Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

O TEMPO PARA REFLETIR

 

"O tempo para refletir e comunicar era mais lento e por isso as ideias e os discursos duravam mais"... Respondi certamente em tempo oportuno à carta de Camilo Maria que contém esta afirmação. Mas não me lembro já do que disse, e de novo lhe respondo, mais de quarenta anos depois. A evolução veloz dos meios de comunicação (media, em latim, que o português pingarrilho gosta de pronunciar "mídia") permite-nos hoje estar em rede, isto é, presente numa articulação de mensagens em vários sentidos, veiculadas pela escrita eletrónica, pelo som e pela imagem disponíveis e alcançáveis por qualquer computador portátil. Passar de um meio de comunicação a outro é fácil, falar de dia com alguém que está na noite do outro lado do mundo é instantâneo. Escreve-se, diz-se, mostra-se tudo o que ocorre, imediatamente. A tal ponto que, visionário, já no princípio dos anos 60 do século passado, Marshall McLuhan dizia : "A mensagem é o medium" (o meio de comunicação). Reside aí o motivo de uma primeira interrogação: como se mantém e evolui a identidade de cada um,sem o tempo (que é ocasião de reflexão e circunstância de densidade,de substância) a dar-lhe a distância necessária a definir-se? A referência do Marquês de Sarolea a "The Triumph of Vulgarity"  -  que aliás foi mais tarde o título de um livro de Robert Pattison, com o subtítulo "Rock Music in the Mirror of Romanticism"  -  pode traduzir algum elitismo aristocrático, mas levanta uma segunda interrogação: onde poderá levar-nos a democratização global da transmissão de conhecimentos e ideias, de valores enquanto referências éticas e estéticas, numa rede em que se torna impossível  -  para quem não tenha educado, na família ou na escola, o espírito crítico  -  distinguir entre propostas e autores com maior ou menor fundamentação? Na verdade, como já McLuhan observara, "a tecnologia não produz efeitos ao nível das ideias e dos conceitos; o que ela muda, sim, a pouco e pouco e sem encontrar a menor resistência, são as relações dos sentidos e os modos de percepção". Penso que só será possível viver em rede humanamente  -  como ser racional e livre, pessoa única mas em relação  - se as famílias e as escolas, em vez de despacharem as crianças para o "surfar a net" ou o "zapping" televisivo, trabalharem na construção das personalidades, pela aprendizagem da reflexão e do tempo, do espírito crítico e do juizo. Do respeito do outro e do diálogo, apenas possíveis se em presença estiverem identidades diferentes e que convivam. Cito um jovem filósofo francês, Jean-Claude Monod: "O poder neo-liberal funciona cada vez menos pela interdição e cada vez mais pela liberdade, de circular, de consumir. Não é um poder que proíba, mas empurra para um comportamento. Como diz Axel Honneth, daí resulta uma forma de coisificação do indivíduo, uma incitação a apresentar-se a si mesmo como um produto: classificamo-nos, damo-nos notas de mais ou de menos,subimos ao palco. Nas redes e novas tecnologias, adotamos um formato, um estilo, uma maneira de ser. Foucault falava da pressão do parecimento, inclusive no interior de movimentos de emancipação". Tal desejo de assemelhar-se, de ser parecido com todos, é inato ao ser humano. Na educação das crianças, sabemo-lo bem, o exemplo dado é fundamental: funcionamos muito, em pequeninos, por mimetismo. Mesmo a norma social, antes de ser direito positivo, responde à necessidade de pautarmos uns pelos outros, os comportamentos. Por sso a expressão "normal" tanto tem a ver com o normativo como com o habitual. Mas o que dantes resultava da convivência das pessoas, presentes umas às outras, é hoje, cada vez mais, produzido no isolamento de quem se encontra ligado ao telemóvel, ao televisor, ao computador, que assim tornam virtual o encontro, e simultâneamente condicionam uma visão do mundo e dos outros em que o que parece é. E em que os afetos já não ligam, porque se vão tornando na projecção narcísica de sonhos e desejos próprios... Por isso também as escolas não devem ser fábricas de habilitações e diplomas, mas centros de convívio, nesse preciso sentido de lugares onde se aprende a viver com os outros. Daí a importância das atividades ditas "extracurriculares", desportivas e recreativas, culturais e turísticas. É mais positivo da sociedade futura formar gerações que vejam mundo, e  aprendam a pensar e distinguir valores e ocasiões,do que produzir robôs cujo "software" é a instrução administrada e cuja circunstância é a confusão de