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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A PALAVRA DE JBC

 A PALAVRA DE JBC 

MALINCONIA LUSITANA

1. Agora que Franco Maria Ricci se aproximou de Portugal, a revista que há poucos meses deixou de ser dele (embora dele conserve as iniciais efémeras) dedicou, pela primeira vez, um artigo a uma obra de arte alegadamente portuguesa. Para mim, ver os Painéis, ditos de Nuno Gonçalves, nas páginas da minha revista de arte de cabeceira (eu sei que há quem a odeie) espicaçou-me muito mais a luso "auto-estima", do que os nossos feitos no Euro, a escolha de Durão Barroso para a Comissão Europeia ou os discursos presidenciais. Mas não façam muito caso. Eu não sou exemplo para ninguém, a não ser para mim, o que além de egocêntrico é tautológico. Devo algumas explicações preliminares? É bem certo que as devo. Como recordei em crónica já velhinha ("Do Infeliz Machado à Décima Segunda Noite", PÚBLICO, 2 de Janeiro de 2004), Franco Maria Ricci, esse tal que fez jogo homófono com Ephemeris (leiam em voz alta, e obtêm FMR, iniciais dele e título da revista) entrou em acordo com a Bertrand de Zita Seabra e editou, no Natal de vai fazer um ano, O Presépio Barroco Português, livro magnifico sobretudo dedicado a Machado de Castro. Ao que li algures, prepara-se para reincidir em co-edições portuguesas e, se não estou em erro, com o celebre Atlas de D. Manuel, que a Bertrand irá lançar sob os seus auspícios. Enquanto isto, e enquanto se dedica a uma fabulosa série de livros sobre as colecções do Vaticano (já saíram dois, mas ainda faltam dez) abandonou a revista que fundara em 1982 e entregou-a a Marilena Ferrari. Mudou o formato (agora mais alto e, sobretudo, mais largo) e mudou a numeração. O número publicado em Abril-Maio de 2004 foi o último número algarismado à árabe (nº163). A parir de Junho-Julho de 2004, o numeral passou a cursivo. Uno, due, tre. Reminiscência da Revolução Francesa, nova era? Felizmente, nada disso. Como logo explicou a nova directora no seu primeiro editorial, a mudança fez-se sob a sábia égide do Príncipe de Salina: se tudo muda é para que tudo fique na mesma. Aliás "tudo" é um exagero dela. O herói de Lampedusa e de Visconti nunca disse tal coisa, mas limitou-se advogar a mudança de algumas coisas para assegurar a permanência. Para lá do formato e da numeração, ainda não dei por transformações capitais. Ela lá terá as suas razões para chamar ao Príncipe de Salina "maestro de transizione". A principal mudança de que me dei conta foi mesmo essa a que me referi no inicio e que levou a que o "numero tre", que tem na capa um "mascherone" da decoração escultórica da base do sepulcro de D. Pedro de Toledo, vice-rei de Nápoles de 1532 a 1553, consagre um artigo ao famigeradíssimo políptico do Museu de Arte Antiga. É certo que já em tempos tinha havido um precioso texto (com preciosas reproduções) sobre os marfins indo-portugueses. Mas a pintura portuguesa - se acaso o foi e lá chegarei - nunca havia tido tais honras. E serão coisas minhas - serão certamente - mas alguns pormenores das gloriosas reproduções (fotografias do português José Pessoa) pareceram-me "mieux que nature", eventualmente tocadas pela graça da vizinhança com o sepulcro do pai de Eleanora de Toledo, essa Eleanora de Bronzino, de mim e de pouca gente mais.

