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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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"HISTÓRIA DA GUERRA DO PELOPONESO"

 

A VIDA DOS LIVROS
de 27 de Julho a 2 de Agosto de 2009


Tucídides
é o primeiro historiador no sentido em que usamos esse conceito nos dias de hoje. Autor de uma só obra, “História da Guerra do Peloponeso”, introduziu na literatura e no pensamento político uma concepção significativamente diferente da que foi praticada por Heródoto. Hoje escolhemos esse texto para podermos reflectir sobre a importância da decisão estratégica e das suas condicionantes. E no caso de Tucídides podemos dizer que as melhores análises modernas sobre a história política têm-se debruçado sobre este texto clássico fundamental.
 


 

O DOMÍNIO DOS FACTOS
Enquanto Heródoto procurou usar a magia das palavras e a força do estilo para seduzir os leitores, Tucídides ateve-se aos factos e à sua análise, explorando a dinâmica dos acontecimentos, purificando-os das interpretações mitológicas e da influência dos comentários e dos rumores. Ao explicar o seu método, torna claro que o fundamental deveria estar no cuidado na recolha de todos os documentos, de todos os testemunhos e na reunião de tudo o que contribuísse para a maior aproximação possível da verdade. E afirma mesmo: “vemos com que negligência a maior parte das pessoas procura a verdade e como acolhe as primeiras informações recebidas” (I, XX). Mais importante do que “agradar aos ouvidos” seria “servir a verdade”, daí que Tucídides afirme com clareza que “deve pensar-se que as minhas informações provêm das mais seguras fontes e apresentam uma certeza suficiente, considerando a sua antiguidade” (I, XXI). Aliás, um dos aspectos que é referido expressamente tem a ver com os discursos que são relatados, naturalmente difíceis de transcrever com exactidão. O historiador baseia-se nas palavras que ele mesmo ouviu e nos relatos que recolheu das diversas partes. “Como me pareceu que os oradores deviam falar para dizer o que estava mais a propósito, considerando as circunstâncias, esforcei-me por restituir, o mais exactamente possível, o pensamento completo das palavras exactamente pronunciadas” (I, XXII). No fundo, mais importante do que o primeiro relato ouvido ou do que a opinião do historiador, deveria haver uma grande preocupação de rigor, pelo que Tucídides ou se baseia naquilo que viu e de que foi testemunha ou no que sabe por informações tão exactas quanto possível. A ausência do maravilhoso pode tornar menos atraentes as descrições, mas permite um conhecimento dos acontecimentos para além das preocupações com a satisfação do momento. A escolha do tema relaciona-se com o facto de a guerra entre Atenas e Esparta ter sido o mais importante evento da história grega até à época do historiador. Por isso, ele começa por proceder a uma síntese da história grega até às guerras médicas, para poder explicitar quais as causas longínquas e imediatas que provocaram o conflito. O estilo é propositadamente sóbrio, uma vez que o fundamental seria fazer compreender os acontecimentos, as suas origens e os respectivos desenvolvimentos. Em vez de analisar os factos históricos relacionando-os com a intervenção dos deuses, o historiador procura as leis gerais que governam o mundo. E se fala dos deuses é para descrever as crenças do seu tempo, exprimindo que a fraqueza humana apenas pode ser superada através da razão – enquanto inteligência aplicada ao conhecimento das coisas. Para ter sucesso, qualquer acção deveria ser inteligente e ter consequência moral. Mas a imparcialidade não deveria excluir nem o amor à pátria nem as suas preferências políticas. Há, assim, um equilíbrio que Tucídides procura praticar de modo a não trair o dever para com a verdade. Deste modo, admira Péricles, mas o facto de aprovar o modo como ele exerce o poder não impede o seu sentido crítico em relação a muitos do que o seguem e à concepção democrática que defende. No entanto, a democracia torna-se aceitável quando exercida sob a orientação de um governante racional. Este é o entendimento de Tucídides que não pratica o panegírico, procurando, antes, realizar uma descrição e uma interpretação serenas dos acontecimentos. Na expressão consagrada de Jacqueline de Romilly, o método de Tucídides é o da “objectividade dirigida”. Para si, o rigor obriga a escolher os factos e a hierarquizá-los, com o objectivo de tornar clara para os leitores a realidade que está a descrever e a analisar.
 

