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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CULTURA HOJE




Foto D.R. 

 

O jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos recebeu o Prémio Clube Literário do Porto, no valor de 25 mil euros, que visa "premiar o autor que mais criatividade teve no domínio da ficção". Trata-se do primeiro prémio, como romancista, que o jornalista recebeu. Na cerimónia de entrega do prémio - que já distinguiu Mário Cláudio, Baptista Bastos, Miguel Sousa Tavares e António Lobo Antunes -, coube ao reitor da Universidade Fernando Pessoa, Salvato Trigo, fazer a apresentação deste romance (da qual publicamos alguns excertos).
"Fúria divina", foi editado em Outubro passado e tem como tema de fundo o radicalismo islâmico e é um "thriller" que acompanha a aventura de Tomás Noronha, um professor da Universidade Nova de Lisboa, perito em criptanálise e línguas antigas.
José Rodrigues dos Santos explica que foi durante uma viagem ao Paquistão, em 2008, que teve a ideia para "Fúria Divina". "Sabendo que os paquistaneses estavam a 'exportar' a sua tecnologia de armas nucleares para outros países islâmicos e sabendo que os militares paquistaneses apoiavam a Al-Qaeda, desenvolvi a primeira linha de força do romance: e se a Al-Qaeda tiver a bomba atómica? Depois, apercebi-me de que teria de entrar na cabeça de um radical islâmico e pus-me a ler os textos islâmicos. Desenvolveu-se, assim, a segunda linha de força do romance: e se o Islão dos fundamentalistas é o verdadeiro Islão?".
 
«Deus do presente e do futuro»
 
Salvato Trigo
Reitor da Universidade Fernando Pessoa
 
(…)
9. Este novo livro de José Rodrigues dos Santos pertence, sem dúvida, à categoria do que a literatura consagra pela denominação de romance, e, mais uma vez, o autor serve-nos a dose certa do romanesco, temperada por uma escrita analítica ancorada na crónica que, enquanto jornalista, domina inteiramente naquela fronteira em que ela se assume como espécie narrativa de síntese entre o jornalismo e a literatura. O autor reconhece, como dizia Jacinto do Prado Coelho, que a literatura começa exactamente naquele instante em que termina o jornalismo, isto é, em que o facto (a matéria-prima da narrativa jornalística) se transforma em ficto (a matéria nuclear da ficção, da narrativa literária).
 
(...)
11. E porque o reconhece, serviu-nos, nesta longa narrativa de quase 600 páginas, factos, que jornalisticamente sabe tratar com a excelência do repórter, temporãmente revelado em teatros de guerras ou de catástrofes naturais, combinados, a preceito, com o romanesco amoroso, sem “happy end”, como o de Tomás Noronha com Rebecca, a agente americana da NEST, que, eternamente grata ao professor português especialista em criptografia e, por isso, herói-positivo na decifração do código que despoletaria a bomba nuclear da Al-Qaeda, fabricada e encriptada por Alberto Almeida, aliás, Ibn Taymiyyah, aliás Ahamed Barakah, eternamente grata, dizia, lhe deu, afinal, uma lição de vida, mostrando no beijo prolongado com a Anne, sua colega, que a gratidão não é suficiente para acordar Cupido.
 
12. De romanesco amoroso, apenas como motivo composicional literário, poderemos também falar, na relação filial de Ahmed com a mãe, mas já não da relação marital do senhor Barakah, seu pai, com sua mulher, e também não da fugaz relação marital de Ahmed com Adara, a bela jovem filha do comerciante Arif, para quem Ahmed angariava clientes; turistas (kafirun) nas ruas do Cairo, a troco de algumas piastras.
 
13. Adara, ainda que fugazmente, em Lisboa, para onde veio juntar-se ao marido que não amava, mas que o pai, na tradição islâmica, lhe escolheu, procura libertar-se da opressão dos princípios corânicos a que estava sujeita pela sua condição de mulher de um crente radical e fundamentalista religioso.
 
14. Não é, pois, na dimensão romanesca que assenta o valor e a importância deste livro. Para mim, este livro é sobretudo importante como texto, naquela acepção em que Eduardo Prado Coelho, a partir de Roland Barthes, o assumiu, quando escreveu: “ É texto tudo o que no discurso se desprende das condições normais de comunicação e significação, e funciona como uma clareira, uma zona de tréguas no interior da guerra das linguagens.”

15. Consagra-se Fúria Divina como texto, como clareira, como zona de tréguas no interior da guerra das linguagens, no cap. 62, quando Tomás Noronha convence o seu antigo aluno Ahmed a fornecer-lhe o código para desarmar a bomba e este, moribundo, depois de insistente pedido, lho fornece sob forma anagramática, embora convencido de que o tempo que restava não seria suficiente para o professor suspender a explosão.
 
(…)
17. “Fúria divina” era o nome do código da operação Nova Iorque, extractado do versículo 16 da sura 8 do Alcorão. Operação, todavia abortada, porque a vontade de Alá não era coincidente com a vontade de Bin Laden. Deus, para o ser verdadeiramente, não pode ser fonte de vida e seu carrasco, ao mesmo tempo.

18. A tradição pré-islâmica, aquela em que Maomé bebeu os ensinamentos para o Alcorão, ensina que “Alá, antes de tirar o mundo do nada, criou a Tábua e o Cálamo e este, apenas criado, escreveu na Tábua, por decreto de Alá, todo o futuro e quanto pode saber-se.”

19. Foi este Deus primevo que Tomás invocou e, afinal, revelou a Ahmed. Não o deus que alguns homens, arrogando-se gabriéis, usam para nos meter medo e, assim, se tornarem eles também deuses aos olhos dos que neles crêem, quando afinal, não passam de lobos como Plauto os caracterizou no axioma “homo homini lupus”.

20. É que, como escreveu Angelus Silesius, “ o olho com que vejo Deus é o mesmo olho com que ele me vê”, não devendo, por isso, o entusiasmo, no sentido etimológico grego, de ter Deus em cada um de nós, de transportarmos o halo divino, ser descontrolado e descambar em paixão, porque, como sabiamente escreveu Hobbes, “ a única paixão da minha vida foi o medo”.
 
(…)
33. A um leitor menos atento poderá parecer que o autor assunta, paralela e diferentemente, duas histórias dentro do romance, cujas personagens centrais seriam Tomás Noronha, da ocidental, e Ahmed Barakah, da islâmica. Como disse atrás, Tomás Noronha é, de facto, o herói-positivo deste romance-crónica, ou deste ensaio literário ou deste “roman fleuve”, como o poderíamos classificar com maior rigor técnico-literário. Ahmed, esse, é o herói-negativo, o pícaro, que funciona como o ponto de confluência das disputas das linguagens, a ocidental e a islâmica, ou como a lançadeira do tear que vai tecendo o texto.
 
(...)
37. Concluiria, dizendo que, se a qualidade dum romance pode ser determinada pela capacidade que o seu autor tem para manter o “leitor colado à história”, então, estamos, por isso e sem qualquer dúvida, em presença de um romance de qualidade.

38. Este livro de José Rodrigues dos Santos apresenta-nos, é preciso dizê-lo, um autor experimentado nas técnicas narrativas e no domínio perfeito da função fática da linguagem.
 
39. Fúria Divina poderia parecer um título pouco conveniente para um romance publicado em cima da borrasca de Caim e dos acintes alimentados por picardias mais políticas do que teológicas, mais ideológicas do que fideístas.

40. Todavia, quando tiverem ocasião de ler o livro, que aqui me permito recomendar também como uma excelente crónica literária e jornalística de indubitável interesse social e de inegável actualidade doutrinária, então, verificarão que o oxímoro, que a nossa relação sintáctica e semântica com Deus ou com os deuses surpreenderia no título, não é, de facto, um oxímoro, porque, em rigor, não existe contradição fundante entre os termos.
 
41. Este livro, para além de outros muitos méritos que aqui o tempo não me deixou dizer, tem o condão de nos fazer pensar na nossa própria condição humana e na forma como a condicionamos no modo como nos relacionamos com Deus, como crentes ou como agnósticos.
 
42. Por mim, a leitura prazeirosa deste livro, motivou-me à releitura de O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade, para relembrar que, afinal, nós, os humanos, somos a epifania da dimensão sagrada que a vida inteligente nos garante para um encontro virtual com Deus, com o nosso Deus ou com os nossos deuses.
 

in As Artes entre As Letras (edição n.º 17, 13/01/2010)

A PALAVRA DE JBC

A PALAVRA DE JBC

 

A GUERRA ÀS AVESSAS
 
1 - Quanto mais penso nesse filme, mais espantado fico. Na verdade, nem é no filme, relativamente banal e ensosso, mas no fim do filme. Se há, não conheço uma figura semelhante. A raiz quadrada de um número sem raiz quadrada. "Três quartas de cinema" ou "três quartas partes pretas de lã carneira?". Não estou a louvar nada nem a simplificar nada, embora as citações venham do poema de Cesariny, de que me lembrei a páginas tantas por razões que explicarei lá para o fim desta página.
É certo que estou no princípio e por isso convém que me explique antes que se faça ainda mais tarde.
 
