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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

 

A VIDA DOS LIVROS
de 30 de Novembro a 6 de Dezembro de 2009

"Camilo Castelo Branco – Memórias Fotobiográficas (1825-1890)" de José Viale Moutinho é uma obra que nos conduz no percurso multifacetado de um nossos maiores escritores, mas, mais do que isso, leva-nos ao Portugal profundo do século XIX, que o autor de “Amor de Perdição” representa e descreve. Figura muitas vezes desconhecida, apesar do sucesso dos seus livros e da paixão que suscita ainda hoje em tantos leitores, Camilo protagonizou uma vida aventurosa de um romântico que teve a lucidez de se libertar dos constrangimentos de escola que esterilizaram tantas outras promessas. Homem cultíssimo, estudioso exaustivo da história e da sociedade, romancista fecundo – Camilo soube ultrapassar as poderosas baias românticas, indo ao encontro das tendências modernas do seu tempo. A partir de uma personalidade muito forte, o retrato que encontramos de Camilo é a representação de alguém cujo talento resulta de um cadinho onde se misturam ingredientes quase explosivos da sociedade antiga e da sociedade contemporânea, que o escritor procura contraditoriamente compreender.

 

 

MARCADO DESDE O INÍCIO

O infortúnio e a tendência aventurosa de Camilo Castelo Branco são responsáveis pelos mitos que se desenvolveram à sua volta. E o escritor é um dos principais responsáveis (senão o primeiro) por essa aura, não só perante o carácter heterogéneo da sua obra (desde o romance ao ensaio e às memórias), mas também pelo mistério que sempre alimentou sobre a sua própria vida, a começar nas origens, e a continuar no seu espírito aventuroso... Camilo nasceu em Lisboa, no segundo andar da Rua da Rosa, nº 9, no coração do Bairro Alto, a 16 de Março, filho natural de Manuel Botelho Castelo Branco e de Jacinta Rosa do Espírito Santo… A família depressa se muda para a Rua da Oliveira. Dois anos depois, morre a mãe e, em 1830, vemos Camilo a frequentar fugazmente o mestre-escola José Inácio Luís Minas, na Rua dos Calafates, hoje do Diário de Notícias. O pai é nomeado director dos Correios em Vila Real, para onde vai com os seus. Mas, no ano seguinte, a família já está em Lisboa (depois de um dissabor político do pai, em tempo de guerra civil). O jovem Camilo frequenta a Escola da Calçada do Duque, do professor Satírio Salazar. Então é atacado de bexigas (que marcarão para sempre o seu rosto), mora na Rua do Carvalho, voltando o pai a sofrer um revés político, que impede a sua almejada nomeação para os Correios. No fim da guerra civil (1834), morando a família na Rua dos Douradores, morre o pai, que deixa uma pequena herança – prédios em Lisboa e Vila Real e uma quantia em dinheiro, em parte desviado pela amante. Os irmãos Carolina Rita e Camilo são enviados para Vila Real para casa da tia paterna Rita Emília, onde chegam depois de uma viagem atribulada. “Aos meus dez anos, levantou-se uma tempestade no seio da família. Uma vaga levou o meu pai à sepultura; outra atirou comigo de Lisboa minha pátria, para o torrão agro e triste do Norte; e a outra… Não merece crónica a outra: arrebatou-me um esperançoso património…”. A herança motiva, pois, uma história triste. Em 1838, a tia vai para Vilarinho de Sarmadã, a duas léguas de Vila Real, onde Carolina Rita casa com o irmão do padre Azevedo, em casa de quem estão. “Vivi dois anos como o padre António Azevedo. (…) Ensinava-me latim e música de canto”… “Lembra-se daquele incorrigível rapaz de catorze anos que ia à venda da Serra do Mesio jogar a bisca com os carvoeiros, e a bordoada muitas vezes? Esse rapaz sou eu; é este velho, que lhe escreve do cubículo de um hospital…”. A par e passo, seguimos o percurso de Camilo, que aos dezasseis anos casa com Joaquina Pereira de França, que encontra em terras de Basto, em Friúme, Ribeira de Pena, ainda por entre mil peripécias ligadas à herança. Nos lugares de Basto encontra Macário Afonso, que mais tarde imortalizará: “Eusébio tinha gamão e damas; sabia fazer ladroeiras com os dados; jogava a pataco a partida e dizia muitos anexins obrigatórios”. Nasce a filha Rosa e inscreve-se na Escola Médica e Academia Politécnica do Porto, depois de prestar provas no Liceu… Depois vai para Coimbra – a “nossa jovial convivência em um casebre da Couraça dos Apóstolos”…
 

 

AMBIENTES E ATRIBULAÇÕES

José Viale Moutinho faz questão de seguir o caminho de Camilo, usando o seu próprio testemunho, e o resultado é muito bom. Por entre a paisagem agreste e a crueza dos lugares, sentimos formar-se e afirmar-se o Camilo que vamos conhecendo melhor. Em 1846, em tempos de guerra civil, na qual os anti-cabralistas se aliaram à guerrilha miguelista, Camilo envolve-se em duras polémicas políticas que chegam a vias de facto. Chega a dizer que foi ajudante de ordens do general Mc Donnell, mas não há provas disso. O que se sabe é o que conta nas “Memórias do Cárcere” sobre o encontro com tenente Milhundres, à saída de Penafiel, em que, vindo de Coimbra com um aterrado companheiro, se declara miguelista, talvez mais por uma de aventura e sobrevivência (“Eu achava extrema graça a tudo aquilo”). Joaquina e a sua filha Rosa morrem nos anos seguintes, mas Camilo anda enamorado de Patrícia Emília, um amor incandescente que lhe dará a filha Bernardina Amélia. É uma vida intensamente vivida, conflituosa, inconformista, sempre polémica. A tudo acresce a crise religiosa e até a necessidade de aprofundar os estudos teológicos. Deseja tomar ordens menores e submete-se com sucesso a exames para o efeito… Sol de pouca dura. A contradição caracteriza Camilo. De novo, acende-se, contudo, a fogosidade amorosa, com o surgimento dramático de Fanny Owen, que não corresponde aos seus afectos. Em 1854 conhece Vieira de Castro, encontra-se com Castilho, e é o ano das mortes de Fanny Owen e, pouco depois, de seu marido José Augusto Pinto de Magalhães (amigo íntimo de Camilo). A sombra do suicídio assoma. Dois anos depois, vive com uma costureira no Candal, mas o que marca o ano de 56 é o elogio que Herculano lhe faz a propósito do romance “Onde está a felicidade?”. O historiador dirá mais tarde: “O sr. Camilo Castelo Branco é um dos escritores mais fecundos do país e, indiscutivelmente, o primeiro romancista português”. Camilo começa a ser reconhecido… Vai para Viana do Castelo, para S. João de Arga, e é então que surge Ana Plácido. Depressa nasce o escândalo. Manuel Pinheiro Alves, brasileiro de torna-viagem, irascível marido da Ana, procura contrariar, com todos os meios ao seu alcance, a situação… Ana Plácido é presa na Cadeia da Relação. Camilo visita-a clandestinamente e depois entrega-se. É o tempo de “Memórias do Cárcere”, obra-prima do escritor, então na sua maturidade literária e intelectual. Trabalha aí incessantemente. A cadeia torna-se o seu escritório. Por duas vezes o visita D. Pedro V (“Estimarei que se livre cedo”).

 

A CONSAGRAÇÃO

O romancista joga o seu prestígio contra o poder económico de Pinheiro Alves. Marcelino de Matos é o seu advogado. Camilo ficar-lhe-á eternamente grato pelo apoio e pela determinação do causídico. Em 16 de Outubro de 1861, o pesadelo termina. É lida a sentença à meia hora da madrugada: Camilo e Ana Plácido são absolvidos. No ano seguinte sai o “Amor de Perdição” e as obras sucedem-se com muito bom eco público. Camilo é figura consagrada e admirada. Em 1863, Pinheiro Alves morre em Famalicão. Ana Plácido recebe em herança a casa de S. Miguel de Seide, onde passará a viver com Camilo e os filhos. “A casa onde vivo, rodeiam-na pinhais gementes, que sob qualquer lufada desferem suas harpas”. O romancista está no auge do seu talento. Admira Antero de Quental, o talentoso poeta de Coimbra (“Contemplei-o com admirável admiração”), mas considera excessivas as invectivas contra Castilho. O seu amigo Vieira de Castro estrangula a mulher que o atraiçoara. Camilo defende o homicida, escrevendo em sua defesa. O deputado não escapará, porém, ao degredo. O imperador do Brasil visita o escritor no Porto, no atelier do artista da Rua do Bonjardim (1872). As doenças manifestam-se, a vista vai-se perdendo, as vidas dos filhos, a loucura de Jorge e a estúrdia de Nuno, angustiam-no. Nem os banhos de mar da Póvoa do Varzim o aquietam. Sente-se a decadência e a profunda depressão. A luz vai-se desvanecendo, mas o talento bem evidente da obra é indiscutível.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins




 

Oiça aqui as minhas sugestões na Renascença


 



 

Outros livros...
 

