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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De 28 de Dezembro de 2009 a 3 de Janeiro de 2010
“Notre Jeunesse” de Charles Péguy (Gallimard, 1957) é um livro de 1910, mas contém, no essencial, uma evidente actualidade, uma vez que nos fala da necessidade de haver ideais e dos perigos da sua ausência. Dir-se-ia, pois, que estamos perante uma obra a ler nos nossos dias, num momento em que sob os ecos da crise financeira notamos a ausência de referências fundamentais, que tornem o pluralismo, o respeito e a dignidade como algo de enriquecedor para a humanidade. E não podemos esquecer que Péguy escreveu sob o peso de um debate que ocorreu na passagem dos séculos XIX para o XX a propósito compromisso dos intelectuais sobre os problemas contemporâneos.

DA MÍSTICA À POLÍTICA. - Charles Péguy (1873-1914) foi um escritor, um ensaísta e um poeta que se singularizou pela capacidade militante de se bater por princípios e valores. O ambiente que conduziu ao “affaire Dreyfus”, os sinais perturbadores do anti-semitismo que permitiram esse escândalo levaram-no a tornar-se um dos mais activos “dreyfusards”. Vemo-lo ao lado de Émile Zola na campanha do “J’Accuse!” nas páginas de “L’Aurore”, mas sobretudo assistimos, depois da reabilitação de Dreyfus (1906), ao continuar de um combate pela liberdade e pela justiça nas páginas dos “Cahiers de la Quinzaine”, a partir de 1900. Profeticamente, Péguy percebeu, desde cedo, aonde poderia conduzir a cegueira étnica e o oportunismo político, quando ainda se estava longe de poder antever a tragédia da “solução final”. “Notre Jeunesse” é o escrito político porventura mais célebre e mais influente de Péguy. É constituído por vários textos publicados nos “Cahiers” na sequência da reabilitação de um judeu acusado de alta traição, apenas por ser judeu. Nestes textos se notam as melhores características do polemista, desde a força das invectivas à clareza das ideias. Foi nesta obra que escreveu: tudo começa em mística e acaba em política. Este é, afinal, o tema essencial que desenvolve. E o que pretende é dizer que é indispensável renovar as ideias permanentemente, apelando aos princípios e ideais, para que não prevaleça a lógica imediatista, centrada em razões de oportunidade. “Uma mesma esterilidade seca a cidade e a cristandade. A cidade política e a cidade cristã. A cidade dos homens e a cidade de Deus. Trata-se propriamente da esterilidade moderna. Que ninguém se regozije vendo o mal que atinge o inimigo, o adversário e o vizinho. Porque o mesmo mal, a mesma esterilidade o atingem a ele também. Como tantas vezes disse nestes cadernos, desde o tempo que não me liam, o debate não é propriamente entre a República e Monarquia, entre a República e a Realeza, sobretudo se as consideramos como formas políticas, como duas formas políticas, não é somente, o debate não é exactamente entre o antigo regime e o novo regime francês, opõe-se a todas as antigas culturas, em conjunto, a todos os antigos regimes em conjunto, a tudo o que é cultura e a tudo o que é cidade. É, com efeito, a primeira vez na história mundial que todo um mundo vive e prospera, parece prosperar, contra a cultura”. Péguy refuta várias acusações, provindas das mais diversas origens, e tendo-se posto claramente ao lado do judeu Dreyfus recusa que o combate dos “dreyfusards” seja anti-cristã. Afinal, há uma mística comum que une cristãos e judeus. Por outro lado, para ele, um regime político não pode limitar-se a ser uma tese. Se for apenas uma tese cai de rastos. É, pois, precisa vontade, que ligue razão e acção. O essencial é, assim, que a “mística não seja devorada pela política, à qual ela deu nascimento”. Do que se trata, no fundo, é de compreender que, sendo a acção fundamental, não poderemos esquecer os princípios em que ela se baseia. Não basta manter o poder a todo o custo, não deveremos ceder ao mero pragmatismo. 
“LA TRAHISON DES CLERCS”. - O caso Dreyfus abriu na cultura europeia um tema que nos anos vinte daria lugar ao debate em torno da obra de Julien Benda (1867-1956) “La Trahison des Clercs”. “Os homens cuja função é defender os valores eternos e desinteressados, como a justiça e a razão, que designo como intelectuais (clercs), traíram a sua função em benefício dos interesses práticos”. Com esta afirmação, longamente glosada por muita gente ao longo do século XX, Benda pôs o dedo na ferida das responsabilidades do intelectual, em especial nos tempos de crise. No entanto, o autor de “La Trahison” viria a ser alvo de duras críticas no final da vida em virtude do seu apoio à política de Estaline. No fundo, o percurso do próprio Julien Benda veio a revelar a possível contradição na abordagem de um tema muito complexo, que liga, a um tempo, a avaliação dos acontecimentos e a responsabilidade cidadã perante eles. Emmanuel Mounier (1905-1950), discípulo de Péguy, falou dos acontecimentos como nossos mestres interiores e desenvolveu a ideia de compromisso, centrada na responsabilidade pessoal. Afinal, a avaliação dos acontecimentos obriga a correr abertamente o risco de errar, e daí a necessidade de nos precavermos contra a rigidez abstracta dos moralismos. “Uma filosofia para a qual existam valores absolutos será tentada a esperar para se lançar na acção por causas perfeitas e meios irrepreensíveis. O que equivale a uma renúncia à acção. (…) Só nos podemos comprometer em combates discutíveis e em causas imperfeitas”. Mounier falava, por isso, do sujar das mãos e dos riscos da indiferença ou da não-acção, numa tensão permanente entre o pólo profético e o pólo político da vida. Nem as imprecações nem as manobras tácticas podem responder, só por si, aos desafios complexos do mundo. Em 1938, aquando dos acordos de Munique, que adiaram o início da guerra, dando tempo para que Hitler melhor se preparasse para a ofensiva que iniciou a guerra, Mounier foi uma das poucas vozes que se ergueu contra um pacifismo que abria caminho à guerra, pela capitulação. Este foi um exemplo que, dramaticamente, os acontecimentos históricos vieram a demonstrar ser uma marca dos perigos da desistência e da exigência da acção. O compromisso obrigava, afinal, à acção impura e discutível, em nome dos valores humanos.
DO PÓLO PROFÉTICO AO PÓLO POLÍTICO. Bernard-Lazare foi quem lançou a campanha contra a falsa acusação que impendia sobre Alfred Dreyfus. Assumiu, assim, a mística e o pólo profético que os acontecimentos reclamavam, sem esquecer a dimensão da eficácia no agir. Péguy dá o exemplo de uma mística preocupada com os resultados, com a necessidade da realização da justiça. “A política desdenha da mística, mas é ainda a mística que alimenta a própria política”. Eis por que razão a compreensão da vida obriga a ligar mística e política, profecia e acção. E ao falar dos ideais republicanos, o autor de “Notre Jeunesse” deixa claro que uma sociedade precisa periodicamente de se renovar, de encontrar forças novas. Sem essa capacidade de renovação a cidade fragiliza-se e decai. E Dreyfus foi uma dessas oportunidades para que houvesse uma linha divisória entre a busca de um suplemento de alma e a repetição da inércia conformista. Sente-se, assim, o entusiasmo do agitador e do poeta, ciente de que se iniciaria um ciclo que depois se esgotaria, para reencontrar a seguir novas forças de sentido místico, aptas a lançar pontes e a reencontrar raízes libertadoras. Nada disso, porém, poderia realizar-se sem drama. Basta lembrar-nos do Abade Pichot que, por ser dreyfusard, teve de se exilar. Charles Péguy afirma: “Não somente fomos heróis, mas o caso Dreyfus no fundo não pode explicar-se a não ser pela necessidade de heroísmo que anima periodicamente este povo, esta raça, pela necessidade de heroísmo que nos anima em toda uma geração. (…) Em todas as grandes provas, em todas as grandes histórias é talvez mais a força interior, a violência da erupção que faz a matéria, histórica, uma vez que não é a matéria que faz e que impõe a prova”. E o nosso autor fala ainda numa “misteriosa necessidade de inscrever uma grande história na história eterna”. Com voz grandiloquente, o poeta, que veria o fim dos seus dias na Batalha do Marne, no início da guerra (1914), fala-nos da mística como ponte entre as pessoas, como factor de entendimento e de aproximação, mas também como revelação e conhecimento. Lembramos uma das suas mais emblemáticas afirmações: “la révolution sociale será morale ou elle ne sera pas” (1901).