2 - O filme, de que vos poupo o título original em russo, chama-se qualquer coisa como "Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra", a acreditar nas traduções ocidentais, já que, antes deste Janeiro, nunca tinha sido exibido em Portugal. Realizou-o um certo Ivan Pyriev (1901-1968) em 1944, ou seja, há 60 anos. Passou num ciclo que a Cinemateca está a finalizar, dedicado aos gelos e degelos do cinema soviético entre 1926 e 1968. Ou seja, a filmes que ou foram proibidos pela censura estalinista e dos camaradas que se seguiram, ou a filmes que foram mudados de cabo a rabo pelas mesmas censuras (em certos casos, por várias vezes e com cortes diferentes) ou a filmes que, pelo contrário, de tão perto seguiram a linha oficial que o tempo os tornou inacreditáveis e ainda mais reflectores que as obras tesouradas.
Quando se programam ciclos destes há riscos vários. Os mais ingénuos ou os mais distraídos acreditam que vão ver filmes de resistentes, que heroicamente denunciaram Estaline nos anos 30, 40 ou 50, Krustchev nos anos 50 e 60, ou Brejnev nos anos 60. Basta pensar duas vezes para perceber que filmes desses jamais podiam ter existido na União Soviética. Quem pensasse em filmar um plano sequer de crítica explícita ou implícita já estava na Sibéria (na melhor das hipóteses) antes de pegar na câmara. O que foi proibido ou censurado foi-o por razões circunstanciais, na maior parte dos casos difíceis de detectar a esta distância temporal e sabendo-se o que se sabe hoje. Aprende-se mais com os ortodoxos do que com os humilhados e ofendidos. Pyriev era desses ortodoxos. Um labrego segundo os amigos, mas um labrego com talento, que sabia do ofício, o poder prezou e o público - que-tem-sempre-razão - adorou. Vários filmes dele foram sucessos colossais na URSS, com muitos milhões de espectadores, coisa de povoar os sonhos dos gémeos lusos do século XXI. "Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra" foi um dos maiores. Filmado em 44 - em plena guerra e não depois dela -, conta a história de um bravo soldado russo (no cinema soviético, todos os soldados são bravos) que se apaixona por uma corajosa enfermeira (no cinema soviético, todas as enfermeiras são corajosas). Encontram-se por aqui e por acolá, cantam muito, na boa tradição do musical e, lá para o meio do filme, combinam casório para o fim da guerra. No dia desse fim, marcam encontro numa ponte de Moscovo, às seis da tarde. Mas eis que o soldado fica sem uma perna em combate. Como alma nobre que era, decide que não vai impor um inválido à bela enfermeira. Um amigo que lhe vá explicar que ele morreu, que ela não pense mais nele. Mas os amigos são para as ocasiões. A meio da piedosa mentira, o portador da má nova arrepende-se do que está a mentir. Conta-lhe a verdade e a rapariga corre para o hospital, para lhe jurar que não é perna a mais perna a menos que a aquece ou arrefece. Chegou a tempo. O soldado pensou melhor e achou-se egoísta, individualista e pequeno-burguês. Repetem a jura anterior. Só que, depois, é a rapariga quem apanha com um estilhaço e o espectador é levado a crer que ela morreu. O soldado nada sabe. E, às seis da tarde, no dia do fim da guerra, lá está na ponte, à espera da noiva. Passam as 6, passam as 7 e nem novas nem mandados. Mas filmes destes, a leste como a oeste, fizeram-se para acabar bem. Quando protagonista e espectadores já desesperam, a moça, supõe-se que incólume, aparece-lhe e lá vem o abraço e beijo finais. É evidente (até por este resumo o é, quanto mais pela visão do filme) que Pyriev viu muito cinema americano. Concretamente viu "Love Affair" de McCarey (1939), obra que, mai-lo seu "remake", "An Affair to Remember" do mesmo McCarey, e mai-los "remakes" feitos depois desse, suponho conhecida pela maioria dos meus leitores, Charles Boyer (ou Cary Grant) a combinar encontros no Empire State Building, com Irene Dunne (ou Deborah Kerr) a ser atropelada, a ficar paraplégica e a decidir desaparecer para não estragar a vida ao amado.
"Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra" é uma variação sobre o mesmo tema, história de azares e de sortes.
 
3 - Mas não é isso que me embasbacou. Não precisei de chegar a esta idade para saber como o longo braço de Hollywood chegou até ao país dos comunistas e como os filmes mais exaltadores da glória do proletariado seguiram receitas capitalistas, disfarçadas com temperos locais. O que é inédito é que, em 1944, quando ainda havia tropas alemãs em território russo e o desfecho embora previsível não fosse ainda de favas contadas, Pyriev não tenha hesitado em figurar o dia V, como se todo consumado fosse.
Eu sei que não faltam na história do cinema (até na história do cinema soviético) representações de futuros longínquos, isso a que se costuma chamar "ficção científica". Eu sei que ficções do real ou com o real foram o pão-nosso de cada dia. Mas nenhum filme ocidental, dos anos da guerra, ousou jamais mostrar o fim, antes de o fim chegar, ou deu dois passos em frente para olhar do futuro vitorioso o passado sangrento. Também nunca houve - nem nos mais delirantes filmes de propaganda anticomunista - representações da queda do Kremlin ou da queda do Muro. Neste caso, Pyriev não hesitou. Em 44, mostrou 45, na guerra mostrou a paz. Há quem diga que o fez para dilatar a crença de que o dia da vitória estava próximo. Afinal de contas, a "Marselhesa" ("le jour de gloire est arrivé") tanto se cantou no início das grandes guerras como no fim delas. E, como Pyriev até nem se enganou muito (a Alemanha rendeu-se um ano depois da estreia do filme), podemos absolvê-lo dessa antecipação pela premonição. Porque é que eu fiquei tão embasbacado?
 
4 - Precisamente, como já disse, por essa sequência final. Séculos de cinema (passe o exagero) habituaram-nos a ver, documental ou ficcionada mente, o dia da Vitória como um dia de multidões transbordantes, enchendo as ruas, com soldados e paisanos abraçando-se furiosamente, num 25 de Abril em tamanho sobrenatural. A tamanha festa e a tamanha alegria. Tudo o que simbolicamente foi captado na lendária fotografia que deu volta ao mundo do marinheiro e da rapariga em abraço tremendo. Pyriev, em 44, não tinha milhares de figurantes nem podia filmar nas ruas de Moscovo. Que fez ele? Construiu uns "décors" com a ponte tão citada no filme, ao fundo da qual uma transparência dava a sugestão do Kremlin, iluminado por holofotes. Agarrou em duas dezenas de figurantes, de ambos os sexos, e pô-los a passear de braço dado pela dita ponte. Casais jovens, casais de meia-idade, como domingueiros, como se andassem por ali a ver as vistas. Em primeiro plano, o herói da perna de pau, muito sozinho e muito ansioso. Nalguns cantos, outros vultos solitários, ora de mulher, ora de homem. À vez, vinham chegando os pares esperados pelos ditos cujos. Abraços e beijos e lá iam a passear, juntando-se aos outros. Até que só ficava sozinho o protagonista. Caía a noite e os casais iam para a noite deles, sempre vagarosos e emburguesados, com passos de um coro de ópera convencional, mais se assemelhando a espectros do que a humanos. E, quando por fim chegava a enfermeira, o abraço era tão púdico e tão desengraçado como só o cinema soviético filmou abraços e beijos. Mas tratava-se da girândola final. Pyriev não o esqueceu e, para a sublinha, guardou para esse momento uma largada de fogo-de-artifício digna da festa da Senhora dos Remédios em Forno de Algodres, sem desprimor para a Senhora e para o forno. Na banda sonora, muitos bum-bum-bum. Até encadear com a palavra fim. E é essa sequência que não deixa de me perseguir desde o dia 7 de Janeiro. No país do "socialismo", na "pátria do povo", na terra dos sovietes, o fim da guerra foi celebrado por antecipação, sem povo, sem operários, sem camponeses, sem massas, sem qualquer desordem, sem qualquer alegria, a não ser a alegria breve de uns casais de namorados. Moscovo é uma cidade fantasmagórica, inexistente para aquém e para além da ponte sombria e soturna. Ou seja, Pyriev imaginou tudo menos uma real festa popular. É totalmente surrealista, no sentido pejorativo da palavra. Fez frio e medo. Muito frio e muito medo. Mas, pensando bem, talvez esteja certo. Para voltar a Cesariny e ao surrealismo, na verdadeira acepção da palavra: "Porque é que a enfermeira compra do Alves Redol quando está a pensar nas pernas e no peito do louro galã?" E nem sequer nisso pode mostrar que pensa. Na URSS, qualquer festa espontânea era espontaneamente inimaginável.
16 de Dezembro 2004 Público

A VIDA DOS LIVROS

de 22 a 28 de Fevereiro de 2010

Santo Agostinho de Hipona é uma referência inesgotável pela riqueza da sua experiência e do seu testemunho. O percurso teológico do actual Papa está marcado por esse exemplo, e a concha que se encontra nas suas armas pastorais invoca expressamente o autor das “Confissões”. No excelente livro recentemente publicado pela editora Pedra Angular, da autoria do Padre Henrique Noronha Galvão, intitulado “Bento XVI – Um Pensamento para o nosso tempo” (2009), encontramos, aliás, a recordação da origem da imagem da concha como símbolo da “humilde persistência”.
 


Santo Agostinho de Hipona

 

HUMILDE PERSISTÊNCIA
“A história é conhecida. Passeando à beira-mar, ao mesmo tempo que meditava no mistério trinitário de Deus, Agostinho divisa uma criança que, com uma concha, vai buscar água ao mar e a deita numa pequena cova na areia. Agostinho pergunta-lhe o que está a fazer, ao que a criança responde que quer meter todo o mar naquela cova. O Bispo explica-lhe que isso é totalmente impossível. Ao que a criança responde ser precisamente isso que Agostinho tenta fazer, quando quer abarcar com a sua limitada inteligência o incomensurável mistério do Deus trinitário”. O livro sobre o pensamento do Papa é um documento importante, pela clareza expositiva, pela riqueza formativa, num campo infelizmente tão descurado por muitos leigos católicos, com é o da teologia, e pela abertura de espírito que incentiva. E se é certo que a obra nos introduz na compreensão de um pensamento, a verdade é que o faz também através de uma excelente introdução geral ao moderno pensamento teológico. Trata, assim, sucessivamente da renovação teológica contemporânea, do pensamento de Joseph Ratzinger e do seu percurso teológico (desde o Bispo de Hipona à eclesiologia, bem como a teologia da História em São Boaventura e no tempo presente) e da actualidade de Santo Agostinho (na tocante última lição na Faculdade de Teologia da autoria do Prof. Noronha Galvão). A cada passo encontramos a fé e a razão em diálogo intenso, numa lógica aberta e positiva, como modo de afirmação da universalidade da dignidade humana – e, a partir daí, igualmente, como expressão dos modernos sinais dos tempos.

