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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De 28 de Dezembro de 2009 a 3 de Janeiro de 2010
“Notre Jeunesse” de Charles Péguy (Gallimard, 1957) é um livro de 1910, mas contém, no essencial, uma evidente actualidade, uma vez que nos fala da necessidade de haver ideais e dos perigos da sua ausência. Dir-se-ia, pois, que estamos perante uma obra a ler nos nossos dias, num momento em que sob os ecos da crise financeira notamos a ausência de referências fundamentais, que tornem o pluralismo, o respeito e a dignidade como algo de enriquecedor para a humanidade. E não podemos esquecer que Péguy escreveu sob o peso de um debate que ocorreu na passagem dos séculos XIX para o XX a propósito compromisso dos intelectuais sobre os problemas contemporâneos.

DA MÍSTICA À POLÍTICA. - Charles Péguy (1873-1914) foi um escritor, um ensaísta e um poeta que se singularizou pela capacidade militante de se bater por princípios e valores. O ambiente que conduziu ao “affaire Dreyfus”, os sinais perturbadores do anti-semitismo que permitiram esse escândalo levaram-no a tornar-se um dos mais activos “dreyfusards”. Vemo-lo ao lado de Émile Zola na campanha do “J’Accuse!” nas páginas de “L’Aurore”, mas sobretudo assistimos, depois da reabilitação de Dreyfus (1906), ao continuar de um combate pela liberdade e pela justiça nas páginas dos “Cahiers de la Quinzaine”, a partir de 1900. Profeticamente, Péguy percebeu, desde cedo, aonde poderia conduzir a cegueira étnica e o oportunismo político, quando ainda se estava longe de poder antever a tragédia da “solução final”. “Notre Jeunesse” é o escrito político porventura mais célebre e mais influente de Péguy. É constituído por vários textos publicados nos “Cahiers” na sequência da reabilitação de um judeu acusado de alta traição, apenas por ser judeu. Nestes textos se notam as melhores características do polemista, desde a força das invectivas à clareza das ideias. Foi nesta obra que escreveu: tudo começa em mística e acaba em política. Este é, afinal, o tema essencial que desenvolve. E o que pretende é dizer que é indispensável renovar as ideias permanentemente, apelando aos princípios e ideais, para que não prevaleça a lógica imediatista, centrada em razões de oportunidade. “Uma mesma esterilidade seca a cidade e a cristandade. A cidade política e a cidade cristã. A cidade dos homens e a cidade de Deus. Trata-se propriamente da esterilidade moderna. Que ninguém se regozije vendo o mal que atinge o inimigo, o adversário e o vizinho. Porque o mesmo mal, a mesma esterilidade o atingem a ele também. Como tantas vezes disse nestes cadernos, desde o tempo que não me liam, o debate não é propriamente entre a República e Monarquia, entre a República e a Realeza, sobretudo se as consideramos como formas políticas, como duas formas políticas, não é somente, o debate não é exactamente entre o antigo regime e o novo regime francês, opõe-se a todas as antigas culturas, em conjunto, a todos os antigos regimes em conjunto, a tudo o que é cultura e a tudo o que é cidade. É, com efeito, a primeira vez na história mundial que todo um mundo vive e prospera, parece prosperar, contra a cultura”. Péguy refuta várias acusações, provindas das mais diversas origens, e tendo-se posto claramente ao lado do judeu Dreyfus recusa que o combate dos “dreyfusards” seja anti-cristã. Afinal, há uma mística comum que une cristãos e judeus. Por outro lado, para ele, um regime político não pode limitar-se a ser uma tese. Se for apenas uma tese cai de rastos. É, pois, precisa vontade, que ligue razão e acção. O essencial é, assim, que a “mística não seja devorada pela política, à qual ela deu nascimento”. Do que se trata, no fundo, é de compreender que, sendo a acção fundamental, não poderemos esquecer os princípios em que ela se baseia. Não basta manter o poder a todo o custo, não deveremos ceder ao mero pragmatismo. 
“LA TRAHISON DES CLERCS”. - O caso Dreyfus abriu na cultura europeia um tema que nos anos vinte daria lugar ao debate em torno da obra de Julien Benda (1867-1956) “La Trahison des Clercs”. “Os homens cuja função é defender os valores eternos e desinteressados, como a justiça e a razão, que designo como intelectuais (clercs), traíram a sua função em benefício dos interesses práticos”. Com esta afirmação, longamente glosada por muita gente ao longo do século XX, Benda pôs o dedo na ferida das responsabilidades do intelectual, em especial nos tempos de crise. No entanto, o autor de “La Trahison” viria a ser alvo de duras críticas no final da vida em virtude do seu apoio à política de Estaline. No fundo, o percurso do próprio Julien Benda veio a revelar a possível contradição na abordagem de um tema muito complexo, que liga, a um tempo, a avaliação dos acontecimentos e a responsabilidade cidadã perante eles. Emmanuel Mounier (1905-1950), discípulo de Péguy, falou dos acontecimentos como nossos mestres interiores e desenvolveu a ideia de compromisso, centrada na responsabilidade pessoal. Afinal, a avaliação dos acontecimentos obriga a correr abertamente o risco de errar, e daí a necessidade de nos precavermos contra a rigidez abstracta dos moralismos. “Uma filosofia para a qual existam valores absolutos será tentada a esperar para se lançar na acção por causas perfeitas e meios irrepreensíveis. O que equivale a uma renúncia à acção. (…) Só nos podemos comprometer em combates discutíveis e em causas imperfeitas”. Mounier falava, por isso, do sujar das mãos e dos riscos da indiferença ou da não-acção, numa tensão permanente entre o pólo profético e o pólo político da vida. Nem as imprecações nem as manobras tácticas podem responder, só por si, aos desafios complexos do mundo. Em 1938, aquando dos acordos de Munique, que adiaram o início da guerra, dando tempo para que Hitler melhor se preparasse para a ofensiva que iniciou a guerra, Mounier foi uma das poucas vozes que se ergueu contra um pacifismo que abria caminho à guerra, pela capitulação. Este foi um exemplo que, dramaticamente, os acontecimentos históricos vieram a demonstrar ser uma marca dos perigos da desistência e da exigência da acção. O compromisso obrigava, afinal, à acção impura e discutível, em nome dos valores humanos.
DO PÓLO PROFÉTICO AO PÓLO POLÍTICO. Bernard-Lazare foi quem lançou a campanha contra a falsa acusação que impendia sobre Alfred Dreyfus. Assumiu, assim, a mística e o pólo profético que os acontecimentos reclamavam, sem esquecer a dimensão da eficácia no agir. Péguy dá o exemplo de uma mística preocupada com os resultados, com a necessidade da realização da justiça. “A política desdenha da mística, mas é ainda a mística que alimenta a própria política”. Eis por que razão a compreensão da vida obriga a ligar mística e política, profecia e acção. E ao falar dos ideais republicanos, o autor de “Notre Jeunesse” deixa claro que uma sociedade precisa periodicamente de se renovar, de encontrar forças novas. Sem essa capacidade de renovação a cidade fragiliza-se e decai. E Dreyfus foi uma dessas oportunidades para que houvesse uma linha divisória entre a busca de um suplemento de alma e a repetição da inércia conformista. Sente-se, assim, o entusiasmo do agitador e do poeta, ciente de que se iniciaria um ciclo que depois se esgotaria, para reencontrar a seguir novas forças de sentido místico, aptas a lançar pontes e a reencontrar raízes libertadoras. Nada disso, porém, poderia realizar-se sem drama. Basta lembrar-nos do Abade Pichot que, por ser dreyfusard, teve de se exilar. Charles Péguy afirma: “Não somente fomos heróis, mas o caso Dreyfus no fundo não pode explicar-se a não ser pela necessidade de heroísmo que anima periodicamente este povo, esta raça, pela necessidade de heroísmo que nos anima em toda uma geração. (…) Em todas as grandes provas, em todas as grandes histórias é talvez mais a força interior, a violência da erupção que faz a matéria, histórica, uma vez que não é a matéria que faz e que impõe a prova”. E o nosso autor fala ainda numa “misteriosa necessidade de inscrever uma grande história na história eterna”. Com voz grandiloquente, o poeta, que veria o fim dos seus dias na Batalha do Marne, no início da guerra (1914), fala-nos da mística como ponte entre as pessoas, como factor de entendimento e de aproximação, mas também como revelação e conhecimento. Lembramos uma das suas mais emblemáticas afirmações: “la révolution sociale será morale ou elle ne sera pas” (1901).

