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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Graciliano Ramos

“ A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

 

 

Uma das características apontadas a este escritor de renome foi a de possuir um estilo de palavras manuseadas pelo critério de as reduzir ao mínimo no seu modo de as usar e delas dizer realidades.

 

O seu célebre livro Vidas Secas, cujo título inicial terá sido O Mundo coberto de penas, título este riscado pelo próprio Graciliano, refere-nos uma consciência social, descrita de jeito  enxuto e quase seco, e evitando o mais tradicional do narrador opinativo, acresceu pela mão de Graciliano, a novidade estilística segura ao serviço de uma objectividade invulgar.

 

O sertão nordestino viu crescer este seu cronista, romancista, jornalista, por entre outros mundos envoltos de escrita, como um escritor que de jeito nítido, estabelecia claras relações de análise, entre o homem e seu meio natural e social, gerador de conflitos dotados de força para transfigurar muito do que os homens têm de bom.

 

Caetés constituiu o primeiro romance de Graciliano Ramos e com ele obteve desde logo o prémio Brasil de literatura. Romance que escreve na primeira pessoa, sendo o narrador seduzido e mesmo dominado pelos ambientes burgueses nos juízos que envolveram o seu adultério com Maria Luísa, que, para além da violação das regras prodigiosas da moral que o condenava nesta relação, envolvia ainda o facto de Maria Luísa ser a mulher de um grande amigo seu, possessiva ao ponto de vir a sentir o amante como um perturbador do caminho que, afinal, só ela, ditara mesmo após o suicídio do marido.

 

Neste contexto de obra peculiar, e em contextos violentos onde mesmo a morte se revela uma constante em várias escritas de Graciliano acode-lhe, diríamos, a arguta linguagem quase imparcial, pela qual optou sem vacilar para que a escorreita palavra do dizer não se embrulhasse em conteúdos para lá daqueles que só por si significava.

 

Nos seus romances a lei da selva é a da sobrevivência, essa mesma que une os seus personagens, afinal os viventes a que se refere.

 

Não há como dizer que as condições sub-vida nivelam de facto, animais e pessoas e ambos podem ser apenas identificados pela espécie, e que ninguém se esqueça desta lembrança nuclear, que tão rápido no ápice de um livro de Graciliano, nos leva ao que ainda humilha os seres.

 

Assim poderemos encontrar a pesquisa da alma humana, esta mesma alma vista também de um angulo mais distanciado, ou a necessidade de depor de Graciliano, tal como nos surge nas autobiografias.

 

Nesta revisitação que proponho à escrita de Graciliano Ramos gostaria de deixar claro o quanto na sua arte, o testemunho constitui o próprio cerne do dizer, e do dizer dos seres oprimidos no sentido mais abismado, como este do homem que, incapaz de impor utilidade pela sua diferenciação, se deixa torcer pelo que aceita inevitávelmente ter de ser aceite, pois nesse ambiente nasce e enrola a vida moído pelo poder que não detém.

 

Afinal, se as pessoas nunca fazem o que desejam, talvez que só a mestria de uma enxutíssima escrita tenha o golpe certo de o evidenciar.

 


Teresa Vieira