A VIDA DOS LIVROS

de 23 a 29 de Novembro de 2009

Acaba de ser publicado “Heritage and Beyond” (Council of Europe, Strasbourg, 2009) sobre a nova Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o Valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea (a Convenção de Faro de 27 de Outubro de 2005). Trata-se de um repositório muito circunstanciado e fundamental sobre o tema, que foi desenvolvido no Colóquio Internacional que se realizou em Lisboa a 20 de Novembro sob os auspícios do Conselho da Europa (com o CNC e o IGESPAR), oportunidade excepcional para olharmos as políticas públicas da cultura à luz da modernidade, tendo connosco os melhores especialistas da actualidade sobre a matéria. O património cultural é uma realidade viva. A História deixa de ser pertença de alguns, é uma encruzilhada que implica sempre a humanidade toda. E se os acontecimentos fazem as identidades, as identidades devem favorecer o novo entendimento das fronteiras, como linhas de encontro e de aproximação, muito mais do que de divisão e separação. E não se pense que falamos de abstracções. Não, falamos só de fronteiras que compreendam o conhecimento e os conflitos, mas que também regulem permanentemente esses conflitos na perspectiva de uma cultura de paz.

 
Sir Winston Churchill presidiu ao lançamento do Conselho da Europa em 1949.

PATRIMÓNIO E MEMÓRIA
O património é um conjunto de recursos herdados do passado, que não se resumem a uma visão retrospectiva do mundo. É reflexo e expressão dos valores, crenças, saberes e tradições. Faz parte de um movimento incessante que atravessa o tempo, independentemente do regime da propriedade dos bens, ou de uma perspectiva apenas material. Pedras vivas e pedras mortas, herança e criação – eis o que temos de considerar como permanente evolução. Afinal, há sempre uma ligação entre as pessoas e os lugares, entendendo-se a coesão como um facto social e territorial, mas também como algo de intrinsecamente humano. Pessoa e comunidade, eis os factores por excelência da cultura. E uma comunidade cultural “é composta por pessoas que valorizam determinados aspectos do Património cultural, que desejam, através da iniciativa pública, manter e transmitir às gerações futuras”. Não uma comunidade fechada, mas aberta. Eis o que diz a Convenção. Não se trata de ver as comunidades patrimoniais como factores de identidade encerrados sobre si, mas de considerá-las como grupos vivos de gente que faz da criação a sua capacidade de ligar o passado e a espera do futuro. Não é possível reconhecer o direito ao Património cultural sem o ligar ao direito de participar na vida cultural. Daí a necessidade de reconhecer a responsabilidade individual e colectiva perante o património cultural recebido das gerações passadas. Preservar o património e usá-lo de modo sustentável está, assim, ligado ao desenvolvimento humano e à qualidade de vida, tornando-se um elemento de paz e de democracia, de desenvolvimento sustentável e de promoção da diversidade cultural. Quando falamos da Europa e da construção de uma solidariedade aberta, assente na cultura, estamos, afinal, a pensar não numa qualquer estrutura burocrática, mas numa realidade baseada nas pessoas, na dignidade, na liberdade, na igualdade e no respeito. Património comum da Europa tem de se tornar, deste modo, um denominador comum, um elemento de reconhecimento mútuo, que envolva “todas as formas de Património cultural (…), que no seu conjunto constituam uma fonte partilhada de memória, compreensão, identidade, coesão e criatividade”, mas também que abranja os factores imateriais, capazes de ligar as pessoas e as comunidades – “os ideais, os princípios e os valores resultantes da experiência adquirida com progressos e conflitos passados, que favoreçam o desenvolvimento de uma sociedade pacífica e estável, baseada no respeito dos direitos do homem, da democracia e do Estado de direito”.

DIREITOS E RESPONSABILIDADES
A esta luz temos de assumir direitos e responsabilidades. Cada pessoa tem o direito de beneficiar do património cultural e de contribuir para o seu enriquecimento. Cada um tem a responsabilidade de respeitar o património próprio e dos outros, numa perspectiva de salvaguarda do bem comum. Daí os compromissos: de reconhecer o interesse público ligado ao património; de valorizá-lo através da sua identificação, estudo, interpretação, protecção, conservação e apresentação; de assegurar a existência de medidas legislativas para o exercício do direito ao património cultural; de favorecer um ambiente económico e social adequado a estas preocupações e finalidades; de promover a protecção do património como elemento central do desenvolvimento sustentável, da diversidade cultural e criação contemporânea; de reconhecer o valor do património, independentemente da sua origem ou pertença; e de formular estratégias integradas com estes objectivos. Não estamos, pois, perante formulações desenraizadas. Estamos diante de responsabilidades que não se limitam a conceber o património como referência do passado, mas como elemento de futuro, capaz de ligar a herança recebida e o valor acrescentado legado às gerações que nos sucederão. No fundo, não poderemos responder às solicitações das gerações dos nossos netos com as audácias de nossos avós. Daí a importância de um diálogo, que envolva a reflexão sobre a ética e sobre os métodos de apresentação do património cultural, com respeito pela diversidade de interpretações. Mas importa ainda estabelecer uma conciliação, para que haja equidade entre os valores contraditórios assumidos pelas diferentes comunidades. Urge aumentar o conhecimento, de modo a favorecer a coexistência pacífica, a confiança e a compreensão mútua, tendentes à prevenção de conflitos. Daí a necessária articulação com a educação, como processo permanente, de formação ao longo da via, mas também com a ciência e a comunicação.

COMPREENDER AS DIFERENÇAS
A compreensão das diferenças e do lugar do outro, no tempo e na História, exige conhecimento, aprendizagem e consciência da necessidade de enriquecer os processos de desenvolvimento económico, político, social e cultural, bem como o ordenamento do território. Mas obriga ainda à abordagem integrada e equilibrada das políticas relativas à diversidade cultural, biológica, geológica e paisagística, o reforço a coesão social e a responsabilidade partilhada, bem como a promoção activa da qualidade ambiental. Eis por que a utilização sustentável do património entra na ordem do dia, em nome do respeito da integridade, de modo que a adaptação compreenda os valores culturais, definindo e promovendo gestão e manutenção adequadas, velando por uma regulamentação técnica inteligente da conservação e promovendo a utilização de materiais, técnicas e aptidões tradicionais, explorando as potencialidade para aplicações contemporâneas e assegurando uma elevada qualidade nas intervenções, através de sistemas de qualificação e acreditação do melhor profissionalismo. O valor social do património exige o aumento da informação sobre as potencialidades económicas da sua utilização. As políticas de desenvolvimento terão de considerar o património. Por isso, importa organizar as responsabilidades públicas, promovendo uma abordagem integrada e bem informada das autoridades públicas; desenvolvendo os quadros jurídicos, financeiros e profissionais necessários, bem como os métodos inovadores para a cooperação entre autoridades públicas e privadas, respeitando e encorajando as iniciativas voluntárias e apoiando as organizações não governamentais que defendam o interesse público. Eis porque deve encorajar-se a participação activa das pessoas na identificação, estudo, interpretação, protecção e conservação do património, assim como na reflexão e debates públicos sobre as oportunidades e os desafios que se apresentam.

UM VALOR INSUBSTITUÍVEL
O valor atribuído ao património pelas diferentes comunidades patrimoniais deve ser considerado, reconhecendo-se o papel das organizações não lucrativas, como parceiros e agentes críticos. E como não colocar a dimensão patrimonial na escola, como meio de acesso a outros campos do conhecimento? Como não dar especial atenção à formação profissional? Como não favorecer a investigação interdisciplinar? No tempo da sociedade da informação, urge incentivar a qualidade dos conteúdos, garantir a diversidade de línguas e culturas, combater o tráfico ilícito de bens culturais, suprimir os obstáculos de acesso à informação relativa ao património cultural, em especial para fins pedagógicos, protegendo-se especialmente os direitos de propriedade intelectual. Compreende-se a importância de um sistema de acompanhamento e cooperação, mantendo, desenvolvendo e armazenando os dados num sistema partilhado de informação, acessível, de modo a facilitar a avaliação do modo como é dado cumprimento aos compromissos decorrentes da Convenção. Por se tratar de uma Convenção de enquadramento e não de um instrumento de obrigações directas, do que se trata é de ter consequências com vista a adoptar os novos desígnios ligados à preservação do património, da herança e da memória. Daí o necessário empenhamento dos Estados membros do Conselho da Europa, tornando-se necessário mobilizar os países que ainda não assinaram e ratificaram o novo instrumento de modo que a nova Convenção entre em efectividade. As políticas públicas da cultura deixam de separar o património cultural e a criação contemporânea. Património, herança e memória tornam-se, assim, factores da cultura como criação. Somos porque queremos e porque queremos saber donde vimos e para onde vamos. A memória viva anima-nos e lança-nos o desafio exigente de sermos mediadores entre gerações. A Convenção de Faro é um sinal de esperança, mas também um estímulo forte – para que a cultura, a educação e a ciência se tornem horizontes de desenvolvimento humano e de dignidade, de liberdade e de igualdade, de autonomia e de diferença, de responsabilidade e de justiça.

Guilherme d'Oliveira Martins

A PALAVRA DE JBC

A PALAVRA DE JBC
 

 

LEGENDA AUREA

por João Bénard da Costa

1 - Vai para uns tempos, puxei de rufos e tambores para saudar a edição de "A Bíblia dos Jerónimos," em parceria entre a Bertrand e a FMR. Vai para uns tempos? Que digo eu? Já o ano mudou de quatro para cinco e os tempos de que falo são tempos do ano passado. Às voltas no mundo ou às voltas com o mundo, voltei a despedir-me à francesa e a desaparecer sem dizer água-vai. Uns chamam-me flibusteiro, outras trapalhão, mas eu acho sempre que eles não se vão embora para não mais voltar. Eu volto sempre. Posso despassarar, mas estou sempre onde menos se espera. Aqui, por exemplo, cá estou eu de novo, pegando nos livros onde os deixei e no Natal, já o Dia de Reis se foi há mais de uma semana. Chega de tempos e da falta deles. O que eu queria lembrar é que, ao louvar "A Bíblia dos Jerónimos", sacudi do capote eventuais suspeitas de andar a soldo de Franco Maria Ricci. Ficava muito mal com a minha consciência se não me apressasse nos hossanas a uma edição tão bela como essa e que nada tem que ver com a Bertrand ou com Ricci, surgida nos escaparates por obra e graça da Civilização Editora do Porto.
Em tão funesto ano como o passado, o Menino Jesus desceu do céu três vezes: para a Bíblia de que já tanto falei, e para os dois inadjectiváveis volumes que aqui me trazem hoje. Qual foi a terceira vez? A modéstia ou o orgulho impedem-me de o dizer por enquanto, mas pode haver quem repare. 2004, o malfadado, acabou em glória de livros de arte, desses que levaram o poeta das "Odes" ao verso famoso: "a thing of beauty is a joy forever".