 

2. Chegou a altura de ordenar estas orgias, como diria Dolmancé. O artigo, com o mesmo título desta crónica, é do francês Yves Hersant, director de estudos da École de Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris. Malinconia Lusitana é bem achado. Já Cioran dizia que, "de um modo geral, se podem distinguir na Europa três formas de tristeza: a russa, a portuguesa e a húngara". E se ele tem razão, raras vezes essa tristeza (ou essa malinconia", o que não é a mesma coisa mas anda lá perto) foi tão bem expressa como pelo autor dos Painéis. É mesmo essa a principal razão que me leva a acreditar que eles foram mesmo pintados por um português, sensivelmente contemporâneo daquele que inventou o "nunca tão tristes vistes / outros nenhuns por ninguém". Já estou a arranjar lenha para me queimar, ou para ficar mais apainelado. Tocar nos Painéis, desde que foram descobertos em 1882, no convento de São Vicente de Fora, em Lisboa, ou, pelo menos, desde que José de Figueiredo, em 1910, escreveu um livro sobre eles, nunca deu saúde a ninguém e arruinou muitas reputações. Num caso até, levou ao suicídio um historiador incauto, que ficou tão triunfante quando julgou ter descoberto um manuscrito que lhe confirmava as teses, que nem sequer reparou que o dito era uma grosseira falsificação, armadilha de rivais que, conhecendo-o, sabiam que ele ia morder o isco. Quando a história se descobriu, impotente para provar a boa fé, preferiu meter uma bala na cabeça a viver o resto dos seus dias com a fama de troca-tintas. Era nos anos 20, quando a honra ainda tinha valor. Não sei se Yves Hersant sabia desta e doutras histórias (a última tocou de perto o filho de uma amiga minha). Mas a verdade é que decidiu ser muito cauto. Para entrar na "guerra" (guerra dos cem anos, sem nenhuma Joana d'Arc) adoptou duas posições. Primeira posição: o leitor não é português, o nome de Nuno Gonçalves não lhe diz coisíssima nenhuma e visita pela primeira vez o Museu das Janelas Verdes. Só há, para esse visitante, uma conclusão possível:"o políptico é uma das mais complexas figurações herdadas do Renascimento. Seguem-se ditirambos e algumas observações pertinentes. Relevo a que o faz evocar Alberti e o tratado De Pictura, publicado alguns anos antes da composição do retábulo (a acreditar que este foi pintado entre 1446-48). Hersant recorda-nos que Alberti defendeu, como primeira finalidade da pintura, "dar presenças aos ausentes", ou "fazer ressurgir os mortos aos olhos dos vivos". Além disso, deve despertar-nos os afectos, mostrar acções que nos comovam ou que nos aprazentem, contar uma historia. Hersant vê bem quando diz: "Perante os painéis de Lisboa, a historia escapa-nos. Provocam, certamente, emoções, já que, em termos albertianos, os homens que foram pintados manifestam intensamente o movimento próprio das suas almas. Talvez nos façam sentir com intensidade a presença dos ausentes, de tal modo o pintor observou escrupulosamente a natureza. Mas o essencial, ou o que Alberti tinha por essencial, não está lá, nega-se com obstinação". Aqui chegado (bem chegado, a meu ver) muda de posição.
Segunda posição: o leitor (ou o espectador) é português. Sendo-o, sorrirá desdenhosamente do acima transcrito. Não é historia o que falta aos Painéis. Pelo contrário, sobra-lhes história, o excesso de histórias acerca deles. Já nos explicaram tudo e o contrario de tudo; já nos deram dois Nunos Gonçalves; já nos juraram que não houve Nuno Gonçalves nenhum; já nos traçaram histórias diversíssimas; já nos juraram que o santo é S. Vicente ou é o Infante Santo, ou é outro, ou é mesmo outra; já os expuseram como dois trípticos ou em disposição políptica; para muitos, falta um sétimo quadro (painel central); para outros faltam quatro, senão mesmo nove. Já ouvimos dizer que foram pintados antes de 1440 e cerca de 1460. Contra as teses "vicentinas" e "fernandistas", já houve a acutilante proposta de Vitorino Magalhães Godinho (1959) segundo o qual os Painéis representariam a passagem de poder do Infante D. Pedro (regente do reino) ao jovem rei D. Afonso V, em 1446. Mas também já se chamou à hipótese Godinho, hipótese marxista encapotada, tornando o suposto ou real Nuno Gonçalves num Fernão Lopes da pintura, cronista da burguesia contra os senhores feudais. Após se auto-flagelar com as hipotéticas reacções portuguesas, Hersant põe-se numa terceira posição. Façam como eu. Ou "sejam como eu". "Suficientemente estrangeiro para que qualquer das ideologias nacionais não possa prevalecer sobre a análise estética; mas suficientemente português para que Gonçalves me atinja no mais profundo de mim próprio". Tanto se lhe dá como se lhe faz que um dado personagem seja X ou outro Y. O que lhe interessa, o que o comove, é que no Políptico (se for Políptico) "emerge uma consciência (...) consciência impossível na Idade Média". O Políptico é uma maravilha "porque interroga ao mesmo tempo a identidade individual e a identidade de uma nação". Cada figura está separada de todas as outras "por uma imperceptível película", "mas, ao mesmo tempo, "no espaço conceptual concebido pelo pintor, cada um não é mais do que elemento de um corpo social que, a um nível superior, também toma consciência".
Daí vai desaguar num texto antigo doutro francês (René Huyghe) e por um afluente na "malinconia lusitana". Como alguns terão adivinhado, chega a mau porto, com a sacrossanta invocação da "intraduzível saudade".