 

 

 

A PALAVRA DE JBC

A PALAVRA DE JBC
 

 

RECANTOS DE NATAL

1.  Na província não neva (o poeta é um fingidor) e, mesmo que nevasse, nunca passei um Natal na província. Também nunca passei um Natal na neve ou com neve. Confesso que tenho alguma inveja. Um Natal, como esse da Judy Garland em "Meet Me in St. Louis", com muitos bonecos de neve e a dita a bater leve, levemente. "Have yourself a merry little Christmas". Também a mim, o Natal, em províncias technicoloridas e lares aconchegados, me faz sonhar saudades. Mas não se pode ter tudo. Sobretudo não se deve ser mal agradecido. Os meus natais lisboetas e sintrenses já dão pano para mangas, atravessando quatro - ou cinco - gerações felizes, ou imaginariamente felizes, em noites de tantíssimos anos, de tanta gente que já dos meus olhos se apartou ou que os aos meus olhos começa a aportar. Quantos foram? Horror, a lembrança das datas? Horror não é palavra que rime com os meus Natais nem com as minhas lembranças. Dos antiquíssimos que recordo, era eu dos mais crianças, aos recentíssimos, sou eu dos mais velhos, a sucessão é boazissimamente boa e o Natal fica-me bem como bem eu me fico nele. Por isso, não esperem de mim conversas de maldição à sociedade de consumo, de raiva à paganização, de mentira às famílias, conversas "desmistificadoras". Natal de manhãzinha ou de noite dentro, de rabanadas e de perus, de missas do galo e de presépios, de sapatinhos ou de chaminés, de tudo conheci e de todos vivi. E não os troco por nada.