QUEM FOI TUCÍDIDES? 
Os elementos que possuímos sobre a sua vida são tardios e muitas vezes pouco seguros. Nasceu em 460 a. C., filho de aristocrata ateniense chamado Oloros, possuidor de minas de ouro na Trácia (Skapté-Hylé) e de florestas na Pangeia. A família era a de Cimon de Atenas (c. 507 a.C. – 449 a.C.) e descendia do famoso General Mitíades. Na infância teria assistido à leitura feita por Heródoto da sua obra, aquando de uns jogos olímpicos. Em 424 foi eleito estratega, tendo sido enviado à Trácia, para a zona de Thasos, onde teve a missão de manter a ordem na região e entre as suas populações. O ataque de Brasidas a Amphipolis obrigou Tucídides a ir em socorro do seu colega Euklès, sem no entanto poder evitar a queda da cidade. Apesar do esforço e do seu empenhamento, os atenienses julgá-lo-iam, condenando-o pelo insucesso militar. Não se sabe ao certo a sanção que lhe foi aplicada – se o exílio, se a pena capital. O que sabemos é que o historiador apenas regressou a Atenas em 404. De 423 a 404 a.C. viveu na Trácia, empenhado na recolha de elementos e na escrita da sua obra, viajando em Itália e na Sicília, o que lhe permitiu fazer descrições muito precisas dois cenários da guerra. Muito pouco se conhece, porém, em pormenor da vida de Tucídides. A maior parte dos biógrafos afirma ter tido morte violenta, entre 400 e 395 a.C., deixando a sua obra incompleta, sem ir além dos acontecimentos de 411. Quanto às suas ideias podemos retirá-las das suas análises. Era um realista e um moderado, demarcando-se a um tempo da demagogia e das concepções aristocráticas. Quanto às influências que o marcaram tem havido um grande consenso nas referências a Anaxágoras (c. 500-428 a.C.), a Antiphôn (c. 480-411 a.C.) a ao próprio Péricles (c. 495-429 a.C.). Referimo-nos ao período de formação de Tucídides (na década de 420 a.C.), altura em que a escola de Atenas atingiu o seu apogeu intelectual. Nota-se uma experiência política evidente do escritor, até pelo modo como aborda os jogos de poder e pela lucidez que ostenta. Saliente-se que a capacidade de antecipação é um dos pontos que mais fascinam o historiador na consideração dos principais actores dos acontecimentos que analisa. Como afirma Jacqueline de Romilly: “a previsão justa é aos olhos de Tucídides o maior mérito dos chefes, políticos e militares”.
 

A GUERRA DO PELOPONESO
Tendo começado em 431 a.C., a guerra só viria a terminar em 404 a.C., mas Tucídides apenas a descreve até 411. É difícil dizer qual o motivo exacto desse brusco termo, parecendo que o historiador teria já recolhido todos os materiais necessários à conclusão da obra. Um dos argumentos que tem sido aventado tem a ver com o facto de Xenofonte ter começado as “Helénicas” no ponto exacto em que termina a “História” de Tucídides. Por outro lado, o livro VIII foi concebido diferentemente dos livros anteriores, não tendo provavelmente havido tempo para aplicar o método anterior e para fazer uma redacção mais cuidada, em especial relativamente aos discursos. Se procedermos a uma rápida alusão aos temas dos oito livros que constituem a obra de Tucídides, verificamos que o livro I introduz a narrativa, falando do método, dos acontecimentos de Epidamne e de Potideia e dos preparativos da guerra. O livro II trata dos três primeiros anos do conflito e da peste de Atenas (431-428 a.C.). Os livros II, IV e V abrangem três períodos até à paz de Nicias (415 a.C.), respectivamente: (428-425 a.C.) do quarto ao sexto anos de guerra (com o saque de Melos); (425-422 a.C.) os anos marcados pela tomada pelos atenienses de Pylos e Shaktéria; e (422-415 a.C.) em torno da paz de Nicias. Por fim, os livros VI, VII e VIII correspondem a três momentos: (415-413 a.C.) primeira parte da expedição da Sicília até à chegada de Gylippos; (413) o desastre em terra e no mar dos atenienses na Sicília e (412-411 a.C.) o vigésimo e vigésimo primeiro ano da guerra, até ao regresso de Alcibíades. Mas, para se compreender a guerra do Peloponeso, temos de (lendo Tucídides) de nos reportar à ascensão e grandeza da talassocracia de Atenas, que obrigou Esparta a responder ao risco evidente de hegemonização ateniense – de que a liga de Delos era um prenúncio. Atenas contava com o domínio dos mares, Esparta com a superioridade em terra. O primeiro foi insuficiente e Esparta venceria. As palavras judiciosas de Péricles não foram, porém, ouvidas. E nada ficou na mesma depois do final desta fundamental guerra do Peloponeso…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

