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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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7ª Crónica da Viagem ao Brasil (11/09/12)

 

Saímos de Minas Gerais pelo Caminho Novo da Estrada Real em direcção primeiro a Petrópolis e depois ao Rio de Janeiro. Deixámos para trás as grandes referências da zona mítica do ouro e dos diamantes, mas também como nos disse ontem Anna Maria Parsons uma região no coração do Brasil que se desenvolveu através de uma via própria e multifacetada em que a busca das preciosidades constituí apenas uma das mais importantes vias do que hoje designaríamos por desenvolvimento. O barroco mineiro é um estado de espírito também, a demonstrar que minas há muitas. As igrejas, os monumentos, as cidades, o urbanismo constituem uma ilustração muito especial já o dissemos da teatralidade, do movimento e do inteligente uso das curvas. É por isso pelo menos precipitado falar do barroco como um momento histórico parado no tempo. O barroco mineiro é uma síntese que se projecta no futuro e que chega à literatura e à música, como “ Arte total” que é. A decoração rococó completa o culto das curvas e tregiversações. Como podemos compreender Guimarães Rosa sem o entendimento do barroco como arte completa. Como podemos dar a devida importância heterodoxa como tem Carlos Drummond de Andrade? Como entender Cecília Meireles sem a percepção do intrincado diálogo entre o mundo de Gonzaga e Marília e a capacidade criativa do ser tão mineiro? Juscelino Kubitchek de Oliviera, na Pampulha onde Brasília foi buscar Óscar Niemeyer porque ele sabia estender, muito bem, nos dias de hoje, o movimento teatral do barroco, não como estilo situado, mas como atitude perante a natureza e a vida. Um longo caminho que nos trouxe de Tiradentes para Petrópolis faz-nos perceber a transição do Cerrado para a Mata Atlântica, mas também do Aleijadinho até Murilo Mendes, numa descida vertiginosa da montanha para os vales do rios com sol e calor. Ao chegarmos a Petrópolis deparamo-nos com a catedral neo-gótica de São Pedro de Alcântara (de 1884) com a sua torre imponente e a sinfonia dos vitrais – a almoçámos numa antiga residência da cidade imperial com os cómodos de outrora e o gosto de hoje. Chegados a Petrópolis sentimos a presença forte de uma personalidade atraente como a do Imperador D. Pedro II, um cientista desterrado na política. O palácio resulta dos recursos do próprio Imperador. Foi construído entre 1845 e 1862, com um projecto original Julius Koeler e depois modificado por Cristoforo Bernini – com um jardim frondoso em que se nota a arte Jean Baptiste Birot e os conhecimentos e a sensibilidade artística de D. Pedro de Alcântara. Proclamada a república (1889) o Palácio foi ocupado por duas escolas, até que, por iniciativa de Getútio Vargas o Museu Imperial foi criado e inaugurado em 1943. A visita ao Palácio com a generosa companhia do seu director Maurício Ferreira Júnior, foi fascinante pela descoberta da convergência entre o drama do Imperador (deixado pelo seu pai com a tenríssima idade de 5 anos com a tarefa solitária de garantir a continuidade da casa imperial e da governação do Brasil) e a sua capacidade de abertura e inteligência para manter a dificílima unidade do território. D. Pedro e D. Teresa Cristina afirmaram o seu prestígio pela crença na cidadania e na proximidade do povo.
Assim, de algum modo, prepararam a república de 1889 – merecendo destaque a assinatura pela princesa Isabel da Lei áurea, de 1888.