 

 

 

A PALAVRA DE JBC

A PALAVRA DE JBC
 

 

RECANTOS DE NATAL

1.  Na província não neva (o poeta é um fingidor) e, mesmo que nevasse, nunca passei um Natal na província. Também nunca passei um Natal na neve ou com neve. Confesso que tenho alguma inveja. Um Natal, como esse da Judy Garland em "Meet Me in St. Louis", com muitos bonecos de neve e a dita a bater leve, levemente. "Have yourself a merry little Christmas". Também a mim, o Natal, em províncias technicoloridas e lares aconchegados, me faz sonhar saudades. Mas não se pode ter tudo. Sobretudo não se deve ser mal agradecido. Os meus natais lisboetas e sintrenses já dão pano para mangas, atravessando quatro - ou cinco - gerações felizes, ou imaginariamente felizes, em noites de tantíssimos anos, de tanta gente que já dos meus olhos se apartou ou que os aos meus olhos começa a aportar. Quantos foram? Horror, a lembrança das datas? Horror não é palavra que rime com os meus Natais nem com as minhas lembranças. Dos antiquíssimos que recordo, era eu dos mais crianças, aos recentíssimos, sou eu dos mais velhos, a sucessão é boazissimamente boa e o Natal fica-me bem como bem eu me fico nele. Por isso, não esperem de mim conversas de maldição à sociedade de consumo, de raiva à paganização, de mentira às famílias, conversas "desmistificadoras". Natal de manhãzinha ou de noite dentro, de rabanadas e de perus, de missas do galo e de presépios, de sapatinhos ou de chaminés, de tudo conheci e de todos vivi. E não os troco por nada.

2. Ao princípio (estou a falar dos anos 40 e muito poucos picos) a véspera do Natal era só isso: a véspera do Natal, a ansiosa espera pelo dia seguinte. O Menino Jesus ia nascer à meia-noite, quando eu estivesse a dormir, e ia descer dos céus "pela abaixo chaminé", para me deixar no sapatinho todos os presentes que eu desejava ter.
Os crescidos não me deixavam entrar nas salas em que se sussurravam segredos e mistérios. Depois de jantar, antes de me deitar, dois rituais fatalmente sucedâneos, deixavam-me finalmente entrar na sala grande para depor junto à lareira o famoso sapato.
Crianças dormem como anjos? Nessa noite, não era bem assim. Acordava muitas vezes, à espera de ouvir, lá longe, os passos do Menino carregadinho de prendas. Às vezes, ia jurar que o ouvia. Mas tinham-me catequizado devidamente. Não sei se a tia que me contou todos os contos já me tinha contado o do Barba Azul. Sei é que, na minha memória ou na minha imaginação, o que me aconteceria, se acaso ousasse levantar-me e ir lá ver, era o mesmo que aconteceu às mulheres do Barba Azul quando entraram no quarto proibido. Não só ficaria manchado para sempre, como os presentes que o Menino trouxe - ou havia de trazer - o Menino os levaria e eu ficava culpado e solteiro. Por isso, nunca ousei.
O pior era quando o dia começava a clarear. Pela única vez no ano, as horas mais doces do meu sono tornavam-se as mais agitadas. Inabalável era a minha fé que os presentes já lá estavam, mas nenhum passo precoce me era consentido. Restava-me esperar horas infindas pelo acordar dos pais. Finalmente, entravam-me pelo quarto e juntávamo-nos os quatro (o quinto dos irmãos só nasceu anos depois) no corredor, à espera do "já podem" mais apetecido de sempre. Em cima de cada sapato, a pilha de presentes. Só com os meus filhos e com os meus netos, aprendi retrospectivamente quão estremecente eu ficava, antes de me precipitar a rasgar papéis e a abrir caixas. Incrivelmente, milagrosamente, o que eu tinha pedido cumpria-se. "Se algum dia pedires, com verdadeira fé, à montanha que se mova, a montanha mover-se-á." É a imagem mais aproximável que consigo dar para a sensação que tinha. Também me tinham dito que, se tivesse asneado muito, no Natal só receberia carvão. Mas o Menino era Todo Misericordioso, embora não Todo Distraído. Entre as prendas ubérrimas havia um carvãozinho. Ele lá sabia e eu também sabia. Mas aquilo ficava entre nós e em nada atenuava a desmedida alegria. Depois, ia ver os presentes dos outros, depois o dia passava a correr no gozo de prazeres novos. À noite, chegavam os tios e os primos para um jantar de 16 pessoas, 12 na mesa grande e os quatro miúdos numa mesa pequena. Até hoje, o menu não mudou: canja, folhados de camarão com salada russa e salada de agriões, o peru (com o recheio, o molho, os rabanetes, as batatas fritas aos palitos), depois, à sobremesa, as rabanadas, os sonhos, a "mousse" de chocolate, o ananás. Um jantar de horas à mesa, servido por duas criadas impecavelmente fardadas, de crista e luvas brancas. Só no dia 26, a vida de cada dia retomava o seu dia, até um jantar de idêntica ementa, idênticas presenças e idêntica euforia no Dia de Ano Novo. Só mudava o "décor". Em vez da nossa casa, a casa dos meus únicos tios que eram casal, ali na Rodrigues Sampaio. Mas não havia risco que qualquer de nós (adultos ou crianças) disséssemos ou pensássemos o que um neto meu disse há uns anos, quando falou da casa daquela tia em que o jantar é sempre a mesma coisa. Além de uma educação mais severa, o peru, nesses anos, era exclusivo do Natal e do Ano Bom. Dias antes do Natal, chegavam vivos e de boa saúde, oferta dos alguéns que deviam favores. Depois, em sótãos onde não nos deixavam entrar, a cozinheira embebedava-os com aguardente, antes de lhes cortar as goelas e calar os últimos berros desesperados. Outro sinal dos tempos: antes de jantar, telefonava, de Portimão onde vivia, o irmão mais novo do meu pai, que só nesses dois dias telefonava, não por alheamento da família (que, para ele, era a única verdade), mas porque um telefonema de tão longa distância era manifestação perdulária, só admissível em datas especiais. Precipitávamo-nos todos para o auscultador, um minuto, um minuto apenas, que as chamadas eram caríssimas.

3. Até que chegou o dia fatal, tinha eu oito anos e andava no Lar Educativo João de Deus. Um colega explicou-me, a um canto do recreio, que não havia Menino Jesus nenhum e que os dadores não eram divinos mas os meus humaníssimos pais. Recusei-me a acreditar, mas a dúvida já cá estava. Chegado a casa, perguntei à mãe se era verdade. Confessou-mo. "Então os pais também mentem?" Ela explicou-me a diferença entre mentira e imaginação e como as coisas bonitas se podem sobrepor às verdades nuas. No futuro, interpretei-a muito latamente, mas disso não teve ela culpa ou se a teve foi uma "felix culpa". Não fiquei com os traumas que pedagogos perversos atribuem a revelações dessas. Só que no ano seguinte achei menos graça ao Natal e dormi melhor nessa noite. Quando chegou a minha altura de ser pai - e já se discutia seriamente entre "casais modernos", se se devia ou não contar isso do Menino Jesus às crianças - não hesitei na atitude a tomar. Talvez seja por isso que os meus filhos se maravilharam com o Natal tanto quanto eu me maravilhei e todos eles tenham contado a mesma história aos filhos deles, terceira geração maravilhada da família. Só acabou - e eu não me consolo - o Menino Jesus e os sapatinhos, que apenas sobreviveram até ao tempo dos meus filhos. Para os meus netos, já foi sempre o Pai Natal. E como até um reaccionário como eu se tem que adaptar aos tempos que correm, eu próprio me converti no Pai Natal, mascarando-me dele na noite do dito, para, enquanto todos esperam no corredor, e as luzes se apagam, bater muito com os pés no chão, soltar alguns uivos medonhos e fugir precipitadamente, mas não tanto que alguns não jurem que viram o velho encarnado, tão real e perfeitamente como está nas renas.
Também mudou o ritual dos dias e das noites. Crianças, agora, não vão para a cama a seguir ao jantar, à espera do dia seguinte, como eu, os meus irmãos, os meus filhos ou os meus sobrinhos. Ficam à espera da meia-noite. A hora do milagre é agora nocturna e não diurna.
Tem, aliás, desde que me casei, um extra que não fazia parte da minha educação, mas que incorporei, já que tradições as incorporo todas e quantas mais melhor. Como a família da minha mulher (pelo lado do pai dela) vem mesmo da província e dos lares aconchegados da Vila da Feira de outrora, a festa, no caso dela e na casa dela, era a noite de 24, ao jantar, com o caldo verde, o bacalhau e mil variedades de sobremesas (ovos mexidos e bilharacos). Igualmente passou a acontecer, desde que troquei Lisboa por Sintra, nos idos dos anos 50. Qual é a sucessão? Jantar de consoada; distribuição dos presentes (já não entre 20 mas entre 40) com as crianças interditas de entrar na sala e uma confusão dos diabos (crescidos e multiplicados, sucedem-se as chegadas de pessoas-sacos de presentes, a distribuir em montões por cuja ordem zelo eu); escuridão à meia-noite para a minha metamorfose em Pai Natal; reacender das luzes para a entrada da turba em êxtases renascidos; depois, a ceia (que já vem dos meus 12-13 anos) com os "palitos de la reine", a "tête d'achard" (receita arcana da minha mãe), as rabanadas, o chocolate com natas, os presuntos, os queijos, o bolo-rei. Depois, as crianças caem de exaustão e de orgasmos, e os crescidos ficam nos copos até às tantas. Invariavelmente, desde os anos 60, o cenário é a minha casa, variavelmente, no jantar do dia 25 e dos perus de plástico, em casa de um dos meus irmãos (este ano, pela primeira vez, uma sobrinha minha será anfitriã). O camarão dos folhados também não é o camarão vindo do mar dos meus verdes anos; a salada russa é comprada feita; e qualquer semelhança entre as batatas fritas de agora e as de antanho é pura coincidência. Desapareceram as cozinheiras, desapareceram as criadas, as travessas estão em cima da mesa e cada um trata de si e Deus de todos. Mas o dia 25 é um epílogo, não um cerne. Um recanto, não um canto. O canto e o cerne continuam a ser na véspera, na noite em que é Natal e vamos a Belém adorar o Menino que a Senhora tem. E o melhor do mundo são as crianças. A acreditar que tudo é possível, sendo que até hoje - graças a Deus! - tudo foi e é mesmo possível. Diante de mim, seja em que recanto for, ninguém amaldiçoará o Natal. Do Menino, e desde menino, da Baby Born, às "asas a sério para a Vera voar" (carta da Vera para o Pai Natal) sou fanático.