"EDUARDO LOURENÇO – UMA IDEIA DO MUNDO"

A VIDA DOS LIVROS
de 20 a 26 de Julho de 2009


“Eduardo Lourenço – Uma Ideia do Mundo”
é o tema do número 171 da revista “Colóquio – Letras” (Maio – Agosto de 2009). Trata-se da amostra de um trabalho, que se revela indispensável, de selecção, tradução e anotação de textos realizados por João Nuno Morais Alçada no âmbito do projecto “Inventário e Catalogação do Acervo de Eduardo Lourenço” da responsabilidade do CNC, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.
 


UM NÚMERO RECHEADO
Ao folhearmos esta “Colóquio – Letras” deparamo-nos com um conjunto fascinante e muito feliz de textos, a começar por dispersos e inéditos de Eduardo Lourenço (EL), com páginas diarísticas, podendo encontrar-se o surpreendente “O Livro da Alma ou a educação portuguesa” de Tristão Bernardo, um alter-ego do autor, “morto” subitamente em 1951 ou 1952, cuja existência e drama acompanhamos em dois textos (o outro é “Tristão ou o livro da alma”), que são duas tentativas de apresentação de um diário metafísico deste jovem autor, desaparecido de peste (“num tempo em que ninguém morre de peste. A não ser a peste de viver, como ele dizia”), por força da arte e do ofício de pensar ou de adiar fazê-lo. Como no romance de Tristão e Isolda é de tristeza que se fala (“et comme ainsi tu est venu sur terre par tristesse, tu auras nom Tristan”) e sobre ela reflecte o amigo do imaginário jovem desaparecido. “O nosso amigo foi uma destas vidas que passaram o tempo a adiar-se. Adiou as suas ideias, adiou o seu amor, adiou a sua política, as suas obras e, o que é mais grave, adiou o mesmo Deus. A categoria suprema da sua vida foi a recusa”. Mas, além de correspondência diversa (desde os históricos da “Colóquio” até Jorge Guillén, José-Augusto França, Eugénio de Andrade, Vergílio Ferreira, Eduardo Prado Coelho, Luciana Stegagno Picchio ou Mário Botas…), que se lê com muito gosto, descobrindo-se sempre o ensaísta que nunca esquece o seu ofício, à semelhança do que sempre aconteceu com Montaigne, que é a grande e constante referência de Lourenço, deparamo-nos com diversos textos importantes sobre Camões e o poder da literatura (Cardoso Bernardes), sobre a heterodoxia, a heterofonia e a heteronímia (P. Quillier), bem como sobre a cultura portuguesa (Roberto Vecchi, no doutoramento na Universidade Bolonha e Margarida Calafate Ribeiro, na inauguração da cátedra Eduardo Lourenço também na Alma Mater Studiorum). Isto, além de pequenos dossiês sobre as relações com Miguel Torga (a partir de um texto de Carlos Mendes de Sousa) e com Agustina Bessa-Luís, sobre a “Heterodoxia II (a partir de José Blanc de Portugal), sobre a “miragem brasileira, a partir de uma carta de Adolfo Casais Monteiro, onde se encontra o texto referencial sobre “Um Fernando Pessoa” de Agostinho da Silva (“o que em Pessoa oscila entre a realidade e a ilusão, e por isso invoca miticamente, é a evidência espiritual imediata de Agostinho da Silva”) ou alguns “estilhaços”, entre os quais um pequeno texto belísssimo sobre o filme “O Terceiro Homem” de Carol Read, com argumento de Graham Greene - “um encontro é uma decepção ou uma aventura. Depende das nossas mãos transformá-lo em estátua ou múmia. As coisas não nos devolvem em definitivo senão a própria imagem. Por isso mesmo pareceu a tantos tão diversos filmes. E na verdade os foi”.
 

