Segunda-feira, 23.01.12

Estudando no cavalete de leitura, 1877
Lord Frederick Leighton

 

 

Passando em revista a paisagem literária do último decénio, é notório o enormíssimo desnível entre quantidade e qualidade. Num tempo em que a interdependência entre cultura e mercado se faz sentir de uma forma cada vez menos ética, o grande volume de títulos publicados sem uma política editorial criteriosa não deixa de ser um sintoma de que a literatura, por assim dizer «séria», se tornou quase clandestina. Enquanto, no domínio da ficção, surgiram algumas obras de relevo que em si encerram um devir objecto estético e/ou intelectual, no campo da poesia, a chuva torrencial de edições trouxe, por um lado – com honrosas e, por vezes, repetitivas excepções –, a maior desatenção por parte dos editores à publicação de livros escritos por poetas seguramente reconhecidos, e, por outro, o surgimento de autores com a chancela de pequenas ou médias casas editoriais que lutam, não sem esforço, pela sobrevivência.

 

Grave é o perigo que correm os poetas, e muitos ficcionistas, a quem eu chamaria de sempre no campo da edição: são facilmente ignorados. Os jovens, esses, se têm um mínimo de qualidade, vão-se acolhendo nas pequenas editoras ou no mundo da internet, onde proliferam blogues e sites. Nunca foi simples começar, mas o que não se escreve não existe, tal como sublinha Yvette K. Centeno no seu último romance, Do Longe e do Perto – Quase-Diário, é, todavia, necessário que seja dado a ver. Não me parece admissível que autores de prestígio tenham dificuldade em publicar – ou que sejam obrigados a fazê-lo online –, por lhes fecharem portas atrás de portas, tantas vezes depois de terem visto guilhotinar os seus livros, enquanto desfilam nos corredores mediáticos poetas sem poesia dentro, ou poesia sem poetas dentro. Dir-se-ia lamentável que escritores menos celebrados sejam ignorados por viverem fora da cidade dos lobbies instalados e estabelecidos. Se há demarcação cada vez mais difícil de se fazer é a da qualidade, pois a dimensão da crítica literária – que quase não existe na imprensa diária e, por pouco, sobrevive na hebdomadária – perdeu, salvo em diminutos casos, por falta de qualidade e pela exiguidade do espaço que lhe é concedido, o papel que em tempos teve: o de dar a conhecer fundamentada e rigorosamente uma obra, comentando-a.

 

No atropelo do que se vai editando, sabemos que se tornou bem difícil encontrar numa estante a obra que o leitor pretende, já que as livrarias se tornaram em supermercados de aeroporto com pessoal de atendimento pouco especializado. A tríade edição/distribuição/mundo livreiro deixou de funcionar convenientemente e há livros que nem hipóteses têm de chegar aos consumidores a não ser via internet, o que é eficiente e veloz, mas, por vezes, tão abstruso como o papel sem lápis: o comprador não vê nem folheia o objecto que adquire. O ensaísmo e a literatura não-light assumem hoje, por outro lado, um lugar de invisibilidade, enquanto novos autores de qualidade são escondidos em espaços quase marginais. Vai sobrevivendo a cultura-espectáculo alimentada pela publicação excessiva na área do entretenimento que ultrapassa em muito o que se faz, em vários segmentos da edição, no resto da Europa em crise, mas nesse aspecto mais civilizada.

 

Registo, no entanto, o surgimento na década anterior de Obras Reunidas assinadas por poetas a quem a história da literatura muito deve como é o caso, entre outros, de Ana Luísa Amaral, António Osório, António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Eugénio de Andrade, Fernando Echevarría, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Herberto Helder, Luís Miguel Nava, João Rui de Sousa, Mário Cesariny (os poemas maiores), Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, Pedro Tamen, Ruy Belo e Sophia de Mello Breyner Andresen. Trata-se de matéria essencial para o leitor, mas também para o investigador e historiador da literatura. Destaque-se o esforço que se fez no campo do ensaio literário (nas suas extensões e ligações a outros ramos do saber), onde a língua portuguesa imaginativamente floresce. Assistiu-se, por outro lado, neste decénio, a uma certa recuperação da memorialística, mesmo no âmbito da ficção, da diarística e da crónica. As insufladas e excessivas edições na área da literatura para a infância e juventude – nem sempre de qualidade –, trouxeram poucos mas significativos escritores, bem como jovens ilustradores de traço original.

 

Tudo isto poderia constituir uma amálgama de lugares-comuns se não se fixassem alguns traços da paisagem literária portuguesa recente: é notório, a meu ver, que as «sereias» – entendidas estas enquanto força de ruptura no movimento da linguagem e do pensamento – estão a ser silenciadas pelo poder da tecnocracia, do mercantilismo, dos hipermercados do vazio. Não sei se Ulisses as terá vencido, mas digamos que o facilitismo de que se veste o comboio da cultura – suportado, de forma ética e humanamente reprovadora, pelos jornais – tem contribuído para o seu descrédito, o que não significa que se defenda uma imprensa elitista, mas mais abrangente e sobretudo exigente. O ecrã da história – como se lhe referiu Braudillard, move-se ao mesmo ritmo que os fenómenos naturais; a sua construção é irremediavelmente inseparável do saber que pode ser transmitido em todos os domínios de forma clara, democrática, mas não mediocrizante.

 

Digamos que a essência da Literatura, transformadora do tempo num espaço imaginário (o espaço das imagens), tem vindo a ser lentamente esvaziada de ideias; sem elas, que mundo estamos a construir? Perdeu-se o trilho do segredo aliado à paciência, ao rigor e à sedução do desconhecido, sendo notória, por outro lado, uma ténue tendência para a abordagem de temas em que a espiritualidade ganha um espaço interessante, por vezes de linhagem filosófica. Tornou-se, entretanto, evidente a descolagem da narrativa de temáticas identitariamente apegadas a Portugal enquanto a investigação histórica se foi alargando a um ritmo imprevisível; o movimento da escrita impregna-se hoje de marcas mais universais, ainda que estas surjam como cintilações solitárias ou vibrações.

 

A experiência de um tempo/espaço imaginários e de pensar o real passou, no entanto, de forma mais evidente, para o domínio da ensaística. Nesse campo, encontramos excelentes escritores, sabendo nós que os ficcionistas de ideias, os da sombra da passagem, da transfiguração metafórica, do símbolo e da alegoria, do sublime e do grotesco, do impulso que vai do figurativo ao abstracto, do movimento laborioso da palavra, vão emergindo cada vez menos, dando lugar ao bem-fazer das telenovelas pseudoliterárias.

