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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EFEITO DE UM SAKÉ QUENTE…

 

Camilo Maria esteve no Japão, em duas estadias relativamente longas, mais de dez anos antes de mim. Apanhou um Japão esforçado, a tentar redimir-se do que simultâneamente sentia como o erro e a culpa da guerra que, ao gosto napoleónico (?), as elites militares da era Showa tinham insistido em chamar "pan-asiática". E, mais ainda, um povo que,  por educação e tradição, valorizava a comunhão com a sua natureza e os seus antepassados. E, por esse sentimento profundo de pertença e dívida (que é motivo de dádiva), conseguia encher a consciência de brio, isto é, da vontade de bem fazer  -  ou fazer bem  -  o que nos é confiado. Reside, neste fundo solidário da alma, a receita secreta, única, de tantos êxitos do Japão. E, no apagamento possível (?) dessa consciência do dever solidário (que é dádiva), na eventualidade de se trocar a comunhão com o nosso sentido de nós e  dos outros (que é a responsabilidade), de se "substituir o valor pelo preço", talvez se venha a desenhar a perda dos frutos, pois não há frutos sem árvore. O Japão da era Meiji (1867-1912) é uma força nova no concerto das nações, sai de dois séculos e meio de relações cortadas com o mundo para um deslumbramento na emulação das potências ocidentais... E consegue, logo em 1905, ser a primeira potência asiática a vencer, em guerra, uma potência europeia (o Império Russo). "Moderniza-se", mas rasga a alma. Entre os que insistem na necessidade de ser tão "desenvolvidos" e fortes como os "maiores" (ocidentais) e proceder em tudo como eles (inclusive em pretenções colonizadoras de outros povos), e os que defendem a preservação da alma e do modo nipónico, está o drama de muitos intelectuais e populares que,intuindo a duração e a demora, procuram um equilíbrio naquele momento impossível. A "modernização" comanda a industrialização e urbanização de territórios e pessoas, o enquadramento social e ético tradicional vai perder-se...  Finalmente, goradas as expectativas "liberais" da era Taisho (1912-1923), chegará a hora fatídica em que forças reunidas num "complexo militaro-industrial" (que os EUA voltariam a reconhecer, no seu próprio caso, depois da tal guerra), poderão desencadear a barbárie que sabemos. Como Camilo Maria observou, numa das suas cartas à Princesa de..., é comovente e perturbante essa contradição (conflito?) da alma japonesa, entre o "giri" e o "ninjo"… A novela de "O médico e o monstro", de Stevenson, é pós-iluminista e romântica, coloca tudo no âmbito dos sentimentos pessoais, como se a consciência fosse um universo individualista. A consciência japonesa, como aqui falamos dela, está inicialmente dividida, não entre o mal e o bem  - como nós moralmente os separamos  -  mas entre mim e a minha circunstância (terá o grande Ortega sonhado com isto? Ele me perdoe!). Por convenção tradicional, isto é, por uma sistematização da educação que, na oscilação das épocas e dos regimes  -  e imponentemente desde o século XVII  -  sempre procurou normalizar as gentes, as classes e comportamentos delas, o "giri" foi condicionante. Camilo Maria definiu-o  - e bem  - como sendo "a obrigação de se comportar, para com os seus círculos familiares e sociais, de acordo com as normas de reciprocidade, fidelidade e obediência, seja qual for o sacrifício exigido"... Para mim, é admirável, mais do que a obrigação do "giri", o milagre da sobrevivência do "ninjo" que tão bem se expressa nas obras dos artífices e artesãos japoneses. Volto a Camilo Maria: "A arte, o "design" japonês, minha Princesa de mim, distinguem-se por uma intuição da assimetria. Na natureza, tudo é como é, e a arte não tem de a violentar. O olhar do artista contempla, não embeleza. Tenta perceber, no gesto com que desenha ou molda, a essência mutante e permanente das coisas. O Verbo que criou o mundo não é lógico. O logos é inicial, criador e sempre amante. A arte é um caminho de conversão. A obra de arte é o fruto da transformação do amador na cousa amada. Nós, os ocidentais, não resistimos à tentação edénica da pressa em explicar tudo. Por isso reduzimos tudo à nossa imagem e semelhança.  Tenho visitado museus e exposições... Mas nada me dá o gosto, sentido na alma, tão livre e enorme, como o de olhar para uma peça rudimentar de cerâmica, bambu ou pano, na tenda de um artesão de Kyoto. Esses homens e mulheres acolhem-me sem pressa nem objetivo, apenas com um sorriso tão discreto que só pode estar na alma, e comigo contemplam o misterioso encontro de mãos humanas com a natureza. E é no reconhecimento desse encontro que reside a alegria e o valor sem preço daquela obra. Só um silêncio comungado pode celebrar esse entendimento íntimo. Assim também te sinto no silêncio infinitamente secreto do coração, quando à noite rezo e dou graças a Deus por sentir tão bem tantas coisas que não sei explicar. Aconchego-me-te neste mistério". Numa folha solta, talvez perdida de um maço de apontamentos sobre o gosto japonês, encontrei este manuscrito do Marquês de Sarolea,onde se fala de um célebre restaurante tradicional de Kyoto, o Waranji-ya, onde também já tive o prazer de um delicado jantar: "Se me pusesse agora a escrever sobre estética japonesa,parece-me que anteporia às minhas considerações um trecho do "Iniei Raisan" (o elogio da sombra) do Junichiro Tanizaki. Ocorreu-me há pouco, enquanto saboreava, em cerâmica do século XVIII, o meu jantar no Waranji-ya. Reza assim: "Quando substituiram a lâmpada eléctrica em forma de lanterna por uma candeia ainda mais escura, e pude então observar as travessas e as tijelas à luz vacilante da chama,descobri, nos reflexos das lacas,profundos e espessos como os de um lago,um encanto novo e todo diferente. E soube que se os nossos antepassados tinham descoberto esse unto que tem por nome "laca" e se tinham deixado enfeitiçar pelas cores e o lustro dos utensílios dele revestidos,isso não fora fruto do acaso..." Inspirado, pedi também que, na minha sala, substituíssem a lanterna elétrica pela candeia antiga. E ganhei uma experiência estética nova, até na contemplação da gravura ao gosto chinês,do vaso de barro e do arranjo de flores dispostos no "toko no ma". E lembrei-me do Georges de la Tour, do Menino que alumia, com uma vela segura por sua mão, o S. José carpineiro que prepara o madeiro da crucifixão... Será, quiçá, efeito do "saké" quente que me ajuda a abrir memórias e, por vezes, as confunde. Sorrio, pensando nessa verdade que Bernanos tão bem disse em "La Joie": Tudo é graça!"
  
Camilo Martins de Oliveira