Maria Regina Rodrigues “A Situação do Teatro Português na Década de 1960”: Tito Lívio e Carmen Dolores “Teatro Moderno de Lisboa” 2009).

Aí acabou na prática a exploração teatral do Império: mas não do cinema. Pelo contrário – em 1964 é inaugurado, no último andar uma sala-estúdio: e tudo isto funcionaria até 31 de Dezembro de 1983.

O edifício, com a decoração marcada por “elementos verticais boleados e rematados por esferas armilares em ferro forjado”, como escreveu Sandra Leandro (in “Portugal Património” vol VI ) ainda lá está, convertido num Templo desde 1992.

DUARTE IVO CRUZ


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Terça-feira, 16.09.14

The reinvention of Britain, 2014

Totally gold British drama. O referendo de September 18 marcha ao som de great pipebands. O guião exala high breathe tension. To save the Union no minuto final, Westminster e as tv’s invadem a terra dos brave free Scotties. Mr Stay toca no peito ao dizer em Edinburgh que esta é a heart matter. Mr With desvia olhar emocionado enquanto disserta em Kilmarnock sobre os cordões da bolsa. Mr Us celebra em Cumbernauld a soul quality da pastoral Britannia. — Chérie, a coeur vaillant rien d'impossible! Mr Independent agradece a ida de blue, yellow and red Tories aos domínios de Holyrood. Na House of Commons, em chanter uníssono, RHs William Hague e Harriet Harman exortam os Scots a votar UK. Os Village media sopram os moinhos de riscos e de oportunidades. O resultado da power play sai quinta-feira num malt pub de Glasgow. — Hmm. If the sky falls, we shall catch larks! Além Channel, Brussels acolhe o neo executivo de comissários liderado por Monsieur JC Juncker e Lord Hill of Oareford recebe a pasta da Financial stability & regulation para acomodar eventual Brexit. Paris entra dans le rouge por via de deslize orçamental. No duelo Berlin/Hamburg, elevando já a voz contra o antisemitismo, a Kanzlerin Frau Angela Merkel indica Spain como paradigma do eurosucesso nas políticas de consolidação fiscal.

Bright sky in the morning of another big day in the referendum campaign. Westminster doa vibrante exemplo de democracia em the world's politest independence fight. Simultaneamente Scotland reedita a Home Rule crisis que conduz à secessão irlandesa do UK em 1931. Qualquer que seja o desfecho referendário, Britain está já em trabalhos de reinvenção — with energy, passion and competitive visions. As nações são comunidades de destino, de aspirações, projetos e realizações, que se dotam de um estado para lhes servir de leme na navegação pelos séculos. A história em criação nestas ilhas é fascinante a vários títulos políticos. Um destes é a vigorosa participação das gentes em busca de a fair new deal for the whole old Britannia.

Whitehall abrirá agora à devolução ordenada de poderes com a velha prudência constitucional de Mr A. V. Dicey (1835-1922). Se a liberal mind aposta na renascença vitoriana das city-regions, como Liverpool ou Manchester e não apenas London, sobre o ato da Queen Anne que sela The Parliamentary Union noUnited Kingdom of Great Britain escreve o Vinerian Professor of English Law em Oxford nos seus Thoughts on the Union between England & Scotland: “The whole aim of the men who drafted the contract was to give the English and the Scottish people the benefits which each of such people mainly desired to receive under the Treaty and the Act of Union. Hence inevitably resulted the further effect that the men who drafted the Treaty of Union carefully left every institution in England and every institution in Scotland untouched by the Act, provided that the existence of such institution was consistent with the main objects of the Act. Hence the extraordinary success of the Act. It destroyed everything which kept the Scottish and the English people apart; it destroyed nothing which did not threaten the essential unity of the whole people; and hence, lastly, the supreme glory of the Act, that while creating the political unity it kept alive the nationalism both of England and of Scotland.”

 

A autonomia da Bella Caledonia aguarda decisão, com teses de identidade balanceando desafios económicos, mas o centralismo perde argumentos. And not just in the UK. O drama interno soma, aliás, confusão exterior. Pelo continente alheio à idiossincrasia das ilhas rodam leituras que trocam posições geopolíticas às catedrais de St Giles e de St Paul. A subida do Yes significaria a revolta escocesa face à coroa inglesa! De todo, não. Sob a common rule of Law, o sufrágio atinge os Acts of Parliament de 1706/07 e não a monarquia radicada na Union of the Crowns de 1603. Ainda assim, a temperatura mercurial sobe a altitude tal que o Buckingham Palace sinaliza a linha da separação de poderes por cá designada de impartiality no idioma constitucional: “The Queen do not intervene in the Scottish independence debate.” Nos inner circles of power questiona-se até se, for real, quererão as Northern gentlepersons deixar de governar a Anglia Scotia. Mas Her Majesty pede aos Scots “to think very carefully about the future.”

 

Meanwhile, in other races… Mr Boris Johnson é o candidato oficial dos Conservatives em Uxbridge and South Ruislip. O Tory Darling pavimenta a rota que o pode levar ao No. 10 Downing Street também com uma love letter em latim aos Caledonians além Hadrien Wall e a apresentação no Imperial College do seu livro The Churchill factor. How one man made history. O Mayor of London e a quite unusual politician antecipa o 50th anniversary do passamento do Greatest Briton. Quanto ao Scotch to be, ou the sensitive dependency on initial conditions, tome-se The English Constitution nas conclusões de Mr Walter Bagehot sobre a história e os efeitos da história: — The old notion that the Government is an extrinsic agency still rules our imaginations.

 

St James, 16th September

Very sincerely yours,

V.


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Segunda-feira, 15.09.14


De 15 a 21 de setembro de 2014 

 

A última jornada da nossa peregrinação à Índia é marcada por uma pequena preciosidade literária que levávamos na bagagem: «Notes on the History and Antiquities of Chaul and Bassain», de J. Gerson da Cunha, editado em Bombaim (Thaker, Vining & Co, 1876).