 

3. Fica-me pouco espaço e pouco tempo para desordenar a orgia, o que não é propriamente um mal. Quanto a mim - para me colocar na terceira posição de Hersant - ainda nada nem ninguém me convenceu tanto como Jorge de Sena, num luminoso ensaio de 1963, publicado em São Paulo, na Revista de História. Sabendo perfeitamente que ousava muito, Jorge de Sena limitou-se a dizer que só sabemos que não sabemos nada. Desmonta a autoria de Nuno Gonçalves e combate o "crime" (a palavra é dele) de retirar os Painéis à arte portuguesa. E conclui "O centro deles sempre estará na Flandres sem que, por isso, os painéis deixem de ser da melhor pintura do século XV, nem deixem de ser tesouros artísticos, iconograficamente portugueses, que Portugal possui". Passaram-se mais de 40 anos sobre este artigo e nunca o vi convincentemente refutado. Mas, folheando as páginas da FMR, basta-me a mesma certeza que Sena tinha. E Sena sabia, como eu sei, que ao falar-se da "melhor pintura do século XV" se está a falar de Van Eyck e de Van der Weyden, de Uccello e de Antonello. Basta ou não basta?


26 de Novembro 2004 Público

 

A VIDA DOS LIVROS

 

 

   de 29 de Março a 4 de Abril de 2010

  

Duzentos anos depois do seu nascimento, devemos afirmar que Alexandre Herculano (1810-1877) continua a ser uma referência fundamental da cultura portuguesa. Poeta, romancista, fundador da moderna historiografia portuguesa, cidadão empenhado, liberal assumido, autor de obras marcantes como a "História de Portugal" (Bertrand Editores, 4 volumes, com prefácio de José Mattoso) ou o romance "Eurico, o Presbítero", foi alguém que desde muito novo, e não tendo podido cursar Leis em Coimbra, se afirmou como um talentosíssimo escritor, sempre preocupado com a fundamentação rigorosa dos escritos que subscreveu, mas também empenhado em conseguir a governação do País pelo País, para que a emancipação dos povos e a participação dos cidadãos não fossem letras mortas. Amante da liberdade individual e defensor do fim dos constrangimentos à liberdade económica, Herculano foi quem da sua geração, e sem cedência de princípios, melhor compreendeu os jovens de 1870, que lhe devotou admiração incondicional.

