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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 
de 15 a 21 de julho de 2012

 
As «Cartas de António Sérgio a Álvaro Pinto – 1911-1919», Introdução e Notas de Rogério Fernandes (Lisboa, 1972) são um precioso auxiliar crítico que permite compreender melhor a importância da revista «A Águia» (1910) e da «Renascença Portuguesa» (1912), autênticos alfobres dos principais movimentos intelectuais do século XX. Aí coexistiram em determinado momento os idealistas e os modernistas, os espiritualistas e os transcendentalistas, os poetas e os intelectuais políticos que acreditavam na recuperação das energias do país, numa fase nova da sua vida. Ao estudarmos o saudosismo, os dois modernismos (Orpheu e Presença), o impulso democrático-social (Seara Nova), o neorrealismo e a sua superação, a heterodoxia dos ensaístas (desde Joaquim de Carvalho e Sílvio Lima a Eduardo Lourenço), a rica poesia do século XX, até o surrealismo (Cesariny e O’Neill) – podemos encontrar uma raíz multímoda neste impulso entusiasmante da «Renascença»! E Álvaro Pinto (1889-1957) merece uma referência especial, como verdadeiro animador desse movimento fundamental.

 


Símbolo da Renascença Portuguesa (de António Carneiro)


 

RENASCENÇA PORTUGUESA COMO DESÍGNIO
Neste ano em que corre o centenário da «Renascença Portuguesa» cabe proceder-se a uma análise rigorosa sobre o papel desempenhado por esse importante movimento intelectual no século XX português. Cumpre dizer, antes do mais, que a revista «A Águia» (lançada por Álvaro Pinto a 1 de dezembro de 1910) e a «Renascença», formada dois anos depois, abriram caminhos múltiplos. Entre os diversos intervenientes – Pascoaes, Cortesão, Raul Proença, Leonardo, Sérgio, Pessoa – temos leituras e atitudes diferentes, que permitem ler desde a interpretação providencial à visão racional da história pátria e dos seus desígnios. Contudo, há uma vontade comum de emancipação e de libertação relativamente ao atraso nacional. Dir-se-ia que a vontade libertadora de Alexandre Herculano e o gosto de Garrett pelas raízes se evidenciam. No dealbar do movimento Pascoaes e Proença apresentam duas leituras diversas, mas devemos considerá-las complementares. Pascoaes fala de «provocar por todos os meios de que se serve a inteligência humana o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo que sejam essencialmente lusitanas». Proença prefere «pôr a sociedade portuguesa em contacto com o mundo moderno, fazê-la interessar-se pelo que interessa aos homens lá de fora, dar-lhe o espírito atual, a cultura atual, sem perder nunca de vista, já se sabe, o ponto de vista racional e as condições, os recursos e os fins nacionais». São diferentes os dois pontos de vista, mas há uma nítida convergência – daí a palavra Renascença, como ato de reviver e de avançar. A síntese indicou-a Jaime Cortesão: «dar conteúdo renovador e fecundo à revolução republicana». De facto, há uma ideia moderna de mobilizar energias, de fazer aparecer forças morais e educativas e de abrir a sociedade ao mundo moderno. É por isso mesmo que a «Renascença» segue as pisadas das tradições liberal e socializante da Geração de 70, relendo-as à luz das preocupações do novo século – e, nesse ponto, como bem viu o próprio Fernando Pessoa, em «A Nova Poesia Portuguesa» (publicado entre abril e novembro de 1912 em «A Águia»), Antero de Quental é símbolo da maturidade moderna, que será assumida em termos novíssimos pela geração que criará «Orpheu». Mais do que uma tendência espiritualista, centrada na consciência, Pessoa diz-nos relativamente à «poesia transcendentalista» que estamos «em Portugal e em plena descrição da poesia de Antero» - «se o transcendentalismo sob forma de emoção começou entre nós, entre nós deve continuar. Vejamos, pois, se a sua forma mais alta e complexa, o transcendentalismo panteísta foi acaso atingida já». Note-se como se encontra uma ponte entre a intuição moderna de Antero e a preocupação com o tempo largo do primeiro modernismo português. Acontece, porém, que Antero foi mais do que poeta, mas sim um finíssimo analista do tempo e da história, o que só os poetas valorizam. No fundo, é no seio da «Renascença», na sua diversidade de poetas e homens atentos à história, que se sente o grande debate da cultura portuguesa, entre espírito e razão.