2 - Algures em "A Alma dos Ricos", Agustina escreve que "santos e santas, pessoas de altíssima graça para a abnegação e o sacrifício, iam buscar essa paixão a um lugar inóspito e prodigioso, a própria infância". Não há muito que duvidar. Quem conhecer o mais vasto repertório de vidas de santos e santas jamais recolhido não encontra um ou uma que não tenham ido buscar a bem-aventurança a essa tenra idade. Hoje, lê-se muito menos a "Legenda Áurea". Mas, durante cerca de 600 anos, foi o "livro mais copiado e mais lido de todos os países da cristandade", juntamente com a Bíblia, como sustenta Diane de Selliers, no prólogo da magnificente edição francesa de 2000, em boa hora vertida para português em 2004. Por mim, só tenho algumas dúvidas ao lembrar-me da "Imitação de Cristo" (pelo menos tão lida como a "Legenda Áurea") e só ponho algumas reservas à expressão "países da cristandade". Sabido como os santos e santas foram desacreditados pela Reforma, não julgo que, nos países protestantes, o livro estivesse em muitas cabeceiras desde que a cristandade ocidental se partiu ao meio. Mas em terras do Papa, ou ao Papa reverentes (mesmo quando insolentes), a afirmação é pacífica. Quem, entre os ímpios, tiver dúvidas, leia a sábia introdução do prof. Aníbal Pinto de Castro e perdê-las-á. Só em Portugal não têm conta as edições, desde a de Alcobaça, em 1298, ainda o autor da "Legenda" era vivo, até as de 1818. Embora para os mais novos persistam muitas confusões. Eu, por exemplo, sempre lhe chamei "Lenda Dourada" (por influência do título francês "La Légende Dorée" e em francês li eu o livro, quando novo era) e sempre escrevi o nome do seu autor como Jacques de Voragine (outro galicismo). Os factos, resumidos pelo prof. Pinto de Castro, convenceram-me. É bem certo que Jácomo, lacopo ou Jacopo de Varezze - "cedo conhecido pelo apelido alatinado de Voragine" (1226?-1298) foi um nativo da Ligúria, que professou nos dominicanos em 1244 e chegou a provincial da Lombardia, a geral da Ordem dos Pregadores e a arcebispo de Génova. Se viajou bastante (foi até França, foi até à Hungria), quase toda a sua vida se passou em Itália. De modo que, ao aportuguesar-lhe o nome, vale o compromisso de Pinto de Castro, que lhe chama Tiago de Voragine, pois que Tiago precedeu Jaime como versão lusa do Jacobus latino. Não me vou demorar na história da vida de Tiago de Voragine, mas acentuo, seguindo uma vez mais o prof. Pinto de Castro, na imensa erudição que o levou a redigir durante cerca de vinte anos (mais ou menos de 1240 a 1260) estas vidas de 365 santos, usando como fontes autores que vão de Santo Ambrósio a Santo Agostinho, do Pseudo-Dinis ao Venerável Beda, para lá das Escrituras, quer as ortodoxas quer as apócrifas. Voragine contou a verdade, só a verdade e nada mais que a verdade? No século XIII não se usavam tais pruridos e a palavra "legenda" por que a obra passou a ser conhecida, mostra, com clareza, que as fontes principais eram lendárias, recolhidas pela tradição com o mesmo grau de fidelidade dos contos populares. "Áurea", porquê? Porque "o seu conteúdo é de ouro" e brilha como brilha esse metal.
Para se perceber bem este livro, sobretudo "mágico", há que atentar em dois pontos, relevados na sumptuosa edição que aqui me trouxe. O primeiro é referido numa citação de Gervásio de Cantuária (1140-1210) que serve de epígrafe ao texto introdutório de Diane de Selliers: "Com a Beleza resplandece a luz. No Céu, contemplaremos a Beleza face a face, ali já não teremos necessidade da arte. Na terra, não podemos prescindir dela."
O segundo serve de título ao artigo de Pinto de Castro e chama à "Legenda Áurea" as "Mil e uma Noites do Cristianismo". Quem ler este livro, esquecido desta platónica invocação à beleza (bebida directamente em Plotino), ou esquecido da sua analogia com os contos árabes, perde, quanto a mim, o essencial. Sendo também certo que, de acordo com as boas regras da retórica, "o prazer do texto (o 'delectare') e as emoções que desencadeia no destinatário (o 'movere') estão sempre ao serviço de uma intenção catequética e moralizante (o 'docere')" (aut.cit.). Esse duplo propósito reveste-se na edição francesa de 2000 - e agora, nesta, portuguesa, de 2004 - de um aspecto ainda mais deleitoso, pela opção de ilustrar os dois grandes volumes da obra com reproduções da grande pintura italiana do século XIII ao século XV, de Duccio e Giotto até Masaccio ou Piero. A obra agora editada é um "livro de arte" fabuloso, uma espécie de "riquíssimas horas" da cristandade medieval e do primeiro Renascimento, que junta ao prazer da beleza literária o da beleza pictórica, tão belos os textos quanto as imagens, gloriosamente reproduzidas. É um livro de imagens, é um livro de textos. O segundo é um dos mais belos textos medievais conservados. As primeiras levam-nos a percorrer a história da pintura (pintura italiana) entre os céus de Fra Angelico e as tebaidas de Uccello, para escolher dois de mil exemplos. "Movere"? "Docere"? Não o nego. Mas estes dois volumes, que a Mónica e a Sofia me puseram no sapatão, são, para mim, sobretudo, objecto de deleitação. Como diria o João César Monteiro, se fosse vivo, "que de leites!".

3 - Leites há muitos, como é de supor em obra que dá à Virgem e ao Menino tão abundante iconografia. Mas o líquido mais escorrente desta obra singularíssima é o sangue, já que a palma do martírio, ainda mais do que a da virgindade, foi a mais frequente via de acesso à eterna felicidade. Quem quiser ler um tratado de sado-masoquismo, encontra-o também nesta obra. Exemplo supremo é a fabulosa história da morte do mártir São Tiago Interciso, a quem cortaram todos os dedos da mão direita, depois todos os dedos da mão esquerda, depois todos os dedos do pé direito e depois todos os dedos do pé esquerdo. Como ele sempre bradasse: "Este é o maior dia da minha vida! Hoje irei para o Deus forte!", os carrascos cortaram-lhe o pé direito e a seguir o pé esquerdo. Depois as mãos, depois os braços. "Os algozes já desfaleciam, pois suavam a retalhá-lo desde a hora prima até à nona do dia. Mas, de novo, abriram-lhe a perna esquerda e extraíram-lhe o músculo até à coxa." E Tiago Interciso rezava: "Senhor Soberano ouve-me que já estou meio morto (...) Não tenho dedos para Tos oferecer nem mãos para estender para Ti. Os meus pés foram cortados e os meus joelhos destruídos. Assim, não consigo ajoelhar-me, pois sou como uma casa que vai ser demolida, porque já não tem colunas que a sustentem. Escuta-me, Senhor Jesus Cristo, e tira a minha alma do cárcere. Ao dizer isto, aproximou-se um dos algozes e cortou-lhe a cabeça." Mas o corpo é um cárcere traiçoeiro. Quando a escolha se põe entre libertar a virgindade ou libertar o espírito, a opção é ainda mais dolorosa.
É o dilema da Virgem da Antioquia, celebrada a 28 de Abril.
Determinavam os ímpios que a virgem ou sacrificasse aos ídolos ou se prostituísse num lupanar. "Que farei? Hoje, ou serei mártir ou virgem. Ambas as coroas me seduzem. Contudo, onde se nega o autor da virgindade também não se reconhece o nome da virgem. Mas como poderei ser virgem, se venerar a meretriz? Como serei virgem, se adorar o adúltero? (...) Portanto, mais vale ter o espírito virgem do que a carne. Se for possível os dois, será bom. Se não, seja casta para Deus, embora não para o homem. Raab foi prostituta, mas depois acreditou em Deus e encontrou a salvação. E Judite tornou-se adúltera para agradar a um adúltero. Mas porque fazia isto pela religião e não pelo amor, ninguém a julgava adúltera (...). Porque se Judite tivesse preferido a castidade à religião, perdida à pátria, teria também perdido a castidade (...). Julgai vós e vede se ela teria ou não podido adulterar o corpo, já que nem a voz adulterou (...). Virgens de Deus, fechai os ouvidos porque levam a virgem de Deus para o lupanar; mas abri os ouvidos, ó virgens de Deus, porque, embora a virgem possa ser prostituída, nunca poderá ser feita adúltera."
Mil e uma noites nos foram contadas assim. Não é muito de espantar que as nossas noites de hoje ainda sejam como são. Mas, agora, o que interessa é abrir e fechar os ouvidos e os olhos às maravilhas destas lendas de ouro. Há quanto tempo eu esperava que um livro destes viesse ao meu encontro! Ele chegou, forrado de azul e de encarnado.

