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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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LONDON LETTERS

The extraordinary Mr Ignatius Sancho, 1729-80

 

A história ainda hoje contém algo do domínio do fantástico. Observando o estado da democracia no mundo em 2013, a forma como a civilização trata as ditas minorias desfavorecidas ou mesmo os rostos nas Houses of Parliament a poucas semanas de mais um Queen’s speech a inaugurar nova sessão da legislatura, compreende-se o quanto aquele feito isolado possui de extraordinário. Mr Ignatius Sancho simplesmente exerce o seu voto livre. ‒ L’ami de Monsieur Laurence Sterne. Na qualidade de proprietário, no caso: dono de uma loja em Charles Street que vende “the best Trinidado' tobacco”, o antigo mordomo do Duke of Montagu opta pelo partido Whigh de The Right Honourable Mr Charles James Fox. – Hum. He chooses the arch-rival of Mr William Pitt the Younger! Com tal gesto inscreve o nome na peculiar história dos direitos humanos enquanto demonstra o que de excecional possui the rule of law.

 

 

Mr Sancho é o primeiro negro a votar na democracia de Westminster. Invoca a lei quando os fumos da guerra americana assombram o império e London anda surpresa com ousada circulação de um jornal ao fim-de-semana, o Sunday Monitor, na linha da British Gazette. Ele é também o primeiro autor não-branco a ser editado na ilha e pertence-lhe o rosto que está num dos mais reproduzidos quadros do Royal Albert Memorial Museum: Portrait of an African, já estampado no Royal Mail e em 1782 complementado por uma biografia escrita por Mr Joseph Jekyll. Os amigos de The Telegraph tratam-no agora como a “famous immigrant to the UK,” eventually porque nasce num barco negreiro no Atlântico entre os resgatados para o muito trabalho que havia a fazer no reino de George III e ter crescido entre os black domestics da aristocracia hanoveriana. Batizado em homenagem a Don Quijote, a vida deste escravo é feliz. Entra ao serviço dos Montagu, acede a educação que lhe possibilita escrever tanto música como poesia, encanta a família de Greenwich e a duquesa doa-lhe razoável quantia quando colocada face a convicto dilema sobre se prefere um escravo morto ou um homem livre.

 

A relação entre política e sensibilidade é controversa, tal qual, no mínimo, quanto com o senso. O discurso abolicionista proferido por William Wilberforce na House of Commons em 1789 logo é acusado de sentimentalismo e de cedência ao gosto plebeu. O realismo da época percebia o quão valiosa era a mercadoria na economia e os impostos sobre tal comércio para o Treasury. E o incontornável facto é que, após os dúbios condicionalismos de 1807, The Slavery Abolition Act apenas é aprovado em 1833. Aliás, mesmo quando determina que a escravatura está proibida no British Empire, o parlamento exceciona os territórios na posse da East India Company, bem como as ilhas de Ceylon e de Saint Helena, cuja singularidade dura até 1843. Vinte anos antes, em 1823, a Anti-Slavery Society fora fundada para promover a abolição legal do tráfico humano. Entre os membros incluem-se perplexos como Joseph Sturge, Thomas Clarkson, Henry Brougham, Mary Lloyd, Elizabeth Pease ou Anne Knight.

 

Em dias de conclave papal em que Roma convoca a reflexão sobre a condição da família humana, e não só dos direitos de sufrágio, o mais interessante do episódio eleitoral georgeano é que o shopkeeper de Westminster informa um seu amigo do voto, em carta privada, com o mesmo tom com que anota uma qualquer trivialidade de Mrs Sancho ou diz do teatro nos seus tempos livres. Ignatius S derruba séculos de preconceitos contra todos a quem se nega a dignidade humana. Dele, a apresentação que endereça ao autor de The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman: “It would be an insult on your humanity (or perhaps look like it) to apologize for the liberty I am taking.—I am one of those people whom the vulgar and illiberal call ‘Negurs’." Ah, um detalhe que ressalta de The Letters of Ignatius Sancho. O extraordinary negro pertencia à raça dos intelectuais.

 

St James, 12th March

 

Very sincerely yours,

 

V.