24 de Dezembro 2004 in Público
 

A VIDA DOS LIVROS

de 21 a 27 de Dezembro de 2009

“A Minha Primeira Sophia” de Fernando Pinto do Amaral, com ilustrações de Fernanda Fragateiro (D. Quixote, 2009) é um livro para crianças escrito com sentido pedagógico, com o intuito de introduzir os mais novos não apenas no conhecimento da vida de Sophia de Mello Breyner Andresen, mas também de os sensibilizar para a literatura, para a poesia e para a criação artística. 


UM CONTO DIFERENTE - Era a hora de deitar e a Teresa gosta sempre de ouvir mais uma história. Há sempre lugar para mais uma peripécia, para mais uma narrativa. Mas a imaginação esgota-se ao fim de tantas recordações do tempo em que havia burros no Algarve, em que as vacas davam leite quentinho, em que a avó Ana fazia deliciosas gemadas. Naquela noite a ideia foi outra, em vez de falar da praga dos Schtroumpfs negros que atormentavam as normais criaturinhas azuis ou de acompanhar Obélix nas suas deambulações pela Gália ou por Roma, seria bom recordar uma menina que nasceu no Porto e que escreveu sobre o “Rapaz de Bronze”, que um dia destes já encontráramos numa das nossas histórias nocturnas. Essa menina chamava-se Sophia, que é a palavra que os gregos têm para designar a sabedoria, e vivia no Campo Alegre, na cidade do Porto, um lugar que era exactamente como o nome indicava, de facto, a natureza era ali alegre e exuberante, mais do que em qualquer outro lugar. Uma grande casa pontificava, “no meio de uma enorme quinta onde havia muitas árvores diferentes, pomares e jardins com belas roseiras e camélias que floriam em Novembro”. Então a Teresinha lembrou-se das flores que rodeavam o “Rapaz de Bronze” na história que ouvira dias atrás. «Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos. Havia nele roseirais, jardins de buxo e pomares. E ruas muito compridas, entre muros de camélias talhadas». Tantas flores: gladíolos, begónias, orquídeas, camélias, túlipas, rosas, cravos e nardos. As flores têm nomes tão engraçados, e cada uma tem a sua própria personalidade. De noite, tudo ganhava vida e houve uma festa muito bonita. E entre todas as flores de mil cores, Florinda, a menina da história, tornou-se amiga inseparável do rapaz de bronze… Sophia em pequena também gostava muito de ouvir ler histórias e poemas, e mesmo antes de saber ler e escrever queria escrever: “quando comecei a escrever (disse um dia a própria Sophia) eu não sabia escrever. Eu tinha uma pena enorme. Eu pedi à minha mãe papel e caneta. Escrevia uns desenhos de umas letras inventadas por mim”. A imaginação era uma boa companheira e criava muitas personagens e aventuras. “Gostava de ler histórias diferentes, desde a Nau Catrineta até ao Gato das Botas. Também me maravilhavam os contos tirados das Mil e Uma Noites, Aladino e a Lâmpada Maravilhosa ou Ali-Babá e os 40 Ladrões”. E Sophia lembrava-se bem de ouvir recitar: «Lá vem a Nau Catrineta / Que tem muito que contar! / Ouvide agora, senhores, / Uma história de pasmar». E a Teresa lembrou-se logo do capitão general de dragonas, ao leme,e dos marinheiros sentados à mesa a comer e a conversar, debaixo das velas imponentes,que estavam na capa de um livro do avô.

 

UMA FAMÍLIA ANTIGA E UMA PRAIA
Sophia era de uma família de raízes muito antigas. Havia comerciantes vindos de muito longe, do reino da Dinamarca. E entre os antepassados portugueses havia quem se tivesse celebrizado pela defesa da liberdade. Durante as longas férias de Verão a família ia para a Praia da Granja, e aí Sophia passou a viver enfeitiçada pelo Mar e pelos seus mistérios. E a Teresa lembrou a janela da casa da Ericeira com o oceano em frente e essa magia fantástica das ondas e da faina dos pescadores. Mas continuemos: foi a pensar na Granja e no Mar que a mãe de Sophia lhe contou “a história de uma menina muito pequenina que vivia nos rochedos da praia”. Era “A Menina do Mar”. E a história fala-nos de um rapaz e dessa menina que dançava no seu palácio submarino. “Há florestas de algas, jardins de anémonas, prados de conchas. Há cavalos-marinhos suspensos na água com um ar espantado, como pontos de interrogação. Há flores que parecem animais e animais que parecem flores”. A menina propõe-se visitar a terra de que o rapaz lhe fala, mas a Grande Raia leva-a para longe, para que a menina do mar não se deixe prender pelos encantos terrestres. O tempo passa e vem a saudade. E a Teresa apressada explica-me que já sabe o que é a saudade – é quando alguém de quem gostamos está longe. E a menina do mar mandou através de uma gaivota… Teresa volta a interromper: “avô - gaivotas em terra, tempestade no mar”. É verdade, mas a menina mandou através de uma gaivota um suco de plantas mágicas (uma espécie de poção mágica), que o rapaz deveria beber para poder nadar durante sessenta dias e sessenta noites, com um golfinho, até chegar ao lugar longínquo onde estava a menina. O rapaz tomou a poção, fez-se ao caminho e reencontrou assim a menina do mar, que voltou a estar alegre e a dançar. E por lá ficaram. “Agora a tua terra é o Mar – disse a Menina do Mar”. E ficaram a saber que a saudade é “a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora”. Sophia nunca esqueceu esta história e contou-a vezes sem conta aos seus cinco filhos e a muitas gerações de jovens leitores. Quando cresceu, veio do Porto para Lisboa para estudar línguas e culturas clássicas, o grego e o latim. Entretanto, publicou o seu primeiro livro, que intitulou “Poesia”. A poesia e os contos para crianças ocuparam-na a partir de então. A memória é uma das suas fontes inesgotáveis de inspiração. “Aliás, nas minhas histórias para crianças (disse Sophia) quase tudo é escrito a partir dos lugares da minha infância”. Por outro lado, na escrita e na vida “procurava sempre combater a injustiça e a maldade de que alguns seres humanos infelizmente são capazes”. E Teresa comenta: o Natal existe para combater isso mesmo.

