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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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6ª Crónica da Viagem ao Brasil (10/09/12)


Em São João d’el Rei, Domingo, na Igreja de São Francisco, a Irmandade da Ordem Terceira saúda especialmente a presença do Centro Nacional de Cultura com grande simpatia. A Profª Anna Maria Parsons vem ao nosso encontro e faz questão de nos assinalar a grande qualidade do coro e orquestra que acompanham o ofício litúrgico. A cidade tem uma antiga tradição de mais de um século ligada à música clássica coral e sinfónica com um reportório de autores de Minas Gerais. Ao ouvirmos Hossana, Glória in excelsis Deo apercebemo-nos do grande esmero artístico e da excepcional qualidade das obras escolhidas e da sua execução. É um trabalho continuado que nos últimos anos foi reforçado pela formação e pela motivação de músicos de grande saber. São João d’el Rei também é referência fundamental na vida e obra do Aleijadinho, mas Anna Maria Parsons faz questão de nos mostrar duas imagens num dos altares laterais de São Francisco, representando São João Evangelista e São Gonçalo de Amarante. Aqui está António Francisco Lisboa em todo o seu esplendor – e ouvimos, com uma nitidez óbvia a demonstração de que o diminutivo do autor não pode ser pejorativo, é alguém que tem uma elevadíssima formação (estando longe de ser um curioso ou um ingénuo). Foi aluno na escola franciscana no hospício da Misericórdia – de Grego, Latim e História, estudioso da arte europeia do seu tempo, conhecedor da influência ou da inspiração de Bernini. Há no São João Evangelista algo que encontramos no profeta Daniel em Congonhas e de que já falámos. A teatralidade, o movimento, o domínio da curvatura, a compreensão do corpo. Seguimos pelas ruas de São João, recordamos a memória do malogrado presidente Tancredo Neves, descobrimos o templo mais antigo da cidade (1719) – da Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, continuamos com Nossa Senhora do Pilar, a matriz, que não podemos visitar mas que é um exemplo rico de talhas douradas célebres. As referências continuam: Nossa Senhora das Mercês e Nossa Senhora do Pilar, Nossa Senhora do Carmo, e aqui recordamos as gárgulas em forma de canhão que já vimos em Ouro Preto. No entanto, o que nos fica na memória é a exuberância e ao mesmo tempo o equilíbrio da fachada de São Francisco de Assis, com o projecto original de António Francisco Lisboa. Há sempre um debate sobre se teria sido mesmo o genial autor a dar o toque irrepetível na obra-prima, mas o certo é que se nota a marca indelével da sua oficina. A cidade pequena está cuidada e parece congelada no tempo, para gáudio laboratorial de quem procura a especificidade do barroco mineiro. Terminamos o dia em Tiradentes no Solar da Ponte. A recepção é cuidadosa e esmerada, com um chá das cinco horas dado como ditam todas as regras. Anna Maria Parsons explica-nos como temos de recusar muitos equívocos sobre a ideia falsa de que entre 1730 e 1789 houve uma decadência inexorável de Minas Gerais, por não se estabelecerem novas explorações mineiras. De facto, o espaço já estava delimitado e desenvolvia-se a actividade agropecuária e a economia. Por fim, Suely Campos Franco diz-nos como o Minho e Minas Gerais estão intimamente ligados pelas tradições religiosas. Um forte intercâmbio cultural que merece ser mais estudado aprofundadamente.