 

Que podemos desejar para os próximos dez anos? Uma literatura não colada a uma multidão mimética que transporta os erros de uma política de educação que ainda não conseguiu – talvez por uma não aposta numa séria formação dos professores e pela manutenção de currículos absurdos – ensinar a ler. Surdos e cegos das essências, mesmo das mais simples, vamos criando monstros activos regidos pela padronização da cultura, pela sobrevalorização do lucro e pela ausência de valores. Seria bom se não fossemos nem centauros da ignorância nem cidadãos apáticos. Sons quase palavra ou linguagem quase-cifrão não geram pensamento nem criatividade, apenas subalternizam o mais nobre fundo do ser humano.

 

Ana Marques Gastão

Mesa-redonda «Balanço Literário da Década», CNC, 15-12-2011.



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de 23 a 29 de Janeiro 2012

 

«História do Pensamento Filosófico Português», dirigida por Pedro Calafate (Caminho, 1999) é uma obra coletiva na qual os autores procedem em cinco volumes (dois dos quais desdobrados) à análise dos diferentes períodos e autores da Filosofia em Portugal. Hoje procederemos a uma apreciação sucinta do primeiro volume correspondente à Idade Média.

 

 

UMA ENCRUZILHADA DE DIFERENÇAS
Falar da cultura portuguesa é cuidar de um campo de múltiplas influências, de uma encruzilhada de contributos diversos. Por exemplo, na Idade Média, se nos referirmos a dois dos autores mais influentes e de maior prestígio além-fronteiras, temos de salientar que Santo António de Lisboa e Pedro Hispano exerceram o seu magistério intelectual fora de Portugal, ainda que tenham aqui feito a sua formação, sempre assumindo uma especial ligação ao rincão ocidental peninsular. O primeiro foi discípulo dos cónegos regrantes de Santo Agostinho de Santa Cruz de Coimbra e o segundo da escola capitular de Lisboa. Estes são exemplos do caráter aberto da nossa cultura, desde as suas origens, e o período medieval é especialmente ilustrativo desse facto. Se é verdade que ambos se projetaram naturalmente com dimensão universal, o certo é que as suas origens não foram despiciendas na vida e na influência que tiveram. A história medieval anterior à nacionalidade começa, aliás, por revelar um ambiente bastante rico no pensamento filosófico e teológico, avultando as figuras de Potâmio de Lisboa, intervindo na controvérsia ariana, o bracarense Paulo Orósio, no pelagianismo, Prisciliano e, sobretudo S. Martinho de Dume, além da indispensável alusão às referências fundamentais no Gharb Al-Ândalus. Orósio teve um papel muito importante no seu tempo, ao elaborar, a pedido de Santo Agostinho, uma muito difundidas análise histórica na perspetiva cristã, na linha da «História contra os Pagãos», onde se rebatia a responsabilidade dos cristãos na queda de Roma. Sobre Prisciliano, há que lembrar que atribuía natureza divina à alma humana, defendia uma plena igualdade dos fiéis e ligava um certo panteísmo ao fatalismo astrológico, tendo uma grande difusão popular. S. Martinho de Dume, bispo de Braga, teve uma influência decisiva, sobretudo a partir do Concílio de Toledo III (589). Escreveu o «Livro das Quatro Virtudes (ou Fórmula da Vida Honesta)» de influência estoica, sobretudo de Séneca. A obra dedicada ao rei dos suevos faz parte da corrente «espelho dos príncipes», singularizando-se por se tratar de um influente livro de edificação para leigos, centrado na prudência, na magnanimidade, na temperança e na justiça. Refira-se ainda «Da Instrução dos Rústicos», obra também pedagógica para as populações rurais e de menor formação, com elevado interesse etnológico para Entre-Douro-e-Minho. Saliente-se que a riqueza da obra espiritual de S. Martinho é posta em relevo por destacados historiadores europeus. A compreensão das raízes portuguesas exige ainda a ponderação da influência da civilização islâmica, quer diretamente quer através de Moçárabes e Judeus. Como afirmou Jaime Cortesão, a vocação mercantil e marítima dos Árabes projetou-se nos caminhos que viriam a ser trilhados pelos nossos antepassados. Autores como Ibn Al-Sid, de Silves, onde se nota o diálogo entre o número e a poesia, Ibn Kasi, da mesma cidade, místico sufi, ou Ibn Mucama, de Alcabidexe, poeta da natureza, tiveram influência decisiva no panorama cultural peninsular.

 

O CICLO FRANCISCANO
Foi rápida a expansão do franciscanismo em Portugal nos séculos XIII e XIV, sendo de destacar a figura de Santo António de Lisboa. Além de ser o autor carismático dos «Sermões», conjunto muito rico de reflexões teológicas, filosóficas e morais, o português projeta a sua sólida formação obtida em Coimbra num sentido do otimismo antropológico, da abertura ao outro, da pobreza e da crítica contundente ao mundanismo e à corrupção. S. Francisco de Assis compreendeu muito bem a importância do contributo de Frei António, uma vez que colmatava algumas fragilidades da nova Ordem no plano teológico. O exemplo é notável, uma vez que serve para demonstrar a riqueza do panorama português, graças ao rico diálogo intelectual mediterrânico. Fernando Martins, o futuro Santo António, era natural de Lisboa, começou por ser cónego regrante de Santo Agostinho, primeiro em S. Vicente de Fora e depois em Santa Cruz de Coimbra. Os crúzios vinham perdendo o prestígio que tinham tido, designadamente no tempo de S. Teotónio. Eram sólidos intelectualmente, mas não satisfaziam espiritualmente o jovem. Então conheceu os franciscanos do eremitério dos Olivais (Coimbra). O exemplo dos mártires de Marrocos levou Fernando a mudar de rumo e a trocar a veste branca pelo burel. Depressa o encontraremos no Capítulo de 1221 de Assis (ou das Esteiras) e depois como pregador e professor de Teologia. Os «Sermões» são, pode dizer-se, a «primeira teorização erudita e profundamente espiritualizada da vivência de S. Francisco de Assis». Como salienta Maria Cândida Pacheco: «Poderá (…) afirmar-se, em relação ao pensamento cosmológico antoniano, um sentido de naturalismo e de otimismo claro que afasta pessimismos platónicos e maniqueizantes. Afinal, todos os seres, na sua diversidade e na sua especificidade, têm o seu estatuto e o seu lugar próprios e constituem-se como «perfeições» na sua ordem, projetando, embora, uma hierarquia de complexificações». Presenciamos, assim, o anúncio de um tempo e de uma atitude novos que permitirão a abertura ao conhecimento de outros mundos e de outras realidades.