PARA LER DETIDAMENTE
O número está organizado inteligentemente. Houve necessidade de fazer escolhas, por vezes dilacerantes, mas o resultado permite-nos perceber o manancial que serviu de base à escolha e que se anuncia como conjunto notável de uma obra que ainda exige um grande trabalho de publicação, para chegarmos à sua melhor compreensão. O contacto com Miguel Torga revela-se, aliás, fundamental para a consolidação da posição heterodoxa. E esse encontro de Coimbra (1947) e o movimento iniciático, de descida da Alta até à Livraria Atlântida, tem um sentido decisivo no percurso que o jovem pensador irá trilhar, desde a tertúlia da Central até aos encontros no consultório do Largo da Portagem. Torga simpatiza com a atitude do jovem e como que o adopta… E é muito curioso lermos a reflexão e o conselho do escritor e poeta de “A Criação do Mundo” sobre o modo mais adequado de protestar contra a invasão da Hungria (“o meu amigo queria um protesto que abrangesse uma só tirania; eu queria outro que abrangesse a todas. A razão é simples: a sua indignação irrompe da claridade dum país livre; a minha da negrura duma terra escravizada”. EL está a Montpellier e Torga mantém-se, como sempre, em Coimbra, atento aos acontecimentos e aos “aproveitamentos” nacionais. No encontro com Agustina, Lourenço descobre (a propósito de “Um Cão que Sonha”) que esta “é uma memória mais rica que a verdadeira memória, uma memória que sonha um passado de sonho para no-lo tornar sensível, inesgotável como um verdadeiro presente…”. E Agustina descobre em 1975 que a revolução foi um benefício: “Portugal era completamente um caso de sonambulismo; tudo o que acontecia era em sonhos”… No diálogo entre ambos, há a procura de chaves explicativas dos acontecimentos, das personalidades, para além das evidências, entre o paradoxo e o culto do aleatório: “Como Vitória era imperatriz de uma Índia de sonho, Agustina é a rainha do aleatório. Quando o aleatório impõe a sua necessidade, o deslumbramento nasce”.
 

UM DIÁLOGO IMPERDÍVEL
Mário Botas imaginou um ícone para Eduardo Lourenço. Acrescentou uma cara risonha do nosso querido ensaísta ao quadro clássico de D. Sebastião. O resultado é irónico, como irónico é o recorte de jornal em que o mesmo Botas compara EL a Salazar, na atitude corporal… No entanto, apesar de ser um filómita e um interrogador de mitos, Lourenço sempre se demarcou do sebastianismo sistémico, e aí seguiu de perto a tradição de Antero de Quental, afastando-se a um tempo de positivismos e de espiritualismos, mas sabendo aliar as diversas influência e compreender que o mundo apenas pode ser entendido se visto do lado da razão e das raízes e razões dos mitos, não para os seguirmos, mas para entendermos a força da criação poética, os limites da acção, das vontade e do pensamento. Na entrevista que Maria João Seixas faz a EL e vem publicada a abrir este volume da “Colóquio – Letras”, há diversas pistas que são lançadas e que merecem ser recordadas. “O poético é a capacidade de apreender a nossa relação com a natureza da maneira mais criadora possível e fazer como se, de algum modo, fôssemos nós mesmos os autores da própria criação”. Em contrapartida, porém, e isso aplica-se especialmente ao ensaísta, que é o prosador paradigmático: “o prosador tem de lidar com aquilo que é menos cantante, menos imediatamente sedutor, tem de elevar o que é comum, o que é quotidiano, e tem de transformar esse quotidiano em ouro, o que é mais duro do que começar imediatamente no ouro. Partir do ouro, é da natureza da poesia”. E o interrogador permanente do sagrado, seguindo a linhagem anteriana, diz terminantemente: “viver significa não podermos fazer outra coisa do que respirar, respirar o absoluto. Respirar o absoluto não quer dizer pôr a mão no absoluto, não quer dizer pôr o absoluto ao nosso serviço, porque o absoluto, por definição, não está ao nosso serviço”. E é neste mesmo sentido que EL escolhe com palavra da sua eleição o “fervor”. Mas que fervor? “O fervor é pensar que apesar de perdido, o paraíso continua a ser ainda aquilo de que nos lembramos, aquilo que permite que saiamos desta terra, onde aparecemos, sem ter o sentimento, ou a convicção, de que estivemos no inferno”. Sempre contraditório, sempre paradoxal, disposto a entrar pelos caminhos mais difíceis e inesperados, luminoso e nocturno, apolíneo e dionisíaco, mas sem passagens ciclotímicas pelos extremos, e sim com a procura das vivências contrastadas, capazes de fazer entender a complexidade do género humano. Talvez por isso mesmo interesse muito mais a Eduardo Lourenço, em vez do mito sebástico, o papel de Camões e de “Os Lusíadas” – “le livre qu’on ne peut refaire car c’est lui-même qui nous a faits tels qu’en nous mêmes nous continuons de nous rêver”. E daí partimos na cultura portuguesa (Garrett, Quental, Eça, Sérgio, Cortesão) para um modo diferente de pensar o mundo e de entender a sua complexidade e os contrastes. E são esses contrastes que fazem a vida na obra de Eduardo Lourenço, evitando as explicações únicas.  