AS RESERVAS SERGIANAS
António Sérgio, sobretudo preocupado com a história, dirá a Álvaro Pinto: «as acusações que faço à Águia são as seguintes: o exclusivismo da igrejinha, a inconsistência e a autolatria pascoalesca e o elogio mútuo» (s. d., 1912-13). De facto, se Fernando Pessoa salienta o transcendentalismo panteísta como elemento de ligação, capaz de integrar Pascoaes e Cortesão, Sérgio demarca-se do saudosismo poético e salienta a componente racional (na linha de Herculano e dos homens de Setenta); contudo, há uma preocupação comum que tem a ver com a ação pedagógica e educativa: «Estou de acordo com os meus consócios nesta tese geral: cumpre que nos dediquemos a educar o povo; mas discordo da determinação das qualidades que é preciso inculcar no nosso povo» (1914). O ensaísta não deseja uma educação nacionalizante, mas prefere avançar com uma pedagogia aberta e cosmopolita. Eduardo Lourenço propor-nos-á uma chave capaz de ligar as diferentes componentes da «Renascença Portuguesa», articulando nitidamente Antero de Quental e Fernando Pessoa e procurando ler os mitos à luz da crítica racional. Lembremo-nos de que Adolfo Coelho criticará duramente a posição de Pessoa, subsumindo-a à de Pascoaes. O autor de «O Labirinto da Saudade» aproximar-se-á heterodoxamente de Pascoaes, ao interrogar os mitos e ao procurar lê-los e desconstruí-los criticamente. Na linha de Oliveira Martins, considerado por José Marinho como filómita, e que entendeu o sebastianismo como prova póstuma da nacionalidade, E. Lourenço concede especial importância aos mitos, como instrumentos de análise e crítica. A partir da aproximação crítica a Pascoaes, Lourenço pôde compreender melhor Pessoa – não tanto como o mito, mas como «um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade». Onde Pascoaes é retrospetivo, Pessoa torna-se prospetivo. E é a atitude heterodoxa de Lourenço que permite integrar a atitude educativa de Sérgio – para quem a crítica era a «broca da análise» (para usar a expressão de Mouzinho da Silveira). De facto, a «Renascença Portuguesa» foi uma placa giratória de diversas modernidades diacrónicas, que E. Lourenço procurou articular, colocando o nosso primeiro modernismo como uma espécie de revelador, capaz de destacar os diversos vértices de um fecundo diálogo. E mesmo quando Lourenço afronta Sérgio como «mito cultural» fá-lo salvaguardando a força maior do autor dos «Ensaios», ou seja, o seu contributo crítico fundamental. E neste ponto se encontram três dos maiores ensaístas portugueses do século XX: António Sérgio, António José Saraiva e Eduardo Lourenço. Para todos, é o primado da crítica o fator fundamental de emancipação intelectual e cívica.

UMA IMPORTANTE PONTE INTELECTUAL
Não por acaso, António Sérgio, em dado momento do seu envolvimento em «A Águia», propôs a Álvaro Pinto (verdadeiro elemento aglutinador e promotor das forças comuns da «Renascença» inicial) que pedisse ao pintor António Carneiro que fizesse para a Biblioteca de Educação o desenho de uma vinheta com as palavras «Trabalho e Autonomia» e com a efígie inspiradora de Alexandre Herculano. Emblematicamente, a primeira obra a ser publicada na coleção seria a «Carta aos Eleitores de Sintra». Afinal, mais importante do que a reserva relativamente aos poetas (Pascoaes e Pessoa) o fundamental para o ensaísta era a procura de um instrumento educativo que pudesse ser eficaz, chegando ao povo. A célebre «Educação Cívica», tão justamente lembrada, foi, aliás, publicada em «A Águia» (de junho a novembro de 1914). O mais da história é conhecido, enquanto Pessoa se afastará cedo da «Renascença» (1915), magoado pelo atraso na publicação de «O Marinheiro», Sérgio continuará a colaborar, até encetar em 1918 a fugaz experiência de «Pela Grei»…   


Guilherme d'Oliveira Martins

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