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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS


de 1 a 7 de Outubro de 2012



«Breviário Cooperativo – O Pensamento de António Sérgio», de Fernando Ferreira da Costa (s.d., 1980?) é um pequeno livro, tornado atual, que hoje se lê com muito agrado, no qual se recorda o grande ensaísta português, considerando as suas principais intervenções na defesa do cooperativismo.


António Sérgio de Sousa


COOPERATIVISTA ATIVO
Podemos dizer que António Sérgio de Sousa (1883-1969) foi, no seu percurso, cívico, intelectual e político, um cooperativista ativo que considerou, antes de tudo, dever ter o seu magistério ligado à criação de uma sociedade de liberdade, autogoverno e cooperação. «Se prego o cooperativismo desde há muitos anos é porque vejo nele (dizia em 1947) a maneira mais sã (e mais bem radicada, digamos assim, que é mais de raiz, a que é mais orgânica) de fazermos brotar uma economia mais justa, já na própria substância da organização presente, já dentro da sociedade capitalista atual». No fundo, a autonomia individual, a liberdade e a responsabilidade deveriam ter na vida tradução política e económica – política, através da participação cidadã; e económica, segundo a exigência da cooperação. «O cooperativismo em meu entender é um regime económico de maior perfeição, que se desenvolveu na matriz do capitalismo, dentro da sociedade capitalista, assim como a sociedade capitalista se desenvolveu na matriz feudal, dentro da sociedade da Idade Média». Para António Sérgio, a solidariedade voluntária e a organização cooperativa constituíam, assim, o modo mais adequado para superar injustiças e desigualdades e para permitir a complementaridade entre a liberdade económica e a justiça distributiva. «Na vida económica das cooperativas, a moral e o êxito caminham juntos (insiste o ensaísta); na vida económica das cooperativas, os bens materiais que aí se alcançam proporcionam-se a moralidade com que se nela atua. Na cooperativa, muitíssimo ao contrário do que diz o provérbio, honra e proveito cabem sempre num saco, e servir-se a si próprio é servir os mais sócios. Na cooperativa a harmonia de interesses não é um conto de fadas, mas a própria verdade. Não importo que insistam em me chamar quimérico: o mundo, queridos amigos, pode ser muito melhor do que esses tais supõem». Em lugar de propor um caminho utópico, António Sérgio liga a compreensão da importância dos fatores económicos e sociais à necessidade de criação de uma organização capaz de realizar a síntese entre liberdade e solidariedade, entre autonomia e responsabilidade. Como dizia Marco Aurélio, citado ainda por Sérgio: «Fiz uma ação útil à sociedade? Nesse caso, prestei um serviço a mim próprio. (…) Se disseres tão-somente que és uma parte desse organismo não amas ainda os homens com todo o teu coração; não tens ainda toda a alegria consciente por aquilo que fazes a bem dos homens; pratica-lo simplesmente porque assim o deves, e não como fazendo assim o teu próprio bem» (cf. Antologia «Doutrinadores Cooperativistas Portugueses», de Fernando Ferreira da Costa, pp. 308 e ss).

 