Guilherme d'Oliveira Martins

 
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 as minhas sugestões na Renascença

 


 

Os Lusíadas em Português e Mirandês contados em BD por José Ruy

A VIDA DOS LIVROS
de 6 a 12 de Julho de 2009

Acaba de ser publicada a edição comemorativa dos vinte cinco anos de “Os Lusíadas” em Banda Desenhada, da autoria de José Ruy (Âncora Editora, 2009). Simultaneamente, foram dadas à estampa as edições da tradução da mesma obra em mirandês (“Ls Lusíadas”) e do livro, também da autoria de José Ruy, “Mirandês – Stória dua Lhéngua e dun Pobo an BZ” (em português e mirandês). Trata-se de iniciativas que merecem uma especial atenção, uma vez que estamos perante o reconhecimento da importância da língua mirandesa, em diálogo com a língua e a cultura portuguesas, causa que tem contado com o trabalho denodado e persistente de Amadeu Ferreira (que o Centro Nacional de Cultura tem acolhido gostosamente, através da publicação dos seus textos) e da Associaçon de Lhéngua Mirandesa.

 

UM DESENHADOR DE REFERÊNCIA
José Ruy (1930) é um dos mais prolíferos e talentosos desenhadores de banda desenhada em Portugal, tendo colaborado desde muito cedo (com apenas 14 anos de idade) na revista “Papagaio” (de Adolfo Simões Muller, 1909-1989). Formado na Escola António Arroio como desenhador litógrafo, onde foi discípulo de Rodrigues Alves, destacou-se desde os nove anos de idade como um desenhador muito talentoso. Dos cerca de setenta álbuns ilustrados de que é autor, quatro dezenas são de Histórias de Quadradinhos (HQ), tendo-se tornado uma referência, ao lado dos nomes maiores da banda desenhada portuguesa. Na revista “O Mosquito” (criada em 1936) trabalha como gráfico logo na década de quarenta, mas só em 1952, um ano antes do fim da 1ª série, publicará a sua primeira história, “O Reino Proibido”. Nos anos cinquenta, no “Cavaleiro Andante” (1952-1962), ombreia com nomes fundamentais de HQ como Fernando Bento (1910-1996), Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005) e o seu colega José Garcês (1928). Aí publica “O Bobo”, “Ubirajara”, “Fernão Mendes Pinto”, “Gutemberg”, “A Mensagem”. Será director da 2ª série de “O Mosquito” (1960-61) e colabora no “Camarada” e “Mundo de Aventuras”. Publica em 1960 o álbum “Infante D. Henrique”, colabora na série “Grandes Portugueses” (1962). Encontramos ainda colaboração sua em “Tintin”, “Spirou”, “Jornal da BD”, “Selecções da BD” etc. Ao longo dos últimos anos realizou um vasto conjunto de trabalhos, com forte pendor pedagógico e didáctico, podendo dizer-se que, ao contrário do que parece resultar de uma apreciação superficial, José Ruy colocou a sua arte ao serviço da divulgação histórica e de uma função educativa, devendo colocar-se muitos dos seus álbuns ao nível do que melhor existe nas HQ. Se é certo que não teve uma carreira internacional (apesar da publicação no exterior de alguns dos seus trabalhos), não é menos verdade que a sua produção merece uma atenção muito especial, considerando o carácter da sua criação e o modo como desenvolveu o seu talento.