 

 

 

UM PENSADOR DE PORTUGAL
Não podemos reflectir sobre Portugal sem nos lembrarmos do contributo ímpar de Alexandre Herculano. É uma das figuras inesquecíveis da história da cultura portuguesa. E tornou-se um símbolo de honradez e de rigor. Nasceu há duzentos anos, na cidade de Lisboa, no velho Pátio do Gil (hoje já destruído), à Rua de S. Bento, a 28 de Março de 1810. Para ele a cidadania e o estudo das fontes e das raízes das instituições e do povo eram inseparáveis. Por isso, no Porto, em 1832, depois de ter desembarcado entre os bravos do Mindelo na praia de Pampelido, foi dispensado do serviço das armas, para ser nomeado bibliotecário na Biblioteca Pública da cidade, com o encargo ainda de reorganizar os fundos das bibliotecas monásticas, a começar na de Santa Cruz de Coimbra. Que preocupava o jovem estudioso? Conhecer o caminho que tornara possível a persistência de uma nação antiga, com as instituições e o povo empenhados em prosseguir objectivos e valores comuns. No entanto, nada de verdadeiro poderia apurar-se a não ser com recurso a documentos coevos e a uma ponderação inexorável dos factos. Não resisto a recordar a muito pouco conhecida “Oração Fúnebre” proferida pelo jovem António Cândido no dia 13 de Novembro de 1877 na Igreja da Lapa, na cidade do Porto: «Devemos a Alexandre Herculano a revelação da nossa consciência nacional. Um povo não pode dever a um homem mais largo benefício. Antes dele a nossa história era um conjunto de lendas monásticas, muito piedosas ou muito refalsadas, sem a compreensão profunda das leis sociais a que obedecemos como povo, sem a clara intuição da lógica a que se subordinaram as ideias e as obras dos que nos precederam; era um montão confuso, uma sobreposição informe de factos, tendo por fonte ou as crónicas primitivas, muito deficientes (embora apreciáveis como manifestação do nativo espírito português) ou os livros posteriores ao século XV, em que havia a discriminar, com enorme trabalho, dos laivos da erudição clássica os traços puros da tradição nacional. (…) Diante dos seus livros erga-se a posteridade, e julgue-os com desassombro: têm, não podiam deixar de ter, a par de grandes verdades e de muitíssimas belezas, erros e imperfeições; mas diante do seu porte austero, da sua honra imaculada, da sua vida honesta e sóbria, da intemerata moralidade dos seus costumes, da genial franqueza da sua alma, da rude, mas simpática têmpera da sua palavra, quer a dirigisse aos reis a quem servia, quer a entregasse ao povo de quem mais era, - curvem-se respeitosos os homens de boa vontade».

CULTOR DA TRADIÇÃO E DA LIBERDADE
Herculano foi um homem dividido entre o respeito da tradição e a rejeição das superstições. Para ele, por exemplo, o soldado liberal deveria, num esforço de síntese, hastear a cruz sobre o pendão da liberdade e tornar-se apóstolo da “fraternidade espiritual”. No entanto, na “História de Portugal” recusa as interpretações providencialistas simplificadoras e encontra “a verdadeira origem da independência de Portugal” na ideia de nacionalidade portuguesa, “ideia que amadurecera e radicara nos ânimos de modo indestrutível e que sucessivamente se apoderara dos espíritos do Conde D. Henrique, de D. Teresa e do filho deles”. Relendo-o, verificamos que também fez simplificações e cometeu erros, no entanto, abriu caminhos novos, ao apontar quais deveriam ser os instrumentos e os métodos. Através deles seria possível superar dificuldades e tentar encontrar a verdade dos factos. Considerou a vontade dos governantes como crucial para a criação da nacionalidade. A moderna historiografia considera a explicação como insuficiente, já que há outros factores adjuvantes, que não devem ser olvidados. Contra a ideia da prevalência circunstancial da vontade dos senhores do século XII, não poderia esquecer-se (na expressão de Oliveira Martins) o carácter vago e fugitivo do português, contrastando com a terminante afirmativa do castelhano, ou a nobreza do heroísmo lusitano, diferente da fúria dos nossos vizinhos, ou nosso sentimento e a nossa ironia, ao contrário da violência do outro lado da fronteira. No entanto, é indubitável que o Estado precedeu a nação, e o certo é que com mais ou menos dose de vontade, a verdade é que a perenidade da autonomia do ocidente peninsular e a sua projecção além-mundo devem ser lidas à luz de uma dialéctica em que a “vontade de ser” tem um papel indiscutível. Ainda Oliveira Martins, profundo admirador de Alexandre Herculano, disse que ele “pecava, com toda a escola romântica, Guizot à frente, porque a opinião e a política de mãos dadas o levavam a fazer da História da Idade Média uma apologia do sistema representativo (…). Levava, pois, para o estudo do passado as preocupações do presente, porque essas preocupações eram a essência da sua vida moral”. Essa poderá ser uma limitação do seu método, no entanto, passado século e meio sobre o contributo do historiador fica a pertinência e a actualidade da sua obra, com todas as limitações que possam ser referidas. É difícil ser-se tão duravelmente influente como Herculano o é. Foi indiscutivelmente moderno, apesar de ser um romântico, muito ancorado na tradição clássica. Contudo “falta-lhe ar na contextura sobrecarregada de discussões eruditas” – disse o escritor de “Portugal Contemporâneo”.

