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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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DE CAMA, ENTRE ITÁLIA E A RÚSSIA

 

Minha Princesa de mim:

 

Estou doente, não saio de casa. Além das dores e maleitas habituais, fui prostrado por um cansaço que me prega à cama. Vou-me distraindo a ler, e hoje também já consegui ouvir um pouco de música. Como não gosto de palavras cruzadas nem de paciências de cartas, para "jogar" um bocadinho, pus-me a ler e comparar libretos de óperas, e pondo algumas a tocar. Assim como quem se entretem com acertar nas diferenças entre dois desenhos semelhantes... Deu-me ainda para intuir estruturas musicais em pinturas (no Kandinsky, por exemplo) ou em textos literários, mas não poéticos (de Gogol? de Tolstoi? de Saint-Éxupéry?). Agora escrevo-te, é uma forma de conversa. "Un Ballo in Maschera" é a mesma história contada pela mesma música, mas decorrendo em duas diferentes épocas e locais, e com personagens diferentes. "Stifellio" e "Aroldo" são duas óperas que contam a mesma história moral em épocas e locais distintos, por distintos registos musicais para distintas personagens. O compositor é Verdi. O causador inicial desses embrulhos é a censura institucional. O "Baile" estreou-se em 1859, em Roma, na versão cujo cenário é Boston, nos EUA, e os protagonistas são Riccardo (Conde de Warwick e Governador de Boston), Amelia (sua mulher) e Renato (seu amigo e secretário). Ricardo e Amélia apaixonaram-se, mas Amélia quer esquecer esse amor, antes que a mútua atracção se consuma no que seria um adultério e a traição de um amigo. À declaração de amor de Ricardo, ela responde com a súplica de que ambos deverão respeitar os seus compromissos de fidelidade e amizade. Ricardo cede e concorda. Mas o dueto foi ouvido por Renato que, pouco depois, descobrirá que a dama é a sua mulher. O ciúme levá-lo-á a querer matá-la e, afinal, a aliar-se aos que conspiram contra o seu amigo. Este será a vítima mortal, num baile de máscaras, pela mão de Renato. Todavia, antes de morrer, consegue ainda proclamar a inocência de Amélia e perdoar a quem o assassinou. Uma história de ciúme, como tantas outras, de que o drama de Otelo será talvez a expressão mais torturada em óperas de Verdi. Mas esta história, cujo libreto verdiano foi escrito por Antonio Somma, baseado numa peça de Eugène Scribe, inspira-se no assassínio histórico  -  em 16 de Março de 1792, por razões políticas e sem motivo passional, ainda que num baile de máscaras em Estocolmo  -  de Gustavo III, rei da Suécia, por um dos cabeças do partido aristocrático e anti-reformista, Jacob Johan Anckarström. Assim, na peça que Scribe escreveu para "Gustavo III" ou "Le Bal Masqué" de Daniel Aubert, e na primeira versão de "Un Ballo in Maschera" de Verdi, tudo se passa em Estocolmo, entre o rei Gustavo III, Anckarström, e Amélia que, com o pajem Óscar, é a única personagem com o mesmo nome nas duas realizações. Mas a estreia estava primeiramente prevista para Nápoles, em 1858, quando se deu um atentado contra a vida de Napoleão III. As autoridades napolitanas entenderam então que estava fora de questão autorizarem a produção de uma ópera (a 23ª de Verdi) com um tema tão escaldante como um regicídio. Após várias tentativas de relocalização do cenário da ação, de modificação de nomes ou, até,transformação de algumas personagens (Amélia passaria de pretendida a irmã do "rei"...), transportou-se tudo para os EUA, quando o Massachusetts ainda era colónia britânica, e onde poderia ocorrer a liquidação de um governador emotivo e descuidado,mas sempre generoso (até no perdão),por um colaborador ciumento... Entretanto,a versão "sueca" seria mais tarde, por várias vezes, levada à cena, Duas delas, pelo menos, nos anos 40 e 50 deste nosso século XX, no Metropolitan Opera de New York...onde, para comodidade dos cantores, se mantiveram os nomes das personagens da versão americana. Ganhou assim a Suécia