(14 de Janeiro 2005 in Público)
 

A VIDA DOS LIVROS

de 16 a 22 de Novembro de 2009

«Os “Vencidos do Catolicismo” – Militâncias e Atitudes Críticas (1958-1974)» de Jorge Revez (Centro de Estudos de História Religiosa – Universidade Católica Portuguesa, 2009) é a publicação de uma dissertação de mestrado, onde se analisam os acontecimentos protagonizados pelo catolicismo inconformista português, de 1958 a 1974, desde o ano intensíssimo em que a candidatura de Humberto Delgado, o memorando de D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, a Salazar e o início da “Aventura da Moraes” de António Alçada Baptista constituíram factos decisivos para pôr em causa a “frente nacional”, invocada pelo Estado Novo como factor fundamental da sua legitimação. As duas figuras que merecem uma atenção muito especial nesta obra são as do poeta Ruy Belo e do Padre José Felicidade Alves. Na capa é nos dada uma magnífica fotografia da autoria de Duarte Belo.

A COMEÇAR NO POEMA DE RUY BELO
Tal como acontece com o título adoptado por João Bénard da Costa para as suas recordações memorialísticas, Jorge Revez escolheu emblematicamente o título do célebre poema de Ruy Belo, compreendendo-se a sua opção, em virtude da atenção particular que atribui ao poeta de “Homem de Palavra(s)”. Além disso, o tema do paralelismo entre os “Vencidos do Catolicismo” e os oitocentistas “Vencidos da Vida” marca a reflexão da obra, na esteira das análises de António Matos Ferreira e do próprio Ruy Belo, um admirador confesso e estudioso da geração de 1870, sobretudo da figura de Antero de Quental. É, aliás, de salientar neste ponto o facto de a orientação académica caber a Sérgio Campos Matos, um dos nossos grandes especialistas sobre o final do século XIX. Recorde-se, antes de mais, o poema de Ruy Belo, que no seu início diz: “Nós os vencidos do catolicismo / que não sabemos já donde a luz mana / haurimos o perdido misticismo / nos acordes dos carmina burana // Nós que perdemos a luta da fé / não é que nos mais fundo não creiamos / mas não lutamos já firmes e a pé / nem nada impomos do que duvidamos”. Aqui sentimos, com muita nitidez, o ambiente geral do tempo observado. E há um drama evidente, que tem a ver com a claustrofobia sentida numa sociedade que, sem pluralismo, tendia a separar as opções entre o nosso e o contra nós. Aliás, é a mistura entre o ambiente político dos dias finais da autocracia com a crise da Igreja pós-conciliar que torna especialmente dramática a situação portuguesa. Afinal, como afirma o Padre Manuel Antunes não estamos perante uma questão puramente portuguesa, apesar de ganhar aqui (como em Espanha) contornos especiais em razão dos constrangimentos políticos existentes. Daí que entre os católicos os acontecimentos que a obra refere tenham sido sentidos como ferida aberta, em carne viva – facto bem simbolizado não só na fotografia do engº Francisco Lino Neto, com a cabeça ensanguentada, depois de ser atingido pela polícia de choque na manifestação de apoio ao General Delgado, mas também nos doloridos poemas de Ruy Belo da fase final. E o poeta dirá, profeticamente: “a história do catolicismo português actual, a fazer um dia, não pode deixar de ser uma história dolorosa”. Aliás, a afirmação “não é que no mais fundo não creiamos” revela um carácter de escolha decisiva, que leva o poeta, bem como o Padre José Felicidade Alves, de modo diferente, a uma corajosa demarcação de posições. Nada poderia continuar na mesma. A conciliação confundia-se com traição, e isso era impensável. Afinal, lidas as Escrituras, o escândalo da contradição era enorme e insofismável. “Nesta vida é que nós acreditamos / e no homem que dizem que criaste / se temos o que temos o jogamos / “Meu deus meu deus porque me abandonaste?”. Sente-se a dúvida e a revolta… Como afirma Sérgio Campos Matos: “A modernidade passava também por uma espiritualidade renovada, liberta de dogmas e constrangimentos, aberta aos problemas humanos concretos, ao pulsar da vida, às culturas de protesto que a juventude dos anos 60 ia difundindo numa sociedade bloqueada. Compreende-se que, por essa época, a ‘crise da Igreja’ e até mesmo a ‘crise da civilização’ (P. Manuel Antunes) fizessem parte do léxico dos católicos que ousavam adoptar um pensamento crítico”. Se João Miguel de Almeida em “A Oposição Católica ao Estado Novo” nos faz (como já analisámos oportunamente) uma descrição histórica passo a passo desse tempo, Jorge Revez analisa o drama, centrado em dois caminhos individuais e na sua inserção na história portuguesa. Daí a interrogação sobre o “vencidismo”, mesmo entendendo-se que não há uma geração com coerência intrínseca, nem um projecto marcado (como se nota em “O Tempo e o Modo”, até perante o equívoco sobre a hipótese de um partido democrata-cristão, que Mário Soares julgava possível sob o impulso de António Alçada Baptista).

UM DRAMA PERSONIFICADO
O autor começa por recordar a importância da Acção Católica, como factor de militância dos católicos e de tomada de consciência cívica, bem como os antecedentes inconformistas (Joaquim Alves Correia e Abel Varzim) que culminarão nos acontecimentos de 1958 e dos momentos que se lhe seguiram, no que designa como uma ruptura interna do próprio catolicismo. É o tempo do “aggiornamento” que levará ao Concílio Vaticano II e que coincidirá com o progressivo “descomprometimento” da Igreja Católica com o Estado Novo. Recordem-se, aliás, o documento de Francisco Lino Neto “Considerações dum Católico sobre o Período Eleitoral” (Junho de 1958), os abaixo-assinados de 1959 e o “manifesto dos 101” (de Outubro de 1965). Trata-se de textos fundamentais sobre a necessidade da democratização, sobre a polícia política e sobre a autodeterminação dos povos de África. No último caso, Nuno Bragança empenhou-se pessoalmente em assegurar que o Cardeal Cerejeira recebesse no Vaticano, onde se encontrava, um pedido para não desautorizar os católicos signatários desse documento que punha o dedo na ferida dos temas do pluralismo e do futuro de África. De facto, o Prelado recebeu o empenho e não pôs em causa directamente os católicos signatários, o que os deixou satisfeitos, indo António Alçada Baptista ao Aeroporto da Portela para receber o Cardeal em sinal de reconhecimento.

SINGULARIDADES E SINAIS DOS TEMPOS
“Tenho uma dor chamada Portugal / país defunto talvez unto para nações vivas / Portugal meu país de desistentes / terra mordida por soares dos reis / por antero camilo ou trindade coelho / Suicidou-se nestes homens o país / um país de província Portugal…”. Assim se exprime Ruy Belo. Sentem-se os ecos poéticos de Alexandre O’Neill. É uma reflexão do português e do cristão. E António Alçada sublinha a contradição dramática: “Falou-se então na morte de Deus. Na verdade, era necessário que esse Deus morresse porque estava a tomar o lugar de um outro que se confundia com o mistério da nossa liberdade que é também a consciência de enfrentar um mistério que é a essência do novo Deus que se anunciava”… E Jorge Revez procura dar-nos a chave do que, para si, está em causa, unindo os temas ligados: “o vencidismo desses católicos foi, provavelmente, o resultado ou a expressão de um processo de deslocação cuja movimentação principal seria a da secularização, em que, inconformados com a estrutura religiosa de que faziam parte e face ás novas dimensões da experiência humana com as quais vinham contactando, optaram pela ruptura”. Não estamos, pois, perante um reconhecimento da força do fatalismo. O “rompimento é também, em última análise, uma busca de autenticidade na vivência de uma fé que muitas vezes não se esvaziou por completo, apesar do anterior denominador comum, a igreja, nos finais dos anos 60, ter perdido a sua capacidade mobilizadora e envolvente no quadro da experiência religiosa”. O fenómeno é, assim, amplo, tendo a ver com a secularização e com a modernização (política e social) do país. Estamos diante do que o autor designa como uma “igreja fracturada”, em busca de uma recomposição. “É um catolicismo em movimento e não qualquer forma de fim da religião”. E essa procura de autenticidade e de coerência entre razão e fé já Antero a exprimira com clareza, em 1871, nas “Causas da Decadência”.  