 

DE PEDRO HISPANO A D. DUARTE
Segundo L.M. de Rijk, Pedro Hispano Portucalensis, Pedro Julião ou o Papa João XXI foram uma e a mesma pessoa, com uma obra vasta e notabilíssima. Há quem tenha dúvidas. No entanto, é verosímil esta ligação. De facto, este português que chegou fugazmente ao papado foi uma pessoa com qualidades excecionais, mesmo que não tenha escrito tudo o que se lhe atribui. Para João Ferreira: foi «provavelmente o primeiro Escolástico latino que (…) deu uma certa extensão e aplicação à doutrina das duas faces» (uma força interior de intencionalidade que impele a alma para além de si mesma, em ânsias de atingir o mundo exterior). Quanto à obra lógica de Pedro Hispano, analisada por José Francisco Meirinhos, a verdade é que a mesma «constituiu o mais importante manual de ensino da Lógica ao longo de mais de trezentos anos em toda a Europa». Não é, aliás, possível estudar os silogismos, sem lembrar o pensador. Não esqueçamos que Dante o imortalizou no segundo círculo do Paraíso: «e Pedro Hispano, o qual lá em baixo brilha nos seus doze libelos» (Comédia, III, XII, 134-135). Se Pedro Hispano é uma referência que transcende o caso português, já o rei D. Duarte representa o que José Gama considera ser a representação da «importância da sensibilidade das paixões e das virtudes», como «uma das notas originais da antropologia subjacente à sua reflexão crítica com dimensão filosófica». «O sentido do coração e a justa medida das coisas adquirem um relevo muito particular nesse quadro interpretativo do homem português ou do seu perfil idealizado pelo rei-filósofo». O «Leal Conselheiro» é, assim, uma obra que define, num registo ético-político, a um tempo, uma atitude diferente assente no sentido crítico e na auto-reflexão, mas também reclama o sangue novo de uma geração que deseja mobilizar a grei num sentido transformador. O infante D. Pedro, em «Virtuosa Benfeitoria» e na «Carta de Bruges», assume, por isso, plenamente o segundo dos termos, em nome da sociedade nova e do tempo diferente que se apresentava no horizonte. Importaria agir de acordo com as melhores experiências de fora. E a descrição tensa dos acontecimentos, na literatura viva de Fernão Lopes, torna-se representação de um impulso que pretende realizar em ato a justiça que apenas estava delineada em potência. A ética e a política encontram-se. São temas fortes, sobretudo compreensíveis numa sociedade que se reorganizava em termos integralmente novos.

 

Guilherme d’Oliveira Martins


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Segunda-feira, 16.01.12


de 16 a 22 de Janeiro 2012

 


«História do Pensamento Político Ocidental», de Diogo Freitas do Amaral (DFA) (Almedina, 2011), preenche um vazio na literatura portuguesa, mas também se afirma no contexto internacional pela sua qualidade pedagógica e científica. Daí que a sua tradução seria muito útil, uma vez que a obra ombreia com as melhores que conheço sobre o tema. Estamos perante uma obra com elevado sentido pedagógico, servida por uma preocupação muito significativa com a construção de uma cultura de liberdade e de direitos humanos.

 

 

EDUCAÇÃO PARA A DEMOCRACIA
No pórtico do livro, o autor refere expressamente a sua preocupação com a Educação para Democracia («Education for Democracy») como um dos objetivos desta apresentação. Trata-se de uma referência da maior importância, uma vez que o aprofundamento da reflexão sobre o pensamento político constitui uma oportunidade indispensável para a apreensão da ideia de Democracia, não como um instrumento técnico de legitimação, mas como um sistema de valores. E quando lemos o discurso de homenagem aos mortos da Guerra do Peloponeso de Péricles, transcrito por Tucídides, encontramos elementos fundamentais que temos de ler em termos prospetivos – compreendendo a conceção exclusiva da cidadania ateniense, mas estendendo-a no longo caminho que conduziu ao entendimento inclusivo da democracia hoje. «O Estado entre nós é administrado no interesse do povo e não no de uma minoria». E é a partir de Péricles que podemos encontrar as regras de ouro da democracia: a liberdade, o debate parlamentar aberto e plural, a lei igual para todos. Afinal, o poder da palavra: «a palavra não prejudica a ação; o que é prejudicial é não se colher a informação pela palavra antes de se avançar para a ação». Aqui se encontram as regras fundamentais de uma sociedade aberta, plural, respeitadora, livre e responsável. Infelizmente, houve quem não ouvisse os alertas de Péricles, o que conduziu ao triste epílogo da Guerra do Peloponeso. Mas, como lembrava há dias Edgar Morin, nada disto teria sido possível na democracia ateniense se a pequena cidade não tivesse resistido, em termos improváveis, às ofensivas persas – o que permitiu a essa pequena luz bruxuleante chegar até nós a partir dessa magnífico século V (a.C.).

 

UMA LIÇÃO PARA SEMPRE
A lição desta obra é a de que o caminho difícil da democracia, ao longo dos séculos, foi sempre de avanços e recuos, exigindo a determinação e a recusa da indiferença, e aceitando a imperfeição como marca do reconhecimento da dignidade humana e das suas diferenças. Mas a história obriga a compreender que o confronto e o debate determinam a discussão das ideias. Xenofonte preferiu analisar o poder em vez de partir da cidadania. Admirou Esparta e preconizou o autoritarismo. Em lugar da mediação, preferiu a imposição – e este confronto (da cidadania e do poder) tornou-se crucial na evolução pendular das conceções políticas. Platão sobrepôs a realização da sociedade justa à felicidade individual. Mas o grande dilema entre o serviço do Estado e o interesse individual ficou por solucionar. Aristóteles, representado por Rafael (na capa do livro) a estender a mão sobre a realidade terrena, apostou na mediação e na mediania, «a lei é a razão sem apetite», enquanto o poder pessoal é o «domínio das paixões incontroláveis». É certo que com o Estagirita a dignidade humana era desvalorizada, mas o equilíbrio de poderes e a exigência da reflexão e do tempo surgem como condições de justiça. E quando, já na Grande Grécia, Marco Túlio Cícero defende o dever de participação política e a «humanitas», como aperfeiçoamento da «paideia» grega, sentimos o início da consideração da liberdade individual (libertas, de libra, a balança livre e equilibrada). «O homem honesto não é nunca surdo aos seus comandos e proibições». E recebemos os ecos de Antígona de Sófocles, quando a lei cega e cruel tem de se confrontar com a lei natural gravada no coração de cada um. Aliás, não por acaso, Montesquieu considerou Cícero como um dos maiores espíritos que jamais existiu – fazendo-se representar à romana. Poderíamos ainda falar de Marco Aurélio e de Séneca, mas a grande lição da Antiguidade Clássica é a dos equilíbrios e mediações.