2. Ao princípio (estou a falar dos anos 40 e muito poucos picos) a véspera do Natal era só isso: a véspera do Natal, a ansiosa espera pelo dia seguinte. O Menino Jesus ia nascer à meia-noite, quando eu estivesse a dormir, e ia descer dos céus "pela abaixo chaminé", para me deixar no sapatinho todos os presentes que eu desejava ter.
Os crescidos não me deixavam entrar nas salas em que se sussurravam segredos e mistérios. Depois de jantar, antes de me deitar, dois rituais fatalmente sucedâneos, deixavam-me finalmente entrar na sala grande para depor junto à lareira o famoso sapato.
Crianças dormem como anjos? Nessa noite, não era bem assim. Acordava muitas vezes, à espera de ouvir, lá longe, os passos do Menino carregadinho de prendas. Às vezes, ia jurar que o ouvia. Mas tinham-me catequizado devidamente. Não sei se a tia que me contou todos os contos já me tinha contado o do Barba Azul. Sei é que, na minha memória ou na minha imaginação, o que me aconteceria, se acaso ousasse levantar-me e ir lá ver, era o mesmo que aconteceu às mulheres do Barba Azul quando entraram no quarto proibido. Não só ficaria manchado para sempre, como os presentes que o Menino trouxe - ou havia de trazer - o Menino os levaria e eu ficava culpado e solteiro. Por isso, nunca ousei.
O pior era quando o dia começava a clarear. Pela única vez no ano, as horas mais doces do meu sono tornavam-se as mais agitadas. Inabalável era a minha fé que os presentes já lá estavam, mas nenhum passo precoce me era consentido. Restava-me esperar horas infindas pelo acordar dos pais. Finalmente, entravam-me pelo quarto e juntávamo-nos os quatro (o quinto dos irmãos só nasceu anos depois) no corredor, à espera do "já podem" mais apetecido de sempre. Em cima de cada sapato, a pilha de presentes. Só com os meus filhos e com os meus netos, aprendi retrospectivamente quão estremecente eu ficava, antes de me precipitar a rasgar papéis e a abrir caixas. Incrivelmente, milagrosamente, o que eu tinha pedido cumpria-se. "Se algum dia pedires, com verdadeira fé, à montanha que se mova, a montanha mover-se-á." É a imagem mais aproximável que consigo dar para a sensação que tinha. Também me tinham dito que, se tivesse asneado muito, no Natal só receberia carvão. Mas o Menino era Todo Misericordioso, embora não Todo Distraído. Entre as prendas ubérrimas havia um carvãozinho. Ele lá sabia e eu também sabia. Mas aquilo ficava entre nós e em nada atenuava a desmedida alegria. Depois, ia ver os presentes dos outros, depois o dia passava a correr no gozo de prazeres novos. À noite, chegavam os tios e os primos para um jantar de 16 pessoas, 12 na mesa grande e os quatro miúdos numa mesa pequena. Até hoje, o menu não mudou: canja, folhados de camarão com salada russa e salada de agriões, o peru (com o recheio, o molho, os rabanetes, as batatas fritas aos palitos), depois, à sobremesa, as rabanadas, os sonhos, a "mousse" de chocolate, o ananás. Um jantar de horas à mesa, servido por duas criadas impecavelmente fardadas, de crista e luvas brancas. Só no dia 26, a vida de cada dia retomava o seu dia, até um jantar de idêntica ementa, idênticas presenças e idêntica euforia no Dia de Ano Novo. Só mudava o "décor". Em vez da nossa casa, a casa dos meus únicos tios que eram casal, ali na Rodrigues Sampaio. Mas não havia risco que qualquer de nós (adultos ou crianças) disséssemos ou pensássemos o que um neto meu disse há uns anos, quando falou da casa daquela tia em que o jantar é sempre a mesma coisa. Além de uma educação mais severa, o peru, nesses anos, era exclusivo do Natal e do Ano Bom. Dias antes do Natal, chegavam vivos e de boa saúde, oferta dos alguéns que deviam favores. Depois, em sótãos onde não nos deixavam entrar, a cozinheira embebedava-os com aguardente, antes de lhes cortar as goelas e calar os últimos berros desesperados. Outro sinal dos tempos: antes de jantar, telefonava, de Portimão onde vivia, o irmão mais novo do meu pai, que só nesses dois dias telefonava, não por alheamento da família (que, para ele, era a única verdade), mas porque um telefonema de tão longa distância era manifestação perdulária, só admissível em datas especiais. Precipitávamo-nos todos para o auscultador, um minuto, um minuto apenas, que as chamadas eram caríssimas.