CIDADES LABORATÓRIO…
Quem olhasse com a atenção um pequeno memorial junto a uma das entradas laterais da Igreja da Glória, no bairro de Mazagão em Mumbai, verificaria que o mesmo é dedicado a José Gerson da Cunha (1844-1900) e a sua mulher Ana Rita da Gama. Trata-se do autor do pequeno livro que merece a nossa atenção. Natural de Salcete, em Goa, fez a sua formação médica em Bombaim e Londres, Gerson da Cunha era tio do eminente jurista português Professor Luís da Cunha Gonçalves (1875-1956). Ao percorrer o livro, encontramos uma circunstanciada análise geográfica, toponímica, geológica e histórica de Chaul e Baçaim. Mas o interesse da referência tem a ver com a necessidade de compreendermos as razões, os desenvolvimentos, a ascensão e a queda da presença portuguesa na Índia. Chaul e Baçaim são dois exemplos muito significativos que hoje constituem reminiscências da cultura indo-europeia. São sinais que o tempo conservou como que congelados. O caso de Baçaim é eloquente, já que nos deparamos com uma cidade fantasma, que desde o século XVIII existe como um esqueleto urbano, que a nossa imaginação pode humanizar… Se a quadrícula viva de Damão, dentro da fortaleza, nos revela uma cidade que, apesar de tudo, permanece habitada, e com atualizações naturais, as estruturas de Baçaim, dentro da floresta, e de Chaul, totalmente absorvida pela verdura tropical, aberta sobre o Mar Arábico e com o sistema de defesa bem visível, constituem peças de laboratório para entendermos o que seriam cidades paradas no tempo…

ANTES DE OS PORTUGUESES CHEGAREM…
Conhecidas desde a Antiguidade Clássica, em especial pela escola geográfica grega de Ptolomeu, Chaul e Baçaim apresentaram sempre qualidades económicas e estratégicas de grande notoriedade. Segundo Gerson da Cunha, os períodos mais recuados são para os dois casos muito nebulosos, mas parece não haver dúvidas de que nos períodos purânico, hindu autêntico e muçulmano houve um reconhecimento traduzido na proliferação de templos e num apreciável nível cultural certamente devido à circulação económica na região. O período mais interessante na vida das duas posições é, no entanto, indiscutivelmente o português – e o autor aponta a vantagem por os portugueses, apesar das esplendidas oportunidades que tiveram, não terem querido adquirir influência política ou territorial, confiando a sua presença à aquisição de poder marítimo e comercial pelo estabelecimento de feitorias na costa e de pequenas guarnições para a sua defesa. Importa, porém, referir que aquando da chegada dos portugueses à Índia poucas eram as regiões cujos soberanos e classes dominantes não estavam islamizadas, em virtude da grande expansão da influência dos emigrantes persas e árabes no Índico. O que os portugueses designavam genericamente como mouros distinguiam-se em dois grupos: os de terra, radicados nos portos do Mar Arábico e Oceano Índico e os de Meca baseados na Arábia, no Egito, no Iraque e na Pérsia, que dominavam o transporte de longa distância e controlavam o levante mediterrânico. E para esses havia duas rotas: a do mar Vermelho, que ia ao porto de Jeddah, em que a mercadoria era baldeada para os camelos, que a depositavam em Alexandria, onde depois do pagamento de pesadas taxas, as especiarias e outros produtos eram carregados em galés venezianas. A rota alternativa seguia pelo Golfo Pérsico até Baçorá, de onde as caravanas seguiam até Beirute, onde as galés venezianas pegavam as mercadorias.

A RIQUEZA DA ÍNDIA
É este o contexto que tem de ser compreendido no momento em que os portugueses chegam à Índia. O ouro e as especiarias eram o grande móbil económico da empresa, que além do mais carecia de ser financiada e de gerar recursos para o reino e para os futuros investimentos do império. Pode falar-se de uma invasão inesperada dos portugueses, que alterou radicalmente o jogo de forças na região, aproveitando as divergências e os conflitos, designadamente entre hindus e muçulmanos. E note-se que os hindus estavam em posição frágil perante os árabes, uma vez que o sistema de castas os impedia de organizarem armadas marítimas para o transporte de mercadorias. Assim, os portugueses aproveitaram as divisões, as hesitações e a inexperiência técnica para consolidar posições em terra e no mar. Entretanto, as fortalezas que os portugueses iam construindo revelavam-se extremamente eficazes, permitindo o fogo cruzado e tornando-as inexpugnáveis (segundo a experiência do norte de África, especialmente de Mazagão, que se tornou modelo para o Mar Arábico e Golfo Pérsico). A lógica do Estado, que era a de D. João II e em parte de D. Manuel, veio a evoluir para uma progressiva afirmação da iniciativa privada. A oposição entre a lógica de Afonso de Albuquerque e de Lopo Soares de Albergaria, que tanta tinta tem feito correr, significa que foi o primeiro que criou as bases fundamentais que permitiram a circulação, enquanto o segundo abriu as portas ao ganho dos mercadores e às suas próprias iniciativas… O retorno da venda da pimenta cobria globalmente os créditos envolvidos, mas se a rota do Cabo não era muito rentável para a Coroa, a verdade é que o Estado da Índia se tornaria economicamente independente, graças à prevalência do comércio interasiático, os rendimentos do controlo dos circuitos comerciais e à riqueza dos agentes locais. Assim se compreendem as opiniões que encontramos nas personagens de Gil Vicente, em Sá de Miranda e no próprio Camões, com o Velho do Restelo – no fundo, a hemorragia de gente não dava ganho ao reino, suscitando, porém, os fumos da Índia – e a crítica de Diogo do Couto é bem ilustrativa disto mesmo… Para que o poder do Índico se tivesse consolidado foi fundamental a vitória das forças navais portuguesas em 1508 e 1509 em Chaul e Diu contra as forças coligadas do Egito mameluco, do sultanato de Guzerate e do reino de Calecute. Os portugueses alcançaram uma vitória muito clara, aniquilando a força expedicionária egípcia. Em Chaul e Diu a artilharia desempenhou um papel decisivo, o que torna essas batalhas um marco histórico. Em Chaul morreria o jovem D. Lourenço de Almeida, filho de D. Francisco de Almeida. Mas, com estas vitórias os portugueses garantiram o domínio do alto mar no Oceano Índico, podendo, assim, aumentar e consolidar o poder na costa e estender a sua presença ao Golfo Pérsico e ao Sudoeste Asiático. Afonso de Albuquerque tiraria todas as consequências destas batalhas, criando a rede estratégica fundamental do Império Asiático… Quando visitámos a fortaleza de Diu, recordámos a importância do comércio do algodão e os efeitos militares da fortaleza; em Chaul lembrámos a localização singularíssima e o comércio dos cavalos árabes ou as célebres trocas do ouro de Sofala e das especiarias da Índia. Afinal, a Índia foi mais do que um fantástico sonho…

