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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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MANIFESTAR-TE-ÁS ENTRE DOIS ANIMAIS...

 

Num pequeno painel de 16x26cm, em ouro e têmpera sobre madeira, Fra Angelico representa, por volta de 1430, a Natividade de Jesus. Curiosamente, o Deus Menino, deitado sobre um chão de palhas, entre a Virgem Maria e S. José ajoelhados, tem outros dois adoradores: um burro cuja cabeça surge de trás de Nossa Senhora, e um boi corpulento com os membros anteriores claramente dobrados em genuflexão. Os anjos estão lá fora, em coro circular sobre o telhado. Esta cena não vem descrita em qualquer dos quatro evangelhos canónicos. Mas o apócrifo evangelho do Pseudo-Mateus reza assim: "Ora,dois dias depois do nascimento do Senhor, Maria deixou a gruta, entrou num estábulo e depôs a criança numa mangedoura, e o boi e o burro, dobrando os joelhos, adoraram-no. Então se cumpriram as palavras do profeta Isaías dizendo: "O boi conheceu o seu dono e o burro a mangedoura do seu senhor", e esses animais, rodeando-o, adoravam-no sem cessar. Então se cumpriram as palavras do profeta Habacuc dizendo: "Manifestar-te-ás entre dois animais". E José e Maria,com o Menino, permaneceram no mesmo local por mais três dias". Frei Tiago Voragino, na sua "Legenda Aurea", oferece-nos um texto composto com a retórica de um sermão,em que apresenta a manifestação da natividade do Senhor por cinco ordens de seres ou criaturas: os que são puramente materiais (corpos opacos, transparentes ou translúcidos, e corpos luminosos como as estrelas), que só têm existência; em seguida, por criaturas que têm existência e vida, como as plantas e as árvores; depois, por seres com existência, vida e sensações, como os animais; e ainda pelos que, além da existência, da vida e das sensações, são dotados de razão, como os seres humanos; finalmente, a incarnação de Deus foi proclamada pelos anjos, que,além dessas quatro qualidades dos homens, receberam também o intelecto. A descrição desse presépio cósmico é um exercício teológico que arranca da narrativa do "Liber Nativitatis Domini", como era chamado o "Evangelho de Pseudo Mateus" derivado de uma versão latina do "Proto-Evangelho de S.Tiago". Por ser um testemunho documental importante da procura de ordem e rigor do pensamento medieval em meados do sec.XIII (que é o tempo da "Summa" de S.Tomás de Aquino), valerá a pena irmos procedendo à sua análise neste período anterior ao Natal. Hoje, ficaremos pelo nosso boi e o nosso burro. Conta o Voragino, inspirado em fonte desconhecida,que, "partindo para Belém com Maria grávida, José levou com ele um boi, sem dúvida para o vender, para poder liquidar o imposto per capita (exigido no recenseamento romano) por si e pela Virgem, e para poder viver com o resto da soma; também levou um burro, certamente para transportar a Virgem. Ora, de modo sobrenatural, o boi e o burro reconheceram o Senhor e adoraram-no,flectindo os joelhos. E mesmo antes da Natividade, como relata Eusébio na sua crónica, os bois que lavravam disseram aos lavradores: "Os homens faltarão e as ceifas serão proveitosas."
 
Camilo Martins de Oliveira