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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

António Alçada:

com quantos véus se descobre o mundo?
E para te dizer António, que ainda não sei.

 

 

Rosa, meu amor:

Há três semanas que te foste embora e a tua ausência deixou-me um buraco grande por dentro, pois parece que me tiraram tudo o que me fazia vibrar com a vida e, por isso, ando por aqui perdido sem saber qual é o caminho que dá para o dia de amanhã. Eu não desisto de tentar compreender os porquês de tudo. Sinto é que ficou uma grande conversa suspensa, um lugar onde estou a temer entrar com medo de te magoar.

Acho que tens duas pessoas dentro de ti. Uma é uma menina querida, que nasceu em Santo Antão, que olhou e começou a caminhar num mundo sem pesos, que tomava banho no mar e subia aos montes com os seus amigos, ria com eles no tempo em que o riso, mais do que as palavras, era símbolo da ligação que tínhamos com os outros. Tu nem podes imaginar como eu gosto dessa menina. Eu hoje sei que, por causa dela, conheci o que era o grande enamoramento com a vida, que por causa dela andei maravilhado com o mundo: com o sol e a chuva, com o vento, o frio e o calor e tudo o que faz da vida um lugar de variedade e surpresa.

(…) – não te esqueças: o afecto é só o calor do nosso destino solitário (…) eu acho que Deus tem um sorriso como o teu.

Depois, ainda com o mesmo sorriso, levantou a roupa da cama, deitou-se e disse-me:

- Vá. Vem para a nossa Arca de Noé…

                     

                                         “ O RISO DE DEUS” – romance de António Alçada Baptista.


Teresa Vieira