 

REVISITAR O CONCÍLIO
Estamos, aliás, perante o desafio de revisitar o acontecimento fundamental do catolicismo do século XX que foi o Concílio Ecuménico Vaticano II, a fim de entendermos a exigência de uma renovação mobilizadora da Igreja moderna. Grandes teólogos merecem ser recordados, lidos e seguidos. Henri de Lubac SJ, Yves Congar OP, Marie-Dominique Chenu OP, Karl Rahner SJ, Hans Urs von Balthasar, Johann Baptist Metz têm de voltar à ordem do dia e as suas luminosas reflexões merecem a nossa especial atenção. E os dois pólos entre os quais se processa grande parte da discussão teológica actual devem ser compreendidos e aprofundados: enquanto Karl Rahner contempla o “mistério da revelação e comunicação de Deus ao homem numa perspectiva transcendental, em que as realidades da história da salvação são vistas como concretizações categoriais de um desígnio divino que é o seu horizonte justificativo”; Hans Urs von Balthasar “sublinha o peso da história na sua singularidade como lugar em que se dá a epifania da glória de Deus, a qual acontece na figura concreta (…) em que se torna presente ao mundo a sua revelação”. Ao longo da obra, encontramos o pensamento de Bento XVI inserido no pensamento contemporâneo, ressaltando que fé e razão permanentemente se completam, num desafio que procura aproximar a antiga vocação europeia do “Aufklärung” das raízes cristãs – devendo a história humana tornar-se “resposta necessária e livre à livre necessidade e à necessária liberdade de ser do homem”. E deste modo, como afirma o discípulo português de Ratzinger, “a fé, para além do que tem de específico, possui ainda a capacidade de abrir o espírito humano àquela visão da verdade a que a nossa razão, por si mesma, pode ter acesso”.

 

UM HUMANISMO UNIVERSALISTA
Para nós portugueses, é especialmente interessante ver, a propósito do pensamento de São Boaventura, a recordação do franciscanismo universalista, que tão grande presença tem na nossa cultura, na linha do monge calabrês Joaquim de Fiore e de S. Francisco de Assis, temperado pelo poderoso contributo teológico de Santo António de Lisboa, formado na escola dos Agostinhos de Santa Cruz de Coimbra, o qual, por sua vez, se repercutirá no pensamento seiscentista do Padre António Vieira, e na concepção de “Quinto Império”. Afinal, o agostinismo franciscano faz parte do código genético da nossa cultura e do humanismo universalista de que falava Jaime Cortesão, e que levámos mundo afora. E aqui se conciliam a visão da história circular da antiguidade e a figura linear bíblico-cristã em que tudo se ordena para a plenitude final – propondo Ratzinger a figura da espiral, num permanente movimento ascendente, no qual “tudo o que sobe converge”. Não sendo possível em poucas linhas abarcar a riqueza da obra, deixo apenas, a terminar, duas ou três notas, a começar na pequena história que o Papa costumava contar no seu magistério teológico sobre “Joãozinho à procura de felicidade” (Hans im Glück): “Tendo-se visto na posse de uma pepita de ouro, Hans acha que é demasiado incómodo transportá-la, decidindo trocá-la primeiro por um cavalo, e sucedendo-se, depois, a troca deste por uma vaca, desta por um ganso, e, finalmente, do ganso por uma pedra de afiar, a qual Hans acaba por lançar à água, sem a noção de, com isso, ter perdido grande coisa. Pelo contrário, pensa ter ganhado assim o inestimável dom de uma total liberdade. A estória deixa à fantasia do leitor imaginar por quanto tempo durou esse estonteamento de Hans e como foi para ele sombrio o momento em que acordou da sua ilusão de uma suposta liberdade”… Afinal, o que vale verdadeiramente não tem preço, e a liberdade não pode deixar de ser exercida nas condições concretas da vida e na ponderação dos valores que estão em causa, a começar pelo respeito pelos outros.

 

SER, CONHECER E AMAR
“Na tríade agostiniana, o amor é a verdadeira realização do querer. Se Deus é ser, conhecer, querer, ou, dito de outra maneira, essentia, notitia, amor, é no amor, na caridade, na agápe, que o ser revela a sua verdade. Ser, conhecer e amar não podem ser vistos como grandezas isoladas, mas implicando-se mutuamente…”. Na expressão do próprio Joseph Ratzinger “o logos de Deus é agápe”. O Deus da fé e o Deus da filosofia encontram-se assim e separam-se. “Se tomarmos a concepção estóica da theologia naturalis (theologia fysikê, em grego), ou seja a que afirmava a verdade da natureza de Deus, verificamos que ela se inseria numa tríade a que pertenciam igualmente a theologia mythica (theologia mytiké) e a theologia civilis (theologia politiké)”.Ora, segundo nos explica Ratzinger, a teorização dos três tipos de teologia foi feita por Varrão (Marcus Terentius Varro), o mesmo a que Séneca chamou “doctissimus Romanorum”. Para Varrão, Deus é “a alma que governa o mundo através do movimento e da razão”. Assim, verdade e religião, entendimento racional e ordem cultual são diferentes – daí a distinção entre os teólogos da teologia natural, que são filósofos que procuram pelo pensamento a verdade e a realidade, os teólogos da teologia mítica, que são os poetas que cantam aos deuses e os teólogos da teologia civil são os povos, que também adoptam a visão dos poetas. E aqui o “Aufklärung” é fundamental como esclarecimento da razão, susceptível de desmitificar a ficção dos poetas e os costumes da cidade. É a teologia natural que permite que a fé seja temperada pela razão, não se atendo às fábulas e aos costumes. O prólogo do Evangelho de S. João clarifica-o – afirmando que o Logos ou o Verbo incarnou em Jesus Cristo. “Esta convergência entre revelação e razão serve, assim, à apologética de uma fé que, em face da razão, não pretende contrariar o seu conhecimento, mas levá-lo à plenitude, não sem o ter purificado dos erros em que uma razão debilitada pelo pecado pode incorrer e de facto incorre” (no dizer do Padre Noronha Galvão). As realidades física, lógica e ética, em que Santo Agostinho se baseia, revelam que, em Deus, o ser eterno está implicado na verdade, a verdade está implicada na caridade e a caridade está implicada na eternidade (por isso, no êxtase descrito em “Confissões”, se diz “o aeterna veritas et vera caritas et cara aeternitas”.        

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões na Renascença

 

CULTURA HOJE

 

Pedro Tamen - O livro do sapateiro
por Teresa Vieira

Eu diria que se escreveu como se já não houvesse tempo para as razões, mas a escrita faz um desafio e agarra pelos olhos as tais cores do tudo que perduram no livro do sapateiro.

Nota-se que o sapateiro segue a analogia dos dedos que fizeram irmãos em livro anterior, diria até que a mão direita do sapateiro, sabendo ou não, foi aceitando um acocorar dos tempos, sobretudo quando eles nem concluíram a cena-vida, nem apenas a ela lhe chamaram solidão.

No tempo 4 o livro do sapateiro recorre a uma luz de tempo antigo como se o tempo novo não coasse os saberes por filtro anterior. Assim somos levados a concluir que em muitas horas não se descortinou o que foi a interpretação do que transporta e move o sapateiro e o sapato e que é precisamente esse tempo do transportar o que afinal lhe resta descobrir.

Neste tempo, sapateiro e sapato comungam a opinião de que o comércio dos saberes e dos sentires é afinal merceeiro, tão merceeiro que o cheiro do vinagre surge ao sapateiro com a utilidade de entender a vida na sua metade e não pela metade no sentido de amputada. Antes nos surge que o sapato se fez e se faz no espaço imenso de um sopro. Assim o entendemos até ao tempo 7 deste livro.

Contudo, desafia-se o sapato e o pé, ao mesmo tempo que faz todo o sentido compreender neste livro, o dizer não digo, pois já disse, qual condenado ainda a tempo. Sempre a tempo de aceitar a condenação que rejeita.

De propósito o livro do sapateiro surge numa perfeita confusão esclarecida.

Ao tempo 12 não distingue o poeta a margem, para que não surja a ponte que afinal recusa não ter visto na hora de se fazer oferecida ao seu olhar. Era sal, talvez, ou era pão o que se viveu e se vive e no entretanto do hoje a esperança, ainda assim na mão da pele também ela acocorada, temerária e insistente até romper a juventude que lhe resta.

Sentimos uma característica clara nestes poemas: eles recusam os caminhos miméticos pois que a obra não é trabalho de encomenda, como nos aperta o tempo 19. Todavia admite-se claramente que o destino é caminho incerto, é soluço admitido, mas a vida é outra coisa: sentimos que se afirma que a vida é um regresso ao princípio. Ao princípio do dia em que não renascendo se nasce.

Para nós este é o grande sapateiro que não foge, mas aceita sem receio o castigo de um prego pelo desrespeito que anteriormente lhe prestou. Desatenções?

Há no tempo 26 diga-se, uma fisga que dispara o suicídio de muitos dias, certo de que os sapatos aguentariam caminhos diferentes ou mais arrojados. Talvez por isso a tristeza líquida do choro quando nem a fruta que cuidou o reconhece. Parece que o sapateiro poderá agora sim, estar cego. Ou poderá querer fugir do destino ao qual apela deitando mão das cerejas?

Enfim, a cave é em muito o local da vida que o sapato usa e pisa e lustra. Afinal a cave faz parte do que pertence ao poema do livro no seu todo, pois que está à frente do próprio sapateiro e não só, mas também, para que lhe recorde a pele transfigurada quando é tentada ou saudada pelas pastagens verdes do tempo 41.

Surge-nos o livro do sapateiro e nele um construir de muito fundo um alicerce ao livro todo; suporte sintético e certeiro das palavras aos dias de uma vida em muito feita, prego a prego semeando pregos, horas a fio, na obtenção de um esclarecer que clareie razões ou as justifique ou as negue.