 

“OS LUSÍADAS” COMO EXEMPLO
José Ruy, ao realizar a adaptação de “Os Lusíadas”, colocou as suas qualidades e características ao serviço de um projecto difícil, mas do qual se desempenha com mestria e proficiência, apesar da dificuldade manifesta do projecto. Refira-se que tem sido salientado, com razão, pelos principais estudiosos das HQ que o nosso autor tem uma especial vocação para temas marítimos, o que se encontra patente na série de ficção “Porto Bomvento” (com sete álbuns editados pela Asa) ou na sua obra-prima, “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, publicada, como já se disse, numa primeira versão, no “Cavaleiro Andante” (1957-1959). Lembremo-nos, contudo, do facto de a obra original ter sido publicada com texto explicativo na base de cada quadro, enquanto a versão hoje no mercado em álbum recorrer aos balões. Sente-se, assim, na versão publicada nos anos cinquenta uma ambiguidade entre o ilustrador e o cultor de HQ. A esta luz, a obra hoje em apreço reúne vários elementos, nos quais José Ruy tem provas dadas (desde os motivos aos temas). Em “Os Lusíadas” notam-se algumas das suas principais características, das quais deve referir-se: grande fidelidade aos textos literários; preocupação em fazer os leitores seguirem a narrativa através de sucintas explicações; o uso de uma técnica própria, adequada a um poema épico, não reduzindo as pranchas a uma limitação em espaços fechados e utilizando a capacidade criadora e imaginativa para ligar um relato real às referências da mitologia clássica; o recurso a uma técnica moderna, dotada de uma significativa versatilidade, com um traço ao mesmo tempo seguro e volátil, com uma compreensão exacta do movimento; e, por fim, a preocupação em ligar os diversos registos da narrativa épica em que a memória e a mitologia se misturam e se encontram, permanentemente. Saliente-se que, para auxiliar a leitura, o autor recorre nas aberturas a João Franco Barreto, autor do século XVII, que resumiu em oitavas cada um dos cantos do poema. Por sua vez, o relato de cada canto é antecedido por uma explicitação do argumento. No entanto, nas pranchas, é a própria expressão camoniana expressamente citada, com breves explicações, devidamente assinaladas.

 

ALGUNS EPISÓDIOS
Para ilustrar o que dizemos (sobre as qualidades e características do autor) daremos três exemplos que nos permitirão fazer realçar as especificidades da criação artística de José Ruy. O primeiro caso é o do Concílio dos Deuses, elemento crucial para a compreensão da trama subjacente ao poema e à história da chegada de Vasco da Gama e dos portugueses à Índia. A introdução do Olimpo no relato conduz a uma alteração de método. Os deuses situam-se fora do curso cronológico dos acontecimentos e o combate entre Vénus e Baco, mediado pelo próprio Júpiter, vai desenrolar-se em termos tais que permite ao leitor ver uma encenação em que o resultado da acção do “deus ex machina” decorre como que atrás de um véu, numa cena que o poeta vai descrevendo e revelando. O segundo exemplo tem a ver com o início do relato de Gama sobre a história pátria. José Ruy procura interpretar os acontecimentos históricos com fidelidade simultânea aos acontecimentos e à construção de uma mitologia imaginária da nação. Estamos diante de um processo de permanente e necessária conciliação entre a referência histórica e o “maravilhoso” que “Os Lusíadas” contêm, na linha da “Odisseia” de Homero e da “Eneida” de Virgílio. Por fim, temos a ilustração do Canto IX do poema de Camões, A Ilha dos Amores. Com grande sobriedade, José Ruy desenha uma ilha quase utópica a que não falta a sensualidade, mas onde a preocupação fundamental é dar um sentido poético à apresentação do tema. Compreendendo bem o sentido e alcance de um episódio como este, José Ruy procura deixar claro aos leitores que o canto IX é o corolário de uma projecção terrena do debate que tem lugar no Concílio dos Deuses. Quem ganha, no fundo, é o Amor através da persistência de Vénus e do apoio que obtém de Júpiter.

