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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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UM CÉU QUE SE AZULA: NEMÉSIO.

 

Por Teresa B. Vieira

 

Sempre senti Vitorino Nemésio como um homem despojado e um homem de uma coragem em singelo pela verdade das coisas.

 

Senti na sua comunicação a problemática açoriana como um local de temática religiosa próxima de uma resistência à compreensão do mistério ilhéu. Escrevi.

 

Quando o escutava nas suas palestras televisivas, ele surgia-me como alguém pronto a propor um louvor ao entendimento numa expressão verbal tranquila e cheia de presença humana.

 

Na sua escrita nunca se fecharam as palavras à intenção do mundo, antes a pluralidade de significações das mesmas foram proposta nemesiana do real que somos e que não devemos recusar admitir o quanto o somos, pelo anónimo e pelo quieto.

 

Havia na comunicação de Vitorino Nemésio uma preocupação pelo querer exprimir eliminando da escrita qualquer contaminação que produzisse hiatos descontrolados ao sentido.

 

Estas questões são, na minha modesta opinião, bem mais importantes do que se possa crer. Em rigor o incenso da escrita de Nemésio e de toda a sua comunicação constitui sempre o átomo onde sempre um pouco de céu se azula, e assim surge a via pela qual o sentimento do poeta ocorre num ritmo que nos leva.

E este é outro dom típico de Nemésio num processo extremo e exemplar.

 

Vitorino Nemésio foi e é uma lenha diferente, um peso cultural que a tudo está ligado.

 

Diga-se ainda que Nemésio é organizativo no poema e que une as separações mesmo as que se propunham por razão fabular ao conflito da distância.

 

Do seu Canto Matinal onde já se imaginaria os gloriosos mas sem porta a que se bata (…) até à necessidade de nomear o mundo com medo de o perder, faz-nos pressentir que muitos foram os dias dos luxos poéticos, atentos à viagem de barco, essa que os embala sempre numa certa ondulação do sem pudor, pois que pertence à inteligência ou à luz que macaqueia a luz perpétua.

 

Um dia Se Bem me lembro:

 

Se nós não temos medo de que o mar nos alague ou de que a terra nos falte: temos sempre presente, como salutar advertência, a sensação de que o mundo é curto, e o tempo mais curto ainda.(…)

 

Ou no excerto do seu célebre livro Mau Tempo no Canal:

 

Ao entardecer os campos enchiam-se de neblina, o Pico ficava baço e monumental nas águas. Dos lados da estrada da caldeira sentiu-se uma tropeada, depois pó e um cavaleiro no encalço de uma senhora a galope:

 

- Slowly! Let go him alone…

 

E como acrescentava Vitorino que ceifava as manhãs nos cabelos dela e ceifava-as uma a uma, canal abaixo, obtinha ele directamente o sonho, pois que fazendo as pessoas falar, sonhava o que se dizia pela fala, no empunhar de um silêncio sempre aberto a uma totalidade que só ele sabia mencionar.

 

Diria que bastou a Vitorino Nemésio um só alento à intuição. E uma doçura: porque o mar antes do meio-dia é sempre Domingo. Talvez por isso sua rede era também um poema do buscar

 

O Poema em que te Busco é a Minha Rede
Bem mais de borboletas que de peixes,
E é o copo em que te bebo: morro à sede
Mas ainda és margarida e não-me-deixes
E muito mais, no enumerar das coisas:
Cordão de laço e corda de violino,
Saliva de verdade nalgum beijo,
E poisas
(…) com um atilho vertical
(…) que estendo às tuas formas de mulher,
Com esta soma e verbal precaução
De um fónico doutor de Mompilher.

 

Vitorino Nemésio, in Caderno de Caligraphia e outros Poemas a  Marga.