Surge-nos este excelente livro e no qual se constrói, sem paradoxo, um único poema que se ilumina também com a infelicidade. Aqui a infelicidade é também protagonista de um especial luzimento a muita vida em que se vai polindo o próprio sol? ele que desde logo subentendido no tempo 49, não deixa de ter voz para nos dizer o quanto os últimos dias, se têm brilho, será exactamente por nunca serem os últimos, ainda que o poeta aqui e ali os queira averbar.

Porém, a verdade é que o brilho imperecível deste sapateiro de olhos molhados já se fez à estrada pelo pé do escriba.

Referimo-nos à estrada magnifica e através da qual no tempo 43 o sapato concluído enfim e até hoje, vai e irá, montes e flores onde exacto encontra a sua maneira de bambalear o caminho, aquele com que tempera a natura numa liberdade elástica exposta nas palavras eximias do tempo 36.


Teresa Vieira
Sec.XXI – Fevereiro 2010

 

A PALAVRA DE JBC

A PALAVRA DE JBC

 

O GRISÚ E OS CANIBAIS (II)

 

 
1. A 1 de Abril, prometi eu que na "próxima sexta-feira" contaria mais histórias de Júlio Verne, passando dos grisús aos canibais (PÚBLICO, 1 de Abril de 2005). Promessas de 1 de Abril, dia das mentiras? Não eram, não, embora poucos me acreditem e ainda menos me creditem, o que, às vezes, dói o seu bocado. Acontece que tropecei num regresso de Londres e fiquei impróprio para consumo durante a tal "próxima sexta-feira" e as feiras mais vizinhas dela. Donde, dois azares, já que dos ditos se diz que nunca um vem sozinho. Faltei à promessa e faltei ao PÚBLICO (qualquer dia sou demitido por absentismo); fiquei a meio da história, o que é sempre a pior coisa que pode acontecer a um contador delas.
Em semana de tantos acontecimentos, cheguei a ponderar esquecer Verne e os canibais e passar a outros temas mais candentes. Ganhou o meu lado Xerazade. O que começou tem de acabar. Esqueçam (como eu vou tentar esquecer) a semana de 4 a 9 de Abril. A "próxima sexta-feira" transfiram-na, a título póstumo, de 8 para 15. E ela aí está, se a minha Futura não se me encolher numa nega.
 
2. Se bem se lembram, a 1 de Abril eu resumi As Índias Negras, primeiro romance de Verne que me leram e eu li, como então expliquei. Pela voz da mesma Luzinha e na mesma escura sala, que dava para o pátio das traseiras do Lar Educativo João de Deus, ali na Rua Viriato, às Índias Negras sucedeu-se Em Frente da Bandeira, que não me deixou tão funda recordação. Ao que julgo recordar, era a história de um cientista dementado, de nome Thomaz Roque, que de mal com os homens e de mal com a pátria (a França) dedicava a vida ao fabrico de um explosivo potentíssimo, premonição verniana da bomba atómica. Era o "fulgurador Roque" e desse nome nunca mais me esqueci. Já não sei porque bulas o sábio erguia o seu laboratório num vulcão das Bermudas, entre piratas e outras gentes sequiosas de vingança. A notícia do perigo chegou às grandes potências e a França aparelhou uma frota para a captura do louco e seus acólitos. Demasiado tarde! O fulgurador Roque estava pronto a servir e o sábio saboreava a hora suprema em que mandaria para as profundezas a armada punitiva. Só que Roque podia estar louco, mas era francês. E, assim, o final era apoteoticamente chauvinista. Quando o cientista ia a dar ordem fatal, viu na sua frente a bandeira tricolor. "Em frente da bandeira", vacilou. Não estava tão inveterado no crime que bombardeasse o seu próprio país! Atirando ao chão o frasco do explosivo, esmigalhou-o com o tacão. Rebentou a ilha e todos quantos a habitavam, mas salvou-se a França e a humanidade.
Mas se, mesmo para os meus 9 anos, tal acesso de nacionalismo me pareceu pouco convincente, o gosto por Verne não abrandou. Foi nesse ano que devorei quase toda a obra dele. Percorri, o paralelo 37 com os filhos do Capitão Grant, reencontrei o Capitão Nemo na lagoa subterrânea de A Ilha Mysteriosa e as mesmas lágrimas que salvaram de cegueira o correio do czar, me fizeram amar acima de todos Miguel Strogoff. Acima de todos? Minto. Mais ainda que ele, amei outro russo, em que o correio era pombo e se chamou Mathias Sandorf. Lá fora, na varanda da Vila Raul, zangavam-se os crescidos, no último Verão em que a família, em acepção mais lata, coabitou nessa casa. No meu quarto, a que me acantonava o ritual da sesta, terrificavam-me tanto essas iras genéticas como a fuga de Sandorf, desescalando muralhas tão íngremes que era preciso ser ave ou demónio para dali escapar. Mas os meus favoritos (porquê o mas?) chamaram-se O Castelo dos Cárpatos e a Galera Chancellor. No Castelo dos Cárpatos nasceu o cinema como arte necrófila e como arte audiovisual. Na Galera Chancellor revelou-se o oculto Verne quase tão preverso como o gajeiro da Nau Catrineta. Como vos prometi histórias de canibais, soltem-se elas.
 
3. Chancellor (O Chancellor, apesar de ser galera) era o nome do bonito barco de novecentas toneladas, pertencente à poderosa casa Leard & Irmãos, que, a 27 de Setembro de 1869, largou da Carolina do Sul (região obcecante para Verne) com destino a Liverpool.
Era um navio "forrado e cavilhado de cobre, tabuado exterior de teka e com mastros reais, excepto o da gata, de ferro e o aparelho fixo de arame". A Veritas, ao que presumo, publicação de autoridade na matéria, classificou-o como de primeira classe. Ao sair da barra, arreou o pavilhão britânico "mas nenhum homem do mar desconheceria a sua nacionalidade. É realmente o que parece, inglês desde a linha de flutuação até ao topo dos mastros".
A bordo, sete passageiros, dezoito nautas (capitão, imediato, um oficial, um mestre e catorze marinheiros, todos ingleses ou escoceses), um dispenseiro e um cozinheiro preto. Os passageiros eram um casal americano de Buffalo, uma jovem e bela inglesa, "a criada grave" da americana, um engenheiro de Manchester, um negociante de Cardiff, dois franceses, pai e filho, residentes no Havre e um tal J. B. Kazallon, cuja maior importância provém de ser ele o autor do diário que entre Setembro de 1869 e Janeiro de 1870 fixou as desditas do Chancellor. Porque este é um dos raros romances de Verne (só me lembro de outro mais) escritos na primeira pessoa, ou seja, em que existe uma "voz off" que é a voz de Kazallon. O narrador também é inglês (de Londres) mas não será inocente que neste "filme de terror" quase todos os personagens sejam sinistros, à excepção dos dois franceses, da tal "criada grave", do imediato, e, obviamente, do narrador.
Segundo as boas regras, tudo começa sob os melhores auspícios. Mas, ao fim de pouco tempo, destaca-se, pelo comportamento bizarro, o capitão que impõe à galera inexplicável rumo. Felizmente, o homem descobre a tempo a sua impotênciae delega funções no imediato, que será o grande herói da fita. Só que já se perderam bastantes dias e, naquelas paragens, há um tempo para o mar e um tempo para a terra.
Rapidamente, nova desgraça: fogo a bordo, na carga de algodão. O imediato consegue manter segredo (só descoberto pelo narrador e poucos mais). Até que um dia, este (o narrador) surpreende uma conversa do negociante de Cardiff com o engenheiro de Manchester, em que o primeiro diz ao segundo que meteu clandestinamente na bagagem um boião com cerca de trinta libras de picrato de potássio, danado explosivo.
"Infame! Pois não sabe que temos fogo a bordo?", ruge Kazallon. O pânico espalha-se, o negociante enlouquece e acaba por se atirar borda fora e toda a gente espera ver a galera explodir, quando uma tempestade a atira contra uns rochedos. Males que vêm por bem. Os rombos no casco deixam que o mar apague o fogo que, por milagre, não chegara ao boião. Mas impedem o barco de continuar viagem. Alguns cobardes (cinco, incluíndo o ex-capitão e o americano de Buffalo) roubam o salva-vidas e poêm-se a milhas. "Cinco salvos", diz o mestre. "Cinco perdidos", responde com mais sabedoria um velho marinheiro irlandês.
Lá fazem das fraquezas forças e constroem nova jangada, enquanto mais três marinheiros morrem e morre também a velha americana, abandonada pelo marido. Dos vinte e sete ficaram dezoito para um terrível mês de Dezembro, em que a jangada foi parar à zona das tempestades, assim chamada porque "observador de ouvido fino sentirá continuamente o estrondear do trovão". Falta comida, falta de água. Deitaram sola de molho, mas a sola era tão rija que não a podiam tragar. Um dia morre mais um marinheiro. Quando o atiram ao mar, já lhe falta um pé, que foi servir de isco para a pesca. Com outro morto fazem-se menos cerimónias. Só não foi comido todo, em bródio de gáudio, porque o jovem francês, horrorizado, atirou ao mar, durante a noite, o que sobejara do manjar de um dia.
"É mister" (espantosa expressão que cada passo se encontra na tradução de Marianno Cyrillo de Carvalho que é a minha deste livro) é mister, dizia eu, que, aqui chegado, vos tenha que contar uma ou duas coisas sobre os tais franceses. O pai, Letourneur, homem de cinquenta anos, é a honestidade em pessoa. Fere-o, porém, mágoa máxima. O filho, André, nasceu aleijado de um parto em que lhe morrera a mulher. Desde aí, vive para André, que educou, com quem viaja e que acima de tudo protege. André, vinte e pouco anos, herdou as virtudes morais do pai, mas fisicamente de poucos préstimos é.
Volto ao meu conto. Felizmente, entre a marujada esfaimada, ninguém se apercebeu que fora André a atirar aos peixes os restos do cadáver. Mas pressentindo que o acto veio de um "civilizado" querem vingança de classe. "Capitão, em que dia tiraremos à sorte?"
O dia chegou a 26 de janeiro, quando já só restavam onze dos náugrafos. O narrador só no fim percebeu porque é que o honrado Letourneur se ofereceu para a "tarefa sinistra". Ao nono nome disse: "Letourneur". "Qual? perguntou o mestre. André! responde o pai. Ouve-se um grito. André cai desmaiado - Avia-te! exclama rugindo o carpinteiro Daoulas cujo o nome e o de Letourneur são os únicos restantes no chapéo, tira o penúltimo bilhete e, sem que a voz lhe trema, com uma firmeza que não era de esperar d'aquelle velho, pronuncia esta última palavra: Daoulas!" A seguir, rasgou sem ler o último bilhete. Mas o narradorconsegue apanhar um bocadinho onde lê: "And...". "O pai sacrificou-se pelo filho, e não possuindo mais que a vida para lhe dar, deu-lhe a vida." Chega o clímax. O velho Letourneur ainda propõe aos algozes um negócio. Para dez, o corpo dele é mais que suficiente. Contentem-se hoje com os meus dois braços e amanhã comam-me o resto. O negócio é aceite, mas o capitão e o narrador não suportam tanto. Atiram-se aos outros que, por sua vez, os atiram borda fora. E é quando o narrador engole a água que descobre que esta é doce e que, sem o saberem, navegavam há dias no Amazonas, "único rio de corrente tão abundante e impetuosa que repelle a água do mar até vinte milhas da foz! À noite, a galera Chancellor estava em terra a varar. Assim me despeço das índias mais negras de Júlio Verne, dito escritor para jovens e para a boa edificação destes. Porquê? Acham que não foi?
 