 

Guilherme d'Oliveira Martins



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Domingo, 14.09.14

 

Jardim do Templo Ryoanji, em Kyoto

Jardim do Templo Ryoanji, em Kyoto

 

20. KARESANSUI

 

Kare-sansui escreve-se com quatro kanji: os dois primeiros formam as duas sílabas significantes do verbo kareru (ru sendo a terminação dos verbos japoneses no infinitivo), que quer dizer secar; san é montanha, sui é água. Os jardins zen japoneses são secos, com pedras ou rochas que evocam montanhas ou ilhas, sobre gravilha que se penteia para que sugira mares ou cursos de água. Visitámos alguns desses jardins em Kyoto, os mais notáveis sendo o do mosteiro de Nanzenji, desenhado por Kobori Enshu, no princípio do séc. XVII, e o de Ryoanji, este criado, quase um século antes, pelo monge Tokuho Zenketsu. Neste se contam quinze rochas, mas nunca vistas pela mesma perspectiva; se não mudarmos de posição, há sempre umas que nos escapam... Rectangular, com 25 metros de comprimento e 10 de largura, não tem árvores nem arbustos, nem flores; apenas gravilha branca e rochas pequenas, algumas circundadas de musgo. E tem aquela tentação da contagem certa do número de ilhas ou montanhas... Está essa no cerne daquele jardim: só serve, precisamente, para percebermos que é inútil a insistência em acertar, seja no que for, pelos nossos próprios meios. O génio do Zen está em nós, adormecido, não há esforço, cálculo ou técnica, que o acorde. O seu despertar, o satori, surgirá do nosso inconsciente, depois de nos termos sentido pouco à vontade com a agitada preocupação das nossas análises: só desistindo da nossa presunção acederemos à realização da força que está em nós. Este jardim, cada um de nós o poderá imaginar em múltiplas figuras, cada um de nós saberá sempre, no fim da meditação contemplativa, que a inesperada paz está no esquecimento da nossa imposição. Na arte do tiro de arco e seta, que os zen tanto praticaram, fecham-se os olhos, a pontaria certeira é, necessariamente, uma intuição do objetivo. O Inconsciente como morada do despertar é, na caligrafia -exercício artístico de perfeição - como na poesia japonesa, um estado da alma: a beleza criada nasce do despojamento de nós. Parafraseando Novalis, direi: quanto mais vazios, mais verdadeiros. Bem sei que isto é difícil de explicar, a nossa visita a jardins zen foi como abrir uma porta para olhar o incompreensível... Conta o Prof. Doutor Daisetz Suzuki que Chiyo (1703-75), a célebre poetisa de haiku, apesar da fama de que gozava na sua terra, pediu a um mestre forasteiro que lhe explicasse o que era um haiku autêntico, de genuína inspiração poética. Diz o Prof. Suzuki: Ele deu-lhe um tema para um haiku, bem convencional: o cuco. É este um dos pássaros mais apreciados, para mote, pelos poetas que compõem haiku e waka.: o cuco canta de noite enquanto voa, é difícil ouvi-lo porque voa e vê-lo porque canta. Reza assim um dos waka sobre cucos 

 

      Hototogisu                                Ouvindo o grito do cuco

      Nakitsuru kata wo:                   Pró ar olhei, em sua direcção 

      Nagamureba,                            Em busca donde vinha o som;

      Tada ariake no                          E que vi eu? 

      Tsuki zo nokoreru.                    A lua a crescer no céu.

Os waka, como este têm trinta e uma sílabas (5+7+5+7+7), os haiku, que surgem posteriormente, apenas dezassete (5+7+5). Diz-se que Chiyo nunca mais acertava num haiku que agradasse ao mestre... Até que, conta-nos Suzuki, certa noite, ela se pôs a cogitar tão intensamente no tema que nem sequer se deu conta de que já amanhecia, nem de que os shoji se iluminavam palidamente, quando este haiku aconteceu no seu espírito:

 

      Hototogisu,                                Ó cuco, cuco!

      Hototogisu tote,                        Toda a noite cuco...

      Akenikeri!                                 Amanheceu por fim!