 

A UTILIDADE DA OBRA
À semelhança do que aconteceu na colecção da Sá da Costa, dos clássicos contados às crianças e lembrados ao povo, num registo de narrativa adaptada para a melhor compreensão dos jovens e dos cidadãos em geral (em que a preocupação iconográfica também existe, em termos muito limitados), este “Os Lusíadas” em HQ (ou em BD) tem uma significativa potencialidade pedagógica e didáctica, que não poderemos deixar de referir – compreendendo José Ruy muito bem essa característica. Aliás, constitui um elemento essencial da obra deste autor o facto de ter privilegiado a vertente histórica e didáctica à narração romanesca ou romanceada. De facto, há diversos críticos que salientam o facto de José Ruy ter ficado cá e não ter seguido mais sistematicamente a via romanesca, trilhada pelo mestre Eduardo Teixeira Coelho, o que pode tê-lo prejudicado nas suas possibilidades de maior divulgação no país e no estrangeiro. José Ruy tem tido, porém, um percurso de gradual maturação, com um estilo próprio e uma assinalável capacidade de ligação entre a capacidade técnica e a vitalidade criadora e imaginativa.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

O Miradouro da Graça homenageia a Poesia, através de Sophia

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS
de 29 de Junho a 5 de Julho de 2009

Sophia de Mello Breyner Andresen continua a acompanhar-nos na serenidade dos seus textos e na pureza dos seus ideais. Cinco anos depois da sua ausência, que é presença permanente pela perenidade das suas palavras, é fundamental regressar aos três volumes da “Obra Poética” (Caminho) ou aos contos publicados pela Figueirinhas. Deparamo-nos com o deslumbramento de uma escrita depurada, rigorosa, amorável, ática, a um tempo clássica e moderna, intemporal, sedenta de sentido, duradoura e inusitada, onde a pessoa humana e a natureza se encontram permanentemente, sentindo-se, a cada passo, a busca da palavra certa, como sinal de dignidade, e a recusa de qualquer facilidade. “Sozinha estou entre paredes brancas / Pela janela azul entrou a noite / Com o seu rosto altíssimo de estrelas” – di-lo em “Mar Novo”. E em “A Menina do Mar”: “Sentaram-se os dois em frente do outro e a menina contou: - Eu sou uma menina do mar. Chamo-me Menina do Mar e não tenho outro nome. Não sei onde nasci. Um dia uma gaivota trouxe-me no bico para esta praia. Pôs-me numa rocha na maré vaza e o polvo, o caranguejo e o peixe tomaram conta de mim”.

 

MIGUEL TORGA… 
Quando Miguel Torga leu pela primeira vez um manuscrito de Sophia de Mello Breyner, partiu para o Porto porque queria conhecer e "ver por seus olhos que não se tratava de um feliz acaso, mas dum caso sério de criação na literatura portuguesa" - no testemunho de Francisco Sousa Tavares. No mesmo sentido, Jorge de Sena disse estarmos perante "um poeta de fluente e escultural segurança expressiva, em cujos poemas o amor da vida e uma intensa exigência moral encontram símbolos marinhos e aéreos, usados com força visionária, para exprimir uma tensa vivência do sentido trágico da existência". Sophia de Mello Breyner viveu a infância no casarão imenso do Campo Alegre. Na Praia da Granja, onde passava os Verões, aprendeu a amar a grandeza e o mistério do oceano. Era "a casa branca em frente ao mar enorme", com o seu jardim de areia e flores marinhas, do "silêncio intacto em que dorme/o milagre das coisas que eram minhas". “Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português chamado Nau Catrineta”. E o avô ensinou-lhe a amar Camões e Antero: “Camões parecia-me um palácio de vidro, transparente, luminoso, atravessado por uma luz doirada. Em Antero a luz era diferente, uma luz atormentada, cheia de clarões e de sombras”. Sophia veio estudar para Lisboa Filologia Clássica, curso que não concluiu. Proveniente de uma família da velha aristocracia portuguesa, com fortes tradições liberais, tornou-se uma das personalidades mais representativas de uma atitude inconformista e democrática.

 

MILAGRE RARO
"Uma espécie de milagre, de raro e quase incrível privilégio, devem ter preservado cedo a jovem Sophia, católica e portuguesa, daquela obsessão culpabilizante que encharca por dentro a lírica nacional" - afirma Eduardo Lourenço. E a própria Sophia dirá: "Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. (...) Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito da verdade que o anima a procurar uma relação justa com o homem". Sophia de Mello Breyner é um caso singular na literatura portuguesa - ponto de encontro entre uma tradição clássica e uma genuína atitude de "uma atenção virada para fora". "Não tenho explicações / Olho e confronto / E por método é nu meu pensamento"... Vasco Graça Moura afirma: “tendo bebido a lição panteísta de Pascoaes, filia-se nos simbolistas, como Nemésio e Rilke, e apreende o concreto para que o concreto, despojado da sua ganga impura, adquira o peso total da sua existência e funcione como filtro e como via idónea para o encontro de um ‘outro’ real verdadeiro e metafísico”.