um rei Ricardo, cujo secretário respondia ao nome bem escandinavo de Renato! Já "Stifellio" será uma das óperas mais esquecidas do compositor do Risorgimento. O próprio confessou um dia que "de todas as óperas minhas que não se representam, por lhes contestarem os conteúdos, há uma que eu não queria ver esquecida: Stifellio". Pessoalmente, minha Princesa, pensossinto que Verdi gostava do "conteúdo" da ópera,do tema do perdão, finalmente generoso, do marido à mulher adúltera. E gostava tanto que lutou contra a pressão dos censores e dos teatros para que retirasse a confissão de Lina a Stifellio do seu contexto religioso e eclesial. Na verdade, o marido é, aí, um pastor protestante, um padre casado, e é ao marido e ao padre que ela quer simultâneamente confessar-se. A cena final passa-se na igreja em que Stifellio vai proferir um sermão. Para se inspirar,abre ao acaso uma Bíblia e lê o passo do evangelho que relata a intervenção de Jesus a impedir a lapidação da mulher adúltera. Ao dizer, do púlpito, "e a mulher perdoada levantou-se", o pastor olha para a sua, ainda ajoelhada no chão, e acrescenta: "perdoada! Deus assim o decretou." E Lina levanta-se e erguendo as mãos ao céu exclama "Gran Dio!" Cai o pano. Esse libreto é de Francesco Maria Piave, seguindo a peça de Eugène Bourgeois e Émile Souvestre intitulada "Le Pasteur" ou "L´Évangile et le foyer". O que censores (oficiais,religiosos ou populares) apontam é, em terra católica e italiana, e em estado dos Habsburgos de Áustria, o facto de se tratar de um casal em que o marido é um padre casado. O que talvez lhes desagradasse mais seria a apologia do perdão de uma falta que maculava a "honra" de um homem (macho). Por isso mesmo, a posterior substituição, seguindo revisão do libreto pelo mesmo Piave,que relocaliza o drama na Inglaterra de 1200, de Stifellio por Aroldo,cavaleiro saxão que regressa da cruzada, e de Lina por Mina, medieva mulher deste, embora recolocando tudo num contexto já batido por narrativas europeias e já sem escândalo, não levará a nova ópera, refeita musicalmente também, ao êxito. Penso por vezes nesse tema da ofensa da honra de um homem pelo comportamento de uma mulher, sem que a inversa seja jamais apontada... Talvez um dia te escreva ou fale numa questão que é eminentemente cultural. Hoje, na vadiagem por livros e leituras, caí em contos de Tolstoi. Não, não te citarei a "Anna Karenina", essa fica para outra vez... Mas "O Diabo" é um conto trágico, em que um homem que era bom sucumbe, mais do que à tentação da carne, à vertigem da sua auto destruição por força dum sentimento de culpa e condenação do adultério que comete pelo vício dos sentidos… É curioso como Tolstoi tantas vezes aborda essa tensão do homem entre o desejo da pureza e o diabo da carne; entre o caminho doloroso, esforçado e inseguro, da perfeição e o rodopio descendente para o esquecimento, a má consciência e o mal. "O Padre Sérgio" será um dos textos por que o escritor russo procurará exprimir a carga psíquica dessa tensão ao longo de uma vida. O príncipe Estêvão Kassatsky, feito monge e eremita, só encontrará a paz e descansará das tentações que o perseguem quando compreende que encontramos Deus servindo os outros, e nos enganamos quando julgamos que a nossa celebração de Deus, e só ela, nos torna santos. Mas voltando ao tema da "honra" do homem e da mulher: o príncipe foge do mundo, e para um mosteiro, ao descobrir, em vésperas do seu casamento com uma linda condessa  -  e por confissão voluntária dela  -  que ela fora já amante do czar Nicolau I. Isto é inaceitável para a sua "honra" (palavra que soa aqui a sinónimo de orgulho). Na verdade, conta Tolstoi que, para Kassatski,a noiva era a incarnação da pureza inocente, do amor imaculado. Claro que ele tivera inúmeras relações carnais com diversas mulheres, mas tinham-lhe ensinado que as senhoras e, sobretudo, as meninas, mais ainda as casadoiras, do seu círculo social eram intocáveis... "
    
Camilo Martins de Oliveira