PROBLEMATIZADOR E INCONFORMISTA
A verdade é que é o Herculano problematizador que encontramos sempre. Alguém que não nos deixa indiferentes: cristão e anti-clerical, liberal e exigindo uma consciência nacional, português e homem de horizontes abertos, estudioso e sempre cidadão, erudito e próximo dos povos (apesar de tantas vezes os idealizar). Alguém que acreditava sinceramente em que o país fosse governado pelo país: “como realização deste princípio, temos pugnado pela verdade do sistema parlamentar, apesar do descrédito a que a reacção europeia o tem levado no continente; temo-nos esforçado por incutir aos nossos concidadãos a ideia de que só nele sinceramente respeitado pode estar a nossa marcha segura no caminho do progresso”. Em suma, Alexandre Herculano projecta-se na história da cultura portuguesa como um interrogador das origens da consciência nacional e do antigo carácter português. A independência é fruto da vontade e de uma convergência de factores entre os quais avulta a liberdade dos povos e das pessoas e a descentralização municipalista. É um exemplo para os dias de hoje – pela sobriedade, rigor, trabalho, disciplina, de recusa da mediocridade e da irrelevância. Tudo visto e ponderado, o melhor elogio que podemos fazer ao historiador nascido há dois séculos está feito por José Mattoso no Prefácio à “História de Portugal”: “Há (…) poucos autores com tão grande sentido da ‘época’ como Herculano. (…) No conjunto, pode dizer-se hoje, quase século e meio depois de ter procedido a este imenso trabalho, que conheceu e aproveitou a grande maioria das fontes disponíveis e que a sua interpretação foi geralmente correcta”. Que mais dizer em seu abono? 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 
Oiça aqui as minhas sugestões na Renascença

 

A PALAVRA DE JBC

João Bénard da Costa

 

PARA AS BANDAS DA “PLAYBOY”

 

1 - Uns artiguitos, por aqui e por acolá, informaram-me que a "Playboy" fez 50 anos. Primeiro pensei: "Meu Deus, como o tempo passa!" Depois, melancólico, realizei que as mais tenrinhas das "bunnies" de há 50 anos têm hoje a minha idade. Marilyn - na celebérrima foto nua do número 1 - era bastante mais velha. O que vale (vale a quem?) é que o tempo não corre à mesma velocidade para os homens e para as mulheres. Marilyn morreu, ainda quase todas vocês nem nascidas eram. As coelhinhas desmamadas de 1953 têm agora idades assustadoras. Mas aquele que, ainda hoje, continua a ser tratado por Hef (Hugh Hefner, o patrão), nascido no mesmo ano de Marilyn (1926) continua, aos 77 anos, mais Viagra menos Viagra, a "dating" três coelhinhas em simultâneo e a ter um harém permanente de vinte e tal. A acreditar em Pedro Rolo Duarte, Sting, que entre parêntesis já vai nos cinquenta e picos, compara-o "a uns daqueles imperadores romanos decadentes, cercados pelos bárbaros da Internet, que estão a acabar com o seu império". Mas as fotos da festa das bodas de ouro, que se podem ver na "Playboy" de Fevereiro de 2004, já à venda por aí, mostram-no em bastante boa forma e excepcionalmente num impecável "tuxedo". Duvido que os bárbaros, quando lá chegarem e se lá chegarem, consigam o mesmo estardalhaço.

