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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OS 120 ANOS DE ALMADA: A POTENCIALIDADE DO ESPETÁCULO

Já aqui dissemos que o teatro de Almada, nestes 120 anos que se assinalam, está em parte por conhecer. Iremos falando dele, bem como no teatro e na obra doutrinária e pedagógica de Fernando Amado, amigo da vida inteira e que o ajudou a revelar: o CNC e a Casa da Comédia, entidades convergentes em pessoas e em espírito e ação cultural, estiveram ligadas a essa grande obra como a seu tempo veremos.

Aliás, ao Fernando Amado são dedicadas variadíssimas obras de Almada.

 

Mas hoje referimos aqui Olhos de Gigante, evocação/adaptação de “O Menino de Olhos de Gigante” e de outros textos de Almada, que o Teatro “O Bando”, dirigido por João Brites, leva à cena.  Diálogo de dois personagens, aliás excelentemente interpretados por Ana Brandão e Rui Atalaia, e com suporte musical de Gil Gonçalves, o texto ilustra bem a dimensão de espetáculo de toda a obra de Almada - seja ou não escrita diretamente para a cena.

 

Ora, precisamente, o longo poema denominado “O Menino de Olhos de Gigante”, não sendo escrito para a cena, envolve e transmite um sentido espetacular que se casa com a visão introspetiva contida na respetiva dedicatória, chamemos-lhe assim: “ Dizem que sou eu, o Menino de Olhos de Gigante; e eu juro, pela minha boa sorte, que não sou só eu” …

 

Não se trata pois, no espetáculo de “O Bando”, de uma leitura cénica direta, mas antes de uma evocação da obra de Almada, a partir da transformação em diálogo de textos diversos e dispersos. E é oportuno então lembrar que o poema original, datado de Sintra- Outono 1921, contém uma espécie de reflexão panteísta, permita-se a expressão, do homem face a si próprio e face á natureza, transposta, neste espetáculo, através de um diálogo de dois personagens que remetem para a beleza e profundidade do “Antes de Começar” (1919), esse sim, escrito diretamente para a cena.

 

E entretanto, o poema em si contem a tal dimensão de espetáculo que não é demais referir. Por exemplo:
“Lá em baixo a descansar/’estava a cidade deitada:/tão pequenos os telhados/vistos do alto da serra/qu’ era os olhos de espantar/e de não se acreditar/ter por baixo dos telhados/grandes casas d‘habitar”…

 

Esta evocação traz implícita a espetacularidade de toda a obra de Almada, o seu sentido plástico, digamos mesmo paisagístico… E o texto agora encenado, somatório articulado de tantos textos, contém as referências à ligação entre o teatro e as artes plásticas que são o cerne da obra geral de Almada.

 

E se sintetiza nas falas do Menino dirigidas ao Gigante que lhe quer roubar os olhos, tal como por exemplo no diálogo do Boneco e da Boneca em “Antes de Começar”, do “Pierrot e Arlequim Personagens de Teatro”, ou da Vampa e do Freguês ou de Ela e Ele no “Deseja-se Mulher” - e por aí fora, como iremos vendo nós também!

 

Duarte Ivo Cruz