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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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DESABAFO SAUDOSO…

 

"Querido Camilo Português,
Escrevo-te em desabafo de velho saudoso, pois já não ouso lembrar do mesmo a Princesa de mim. Há meio século perdi o único filho que tive, anjinho ainda. Doeu-me uma dor que não se explica, nem por analogia. Quem alguma vez a sofreu  -  e são miríades  -  sabe bem que não há dor igual, nem ela jamais poderá ser repetida. É sempre única como a vida de cada um de nós. Não se escolhe nem é possível afastá-la. É só essa dor tão funda de um amor perplexo. O amor, em princípio, tudo vence e perdoa, tudo suporta e espera. Mas não sabe lidar com a perplexidade. Aí, só lhe resta o sofrimento, duro, duríssimo, acusador e estéril...Rezei muito, como Calígula pedindo, louco, a lua a sua mãe... Era-me impossível balbuciar sequer o "seja feita a Vossa vontade", como Jesus nos ensinou a dizer no Padre-Nosso. Pedi incessantemente o milagre que desejava e queria. Foi-me dado o milagre que não entendia: a transformação do sofrimento em serenidade.
O sofrimento continua, está e ficará para sempre no meu coração. Mas é hoje um dom, tem a serena generosidade de uma oferta. Como a eucaristia: o pão permanece sendo materialmente pão, e o vinho, mas já não são nem uma nem outra coisa. A morte de Cristo transforma-os num corpo ressuscitado que vive nesse mundo misterioso e presente que é a comunhão dos santos, onde, pelo meu filho perdido, eu também participo com o meu sofrimento. Morto ou louco, ou perdido por aí, que diferença fará? O amor encontra sempre tudo e tudo repõe em seu lugar. Foi a força imensa do meu sofrimento que me levou a perceber que não temos de saber onde estamos,nem como. Temos apenas que procurar o amor que devemos. Pois só no amor que damos nasce a vida. Nota bem: eu nunca conheci aquele menino, nunca sequer conversámos. Nasceu e foi-se embora, levando consigo apenas o nome que recebera pelo baptismo no segundo e último dia desta sua vida. Foi a minha alma a correr atás dele: «Wie soll Ich meine Seele halten dass Sie nicht an deine rührt»? O grito da paixão de Rilke por uma mulher era, no meu coração, a razão da partida da minha alma para esse limbo escuro onde, dizem, os inocentes que o tempo não chegou a provar esperam o que também nós desejamos ver... Ou será que já lhes foi dada a visão que não temos? A realidade será como Deus: manifesta-se em todas as coisas, mas não é pela via das nossas sensações, "evidências" ou afirmações, que conheceremos a sua verdade íntima. Tal encontro só poderá dar-se no silêncio e no escuro e, ao longo da vida, mais não será do que perseverar na fé numa promessa. Essa que está connosco e é o único antídoto contra o peso insustentável do absurdo. Deus não é uma certeza antropomórfica. É O Invisível. Sei que está aí. Posso senti-lo no calor e na luz do sol, nos frutos da terra, na imensidão do mar, nos corações generosos e até na pobreza e na doença que, em sua mesquinhez e nojo, encerram uma promessa. Mas não O vejo. Talvez já O veja o menino que me deixou, e por isso corro atrás dele... Pois, se o perdi na terra, procuro-o onde a realidade já não é aparente, mas tão somente a verdade essencial das coisas".

Escreveu-me o Marquês de Sarolea a carta donde retirei este trecho, no ano em que, durante as férias que costumava gozar no seu retiro bávaro, se declarou a doença que, um lustro mais tarde, o mataria. Tenho hoje, sensivelmente, os mesmos anos de vida que ele tinha naquela altura. E fui operado, há doze anos, a um cancro semelhante àquele que o matou. Curiosamente, quando pensei  -  e penso  -  na minha morte, nunca penso em mim, como se esse momento da minha existência fosse meu. Penso nos outros, nos que são mais próximos de mim e por cá ficarão. E em todos os outros que já partiram e que eu, de modo desconhecido e indizível, irei misteriosamente encontrar. Não sinto solidão na morte. Sinto companhia. Teresa de Calcutá percebeu isso: sentiu intensamente como, no momento da morte, acharmo-nos sós é rompermos com a essência do amor, que é a comunicação, a presença dos outros no nosso coração, a comunhão. É isso o inferno: a solidão final. Assim quis fazer companhia aos mais desamparados, para que os que nada têm se sintam, na hora da morte, a entrar na comunhão dos santos.

Camilo Martins de Oliveira