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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Uma Casa chamada Ópera de Pequim - 京剧, 京劇


Sentei-me a beber chá enquanto abria em mim a porta do universo do artista que ao meu lado se transformava para que existissem menos obstáculos ao entendimento do que ali se passaria.

No meu peito uma porta aberta, definitivamente aberta, ao lugar onde, falecem raízes que pretendem amarrar a vontade das asas.

Assim preparada, ousei a música, a voz, a mímica, o texto, a dança e a acrobacia que envolve este tesouro cultural da China que, desde os fins do século XVIII, e em formato consolidado na corte da Dinastia Qing, relata as histórias do espírito humano, originariamente só expostas ao imperador.



O mandarim mais arcaico deixa-se conduzir ao entendimento, nomeadamente através dos figurinos que diferenciam as classes sociais, através das cores de significado tão específico se formos preparados no mínimo, para compreendemos, que o branco é a mentira e o preto o atrevimento, ficando o dourado, o jade e o prateado para serem utilizados pelas figuras divinas. E ali, ao meu lado, a ceramica, humana obra, ascendia num redondo nascer, ajudada pelo oleiro dos trajes, que não são dificeis de vestir , pois que afinal, são intentos e são convicções.

 

Os actores da Ópera de Pequim possuem longos e difíceis estudos das múltiplas artes até serem capazes de traduzir o som das chuvas ou das penumbras das tardes.



E eis que para salvar a vida de seu marido Xu Xian, surge, qual beleza pura  Bai Suzhen disposta a entrar nas proibidas montanhas para delas levar consigo a planta mágica dos jardins eternos, que daria vida de novo ao seu amado.

 

A irmã de Bai Suzhen transformara o cunhado numa cobra que seria perseguida e morta tão potente o seu veneno. Fizera provocar esta transformação por inveja e paixão moída de não ser correspondida e não querer suportar a ideia de que, o amor vivia e era sólido entre o casal, apesar das doenças que nele queria ver para encurtar a distância que a separava daquele mundo que tanto pretendia, e desconhecia o quanto a própria mordedura a afastaria sempre de o visitar que fosse.

 

Longos e cruéis e ousados combates teve de enfrentar a mulher que sabia o quanto o tempo era escasso para salvar seu marido Xu Xian.


 


E num domínio coincidente com o reino da vida enfrentou as convicções dos guardas do Monte Sagrado, quase se perdendo, nas pontas das espadas com as quais lutou corajosamente.


 

A agilidade do conhecimento pleno na tutela das ervas e das plantas mágicas, conduzia os guerreiros da Montanha a génios de defesa astuciosos e nunca complacentes à luta exposta de lágrimas que muitas das vezes toldavam os olhos de Bai.

 

Não vim para vos roubar a claridade da meia-noite. Não vim desrespeitar-vos na distância a que me devo aos deuses, mas lutarei sim, porque não é crime, nem sonho, desejar que o meu marido regresse à vida, e possamos voltar a dormir um no outro como um novo primeiro infinito no meio do nosso abraço. Serei a que visita a morte para dar vida a quem me entreguei, e só assim me caço escrava de quem me dá um fim, se assim o entendeis pois que sois muitos.

 

Este o texto que fui criando e escrevendo na minha memória para o levar até aos meus leitores como símbolo do que de mim arranco face à beleza do que vi nesta Ópera de Pequim.

 

E Xu Xian voltará à vida.

Prova a sua amada mulher que existe sim, a incurável e absoluta diferença entre os seres, e que a irmã de Bai Suzhen haverá de continuar a provar o cemitério vazio de vida em que habita. Nenhum feitiço mais utilizará, agora, que a planta mágica se deixou colher pela mulher que enfrentou despedir-se da vida, por amor ao amor vivido ao lado do seu amado que já não terá de sofrer a injusta morte.


Os guerreiros míticos do Monte Sagrado renderam-se enfim, ao reconhecer o atrevimento corajoso desta mulher, e acompanharam-na até às portas do mundo a que ela e seu amado amor recomeçariam vida.

Em rigor, a atitude é válida às causas, e interrompe a ideia dos fins definitivos.

 

Não há adeus à Ópera de Pequim !

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Junho 2013