 

LEMBRAR A IDADE MÉDIA
A Idade Média, tão debatida ao longo dos séculos, reserva-nos surpresas paradoxais. Se é verdade que o pensamento clássico só foi retomado e voltou a ser compreendido pelo diálogo entre as civilizações mediterrânicas, a verdade é que há uma nova síntese que se vai preparando e que culmina no Renascimento. Santo Agostinho herdou a influência de Platão, contrapondo a Cidade Celeste e a Cidade Terrena, o que vem das bases maniqueístas do Prelado de Hipona. A sua influência foi profunda e multifacetada – desde o primado da Graça ao impulso da Reforma Luterana. Como salienta Charles Taylor, é o individualismo que começa a germinar. Oito séculos depois, Tomás de Aquino, leitor atento de Aristóteles, irá tornar-se um incómodo renovador de ideias. O poder vem de Deus para o povo, e nasce um novo entendimento (diríamos moderno) da dignidade humana legitimadora do poder e da justiça, o que nos conduz ao direito resistência e até ao tiranicídio. Estamos diante da superação do Agostinianismo político e do lançamento da ideia de poder limitado e de soberania popular. Ainda no século XIII, Marsílio de Pádua lançará a primeira proposta de um Estado independente do papado. Sente-se a oposição entre guelfos (seguidores do Papa) e gibelinos (próceres do Imperador), num confronto muito complexo em que Dante era guelfo branco, a defender uma necessária distância entre os dois poderes.

 

ITÁLIA VEM À BAILA
E, ao falar de Itália, chegamos à Idade Moderna e a Maquiavel. DFA compreende bem o complexo papel desempenhado pelo autor de «O Príncipe». É a criação de um Estado moderno que está no horizonte. Há uma tensão entre a virtude e a fortuna – e talvez Maquiavel, em vez de escrever um livro técnico sobre o poder, tenha querido fazer ver aos seus leitores que tudo pode tornar-se falível perante a evolução das circunstâncias. O «Anti-Maquiavel», de 1740, de Frederico o Grande é um curioso revelador disso – num espelho em que a contestação e a apologia se tornam simétricos. Estamos perante a autonomização da política. E não terá Maquiavel (como Montesquieu) demonstrado que só o poder limita o poder? Não disse Jorge de Sena que Maquiavel é um «moralista, na mais alta e nobre aceção da palavra: aquele que descreve os costumes humanos, os resultados a que eles conduzem e as causas que os condicionam, com objetividade clínica»? «Se daí pode ser extraído, ou não, (insiste Sena) um conjunto de normas morais que sejam o bem-viver em sociedade, eis o que excede o seu pensamento». E Erasmo, amigo do nosso Damião de Góis, talvez não esteja assim tão longe de Maquiavel. É apaixonante o caminhar nesta peregrinação pelo pensamento da coisa pública. E Tomás Morus põe em confronto a utopia e a realidade, num sentido crítico que nos leva à importância das utopias e distopias. A partir deste ponto nasce a necessidade de analisar os «estados de natureza» contrapondo-lhes a ideia de «contrato social».

 

Guilherme d'Oliveira Martins


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Segunda-feira, 09.01.12


de 9 a 15 de Janeiro 2012

 

«Deus e o Sentido da Existência» de Anselmo Borges (Gradiva, 2011) é constituído por um conjunto de textos, escritos pelo autor em várias circunstâncias, arrumados de um modo coerente e pedagógico, segundo os seguintes capítulos: crentes e ateus - o elogio da pergunta; animalidade e humanidade; sociedade, ética e religião; Deus da religião e o Deus da filosofia; Deus e o sentido último; e o jogo da esperança do mundo. O autor é padre da Sociedade Missionária da Boa Nova, docente de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e um erudito com formação sólida em Ciências Sociais, Filosofia e Teologia. O tratamento dos temas a que há muito nos habituou é extremamente atraente, uma vez que procede a uma rica ligação entre a linguagem, a etimologia e a busca de um diálogo efetivo entre saberes, autores e diferentes horizontes culturais e espirituais.

 


Concílio Vaticano II

 

O QUE ESTÁ PARA ALÉM DAS NUVENS
O livro é antecedido por um prefácio, da autoria de Lídia Jorge, que é uma apresentação do tema e do autor, a partir da necessidade de compreender que o diálogo entre a razão e a fé é fundamental na sociedade contemporânea como modo de superar as tentações do fanatismo, da irracionalidade, da fragmentação social e do triunfalismo absolutista. O vazio religioso e a indiferença têm tido, com efeito, os resultados contrários àquilo que alguns julgaram ser a tendência para a religião favorecer excessos e contrariar a crítica e a ciência. E a escritora vê em Anselmo Borges «uma mensagem integradora, fraterna, inclusiva, através da qual o texto convida os leitores a viverem acima da vida, acima daquela vida sem outro sentido que não seja seguir o instinto de se auto-satisfazer e possuir». Há, assim, a preocupação do autor, que a prefaciadora salienta, de procurar e de encontrar diversos círculos integradores, a propósito do fenómeno religioso: o dos questionadores; o dos que procuram explicação para o que está escondido atrás do mundo; o dos que pensam que por detrás da cortina da natureza há um mistério; o dos crentes num Deus, que não esquecem ateus e agnósticos; o dos que creem num Deus criador, bom e misericordioso, cuja argumentação não se dirige apenas aos crentes, mas a todos os que apelam ao poder da bondade, da Ética, da Moral e da Poética; e ainda o dos místicos e o dos que vivem na Terra como se fosse num Além»… Temos de compreender as diversas atitudes possíveis, olhando as diferenças não como fatores de exclusão, mas como elementos de enriquecimento mútuo. A religião significa, de facto, etimologicamente, algo que não apenas é suscetível de ligação (religare), mas também de reponderação (relegere). E Lídia Jorge usa uma forma muito bela e significativa: «no estrito plano da vida íntima, este livro ajuda a compreender que nos questionemos, pela manhã, por que motivo nos surpreende a chuva, e quando mal damos por nós estamos a perguntar em voz alta se além das nuvens existirá alguém que nos ama».