Guilherme d'Oliveira Martins

A PALAVRA DE JBC

A PALAVRA DE JBC
 

 

SARABAND

por João Bénard da Costa

1. Apetecia-me começar este texto sobre o último filme de Bergman comentando uma frase de Liv Ullmann que li algures: "Filmes e pessoas não envelhecem da mesma maneira." É tão certo. Mas, como os críticos portugueses acentuam, quase invariavelmente, o retorno do mesmo Bergman como um regresso da casa dos mortos (alguém que já tinha uma lápide em cima e vibrante elogio fúnebre e que, de repente, reapareceu algo obscenamente, quebrando a lousa por sua própria mão), reprimo o apetecimento. Se há coisa que me apetece ainda menos é entrar em polémicas, ao falar de um dos filmes mais desmedidamente belos alguma fez feitos. O filme mais intenso, o filme mais suave, dessa intensidade e dessa suavidade a que Julia Dufvenius (uma das muitas imensas surpresas de "Saraband") se refere, quando, no princípio do seu primeiro diálogo (ou monólogo) com Liv Ullmann, lhe fala do que o pai lhe exige para interpretar a sonata op. 25 de Hindemith (Cena 2). Deixo, pois, essa conversa de tempos e de velhos, para apenas reter dela o que na cena 9 Liv Ullmann diz a Erland Josephson, quando o compara a um personagem de um filme antigo. Erland Josephson reage à notícia da tentativa de suicídio do filho (Börje Ahlstedt, que em tempos foi o tio Carl de "Fanny e Alexandre") com comentários de uma maldade desmedida. Desse filho que agoniza no hospital, após tomar todos os comprimidos que tinha e não tinha (onde é que eu já ouvi isto?), cortar os pulsos e a garganta, não crê na morte. "Quem falhou tudo na vida, até no suicídio vai certamente falhar." Ela não o reconhece em tamanha crueldade. E usa então a comparação citada. Em que filme estaria ela a pensar? É bem possível que num filme de Bergman, onde o Deus Aranha teceu fios equivalentemente perversos. Mas se tudo neste filme de Bergman reenvia a outros filmes de Bergman (quase se poderia citar a filmografia completa), nenhum filme me pareceu menos um filme antigo, e obviamente não estou a pensar no digital HD que não menosprezo mas também não sobrevalorizo. Há muitos anos que não via um filme tão novo, um desses filmes que parece reinventar tudo e onde tudo parece acontecer pela primeira vez. Deixem-me apenas que vos diga que não percebo que se fale de um silêncio quebrado, 21 anos depois da estreia de "Fanny e Alexandre". É verdade que Bergman disse, à época (1982), que não voltaria a filmar. Já o tinha dito antes, muitas vezes, e quebrou a promessa. Como a quebrou, em 1983, com "Depois do Ensaio" e com "O Rosto de Karin"; em 1986, com "Os Dois Bem-Aventurados", e com o documentário sobre "Fanny e Alexandre"; em 1997, com "Na Presença de um Palhaço"; em 2000, com "Os Construtores de Imagens". Foram filmes para a televisão e não para o cinema? Mas não foi esse também o caso de quase todas as suas obras desde "Lágrimas e Suspiros", em 1972? Não foi esse o caso, nomeadamente, de "Cenas da Vida Conjugal", de que alegadamente "Saraband" seria a continuação? Bergman que o disse também o desdisse e não bastam nomes idênticos para idênticos actores (Liv Ullmann/Marianne, Erland Josephson/Johan) para concluir por essa solução (as filhas de então não se chamavam Sara e Martha, como agora se chamam). Essa questão é irrelevante, como é irrelevante o tempo do pousio, se acaso o foi. Prefiro passar à nova música.

2. É verdade que nem sequer o é. O lugar central ocupado pelo quarto andamento da quinta "Suite para Violoncelo Solo", de Bach, já existira em "Lágrimas e Suspiros", para não falar da omnipresença da segunda suite na chamada "trilogia de Deus". Mas, desta vez, em que Bach não está sozinho e traz consigo Bruckner e Brahms, Alban Berg e Hindemith, "Saraband" é título e título de uma obra a que Bergman chamou "um concerto grosso para quatro instrumentos". Sarabanda - Concerto grosso. Andamos pelo barroco, quando a dança perdeu as conotações lascivas que levaram à sua proibição na Espanha do século XVI, para se tornar uma vagarosa e solene dança processional. No filme, conserva-se a lascívia (discretíssima, mas perturbantíssima, na relação incestuosa entre Börje Ahlstedt - Henrik, o filho de Erland Josephson - e Julia Dufvenius - Karin, a filha dele - com quem o pai partilha a cama e a quem beija sofregamente na boca. E sem querer insistir (até porque Bergman só é elíptico quando quer), para mim um exemplo fulgurante de imagem lasciva é aquele plano sublime (só possível graças à imagem digital) em que, no fim da Cena 6, Karin se vê sozinha no ecrã todo branco, com o violoncelo entre as pernas, ponto luminoso perdido na distância, parecendo surgida de um filme de Michael Powell.
Sexta cena. Sex. Posso bem estar a delirar, mas essa cena baptizada "A Proposta", passada entre um avô de 86 anos (a propósito, Erland Josephson tinha 80 à data da rodagem, 86 era a idade de Bergman) e uma neta de 19, é, sem dúvida, a mais erótica do filme. Toda vestida de encarnado (da única vez que se veste assim, roubando a cor a Liv Ullmann) cercada pelos sons altíssimos da 9ª de Bruckner, Karin, antes de entrar no escritório do avô, controla cuidadosamente a aparência e vestes, e avança depois, sem que ele a ouça, até o despertar com um beijo e uma vénia. O avô lê-lhe então a carta da proposta (o convite do maestro russo para uma carreira de solista) e oferece-se para lhe pagar os estudos e o violoncelo digno de um Guarnerius. Como sempre, é mais um monólogo do que um diálogo e pouco ou nada Karin responde à tentação altíssima. O avô despede-a, após a conversa sobre Freud e os cigarros, a pretexto de muito cansaço e é então que Karin tem essa autovisão, essa espécie de dissonância na composição da sequência, de que outros exemplos sumamente heterodoxos abundam durante o filme. Mas não me consigo despedir desta música sem citar outra dessas dissonâncias, a mais brutal porque é a primeira. É a meio da Cena 2, entre Liv Ullmann e Julia Dufvenius, quando esta conta àquela a sua violenta cena com o pai. Subitamente, saímos do quadro e vemos (no que não é um "flash-back") a dita cena intensamente física. Depois, a rapariga foge de casa, em camisa de noite, percorrendo a floresta como a virgem da fonte, até entrar na água escura de um pântano e desaparecer da imagem, sem que a câmara se mexa. Ouvimo-la, então, em "off", num uivo desmedido, até reaparecer no plano. Jean Michel Frodon, comentando essa cena, fala de morte e ressurreição. E diz: "Nunca, talvez, se tenha mostrado esse duplo acontecimento extremo - morte e ressurreição - de maneira tão poderosa. Nem no cinema, nem no teatro, nem na pintura." Tem razão.

3. "Concerto grosso para quatro instrumentos". Actores há cinco, mas quatro preenchem quase todo o filme. Um prólogo, em epílogo e dez cenas. Mas nas cenas nunca estão mais do que duas personagens, excepto nas dissonâncias aludidas. Mas há muitas outras personagens ausentes. E uma há que, retomando uma designação antiga, eu poderia dizer, sem dizer nada que não tenha sido já dito e redito, que é a "protagonista ausente" desta obra. Falo de Anna, a mãe de Karin, a mulher de Henrik, que morreu de cancro dois anos antes de o filme começar. Dela, temos recorrentemente, em casa do marido, em casa do sogro, o retrato a preto e branco. Amou-a o marido, amou-a a filha, amou-a o sogro e não parece que nenhum deles tenha amado alguma vez mais alguém. Foi o "anjo" naquele "ninho de víboras"? Tudo e todos parecem dizer que sim, única presença de amor feita, única presença feita para o amor. Ela só parece ter estado de lado daquela origem que Erland Josephson misteriosamente nomeia, quando comenta, na Cena I, a beleza da paisagem que o rodeia: "O mundo é pleno de belezas. Como deve ser bela a origem delas!" Ela só parece assemelhar-se ao São João que repousa no colo de Cristo, na ceia medieval da igreja da cena V e que Liv Ullmann vem ver de perto, no fim dela, única cena de onde o grande plano esteve ausente. Mas será verdade? Quando Henrik termina o seu longo monólogo na cama com a filha (cena 3) vemos-lhe o retrato em grande plano. E há um breve efeito (outra vez o vídeo), em que os olhos do retrato parecem disparar uma luz luciferina (um encarnado tão rápido, mas não mo tirem) sobre a filha e o marido no leito conjugal. Muito depois (cena 7), vem a leitura da carta que Anna deixou ao marido, sobre a relação dele com a filha. Essa carta é carta salvadora ou carta de perdição? Pelo menos, a partir dela tudo se consome. Karin, que resistira à proposta do avô, não resiste ao convite de Abbado, a sarabanda da Suite não chega a ser tocada, e Henrik suicida-se sem que a filha o saiba. E é depois (cena IX) que surge a sequência genial da hora do lobo, em que Erland Josephson, numa "diarreia de angústia", irrompe pelo quarto de Liv Ullmann, para, nu, se deitar junto ao corpo também nu da ex-mulher de 63 anos (a propósito, a idade real de Liv Ullmann à data da rodagem). Parecia que o filme não podia crescer mais? Mas há ainda o epílogo. Como no prólogo, Liv Ullmann dirige-se à câmara (dirige-se a nós) e, numa última dissonância, assistimos ao seu encontro com a filha catatónica, que, por breves momentos, abre os olhos como que respondendo ao afago da mãe. "E, pela primeira vez, nas nossas duas vidas, percebi, senti, que tinha tocado na minha filha. Na minha criança."
O ecrã fundo em negro. O filme acabou.

4. Eu não consigo acabar sem vos fazer uma pergunta. Alguma vez pensaram que o grande plano é a única figura da gramática do cinema que só no cinema existe e que não é concebível em qualquer outra arte? Pintores pintaram grandes planos, mas o quadro impede-nos de os ver como tal, a não ser que encostemos a cara à tela, em movimento nosso e não da pintura. Não é maneira de a ver, não é movimento suposto ao espectador.
Mas a câmara pode o que o nosso olhar não pode. E a câmara de Bergman pode mais que qualquer outra câmara, mesmo a de Griffith. Neste filme, vai ainda mais longe. Ao acercar-se mais e mais dos quatro rostos e das quatro vozes, para além dos corpos, dá-nos a ver almas. Impossível? Não para esse génio de todos os possíveis, chamado Ingmar Bergman.