 

UM APELO A NÃO ESQUECER
A história da fada Oriana é exemplo dessa preocupação. Os olhos muito abertos de Teresa ouvem essa parte da história com especial atenção. “Oriana é uma fada boa e muito bonita que promete proteger todas as criaturas da floresta”. A promessa solene foi feita à Rainha das Fadas. Na floresta havia uma senhora muito velha, um poeta e as famílias pobres de um lenhador e um moleiro. Mas, se primeiro Oriana não se esqueceu da ajudar essas pessoas, a verdade é que um belo dia, depois de ter salvo um pequeno peixe do rio, deixou-se enfeitiçar pela sua imagem projectada nas águas, como se estas fossem um espelho, e pelos elogios do peixinho. A vaidade fê-la rapidamente esquecer as suas obrigações. E a Rainha das Fadas retirou-lhe os poderes – “só tornarás a ter asas quando te esqueceres de ti a pensar nos outros”. Oriana arrependeu-se, quis voltar a visitar os habitantes da floresta, mas em vão, uma vez que eles tinham partido, deixando tudo ao abandono. Depois de resistir à Rainha das Fadas Más, Oriana sente-se desamparada, mas, já desanimada, reencontra a senhora muito velha, quase cega, a caminhar junto a um abismo. A queda é inevitável. Oriana precipita-se para salvar a velha, e esquece-se de que já não tem asas. Ambas caem no precipício, mas a Rainha das Fadas intervém e dá os poderes perdidos a Oriana que assim se salva, bem como a pobre senhora. Afinal: “só quando nos esquecemos de nós podemos ser realmente felizes e espalhar à nossa volta essa felicidade”. Em cada história há um apelo para que não esqueçamos os outros e para que não nos deixemos tomar pela vaidade. Teresa comenta: quando fazemos o presépio procuramos pôr lá todos, pastores, carpinteiros, caçadores, Reis Magos, para que ninguém se esqueça dos outros… No conto “A Floresta” fala-se de um tesouro e de que o dinheiro pode ser um veneno, porque nos torna escravos dele, esquecendo-nos de quem precisa da nossa ajuda. “Ela admirava a figura de Jesus Cristo e acreditava nos valores que ele nos transmitiu quando nos ensinou a amar os seres humanos com toda a força do nosso coração”… O conto “O Cavaleiro da Dinamarca”, sobre um homem que decidiu passar o Natal na Terra Santa no lugar onde Cristo nasceu. Teve de fazer uma viagem muito longa. E na gruta de Belém pediu a Deus que dele fizesse um homem capaz de amar os outros. No regresso, foi apanhado por uma tempestade e visitou os lugares mais maravilhosos de Itália… Daí foi até à Flandres e regressou à Dinamarca, entre muitos perigos, tendo-se salvo dos animais ferozes. Julgando-se perdido, na véspera de Natal, viu uma luz no horizonte – “era a claridade de um grande abeto que os anjos do Natal tinham iluminado com muitas estrelas”… Sophia gostava muito do Mar, já se disse. Depois da Granja, tornou-se fiel do Algarve, num tempo em que as praias tinham pouca gente e que a natureza não tinha sido destruída pela especulação. Infelizmente, esses lugares mágicos tornaram-se raros. E Sophia não gostava da desordem, e muito menos da mentira, da injustiça e da falta de liberdade. “O que lhe dava mais prazer (e sei-o por experiência própria) era a alegria que brilhava nos olhos das crianças quando abriam os seus livros e se encantavam com a magia das suas palavras”. E quando cheguei ao fim dessa descrição maravilhosa da vida de alguém que deu tudo de si à poesia, era o espírito de Natal que estava bem presente. A Teresa já estava quase a fechar os olhos… Mas ainda pôde acrescentar: “temos de contar esta história ao Pedro, ao João e ao Guilherme, para que não fique só para nós”… O Pedro e o João são os irmãos mais pequenos e o Guilherme é o primo. Mas este ano ainda há um presépio vivo, porque a irmã Isabelinha acabou de nascer, mas temos de dar algum tempo até que ela possa conhecer a Menina do Mar e a Fada Oriana… Para já sentirá a história de Gaspar, Melchior e Baltasar, os reis que deixaram as suas riquezas e partiram para junto do menino Jesus, guiados pelo brilho de uma estrela.

Guilherme d'Oliveira Martins

A PALAVRA DE JBC

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MORRER FACE AO OUTONO

1. Esta estranha Primavera de 2005 vai-se infiltrando muito outonal. Em qualquer sentido da palavra, das nuvens e do vento. Olhem bem à volta e reparem nas caras das pessoas.
Já atentaram bem no número de caras que as pessoas agora têm? O número de pessoas é grandessíssimo, eu sei, mas o número de caras é obscenamente maior, porque, nesta estranha Primavera, quase todos andam com várias. No ano passado, por esta altura, as pessoas andavam com as caras do costume. Não direi com as caras com que nasceram, porque essas, já se sabe, duram umas horas ou uns dias. Também não estou a pensar nas caras com que se fizeram gente e que acabam quando ficam gente feitas. Mas com essa, que vem depois daquela, e que é a cara com que nos habituamos a vê-las, mais ruga menos ruga, mais dente menos dente. Cara com que se começa a parecer a cara dos filhos deles, quando ficam tal pai tal filho. Cara que, às vezes, até se pega à mulher (ou ao marido) que, depois de muitos anos de matrimónio, acontece ficar parecida. Cara que, outras vezes, passa deles para o cão, igual ao dono. É estranho? Não acho nada.
Uma cara é uma cara e não há assim tantas que não se compreenda alguma economia, sobretudo quando há que baixar o consumo. Estranho é o que está a acontecer agora. Com inquietante dissipação, as pessoas mudam de cara. Experimentam uma, acham que não lhes fica bem, usam outra, depois outra e mais outra. Para mim, que levo tempo a habituar-me a uma cara nova, esta sucessão de caras assusta-me. Qualquer dia, ainda me acontece o que aconteceu a Malte na Rua Toullier, num 11 de Setembro. Vou por uma rua vazia, e uma mulher deita a cara às mãos, e fica-lhe a cara nas mãos. Que visão será mais horrível? Uma cara do avesso nas mãos de uma mulher? Ou uma cabeça toda nua, esfolada viva, sem cara?
E o Malte, de Rilke para quem não saiba (se não souberem Rilke já não tenho cara para vos aparecer mais), viu isso tudo, em Paris e em Setembro, há um ror de anos. Ver isso em Lisboa, em Março, nos dias que correm, não há cara que aguente. Mas, com o balanço que isto leva, qualquer dia acontece. Pode ser já para a semana. Deus nos acuda, ou aquele rei que era irmão de Valentina Visconti, essa que - diz-se - morreu de desgosto.

2. De desgosto morreu também Niels Jacobsen, um médico islandês magrinho e pálido (eu, pelo menos, imagino-o assim) que, quando era mais magrinho e menos pálido, namorava, na sua gélida ilha, a quente e cúpida Maria Borman (também sou eu quem a imagina assim). A certa altura da vida (porque é que se diz "a certa altura da vida" mesmo para vidas que nunca tiveram qualquer altura?) resolveu fazer uma longa viagen pela Europa, visitar países quentes, a Itália, a Grécia, Chipre. Ela escrevia-lhe, todas as semanas, cartas que sempre começavam por "Meu Amor". Perguntava-lhe se ele se lembrava das tardes outonais em que iam os dois sozinhos passear. Ele respondia-lhe todas as semanas a contar-lhe de povos alegres e de pinhais. Mas, ao fim de seis meses, as cartas deixaram de chegar e as dele ficaram sem resposta. Escreveu à família, a pedir, por amor de Deus, que lhe dessem novas, mas a família dava-lhe de todos, menos dela. Só sabia que Maria não tinha morrido, pois recebia os jornais de Reykjavik e, das exaustivas necrologias desses tempos, não constava o nome dela. Pensou nunca mais voltar, tal o medo de a reencontar, quente e cúpida, nos braços de outro. Mas, por fim, regressou, como desde Ulisses ou desde Telémaco, todos regressamos. A família recebeu-o em festa mas ninguém mencionou o nome de Maria. Ele também não perguntou, por orgulho ou por desespero. Só que os desesperos em causas de amor ao amor aportam, infalivelmente. Quando Greta Bruble, que ainda era contraparente, veio passar férias de Verão a Reykjavik (e tinha a voz cansada e rolava os "rs" com meiguice e, desta vez, só metade é imaginação minha), o cabelo dela fez-lhe lembrar o cabelo de Maria, a cintura dela fez-lhe lembrar a cintura de Maria. Casaram-se na Primavera, quando as nuvens se confundem com os pântanos gelados e a calma polar amancia as próprias falésias. Niels deixou de se lembrar das tardes outonais.
Depois (e entendam por depois o tempo que quiserem) chegaram uns amigos suecos, médicos como ele, novos como ele, magros como ele, que quiseram visitar os hospitais-modelo atribuídos à Islândia. Um dia passaram diante da leprosaria, onde o novo director, que tinha sido aluno do pai de Niels, os recebeu com afeição. Enquanto a mulher do director e Greta preparavam um chá, o director levou-os a visitar as espaçosas salas dos doentes. Havia tanta luz, havia tanta serenidade. Agora sou eu quem vos jura que não inventei nada. Viram a sala das crianças, a dos homens e, por fim, a das mulheres, que eram cinco. Levantaram-se todas e viraram-lhes as costas, para que os jovens médicos lhes não vissem as caras. Até que, de repente, Niels parou. Pareceu-lhe reconhecer uma delas, na que estava mais à direita, Maria, a antiga Maria dele. Ainda tentou fugir, mas não pôde suportar a ideia de viver o resto dos seus dias com dúvida tão terrível. Chegou mais perto e eram os cabelos castanhos de Maria, esses cabelos tão crespos que todos os pentes se partiam contra eles. E era a nuca de Maria, essa nuca nervosa que o sofrimento ainda não abatera. E eram os ombros de Maria, esses ombros tão redondos que ela mal conseguia levantar os braços para ir colher cerejas. E eram as ancas de Maria, essas ancas que ele tantas vezes abraçara, quando chegava de mansinho e lhe tapava os olhos com as mãos.
Nesse momento a forma de mulher que se parecia com Maria vacilou e tombou. As outras continuaram de pé, com os fusos de tecer na mão, "como as Parcas quando a morte vai sozinha". Niels, no regresso, ainda conduziu a carruagem, entre as falésias, sem estremecer e sem deixar que os cavalos saíssem da rota. Mas, logo que chegou a casa, adoeceu. Durante seis meses não se levantou e não disse uma palavra.
E morreu face ao Outono.