3. Até que chegou o dia fatal, tinha eu oito anos e andava no Lar Educativo João de Deus. Um colega explicou-me, a um canto do recreio, que não havia Menino Jesus nenhum e que os dadores não eram divinos mas os meus humaníssimos pais. Recusei-me a acreditar, mas a dúvida já cá estava. Chegado a casa, perguntei à mãe se era verdade. Confessou-mo. "Então os pais também mentem?" Ela explicou-me a diferença entre mentira e imaginação e como as coisas bonitas se podem sobrepor às verdades nuas. No futuro, interpretei-a muito latamente, mas disso não teve ela culpa ou se a teve foi uma "felix culpa". Não fiquei com os traumas que pedagogos perversos atribuem a revelações dessas. Só que no ano seguinte achei menos graça ao Natal e dormi melhor nessa noite. Quando chegou a minha altura de ser pai - e já se discutia seriamente entre "casais modernos", se se devia ou não contar isso do Menino Jesus às crianças - não hesitei na atitude a tomar. Talvez seja por isso que os meus filhos se maravilharam com o Natal tanto quanto eu me maravilhei e todos eles tenham contado a mesma história aos filhos deles, terceira geração maravilhada da família. Só acabou - e eu não me consolo - o Menino Jesus e os sapatinhos, que apenas sobreviveram até ao tempo dos meus filhos. Para os meus netos, já foi sempre o Pai Natal. E como até um reaccionário como eu se tem que adaptar aos tempos que correm, eu próprio me converti no Pai Natal, mascarando-me dele na noite do dito, para, enquanto todos esperam no corredor, e as luzes se apagam, bater muito com os pés no chão, soltar alguns uivos medonhos e fugir precipitadamente, mas não tanto que alguns não jurem que viram o velho encarnado, tão real e perfeitamente como está nas renas.
Também mudou o ritual dos dias e das noites. Crianças, agora, não vão para a cama a seguir ao jantar, à espera do dia seguinte, como eu, os meus irmãos, os meus filhos ou os meus sobrinhos. Ficam à espera da meia-noite. A hora do milagre é agora nocturna e não diurna.
Tem, aliás, desde que me casei, um extra que não fazia parte da minha educação, mas que incorporei, já que tradições as incorporo todas e quantas mais melhor. Como a família da minha mulher (pelo lado do pai dela) vem mesmo da província e dos lares aconchegados da Vila da Feira de outrora, a festa, no caso dela e na casa dela, era a noite de 24, ao jantar, com o caldo verde, o bacalhau e mil variedades de sobremesas (ovos mexidos e bilharacos). Igualmente passou a acontecer, desde que troquei Lisboa por Sintra, nos idos dos anos 50. Qual é a sucessão? Jantar de consoada; distribuição dos presentes (já não entre 20 mas entre 40) com as crianças interditas de entrar na sala e uma confusão dos diabos (crescidos e multiplicados, sucedem-se as chegadas de pessoas-sacos de presentes, a distribuir em montões por cuja ordem zelo eu); escuridão à meia-noite para a minha metamorfose em Pai Natal; reacender das luzes para a entrada da turba em êxtases renascidos; depois, a ceia (que já vem dos meus 12-13 anos) com os "palitos de la reine", a "tête d'achard" (receita arcana da minha mãe), as rabanadas, o chocolate com natas, os presuntos, os queijos, o bolo-rei. Depois, as crianças caem de exaustão e de orgasmos, e os crescidos ficam nos copos até às tantas. Invariavelmente, desde os anos 60, o cenário é a minha casa, variavelmente, no jantar do dia 25 e dos perus de plástico, em casa de um dos meus irmãos (este ano, pela primeira vez, uma sobrinha minha será anfitriã). O camarão dos folhados também não é o camarão vindo do mar dos meus verdes anos; a salada russa é comprada feita; e qualquer semelhança entre as batatas fritas de agora e as de antanho é pura coincidência. Desapareceram as cozinheiras, desapareceram as criadas, as travessas estão em cima da mesa e cada um trata de si e Deus de todos. Mas o dia 25 é um epílogo, não um cerne. Um recanto, não um canto. O canto e o cerne continuam a ser na véspera, na noite em que é Natal e vamos a Belém adorar o Menino que a Senhora tem. E o melhor do mundo são as crianças. A acreditar que tudo é possível, sendo que até hoje - graças a Deus! - tudo foi e é mesmo possível. Diante de mim, seja em que recanto for, ninguém amaldiçoará o Natal. Do Menino, e desde menino, da Baby Born, às "asas a sério para a Vera voar" (carta da Vera para o Pai Natal) sou fanático.