O comentário seguinte é do professor japonês: Quando o mostraram ao mestre, ele logo o aceitou como um dos melhores haiku jamais compostos sobre o cuco. E isso porque esse haiku comunicava verdadeiramente o genuíno sentimento íntimo da autora sobre o hototogisu (cuco), e ali não havia qualquer esquema artificial ou intelectualmente calculado para qualquer espécie de efeito; ou seja, não havia qualquer "ego", por parte do autor, com vista à sua própria glorificação... O haiku é uma curtíssima forma de poema, cuja tradição costuma ser filiada num poeta da segunda metade do século XVII, que, praticante do zen, se reclamava do espírito de despojamento do eu-próprio e seus laços (muga) e de solidão (sai-shiori): chamava-se Basho e viveu de 1643 a 1694. Foi várias vezes invocado, ao longo da nossa peregrinação nipónica. Diz-se que o haiku com que iniciou a respectiva escola e modo de poesia foi o seguinte:

 

      Furu ike ya!                               Ah, o velho charco!

      Kawasu tobikomu ,                    Pra lá salta uma rã :

      Mizu no oto.                              O som da água!


Aí está uma realidade intuída pela iluminação de um som...

O nosso João Rodrigues, o Tçuzu, na sua Arte Breve da Língoa Japoa, impressa em Macau, no ano de 1620 (há uma edição anterior, intitulada Arte da Lingoa de Japam, publicada em Nagasaki em 1604) faz um sumário da arte poética japonesa: fala de uta, tanka, renga, haikai. Será este último o próximo antepassado do haiku. Diz o padre Rodrigues, mais ou menos, isto: O haikai é um tipo de poema, como o renga. É escrito num estilo muito coloquial, com palavras e frases de todos os dias. Muito embora este tipo de poema não seja obrigado a tantas regras como o renga, pode ter o mesmo número de versos. Pode começar com dois versos de sete sílabas (tsukeku) e continuar depois com três de cinco, sete, cinco sílabas cada. Por exemplo:

 

      Abunaku mo ari                          Acaso eu correrei 

      Abunaku mo nashi,                     O risco de ter medo             

      Hotarubi no                                 Daquele lume

      Kayaya no noki ni                        Que o lento pirilampo deixa

      Haitsukite.                                  No beiral de palha?

No Ryoanji, quem terá contado rochas? Só me lembrei de que talvez pudesse traduzir haiku por... surpresa !

 

Camilo Martins de Oliveira


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Sábado, 13.09.14

 

Cinco factores associados à emergência do Movimento Moderno

 

O Movimento Moderno, em arquitectura, surge associado à ideia de vanguarda, como resposta formal social ao processo de industrialização e à crença no progresso que pode transformar a finalidade da arte. Emergiu, em certa medida, de acordo com a articulação dos seguintes factores:

1. Definição de um modo único, racional e lógico para responder aos desafios da vida moderna e agir à agressão do mundo industrial – que pôs fim à questão dos estilos oitocentistas. A procura do absoluto, proposto pelo movimento moderno, estabelece-se através de uma linguagem baseada no purismo (ao reabilitar o objecto trazendo-o à sua expressão mais simples), no rigor, no ‘lirismo do ângulo recto’, na presença constante dos grandes mestres, e na fidelidade aos lemas miesianos – ‘despojamento é riqueza’ e ‘menos é mais’. Adolf Loos opõe-se a uma atitude ornamental e recusando a originalidade inventiva propõe toda a ‘cubagem do edifício’ económica, racional (em tempo e em meios), pré-fabricada e padronizada.

2. Investigação formal ligada à técnica, referenciada à metáfora da máquina e a uma estética tendencialmente abstracta (em 1908, o historiador Wilhelm Worringer (1881-1965) introduz a ideia de que a arte abstracta não é de algum modo inferior em relação à arte realista/orgânica e que implica sim uma intensa actividade espiritual associada a uma forma mais primitiva de observar o mundo.). A técnica é baseada em novos materiais de construção. No início do séc. XX, são experimentados novos materiais com sucesso na produção industrial, massificada e estandardizada – as chapas de vidro são produzidas em maiores dimensões e o betão começa a ser um meio de construção eficaz e barato. Os arquitectos associam-se à produção industrial. A Bauhaus tem um papel determinante porque possibilita um desenho novo e acima de tudo um novo estatuto para o arquitecto.

3. Procura por uma arte colectiva: Através da representação formal de uma funcionalidade puramente social da arte, abandona-se uma expressão individual a favor de um sentimento universal belo - na procura por um dever moral (a arte acima das emoções), por uma ética, por um assumir a virtude da produção estandardizada. Manuel Tainha refere-se ao postulado da arquitectura moderna como sendo um assumir de uma posição que refaz a vida dos deserdados da terra, dos pobres, dos operários, dos que vivem nas cidades sem higiene, sem sol, sem espaços verdes – os temas são já os da vida quotidiana porque já não é o monumento que faz o arquitecto. ‘A arquitectura já não propõe a glorificação do poder do estado ou da igreja. Para a arquitectura moderna todas as pessoas são iguais.’ (Manuel Tainha, 2008). E a habitação colectiva é o meio programático de experimentação social ideal.

4. Revolução permanente associada ao desejo constante de mudança e transformação do mundo. A procura incessante pelo novo e pelo progresso é o motor da produção da arquitectura e da arte. O movimento moderno busca o seu fundamento não no passado (em contraposição ao séc. XIX que tinha a percepção do passado como fonte de formas disponíveis para serem utilizadas), mas baseia no espírito do tempo, o fundamento para a construção de formas que se prolonguem no futuro. Estas ideias de justeza e pureza originam a utilização de um vocabulário de natureza abstracta – Mondrian, por exemplo, apostava numa abstracção baseada no valor de medida, de rigorosa claridade, de ideal tranquilo e procurava nas leis secretas do universo a fundação da síntese das artes (Tostões, 2002). Tanto Giedion como Pevsner admitem a importância da revolução que ocorreu na pintura no início do séc. XX (sobretudo com o aparecimento do cubismo) para o desenvolvimento da arquitectura moderna. A abstracção sucede da ideia primeira de Cézanne ‘em tratar a natureza pelo cilindro, a esfera e o cone’ – ao associar a natureza à geometria criou-se um processo conceptualizante muito útil para o cubismo (Tostões, 2002). O cubismo ao dar matéria a uma composição marcada pela simultaneidade (espaço e tempo coincidem), planaridade, transparência e múltiplos pontos de vista introduz uma nova direcção, irreversível para a história da arte – que passa a descodificar o mundo segundo uma visão nova, onde tempo, espaço, saber e experiência coincidem num só plano. Mas também a aspiração da vanguarda ao dissolver a arte na vida faz da abstracção o meio de expressão mais adequado, na medida em que se declara também uma espécie de anonimato (do autor e do utilizador que se reduzem a um homem genérico). As formas geométricas são as mais adequadas (o puro paralelepípedo) e as cores primárias são as mais verdadeiras – na arquitectura de Rietveld o uso das cores primárias serve para definir o espaço. E o novo conceito de arquitectura da vanguarda é encarada como a arte do espaço.