15 de Abril 2005 in PÚBLICO

A VIDA DOS LIVROS

de 15 a 21 de Fevereiro de 2010
 
Há livros que nos permitem compreender melhor o que nos rodeia, apenas pelo facto de procurarem ver o outro lado das coisas, ao invés dos lugares comuns, que surgem repetidos, sobretudo em momentos de crise como o que atravessamos. Eleanor Roosevelt disse um dia que “as grandes cabeças pensam ideias, as cabeças médias acontecimentos e as cabeças pequenas discutem pessoas”. A afirmação é bem certeira, e num momento de míngua de debate sobre ideias e convicções, é salutar encontrar quem se preocupe com as ideias e os ideais, procurando ver para além do imediato e das discussões fulanizadas. Num braçado de livros que José Tolentino Mendonça me fez chegar, parte substancial dos quais editados pela “Pedra Angular” dei-me há dias a ler ou a reler (uma vez que parte dos textos já os conhecia), com grande prazer e proveito intelectual, “O Peixe Amarelo – Pistas para um Mundo Melhor”, de João Wengorovius Meneses (2009). E senti que tudo junto, agora, fazia mais sentido. Longe da tentação da procura do melhor dos mundos, deparei com a busca comedida, mas ambiciosa, do “mundo melhor”, a partir da economia solidária. E posso dizer que estava bem embalado para esta leitura, já que, desse benfazejo braçado, tinha acabado de ler “Ouvi do Vento” de Manuela Silva, onde se sente a escuta do espírito que incansavelmente nos atrai para as paisagens dos valores universais da verdade, da justiça, da beleza e do bem.
 
 
Marta Wengorovius
 
OS PEIXES DE HERBERTO HELDER
O jovem autor de “O Peixe Amarelo” prendeu-me ao livro desde a primeira linha, pela determinação, pelo método, pela frescura e pela inteligência. E eu, ao (re)ler os textos, percebi que, depois de dois ou três anos, ganharam maior pertinência. Após o rebentar da bolha imobiliária e do “crash” de Outubro de 2008, as considerações e os comentários ganham uma novíssima actualidade. E começo por falar do título, muito bem caçado, que João Wengorovius Menezes foi buscar a Herberto Hélder. Era um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. O artista estava a pintar o peixe, mas foi surpreendido por uma súbita mudança de cor do bicho. De súbito, o peixe tornara-se negro, e o pintor foi obrigado a interromper a obra, já que o preto lhe colocava o problema de formar a “insídia do real”, abrindo um estranho abismo. E assim, o pintor percebeu que o peixe mostrava que apenas existia uma lei – e essa era a lei da metamorfose. “E compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo”. A escolha do título do livro não é inocente, usa, afinal, uma metáfora sobre a atitude de que depende o futuro. E, por mim, lembrei-me do texto que Edgar Morin assinou em “Le Monde”, há dias, sobre tão curioso tema: “Quando um sistema é incapaz de tratar os seus problemas vitais, degrada-se, desintegra-se, ou então é capaz de suscitar um meta-sistema para tratar dos seus problemas, metamorfoseando-se”. E acrescentava, ciente de que a metamorfose é mais poderosa do que todas as revoluções, que “a esperança verdadeira sabe que não é certeza. Trata-se da esperança não no melhor dos mundos, mas num mundo melhor. A origem está diante de nós, como dizia Heidegger. A metamorfose será efectivamente uma nova origem”. Afinal, num tempo de “caos e complexidade”, e num mundo global, marcado pelo risco e pela mudança, “o conhecimento e a inovação são as alavancas do futuro”. Esta nova geração (agora com trinta anos), de “pragmatopians”, combina o idealismo e o pragmatismo, recebeu da Internet e da comunicação global a noção de cidadania global, “mantendo viva a ousadia da esperança e o atrevimento da utopia, assentes na racionalidade do possível”.
 
CINCO PISTAS LANÇADAS
O livro começa por pistas lançadas por cinco personalidades preocupadas com o debate de ideias e com o futuro. Daí se seguem as reflexões do autor. António Câmara fala do combate ao insucesso escolar, como “a batalha decisiva a vencer”, na “inteligência colectiva, expressa na agregação de propostas individuais, a explorar na transformação de cidades, regiões e países” e lança um grito de alarme sobre a água (“devemos optar por soluções distribuídas de poupança e reciclagem da água”). Carlos Zorrinho afirma que todos devem aceder aos saberes, às competências e aos “recursos necessários para definir com dignidade e liberdade o seu projecto de vida”, defendendo “um mundo multilateral em rede, em que todas as partes são críticas e nenhum país ou território é descartável ou meramente supletivo”. Daí falar de uma “nação-rede” e das suas potencialidades. Diogo Vasconcelos diz que “as tecnologias de informação e comunicação permitirão mais eficiência energética nos transportes, nos edifícios e nas indústrias, revelando-se essenciais para o combate às alterações climáticas e para a promoção da sustentabilidade ambiental. As redes abrirão caminho a formas mais sustentáveis de trabalhar, de aprender, de urbanizar e de comunicar”. Geoff Mulgan (do círculo de Tony Blair) refere a necessidade de investir, para além da ciência e da tecnologia, em mudança social, cidades e vilas experimentais, zonas e laboratórios para novas formas de vida, que permitam compreender na prática como cidades diversas podem coexistir, como uma população envelhecida pode responder aos novos desafios ou como sociedades saudáveis podem reduzir a sua pegada ecológica. No fundo, é preciso ter mais investimentos sociais, por uma questão de sobrevivência, com capital necessário para as organizações não governamentais, empresas e empreendedores sociais. “Em vez de sermos e de nos vermos como 1’s, devemos pensar em nós mesmos como 1+1 e 1+1+1” Precisamos, afinal, de acrescentar 1 por cento à parcela dos grandes fluxos financeiros dedicados a criar um futuro melhor e a desenvolver um sistema de educação que ensine. Por fim, Rogério Roque Amaro propõe: que se supere a visão antropocêntrica da vida, substituindo-a por uma óptica ecocêntrica da História, da vida, do Planeta e dos processos de interacção na sociedade e na natureza; que seja assumida uma “solidariedade sistémica” (ambiental, cultural, territorial, e de fundamentação científica) e uma cidadania ecológica; que se siga uma “hermenêutica distópica”, assente na percepção da importância e da perspectiva de um outro e da existência de qualquer outro. Seria, deste modo, necessário (re)descobrir, valorizar e compreender a pluralidade de formas de economia, nomeadamente contemplando a “economia da reciprocidade não equivalente” (com importância efectiva atribuída à entre-ajuda) e a economia doméstica.
 