24 de Dezembro 2004 in Público
 

A VIDA DOS LIVROS

de 21 a 27 de Dezembro de 2009

“A Minha Primeira Sophia” de Fernando Pinto do Amaral, com ilustrações de Fernanda Fragateiro (D. Quixote, 2009) é um livro para crianças escrito com sentido pedagógico, com o intuito de introduzir os mais novos não apenas no conhecimento da vida de Sophia de Mello Breyner Andresen, mas também de os sensibilizar para a literatura, para a poesia e para a criação artística. 


UM CONTO DIFERENTE - Era a hora de deitar e a Teresa gosta sempre de ouvir mais uma história. Há sempre lugar para mais uma peripécia, para mais uma narrativa. Mas a imaginação esgota-se ao fim de tantas recordações do tempo em que havia burros no Algarve, em que as vacas davam leite quentinho, em que a avó Ana fazia deliciosas gemadas. Naquela noite a ideia foi outra, em vez de falar da praga dos Schtroumpfs negros que atormentavam as normais criaturinhas azuis ou de acompanhar Obélix nas suas deambulações pela Gália ou por Roma, seria bom recordar uma menina que nasceu no Porto e que escreveu sobre o “Rapaz de Bronze”, que um dia destes já encontráramos numa das nossas histórias nocturnas. Essa menina chamava-se Sophia, que é a palavra que os gregos têm para designar a sabedoria, e vivia no Campo Alegre, na cidade do Porto, um lugar que era exactamente como o nome indicava, de facto, a natureza era ali alegre e exuberante, mais do que em qualquer outro lugar. Uma grande casa pontificava, “no meio de uma enorme quinta onde havia muitas árvores diferentes, pomares e jardins com belas roseiras e camélias que floriam em Novembro”. Então a Teresinha lembrou-se das flores que rodeavam o “Rapaz de Bronze” na história que ouvira dias atrás. «Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos. Havia nele roseirais, jardins de buxo e pomares. E ruas muito compridas, entre muros de camélias talhadas». Tantas flores: gladíolos, begónias, orquídeas, camélias, túlipas, rosas, cravos e nardos. As flores têm nomes tão engraçados, e cada uma tem a sua própria personalidade. De noite, tudo ganhava vida e houve uma festa muito bonita. E entre todas as flores de mil cores, Florinda, a menina da história, tornou-se amiga inseparável do rapaz de bronze… Sophia em pequena também gostava muito de ouvir ler histórias e poemas, e mesmo antes de saber ler e escrever queria escrever: “quando comecei a escrever (disse um dia a própria Sophia) eu não sabia escrever. Eu tinha uma pena enorme. Eu pedi à minha mãe papel e caneta. Escrevia uns desenhos de umas letras inventadas por mim”. A imaginação era uma boa companheira e criava muitas personagens e aventuras. “Gostava de ler histórias diferentes, desde a Nau Catrineta até ao Gato das Botas. Também me maravilhavam os contos tirados das Mil e Uma Noites, Aladino e a Lâmpada Maravilhosa ou Ali-Babá e os 40 Ladrões”. E Sophia lembrava-se bem de ouvir recitar: «Lá vem a Nau Catrineta / Que tem muito que contar! / Ouvide agora, senhores, / Uma história de pasmar». E a Teresa lembrou-se logo do capitão general de dragonas, ao leme,e dos marinheiros sentados à mesa a comer e a conversar, debaixo das velas imponentes,que estavam na capa de um livro do avô.

 

