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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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PRELÚDIO A UMA DECLARAÇÃO DE DEVERES

 

 

Em 1943, ano em que viria a morrer,Simone Weil, então em Londres com a France Libre, escrevia o "Prelúdio à Declaração dos deveres para com o ser humano", que Albert Camus publicaria em 1949, na Paris do pós-guerra, quando dirigia, na Gallimard, a colecção "Espoir", pondo-lhe o título de "L´Enracinement": "O enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana. Uma das mais difíceis de definir.Um ser humano tem por raiz a sua participação real, activa e natural na existência de uma colectividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do porvir. Participação natural, quer dizer, trazida automaticamente pelo lugar, o nascimento, a profissão, o meio humano. Cada ser humano precisa de ter muitas raizes. Precisa de receber a quase totalidade da sua vida moral, intelectual, espiritual por ntermédio dos meios de que naturalmente faz parte". É a este meio multirradical que chamo cultura: duma pessoa, duma sociedade, duma civilização. Já aqui o disse, que a consciência da nossa identidade própria, e o reconhecimento do outro e da diferença são condições necessárias do diálogo. O Estado, disse Bourdieu, lapidarmente, "é uma ideia"... Quiçá uma ideia abstracta e jacobina - já o afirmaram - que se insttucionalizou e se tornou no centro soberano da atribuição de direitos e deveres, regalias e punições. O seu aparelho institucional vai tentando apropriar-se do sentimento patriótico para cimentar a sua hegemonia, com que pretende substituir a fidelidade à Pátria (que é uma qualidade do amor) -  e a tradição que nos faz descobrir, no passado comum, as raizes da nossa comunhão presente - pela obediência às orientações e imposições dos interesses presentes. Na sombra da conspiração do Estado está sempre - aliado, manipulador, cúmplice, especulador ou simples eminência parda - o Dinheiro. Tal como o Estado, escreve ainda Simone Weil, "o Dinheiro destrói raizes em qualquer lado onde penetre, substituindo todas as motivações pelo desejo de ganhar". Ou, citando de memória Adriano Moreira, "substitui-se o valor pelo preço". Antes de recordar Zygmunt Bauman, numa reflexão sobre o que covencionalmente se vem chamando "crise de valores", esclareço que, ao referir-me à descoberta das raízes da nossa comunhão presente no passado comum, não penso em "purezas" étnicas, nem em qalquer "superioridade" de raça ou de valores. Penso sim, como já disse, na "nossa vida antes de nós", numa história de encontros e desencontros, que nos moldou uma identidade forte, cuja consciência nos faculta o poder de nos abrirmos ao mundo. O desenvolvimento actual da historiografia, a globalização da investigação histórica, ajudam-nos a aprofundar, a enraizar, a nossa identidade, a redescobri-la no contexto das outras e no olhar dos outros sobre nós. Esta consciência de que existimos em relação com o que fomos e com os outros é necessária como contraponto à tendência hodierna que Zygmunt Bauman chama "a privatização da vida em geral". Tenho reflectido sobre o apagamento das fronteiras entre a intimidade e a publicidade, designadamente na chamada "comunicação (?) social": o despudor, o descaramento com que se atiram para o pasto das massas, quer episódios dolorosos das vidas, quer comportamentos que, decentes ou indecentes, só podem ser humanamente compreendidos pelos próprios intervenientes ou, quando muito, na solidariedade das comunidades a que pertencem. Chegamos assim ao ponto de, a partir da vida das pessoas, com o que necessariamente tem de prazenteiro e doloroso, de feio e de bonito, se fabricarem produtos de consumo mediático. Na sociedade de consumo,também as pessoas são objectos,são estimadas pelo preço, não pelo valor. Assim compreendi, finalmente, que a razão porque se consome a privacidade dos outros transformada em artigo para venda, é a necessidade de iludir a solidão a que conduz a privatização geral da vida: porque se rejeita o enraizamento na solidariedade, a responsabilidade pelo outro, sem a qual nenhuma relação humanamente digna é possível. A redução da pessoa ao indíviduo, da moral ao "chacun governa-se" é diametralmente oposta à moral que Lévinas tão bem define como "existir para o outro". Na nossa cultura,diz-se mandamento novo: amai-vos uns aos outros... Recorro a uma citação de Bauman: "Isolados dos que estão ao seu lado. Privatizados. Compartilhando o espaço, mas não os pensamentos ou os sentimentos - e agudamente conscientes de que, com toda a probabilidade, tampouco partilharão o mesmo destino. Esta consciência não alimenta necessariamente ressentimento ou ódio, mas traduz indiferença e reserva. ´Não quero envolver-me ´,diz-se, para calar emoções que nascem ou asfixiar no ovo qualquer relação humana,íntima e profunda,do género ´para o melhor e o pior,até que a morte nos separe ´. Estão na moda fechaduras,cadeados e alarmes cada vez mais engenhosos. Não em virtude da sua utilização prática,eficaz ou conjectural, mas pelo seu simbolismo, pois servem para delimitar a fronteira do eremitério onde não queremos que nos incomodem e significar a decisão de que ´Por mim,o que está lá fora bem pode ser um deserto."  Este encerramento de si, o receio dos outros, o medo do compromisso resultam de uma incerteza crónica, dum andar em perdição pela floresta sempre mutante das novidades noticiosas e publicitárias que nos bombardeiam. Assim se vai perdendo a densidade interior,a consistência dos valores e das crenças,a esperança no futuro ou na eternidade,tudo se reduz ao desejo imediato. À durabilidade vem sucedendo a precaridade. O Estado tentacular e controlador,a "comunicação social" e a publicidade, condicionantes da opinião, do gosto, da cultura em que vivemos, a grande indústria e distribuição, impondo sistematicamente produtos e "gadgets" sempre novos e, desde logo, já obsoletos... Onde e como poderemos ser livres e como poderá a nossa consciência respirar? Tudo parece cada vez mais precário: o emprego e as relações humanas em geral, a conjugalidade e o amor, os valores mobiliários e imobiliários, a arte que se faz e desfaz em função de um espaço ou de uma ocasião, a segurança social, as dietas de emagrecimento, as receitas para um coração saudável, sei lá, as modas todas, pois que em modas nos movemos... Não podemos, todavia, voltar ao passado, não é possível encarar o futuro, nem o presente, com saudosismos.Será pela atenção aos sinais do tempo - alarmes - que teremos de despertar a consciência para o tempo e procurar o modo. Para não cairmos no barranco de cegos.
 
Camilo Martins de Oliveira