(21 de Janeiro 2005 in Público)

A VIDA DOS LIVROS

de 9 a 15 de Novembro de 2009

“Europa” de Adolfo Casais Monteiro (Confluência, s.d.) é um poema premonitório. Foi lido aos microfones da BBC, na emissão de língua portuguesa, a 23 de Maio de 1945, por António Pedro. Era o fim da guerra europeia e havia uma grande esperança – a de que, depois da tragédia terrível, que tinha deixado o velho continente exangue, seria possível lançar as bases de uma paz duradoura. Como disse José Augusto Seabra, no prefácio à edição de 1991 (Nova Renascença): “Pela voz forte e timbrada de um intelectual então emigrado, António Pedro, esse poema, da autoria de Adolfo Casais Monteiro, um dos nossos mais corajosos poetas resistentes à ditadura, acordou em quantos o escutavam a esperança de que também para Portugal a hora da liberdade iria soar, na nova Europa que se erguia sobre o sangue e os escombros decorrentes da criminosa aventura totalitária hitleriana”.


Ilustração de António Dacosta.

QUE EUROPA? 
Vinte anos depois da queda do muro de Berlim, no momento em que estão criadas condições para a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, devemos recordar o que disse Adolfo Casais Monteiro: “Europa, sonho futuro! / Europa, manhã por vir, / fronteiras sem cães de guarda, / nações com o seu riso franco / abertas de par em par”. Assim se inicia o poema, abrindo horizontes, no momento culminante do final da guerra. Havia,nesse momento trágico, a consciência de que a mera lógica nacional, proteccionista, das fronteiras fechadas sobre si mesmas, ou do egoísmo particularista não permitiria a abertura de condições de reconciliação, a partir de instituições e de uma cultura de paz. Não se trataria de esquecer a lógica nacional, nem de subalternizar a diversidade cultural, mas de assentar o pluralismo, as diferenças e a democracia nas complementaridades e na articulação entre a legitimidade das nações e dos cidadãos. Lido à distância o poema contém a ideia de que a democracia exige não apenas a reorganização das nações, mas sim a ligação entre a legitimidade próxima e a legitimidade mediata. “Serás um dia o lar comum dos que nasceram / no teu solo devastado? / Saberás renascer, Fénix das cinzas / em que arda enfim falsa grandeza, / a glória que teus povos se sonharam / - cada um para si te querendo toda”. A ideia de “lar comum”, ou de casa comum, obriga a superar a tentação egoísta dos interesses hegemónicos, que apesar de historicamente conhecidos, conduzem, nos dias de hoje, ao arrastamento dos problemas e à sua não resolução. A recente crise financeira e a ilusão das soluções proteccionistas confirmaram de novo esta ideia, de que a Europa como vontade comum é necessária para a defesa dos interesses de todos e de cada qual. As guerras civis europeias são um dado insofismável e os últimos séculos tornaram-nas insustentáveis e trágicas pelas suas repercussões globais.

UMA HISTÓRIA TRÁGICA
A primavera dos povos de 1848 projectou no continente os ideais da legitimidade liberal, mas acordou as ilusões agressivas dos nacionalismos. A guerra franco-prussiana procurou reformular os impérios, mas abriu a caixa de Pandora, que a Guerra de 1914 agravou e que a Segunda Grande Guerra prolongou, transformando a humilhação do primeiro conflito num confronto de consequências tremendas. O ideal europeu do século XX tem, assim, as raízes num grito de sobrevivência. É esse alerta que Adolfo Casais Monteiro exprime no texto de 1945. “Tua glória a ganharam / mãos que livres modelaram / teu corpo livre de algemas / num sonho sempre a alcançar! // Europa, ó mundo a criar!”. Sente-se, afinal, ao longo do poema, esta preocupação de lançar as bases de uma ordem baseada na liberdade. Contra a violência e a tirania, é a democracia e a ideia de Europa que se ligam. “Que só o homem livre é digno de ser homem”.Entende-se bem o sentido do texto, feito a pensar em Portugal e no destino europeu, e o tempo viria a confirmar a pertinência das palavras. A paz e a reconstrução apenas poderiam fazer-se com “espírito europeu”. O risco de se eternizarem as guerras europeias seria tanto mais elevado quanto mais prevalecessem as lógicas puramente nacionais. E, por isso mesmo, só depois de caído o muro de Berlim foi possível regressar à compreensão e à actualidade do texto de Casais Monteiro, porque só então poderia fazer sentido a pertinência de um “lar comum europeu”. Mesmo assim, a Europa pôde preparar, durante a guerra-fria, através da construção comunitária, as bases de um projecto comum, visando a coesão económica, social e territorial. E são esses fundamentos que poderão permitir realizar o que Jacques Delors há muito propõe: uma União Europeia talvez menos ambiciosa, mas com a audácia de realizar com uma trintena de membros três objectivos cruciais: a paz e a segurança no continente e no mundo; o desenvolvimento sustentável e a diversidade cultural. No entanto, a cada passo, sentimos que falta essa audácia. Prevalecem os pequenos egoísmos (como recentemente vimos no caso da ratificação checa, em que o espírito de Coménio ficou postergado pela lógica meramente nacional) e no combate à crise económica há manifestamente falta de uma coordenação de vontades, que ficou patente perante a maior eficácia e oportunidades das medidas norte-americanas. Não se julgue, porém, que se trata de cair na tentação de um super-Estado ou na ilusão de uma nação europeia. Do que se trata é de contrariar a tendência uniformizadora da globalização com mais diferença europeia – a favor da paz e do desenvolvimento. Infelizmente, continua a haver ausência de Europa na política e na economia mundiais. Desde o governo económico, que falta e é cada vez mais urgente, à pouca capacidade europeia de influenciar o curso dos acontecimentos internacionais, estamos perante o desafio de agir como “potência civil” e como “factor activo de paz”.

UM PENSAMENTO EUROPEU EM PORTUGAL
Se falámos de Casais Monteiro, teremos de lembrar o enigmático Pessoa, que fala de “rosto” e de “olhar esfíngico” de Portugal na Europa. Mas, ao longo do percurso histórico de um velho país europeu, temos de verificar como foi europeia a nossa vocação universal. Neste porto de partida e de chegada, foi europeia a origem, de um reino feito por guerreiros, trovadores, comerciantes e monges, desde Entre Douro e Minho até Coimbra e Alcobaça. Foi europeu o nascimento dos tempos modernos na revolta burguesa e popular de 1383 e na renascença pioneira dos Altos Infantes. Foi europeu o impulso das Descobertas do “Leal Conselheiro” e dos Infantes das Sete Partidas e do Promontório Sacro, na senda de Marco Pólo e com as informações cartográficas de Fra Mauro. Foi europeu o projecto do Príncipe Perfeito, de criar na entrada do Mediterrâneo uma potência moderna e universal… Assim, a Europa começou por fazer Portugal. Depois Portugal fez a Europa, arrastando-a, na interpretação de Eduardo Lourenço, para o seu destino universalista. E lembrem-se as “duas Europas”, as duas razões: a ibérica, castiça, mística e lírica; e a central e nórdica, do mercado, da modernidade e da ciência. De facto, o imaginário português foi condicionado por essa dicotomia – de um lado, o Quinto Império e o lusitanismo e de outro a Crítica ilustrada. De um lado, de Vieira a Pascoaes, de outro, de Damião de Góis a Sérgio. Mas cabe-nos compreender que as duas razões se encontram e se completam. E se dúvidas houvesse, o exemplo do Padre Vieira é dos mais significativos: quem duvida que o seu projecto messiânico era fundamente ancorado numa estratégia racional (desde o regresso dos judeus à fixação económica)? Mas o enigma está nos quatrocentos anos (desde 1580) em que “o desencontro entre o ser de Portugal e o ser da Europa se revela de consequências negativas para a nossa consciência”. É a reflexão de Eduardo Lourenço que seguimos – dele, discípulo assumido de Antero de Quental e das “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”. Longe do entendimento de que a Geração de Setenta (e, antes dela, Garrett e Herculano) foi decadentista, do que se trata é de ler o vencidismo, mais irónico do que sério, como um desafio de reconhecimento de que a Europa continua a ser um horizonte de emancipação, cosmopolita e universalista. Fora do fatalismo, trata-se de dizer que só se formos fiéis ao sentido crítico e ao patriotismo prospectivo poderemos partir da “maravilhosa imperfeição” para o desenvolvimento. Fiéis ao sentimento e à razão, à história e ao futuro, cientes da fecundidade de uma ideia aberta de auto-instituição da sociedade, ligando democracia e Europa, poderemos olhar para vante construtivamente. Sérgio, Proença e Cortesão estavam imbuídos desse anseio. Europa e liberdade devem estar ligadas – sendo o humanismo universalista o horizonte desse desígnio. E Lourenço, ainda ele, alerta-nos: “A nossa entrada na Europa, que podia ser apenas aproximação forçada e exterior, como em parte o continua sendo, era – é – também a entrada da Europa em nós, confronto e participação não apenas nos mecanismos de construção europeia, mas imersão mais intensa, mau grado as aparências em contrário, no magma complexo da herança cultural e simbólica da Europa” (A Europa Desencantada, ed. Visão, p. 149). Mas que Europa construímos? Este Tratado de Lisboa não é um “abre-te Sésamo”, não pode resolver as incapacidades, os egoísmos e a tentação burocrática, mas pode introduzir a pequena semente de mostarda da democracia, da cidadania e da coordenação nos interesses comuns. E comecemos pelo controlo da subsidiariedade pelos Parlamentos nacionais! Só articulando as legitimidades dos Estados e dos cidadãos poderemos avançar. Entenda-se que, assim, poderemos ganhar todos. Ligando razões, favorecendo a diversidade cultural e tendo a audácia de distinguir o que é próprio e o que é comum. Mas defendendo em comum o que é comum, sob pena de nações e Europa se destruírem…  

Guilherme d'Oliveira Martins

A PALAVRA DE JBC


A PALAVRA DE JBC
 

 

 

A MATA DO SOLITÁRIO

por João Bénard da Costa

1. Faz tempo que não nos víamos. A 27 de Agosto, bem avisei que nas próximas cinco semanas não ia haver eu. Mas prometi que voltava a 8 de Outubro, "se Deus quiser". Temente a Ele, não posso dizer que foi Ele quem não quis (embora a conversa desse pano para mangas). Eu é que preguicei mais um bocado. Cumprir prazos nunca foi o meu forte nem a minha reputação. Para quem deu pela minha falta, aqui ficam as minhas desculpas.