UMA FAMÍLIA ANTIGA E UMA PRAIA
Sophia era de uma família de raízes muito antigas. Havia comerciantes vindos de muito longe, do reino da Dinamarca. E entre os antepassados portugueses havia quem se tivesse celebrizado pela defesa da liberdade. Durante as longas férias de Verão a família ia para a Praia da Granja, e aí Sophia passou a viver enfeitiçada pelo Mar e pelos seus mistérios. E a Teresa lembrou a janela da casa da Ericeira com o oceano em frente e essa magia fantástica das ondas e da faina dos pescadores. Mas continuemos: foi a pensar na Granja e no Mar que a mãe de Sophia lhe contou “a história de uma menina muito pequenina que vivia nos rochedos da praia”. Era “A Menina do Mar”. E a história fala-nos de um rapaz e dessa menina que dançava no seu palácio submarino. “Há florestas de algas, jardins de anémonas, prados de conchas. Há cavalos-marinhos suspensos na água com um ar espantado, como pontos de interrogação. Há flores que parecem animais e animais que parecem flores”. A menina propõe-se visitar a terra de que o rapaz lhe fala, mas a Grande Raia leva-a para longe, para que a menina do mar não se deixe prender pelos encantos terrestres. O tempo passa e vem a saudade. E a Teresa apressada explica-me que já sabe o que é a saudade – é quando alguém de quem gostamos está longe. E a menina do mar mandou através de uma gaivota… Teresa volta a interromper: “avô - gaivotas em terra, tempestade no mar”. É verdade, mas a menina mandou através de uma gaivota um suco de plantas mágicas (uma espécie de poção mágica), que o rapaz deveria beber para poder nadar durante sessenta dias e sessenta noites, com um golfinho, até chegar ao lugar longínquo onde estava a menina. O rapaz tomou a poção, fez-se ao caminho e reencontrou assim a menina do mar, que voltou a estar alegre e a dançar. E por lá ficaram. “Agora a tua terra é o Mar – disse a Menina do Mar”. E ficaram a saber que a saudade é “a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora”. Sophia nunca esqueceu esta história e contou-a vezes sem conta aos seus cinco filhos e a muitas gerações de jovens leitores. Quando cresceu, veio do Porto para Lisboa para estudar línguas e culturas clássicas, o grego e o latim. Entretanto, publicou o seu primeiro livro, que intitulou “Poesia”. A poesia e os contos para crianças ocuparam-na a partir de então. A memória é uma das suas fontes inesgotáveis de inspiração. “Aliás, nas minhas histórias para crianças (disse Sophia) quase tudo é escrito a partir dos lugares da minha infância”. Por outro lado, na escrita e na vida “procurava sempre combater a injustiça e a maldade de que alguns seres humanos infelizmente são capazes”. E Teresa comenta: o Natal existe para combater isso mesmo.

 

UM APELO A NÃO ESQUECER
A história da fada Oriana é exemplo dessa preocupação. Os olhos muito abertos de Teresa ouvem essa parte da história com especial atenção. “Oriana é uma fada boa e muito bonita que promete proteger todas as criaturas da floresta”. A promessa solene foi feita à Rainha das Fadas. Na floresta havia uma senhora muito velha, um poeta e as famílias pobres de um lenhador e um moleiro. Mas, se primeiro Oriana não se esqueceu da ajudar essas pessoas, a verdade é que um belo dia, depois de ter salvo um pequeno peixe do rio, deixou-se enfeitiçar pela sua imagem projectada nas águas, como se estas fossem um espelho, e pelos elogios do peixinho. A vaidade fê-la rapidamente esquecer as suas obrigações. E a Rainha das Fadas retirou-lhe os poderes – “só tornarás a ter asas quando te esqueceres de ti a pensar nos outros”. Oriana arrependeu-se, quis voltar a visitar os habitantes da floresta, mas em vão, uma vez que eles tinham partido, deixando tudo ao abandono. Depois de resistir à Rainha das Fadas Más, Oriana sente-se desamparada, mas, já desanimada, reencontra a senhora muito velha, quase cega, a caminhar junto a um abismo. A queda é inevitável. Oriana precipita-se para salvar a velha, e esquece-se de que já não tem asas. Ambas caem no precipício, mas a Rainha das Fadas intervém e dá os poderes perdidos a Oriana que assim se salva, bem como a pobre senhora. Afinal: “só quando nos esquecemos de nós podemos ser realmente felizes e espalhar à nossa volta essa felicidade”. Em cada história há um apelo para que não esqueçamos os outros e para que não nos deixemos tomar pela vaidade. Teresa comenta: quando fazemos o presépio procuramos pôr lá todos, pastores, carpinteiros, caçadores, Reis Magos, para que ninguém se esqueça dos outros… No conto “A Floresta” fala-se de um tesouro e de que o dinheiro pode ser um veneno, porque nos torna escravos dele, esquecendo-nos de quem precisa da nossa ajuda. “Ela admirava a figura de Jesus Cristo e acreditava nos valores que ele nos transmitiu quando nos ensinou a amar os seres humanos com toda a força do nosso coração”… O conto “O Cavaleiro da Dinamarca”, sobre um homem que decidiu passar o Natal na Terra Santa no lugar onde Cristo nasceu. Teve de fazer uma viagem muito longa. E na gruta de Belém pediu a Deus que dele fizesse um homem capaz de amar os outros. No regresso, foi apanhado por uma tempestade e visitou os lugares mais maravilhosos de Itália… Daí foi até à Flandres e regressou à Dinamarca, entre muitos perigos, tendo-se salvo dos animais ferozes. Julgando-se perdido, na véspera de Natal, viu uma luz no horizonte – “era a claridade de um grande abeto que os anjos do Natal tinham iluminado com muitas estrelas”… Sophia gostava muito do Mar, já se disse. Depois da Granja, tornou-se fiel do Algarve, num tempo em que as praias tinham pouca gente e que a natureza não tinha sido destruída pela especulação. Infelizmente, esses lugares mágicos tornaram-se raros. E Sophia não gostava da desordem, e muito menos da mentira, da injustiça e da falta de liberdade. “O que lhe dava mais prazer (e sei-o por experiência própria) era a alegria que brilhava nos olhos das crianças quando abriam os seus livros e se encantavam com a magia das suas palavras”. E quando cheguei ao fim dessa descrição maravilhosa da vida de alguém que deu tudo de si à poesia, era o espírito de Natal que estava bem presente. A Teresa já estava quase a fechar os olhos… Mas ainda pôde acrescentar: “temos de contar esta história ao Pedro, ao João e ao Guilherme, para que não fique só para nós”… O Pedro e o João são os irmãos mais pequenos e o Guilherme é o primo. Mas este ano ainda há um presépio vivo, porque a irmã Isabelinha acabou de nascer, mas temos de dar algum tempo até que ela possa conhecer a Menina do Mar e a Fada Oriana… Para já sentirá a história de Gaspar, Melchior e Baltasar, os reis que deixaram as suas riquezas e partiram para junto do menino Jesus, guiados pelo brilho de uma estrela.

