Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Yorgos Seferis: o acordado sono do mar

 

Por Teresa B. Vieira


Faz parte da vida dos livros, revisitá-los. Os Poemas Escolhidos, de Yorgos Seferis surgiram- me numa tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis editado pela Relógio d’Àgua em 1993.

 

Yorgos Seferis nasceu em Esmirna em 1900. Diplomata conceituado, advogado, estudante na Sorbonne em Direito e Letras e Professor na Universidade de Atenas, foi considerado um dos mais importantes poetas gregos do século XX.


Nobel laureado “ Pela sua escrita lírica, inspirada por um sentimento profundo do mundo helénico e da sua cultura”, no seu discurso no Banquete

 

Nobel em 1963 afirma com particular enfase:

«A poesia tem as suas raízes na respiração humana (…) é  um acto de confiança e quem sabe se o nosso mal-estar não é devido a uma falta de confiança?»

Deste modo de pensar e de sentir a escrita poética surge-nos um escritor num desencadear provocativo de organizadas questões fulcrais, um escritor que pretende que se não esqueça o homem dos banhos em que foi afogado ou dos jogos cósmicos do eterno presente.

No poema intitulado O último Dia, eis:


Como morre um homem? Estranho, ninguém reflectiu nisso.

(…) Todavia a morte é algo que é feito; como morre um homem?

Todavia alguém ganha a sua morte, a sua própria morte,

que não pertence a nenhum outro

e este jogo é a vida.

E no mesmo poema, continua

(…) Um casal passou a conversar:

«Fartei-me do crepúsculo, vamos para casa

Vamos para casa acender a luz».

 

Daqui até ao livro As seis noites na Acrópole, traduzido por Susan Mathias (2007) vai um passo de extrema coerência por entre uma modernidade poética de não fácil acesso, mas dotada de uma trajectória de seta apontada ao alvo.


Afinal, digo hoje, que fora isso o que mais me impressionara no seu livro Os Poemas Escolhidos. As palavras surgiam-me inamovíveis, conquistando a sua própria morte na eternidade da hora em que eram colhidas pelo leitor. Assim, Yorgos Seferis foi e é para mim um conquistador da existência, do valor, do direito à vida quando já nada nos demove dos princípios e das energias.


Surgiu-me hoje a expressão a Yorgos como sendo a sua escrita um acordado sono do mar, e não é que um dos seus poemas também reza:

O sono preenchia-o com sonhos de frutos e folhas;

A vigília não o deixava colher nem uma amora.

Ambos dividiram os seus membros pelas Bacantes.

 

A verdade é que arriscamo-nos a adoecer se não revisitarmos os livros sobretudo pelo lado que mais se arrisca. Pelo lado em que o soro também nos penetra com uma branda e acutilante ironia.

 

20.04.12
Sec. XXI