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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ALMADA E FERNANDO AMADO, COLABORADORES E DOUTRINADORES DA ARTE DRAMÁTICA

 

Vamos analisando, nestes textos, a colaboração e mais do que isso, a convergência de Almada Negreiros e de Fernando Amado em torno da teoria e da prática da arte do teatro. Muito colaboraram, como sabemos e temos dito, na Casa da Comédia e no CNC - aliás, ambas as entidades estão historicamente e culturalmente ligadas. Vamos referindo essa convergência através de textos e de evocações.

E precisamente: ao teorizar num texto intitulado significativamente “O Meu Teatro”, Almada abre com uma dedicatória evocativa dessa colaboração. “A Fernando Amado que pôs em cena duas peças minhas: sinto-me pago em artista e em amigo”. Outras encenações se seguiriam. A amizade e a colaboração intelectual e artística duraram décadas, e não impedia os debates e a controvérsia.

Por exemplo: a encenação e os ensaios do “Deseja-se Mulher”, peça editada em 1959 e por essa altura encenada por Fernando Amado na Casa da Comédia, em parceria com o CNC, ficou marcada por debates entre o autor e o encenador, e deles resultou um espetáculo que ainda hoje se recorda com entusiasmo.

Em qualquer caso, no texto sobre “O Meu Teatro”, Almada disserta não só sobre o (seu) teatro mas sobre a arte dramática e o espetáculo em geral. Aliás, como iremos vendo, essa teorização é constante e recorrente. No caso que agora nos ocupa, Almada elabora uma teoria geral da ligação entre o teatro e as artes em geral - e esse, insista-se, é nele um tema recorrente.

Diz Almada:

 “Teatro é o escaparate de todas as artes.

Todas as artes são todas as peças da mesma coisa.  

Perguntaram-me se teatro não era a mais facil das artes.

Respondi: não há artes mais fáceis, qualquer delas é facilidade. Teatro é facilidade ali à vista de todos.

Arte é tornar fácil o difícil. O difícil é o espontâneo. Este vem no fim. Pois quando foi primeiro não estava lá o próprio”.

O texto, tal qual como Almada o escreveu, contem já de si, na estrutura dos parágrafos, uma oralidade “espetacular” - no sentido mas abrangente do termo! 

E podemos cruzar este texto de Almada com o Prólogo que Fernando Amado leu na estreia da sua peça “A Caixa de Pandora”:

“Este é o Prólogo, É o pequeno ato representado por uma única personagem, antes da peça.

O que se vai dizer não intervém diretamente na ação. Também não é arrazoado inútil.

Corresponde a uma ideia teatral, já se vê. As palavras proferidas aquém do reposteiro têm algo de confidência. E os espetadores costumam apreciá-las - sobretudo os que detestam o improviso - porque nelas transparece o cuidado do autor em aproximar a plateia da cena.

Para que não haja equívocos nem percam tempo em imaginações”…

 

DUARTE IVO CRUZ