3. A história que acabei de contar é o resumo aproximativo de um conto de Giraudoux chamado "L'Ombre sur les Joues". Giraudoux escreveu-o em 1908, aos vinte e seis anos, num jornal para onde escreveu muitos contos. Só foi publicado oito anos depois da morte dele, em 1952, entre os "écrits de jeunesse", num livro chamado "Les Contes d'un Matin".
"Morreu face ao Outono", traduzi eu. Em francês, Giraudoux escreveu: "Et il mourut vers l'automne", muitíssimo mais bonito. Mas ninguém, no século XX, escreveu melhor francês que Giraudoux (Gide?). "L'Ombre sur les Joues" contrasta com os outros contos da juventude (da manhã) pelo seu lado trágico. Os comentadores atribuíram-no à influência de Jean-Peter Jacobsen (1847-1885) que Giraudoux, como Rilke, descobriu nos inícios do século passado. A 1 de Agosto de 1902 a rodin: "Lembro-me muito bem que, há cinco ou seis anos, quando li pela primeira vez um livro inesquecível de um grande poeta dinamarquês (Jean-Peter Jacobsen) só pensei em procurar esse homem e fazer tudo para me tornar digno de ser amigo dele e profeta no coração dele perante todos os que ainda o não tinham encontrado. Mas, no dia seguinte, disseram-me que ele tinha morrido, muito novo, muito sozinho, numa aldeiazinha muito triste, morto pelo clima cruel do seu país sombrio." Foi por causa de Jacobsen que Rilke visitou, muito mais tarde, a Dinamarca, e consequentemente, foi por causa dele que escreveu "Os Cadernos de Malte Laurids Brigge". O livro que Rilke leu foi "Niels Lyhne" (1880), o livro que me levou a mim a ler Rilke, há muitos, muitos anos. Foi Rilke, ou foi Rodin, quem foi profeta de Jacobsen junto de Giraudoux? Disso, já não sei.Sei é que neste estranho Março de 2005, Jacobsen, Giraudoux e Rilke me apareceram de novo, trazidos por um morto que tinha o mais sereno rosto de morto que já vi. Alguém me disse: "Eu não sou crente, mas acho que é o rosto de um santo." Pensei então em Hjerrgild, o amigo de Niels, e na oração final deste, junto ao corpo agonizante de Niel. "Se eu fosse Deus, preferia conceder a salvação eterna àqueles que morrem sem se converter." Depois, olhei à volta e reparei nas caras. E lembrei-me de outra frase de "Niels Lyhne", que vem quase a seguir àquela: "Seja como for, é bom ter um Deus a quem dirigir lamentos e orações." Como o outro Niels (o de Giraudoux) "mourir face à l'automne".

4 de Março 2005 in Público
 

A VIDA DOS LIVROS

de 14 a 20 de Dezembro de 2009

“O Espião de D. João II” de Deana Barroqueiro (Esquilo, 2009) é um romance baseado em factos reais, que nos permite acompanhar a viagem de Pêro da Covilhã até às terras do Preste João. Transpondo para os dias de hoje a imagem de um “agente secreto”, travestido de James Bond ou de Indiana Jones, a autora não comete o erro do anacronismo e procura, com uma experiência já ganha noutras obras (“O Navegador da Passagem”, “D. Sebastião e o Vidente”), transmitir ao público em geral, e em especial aos mais jovens (dada a sua longa e rica experiência pedagógica), o ambiente geral do final do século XV, com uma evidente vivacidade.

UMA ESTRATÉGIA INTELIGENTE 
Em 1487, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, escudeiros de D. João II, o Príncipe Perfeito, foram enviados de Portugal para a costa oriental de África, ao mesmo tempo que Bartolomeu Dias partia para o Cabo da Boa Esperança. Tratava-se de descobrir por terra, aquilo que os navegadores iam procurar por via marítima – a rota das especiarias da Índia e notícias do “encoberto Preste João”. E deste modo acompanhamos uma longa peregrinação de cerca de seis anos pelo Mar Roxo, primeiro na companhia de Afonso de Paiva e depois solitariamente pelas costas do Índico até Calecute, mas também, pela Pérsia, África Oriental, Arábia e Etiópia, descobrindo povos e culturas completamente estranhos. Mas, para fazer essas andanças, Pêro da Covilhã teve de ocultar a sua verdadeira identidade e origem (como verdadeiro agente secreto, que de facto era), aparecendo como um enigmático mercador do Al-Andalus. Para compreendermos, contudo, a génese do romance temos de ir à obra anterior de Deana Barroqueiro – “O Navegador da Passagem”, onde o tema é a missão de Bartolomeu Dias de preparação do caminho marítimo para a Índia. A autora, naturalmente, entendeu que a chave do enigma do Príncipe Perfeito só estaria plenamente desvendada (ou a caminho disso) se se tentasse perceber o que se passou com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, na sua complexa e misteriosa viagem terrestre ao encontro do Presbítero João, o mítico Imperador Cristão do Oriente, há muito referenciado mas nunca descoberto. Afinal, o que era o mito do Preste João? Fala-se muito do tema, mas raramente com o rigor indispensável, e a nossa autora coloca com cuidado e correcção os termos em que essa referência deve ser feita. Depois do Concílio de Éfeso (431) e após a condenação dos Nestorianos, que defendiam ter Cristo uma dupla natureza, humana e divina, os partidários dessa heresia espalharam-se pela Pérsia, Arábia, Índia, Tartária, Mongólia e China. Daí as referências a comunidades de influência cristã espalhadas pelo continente asiático. Por outro lado, o apóstolo Tomé teria chegado à Índia e fundado núcleos cristãos no sul, de que temos notícia desde muito cedo (cerca do século IV). Lembrámo-nos bem dessas referências quando visitamos Cochim. Estas duas primeiras alusões põem-nos perante a existência de bolsas de influência cristã na Ásia, que podem ter estado na origem da lenda do desejado Preste João, a que faz referência o veneziano Marco Pólo no seu célebre Livro. A alusão a esse Presbítero pode ter ainda a ver com o mito de que o Apóstolo João não teria morrido, à espera da segunda vinda de Jesus Cristo, daí o nome adoptado. O célebre viajante veneziano situa, aliás, o reino do Preste João algures no centro da Ásia. Acresce que, dentro do espírito das Cruzadas, foi dirigida no final século XII ao Papa Alexandre III, bem como aos Imperadores do Oriente (Manuel Comeno) e do Ocidente (Frederico Barba Roxa), uma Carta apócrifa assinada pelo Preste João das Índias, descrevendo o seu reino maravilhoso e pedindo apoio. Sabemos, ainda, que Gomes Eanes de Azurara aludia à busca de uma aliança com um Imperador cristão das Índias entre as cinco razões do Infante D. Henrique para iniciar a Expansão. D. João II, a partir destas referências díspares, tinha, assim, uma informação suficientemente precisa de que havia um rei cristão na costa oriental de África, para lá do Cairo, na zona de influência copta. Com efeito, no Alto Egipto e na Etiópia havia cristãos, fruto da evangelização que a tradição atribuía a S. Mateus. Fácil é de compreender, por tudo o que fica dito, a importância desta missão confiada a Pêro da Covilhã. O plano da Índia exigia uma definição clara de uma acção política e diplomática que desse consistência à criação de um novo Império dos portugueses.