 

A CIDADÃ DE PALAVRA(S)
Ainda estamos a ouvir os ecos da declaração de Sophia de Mello Breyner, na Assembleia Constituinte em 1975, dando sequência à intensa actividade cívica durante a ditadura, designadamente no Centro Nacional de Cultura e na Comissão Nacional de Socorro dos Presos Políticos, a proclamar: “A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução é exactamente porque é capaz de criar a cultura” (2.9.1975). A luta fundamental não deveria ser por uma “liberdade especializada”, mas sim pela liberdade do povo – liberdade de expressão e de cultura. E é impressionante e actualidade e a clareza das suas palavras: “Queremos uma relação limpa e saudável entre a cultura e a política” – insistia. “Não queremos opressão cultural. Também não queremos dirigismo cultural. A política sempre que dirigir a cultura engana-se. Pois o dirigismo é uma forma de anti-cultura e toda a anti-cultura é reaccionária”. Contra todos os dirigismos e totalitarismos, Sophia deixava claro um sentido essencial para a interpretação do novo texto constitucional de 1976 – em que a liberdade é a pedra angular, contra todos os dogmatismos indiscutíveis e os maximalismos irreais. Por isso, atacava frontalmente (como sempre fez) o “poder totalitário”, que persegue o intelectual e manipula a cultura. “Nenhuma forma de cultura se pode atribuir o direito de destruir ou menorizar outras formas de cultura”. Nesse discurso fundador, Sophia de Mello Breyner partiu da cultura, apenas dela, mas deixou claro que esta não pode ser vista isoladamente, tem de conduzir à valorização do acto e da arte de educar: “Ensinar é pôr a cultura em comum e não apenas a cultura já catalogada e arrumada do passado, mas também a cultura em estado de criação e de busca”. E que deve ser a liberdade de aprender e ensinar senão a procura de “novas formas de ensino que possam procurar, ensaiar e inventar”?

 

A MAGIA DE UMA ESCOLA
E não me posso esquecer esse momento mágico, quando visitei com Sophia a Escola da Outurela que tem o seu nome. Era a procura, o ensaio e a invenção que Sophia queria ver na escola e na educação, como arte de procura e de descoberta, de aprendizagem séria e rigorosa. Por isso, exigiu, e depois ficou muito contente com os resultados, que “A Menina do Mar” fosse decorada e representada pelos jovens alunos daquela escola. E, ao meu lado, segredou-me que poderíamos acreditar na escola que trabalhasse, que fizesse da disciplina uma partilha de responsabilidade e o culto do equilíbrio. Nos idos de 1975, num momento em que havia muita facilidade nas palavras e nas propostas, Sophia ponderou ideia por ideia o que disse naquele momento fundador e falou de “ensino livre onde nenhuma iniciativa seja desperdiçada”. A escola é, assim, vista como lugar de liberdade e de justiça, de participação e de ajuda mútua. Recordo-o, mais uma vez. Daí a importância dos conceitos de cidadania inclusiva, de combate à exclusão e de ensino integrado. E em nome de “Educação e Cultura para todos”, que tem de ir muito além das palavras, Sophia de Mello Breyner foi uma das vozes, com Miller Guerra, também a levantar-se a favor da igualdade para as pessoas com deficiência: “o tratamento e a reabilitação são tarefas que incumbem ao Estado e à família. Mas a integração é uma tarefa em que toda a sociedade deve participar” (4.10.1975). Aí estava o seu extraordinário sentido de justiça e a sensibilidade humaníssima. "A viagem pelo fundo das coisas" a que Sophia de Mello Breyner Andresen aludiu no conto "A Menina do Mar" bem poderia ser utilizada como a imagem de um projecto educativo. E assim não podemos deixar de ouvir o que também nos disse: "espero que na educação portuguesa passe a haver mais música, mais poesia oralmente dita e mais ginástica. Tudo o resto virá por acréscimo" (Noesis, 1993).

 

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                                                                           Guilherme d'Oliveira Martins