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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ALMADA E A UNIDADE DO INDIVIDUO E DA COLETIVIDADE

 

Temos presentes as duas peças de Almada que retomam um certo ambiente histórico e social, no plano e na cronologia da época em que foram escritas. São elas “Deseja-se Mulher” (1928), peça referencial do teatro de Almada, e “S.O.S” (1928-1929), peça complementar da anterior mas de que sobrou apenas o 2º ato, publicado em 1935, no número 2 da revista Sudoeste.

 

Recorde-se aliás que a realização cénica do “Deseja-se Mulher” foi feita em 1963 na Casa da Comédia, por iniciativa do CNC e encenada por Fernando Amado.

 

Mas o que aqui hoje queremos lembrar é que, segundo o próprio Almada, ambas as peças integrariam um mesmo texto, ou pelo menos ambas decorrem de um projeto teatral. Almada nos diz, na “Notícia sobre um Ato de Teatro que a seguir se Publica”, o qual antecede, precisamente, a publicação do 2º ato do “SOS”.

 

Faça-se uma longa transcrição, pois é muito mais interessante ler (ouvir) Almada:

«No ano de 1927, em Madrid, comecei a trabalhar uma peça de teatro e na qual a palavra “Unidade” fosse o grande motivo (…) Como porém não era um ensaio o que me propunha especular com essa palavra que reunisse a todos em legitima humanidade, mas sim um espetáculo de teatro onde comunicasse imediatamente com os públicos, depressa a palavra “Unidade” foi completada pelas de “Tragédia da unidade”. (…) Mas na minha mesa de trabalho surgia uma novidade: era materialmente impossível, dentro da aceitação que o público ainda tem do teatro, conduzir o assunto reunindo-o numa única obra».

 

E daí, diz no mesmo texto Almada, a criação de duas peças: “a primeira dessas duas obras recebeu o título de Deseja-se Mulher e a segunda é o

S.O. S.”

 

E de facto, analisadas no seu necessário conjunto, percebemos o que as une e o que as complementa - e não, note-se bem o que eventualmente as “separaria”, porque ambas constituem a “Tragédia da Unidade”. Tragédia no sentido clássico de destino, pois o amor e os encontros e desencontros de Ele e Ela, na primeira, não são diferentes, na essência, dos encontros e desencontros do Protagonista e da Sua Noiva na segunda.

 

E mais: os sucessivos ambientes do “Deseja-se Mulher”, a começar na “boîte-de-nuit” e a terminar no “mar de ondas rudimentar” onde a sereia discute com o marinheiro - na sua simbologia próxima e percursora de certo teatro do absurdo, conciliam-se bem com a “pequeníssima sala de espera “ e com o “gabinete da direção” do “grande jornal O Estado, Diário nacional” do segundo ato (repita-se, único que chegou até nós) do “S.O.S.”

 

Ambas as peças conciliam uma minuciosíssima e de início aparentemente realista descrição das cenas, com um ritmo de falas e ações que contraria e desmente esse realismo aparente. Por que estamos perante uma extraordinária antevisão, em muitas cenas e situações, do que viria dezenas de anos depois, com por exemplo Beckett ou Ionesco… o que mostra a indiscutível modernidade do teatro de Almada.

E as duas peças são uma expressão teatral “única”, mesmo considerando que “Deseja-se Mulher” retrata o amor-individuo, e “S.O.S.” retrata o amor-coletividade. Porque, tal como diz o Protagonista do “S.O. S.” - «a humanidade não pode continuar assim com os seus pedaços para cada lado» pois «temos de colaborar todos em edificar a obra única por cima de todas as cabeças da terra!».

Almada diz que “no teatro todos são um”. E o lema-grafismo do “Deseja-se Mulher” não é precisamente… “1+1=1”?

 

DUARTE IVO CRUZ