5. O desejo de sinceridade e de verdade manifestam-se na ideia de funcionalismo, que produz formas que advêm meramente da utilidade e dos meios. Para Gropius construir significa organizar as formas segundo um espírito novo. A construção deriva da própria essência do edifício, isto é, da função que ele deve cumprir. Na época do funcionalismo, o pensamento utópico surge como reflexão e lamento à realidade e que não tem nenhuma consequência que contribua de facto para a mudança e para o progresso. O objectivo está em encontrar uma estrutura pragmática artística que consiga inserir-se numa justa dimensão social.

 

Ana Ruepp

 


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Sexta-feira, 12.09.14


Portão Oriental do Nijo-jo

Portão Oriental do Nijo-jo

 

19. O NIJO-JO

 

O Nijo-jo que visitámos não é o que Luís Froes nos descreve, como já referi, nem outro; falo de cor, mas se não me falha a memória, além do que conhecemos hoje, houve dois anteriores, já desaparecidos, mas que se situavam nas proximidades do actual. Este, cuja construção se concluiu em 1603 - muito embora tenha sido ampliado e contemplado com novos edifícios, nas décadas seguintes - ergueu-se quando o imperador conferiu a Tokugawa Yeasu, o sucessor de Nobunaga e Hideyoshi, o título de Seii-tai-shogun (ou Condestável), que aqueles seus antecessores no comando das campanhas de reunificação do Japão não tinham recebido. Yeasu fez questão em obtê-lo, já que, embora não tivesse poder executivo, a autoridade do Imperador lhe conferiria legitimidade política para o exercício das suas funções de generalíssimo e chefe do governo. O palácio fortificado Nijo-jo, relativamente próximo do palácio imperial simbolizava assim essa  legitimação e sublinhava o poder delegado no Shogun. E doravante, os daimyo, bem como os altos funcionários e comandantes militares, teriam de passar pela audiência do shogun, assim significada em Kyoto, capital imperial, ainda que o domicílio do generalíssimo e a sede do seu governo (bakufu) se estabelecesse em Edo (hoje Tokyo), onde os senhores feudais teriam, aliás, residência obrigatória, junto do shogun, seis meses por ano. O Nijo-jo, subsequentemente, passou a acolher os Tokugawa apenas quando eles viessem a Kyoto visitar o Imperador. Dentro da cerca da fortificação, rodeada por um fosso de água, estão dois palácios. Ao entrarmos pelo portão oriental, somos conduzidos ao Ninomaru, palácio hoje reduzido a menos de metade do que ali fora inicialmente edificado, depois de lhe ter sido acrescentado uma importante área coberta, várias construções comunicantes com as já existentes e com o Honmaru, o outro palácio do complexo ( palácio principal seria, com a sua alta torre, mas, destruído pelo fogo no sec.XVIII, é hoje uma construção de 1893). Tais edifícios, incluindo um teatro para representações de noh, ergueram-se entre 1624 e 1626, precisamente para servirem de recepção à visita do imperador Gomizuno-o ao terceiro shogun Tokugawa, de seu nome próprio Iemitsu. O paço para temporária habitação do Imperador, o Gyoko Goten, hoje desaparecido, situava-se entre os dois palácios, e a eles se ligava por corredores. Nesse paço, o Imperador bebeu cerimonialmente saké com o shogun Iemitsu, seu cunhado, e o pai deste, o segundo e então já ex-shogun Hidetada, seu sogro. A 9 de Setembro de 1626, terceiro dia da sua estadia, foi Gomizuno-o convidado a assistir a uma representação de noh e, posteriormente, a conviver com o seu anfitrião no grande salão, ou sala de audiências do Ninomaru, residência do shogun. E foi esse salão ou ohiroma que também nós visitámos. Penetrando no Ninomaru - passámos primeiro pela Karamon, porta monumental, ao gosto chinês, superada por uma coberta com símbolos dourados da família imperial e da Tokugawa, e ainda pelo portão interior dos coches, com o seu pórtico de madeira esculpida de flores, pavões e outras aves voadoras - fomos surpreendidos pelo gemido ou chiar das tábuas (há quem aí reconheça o pio ou o canto de rouxinóis) do piso do largo corredor que fomos percorrendo: assim foi feito propositadamente para que não houvesse entradas furtivas nem inesperadas surpresas. Mas logo fomos envolvidos pela nobre dimensão das salas de cedro robusto, sobre o qual, nas paredes, tectos e portas, aplicações de ouro fino e pinturas de cores calorosas e discretas criam um cenário de acolhedora grandeza. A pintura das paredes e fusuma é de artistas da escola Kano, e aqui se encontram as obras de maior dimensão dessa família de pintores. Os motivos são tigres e panteras entre bambus, gansos selvagens e garças povoando paisagens de Inverno e neve, pavões exibindo-se ou andorinhas voando. E por aí chegámos à referida ohiroma, salão decorado por magníficos pinheiros, de vigorosos troncos e ramos, e verde folhagem sobre fundo de ouro. O tecto, todo trabalhado em caixilhos, tem pinturas geométricas florais. O salão ordena-se por duas divisões ou pisos de diferente altura: o jodan, mais elevado, ao fundo do qual está a tokonoma, a parte mais recuada, onde se sentava, nas audiências, o shogun (em qualquer sala japonesa, o lugar de honra é sempre, de frente para a entrada, o mais afastado desta); e o gedan, um degrau abaixo, onde se sentavam os outros senhores. Como era de regra, o shogun tem, à sua direita, uma tsuke-shoin, espécie de escritório, para escrita, e, à sua esquerda, uma estante montada num recuo da parede, de prateleiras não alinhadas (chigaidana) e as fusuma com frisos dourados (chodaigamae), tudo com pinturas de pinheiros resistentes, da autoria da Kano Tanyu, que aliás enchem as paredes do salão. Os visitantes descobrem hoje o ohiroma com manequins representando uma audiência do shogun (sentado no jodan, acima dos restantes) aos senhores que, sentados sobre os joelhos, se inclinam respeitosamente, deixando-nos ver melhor os seus brasões bordados nas costas das riquíssimas vestes... A cena assim montada refere-se à última audiência: aquela em que, corria o ano de 1868, Tokugawa Yoshinobu, 15º e derradeiro shogun, comunicava a nobres e governantes que entregara ao Imperador Meiji todos os poderes que a sua família reunira durante mais de 260 anos... No século XVI - quando, com o movimento de reunificação militar e política do Japão, se reafirmou o poder central do shogunato, reconhecido pelo Imperador - o nosso padre Cosme de Torres definia mais ou menos assim a autoridade do estado nipónico e seu exercício: O estado secular deste país divide-se por duas autoridades, ou nobres principais, um dos quais trata da concessão de honras, e outro do poder, da administração e da justiça. 

