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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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4ª Crónica da Viagem ao Brasil (08/09/12)


A névoa rodeava de manhã o Itacurumi, que no cimo da montanha simboliza o Ouro Preto e permitiu que os Bandeirantes encontrassem aquele local onde tinha sido descoberto o ouro paladiado, enegrecido pelo óxido de ferro. Essa neblina que se dissipou praticamente até ao momento em que deixámos Ouro Preto é uma das características da cidade, o que levou um dia Carlos Drummond de Andrade a parodiar o facto, quando no Hotel Toffolo não lhe deram a refeição, por não se ter inscrito como mandavam as regras. Disse então que ao menos se alimentaria de névoa matinal: “tudo se come, tudo se comunica, tudo no coração é Ceia”. A cidade de Ouro Preto, a antiga Vila Rica fica-nos bem no coração. Lembramo-nos da tarde memorável: Nossa Senhora do Pilar de estilo joanino, a segunda igreja mais rica em talha dourada do Brasil depois de São Francisco de Salvador da Bahia; Nossa Senhora da Conceição com o projecto de Manuel Francisco Lisboa, com o Museu do Aleijadinho apoiado pela Fundação Ricardo Espírito Santo, a fonte de Marília, além do Museu das Minas. E como esquecer o Museu do Oratório com os exemplos preciosos de oratórios de viagem, de esmola e de bala? Mas a peregrinação tem de prosseguir e dirigimo-nos nesta manhã do dia da Independência, 7 de Setembro (que há anos assinalámos nas margens do Ipiranga) para a cidade de Mariana, não sem que antes nos tenhamos detido na mina de Passagem que esteve em actividade de 1819 a 1985 e de onde foram retiradas 30 toneladas de ouro. Descemos no pequeno trem às galerias ainda visitáveis, percorrendo 350 metros para descer 150 de profundidade e falamos das condições a que eram submetidos os mineiros de outrora, com vida muito curta afectados pelas doenças profissionais originadas pelo pó de quartzo. Já chegados à cidade, na Sé de Mariana (a antiga Vila Real de Nossa Senhora do Carmo, baptizada em honra da mulher de D. João V) ouvimos Josinéia Godinho tocar magnificamente Cabanilles, Nebra, Pablo Bruna, Buxtehude, Georg Bohm e Albinoni no órgão único de Arp Schnitger instalado em 1753 na catedral. Tudo leva a crer que teria sido destinado primeiro a Mafra, mas o som germânico teria sido considerado menos adequado ao convento franciscano. Na praça de Minas Gerais deparamo-nos com as imponentes igrejas de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo em frente da Câmara Municipal e da cadeia, tendo no centro um pelourinho identificado pelas armas do império com esfera armilar, estrelas e cruz de Cristo. Mas o tempo urge pois temos de chegar rapidamente a Congonhas, para fazer a justíssima homenagem ao Aleijadinho que já nos deixara rendidos em Ouro Preto. Não fora a multidão agitada que invadia literalmente o santuário e teríamos gozado com maior intensidade esta explosão de genialidade, a que voltaremos.