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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

de 25 a 31 de março 2013

 

«As Ideias de Eça de Queirós» (1943 e Gradiva, 2000) e «A Tertúlia Ocidental» (Gradiva, 1990) são dois exemplos muito ricos da vitalidade intelectual e crítica de António José Saraiva (1917-1993). À distância de mais de quarenta anos, nota-se uma vivacidade intuitiva única e uma extraordinária capacidade de se repensar e de lançar novas pistas e novos argumentos.

 

 

UM LUGAR FUNDAMENTAL

Vinte anos passaram depois da morte de António José Saraiva (AJS). O seu lugar na história da cultura em Portugal é fundamental, e o seu percurso representa uma certa evolução crítica do pensamento português. Desde os anos quarenta aos anos noventa, o ensaísta foi refazendo o modo de ler a realidade – desde o materialismo histórico à sua contestação, perante as lições da realidade. O Centro Nacional de Cultura e a «Raiz e Utopia», a revista que fundou na primavera de 1977, foram lugares dessa inquietação. Helena Vaz da Silva diria: «Éramos um punhado, com António José Saraiva à cabeça. Queríamos restaurar a importância do pensamento autónomo, nem enfeudado ao modelo político de Leste – que então imperava ainda, no rescaldo do verão quente de 75 – nem satisfeito com o modelo economicista de mercado que se apresentava como única alternativa àquela. Nós queríamos uma terceira via – personalista “après la lettre”, ambientalista “avant la lettre”. Não prescindíamos de pensar a sociedade, mas queríamos também melhorar a vida». Sobre AJS os exemplos poderiam ser vários, mas recordo um caso especial do seu caminho crítico. Em 1943, em «As Ideias de Eça de Queirós», falava do «fradiquismo», como um sinal misterioso. Era um sintoma português de incomodidade e de desintegração. «Fradique definiu-se a si próprio como um turista. “A egoísta preocupação do meu espírito”, escreve ele a Oliveira Martins, “consiste em me acercar duma ideia ou dum facto, deslizar suavemente para dentro, percorrê-lo miudamente, explorar-lhe o inédito, gozar todas as surpresas e emoções que ele possa dar, recolher com cuidado o ensino ou a parcela de verdade que exista nos seus refolhos – e sair, passar a outro facto ou a outra ideia, com vagar e com paz, como se percorresse uma a uma as cidades dum país de arte e luxo. Assim visitei outrora a Itália, enlevado no esplendor das cores e das formas. Temporal e espiritualmente fiquei simplesmente um turista”». Ao lado de Carlos, de Ega, de Ramires ou de Jacinto, Fradique Mendes sofria de insatisfação, procurando finalidades fictícias, como um incorrigível romântico. Eça explicitava-o. Carlos e Ega não suportavam o ambiente. Jacinto estava desgarrado perante a natureza. Ramires, «como um cavaleiro da Távola Redonda, vai procurar longe a aventura». E lembremo-nos da alegria dele quando se viu eleito deputado por Vila Clara. A África será, depois, «o espaço inteiramente livre onde o romancista podia deixar crescer sem barreiras o eu de Gonçalo». E AJS interpreta corretamente (dando-nos uma chave verosímil) o fenómeno que vemos na «Ilustre Casa», que não é o colonialismo, mas a atração pelo desconhecido. Recordem-se, aliás, «As Minas de Salomão», onde Gonçalo busca motivo de inspiração.

 

O GRANDE MISTÉRIO… 

E é muito curioso ver como o grande mistério da Torre de Ramires se começa a desvendar. Estando-se perante a obra mais incompreendida de Eça, porque a história pátria veio a introduzir fatores perturbadores na compreensão de um romance simbolista inovador, de facto o que há é um enigma geracional, que tem a ver com a decadência e a recusa do fatalismo da irrelevância. Mas há uma contradição severa. «Fradique detesta no burguês, a par da origem viloa, o apego ao dinheiro e a ideia de que o dinheiro é a única força». Daí a crítica ao nivelamento democrático, «“como o bom Tarquínio” que cortava as cabeças das papoulas mais altas». Este o paradoxo de Queiroz, que caricatura em Fradique a resistência da sociedade, encontrando um motivo quase fútil de claustrofobia. É que, bem ao contrário de Fradique (e dos seus companheiros de ambiente romanesco), a geração coimbrã de Antero e dos seus acreditava numa outra relação entre a liberdade e a igualdade, diferente da romântica. AJS, porém, considerava, nos meados de quarenta, o fradiquismo como «uma desistência de agir sobre o meio e as condições sociais». Eça deparar-se-ia com a dificuldade de combater a mediocridade, a plutocracia, a destruição dos valores não mensuráveis em dinheiro. Com que meios? E talvez essa incapacidade teria gerado o tal fradiquismo? Ou este não seria outra coisa senão a demonstração de que era preciso superar a indiferença, voltando à justiça e à igualdade? O paradoxo era iniludível. «Toda a ideologia estava para aquém. Essa ideologia consistia na evolução, que conduzira a um ponto diferente do que ele esperava, e na igualdade como norma e fim dessa evolução – que afinal conduzira à desigualdade». Eça ter-se-ia desinteressado. E o próprio «esforçado Oliveira Martins» acabaria a cultivar a «flor da arte» ou outras flores. E então AJS fala de uma evasão…

 

UM CRÍTICO INESGOTÁVEL

Os anos passaram. AJS continuou a estudar e a pensar, como inesgotável crítico, mesmo de si. E considerará no extraordinário ensaio de ideias e intuições que é «A Tertúlia Ocidental» (1990), que havia no texto de quarenta «uma súmula de clichés então reinantes sobre o escritor». «De facto o lento desenvolvimento da mentalidade portuguesa tornava ainda atual em 1945 a caricatura que Eça fez da nossa sociedade em “As Farpas”, «O Crime do Padre Amaro» e «O Primo Basílio», obras que continuavam vivas graças à extraordinária arte do escritor». Tratava-se, contudo, de uma análise parcelar – partilhada mesmo por autores insuspeitos de serem próximos de António José. O certo é que, para o ensaísta, importaria dar uma especial atenção à afirmação escrita por Eça no prefácio à obra «Azulejos» de Bernardo Pindela, que muito surpreenderia Oliveira Martins: «A arte é tudo, e tudo o mais é nada». Aqui estava o busílis. O perigo da ilusão perturbava quem ainda cria na ação e na política. Mas o certo é que Eça tinha escrito a Luís de Magalhães a alertá-lo: «Não se deixe levar pelas teorias abomináveis do amigo Oliveira Martins sobre a sinceridade da emoção». Não poderia esquecer-se a fórmula essencial «sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia» de «A Relíquia». O «manto da fantasia» era o domínio da arte, que Eça cultivava e que dominava o pensamento de Carlos Fradique e da sua Correspondência. No fundo, o paradoxo tinha como polos não apenas a ação e a indiferença, mas também entre a vontade e a arte. E AJS concluía: «Hoje as ideias de Eça de Queiroz (que não são exatamente as que lhe atribuímos em 1945) aparecem-nos principalmente como temas de arte, tal como na “Correspondência de Fradique Mendes” são pretextos para cartas». Neste percurso intelectual, vê-se bem a qualidade do pensador: persistente na exigência crítica, interrogador constante, arguto analista de ideias e de factos, perscrutador de paradoxos, entendedor da complexidade e permanentemente disponível para dar os passos necessários para vante e para trás. E não se pense que há menor coerência. Se bem virmos as coisas, à distância de mais de quarenta anos, há idêntica preocupação com o valor da interpretação do fenómeno criador.   


Guilherme d'Oliveira Martins