Ambos esses nobres vivem em Miyako. O que trata das honrarias chama-se Ô (Rei) e é hereditário o seu ofício; o povo venera-o como aos seus ídolos, e como tal o louvam... Chegando ao termo do nosso percurso do Ninomaru, admirámos, na kuroshoin, sala na área de aposentos do shogun, a pintura, por Kano Naonobu, de sakura (cerejeiras em flor) sobre as fusuma: sobre fundo de ouro claro, surgem os troncos quase imaginários, vigorosos, grossos e torcidos, mais artísticos e sugestivos do que realistas e naturais, donde explodem ramos etéreos de flores de um rosa branco, que nos lava o olhar... Ocorreu-me então um texto do padre João Rodrigues, o Tçuzu, que ali poderá ter estado, e que nos diz mais ou menos o seguinte: A primeira e mais importante das artes mecânicas deles é a pintura. São muito habilidosos a pintar coisas da natureza, que copiam o melhor que podem, com grande exactidão. Apresentam nas suas pinturas muitas coisas fantasiadas e mais concebidas pela imaginação do que descobertas na natureza, tais como flores imaginárias e figuras inteligentemente desenhadas e ligadas entre si... De acordo com o seu melancólico temperamento, inclinam-se geralmente para pinturas de solidão e comoção profunda, como as que retratam as quatro estações do ano. Atribuem uma cor especial a cada estação e descrevem as várias coisas que nela crescem ou se encontram. Por exemplo: associam o branco ao Inverno, à conta da neve, geada e frio daquela estação, e também à conta das diversas espécies de aves selvagens, como gansos, cisnes, garças e muitas outras que, durante o Inverno, chegam da Tartária, voando em bandos. A cor verde é associada à Primavera, porque as plantas, vegetais e flores, nas árvores e nos campos, estão em rebento, e também por causa da névoa que por essa altura cai. O vermelho colore o Verão, à conta do grande calor, com os frutos amadurecendo nas árvores e tudo em flor. O azul é a cor do Outono, quando a fruta já está bastante madura e as árvores largam as suas folhas à descida da sua energia para as raízes, onde fica armazenada à espera. Deste modo se diz que o fruto é produzido na Primavera, floresce e viceja no Verão, é colhido no Outono, e se esconde no Inverno, quando as árvores murcham e perdem as folhas... Estes quadros, sucessivamente pintados nas paredes e painéis das salas, são muito agradáveis e comoventes, por tão vivamente descreverem a natureza nas diferentes estações. E neste folhetim de cerejas que se vão comendo, rebenta-se-me uma sagacidade antiga, talvez aquela que melhor percebe quando se interroga: João Rodrigues veio, há quase meio milénio, de Sernancelhe, lá das montanhas do norte-interior de Portugal, feridas e marcadas, acolhidas e temperadas pelos rigores e pelas clemências das estações...  Sofreu e saboreou, em menino, as graças e desgraças do tempo circular, do tal que, antes de o sentirmos, envelhecendo, mais escatológico por nos parecer fatal, fatal, sim, nos surge só pela repetição do nascimento, da maturidade, do envelhecimento e, finalmente, do silêncio interrogador das estações de cada ano... Fez-me o Tçuzu pensar que, no Nijo-jo dos primeiros shogun Tokugawa, alguma mensagem haveria nos temas das pinturas interiores do Ninomaru: afinal, bambus e pinheiros resistentes, estes tão sólidos e verdes, acolhem tigres e falcões, e as sakura eternizam a Primavera como promessa... Ano Novo, Era Nova: o shogunato Tokugawa será flexível como o inquebrável bambu, e resistente como o persistente pinheiro. E mesmo as aves vindas de frios bárbaros nele encontrarão repouso. Durou quase três séculos. Tinha eu uns oito anitos, acabara de chegar a Portugal com meus pais, minha Mãe, cheia de disciplinada e nórdica boa vontade, ainda se debatia arranhadamente com a fala portuguesa. Passámos a Entrecampos, a caminho de uma corrida de touros no Campo Pequeno, ao gosto de meu Pai. Sobre a entrada de um estabelecimento comercial, uma placa anunciava: Casa de Pasto. Minha Mãe, sempre curiosa, interrogou: Casa de Pasto? O que é isso? Ao que meu Pai, que lhe detestava o sotaque, respondeu, imperturbado: É uma escola de pensamento. Ali aprendemos a mastigar as ideias, a ruminá-las e digeri-las. Nunca mais me esqueci de que nada se percebe à primeira vez.