si com uma rede de informação electrónica em que não se controlam. Temos assistido, hoje em dia, a movimentos de massas humanas, estimuladas e arrebanhadas por mensagens anónimas e motivações que exploram simplisticamente frustrações (v.g. as "primaveras árabes" e várias manifestações de "indignados"). As transmissões televisivas de debates parlamentares ou entre os chamados "comentadores" revelam um aflitivo vazio de ideias, na repetição previsível de lugares comuns "programados"... É tudo sempre "mais do mesmo". Não se interpela, nem desafia a inteligência do outro para a análise cooperante e a procura de soluções. Tudo são mensagens publicitárias, nem já política se faz, mas apenas, roboticamente,"marketing" político. Falta-nos estatura intelectual e moral, entretemo-nos com o episódio, não conseguimos ver nem por cima nem para além dele. Nunca a mesquinhez foi tão vaidosa, nem tão curta a miopia. Nem tão potente esse misterioso instinto de aniquilação... Por regra, os políticos  - que se tratam de "líderes" e "governantes"  - discursam (nem sempre procedendo, depois, em conformidade) para os seus mercados internos, onde mais se lhes projecta e ecoa a vaidade, e se ganham votos. Qualquer cidadão atento aos sinais dos tempos sabe, p. ex., que a "crise" económica e financeira do seu país não tem solução possível num quadro político nacional, nem tampouco no cumprimento de medidas impostas do exterior, altamente gravosas para os povos, e apenas servindo para o contentamento possível de credores estrangeiros. A questão de fundo é saber como poderemos encontrar o caminho diplomático, político e jurídico, que nos conduza à superação do grande défice  -  que o vazio de instituições, normas e comportamentos internacionais gerou: a ausência de democracia global num mercado global. Antes de que a guerra em que, inconscientemente, já estamos envolvidos, assuma proporções militares. O capital que por aí anda à solta pode alimentar megalomanias políticas hegemónicas... Todas as 6ª feiras, de 27 de Julho a 19 de Outubro de 2012, fui confidenciando, no blogue do Centro Nacional de Cultura, reflexões que me habitam e perseguem interiormente. Todas, desta ou daquela maneira, vão desaguar no mesmo mar de interrogações (quando me sinto optimista) ou de preocupações (quando menos esperançoso): será ainda possível ganharmos uma consciência moral para os novos tempos? Como reacreditaremos a função libertadora das elites (não digo a frustração ditadora de quem se sente minoritariamente com razão, nem o papel condutor,no sentido de um fio de cobre, de quem se salvaguarda a si por "surfar" na onda explosiva das massas), função libertadora das consciências e tão necessária ao exercício do juízo pessoal, sem o qual não haverá democracia possível? Estaremos irremediavelmente intoxicados? O silêncio, como meditação no tempo que nos colhe, é a circunstância da prudência. A prudência não é "sonsice", nem reserva mental ou hipocrisia. Não é cálculo. É a abertura interior à vontade de benquerer. Para que, vencido o egoísmo, a generosidade seja um ato inteligente verdadeira vontade de fazer bem. Tenta evitar a precipitação.  Ocorre-me um exemplo extravagante mas real: o atentado mortífero e bárbaro de 11 de Setembro de 2001 foi rejeitado por muitos muçulmanos e seus representantes, que não o aceitaram nem reconheceram como ato islâmico; por cautela, as vozes oficiais do "Ocidente" também proclamaram que não devemos confundir alhos com bugalhos; mas um presidente dos EUA, talvez exprimindo o que ia no subconsciente de muitos, ao lançar a guerra contra a Al-Qaeda e (porquê?) o Iraque, falou em "CRUZADA contra o terrorismo"! E é frequente ouvirmos, aqui e ali, vozes que insistentemente querem confundir o Islão com o Mal... Por isso também aplaudiram as "primaveras árabes" como sabotagem interna do mundo muçulmano. Ora, se quisermos construir a paz pelo diálogo, teremos de ser, primeiro, o que somos; e também os que querem perceber o Islão na sua diferença. Traduzirei uma carta de Camilo Maria, que nos fala da acção do padre Chenu (dominicano, Marie-Dominique de seu nome em religião) na fundação do "Institut Dominicain d´Études Orientales du Caire". Hoje, para o Cairo devíamos olhar todos, a ver o que dará a experiência de governo da Fraternidade Islâmica ao futuro da democracia no Egipto. E nos países muçulmanos que, a sul, são a cintura da Europa. Assim responderia eu, em 2013, para o Céu, à carta anterior do Marquês de Sarolea. A tal em que o senti cansado.


Camilo Martins de Oliveira