 

2 - Em 1953, ano XVIII da Revolução Nacional, indecências como a "Playboy" não chegavam a Portugal, mesmo se, vistos de hoje, esses números de antanho nos apareçam tão puros e castos. Foi na maluca década seguinte que comecei a ouvir falar dela e a comprá-la às escondidas em Paris, usando do álibi de tantos "intelectuais" da época: nela colaboravam nomes maiores da literatura americana. A quem nos apanhava com a boca na botija, respondíamos que a tínhamos nas mãos por causa de Norman Mailer e não das mulheres nuas. A partir daí, não me lembro bem. Começou a haver coisas bem mais escandalosas ou já nada escandalizava ninguém, como se lamentava o velho Breton, de barbas até ao umbigo. Mas o mito permaneceu e pelos vistos permanece, já que, desse tempo, só a "Playboy" subsiste. E não conheço ninguém que, pelo menos de nome, ou de escaparate, a não conheça. E ainda há quem tenha pudor de a comprar seja a quem for. Mas isso são outras histórias e eu venho hoje para contar a minha.

 

3 - Foi em Los Angeles. Primavera de 1995. Estava por lá num congresso das Cinematecas, desses que há todos os anos nas sete partidas do mundo. Quem chega a esses congressos recebe sempre, entre uma data de papelada, vários convites, qual deles o mais chato. Ou é o ministro ou é o presidente da câmara ou é o director de uma instituição cultural, que convida para um "cocktail", geralmente precedido por infindáveis discursos, em que os retardatários já não acham nada de beber nem nada de manjar. Daí o meu espanto, quando, entre vários envelopes, achei um com a inconfundível "trade-mark" e em que Hugh Hefner requestava o prazer da minha companhia para uma recepção em casa dele (a lendária Mansão) dia tal às tantas horas. Apressei-me a confirmar, sem perceber a razão do convite. Embora se anunciasse uma sessão de cinema. Na tarde aprazada, meti-me num táxi com uns colegas (em Los Angeles, o táxi é o único transporte possível para quem não dispõe de carro próprio) Sunset Boulevard acima ou Sunset Boulevard abaixo. O cinema preparara-me para muito, mas não para a verificação experimental de que ser bi ou tri milionário na América ou na Europa é coisa distintíssima. O táxi parou à porta de um enorme portão de aço, entre altíssimos e irídicos muros. O motorista tocou em intocáveis botões e, com os nossos convites na mão, respondeu a uma voz de oz com os nomes que os nossos pais nos deram. Os portões abriram-se à sésamo e o táxi entrou, após cuidada contagem dos ocupantes. Seguiram-se três quilómetros de subida (não exagero) por uma estrada ladeada por árvores soberbas, com inscrições em latim. Fosse eu minimamente botânico (desgraçadamente não o sou) e esmagaria os peritos com nomes venerandos. A certa altura, lembrei-me da Rebecca de Hitchcock e do susto da Joan Fontaine da primeira vez que entrou em Manderley. Lembranças não eram lembradas e achei-me diante de uma mansão que parecia a do Senhor de Winter. O táxi contornou-a e descemos num jardim de buxos a perder de vista. Em pequeno, a minha mãezinha ensinou-me que, quando se é convidado, a primeira coisa a fazer é ir falar aos donos da casa. As regras ali eram diferentes. Numa vasta varanda, inconfundível na "silk red robe" e no "silk red pijama", Hugh Hefner conversava com uns íntimos e com umas íntimas. Nem pensar em lá chegar. Para o impedir, existiam uns polidos e corpulentos guarda-costas que nos saudavam em nome do mestre, enquanto conferiam discretamente o nome que lhes dizíamos com uma lista que tinham. E logo chegaram as coelhinhas, servindo copos, louramente insinuantes. Andando, tremiam-lhes as mesmas coisas que tremeram a Vénus quando subiu ao Olimpo para interceder pelo Gama. Qualquer coisa entre o jardim de Klingsor e o Venusberg.
Depois que de nós afastaram o desejo de comida e bebida, propuseram-nos uma voltinha. Começou pelo muito celebrado Grotto, que, ao princípio, parece a ribeira misteriosa da antiga feira popular e, a pouco e pouco, recorda os lagos e as grutas do rei-virgem da Baviera. Música afrodisíaca, estalactites e estalagmites a que só extremos de boa educação podem chamar símbolos fálicos ou vaginais. Por aqui me fico na descrição, que estas coisas mais vale imaginá-las do que nomeá-las. Após as vinte mil léguas submarinas, a Arca de Noé. Quero eu dizer, um jardim zoológico a perder de vista, onde não vi feras, mas muitas girafas, zebras, avestruzes e cangurus. O luxo da colecção era a morada dos répteis e o espaço dos aquários. A colecção de peixes do Pacifico era particularmente prodigiosa.