 

Camilo Martins de Oliveira


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Quinta-feira, 11.09.14


 

«Nós mulheres intelectuais, saímos perdedoras em assuntos de amor», afirmou e escreveu a poetisa lírica argentina Alfonsina Storni antes de se suicidar. Safo, a mais antiga de todas as poetisas deixou o registo do quanto o futuro da escrita se lembraria das mulheres escritoras. Safo, poetisa grega nascida entre 630 e 612 a.C., viveu em Mitilene, local que constituiu um forte centro cultural no séc. VII a.C., e terá sido uma mulher muito respeitada durante a Antiguidade, mas da sua obra restam apenas fragmentos já que a sua poesia de conteúdo erótico, foi profundamente censurada na Idade Média pelo poder dos monges copistas.

Carson McCullers escreveu o seu maior romance, Coração Solitário Caçador (1940) cujo êxito veio a destruir-lhe o casamento com um frustrado escritor. Virgínia Woolf afogou-se num rio pois sentira bem o quanto a loucura da escrita se lhe tornara insuportável.


Não prolongando a lista, logo nos surge uma explicação no livro de Stefan Bollman “Mulheres que escrevem vivem perigosamente”, sugerindo que, se as mulheres mais criativas e inteligentes se desesperavam com a vida a pontos de a não suportar, e seria razoável pensarmos que o que dá asas e permite voar aos homens é o que destrói as mulheres. Mais acrescenta, de resto bastaria pensar-se que as mulheres governam o quotidiano dos homens, dando-lhes condições para escreverem (ou fazer qualquer outra coisa), mas quem é que governa o dia-a-dia delas?

Então pergunta-se, terá a mulher de ser a musa de si própria? Só poderão ser elas as companheiras auxiliares decididamente doadas inteiramente aos homens? Ou és só minha ou …deveriam saber, como escreveu Alfonsina Storni que


Todo o cérebro activo transporta uma alma quebrada,

e o homem, nas mulheres, busca algo de festiva.

Cuida melhor da casa a mulher modesta

e avessa a grandes rasgos de fantasia.

 

Um dia, um minuto provocou de alguma forma que a mulher constatasse que se não detinha nas pulsões de um homem. Como afirmava Robert Musil «A mulher cansou-se de ser o ideal do homem e tomou em mãos a tarefa de conceber a imagem que deseja ter de si.» Desconheço se o homem atingiu já a maturidade que requer o saber entender isto. Ele que me não interprete mal, pois nunca deixarei de defender que o homem também tem carecido que a mulher lhe dê a liberdade certa, ou seja, aquela que o liberta dela, permanecendo o amor e a admiração como núcleos de não domínio.

Ainda assim creio que a escrita tem uma vertente muito perigosa que é a da solidão no mausoléu do esquecimento, confundindo mais a mulher os seus próprios dons do que o homem. Continua também o túnel que conduz e reduz a que o futebol seja importante e a compra de roupa uma futilidade.

Facilmente se continua a chamar egoísta a uma mulher que é lutadora, ao ponto de recordar que, Marguerite Yourcenar dizia de si própria: ter havido um momento na vida em que deixara de ser uma mulher que escrevia para se tornar, acima de tudo, uma escritora – ou seja, uma escritora que às vezes também é mulher.


Ainda hoje, como antes, as mulheres continuam a ter de estar preparadas para a sua obra ser examinada à luz da pequena diferença com grandes consequências.


Claro está que esta questão se não coloca do mesmo modo numa sociedade como um Islão ou a de um país ocidental. A simultaneidade do não simultâneo poderá ser a forma mais gentil de designar o choque de culturas, sendo certo que a percepção das ideias e dos modos de as manifestar, estão e estarão na ordem do dia. 


Com curiosidade constatei, numa breve pesquisa sobre esta temática, que, em 1713 o jornal The Guardian registava que as belles lettres (expressão francesa que implicava a preocupação da estética nas artes) se coadunavam melhor com o universo feminino pela circunstância de as mulheres disporem de mais tempo! De facto é espantoso que nos surja Jane Austen em 1813 com Orgulho e Preconceito, e se possa achar que o processo de interpretação da vida interior e exterior do ser humano, as suas contradições e subsistências possam resultar de um ter mais tempo!

 


Enfim, creio que o romance trouxe uma fresca auto-estima às mulheres, proporcionando-lhes experiências que nunca teriam tido no mundo acanhado em que na maioria viviam. A leitura mostra os ângulos da luz em que se pode mover a vida no universo. A leitura insinua-se à pluralização da vida. Vida ou vidas até então desconhecidas, que, proporcionam espectros de linguagem diferenciada com outros leitores e leitoras criando estradas de comunicação nunca mais interrompidas.

Talvez pelo que acima mencionei ainda mais me espanta o que veio escrito no jornal The Gardien já que raramente ao longo da vida as mulheres tinham uma hora que pudessem chamar sua sem o medo de estar a roubar esse tempo a alguém que viria sempre antes dela.

Uma mulher punha filhos no mundo! Seja esse o seu destino, ainda que se não entenda a razão de o homem não optar pela mesma receita, sobretudo, quando já no séc. XX fazia da Beat Generation (embrião do movimento hippie) uma interpretação pobre da mistura dos dois sexos.