 

NÃO ESQUECER O ESPÍRITO
Nesta linha de pensamento, Leszek Kolakowski afirmou, pouco tempo antes de morrer: «não conto com a morte da religião nem de Deus. O país mais desenvolvido do mundo, os Estados Unidos, não é de modo nenhum o mais secularizado. A secularização, longe de conduzir inexoravelmente à morte da religião, levou à busca de novas formas de vida religiosa. Nunca se chegou à vitória iminente do reino da razão. Nem só de razão vive o Homem». Daí a importância da tomada de consciência dos limites. Não podemos crescer incessantemente, numa espiral infinita de avidez. «A sobrevivência da nossa herança religiosa é condição para a sobrevivência da civilização». Por isso, precisamos de instrumentos de solidariedade e de coesão, para além dos instintos, dos interesses imediatos e da violência. E tudo isto é especialmente evidente e importante nos dias que correm, quando vivemos um tempo axial, segundo a expressão de Jaspers, em que presenciamos as revoluções económica (da aldeia global, de McLuhan), cibernética, genética e ecológica. No entanto, a lógica de que tudo tem um preço conduziu-nos por um perigoso caminho, no qual a crise financeira, de que tanto se fala e cujos efeitos sentimos duramente, é uma crise de valores e uma crise moral. A dignidade humana é inegociável, os direitos e os deveres fundamentais são incindíveis, o imediatismo e a indiferença conduzem ao desastre. «Uma política sem consciência tende para o crime» - como afirmou Helmut Schmidt, acrescentando, na linha de uma ética da responsabilidade: «o esquecimento de que o Homem não é para a economia, mas a economia para o Homem fez com que a especulação financeira desembocasse no ‘capitalismo de rapina’». Do mesmo modo, o antigo chanceler alemão (como, aliás, também Vaclav Havel), preocupado com a necessidade de encarar «a Religião na Responsabilidade», defendeu a necessidade de um verdadeiro diálogo, a partir de uma atitude de sincera abertura e de partilha de projetos e orientações. O que hoje esperamos da Igreja (diz Schmidt) é «cuidado e consolação, compaixão com os fracos e pobres, solidariedade com o nosso vizinho doente». E se temos de falar de presença e de capacidade de resposta, chegamos à ideia fundamental de reconhecimento. «Ao contrário de uma árvore ou de uma estrela, não nos basta existir; precisamos de existir para alguém que nos devolva a nós mesmos, a nossa dignidade e valor». E eis-nos perante: (a) uma esfera da intimidade, em que funciona o princípio de amor; (b) uma esfera de coletividade, em que funciona a solidariedade, tendo como objetivo encontrar uma solução baseada no bem comum; e (c) uma esfera das relações jurídicas, visando salvaguardar o princípio da igualdade e pôr em causa a discriminação e o privilégio. Ora, sem o reconhecimento a partir da nossa relação com os outros e da compreensão das diferenças, não podemos construir uma sociedade assente na liberdade, na responsabilidade, na igualdade, no respeito mútuo e na proximidade… E o certo é que o cristianismo abriu tantas destas portas, a partir da controversa capacidade de encontrar o nosso próximo onde menos se espera…

 

A CONSTRUÇÃO DA PAZ
Hans Küng, que merece ser ouvido pelo genuíno empenhamento que tem tido na construção de uma cultura de paz, baseada no respeito e na interação das pessoas e das comunidades e instituições, afirmou com muita clareza: «Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial». Eis por que razão não devemos viver voltados para o passado, sujeitos a imagens estereotipadas (por exemplo, quanto à mulher ou quanto à responsabilidade cidadã), vencidos pela arrogância institucional ou centrados no eurocentrismo… O que diria e faria hoje Jesus Cristo se nos viesse visitar? Sentimos sempre o peso do exemplo dado por Dostoievski nos «Irmãos Karamasov». Heiner Geissler, antigo ministro federal alemão, escreveu em «O Que Diria Jesus Hoje?»: «Quem transforma o valor da bolsa e a cotação das ações de uma empresa em algo absoluto e quem atribui importância, em termos económicos, apenas aos interesses do capital, faz parte das pessoas que, como diz Jesus, possuem muito dinheiro e para as quais será difícil entrar no reino de Deus». Num tempo em que muitos dos alertas feitos passam despercebidos, apesar da sua força e pertinência, temos de entender que só a consciência dos limites nos permitirá exercer a liberdade e a crítica, a responsabilidade e a justiça se entendermos o paradoxo de Walter Benjamin: a História não pode ser pensada sem Deus - «É que mesmo que fosse possível no futuro alcançar uma sociedade humanamente plenamente realizada, ela não poderia ser feliz, porque ou pensava nas vítimas do passado e não seria feliz, ou não pensava nelas e não seria verdadeiramente humana»… E aqui chegados temos de compreender a metafísica da Esperança de Charles Péguy ou de Ernst Bloch – como capacidade de ser e agir!

 

Guilherme d’Oliveira Martins


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Quarta-feira, 04.01.12

O Prémio D. Dinis 2011 acaba de ser atribuído ao livro de Maria Teresa Horta «Luzes de Leonor». Trata-se de um reconhecimento da qualidade cultural e literária de uma obra dedicada a uma fase muito importante da vida da Marquesa de Alorna, «Alcipe». É a transição do século XVIII para o século XIX objeto de uma análise muito fina e rigorosa sobre uma das personalidades mais fascinantes do seu tempo. Maria Teresa Horta soube interpretar exemplarmente a pessoa e o seu tempo. O CNC, que escolheu a obra como uma das mais importantes de 2011, saúda a decisão.»



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Há sempre dias que nos provam

As possibilidades

Um mistério cuja maior luz é a sua própria claridade

Um mistério que se mostra ou que se escuta


Como uma canção sem distância entre a vida e a vida


Afinal uma única canção intraduzível mas que todo o homem


Necessita quando não está em parte alguma


Ou


Quando o amor se disse por um silêncio.