UMA REFLEXÃO HISTÓRICA
Não é demais destacar a importância que o ensaísta António Sérgio tem na reflexão sobre a história portuguesa. Estudioso e seguidor dos intelectuais que, ao longo do tempo, foram recusando qualquer providencialismo ou fatalismo, encontrou no cooperativismo uma orientação capaz de superar, a um tempo, as limitações do individualismo e do coletivismo. Assim, na linha dos economistas dos séculos XVII e XVIII e dos liberais esclarecidos, como Alexandre Herculano (lembre-se o luminoso texto sobre as Caixas Económicas), e da geração socializante de 1870 (recorde-se a força das propostas de Antero e dos seus), António Sérgio, ao lado de Jaime Cortesão e de Raul Proença, pôde ligar a reflexão cooperativista e um pensamento reformador moderno – que converge com o pensamento sobre a economia social, desenvolvido no século XX por autores como os membros da Sociedade Fabiana inglesa, até Anthony Crosland, John Rawls, Charles Taylor, Michael Walzer e Michael Sandel, nos nossos dias. A leitura da intensa pedagogia cooperativista como a desenvolvida por António Sérgio deve, assim, ter em consideração que não estamos apenas perante um conjunto de meras considerações de um militante de uma causa generosa, mas sim diante de reflexões aprofundadas e integradas, em que há uma articulação intensa entre três domínios: (a) a ligação entre economia e sociedade, como chave da evolução humana e da compreensão histórica; (b) a proposta de uma política de fixação da riqueza e da criação, por contraponto ao mero «transporte» e à especulação mercantil; e (c) a antevisão de uma via de futuro, num mundo aberto e global, baseada na articulação entre direitos individuais, liberdade económica e de iniciativa, por um lado, e justiça distributiva baseada nos direitos económicos, sociais e culturais, por outro. O «Boletim Cooperativista» constitui, nesta linha, um acervo muito importante e atualíssimo, correspondente a uma ação prática de «Educação Cívica». O objetivo era «trocar ideias entre nós e cooperar», a partir da realização de cinco objetivos concretos: «criar no país uma verdadeira consciência cooperativista», enquanto «cooperativismo integral como um fim no domínio da economia»; «trabalhar pela criação de novas cooperativas sobretudo de consumo e cooperativas agrícolas e pecuárias de transações em comum e de transformação de produtos em comum»; «esforçar-se por que um pequeno número de cooperativas decididas a manterem-se libertas de qualquer sectarismo, se federem desde já»; «elaborar um projeto de Código Português do Cooperativismo»; e «elaborar um projeto de estatuto de uma Caixa de Crédito Cooperativo».

AS LIÇÕES DA CRISE ATUAL
Ao lermos, à distância do tempo, o conjunto de textos publicados no Boletim, verificamos que há um espírito eminentemente construtivo de criar a democracia a partir dos cidadãos. Dir-se-á hoje que a crise financeira e económica, cujos efeitos sentimos, concedeu uma novíssima atualidade a estas preocupações, que são as mesmas explicitadas por António Sérgio nas lapidares páginas publicadas em «A Águia» quarenta anos antes, sobre a República escolar e sobre a aprendizagem cidadã. E por que motivo salientamos a atualidade destes textos? Porque, em lugar de uma lógica imediatista, mercantilista e especulativa, propõe-se o regresso à criação económica e a importância da entreajuda, em lugar da perseguição de ganhos artificiais e aparentes. Ética e necessidade, valor e interesse, liberdade, igualdade e diferença são faces da mesma moeda. E a verdade é que muitos dos fracassos contemporâneos têm-se devido à confusão entre valor e preço, à perda de responsabilidade social e ao esquecimento de que as pessoas estão em primeiro lugar e que «o povo deve buscar o seu bem pela sua própria ação criadora». Ao recordar os heroicos companheiros de Rochdale, os princípios da Aliança Cooperativa Internacional, a generosidade do movimento cooperativo, a superioridade moral da solidariedade voluntária – estamos a fazer apelo a uma democracia social das pessoas, pelas pessoas e para as pessoas. E é aqui que a releitura do «Boletim» não se limita a uma lembrança histórica, mas a um desafio de releitura e de atualização. E não podemos esquecer, além de António Sérgio, entre tantas outras, personalidades marcantes desta ação persistente e incansável, como Henrique de Barros, Fernando Ferreira da Costa ou João Sá da Costa. Neste Ano Internacional das Cooperativas (2012), é justíssimo recordarmos em primeiro lugar o exemplo de António Sérgio e da jovem equipa que o acompanhou na caminhada de afirmação concreta da democracia social. Nos últimos dias da sua vida, o grande mestre duvidou da eficácia da sua ação política, cívica e pedagógica. Contudo, desmentindo essa angústia, a atualidade do seu pensamento mantém-se indelével. Que melhor reconhecimento da sua premonição e da força das suas ideias e projetos senão a exigência de continuarmos a agir em nome de uma economia social livre e justa?

Guilherme d'Oliveira Martins