O Império Austro-húngaro fazia Praga pertencer-lhe no séc. XIX quando nasce Rilke.
As suas nobres amigas sempre o terão mimado o suficiente para que nunca trabalhasse. E Rainer escreve do amor e da percepção, a sua vida.
Quando um dia chega à Rússia a convite de Lou Andreas Salomé, a dimensão e a exuberância das paisagens russas, envolvem de religiosidade a sua poesia. Tratou-se de um encontro divino e arrebatador ainda longe do que encontraria nos braços de Salomé.
A colecção Histórias do bom Deus vinda ao lume em 1900 era portadora de uma luz que identificava o poder que a Natureza, em Rilke, passara então a viver.
Contudo o séc. XX viria a aportar-lhe um estilo algo afastado do lirismo que utilizara, e surge uma nova e muito característica expressão à sua escrita.
Rodin, o grande escultor de quem Rilke foi secretário em Paris, foi o melhor percurso que Rilke tomaria para provar como a mensagem poética também podia migrar da escultura para o poema. Assim, poemas e pedras num livro se casam em comunhão total de entendimentos indivorciáveis.
A transformação na produção de um no outro constituiu estímulo a uma criatividade fecunda e esclarecedora da comunicação das artes.
Um mundo inteiro viria a ter lugar e parto próprio até ao castelo Duíno, situado em Trieste, na Itália, onde Rilke morou a convite da princesa Maria von Thurn und Taxis e de onde partiria para a Suiça onde viveu até morrer.
Rilke tem uma obra original e notável marcada por imagens inesperadas de união absolutamente transcendental – nas palavras de Alçada Baptista - do mundo e do homem, num espaço interior que ora provocava as reflexões existencialistas, ora assumia o expressionismo, movimento cultural que surgira na Alemanha no séc. XX e que, atravessando as artes plásticas, a literatura, a música, o próprio cinema, era vanguarda inequívoca de uma nova forma de entender a arte, onde predominaria a expressão interior do artista, por oposição a qualquer outro movimento positivista, associado, nomeadamente ao impressionismo.
A “expressão” implicaria encontrar a cor pura, também no dizer do escrever, e assumi-la sem receio ao Fauvismo, andamento artístico (em francês les fauves, “as feras”) que, segundo Matisse visaria o equilíbrio na serenidade e na capacidade de atingir o estado de graça das crianças e dos selvagens. Por esta interpretação, a mera observação da realidade nunca mais bastaria a Rilke.
Com dez desenhos de Júlio Resende e com uma organização e tradução de Vasco Graça Moura encontrei em 2004 o lindíssimo livro “Carrossel e Outros Poemas” de Rainer Maria Rilke, numa edição da ASA.
Do prefácio de Graça Moura explica-se a ideia de indagar como é que os animais existem na poesia de Rainer Maria Rilke.(…) e porque, diz Rilke, “ há entre as coisas e os animais um numeroso acontecer”, aponta-se por um lado a uma profunda concordância dos ciclos e ritmos da vida e, por outro, à importância de certas formas de vida para a eclosão de uma poética.
Já lera eu que por causa de um verso, teria de se conhecer como voam os pássaros e como as flores se abrem pela manhã, e por toda esta heterogeneidade
Os golfinhos
Eis cardume que alegre ia cruzando
como a sentir que as ondas completava:
quente e afeiçoado, cujo bando
de confiança o rumo coroava,
ligeiro em torno à proa se ligando,
como a dobrar de um vaso a redondeza,
e feliz, descuidado, ante a surpresa
seguro, e ora álacre a subir,
ora a dar troco à onda a submergir,
e fazendo a trirreme ir avançando.
E o marujo
(…) um mundo
e achou para consigo
que ele ama deuses, jardins e melodia
Não se diga que Rainer Maria Rilke não é o poeta de uma significação que até sacode a própria vida no mar. E deste jeito um outro Rilke, mais escondido, mas não menos proa.
TERESA VIEIRA
BLOGUE DO CENTRO NACIONAL DE CULTURA

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