 

 

Teresa Vieira

Sec. XXI 



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Segunda-feira, 02.01.12


de 2 a 8 de Janeiro 2012

 

A Fundação Calouste Gulbenkian iniciou com «Heterodoxias» a publicação das Obras Completas de Eduardo Lourenço (Lisboa, 2011), graças ao trabalho de João Tiago Pedroso Lima, com o apoio de João Nuno Alçada. É um dos grandes acontecimentos culturais do ano que terminou, e a que se juntou a justíssima atribuição ao ensaísta do Prémio Pessoa. A obra dada à estampa constitui um conjunto fundamental de ensaios, onde aos dois volumes já conhecidos se junta uma terceira parte, onde o pensador faz uma leitura indispensável para a compreensão desta obra no contexto da criação lourenciana. Com fidelidade ao ensaísta, a marca das obras completas é Migdar – «o velho mito germânico de Migdar, a serpente que morde em círculo a própria cauda, (…) símbolo de sugestões perpétuas. (…) O reconhecimento de Migdar como essência da realidade, chama-se Heterodoxia».

 


PENSADOR INESPERADO
Eduardo Lourenço é um pensador tantas vezes inesperado, uma vez que, a cada passo, usou a crítica para pôr em causa as tendências do momento. Assim foi quando escreveu a sua primeira «Heterodoxia» (1949), que se demarcou das principais correntes dominantes, dando, no entanto, sinais de compreensão relativamente às diferentes perspetivas em presença. Isso mesmo tem alimentado alguns equívocos (apenas para os menos atentos e incautos), estando mais do que demonstrada a impossibilidade de encerrar o pensamento do ensaísta em qualquer sistema ou em qualquer lógica definível a priori. Heterodoxia era, para o nosso autor, «o humilde propósito de não aceitar um só caminho pelo simples facto de ele se apresentar a si próprio como único caminho, nem de os recusar a todos só pelo motivo de não sabermos em absoluto qual deles é, na realidade, o melhor dos caminhos». Refletiu, desse modo, sobre autores que estavam à partida rotulados como suspeitos, tendo Lourenço feito a sua apreciação sob o viso crítico, sem qualquer preconceito e sempre com uma argúcia e uma inteligência que ultrapassavam a superfície e as aparências relativamente aos autores e obras analisados. Afinal, um heterodoxo deveria, para sê-lo, empenhar-se em ler o que estava escrito, procurando descobrir os significados, para além das ilusões. E o tempo veio a dar-lhe razão sobre os valores duráveis e sobre as manifestações sem espessura. Por isso, o forte sentido crítico permitiu-lhe ser um interrogador exigente dos mitos (a começar no sebastianismo), recusando a crença num qualquer destino independente da vontade e das circunstâncias do tempo.


HOMEM GENEROSO E DISPONÍVEL
Homem generoso e disponível pôde, com essas qualidades, tornar-se um dos melhores intérpretes da identidade nacional. E Vasco Graça Moura tem razão ao dizer que o seu exemplo e a sua qualidade não são circunstanciais e reportam-se ao largo prazo, o que é tanto mais de realçar quanto é certo que a cultura portuguesa tem muitos séculos e a referência de Lourenço projeta-se muito para além dos horizontes próximos. E se devemos referir essa capacidade singularíssima relativamente à procura da identidade portuguesa, temos de acrescentar que procurou sempre vê-la com projeção universal. Tendo-se negado a ser «estrangeirado» e tendendo a ver de fora com olhos de dentro, a verdade é que, para ele, a nossa identidade apenas faz sentido desde de que aberta e complexa. No fundo, para o português uma identidade confinada não faz sentido. Ganhamos sempre que recebemos e dessa hospitalidade resultam perenidade e riqueza. Por isso mesmo, Eduardo Lourenço compreendeu melhor do que ninguém que em 1578-80 a figura central não foi D. Sebastião, mas Camões (com toda a sua riqueza épica e lírica), e que, ao modo de Vieira, o Desejado nunca poderia ser um morto ou um vencido, mas teria de ser alguém vivo – e, mais do que D. João IV, deveria ser o povo heterogéneo e difícil de conhecer e interpretar, que deseja viver livre, com apego à viagem pelas Sete Partidas (talvez uma nova diáspora), à imagem e semelhança do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra (exemplo europeu e universalista), com uma alma pelo mundo repartida. Assim, a heterodoxia inconformista do escritor (discípulo à sua maneira, mas indiscutível, de Montaigne) considera a saudade fora da clausura do saudosismo, partindo das raízes antigas (D. Duarte, Nunes do Leão, Francisco Manuel e os românticos) e de Pascoaes (cujo talento enaltece) e chegando à fulgurante heteronomia de Fernando Pessoa. Não por acaso, o ensaísta afirmou, ao saber que o Prémio Pessoa lhe tinha sido atribuído, que aquele que estaria satisfeito (porventura mais do que ele próprio), seria Alberto Caeiro. A ironia é significativa, já que é um fantasma puro que vem à memória. E quando, há dias, se confessou convertido ao fado, através do talento de Amália (num mano-a-mano no Museu do dito Fado) percebeu-se muito bem que ali estava o incansável perscrutador de mitos e de destinos, interrogador de labirintos, personalidade fascinante atenta a tudo (de Clint Eastwood a Cristiano Ronaldo e de Cláudia Cardinale a Cristina Branco), para quem a sua filomitia obriga, antes de tudo, à compreensão das pessoas comuns, do vulgo, na busca da sublimidade, de forma a dar à vida um tom colorido que valha realmente a pena. Enquanto Garrett falou da saudade como «gosto amargo dos infelizes», Lourenço preferiu a fórmula «gosto de mel e lágrimas», que resume bem como os mitos não são coisas abstratas, mas têm a ver com a compreensão de dois Países que sempre somos e seremos, o profundo e conservador, e o de horizontes abertos, amante do desconhecido e diferente. E não falou o ensaísta das duas razões europeias em «Nós e a Europa»? De facto, encontramos em si a costela de Miguel de Unamuno e o seu sentimento trágico da vida (Salamanca, ali tão perto de S. Pedro de Rio Seco), mas também a indelével atração pelo cosmopolitismo de Ortega y Gasset, com um europeísmo de liberdade e emancipação.