UMA PEREGRINAÇÃO HERÓICA
Seguimos, a partir de todos estes ingredientes, com entusiasmo, esta peregrinação. Há vivacidade na narrativa, o que permite ao leitor acompanhar o relato sem perder a atenção bem desperta. Santarém, Lisboa, Valência, Barcelona, Nápoles, Rodes, Alexandria, Cairo. Na cidade egípcia define-se a missão, Pêro da Covilhã irá para a Índia, para a Costa do Malabar, enquanto Afonso de Paiva destinar-se-á à Etiópia. A autora procura, assim, dar-nos o colorido dessa cidade que é uma encruzilhada de influências, o centro nevrálgico do comércio do Levante do Mediterrâneo. Com base nos testemunhos tradições e documentos coevos, a autora faz uma descrição minuciosa e rigorosa da viagem (em termos que pôde verificar com os seus olhos quando visitámos juntos a cidade e o Golfo Pérsico, com o CNC, em Setembro último). Depois do Cairo, ruma a Adem, no Mar Roxo, onde se separa de Afonso de Paiva, atravessa o Mar Arábico e chega a Cananor, segue para Calecute, passa por Goa, e regressa ao Golfo Pérsico e a Ormuz, o porto donde partiam as caravanas da Rota da Seda, que Marco Pólo visitou por duas vezes… Depois, segue para sul na costa ocidental de África, zona crucial para a descoberta do caminho marítimo para a Índia, até Sofala, retornando ao Mar Vermelho e ao Cairo. Deana Barroqueiro não se limita, porém, à descrição fria dos acontecimentos, concede densidade dramática a alguns dos momentos mais marcantes da narrativa. A personalidade de Rute, que surge com um destaque especial, não pode deixar de ser referida pela sua intensidade e pelo modo como nos dá um exemplo do modo como os portugueses se relacionavam com os povos desconhecidos que encontravam. De facto, a miscigenação não surge de um momento para o outro, por mera decisão política circunstancial. E este romance prenuncia-a.

DIPLOMACIA E AVENTURA
A um tempo, estamos perante os exemplos vivos quer do participante activo na empresa dos descobrimentos portugueses (no lado, algo inesperado, da preparação das navegações e da espionagem terrestre, bem diferente das histórias trágico-marítimas), quer da aventura em estado puro, que a autora inteligentemente explora com conhecimento e verosimilhança. Trata-se, no fundo, para usar uma metáfora medieval, quase de uma demanda mística que só pode ter paralelo na busca do Graal. É o prolongamento do espírito das cruzadas. Sente-se isso claramente, como depois veremos, Afonso de Albuquerque ao lançar uma ofensiva político-militar na região que pressupõe o conhecimento e a preparação, que Pêro da Covilhã conseguiu, mesmo que, em parte, fossem decepcionantes as conclusões… O Padre Francisco Álvares encontraria o agente português graças à embaixada de Rodrigo Lima (que demandou a corte do negus da Etiópia, sendo representado na frontispício da obra de Álvares). Aí pôde confirmar as excepcionais qualidades de Pêro da Covilhã – com uma espantosa memória, onde nada se perdia, a capacidade de aprender qualquer língua e, em pouco tempo, falá-la como um natural, além da apurada arte para criar os mais extraordinários disfarces, assumindo diferentes identidades e a extrema facilidade da improvisação. Estamos, assim, perante um romance histórico que é, a um tempo, livro de viagens e relato de aventuras. E como diria o Padre Álvares: “todas as cousas a que o mandaram soube, e de todas deu conta”. Quem melhor poderia sublinhar esta preocupação? Esta é a melhor homenagem que pode ser feita a Pêro da Covilhã, cuja memória parece ir-se desvanecendo, apesar da sua importância fundamental... 

Guilherme d'Oliveira Martins


A PALAVRA DE JBC

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O PAI E O SILÊNCIO

1. Houve um tempo, tempo de que me lembro muito bem, em que, dos dias para tudo quase todos os dias, só havia um dia especialmente assinalado. Esse era o Dia da Mãe, celebrado a 8 de Dezembro, na Festa da Imaculada Conceição de Maria. Dos pobres pais não se falava, embora eu duvide que esta precedência cronológica da Mulher sobre o homem sirva de conforto ou lenitivo face à recente questão das quotas. Não era Dia da Mulher, como agora se usa, mas celebração da maternidade. Se bem me recordo, o então cardeal-patriarca aproveitava o doce dia e a doce palavra para enaltecer as mães de muitos filhos ou as mães que tinham os filhos que Deus mandava. É claro que para tanto era indispensável uma ajuda masculina, mas suspeitava-se que essa ajuda fosse prestada por motivos prazenteiros, enquanto a Mulher, pelo contrário, cumpria o seu dever.
O certo é que não me lembro de Dias do Pai, embora o 19 de Março, dia de São José, fosse, nesses tempos, dia santo de guarda. A tradição do Dia do Pai confunde-se-me, em percurso autobiográfico, com a mudança do Dia da Mãe para data móvel, tão móvel que me aconteceu mesmo esquecê-la. Houve até um ano - estava uma filha minha a divertir-se na América - em que esta telefonou de lá para dar beijo à Mãe em dia dela. Enorme pasmo e enorme enleio. A filha-pródiga lembrava-se da Mãe, de além-Atlântico, com chamada que, simbolicamente, ao que creio pela única vez, não foi paga ao destinatário. Filhos outros, e marido bem pertinho na mesma casa, tinham-se esquecido por completo. As consequências só não foram mais devastadoras porque alguém reparou a tempo que os Dias da Mãe não coincidiam nem nos continentes nem nos conteúdos. Ou seja, era Dia da Mãe na América, não o era em Portugal. Ninguém tinha que pintar a cara de preto e à minha filha "americana" só lhe restava repetir a dose. Começava-se então a ouvir a frase - também eu fiz minha - que com tanta mudança tinham dado cabo do Dia da Mãe. Frase tão feita como aquela que rezava: "Cá em casa nunca se ligou ao Dia do Pai." Eu, às vezes, protestava que era injusto, mas com fraquíssima convicção. É de pequenino que se torce o pepino e em pequeninos - nem eu nem os meus filhos - tínhamos sido torcidos para o Dia do Pai. A coisa só mudou no tempo dos meus netos, há uns vinte a esta parte. Seja num dia, seja noutro, as escolas fazem tal alarido, a comunicação social tal algazarra, o comércio tal proveito, que não há perigo que qualquer das datas progenitoras passem despercebidas. Até eu passei a receber presentes no Dia do Pai. Eu que nunca os dei e, que em matéria de honrar pai, só me lembro de ter sido obrigado, em hora mais remota, a copiar do livro da 3ª Classe para as mãos paternas, o extraordinário verso por cuja fidelidade juro à fé de quem sou: "Amo o meu Pai / como não amei, não amo, nem amarei / mais ninguém / a não ser a minha Mãe." O autor era autora e certamente nunca ouvira falar do complexo de Electra, que a conclusão do verso não consegue ocultar. Mas é certo, voltando aos dias de hoje, que, se se perderam, ou se deixaram perder, quase todas as origens míticas e religiosas dos dias para tudo ou dos dias para nada (nem sequer Santo António venceu em Portugal o ignoto São Valentim, no Dia dos Namorados) o Dia do Pai é praticamente o único, cuja génese é óbvia.