QUE DESAFIOS?
A partir destes desafios, João Wengorovius Meneses realça a importância do terceiro sector (da iniciativa solidária), ao qual faltam líderes, ambição e inovação, ao qual faltam profissionalismo na gestão, instituições representativas, dinâmicas e competentes… E põe o dedo na ferida das questões incómodas num tempo de tomada de consciência sobre a crise. Será a pobreza uma fatalidade? A que se deve? Será erradicável? Como?... “Afinal (diz-nos o autor) depende apenas de haver vontade colectiva para elevar a dignidade humana a um novo patamar – não foi assim com a escravatura?”. Ghandi proclamava: “sê a mudança que desejas”, e esse é o método do movimento “We Are What We Do”, cujas propostas são apenas de bom senso. Lembramo-nos nos anos sessenta e setenta de “Rules for Radicals” de Saul Alinsky… Mas vejamos algumas dessas propostas, lembradas pelo autor que nos ocupa: “recusar os sacos de plástico, sempre que possível, lavar os dentes com a torneira fechada, sorrir, reciclar os tinteiros da impressora, ter boas maneiras, reciclar o papel usado, ver menos televisão, calcular a nossa pegada ecológica, fotocopiar em ambos os lados, plantar uma árvore, desligar as luzes desnecessárias, não comer pastilhas elásticas, dar sangue, comprar em lojas de comércio justo, lembrar-se dos nomes das pessoas, associar-se a uma ONG, preferir as escadas, sair do emprego a horas uma vez por semana, não aspirar a ter mais, mas a ser mais, ler uma estória a uma criança, entre oitenta outras…”. E não diz o célebre ditado queniano: “não herdaste a terra dos teus pais, ela foi-te emprestada pelos teus filhos”?
A mudança é, assim, uma questão de vontade, o activismo e o voluntariado são meios para a formação completa de uma geração, percebendo-se que, no sector social, a cooperação gera mais valor do que a competição, ao contrário do que se tem suposto no últimos vinte anos, contra tudo e todos. E as pessoas têm de se mobilizar, num compromisso fecundo. Razão tinha António Guterres, como lembra João W. Meneses, em alertar para a tentação de quem faz política “de amar tanto a humanidade que se esquece de amar as pessoas concretas”. Precisamos, afinal, de abrir canais de escuta da sociedade civil e dos cidadãos em geral. E como Giddens ou a Fabian Society têm dito, o futuro da democracia depende de uma profunda cultura cívica. Leia-se e releia-se “O Peixe Amarelo”. (Publicado no J.L., 10 de Fevereiro de 2010 – o título correcto deveria ser “Melhor é Possível”). 
Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões na Renascença

 

CULTURA HOJE

 

BARCAROLA PARA UM PINTOR
 
     Passaram dez anos sobre a morte de António Palolo - 29 de Janeiro de 2000. (Nasceu em Évora, em 5 de julho de 1946.) Pedem-me para evocar o João - os mais íntimos trataram-no sempre pelo primeiro dos seus nomes -, com quem tanto aprendi e com quem largamente convivi. É como se me pusesse a mexer numa ferida, depois de reerguer a crosta de sangue que há muito deixara sobre a pele e que se transformou numa leve mancha. E de novo fazer surgir o movimento de toda a sua arte. Um tempo em forma de polifonia de cor. Desde o seu início de repente se inscreve, como secção principal, o enlevo lento de mínimas cores, suaves geometrias. Toda a sua obra (pictórica e fílmica) guarda uma energia e uma exuberância de elementos contrastantes, que sempre encontraremos em permanente renovação.
 
 
     É comum ligarem-no a um conjunto de pintores seus contemporâneos em Évora. Todos mais velhos. Admito que o seu convívio tenha sido importante, mas não ao ponto de terem sido fonte de aprendizagem e informação. Apenas de convívio, numa cidade opressora no seu viver quotidiano, fechada, classista e provinciana. De todos com quem conviveu nos seus anos de rapaz, sempre me disse considerar Joaquim Bravo de um modo particular. Nos meus contactos com Bravo, sempre vi neste um respeito de camaradagem e uma atenção mais de discípulo para mestre, do que sinal contrário. Mas nesta relação entraria, de certo, a delicadeza de que se revestia a amizade de ambos. Palolo foi entre nós um caso, não digo que único, mas bem raro, de aprendizagem a partir de si mesmo, numa captação directa do mundo da imagem. De início, o entusiasmo que encontrou nos poucos livros sobre arte que o pai possuía ou nas aulas de desenho dos primeiros anos do ensino técnico. Depois, um impulso único para prender à sua sensibilidade o desenho do mundo. Uma intuição — quase do nada, senão mesmo do nada, pois de muito pouco terá sido —, de resquícios de imagens, tê-lo-á levado aos primeiros desenhos, nos começos dos anos 60. Submergir num espaço de ficção imagética a que não seria estranha a visualização da banda-desenhada e uma entrada fulgurante, a partir desta, no universo co-existente da Pop Art. E, posteriormente, uma partida para a contemporaneidade da arte mundial.
 
 
     Em dezembro de 2009, o então director do Museu de Évora, Joaquim de Oliveira Caetano, mostrou-me uma fotografia, que tinha no seu gabinete. «Sabes quem é este miúdo?» Perguntou-me.
     Era uma fotografia de uma visita oficial, com a gente soturna dos anos 50. Pelos fins de 50. «Não.» E fiquei a olhar para aqueles homens de estado, onde acabei por reconhecer o Dr. Azeredo Perdigão. Quanto ao rapazinho, que se encontrava no meio, coisa alguma me levou a reconhecê-lo. De configuração nervosa, rosto inteligente, sorriso tímido e feliz. Óculos que revelavam uma miopia aos 10, 11 anos. Tinha umas mãos bonitas. Era um menino. Não estava a perceber porque motivo, tão à queima roupa, teria de reconhecer aquele rapaz. «Não, não sei quem é.»
     «É o Palolo. Numa visita a Évora, Azeredo Perdigão acabara de lhe comprar um desenho.» Provavelmente o que importaria sublinhar na fotografia seria o gesto, apesar da soturnidade dos anos 50, o presidente da única instituição cultural do país com carácter de continuidade reparou no trabalho de um miúdo e comprou-lho. Fá-lo-ia hoje alguém em idêntica posição, rodeado de um ambiente ilusoriamente bem menos taciturno? Deixemos a pergunta sem resposta. Palolo, que tratava quase todos os amigos por você, havia de tirar esta fotografia das mãos de Joaquim Oliveira Caetano, com um «Deixe-me ver» e ficaria a olhar para os seus tempos de quase infância, num misto de «Emílio» de Rousseau e de «Robinson» de Defoe. Aquele rapaz, ele próprio, havia de lhe falar com claridade — a claridade com que sempre pintou —, da memória das coisas. Da memória das cores que começou a encontrar por esses anos juvenis no grande livro da natureza. Da memória que espreitava por detrás das lentes, no olhar arguto, que lhe diria, se acaso o visse desde a distância: «Toma as cores nos teus sentidos e de seguida terás o desenho da cor.» Também António Palolo, que cresceu em Évora, o vejo como Robinson Crusoe. A sua história é a de um homem que criou o seu próprio mundo na arte sem ajuda de nada. (Dir-me-ão que não: um ou outro galerista, um ou outro amigo. É mentira. A ele chegaram de facto. A ele chegaram porque a sua arte era muito grande e já existia quer em acto quer em potência antes da interferência, e por vezes tão negativa, de qualquer. E foi a sua existência, no desenvolvimento da sua arte, quem de facto os ajudou; e não o contrário.) Évora foi para Palolo a ilha deserta de Robinson. De onde partiu para a sua vida de aventura, fértil de estímulo interior. De onde partiu para correr o seu caminho, fechado na singularidade da sua própria força.
     Depois de ter visto aquela fotografia passei ao terraço do Museu. Duvido que alguma vez Palolo tivesse tido aquele confronto tão próximo e tão cimeiro com as alturas da Sé. Era um fim de tarde de dezembro, de neblina; e a torre lanterna, quase ao tocar da minha mão. Tão próxima, quase, como a imagem daquele menino pintor que me fora mostrado. Estava por de cima da planície eborense, sobre a sua cidade, pela qual Palolo tinha mais desprezo do que amor, apesar da extensão, do silêncio da terra e das pedras de sacrifício que se elevavam no vazio dos campos que, de facto, a esses, sempre quis. Évora foi para ele, como sempre me disse, uma cidade morta, um chão de mortos. Onde acabou por repousar. Enquanto estive ali, naquele reduzido plaino do terraço do Museu, senti-o próximo, senti a sua mão apertar o meu braço. E as gralhas, em voo curto, entre os pináculos da torre lanterna, gritavam ao nevoeiro que descia a dor e a alegria da sua arte. Com emoção e suavidade, o coração sereno das cores de Palolo descia nas listas, barras e volumetrias geometrizantes das suas telas, nos desenhos e guaches purificantes, nas transparências dos planos, na acalmia e profundidade dos corpos, no vórtice da imagem fílmica — e as gralhas, negras, saudavam em homenagem, no enredado voo, ao redor da torre lanterna da Sé, a arte maior de António Palolo.
      Em muitos locais, em livros, em catálogos e na imprensa, deixei testemunho crítico sobre a sua obra. Não me importa aqui sublinhar nenhum desses aspectos. Barcarola, entendo-a somente como uma pequena música. E as gralhas na torre lanterna da Sé de Évora bem a executaram nesse final de tarde de dezembro de 2009. Barcarola de palavras, no meu caso, em memória. Mas o que importa sublinhar, é no momento em que tantos falsos e tantas dúvidas surgem acerca de pinturas e desenhos seus, que cada vez mais será urgente a realização de um catalogue raisonné sobre a obra de um dos artistas mais cimeiros da segunda metade do século XX.
 
 
     Uns dias antes de morrer o João (já disse que era assim que o tratava) mostrou-me um livro que acabara de comprar. Pinturas de Masaccio. Combinámos, mal melhorasse, uma viagem a Florença, para vermos os frescos de Santa Maria del Carmine.
     Transcrevo, de seguida, o que sobre esse nosso último encontro, escrevi para o catálogo de uma sua exposição em 2005, na Galeria 111 (texto recolhido em Processo Em Arte, Lisboa, 2008): «Estou a ver os seus dedos passarem sobre a imagem do fresco que representa ‘O pagamento do tributo’ e suspenderem-se na assimétrica divisão, como se quisesse ele mesmo isolar do grupo que rodeia Cristo as duas figuras que já se encontram separadas: o apóstolo, suponho, que entrega o pagamento ao jovem cobrador de impostos. Perdeu-se, enleou-se, deixou ir os sentidos e o imaginar nas imagens de outros frescos; e todas elas se perdiam na transparência de folhas separadoras [...] voltou-me à ideia este nosso último encontro e o tempo em que estivemos sentados ao lado um do outro a folhear o livro de Masaccio. Um dos seus gatos brancos, enormes, assistia ao passar das folhas e das mãos. Era janeiro. A luz do candeeiro (os gatos gostam de ficar exactamente debaixo das lâmpadas, mesmo quando elas são somente a ilusão fria do aquecimento) intensificava o branco do pêlo. O fumo do chá muito quente de salva erguia-se das chávenas. Os frescos de Santa Maria del Carmine seguiam a sua liberdade de folhas que caíam umas sobre as outras, num lento passar; uma liberdade totalmente limitada pelo destino, a atadura das folhas de um livro. Não andava longe o fim da liberdade que o destino atribuíra à duração perceptível da nossa amizade.»
     Nesse mesmo final de último encontro o João deu-me o seu cartão de identidade da Sociedade Nacional de Belas Artes. Tem o nº 360, de sócio correspondente. Não se percebe a assinatura do presidente da direcção, mas percebe-se a do 1º secretário, Eduardo Nery, que assinou pelo director. O retrato é o de um rapaz de dezassete anos, a idade que tinha quando foi admitido sócio, a 27 de novembro de 1963. O cartão foi passado a 29 de janeiro de 1964. Morreu 36 anos depois. A assinatura é ainda a de um puto adolescente, mas já lá está o risco firme que manteve sobre as telas e de que se terão servido Caronte e os seus companheiros de trabalho, para na barca o levarem. E passarem o Styx, numa sucessão rápida de variações sobre a cor.
 