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

de 14 a 20 de Dezembro de 2009

“O Espião de D. João II” de Deana Barroqueiro (Esquilo, 2009) é um romance baseado em factos reais, que nos permite acompanhar a viagem de Pêro da Covilhã até às terras do Preste João. Transpondo para os dias de hoje a imagem de um “agente secreto”, travestido de James Bond ou de Indiana Jones, a autora não comete o erro do anacronismo e procura, com uma experiência já ganha noutras obras (“O Navegador da Passagem”, “D. Sebastião e o Vidente”), transmitir ao público em geral, e em especial aos mais jovens (dada a sua longa e rica experiência pedagógica), o ambiente geral do final do século XV, com uma evidente vivacidade.

UMA ESTRATÉGIA INTELIGENTE 
Em 1487, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, escudeiros de D. João II, o Príncipe Perfeito, foram enviados de Portugal para a costa oriental de África, ao mesmo tempo que Bartolomeu Dias partia para o Cabo da Boa Esperança. Tratava-se de descobrir por terra, aquilo que os navegadores iam procurar por via marítima – a rota das especiarias da Índia e notícias do “encoberto Preste João”. E deste modo acompanhamos uma longa peregrinação de cerca de seis anos pelo Mar Roxo, primeiro na companhia de Afonso de Paiva e depois solitariamente pelas costas do Índico até Calecute, mas também, pela Pérsia, África Oriental, Arábia e Etiópia, descobrindo povos e culturas completamente estranhos. Mas, para fazer essas andanças, Pêro da Covilhã teve de ocultar a sua verdadeira identidade e origem (como verdadeiro agente secreto, que de facto era), aparecendo como um enigmático mercador do Al-Andalus. Para compreendermos, contudo, a génese do romance temos de ir à obra anterior de Deana Barroqueiro – “O Navegador da Passagem”, onde o tema é a missão de Bartolomeu Dias de preparação do caminho marítimo para a Índia. A autora, naturalmente, entendeu que a chave do enigma do Príncipe Perfeito só estaria plenamente desvendada (ou a caminho disso) se se tentasse perceber o que se passou com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, na sua complexa e misteriosa viagem terrestre ao encontro do Presbítero João, o mítico Imperador Cristão do Oriente, há muito referenciado mas nunca descoberto. Afinal, o que era o mito do Preste João? Fala-se muito do tema, mas raramente com o rigor indispensável, e a nossa autora coloca com cuidado e correcção os termos em que essa referência deve ser feita. Depois do Concílio de Éfeso (431) e após a condenação dos Nestorianos, que defendiam ter Cristo uma dupla natureza, humana e divina, os partidários dessa heresia espalharam-se pela Pérsia, Arábia, Índia, Tartária, Mongólia e China. Daí as referências a comunidades de influência cristã espalhadas pelo continente asiático. Por outro lado, o apóstolo Tomé teria chegado à Índia e fundado núcleos cristãos no sul, de que temos notícia desde muito cedo (cerca do século IV). Lembrámo-nos bem dessas referências quando visitamos Cochim. Estas duas primeiras alusões põem-nos perante a existência de bolsas de influência cristã na Ásia, que podem ter estado na origem da lenda do desejado Preste João, a que faz referência o veneziano Marco Pólo no seu célebre Livro. A alusão a esse Presbítero pode ter ainda a ver com o mito de que o Apóstolo João não teria morrido, à espera da segunda vinda de Jesus Cristo, daí o nome adoptado. O célebre viajante veneziano situa, aliás, o reino do Preste João algures no centro da Ásia. Acresce que, dentro do espírito das Cruzadas, foi dirigida no final século XII ao Papa Alexandre III, bem como aos Imperadores do Oriente (Manuel Comeno) e do Ocidente (Frederico Barba Roxa), uma Carta apócrifa assinada pelo Preste João das Índias, descrevendo o seu reino maravilhoso e pedindo apoio. Sabemos, ainda, que Gomes Eanes de Azurara aludia à busca de uma aliança com um Imperador cristão das Índias entre as cinco razões do Infante D. Henrique para iniciar a Expansão. D. João II, a partir destas referências díspares, tinha, assim, uma informação suficientemente precisa de que havia um rei cristão na costa oriental de África, para lá do Cairo, na zona de influência copta. Com efeito, no Alto Egipto e na Etiópia havia cristãos, fruto da evangelização que a tradição atribuía a S. Mateus. Fácil é de compreender, por tudo o que fica dito, a importância desta missão confiada a Pêro da Covilhã. O plano da Índia exigia uma definição clara de uma acção política e diplomática que desse consistência à criação de um novo Império dos portugueses.