2. Ou não é nada óbvia. Porque se pode perguntar - e com alguma pertinência - porque se comemora o Dia do Pai em dia de santo que pai nunca foi, São José, castíssimo esposo de Maria. Só gente muito heterodoxa foi capaz de comentar (Mt 1, 25-28 - "e nunca a conheceu até ao dia em que ela deu à luz o filho, ao qual ele deu o nome de Jesus"), observando que o texto nada diz sobre o que se passou depois. Em relação a outra passagem (Mt 12,46) em que o mesmo evangelista fala de irmãos de Jesus, exegese estabeleceu há muito que, em hebreu e aramaico, o termo utilizado designa também parentes próximos. Por último, são muito tardias e espúrias as versões que atribuem a S. José filhos de casamento anterior, pelo menos tão tardias e espúrias como as que sustentam que ele viveu até aos 111 anos. De resto, sabemos muito pouco de S. José. O Evangelho segundo S. João não lhe faz qualquer referência. Dos sinópticos, Marcos também o ignora. Dos evangelhos canónicos, Mateus e Lucas são as fontes privilegiadas, sobretudo o primeiro. Logo na genealogia de Jesus Cristo se diz, a terminar, que "Jacob gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, a que se chama de Cristo".
Depois (Mt 1, 18-28 e Mt 2, 13-26) são narrados os três sonhos de José: o primeiro impediu-o de "repudiar sem escândalo" Maria, quando descobriu a gravidez dela, "antes de terem vida em comum". Disse-lhe o Anjo nesse primeiro sonho: "José, filho de David, não temas tomar conta de Maria, tua mulher. Porque ela gerou por obra e graça do Espírito Santo. E dará à luz um filho, a quem chamarás de Jesus, pois é ele quem salvará o povo dos seus pecados' (...) Depois de acordar, José fez o que o Anjo do Senhor lhe tinha mandado e tomou Maria com ele." O segundo sonho segue-se à visita dos Magos. "O Anjo do senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: 'Levanta-te, toma contigo o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto. E permanece no Egipto até que eu te previna. Pois que Herodes vai procurar o Menino para o mandar matar.' José levantou-se, e, de noite, levou consigo o menino e sua Mãe e fugiu para o Egipto onde ficou até à morte de Herodes."
O terceiro sonho aconteceu quando Herodes morreu. "O Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, e disse-lhe: 'Levanta-te, toma o menino e sua Mãe e regressa à terra de Israel, pois que morreram os que queriam tirar a vida ao Menino.' José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe e regressou à terra de Israel. Mas, informado que Arquelau sucedera a Herodes no trono da Judeia, receou voltar para lá. Avisado em sonho, retirou-se para a região da Galileia e fixou-se numa cidade chamada Nazaré." Sempre me deu que pensar este papel dos sonhos no "amadurecimento" de José. É a sonhar que acredita na virgindade de Maria e decide viver com ela e assumir, perante os homens, o lugar de pai do Menino. É a sonhar que toma resolução de acordar Maria e o Menino e de os levar com ele numa perigosa viagem para o Egipto; é a sonhar que toma a resolução (quantos anos depois?) de voltar a Israel, embora só num quarto sonho posterior (o mais elipticamente referido) o tenha confirmado na decisão, não onírica, de se fixar na Galileiae não na Judeia. Alguns comentadores têm falado na oniromancia de José, que contrasta com os ensinamentos do Eclesiastes que recomendava desconfiança: "Os sonhos têm deitado a perder muita gente e quem neles acreditou sucumbiu" (XXXIV, 1-8). José, pelo contrário, acreditou e, porque acreditou, salvou o Maria e salvou o Menino. A fé dele é como a fé de Abraão: contra toda a evidência. Por outro lado, é José quem escolhe para o Menino o nome de Jesus e é o primeiro a saber que Jesus virá ao mundo para o resgatar do pecado.
Por fim (se fim pudesse haver emtudo isto), Mateus define José com um único adjectivo: "Justo" ("era um homem justo"). O Padre Bartolomeu do Quental, em 1661, no Sermão sobre São José (aproximável de passagens de Santa Teresa de Ávila), comenta admiravelmente o uso da palavra justo. "E o que custa a um homem justo ser filho de Deus? O que custou a José. Nada. Diz o Evangelhista que São José, como fosse justo, não quis entregar sua Esposa... não entregar, claro está, que é não fazer nada e, não fazendo nada, foi São José justo... Muito devemos hoje a São José por nos facilitar tanto com o seu exemplo uma coisa tão grande como é ser justo não fazendo nada, e foi justo (...) Os outros Santos ensinam-nos a ser justos obrando; São José é Santo de tão boa graça que nos ensina a ser justos não fazendo."

3. Depois, São José só volta a surgir nos Evangelhos (Lc 2, 41-54) no episódio, precisamente situado aos doze anos de Jesus, em que este, sem que José e Maria se apercebessem, ficou sozinho em Jerusálem, no Templo, em vez de voltar com eles para Nazaré. Quando descobriram que o tinham perdido, voltaram para trás, repetindo uma jornada de marcha. Três dias o procuraram em Jerusálem e três o não acharam. Quando finalmente o encontraram (o Menino entre os Doutores) quem o censorou foi a Mãe: "Meu filho, porque nos fizeste isto? Vê como teu Pai e eu te buscávamos, angustiados.' E Jesus respondeu-lhes: 'Porque me procuravam? Não sabem que tenho que me ocupar dos assuntos do meu Pai?' Mas eles não perceberam as palavras que ele acabara de dIzer."
Mais uma vez, São José é o todo silencioso. Não disse a Maria que a pensou repudiar. Não lhe disse a razão das idas e vindas para o Egipto ou da escolha de Nazaré como morada deles. Não censorou Jesus, embora Maria lhe atribua angústia idêntica à dela. Se os Evangelhos nos reportam algumas (embora escassas) trocas de palavras entre Jesus e sua Mãe, nenhum traço ficou de qualquer palavra entre Jesus e José. Mas é no momento em que Maria lhe fala do pai ("o teu Pai") que Jesus responde citando outro Pai, que não aquele pobre velho. Velho? Se os apócrifos falam de um José muito mais velho que Maria, os canónicos não dão qualquer indicação sobre a idade. Mas todas as imagens sempre retrataram José como um velho, num lapso demasiado gigantesco para ser inconsciente, como que explicando pela idade a abstinência dele. Depois, José desaparece numa imensa elipse. Quando morreu? Não sabemos. Ele que foi o silencioso "como a terra orvalhada" (no belo verso de Claudel, que cito em tradução de Pedro Tamen) fez-se silêncio e ocultação. Que mais bela definição se pode dar do Pai e do seu papel em dia dele, do que chamar-lhe, como Claudel lhe chamou, "Patriarca interior do dia-a-dia"? Termino com antiquíssima oração: "Jesus, José e Maria / Acompanhai-me hoje, agora e sempre / e na hora da agonia."

18 de Março 2005 in Público
 

A PALAVRA DE JBC

AS CINZAS E O MANEIRISMO ITALIANO
por João Bénard da Costa

 

1. Foi em Setembro. Eu estava a mostrar Veneza à mais nova das minhas Mónicas. Os dragões de Carpaccio fechavam à hora do almoço deles, que não coincidia com a do nosso. Nem tudo são azares, já que dragões não almoçam certamente no Harry's Dolce da Giudecca (um dos lugares mais paradisíacos da terra e um dos sítios onde melhor se come na nossa amurada) e vêem-se melhor à luz de Bellinis. Aliás, foi a ver de Bellini a translucidíssima "Virgem com Santos" de San Zaccaria que levei a Mónica enquanto fazíamos horas. À saída, reparei num cartaz ao fundo do "Campo". Anunciava uma exposição intitulada "Natura e Maniera tra Tiziano e Caravaggio", comissariada por Vittorio Sgarbi, a inaugurar a 5 de Setembro em Mântua. O cartaz reproduzia a "Judite com a cabeça de Holofernes" de Tiziano, que está em Roma na Doria Pamphilli, e em que alguns julgam ver a "Salomé com a cabeça do Baptista". Adiante, que, mais Freud menos Freud, os temas sobrepuseram-se nesses tempos perversos e terei ocasião de voltar a uns e a outros. A 5 de Setembro, já estaria de regresso à pátria, muito raramente visitada por Tizianos de passagem e jamais visitada por Caravaggios. Por razões que agora não vêm ao caso (como se o resto viesse...) não podia prolongar-me em Itália. Pensei com os meus botões que a possibilidade de ver a exposição era remota e tive pena. "Tra Tiziano e Caravaggio" situam-se alguns dos pintores de que mais gosto e o nome de Vittorio Sgarbi garantia-me uma escolha original. O homem das "trevas e da rosa" tem uma reputação duvidosa? Eu sei. Mas se, mesmo em anos muito "progressistas", sempre me atraíram criadores e críticos ditos "reaccionários" ou pior do que isso (do Pound a Céline, de Vinneuil-Rebatet a Brasillach, tendências que nunca me dei ao trabalho de analisar ou psicanalisar convenientemente), com a idade essas preferências só se acentuaram. Assim, apesar de saber que a esquerda italiana diz de Sgarbi (n.1952) pior do que diz de Berlusconi, de quem até foi ministro ou coisa parecida, livros como o citado "Le Tenebre e la Rosa" ou "Notti e giorno d'intorno girando..." são meus livros de cabeceira desde há alguns anos, quando a Rita me trouxe o primeiro deles de Turim. Muito recentemente (Minha Senhora, não se zangue comigo) acrescentaram-me ao rol dos pecados dele, mais dois. Segundo me disseram, o homem, por dinheiro e por mulheres, era capaz de tudo. Capaz fui eu de responder, à minha assombrada interlocutora, que há defeitos piores. "Percorsi perversi", para citar o título do último livro dele, comprado em Mântua, onde acabei por ir (fiz por isso ou aproveitei acasos em meu favor, como em devido lugar para o mês que vem explicarei) nos últimos dias em que a exposição estava visível. Fechou a 9 de Janeiro.

