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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MELANCOLIA DE UM ALEGRETTO…


         Antoine de Saint-Exupéry

 

Diz Eduardo Lourenço: "o que eu sou como ser mortal (o que todos somos) está contido na melancolia absoluta do allegretto da Sétima Sinfonia". Diz-se que Pio XII, na agonia da sua morte,pediu para ouvir como companheiro de viagem esse segundo andamento da sinfonia de Beethoven. Escuto-o agora,em cálida tarde de sábado,enquanto me passeio por leituras... E surge-me a interrogação de Paul Gauguin, pintada em ilha perdida do Pacífico,quase nos antípodas de nós: "quem somos,donde vimos,para onde vamos?"

 

No percurso da leitura, deparo com dois títulos no El País: "Era como estar en una pelicula" e, páginas adiante,"Espacios libres de niños/  los hoteles y restaurantes solo para adultos experimentan um polémico auge/ la crisis acelera esta opción minoritária/ que el sector abraza para captar clientes". O primeiro título refere-se ao tiroteio mortífero num cinema de Denver; o segundo nem precisa de esclarecimento. Ambos,afinal,traduzem factores culturais da crise em que mergulhámos. Assim,apesar de doutorando em neurociências,o jovem Holmes "assumiu-se", na estreia de mais um filme de Batman, como mais um herói da violência indiscriminada que, todos os dias, apetitosamente nos é servida pela "comunicação social"... Porque a exploração da fraqueza,do mimetismo,da debilidade mental dá lucro aos que vendem!

 

Também as crianças,como as coisas bonitas do passado e tantas do presente, todas essas que queremos livres, construtivas e fraternas, já são, ao que parece, obstáculo ao lucro... Talvez não fosse mau lembrar que esquecer os outros, a pessoa humana -- que é real -- por essa ideia matemática e abstracta que é o dinheiro, é, muito simplesmente, uma estupidez.


*

 

 

TERRA DOS HOMENS…

 

Nos anos 30 do século passado,meditando sobre o avião que pilotava,o desenvolvimento das máquinas e o advento de uma nova era técnica, Antoine de Saint-Éxupéry escrevia (cf. «Terre des Homme», III - L´Avion): "Só agora começamos a habitar esta casa nova que nem sequer acabámos de construir. Tudo à nossa volta mudou tão depressa: relações humanas,condições de trabalho,costumes. A nossa própria psicologia foi abalada nas suas mais íntimas fundações. As noções de separação,de ausência,de distância,de regresso,embora mantenham os mesmos nomes,já não contêm as mesmas realidades. Para apanhar o mundo de hoje,usamos uma linguagem estabelecida para o mundo de ontem. E a vida do passado parece corresponder melhor à nossa natureza pela simples razão de que corresponde melhor à nossa linguagem"...

 

Em 1990, Jacques Le Rider publicava nas PUF o seu "Modernité viennoise et crise d´identité (1890-1938)",onde defendia que a modernidade vienense se tornou " numa das nossas referências estéticas e intelectuais mais importantes", por ter pensado a modernidade "como premonição do fim de um mundo". Situando-o no tempo, vemos como o movimento modernista vienense baliza uma crise que despoletou a queda das grandes monarquias da Europa central,os processos de industrialização e colonização aceleradas,as revoluções socialistas e anarco-sindicalistas,e os conflitos e vexames inerentes a tudo isso e que conduziram à hecatombe da 2ª Grande Guerra.

 

Para Jacques Le Rider, Schoenberg, Schiele, Musil, Freud, Wittgenstein, todos "os criadores vienenses reflectiram de modo crítico a sua condição de homem moderno,feita simultâneamente de euforia e malestar..." Mas essa criatividade deveu-se "à imigração e à diversidade étnica, não à homogeneidade nacional..." Assim, Le Rider atribui à incapacidade política de pensar essa coexistência o fim do "modelo muito elaborado da pluralidade nacional,linguística,étnica e cultural no centro da Europa". Quero hoje começar a refletir sobre a crise presente e sobre a nossa interrogação da Europa. Não numa perspetiva economicista, nem à luz dominante da prioridade dada à política financeira. Mas antes partindo da consideração do povo,dos povos europeus de hoje,e dos desafios a que terá de responder para começar "a habitar esta casa nova que nem sequer acabámos de construir".

 

Aliás,a casa dos homens está sempre em construção, pois das pessoas que nascem,vivem e morrem,ela é feita. Da Jerusalém Celeste à Torre de Babel,do monaquismo às comunidades hippies,por constituiões de estados e convenções internacionais, vamos tentando... Temos de olhar para a Europa de hoje,tal como se situa num mundo em globalização,em que as tecnologias de comunicação e transporte tornam o longínquo imediato e próximo e vão confrontando o sentimento de si com entidades várias e a tentação mimética de misturar tudo. A miscigenação étnica e cultural é hoje um fenómeno crescentemente generalizado e frequente. Mas também gera receios, desconfianças, racismo, fanatismos. Por isso mesmo, se torna tão importante que cada um se compreenda melhor a si,cada pessoa,cada povo,cada cultura. A consciência informada e limpa da própria identidade é condição prévia do convívio e do diálogo,e estes são participação e partilha, não são eliminação.

 

Fala-se do inglês como língua universal e há quem pretenda que as línguas nacionais ou os dialetos regionais não têm razão de existir num mundo global. Mas o inglês que funciona como língua franca é também um inglês que se destila, filtra e empobrece e, por vezes, já pouco tem de inglês clássico,ou pouco a ver com a cultura anglo-saxónica (que não é só a dos negócios) Quantos dos nossos "CEO", que fazem "statements" com três palavras de inglês para duas de português,conseguirão ler Shakespeare no original? Deverão por isso os anglófonos castiços abandonar o vate ou todos nós esquecê-lo? Ou não deveremos nós, portugueses, conhecer melhor, como diria Eça, "o nosso Camões"?

 

Na Europa de hoje vivem  --- e são europeus,tal como os afro-americanos são americanos e não já africanos,e isto não só por imposição legal ou reconhecimento de um direito, mas culturalmente -- gentes de variadas origens étnicas,geográficas e culturais. Basta ver na televisão jogos entre selecções nacionais europeias de futebol ou atletismo para disso nos apercebermos,ou,mais simplesmente,sair à rua. Cada um deles deverá ter uma dupla função: a de aprender bem a língua do país que os acolheu (ou já a seus pais e avós) e,com a l´ngua,ir apreendendo uma cultura enquanto visão e modo de estar no mundo e na vida; mas também,porque o modo vive e evolui no tempo,enriquecer essa cultura e essa língua com a contribuição do seu pensamento,sentimento e discurso. Afinal,como qualquer de nós. E não têm a língua e cultura lusíadas sido enriquecidas pelas literaturas brasileira e afrolusófonas?

Em próxima oportunidade,poderemos falar na importância das chamadas humanidades na construção da casa que todos teremos de habitar. Teremos de perceber como a preservação da memória histórica e a transmissão da língua viva são fatores de entendimento, de diálogo e de convívio.


Camilo Martins de Oliveira