UMA PEREGRINAÇÃO HERÓICA
Seguimos, a partir de todos estes ingredientes, com entusiasmo, esta peregrinação. Há vivacidade na narrativa, o que permite ao leitor acompanhar o relato sem perder a atenção bem desperta. Santarém, Lisboa, Valência, Barcelona, Nápoles, Rodes, Alexandria, Cairo. Na cidade egípcia define-se a missão, Pêro da Covilhã irá para a Índia, para a Costa do Malabar, enquanto Afonso de Paiva destinar-se-á à Etiópia. A autora procura, assim, dar-nos o colorido dessa cidade que é uma encruzilhada de influências, o centro nevrálgico do comércio do Levante do Mediterrâneo. Com base nos testemunhos tradições e documentos coevos, a autora faz uma descrição minuciosa e rigorosa da viagem (em termos que pôde verificar com os seus olhos quando visitámos juntos a cidade e o Golfo Pérsico, com o CNC, em Setembro último). Depois do Cairo, ruma a Adem, no Mar Roxo, onde se separa de Afonso de Paiva, atravessa o Mar Arábico e chega a Cananor, segue para Calecute, passa por Goa, e regressa ao Golfo Pérsico e a Ormuz, o porto donde partiam as caravanas da Rota da Seda, que Marco Pólo visitou por duas vezes… Depois, segue para sul na costa ocidental de África, zona crucial para a descoberta do caminho marítimo para a Índia, até Sofala, retornando ao Mar Vermelho e ao Cairo. Deana Barroqueiro não se limita, porém, à descrição fria dos acontecimentos, concede densidade dramática a alguns dos momentos mais marcantes da narrativa. A personalidade de Rute, que surge com um destaque especial, não pode deixar de ser referida pela sua intensidade e pelo modo como nos dá um exemplo do modo como os portugueses se relacionavam com os povos desconhecidos que encontravam. De facto, a miscigenação não surge de um momento para o outro, por mera decisão política circunstancial. E este romance prenuncia-a.

DIPLOMACIA E AVENTURA
A um tempo, estamos perante os exemplos vivos quer do participante activo na empresa dos descobrimentos portugueses (no lado, algo inesperado, da preparação das navegações e da espionagem terrestre, bem diferente das histórias trágico-marítimas), quer da aventura em estado puro, que a autora inteligentemente explora com conhecimento e verosimilhança. Trata-se, no fundo, para usar uma metáfora medieval, quase de uma demanda mística que só pode ter paralelo na busca do Graal. É o prolongamento do espírito das cruzadas. Sente-se isso claramente, como depois veremos, Afonso de Albuquerque ao lançar uma ofensiva político-militar na região que pressupõe o conhecimento e a preparação, que Pêro da Covilhã conseguiu, mesmo que, em parte, fossem decepcionantes as conclusões… O Padre Francisco Álvares encontraria o agente português graças à embaixada de Rodrigo Lima (que demandou a corte do negus da Etiópia, sendo representado na frontispício da obra de Álvares). Aí pôde confirmar as excepcionais qualidades de Pêro da Covilhã – com uma espantosa memória, onde nada se perdia, a capacidade de aprender qualquer língua e, em pouco tempo, falá-la como um natural, além da apurada arte para criar os mais extraordinários disfarces, assumindo diferentes identidades e a extrema facilidade da improvisação. Estamos, assim, perante um romance histórico que é, a um tempo, livro de viagens e relato de aventuras. E como diria o Padre Álvares: “todas as cousas a que o mandaram soube, e de todas deu conta”. Quem melhor poderia sublinhar esta preocupação? Esta é a melhor homenagem que pode ser feita a Pêro da Covilhã, cuja memória parece ir-se desvanecendo, apesar da sua importância fundamental... 

Guilherme d'Oliveira Martins