João Miguel Fernandes Jorge

CULTURA HOJE

Manuel Serra, 1931-2010
por Joana Lopes

 

 
Morreu no passado dia 31, mais um grande lutador antifascista em Portugal.

É na Juventude Operária Católica, aos 17 anos, que Manuel Serra toma consciência da pobreza, repressão e injustiças que o rodeiam – o motor de arranque para uma longa e agitadíssima caminhada.

Já como oficial da marinha marcante, integra-se na corrente mais extremista da campanha de Humberto Delgado para a presidência da República, em 1958, onde defende o recurso à luta armada para o derrube do regime.

Na noite de 11 para 12 de Março, chefia os civis no falhado Golpe da Sé, sendo detido e levado para o Aljube onde permanece seis meses, depois de cinco dias de tortura de sono. Numa primeira fuga espectacular, sai pelo seu pé do Hospital Curry Cabral onde se encontrava internado: vestido de padre, segue directamente para a embaixada de Cuba em Lisboa, onde pede asilo. Apesar de vigiado em permanência por quatro agentes da PIDE, chefiados por Rosa Casaco, estuda um novo plano de fuga, muda de visual muito rapidamente, cortando o cabelo e a barba, e aproveita uma mudança de turno para, uma vez mais, sair em pleno dia para a embaixada do Brasil, já que o seu objectivo era precisamente juntar-se a Humberto Delgado naquele país.

Parte em Janeiro de 1960 e começam então os preparativos para o que viria a culminar no golpe de Beja, em 1 de Janeiro de 1962. Depois dos factos que são do conhecimento público, Manuel Serra tenta esconder-se no sul do país, mas acaba por ser detido em Tavira. Segue-se então um mês de grande violência, com tortura de sono e espancamentos, um julgamento com condenação a dez anos de prisão e longas estadias em Peniche e em Caxias. Liberto no início de 1972, é ainda detido por um curto período em Novembro de 1973.

Tudo somado, quase doze anos passados em prisões da PIDE.

A seguir ao 25 de Abril, é um dos fundadores do MSP (Movimento Socialista Popular) que mais tarde se integra no Partido Socialista com grupo autónomo, mas divergências internas precipitam a saída, em Janeiro de 1975, para a criação da FSP (Frente Socialista Popular). No quadro deste pequeno partido, participa nas campanhas de Otelo Saraiva de Carvalho para a presidência da República. Em 1980, foi um dos fundadores da FUP (Força de Unidade Popular).

Ontem, tudo acabou. Ficará na história dos belos lutadores da resistência em Portugal, que aliaram a coragem à aventura e até ao prazer do risco. Na memória dos que o conheceram pessoalmente, restará um enorme sorriso e um coração do tamanho do mundo – será sempre assim que o recordarei.
 
Joana Lopes

Fotografia e fonte para a elaboração deste texto: Rui Daniel Galiza e João Pina, Por teu livre pensamento. Histórias de 25 ex-presos políticos portugueses, Assírio & Alvim)
Este texto foi publicado originalmente em Entre as brumas da memória

A VIDA DOS LIVROS

de 8 a 14 de Fevereiro de 2010


“Outra Margem – Estudos de Literatura e Cultura Portuguesas” de Ana Nascimento Piedade é um percurso de pesquisa sobre a modernidade portuguesa, que provém de Eça de Queirós e da Geração de Setenta, para chegar ao século XX, em especial aos tempos de “Orpheu”, vindo também à “presença” e a Eduardo Lourenço. Como disse o mesmo Eduardo Lourenço, na apresentação do livro no Centro Nacional de Cultura, trata-se de ver o fenómeno literário e cultural no Portugal moderno com os olhos de uma “outra margem” e com a capacidade de tentar compreender melhor, para além dos condicionalismos do tempo… E Vergílio Ferreira esclarece bem que essa situação singular é “ser apenas do lado da vida em que não passa muita gente, se é quase anónimo, fora do alvo que é visado pela notoriedade, curiosidade pública, grande reputação. Ser em humildade, na discrição de nós, na curta dimensão de nós”.
 

 
“Praia das Maçãs”, José Malhoa, 1918.

UMA SOMBRA PELOS CAFÉS
Simbolicamente, no último texto do livro, a autora cita Eça, cuja sombra está omnipresente em toda a obra, e fá-lo a propósito de “Lisboa nos Cafés”. A citação é conhecida, mas mostra a contradição íntima de alguém entusiasmado com os ventos parisienses, a seguir ao fracasso de Sedan e à proclamação do Reich em Versalhes, ciente de todas as incertezas do poder caído na rua, entre barricadas, tiros, bombas e mortes. “O que eu conspirei! Jesus, o que eu conspirei! O meu desejo era filiar-me na Internacional! Uma noite, em torno de um café, exclamámos todos, pálidos de furor, cerrando os punhos: - É necessário barricadas, é necessário descer à rua! Descer à rua, era a ameaça terrível! E descemos o degrau do Martinho!”. Era o Martinho do Rossio, lugar mítico de tantas gerações e de inúmeras esperanças e desilusões. A recordação diz quase tudo. Fala-nos da necessidade de ter o coração a bater ao ritmo da Europa, da exigência de viver a modernidade, da força do apelo da justiça e da igualdade, da vivência de um ideal, mas também de uma ironia tremenda, da distância e da serenidade de poder gozar um ambiente liberal, que era o do tempo de António Maria Fontes Pereira de Melo, improvável discípulo de Saint Simon, o mesmo que entusiasmou, por razões bem diferentes, Augusto Comte e Karl Marx… Os cafés foram, de facto, os espaços públicos por excelência dos dois séculos passados, mesmo que Mário de Sá-Carneiro tenha dito a Fernando Pessoa, sobre o dito Martinho do Rossio: “Não sei porquê mas esse café, não os outros cafés de Lisboa, esse só – deu-me sempre a ideia dum local onde se vem findar uma vida: estranho refúgio, talvez, dos que perderam todas as ilusões, ficando-lhes só, como magro resto, o tostão para o café quotidiano – e ainda assim, vamos lá, com dificuldade”. Que diferença de atitude, de Eça até Sá-Carneiro, um português retinto (mesmo quando fora de Portugal, em andanças diplomáticas), o outro mergulhado no cosmopolitismo parisiense (atacado quiçá pelo mal da civilização de que padeceu Jacinto). São as vicissitudes da modernidade, com Álvaro de Campos (o mesmo que tanto perturbou José Régio, no Montanha) a falar nas “metafísicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte”…
 

PORQUÊ LER EÇA NO SÉCULO XXI
Num tempo em que, mais do que relativamente a este ou àquele autor, a pergunta a fazer sobre as razões para ler no século XXI tem a ver com o próprio acto de ler, Eça de Queirós permite-nos ter uma resposta. E, para responder, devemos recorrer a Fradique Mendes, a complexa figura que encerra em si as contradições de uma geração dramática e irónica, fruto da liberdade de expressão e do anseio de um banho lustral de internacionalismo cosmopolita. Afinal, tratar-se-ia de retornar à “nobreza do estado primitivo” ou de alcançar a regeneração finissecular – numa purificação consistente em ter “o crânio limpo de todos os conceitos” e “o espírito escarolado do pó e do lixo de longos anos de literatura”, tudo isso «a fim de recuperar essa notável aptidão que permitirá, enfim, “proceder soberbamente, a um exame inédito das coisas humanas”». E Fradique, o açoriano emblemático, dá-nos razão para a perenidade, que leva, ainda hoje, a entender a necessidade de regressar à leitura de Eça, ou à leitura “tout court”, para compreender tudo, rindo e castigando os costumes, como na máxima latina. Afinal, está na ideia mesma de modernidade (uma actualidade que ultrapassa a transitoriedade dos acontecimentos) a pertinência da obra e do seu símbolo Fradique, ou não fosse Ana Nascimento Piedade estudiosa atenta do Fradiquismo, que “nunca foi verdadeiramente um autor, mas tão-só, uma espécie de símbolo problematizador, condição aparentemente modesta e incipiente, mas, na realidade, deveras exigente e ambiciosa, uma vez que sobretudo o desoculta como um paradigma dessa transitoriedade caótica, tipicamente finissecular, através da qual se reflectem o sincretismo inquieto e a impossível unidade da sua, e por conseguinte nossa, contemporaneidade”. E o certo é que as pontes que, ao longo da obra, se vão estabelecendo, entre as várias formas de assumir a modernidade, desde as Conferências do Casino e a “Tertúlia Ocidental”, na designação feliz de António José Saraiva, até ao “Orpheu”, têm a ver com a necessidade subjectiva de duplicação da consciência dos criadores (Eça, Antero e Fernando Pessoa) – a partir da “desagregação do Ego transcendental” actuante no universo sócio-histórico do final do século XIX e começo do século XX.
 