2. Por onde é que eu andei? Tirando um saltinho a Veneza, para festejar em corpo e alma o segundo Leão de Ouro do meu querido Manoel de Oliveira (em 1985, nessas duas espécies, festejei o primeiro, contava ele apenas 76 anos e já libertava as almas captivas) fiquei-me pela Arrábida como é meu setembral costume. Mas, contra todos os costumes, consegui a proeza de não sair de lá entre 13 e 30, dezassete dias bem contados. Fui de retrato em retrato, como em próxima crónica contarei, andei pelas praias e nadei pelos mares, com a mercê do calor. Não se deve ser mal agradecido, mas prefiro, a estes verões póstumos de 2004, os Setembros de antigamente, quando às 6 da tarde o tempo se fazia mui fresco e apetecia passear pela serra, bem sabendo embora que "em Setembro, às 8, já é noite". Nem sempre me lembrei, donde algumas "aventuras", dessas que tanto assustavam os crescidos e faziam a felicidade da minha neta Sofia, agora juntinha a M. de La Palisse nas muralhas de Pavia. Este ano não houve aventuras nenhumas e a noite mais perdurável foi aquela em que, chegado ao Beira-Mar (é um restaurante no Portinho), me não apeteceu muito nenhum dos peixes que constavam da ementa. "Apetece-lhe salmonetes?" perguntou-me o simpático Lousão, dono do dito. Que sim ou como não, respondi-lhe em bom português, desse só aparentemente contraditório. Pediu-me dez minutinhos, o tempo de um copo. Acabado ele, apareceu-me com uma rede de salmonetes vivos, ainda a saltar, como aqueles que apareciam, nos anos 40 ou 50, à porta da cozinha da Vila Raul, noite dentro, trazidos pelos pescadores. Pedir salmonetes num restaurante e eles não virem do frigorífico mas direitinhos do mar é coisa que pensava não me voltaria a suceder. Sucedeu mesmo e tenho testemunhas. Trinta anos depois da revolução, a doçura de viver ainda existe. E salmonetes como os da Arrábida, não os há em nenhuma outra parte do mundo.

3. Volto do mar para a Serra. Num dos raros passeios deste Verão, tornei à Mata do Solitário, no vale entre o Monte do Guincho e a Serra do Risco. "Mata das bruxas", chamava-lhe a minha Mãe, quando éramos pequenos e continuei eu a chamá-la para os meus filhos e netos. Entre os adernos, os olhados, a aroeira e os grandes carvalhos e medronheiros, é uma das matas mais gloriosas da Arrábida e nunca ouvi a palavra floresta (como essa onde se perderam o Polegarzinho, o Joãozinho ou a Guidinha) que não a visse na minha frente, estivesse onde estivesse. Em miúdo, era capaz de jurar que vira mesmo bruxas por lá, depois do sol se pôr e antes da lua nascer. Vindo de Alportuche, onde então morava, onde agora moro, era um passeio pequeno, bem próprio para crianças. Estrada acima, nesse lado que, mais tarde, me ajudou a perceber o que era o lado de Guermantes, andavam-se uns dois quilómetros. Depois, a entrada na mata por um carreirinho do lado esquerdo da estrada, uns metros adiante de um centenário carvalho, que tem fama de já ter dado sombra ao Senhor D. João V, quando o Duque de Aveiro lhe oferecia uma batida aos javalis. Dez minutos, não mais, bastavam para chegar a uma vasta clareira, no coração do vale, sobranceira ao mar. Chamávamos-lhe (chamamos-lhe) o Calhau do Frederico, mas o termo é mal aplicado. O Calhau (termo da região para designar uma armação de pesca) ficava lá em baixo, junto ao mar e à Lapa do Peixe-Homem, a das águas mais verdes que já estes meus olhos viram. O caminho continua da clareira para o mar e dá mesmo o único acesso por terra ao tal Calhau. Só que essa segunda etapa já não fazia parte dos nossos passeios de criança, pois que, como o outeiro do Canto IX, era bastante mais fácil de descer que de subir e nem mesmo possantes adultos se achavam com força de nos trazer às cavalitas, de volta dos penhascos. Frederico porquê? Porque o dono da armação era um tal Frederico Fernandes, que também deu nome a um Poço na Charca ("Quem por este poço passar / e uma pedra não deitar / nunca mais se há de casar") e tinha uma lenda assaz curiosa. Fixou-se na Arrábida (no Portinho, zona de que era proprietário) cerca de 1870, aos vinte anos, época em que, para além dos pescadores, devia ser o único morador da região. Tinham-lhe diagnosticado uma tuberculose e pouco tempo lhe davam de vida. Segundo a fábula, curou-se na Arrábida, onde viveu até quase aos 90 anos. De cada vez que se aventurava até Azeitão tinha uma hemoptise. Regressado aos seus calhaus, os pulmões deixavam de lhe sair pelas goelas, se bem me lembro do meu José Duro, e ficava rosado como uma maçã reineta. A minha Mãe descrevia-mo como um velho alegre e prazenteiro, de cabelos e barbas muito brancas. Depois da morte dele, a armação ficou ao abandono e o ciclone de 41 acabou por a destruir. Mas os alicerces eram bem visíveis e quem saiba ainda pode detectar restos deles. Agora tudo está muito diferente. O caminho, só mesmo quem o conheça bem ainda é capaz de o achar e a clareira está reduzida a metade (ou nem isso) porque a vegetação rasteira cresceu imenso e quase a cobriu. Mesmo assim, continua a ser um sítio mágico, entre as duas colinas escarpadas e o mar vagarinhoso cá muito em baixo. Não se vê viv'alma nem sítio onde a mão do homem tenha posto o pé. Prolongando tradições ancestrais, tenho por hábito pedir aos miúdos que se calem e ouçam o silêncio. Este ano, a minha neta Maria, quando depois lhe perguntei o que o silêncio a fizera escutar, respondeu-me: "Os anjos." Não me admirava nada.

4. A mata chama-se do Solitário porque, segundo a tradição, nela viveu, no século XVII, um minorista que aí construiu habitação. O local era propício, pois muito próximo fica uma das raras fontes da Arrábida (a água é rara na Serra, devido à estrutura calcárea), a chamada Fonte do Solitário. Havia (se procurarem bem ainda há), mas está quase intransitável, um caminho que a ligava ao Convento, pois que os monges também se abasteciam ali. Minorista chamei-lhe, em consonância com as fontes mais fiáveis. Mas também ouvi dizer que era santeiro (da escola de olaria de Paio Pires) e curandeiro. E como as lendas na Arrábida são como as cerejas (que é coisa que lá não há) dizem-no ainda conspirador, envolvido na conjura de 1641 contra D. João IV, esse que levou à degola o marquês de Vila Real, o duque de Caminha, o conde de Armamar e D. Agostinho Manuel, entre vária outra gente de menos algo. O santeiro conseguiu fugir a tempo e refugiou-se na Serra da Arrábida. Até por razões políticas, o sítio não foi mal escolhido. A serra era pertença da casa de Aveiro, que os Filipes tinham sempre tratado com sumo favor. O 4º Duque, D. Raimundo, como sua mãe, a Duquesa de Torres Novas, D. Ana Manrique de Lara, aos quais se deve o Convento Novo e o maior fausto dos arrábidos, não escondiam simpatia pelos espanhóis em rocambolescas histórias (talvez justifiquem muitas das construções da serra, se as chamadas ermidas foram edificadas para fins militares e não pios) que duraram até 1666 e passaram pela execução em efígie de D. Raimundo, em 1661.
Seja como for, o Solitário terá estado bem acompanhado na Arrábida, sem temer delatores. Prosperou a ponto de aí fazer a tal casa, exercendo a sua arte em imagens para o novo Convento e sarando as gentes de Azeitão, que até à Mata viajavam pelo caminho do Regato, atravessando os Casais da Serra (esse caminho ainda existia quando eu nasci). Terá ali vivido entre 1641 a 1666. Um belo dia, desapareceu. Ou foi finalmente descoberto e pagou o crime antigo (é a versão mais plausível) ou foi engolido pela Serra, que tem fama de ter feito desaparecer muita gente. Esta ultima é a história mais popular e a que explica o nome da Lapa do Médico, gruta situada próxima do caminho entre a Fonte e o Convento. Quando a dita Lapa foi descoberta, algures no século XVIII (a habitual história do pastor que demandava ovelhas tresmalhadas) diz-se que, no fundo dele, foi achado um esqueleto. Existindo ainda memória do desaparecimento do Solitário, logo houve quem pensasse que as ossadas eram as dele, promovido na toponímia de curandeiro a médico, o que a evolução da ciência ajuda a explicar. Hoje, tudo isso (quero eu dizer, os restos materiais disso) desaparecem aos poucos, em meio à incúria a que a serra foi votada e de que já falei em crónicas pretéritas. Das ruínas da casa do Solitário, onde quer eu quer os meus filhos tantas vezes brincámos (ainda tinha paredes e tectos nos anos 60) já mal se advinham vagos restos, só possíveis de alcançar com as roupas esfarrapadas. Da última vez que o tentei (e já lá vai uma meia dúzia de anos) demorei uma tarde para chegar da Fonte do Solitário à Lapa do Médico, o que antigamente se fazia em vinte minutos, com uma perna às costas.
Desapareceu, assim, uma das minhas aventuras favoritas da Serra. Conduzir "estrangeiros" até à entrada da gruta e vê-los recuar, aterrorizados, perante um buraco no chão por onde mal cabe um corpo humano. Quem vence o temor é compensado pela sucessão de galerias, estalactites e estalagmites, de enfilada até aos catafúndios, aí uns 100 metros abaixo do nível do solo. Mas ai de quem se aventure nela sem lhe conhecer os meandros e sem luz de sobra. Entrará, mas não sairá, a não ser eventualmente em esqueleto, como o Solitário da Mata, que, só por acaso, ou porque há Deus, não desapareceu já toda num dos incêndios como o de Julho deste ano. Na Mata do Solitário, sinto-me cada vez mais solitário. "Alone with my memories", como dizia o Groucho Marx no "Room Service". Assim se passou um Verão de Setembro augustinado e de ocasos singulares.

