Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Tristessa, a obra preferida de Jack Kerouac

 

Nascido numa família franco-americana iniciou um dia uma viagem que continuaria a fazer pelo resto da vida, e assim a «geração Beat» surge de um folego narrativo na conhecida obra “On The Road”.

 

Contudo, Tristessa foi o livro da emoção de Kerouac. Disse um dia ao Eduardo Prado Coelho que Kerouac tinha nesta Tristessa mostrado a noite tranquila e pálida, a noite dos degraus inexplicáveis, e o quanto os gatunos do que não vacila o tinham empurrado a ele, sem asas.

 

O Eduardo acrescentou «e como ele sabe escrever a desolação do mundo tão delicadamente, tão sem vírgula ou ponto final que interfira.»

 

Na minha curiosidade de ler Kerouac encontro razões para a Nossa Senhora azul e mutilada ser em si mesma uma insistência na compaixão pelo sofrimento humano.

 

De braço em volta da cintura de Tristessa, a amargura das vielas de pé de página da vida, são afinal os anjos sem céu que, de compreensão infinita, lhe povoam os sonhos e o fazem ter amado um dia, a prostituta de nome Esperanza.

 

E enlaça-a, enlaçando-se num amarrotado desfalecimento pelo qual não opta, mas pelo qual reconhece o tropeço das mortes. Assim, foge de si para si, querendo dormir na única passagem que o entende. E ei-lo que parte. E ei-lo que fica pela notícia dos seus livros.

 

No caminho, há pelo menos três dias que se pintam de lápis de cor, aguarelas de uma só hora. E pode-se mozartear a vida onde escutamos o nosso trecho, dir-te-ia.

 

E quem te anuncia Jack, ainda hoje, em toda esta distância, e te assegura que tudo está bem, é muitas vezes aquele que te quer livrar de uma parte da tua dor. É aquele mentiroso que te leva um pouco de saibro do céu, tão certo quanto estares nele sentado.

 


Teresa Vieira