UM FIO CONDUTOR
Se percorrermos os temas, chegamos à tentativa de encontrar a chave para alguns dos enigmas da cultura portuguesa, através da análise de uma transição marcada pelo pós-Romantismo. Aí estão, por isso, as estratégias da modernidade, os modos de ser moderno, a estética da ironia, as afinidades e os contrastes entre os jovens do Casino e do Orpheu, os encontros e os desencontros, Cesário, Eça, António Feijó, Pessoa, Sá-Carneiro, Régio, Eduardo Lourenço, António Lobo Antunes… E o que une essas gerações inconformistas e modernas? A audácia, a irreverência, o desafio, o humor e uma insólita energia vital. A comparação mais fecunda é, sem dúvida, a que põe frente a frente a Geração de Setenta e Orpheu. «Certo espalhafato mistificador que em parte permaneceu como emblema distintivo das duas gerações (diz a autora), terá funcionado, sobretudo, como uma espécie de aval protector dessa ousadia de querer pensar e praticar a inovação sem limites. E nisto consistia exactamente o propósito em que de modo radical se empenharam os dois grupos de jovens criadores, ao procurar operar a subversão e iniciar a renovação da literatura e da mentalidade portuguesas. Dito de outro modo, se o desejo de mistificação é um sinal necessário em tempos de ruptura e transformação, é porque ele é ‘o preço que deve ser pago, e sempre será pago, por uma atitude que não tem por definição nenhuma garantia do passado’». E é Eduardo Lourenço quem aponta esta capacidade de libertação em relação a qualquer garantia do passado como o sinal premonitório e renovador que permite abrir um caminho novo e ser seguido. Trata-se, afinal, de romper o laço visceral relativamente às gerações anteriores. Antero de Quental salientou-o como marca original de quem fez as Conferências do Casino, passando de um mundo de crença para uma recriação do mundo a partir da vontade de criação. Fernando Pessoa e Almada Negreiros repetiram-no a seu modo, no seu tempo axial. “O criador está só e tem de inventar o mundo” (disse ainda Eduardo Lourenço no CNC). E Eça, ao escrever sobre Antero no “In Memoriam”, procedeu à auto-mitificação da geração e do seu epicentro heróico, a partir da compreensão das temporalidades diversas da história humana. Do mesmo modo, Fernando Pessoa deu o sinal inovador ao exprimir a vontade de ruptura e ao propor um critério universalista para a consciência portuguesa. E se o incompreendido mito dos vencidos ainda é recorrentemente invocado, Eça esclarece que “para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou, mas do ideal íntimo a que aspirava”…

Guilherme d'Oliveira Martins

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CULTURA HOJE

Sérgio Nazar David: de Garrett a uma poética de fogo lento

 
Sérgio Nazar David (n. 1964, Além Paraíba, Minas Gerais, Brasil) é sobretudo conhecido, entre nós, como investigador de qualidade nascido do outro lado do oceano, experimentado e obsessivo garrettiano como há poucos em terras lusas. Poeta, professor de Literatura Portuguesa na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001), fez o seu pós-doutoramento na Universidade de Coimbra (2006).
 
Publicou, em Portugal, O Século de Silvestre da Silva – vol. I – Estudos sobre Garrett, A. P. Lopes de Mendonça, Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis (ensaio, Lisboa, Editora Prefácio, 2007) e O Século de Silvestre da Silva – vol. II – Estudos queirosianos (ensaio, Rio de Janeiro / 7Letras, 2007), tendo organizado uma excelente edição de Cartas de Amor à Viscondessa da Luz (Famalicão, Quasi Edições, 2007), de Almeida Garrett.
Nesta obra, de leitura obrigatória, não só o estudioso do autor de Frei Luís de Sousa actualiza a ortografia das cartas – fazendo os termos da época surgir na sua cor original –, como corrige transcrições defeituosas e decifra palavras. O Garrett que Sérgio Nazar David nos apresenta, na singular introdução, é um ser de «estranha inquietude», usando a expressão de Freud, analisado também segundo a psicanálise e a antropologia social, ou seja, à luz da perturbação interior, da culpabilização, do conflito entre amor e desejo sexual. É ele quem vê Rosa «com olhos da alma», adorada e anjo, e com ela mantém uma relação clandestina que terminará num irreparável desencontro que nem a iminênciada morte do escritor recomporá.
Membro da Equipa Garrett do Centro de Literatura Portuguesa (CLP), sob a orientação de Ofélia Paiva Monteiro (OPM), Sérgio Nazar David prepara agora a Correspondência Familiar do autor de Viagens na Minha Terra, com publicação prevista para 2011, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda [ler dossier na Colóquio/Letras (nº 174), disponível em Maio, dedicado à edição crítica desta última obra, organizada por OPM]. O volume inclui, ao todo, 105 cartas, 64 ao irmão Alexandre, 52 das quais inéditas, 40 à filha Maria Adelaide (onze inéditas) e uma outra (inédita também) à mulher Luísa Midosi.
É, no entanto, o poeta perplexo, apaixonado por Portugal e sua literatura, que trago a este espaço, aquele que reinventa, no quotidiano, o conteúdo da escrita, atribuindo-lhe, como escreveu Boris Pasternak a Rainer Maria Rilke1, em tempos diversos nomes diferentes. Que é da poesia se não desenha, a traços claro-escuros, uma a uma as coisas do mundo, uma cartografia da condição humana?
Sérgio Nazar publicou, até agora, dois livros de poesia: Onze Moedas de Chumbo (Rio de Janeiro, 7Letras, 2001) e A Primeira Pedra (Rio de Janeiro, 7Letras, 2006, nomeado para o Prémio Portugal Telecom 2007). Regra geral, trata-se de uma poesia elíptica a sua, de dimensão narrativa e grande apego a um quotidiano que a palavra torna onírico, como se o poema fosse laboratório e o modelo romanesco se transformasse em companhia no seu atelier de autor contaminado por uma cultura oitocentista.
Servem-lhe os versos para agudizar formulações mais vastas de interrogação interior, seguindo o autor um ritmo cuidado, tão lírico como, por vezes, áspero. Não existe o verbo no intervalo da batida, na tensão criada entre silêncio e som, abrindo-se o texto tanto à harmonia quanto à ruptura? Nos inéditos que se divulgam agora, do novo livro de Sérgio Nazar David, Tercetos Queimados, Portugal é personagem não só enquanto função emotiva, mas paisagem, pormenor autobiográfico ou pessoana deriva.
As dissonantes notas desta escrita de nostálgica celebração dão o mote a uma poesia/prosa subtil de suavidade, atravessada por um fogo lento, estanhado. Nesse sentido, podem ler-se os inéditos – nos quais o sentimento de ausência, de finura líquida, se vai densificando –, a partir de um sujeito poético que revela sinais da enevoada incompletude, de esmagamento do desejo, de uma breve existência entre a exaltação e uma força sombria.
Veja-se como a cultura portuguesa atravessa a seiva destes poemas.
                                                                                                                    Ana Marques Gastão

Inéditos de Sérgio Nazar David
1. 
Não tenho poema. Tenho (quase ponho tremo)
já agora pouco para ti. A vírgula, o acento
inútil, tão pequeno, ainda sabe entretanto
a Amor. É estranho amar-te, ver-te atrasado
num email de aniversário com palavras desiguais...
Tudo tão distante – balões que vão sonhando –
e estranho, amor, amar-te ainda. Tenho deixado tudo:
num velho caderno as notas de viagem de Berlim,
no ap de Lisboa os hieróglifos da tua mão
quando nevou, na pedra em que repouso
o fado de misérias. A coleção dos teus ditos  
telegráficos (talvez ainda falte algum) segue
e até rio do castelo de cartas que compus.
Devagar empalidece a rosa em que dormíamos.
2.
Numa tarde, num café de Lisboa
(por instantes se pode fugir do tédio,
do absurdo desejo de sofrer), um livro
trouxe-me o que um dia eu quis
e o corpo reteve (a alma não).
O difuso (ou parte incorpórea?)
dá-se em livro, agora, urgência
recoberta de cinza e espinho.
Haverá outro modo de tocá-lo
que não este, alheio à geografia
do poema? Quis para sempre
o livro e os três quartos de hora
que passei, morto, lendo. Porém -
como à tarde na cidade ou dentro
do passado que relembro - vivo
em tudo às cegas, não entro em nada
por completo. Agora, por exemplo,
me pergunto: por que me abro,
por que me entrego e nunca estou liberto?
3.
Queria agora dizer-te espera,
espera um pouco mais... Tendo
vivido à tua espera, vi-te entrar-me 

num 27 de fevereiro, sexta-feira,
com um chinelo gasto, um short,
um maço de cigarros, poucas palavras,
nenhuma sorte e uns poucos gestos,  
que mesmo o amor tratou de comer.
Naquela fria e leda madrugada,
depus jogos e armas: vinha de noites
antigas (não disse quais), mostrei-te
os óculos azuis (já não posso usá-los
como queria), disse-te ser um animal
que pouco pode com o som estrídulo 
dos verbos. Por mais finos, são,
com abstrusas derivas, grito engolido,
carne ultrajada, osso que salta do corpo
sem preparação. Teus braços foram-me
um rio que sai de repente das pedras.
Hoje não quero ser nada senão aquele
que corria aos cafés de Lisboa a ler
mensagens telegráficas.
Morri com 
as tábuas que gravei lembrando-te
e ainda hoje daria o pouco que sou
por ver-te como eras:
rosa impura, que o tempo
macerou.
4.
O rosto mais rubro
do silêncio era tua moeda e morada
(se já não estavas).
Com elas compus um verso livre
a dizer-te: "quando
vieres, seja dormindo." Que não te lembres
depois do que fizeste
comigo e das palavras que dizes enquanto
cruzas-me o corpo.
Quero entregar-me sonhando como
se fosse morto.

 
 
 
1 Correspondance à trois (Rilke, Pasternak, Tsvetaiëva), Paris, éd. Gallimard, 1983, p. 35; Correspondência a Três – Verão de 1926, Rainer Maria Rilke / Marina Tsvétaïeva / Boris Pasternak, Lisboa, Assírio & Alvim, trad. Armando Silva Carvalho, 2006).

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