(15 de Outubro 2004, Público)  

A VIDA DOS LIVROS

 
 

de 2 a 8 de Novembro de 2009

“O Milagre Europeu” de E.L. Jones (Gradiva, trad. de Edgar Rocha, 2002) pode dizer-se que é já um clássico das análises contemporâneas sobre as vantagens comparativas do nosso continente. A primeira edição da obra é de 1981 e a segunda de 1987, e o autor, professor da Universidade de Princeton, procurou responder a uma pergunta difícil, mas fundamental: por que razão as economias modernas encontraram o ponto de partida para o seu desenvolvimento global na experiência do subcontinente europeu? Que razões existiram para a criação dessa dinâmica? Para E.L. Jones, estamos perante a convergência de dois factores – o meio ambiente e o sistema político -, o que não aconteceu, por exemplo, com o Império Otomano, ou com a Índia e a China. Foram, assim, a descentralização política e as raízes culturais, bem como o sistema económico comum, que favoreceram a tendência.

  
François Schuiten, La Bibliothèque.

PORQUÊ OS EUROPEUS? 
Esta pergunta tem razão de ser, mas muitas vezes não é feita, talvez por receio de eurocentrismo. No entanto, ao vermos a situação geográfica deste cabo da Ásia, percebemos que houve uma convergência de factores próprios, com repercussões indiscutíveis na história da Europa e do Mundo, que não podem deixar de ser devidamente estudados. Numa conferência de 1755, Adam Smith disse que “pouco mais é necessário para levar um estado de barbarismo para a opulência, do que a paz, impostos baixos e razoável administração da justiça; tudo o mais vem naturalmente com o curso dos acontecimentos”. Talvez devamos começar por aqui, no entanto, não há uma chave única ou uma resposta uniforme. É preciso compreender as circunstâncias e em especial o facto de na Eurásia, nos séculos XVI, XVII e XVIII ter havido quatro sistemas político-económicos: o Império Otomano, no Próximo Oriente, o Império Mughal, na Índia, os Impérios Ming e Manchu, na China, e o sistema de Estados da Europa. Enquanto os impérios otomano, mughal, e manchu foram despotismos militares estranhos ao corpo da sociedade, que limitavam drasticamente as perspectivas de desenvolvimento, o que foi agravado pelo colonialismo, pela abertura forçada dos portos e pelos acordos comerciais desiguais, na Europa houve condições favoráveis à descentralização e à difusão dos progressos. Não pode esquecer-se ainda que a localização da Europa favoreceu as vantagens próprias, desde o afastamento em relação às estepes da Ásia Central e dos efeitos das devastações provocadas pelos cavaleiros nómadas até à proximidade dos circuitos económicos e comerciais do Mediterrâneo e do Atlântico. Como afirma E.L. Jones: “A Europa tinha condições de contexto, localização e recursos de tal forma especiais que somos obrigados a agarrar esse espinho que é a explicação ambiental” A variedade política, a acumulação de capital e o comércio são factores parcialmente explicáveis pelas condições específicas da Europa relativamente ao meio geográfico e aos recursos”.

A CAPACIDADE DE APROVEITAR
Benjamin Franklin afirmou que “a felicidade humana provém menos de grandes golpes de sorte, os quais raramente acontecem, do que das pequenas vantagens que ocorrem todos os dias”. A complexidade das situações, a diversidade das circunstâncias obrigam a perceber que no caso europeu houve uma confluência de factores que suscitaram o “milagre”. Se W.W. Rostow analisou o crescimento segundo a sequência de Adam Smith – benefícios do comércio, alargamento do mercado, especialização por regiões – a verdade é que na China houve falta de transição natural e irresistível do comércio para a manufactura. A roda de fiar cânhamo, movida a água, e outros progressos conhecidos no século XIV, para não falar das navegações até à costa oriental de África, poderiam ter tido efeitos extraordinários, no entanto o uso das máquinas foi abandonado (por razões desconhecidas que poderão ter a ver com contradições e conflitos interno na dinastia Ming), com consequências inevitáveis de regressão. Também no império otomano a tipografia foi introduzida em 1726 em Constantinopla, mas a experiência foi interrompida entre 1730 e 1780, tendo sido produzidos apenas 63 títulos de 1726 a 1815. Note-se que a taxa de alfabetização era no centro da Europa então de 50 por cento, em comparação com os 5 por cento na Turquia, isto é, “uma diferença de 10 vezes, enquanto a diferença entre as taxas de publicação era de 10 mil”. Daí que os mercadores dos Balcãs tenham tido necessidade de infringir as regras turcas para conseguirem ter acesso a livros e jornais importados das cidades europeias”. E como estamos longe da certeira e oportuna metáfora de Meyerhof sobre o papel dos árabes na Europa do final da Idade Média: “os cientistas islâmicos reflectiram o Sol helénico depois de o dia terminar, iluminaram a sombria Idade Média europeia como uma Lua, acrescentaram algumas estrelas brilhantes, mas desapareceram com a Renascença”. Em contraponto, a Europa pôde beneficiar da abertura e do contacto entre zonas mais e menos desenvolvidas, num intercâmbio muito rico. E o caso dos Descobrimentos é bem ilustrativo, beneficiando os portugueses da fecunda circulação de ideias e de informações do Mediterrâneo. Pierre Chaunu (1923-2009), falecido na última semana, esclarece-nos sobre quais eram as motivações portuguesas: “para a burguesia obter terra para plantações de cana-de-açucar; para a aristocracia, simplesmente obter terra; para o Estado, obter fontes de abastecimento de cereais, dado que as colheitas eram insuficientes um ano em cada três e que o país estava cada vez mais dependente das fontes marroquinas. Estes eram os interesses principais, embora também estivessem presentes a curiosidade, o espírito missionário e de cristianização, assim como a procura de ouro”. E lembramo-nos do que disse Vasco da Gama ao judeu de Calecute: vimos em busca de ouro, cristãos e especiarias… E tudo vinha, afinal, do conhecimento de que os árabes tinham chegado bastante ao sul ao longo da costa oriental de África. Por isso, os portugueses enviaram mensageiros a Ormuz e outros lugares, a fim de tentarem recolher informações seguras sobre o extremo sul de África, principalmente judeus, pois podiam contar com o apoio de comunidade judaicas existentes ao longo das rotas comerciais.

UM PROCESSO CUMULATIVO HISTÓRICO
Verifica-se facilmente que os europeus não foram nem os únicos nem os primeiros grandes comerciantes. O que aconteceu foi a reunião de condições especialmente favoráveis que corresponderam a um caso de sucesso na resposta aos estímulos. “O que distinguiu o caso europeu foi o notável aumento do comércio de grande volume ligando regiões bastante afastadas, o carácter multilateral e o facto de negociar bens de consumo corrente, e não apenas os bens sumptuários que sempre tinham dominado o comércio de longo curso”. Verificamos haver uma extraordinária capacidade para aproveitar oportunidades. Isso foi-se dando ao longo do tempo, de um modo gradual e estável. “Foi o conjunto (diz E.L. Jones), e não um elemento único miraculoso, que produziu os resultados que conhecemos. Um contexto relativamente estável e, principalmente, os limites às arbitrariedades devidos a um cenário político concorrencial, foram condições fundamentais para o crescimento e o desenvolvimento. A Europa escapou aos perigos de gigantescos impérios centralizados, o que não aconteceu na Ásia. Para além disso, o desenvolvimento europeu resultou de um processo cumulativo histórico”. Se falamos de um “milagre” referimo-nos a uma reunião de factos excepcionais. Deles temos de ter consciência. Hoje, a Europa confronta-se com o desafio da coordenação, ao invés da harmonização. Uma União de Estados livres e soberanos tem a seu cargo a missão de seguir as boas lições e os exemplos positivos.

Guilherme d'Oliveira Martins