 

4 - A essas horas, começava a anoitecer, as coelhinhas prometeram o resto para logo e levaram-nos para dentro. Era tempo de cinema. A sala privativa de Hugh Hefner cumulou os meus sonhos. Madeira escura, grandes maples de couro, mesinhas para o cinzeiro e para o copo, ecrã imenso. À frente, cadeirão especial para o anfitrião, que entrou por outra porta e nos introduziu, numa longa prelecção, ao filme que escolhera: a versão de 1939 de "The Hunchback of Notre Dame", realizada por William Dieterle, com Charles Laugthon e Maureen O'Hara. Bem ao meu estilo, contou de como amara o filme aos 13 anos e de como a seguir o foi amando vida fora. Nunca vi mais bela cópia dele.
Finda a sessão, alguns voltaram aos prazeres da mesa, enquanto outros (foi o meu caso) preferiram continuar a explorar os jardins. Não me arrependi, pois que as nossas guias nos levaram ao "santo dos santos", a peculiaríssima "garçonnière" de Hef.
Na sala de entrada, aquela versão da "Última Ceia", onde Clark Gable, James Dean, Marlon Brando, Elvis e sete outros bebem néctar e comem ambrósia. Uma parafernália erótica preenchia cada canto e cada recanto, até nos mostrarem os quartos e as casas de banho. As posições do "Kama-Sutra" ilustravam as portas, sugerindo a especialidade de cada câmara, como parece que foi de uso nos lupanares do século XIX. Entrado no primeiro quarto, fui-me abaixo das pernas, não por culpa delas, mas por culpa do chão, almofadado e elástico e não propriamente destinado à parte do corpo humano conhecida pelo nome de pés. Paredes e tectos de espelhos. Cada quarto cada cor, qual delas mais "kitsch" e mais berrante. Uma rampa de igual moleza levava às casas de banho, muito escuras e subterrâneas. Mas a luz, como tudo o resto, dependia do gosto de cada qual. Também se podiam iluminar feericamente as casas de banho e escurecer os quartos. Ideal para jogar às brincadeiras às escuras, à cabra-cega ou à linda barquinha do lindo luar.

 

5 - Quando voltei à Mansão, já havia poucos convidados, entretanto saídos ou entretanto recolhidos. Comecei a admirar a colecção de pintura de Hefner, sobretudo os seus Fragonard. Foi nessa altura que o homem de pijama de seda se aproximou de mim e a conversa voltou ao corcunda. Contou-me ele então que sempre gostara tanto de ver filmes como de falar sobre eles. Mas, outrora, os amigos fugiam a sete pés dessas conversas intermináveis, sobretudo do seu requinte supremo que era contar um filme tintim por tintim. Por isso, quando ficou rico e famoso, resolveu organizar aquelas sessões. Eram sobretudo um pretexto para ele falar, demasiado sabendo que os agradecidos convidados não ousariam pateá-lo ou virar-lhe as costas. "Agora, como viu" (e fora bem verdade) "ouvem-me em religioso silêncio e, no fim, dão-me muitas palmas. All that money can buy". "All", depois de tudo o que eu vira, era um exagero. Mas ficou-me a sensação (talvez errada) de que, pelo menos em 1995, ele se divertia bastante mais com essas cinéfilas palestras do que com as coelhinhas. Pelo menos, quando nos despedimos, já não havia coelhinhas nenhumas e ele estava a meio de me contar a versão de Lon Chaney (1923) do romance de Victor Hugo. As almas têm, às vezes, encontros singulares.