A ela volto. Não sem antes citar de Sgarbi a frase que para ele me conquistou: "A arte é, acima de tudo, uma forma de conhecimento do mundo, intuitiva e luminosa, como a inesperada aparição de uma rosa nas trevas."

2. Como é que a rosa me apareceu nas trevas do Palazzo Te, tão perto da Sala de Psique ou da Sala dos Gigantes, onde, há alguns anos, descobri Giulio Romano, a que até então pouco ligara, ou sempre vira apenas como talentoso discípulo de Rafael, como o ventre que gerara Rubens, que em Mântua junto dele se formou? Numa "mostra" de 130 quadros bem expostos (se bem dispostos, é outra questão) na chamada "Fruttiere" do Palácio, ou, se preferirem, no antigo pomar dele, há muito transformado em galeria temporária. O percurso iniciava-se com a Judite (ou a Salomé) de Tiziano e terminava com dois Caravaggio: "A Conversão de Saulo" e "O Sacrifício de Isaac", obras da primeira fase do pintor. O último está nos Uffizi e conhecia-o bem, embora lhe prefira, de longe, a tela com o mesmo tema e mais ou menos da mesma época, de uma colecção particular americana e que vi em 2000, em Bilbau. O primeiro, anterior à célebre tela homónima da Capela Cerasi de Santa Maria del Popolo, em Roma, nunca o vi em vida minha e é mesmo um dos quadros de Caravaggio mais difíceis de ver, já que os donos (os Odescalchi, da lendária colecção homónima) são tão ciosos dele que raramente o emprestam. Ai de mim, ainda não foi desta. Saíra da exposição a 11 de Outubro e não pude, pois, verificar se, como pretende Sgarbi, foi ele quem lançou o Romano na pista dos gigantes, na sala dos quais o queria expor. Também não pude confirmar se Sgarbi tem razão quando diz que, mais do que qualquer outro quadro de Caravaggio, essa é a obra que "mais fala a linguagem do maneirismo", com "a sintaxe maneirística e a gramática realista ou naturalista". A tela do "horror vacui". Neste caso, no vácuo fiquei eu, debruçado sobre a grande ausência final. O primeiro Caravaggio teria sido o último dos maneiristas, nos últimos anos do século XVI? Se Sgarbi o jura, eu não o posso jurar.

3. Mas o comissário que não comissariou essa elipse (tivesse eu madrugado mais cedo...) comissariou outra elipse mais insólita. A exposição, além do título já mencionado, junta-lhe outro: "As cinzas violetas de Giorgione". A expressão é do célebre crítico Roberto Longhi (1890-1970) que em tempos escreveu, referindo-se a um dos maiores pintores maneiristas, esse Dosso Dossi (1490-1542) que, mais do que qualquer outro, trouxe de Mântua: "A arte dele (...) é o fumo que se evola das cinzas violetas do enterro de Giorgione, misturado com as doces névoas dos vales do Pó" (Dossi nasceu e morreu em Ferrara). Sgarbi vai ainda mais longe do que Longhi e diz que "a alma de Giorgione continua a viver em Cariani como em Dosso Dossi. Ao falar das "cinzas violetas", Longhi queria dizer que tudo o que aconteceu na Padânia, a partir de 1510, foi a reelaboração, a transformação e a deformação da arte de Giorgione, imprescindível, arrebatadora, diletante, tornando-se numa segunda natureza para cada artista, ou, se se quiser, na Maneira de cada um deles".

Mas se, no texto do catálogo, que estou a citar, evoca de Giorgione "La Tempesta" ou os "Tre Filosofi", ou o "Tramonto", nenhum quadro do célebre pintor da Laguna figura na exposição. Esse "protagonismo ausente" não é fortuito. Cinzas não se mostram em ressurreições. Cinzas fúnebres ainda menos. É uma nova luz, "un'aria stregata", que nasceu na obra do mais genial continuador de Giorgione e, portanto, acuradamente, Tiziano abre a exposição, com a Judite ou Salomé que, vista a alguma distância, parece desviar os olhos, pudica ou enleada, da cabeça que acabou de degolar e, vista de mais perto, não disfarça um sorriso perverso, como se quisesse dar o peito, que tão levemente deixou desnudado, à boca que não repele mas comprime. Diz-se aliás (mas diz-se tanta coisa) que a figura feminina retrata Violanta, a filha de Palma o Velho, por quem Tiziano se terá perdidamente apaixonado, como se diz que Tiziano (então com 25 anos) é reconhecível nos traços do Baptista ou de Holofernes. Mas não se diz, vê-se, que a cabeça dele é colocada por baixo do arco, através do qual um céu azulíssimo é a única fonte de luz que brune o morto e aleita Violanta, uma Violanta que, como a de Rodrigues Lobo, "antes que o sol se levante / A dar graça e luz ao prado / Já Violanta lha tem dado / Que o sol tomou de Violanta".

4. Mas, por muito que me custe, tenho que deixar Tiziano e a degoladora de beatilha.

Pois se havia dez Tiziano na "Mostra" e todos eles raríssimos (nem tempo me deixam para falar no retrato do comandante zarolho, proveniente de algures em Ferrara) já me aproximo do fim e ainda não expliquei o critério da exposição. Sabe-se, desde o livro clássico de André Chastel, como a "maneira" romana, que Clemente VII, o segundo papa Médicis, protegeu com volúpia e escândalo nos primeiros anos do seu pontificado (1523-1527), dando origem a uma nova pintura, ou a uma pintura nova, foi brutalmente interrompida pelo saque de Roma de 1527. Os protegidos de Clemente ou foram mortos, como os mais ímpios frutos da "nova Babilónia", da "Sodoma renascida", ou dispersaram-se pela Itália, sobretudo pela Emília Romana, pela Toscânia e pelo Veneto. Parmigianino em Parma, Pontormo em Florença, Dossi em Ferrara, Maretto e Savaldo em Brescia, os Campi em Cremona, entre tantos, tantos outros (nem sequer falei de Rosso, nem sequer mencionei Tintoretto), entre 1530 e 1570, seguindo a lição colhida em Roma. Se, na "imitação" da Natureza, Miguel Ângelo e Rafael são inultrapassáveis, o único caminho possível (e Vasari é a fonte) é partir "'da maneira' de Miguel Ângelo e explorar um terreno que é o dos sonhos deles, das visões deles". O limite deixa de ser a realidade ou a Natureza para passar a ser a consciência. Ou, como aventurosamente diz Sgarbi, esses pintores "entram na alma profunda do Homem. Com eles começa, pode dizer-se, a psicanálise". Muito antes de os alemães terem inventado o termo "manierismus", "principia-se a sondar uma dimensão tão secreta e tão misteriosa que já nada tem que ver com a realidade. A sensualidade entra nas almas e os corpos são apenas veículos delas".

Para o mostrar, Sgarbi foi buscar dos grandes pintores o mais secreto e dos pintores esquecidos o mais evidente, com centros em Lotto, em Dossi ou em Parmigianino, tanto quanto em pintores que só agora descobri, em Ortolano, Compagnolo, Bonsignori, Cariani, Orsi, Sustris ou Carlo Bononi. Quadros famosos de museus famosos? Muito poucos. Mas de igrejas recônditas, colecções particulares ou museus de cidadezinhas, vieram essas visões do abismo, que a Contra-Reforma volveu anos depois para o limbo dos prazeres proibidos.

E nem sequer falei de Bastianino (1532-1602), o nebuloso pintor do "Juízo Final" do Duomo de Ferrara, a quem Longhi chamou o "William Blake do miguelangelismo italiano". Dele, o "Cristo morto entre dois anjos", foi outro dos cumes desta exposição. Cito Sgarbi, para terminar, pois foi ele quem descobriu essa tela em 1992: "A maceração interior, a transformação do corpo em fumo, perdida toda a força, desvanecida qualquer energia. Do homem, só resta o invólucro, no ponto de dissolução. Nem um gesto, nem uma convulsão, apenas um sussurro. E assim, nas névoas de Ferrara, o sonho de Miguel Ângelo dissolveu-se" (...) Haveria que esperar por Goya para reencontrar um efeito tão visionário".

 

28 de Janeiro de 2005, Público.