Diga-se que não existiu uma sucessão contínua ou inquestionável da opressão da mulher na escrita e na leitura, descurando que a Revolução Francesa lhe imprimiu uma certa viragem positiva: a própria Simone de Beauvoir a explica.


Curioso também que Karen Blixen depois do seu casamento estabeleceu uma fortíssima relação amorosa com Denys Finch e quando a aventura africana terminou, ficou de novo na dependência material da família, da qual, na realidade nunca se libertara talvez por não ter sabido conhecer o suficiente da cultura dos Massai e dos Somalis. Hanna Arendt assinalou este regresso ao grau zero e constatando que Karen Blixen só quando tudo perdeu, se tornou artista com os contos África Minha de 1937.


Enfim, propõe-se que nunca se esqueça que a escrita é uma poderosa forma de resistência e a leitura um acto de bravura só consolidado no conhecimento.


Arundhati Roy está persuadida de que a verdadeira liberdade consiste em libertar-se do papel de vítima. Nesta base, escrita e actividade politica têm a sua origem na mesma tensão de vida, numa algo similar visitação ao controlo do deus da história, mas não é desse deus que eu falo quando me refiro à escrita. Aí só conheço aquele deus das pequenas coisas, dos sorrisos, dos arrepios e do surpreendente.


Então viver perigosamente na escrita ou na leitura passará pela coragem de ter a mão aberta ao deus da perda, do pacto, do sonho, do amor, e fintar esse mesmo deus sempre que nos impeça de nos percorrermos em demanda do «porque lêem?» «porque escrevem?», a literatura não tem sexo, nem nacionalidade, nem raça como afirmava a grande Toni Morrison.


Claro!, que a imaginação não se submete a rótulos pois não entrega a chave da arte aos sedutores e alcoviteiras improvisados de gente.


«O coração, se pudesse pensar, pararia», escreveu o terno poeta Fernando pessoa no seu Livro do Desassossego.


Permito-me acrescentar que temos de ser nós, mulheres, a criar o nosso próprio céu, a nossa própria liberdade e que não há nenhum braço que nos ampare e sim caminhamos sozinhas, e, por vezes, num profundo amor compreendido na relação reciproca e na relação com a realidade/universo, e será então chegado o tempo da poetisa morta, irmã de Shakespeare, vestir o corpo que tantas vezes despiu.

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2014



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Quarta-feira, 10.09.14


OS SUCESSIVOS EDEN - TEATRO E CINEMA

 

O historial do espaço urbano e do edifício que resta nos Restauradores, hoje transformado em hotel mas mantendo a estrutura arquitetónica do velho cinema e Teatro Eden, representará uma das mais antigas localizações de espetáculo de Lisboa. Por ali já funcionara, em 1875, um velho circo, intitulado Recreios Whittoyne, nome do proprietário e fundador, o clown (como então se dizia, mais do que hoje e sem qualquer sentido pejorativo) Henry Whittone. Sucede-lhe em 1882 o chamado Grande Colyseu. Tudo isto é demolido para a construção da Estação do Rossio. Ao lado do Eden existe até hoje o muito mais antigo Palácio do Marquês da Foz, o qual integra também, como sabemos, uma pequena sala de espetáculos.

De 1909 a 1912, lembra Marina Tavares Dias, funcionou na área um velho Teatro Variedades, demolido ou adaptado para a construção do primeiro Teatro Eden, este inaugurado em 25 de Setembro de 1914, com uma opereta ainda hoje digna de registo – nada menos do que “O Burro do Senhor Alcaide” de Gervásio Lobato, D. João da Câmara e Ciríaco Cardoso, com a jovem Palmira Bastos como cabeça de cartaz: são nomes “históricos” e ainda hoje notáveis… E “até 1928 o Eden foi um dos templos da Revista” , alternando a partir de 1918 com temporadas de cinema ( cfr. Marina Tavares Dias, “Lisboa Desaparecida” vol. 2; M. Félix Ribeiro “Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa” – 1978).

Em 1929 o Eden encerra e inicia um complicado processo de construção do novo Eden Teatro, a partir de um belíssimo projeto do arquiteto Cassiano Branco. As obras, dirigidas pelo arquiteto Carlos Florência Dias, arrastam-se durante 7 anos, em sucessivos impedimentos burocráticos e com adaptações do projeto inicial, que ficou, diz José Manuel Fernandes, “uma sombra do que Cassiano desenhou, apesar disso notável obra, coroada com piramidais torres de ferro e vidro”. (in “Cinemas de Portugal” - 1995).

E em Abril de 1937 ocorre a inauguração, com a opereta “Bocage” de Frederico de Brito e outros, com música de Rui Coelho e direção artística de Estêvão Amarante: e por estes nomes podemos avaliar a qualidade e relevância da produção.

Luís Francisco Rebello, no Dicionário do Teatro Português” e na “História do Teatro de Revista em Portugal” (1984/5) recorda as fases brilhantes do Eden como teatro de revista e opereta, até que em 1939/40 o cinema passa a dominar a exploração durante décadas. Mas não em exclusivo: além de iniciativas esporádicas, o Eden albergou, de 1966 a 1974, a Companhia de Teatro do Gerifalto, de António Manuel Couto Viana, durante décadas a única iniciativa regular de teatro infantil: e assim, no palco até aí mais ou menos esquecido do Eden, foram encenadas peças de clássicos, mas sobretudo de autores portugueses contemporâneos. (cfr. Ricardo de Saavedra e António Manuel Couto Viana “Memorial do Coração – Conversa a Quatro Mãos - 2012).

Até que, em 31 de Dezembro de 1989 o Eden encerra definitivamente como sala de espetáculos. Em 1993 iniciam-se obras de transformação em hotel, conservando com adaptações a fachada e mantendo os baixos-relevos de Leopoldo de Almeida.

 

DUARTE IVO CRUZ


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