PROFUNDAMENTE PORTUGUÊS
Eduardo Lourenço é um ensaísta profundamente português. Foi-o nos anos sessenta ao compreender que a liberdade teria de ser aberta e heterodoxa – e ao entender que Fernando Pessoa era muito mais do que uma leitura situada da «Mensagem». Logo em 1974, esteve ciente das ilusões que se alimentavam ou das cristalizações simétricas, procurando compreender os vários lados do problema, na longa duração, como o fez magistralmente na «Raiz e Utopia» (de Helena Vaz da Silva) no ensaio «Psicanálise Mítica do Destino Português». E se compreendeu muito cedo a importância da opção europeia, foi também o primeiro a chamar a atenção (com autoridade e conhecimento de causa) para os erros e para os perigos da «Europa Desencantada» (obra com duas edições, em 1993, aumentada em 2000) – sem esquecer que a Europa é uma saída, desde que não exclusiva nem acrítica e desde que não se encerre na ilusão burocrática do sistema perfeito. Afinal, a reflexão sobre as próprias causas antigas das decadências peninsulares (a partir da análise emblemática de Antero de Quental) tem de ser lembrada no debate europeu, para que a Europa não se torne periférica e irrelevante. «Sob a aparência de drama (diz E. Lourenço), as peripécias da construção europeia não relevam desse género literário, mas da tragédia. Tragédia quando se foi uma outra Europa, centro do mundo, e já não se é. A Europa não está ainda definitivamente fora da história – quer dizer, da vontade e do projeto que a conduz – mas está-lo-á se não tiver configuração política e entidade económica, administrativa, a que chamamos União Europeia. Para não ficar, de todo à margem dela se travou e trava a batalha pela Europa que possivelmente é mais do que isso. Começou em Roma, como era simbolicamente óbvio. Esperemos que não se desintegre, sob modo festivo, na Cidade das Flores»… O texto é de 1999 e mutatis mutandis poderia ter sido escrito agora.

 

Guilherme d'Oliveira Martins


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Quinta-feira, 29.12.11

​Cheira a casca

de laranja

        amendoada ​

 

A luzes de suspiro

e azevinho

 

​Com estrelas de bainha

​pespontada

a crivo de saudade ​

renda e linho

 

Cheira a lenha ​

da memória resgatada ​

onde as rosas

adormecem de brandura​

 

​No vidro

        coalhado ​

de uma jarra

 

​E o vulto da mãe

é seda e asa

 

 

Maria Teresa Horta

 

Natal de 2011



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Segunda-feira, 26.12.11


de 26 de Dezembro 2011 a 1 de Janeiro 2012

 

Como habitualmente publicamos o conto de Natal de 2011
 


«A livraria do convento estava silenciosa. O Natal aproximava-se. Frei António preparava, como habitualmente, um sermão. Naquela altura do ano não havia por ali amenidades de tempo, o Inverno era rigoroso, o frio e a humidade estavam em toda a parte. Para variar, na livraria sentia-se especialmente a intensidade do tempo invernoso. Felizmente, nos últimos dias, naquela cidade de Pádua, o sol espreitava entre as nuvens, o que dava uma maior luminosidade, que entrava pelas janelas. Contudo, o mês anterior tinha sido muito agreste – e, se é certo que a chuva agora dera tréguas, a verdade é que o frio viera sem pedir licença. Apesar de sempre muito ocupado, Frei António lembrava-se muitas vezes do tempo ameno da sua cidade de Lisboa, e de Coimbra, onde fizera toda a sua formação com os cónegos de Santa Cruz. Naquele momento dedicava-se a preparar os tópicos para o Sermão da missa do Galo. Começara por invocar as circunstâncias em que Maria e José se afadigavam para encontrar um lugar onde pudessem pernoitar. Mas faltava-lhe ainda o tema, que lhe permitisse reter a atenção dos fiéis, sendo-lhes útil espiritualmente. Estando nestas reflexões, entrou pela porta da livraria o pequeno Manuel, que muitas vezes o vinha visitar, sem que se soubesse exatamente de onde vinha. Em tempos, a criança dissera que vivia algures na proximidade do convento, mas, além do nome, ninguém sabia o que quer que fosse da sua vida ou identidade, apenas ele dissera um dia que tinha quatro anos, mas agora já deveria ir nos cinco. Todos se perguntavam porém sobre de onde viria, como viveria e para onde partiria, quando subitamente desaparecia apenas com um misterioso «Volto já», que tantas vezes se prolongava por muitos dias até que, de novo, aparecesse. Ninguém já se perguntava sobre o pequeno Manuel, que ora se entretinha a passear por entre os livros e as imagens que povoavam a livraria, ora se encarregava de fazer mil perguntas, sobre tudo, normalmente a Frei António. Uma vez mesmo a criança dera-se a fazer apreciações sobre uma velha imagem de S. José, dizendo - «Não está nada parecido». Mas que saberia ele disso? Dias havia em que o diálogo se prolongava, uma vez que o frade tinha vagar suficiente para corresponder às bizarras perguntas daquela criança de cabelos negros com caracóis. Outras vezes, Frei António pedia ao pequeno Manuel que o deixasse preparar em paz os sermões que tinha por encargo fazer, sob indicação de Frei Francisco. A verdade é que todos sabiam no convento que, nos dias em aparecia o pequeno Manuel, o sermão saía mais inspirado e não poucas vezes influenciado luminosamente pelos estranhos diálogos que se desenrolavam entre Frei António e a criança. Naquele dia, porém, Manuel estava especialmente irrequieto. Aparecera, como era hábito, sem se anunciar e sem que alguém soubesse quando chegara e de onde viera. Ao contrário do que era costume parecia mesmo apostado em motivar a desatenção de Frei António relativamente ao seu sermão. O pequeno chegou mesmo a dizer a Frei António que estava a fazer de propósito, uma vez que notara nos últimos tempos uma especial desatenção quanto à sua pessoa. Por momentos, Frei António julgou estar assaltado por uma fúria. Por um lado, precisava de acabar o sermão a tempo da missa do galo. Por outro, não podia aceitar que, contra todas as regras vigentes aquela misteriosa criatura o importunasse de forma tão excessiva. No entanto, lembrou-se de como lhe faziam bem aqueles diálogos improváveis com Manuel. Não tinha explicação para o facto, mas era indubitável a serenidade que sentia ao falar com ele. Perante essa recordação Frei António procurou regressar ao trabalho e à sua tentativa de fazer, nas suas ideias mestras, o sermão natalício. Acontece, contudo, que continuava a faltar-lhe o tema. Era muito pouco recordar aquela noite de Belém, o édito de César Augusto para o recenseamento, a procura de uma estalagem, o desencontro, as portas fechadas. Tantos corações desatentos… Frei António esquecera-se de Manuel e, de súbito, notou que a criança subira para a banca em que tentava escrever de pé e estava sentada à sua frente num equilíbrio muito instável. É verdade, lembrou-se Frei António que, noutras ocasiões, Manuel fizera bizarros exercícios em que parecia quase suspenso, sem quaisquer apoios. Estranhamente, agora como noutros momentos, apesar de desafiar as leis do equilíbrio, não parecia instável. De novo o frade teve de suster o seu ímpeto. Então não queriam ver que aquela criança queria mesmo distraí-lo e tirá-lo das suas obrigações? Era de mais – sobretudo porque agora o pequeno começara a cantar, com uma voz naturalmente infantil, mas muito bela e segura. Então vários dos frades que estavam na proximidade, acorreram com a curiosidade de desejarem ver aquela estranha visita. Nessas vindas periódicas era a primeira vez que tal acontecia. Noutras, a criança fazia perguntas, tantas vezes sobre trivialidades (sobre quem eram os copistas e os autores das iluminuras que enchiam a livraria, sobre quem eram os jardineiros e como escolhiam as árvores e as plantas dos jardins, sobre a razão de ser dos hábitos dos frades menores, sobre o significado e modo de fazer os nós da corda que cingia o hábito). Outras vezes, fazia perguntas inesperadas, que Frei António tinha muita dificuldade em responder (como era isso de medir o tempo e como era possível não chegar atrasado aos compromissos)… Manuel era uma criança especial, os seus olhos eram penetrantes de atenção, as suas palavras eram por vezes aparentemente inseguras, mas encerravam um especial cuidado e rigor. Frei António naquela circunstância não tinha, porém, tempo a perder – e não o escondeu: «Agora não posso atender. Por favor, escolha outro dia; porque agora preciso de acabar este sermão, uma vez que tenho uma missão importante a cumprir». Noutro dia, talvez o pequeno Manuel se tivesse esgueirado, num dos seus desaparecimentos inusitados, mas não, ficou por ali, com se Frei António nada lhe tivesse dito. Depois de cantar, entrou em mais uma longa série de perguntas, cada uma mais trivial do que a anterior - «Frei António, como se protege do frio? Frei António, já pensou se abriria a porta do convento quando batessem à porta Maria e José?». «Frei António, por que razão não me dá atenção?». Mas Frei António pediu, uma vez derradeira, que precisava de terminar o exercício que estava a tornar-se tão difícil. Ainda não passara das ideias gerais e tinha de fazer a pregação. Nada, todavia, parecia demover o pequeno Manuel. Ele ali continuava irrequieto, capaz de encontrar os mais ínfimos pormenores em tudo o que o rodeava e para que olhava. Nenhum pormenor lhe escapava. Agora, a criança subira a uma das estantes mais altas. Ninguém ousava dizer ou fazer alguma coisa, para o impedir. Todos estavam estupefactos, nunca aquilo acontecera. Frei António esperava, sem poder acrescentar uma linha ao que já escrevera, pois não tinha atenção possível. Foi então, que o frade começou a perceber que algo de muito importante se estaria a passar. E lembrou-se da pergunta insistente de Manuel sobre a falta de atenção relativamente a ele… Entretanto, Manuel deu um pequeno salto e colocou-se mesmo ao lado do frade. Frei António não resistiu e disse ao jovem visitante: «Tenho de fazer o sermão de Natal, pois sem ele não posso cuidar das almas destes fiéis que esperam pela minha palavra». De um modo firme e enigmático, a resposta não se fez esperar. O menino olhou fixamente os olhos de Frei António e disse-lhe: «Esse é o pior argumento sobre falta de tempo, pois sobre as almas sou eu que cuido, e continuo por aqui». Frei António caiu em si, e compreendeu. Então, como de costume, ouviu-se o rápido «Volto já» e o pequeno Manuel desapareceu. E consta que nesse dia o sermão de Frei António foi mais eloquente e inspirado de sempre e versou sobre a desatenção, a indiferença e a necessidade de não nos distrairmos do essencial da vida, ou seja, dos pequenos pormenores…».       

