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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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PÄR LAGERKVIST: Tobias, o Peregrino

 

 

Aos 19 anos recebi a edição de 1965 da Estúdios Cor deste excelente livro de Pärlagerkvist , “Tobias, o Peregrino “ e ainda hoje o retenho em lugar de destaque no caos organizado da minha biblioteca.

Este autor, nascido na Suécia, recebeu o prémio Nobel em 1951 com o magnifico livro “O Barrabás”, mas cheguei ao seu encontro através de “Tobias, o Peregrino”, lendo de seguida “O anão” e mais tarde “O Barrabás”, a figura marginal nos Evangelhos condenado à morte e inesperadamente libertado pelo clamor popular, que o preferiu a Jesus.

Pareceu-me sempre que Lagerkvist era um desses vencedores do Nobel de que poucos falam. Pelo menos registei muitas omissões nas conferências de literatura estrangeira que percorri durante anos. Contudo, Pär Fabian Lagerkvist é um dos escritores que sempre preencherá espessamente o espaço que lhe guardou a história.

 

Quando a vida é um processo de desordem permanente, este escritor não a tenta ordenar, nem a enfeita, antes acredita que a liberdade e a criatividade são incessantemente compensadas pela recriação, e esta, é a desintegração inseparável do que é uno e único.

 

Assumir o risco das potencialidades do pensar e em consequência, da própria existência, é construir uma concepção de que se deve romper com a visão burocrática da vida, e aceitar a oportunidade de criar, de nos expandirmos e nos perguntarmos e de nos amarmos como uma cultura escrita, também pela mão do coração.

 

(…) esta é a cruz do ladrão! A minha cruz. Esta ouso eu tocar, porque não está limpa (…) esta é a minha cruz. Nesta podia eu mesmo ser crucificado. Desceu para outro lugar (…)aquele desconhecido que estava de costas com a cara voltada para o rio (…) era a sua própria cara (…)que mais ninguém ali se encontrava a não ser ele. Que o desconhecido era ele próprio. Continuou, e chegou a um lugar (…) precisamente aí encontrava-se uma pequena imagem de mulher(…) o vestido azul…E o sorriso…aquele sorriso bom, um pouco pálido (…) e contemplou o seu rosto enquanto adormecia (…) afundando-se na terra, onde ele ficou e morreu. E o rosto do homem parecia cheio de uma enorme paz (…) e tão vulgar na Terra, sobre si, separou-se da vida.

 

Enfim,

Quem seria, Quem fora? Que pensamento próximo tivera antes do momento em que em si acordara o homem do futuro, e enfim a pedra fria reclamara? Pensei eu.

Talvez que o encanto que este livro me aportou tenha vindo muito pela coincidência das viagens dos homens que peregrinam. Pelo abrandar e pela corrida que, de um jeito ou de outro, muito os faz atirar ao ar confettis e conselhos, jóias e bijuterias, malvas na direcção dos lotes de esperança que acumulam e depois, coincidência ou viagem, é seu dever testar o desastradamente nu que vai à agua, bem como, o vir dar à costa pois meu amor.

E muito em consequência de tudo isto, um dia, timidamente, ao dar a mão às palavras de Pär Fabian Lagerkvist entendi o quanto somos nesta terra tão novos que poucas são as vezes que nos pedimos proximidade.

 


Teresa Vieira