 

Guilherme d'Oliveira Martins


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Segunda-feira, 19.12.11

 

  "Cantam ao longe. Anoitece.

   Faz frio pensar na vida ;

   E a Natureza parece

   Dizer, em voz comovida,

   Que o Homem não a merece".

 

 

   Há meio século, Carlos Queiroz adivinhou. Parecemos ter perdido o fio de Ariana, regressou o Minotauro e o palácio de Cnossos pode  uma vez mais desmoronar-se.

   Nem já Murilo Mendes, como há quarenta anos, prometeria voltar " para saudar o reino mineral onde a desordem é mínima" . Até no reino mineral a desordem é máxima e aquilo a que chamamos progresso é um rasto de caracol.

   Mas existem homens como o Gonçalo, que parecem ter estado naquela ardente madrugada bíblica em que Jesus Cristo entrou na barca de Simão-Pedro e lhe disse: " Faz-te ao largo; lancem as vossas redes para pescar".

   "Duc in altum" - faz-te ao largo, olha para longe, e as redes romper-se-ão com o peixe em abundancia.

   Sempre o conheci, ora como um principe flamengo saído do retábulo do juízo final de van der Weyden em Beaune, ora a clamar no deserto entre nuvens de gafanhotos.

   O seu paradigma foi a geometria sábia que a Natureza nos oferece, envolta na substância preciosa que tece a evolução do Mundo. A beleza como pedra de toque da verdade e o homem como elo de ligação da Terra ao Universo.

   Foi gradualmente chegando aos pontos fulcrais da vida como se afinam os instrumentos de uma orquestra e é isso a cultura.

   Insurgiu-se corajosamente contra a ignorância assassina do futuro, mas soube tambem olhar para trás, integrar na realidade dos seus sonhos as coisas imaginadas, forjadas, criadas pela humanidade ao longo dos séculos, os seus mitos e os seus símbolos.

   Assim enfrentou e continua a enfrentar o que há-de vir, com o seu corpo que é a sua alma, rochedo de força que não tergiversa e deixa por onde passa o perfume das flores que se abrem e dos frutos que amadurecem, o brilho do cobre,  a lembrar-nos de que a Natureza vive ainda.

   Se no teste das associações viesse à baila o seu nome, eu responderia: " S. Cristóvão ", que transportou o mais extraordinário peso do mundo com uma ímpar convicção humana.

 

                                                                               Alberto Vaz da Silva

 



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