 

30 de Janeiro 2004 Público 

A VIDA DOS LIVROS

de 22 a 28 de Março de 2010

“Cardeal Cerejeira – O Príncipe da Igreja” de Irene Flunser Pimentel (Esfera dos Livros, 2010) é uma biografia essencialmente política que analisa o percurso de uma das figuras referenciais do século XX português, sem cuja compreensão não é possível perceber o próprio Estado Novo, em especial por se tratar de uma personalidade muito próxima de Oliveira Salazar, apesar das diferenças e das distâncias, cultivadas de parte a parte, e por ser um dos indiscutíveis artífices da “frente nacional”, que funcionou até ao final dos anos cinquenta, e que foi fundamental para a permanência no poder do sistema consolidado em 1933.
 


 

RECUSAR SIMPLIFICAÇÕES
A obra tem a grande virtude de recusar simplificações e de procurar seguir os acontecimentos históricos com objectividade. Nesse sentido, a autora acompanha os factos com relevância política ou pública da vida de Manuel Gonçalves Cerejeira, o que permite que possamos ver os contornos pessoais do intelectual, do universitário, do activista católico e do prelado influentíssimo, desde os tempos da Primeira República, passando pela chegada ao poder de um amigo muito próximo, com quem terá uma relação propositadamente ambígua, apesar das inequívocas convergências. No período inicial, em que o futuro Cardeal Patriarca de Lisboa se afirma pelas suas excepcionais qualidades académicas e intelectuais, começam a desenhar-se os traços fundamentais da sua personalidade. Trata-se de um carácter multifacetado e complexo, que critica abertamente os “tempos em que as púrpuras prelatícias punham notas vivas nos degraus do Trono dos reis e os regimentos nas paradas apresentavam armas aos senhores bispos”. Aliás, nas páginas do “Imparcial”, semanário dos estudantes católicos de Coimbra, no ano de 1914, Cerejeira demarca-se da posição dos monárquicos dizendo que “a união da Igreja e do Estado como entre nós existia” não poderá nem haverá de “voltar a existir em Portugal”. O jovem académico é elogiado pela comunidade coimbrã pelo trabalho realizado na Universidade. Vitorino Nemésio fala das “clareza e elegância expositiva” e Sílvio Lima refere a “prudente atitude crítica que o leva a verificar antes de afirmar”. Pina Martins assinala que a escolha de Clenardo (que esteve em Portugal de 1533 a 1538) como tema do seu doutoramento corresponde à recusa tanto do clericalismo como do cesarismo. Cerejeira seria, assim, um «defensor da separação entre o mundo espiritual e o mundo temporal, enquanto ‘trave mestra da civilização cristã’». E Luís Salgado de Matos assinala o risco corrido pelo académico, enquanto membro do clero, ao escolher como objecto de estudo um homem que foi vítima da Inquisição. Mas o que o autor quereria era talvez ajustar contas com a visão anticlerical da História, filiando a nossa decadência na ausência de uma classe dirigente e não na acção da Igreja…
 

A SOMBRA DA QUESTÃO RELIGIOSA
Não podemos esquecer como a questão religiosa da Primeira República marcou a geração de Manuel Gonçalves Cerejeira. E essa memória será um pressuposto para a cumplicidade evidente entre Estado e Igreja depois de 1926. De qualquer modo, é fundamental ver (com os elementos disponíveis, já que os arquivos eclesiásticos ainda não estão disponíveis) que não há uma identidade de pontos de vista entre Cerejeira e Salazar, aparecendo o primeiro como alguém que se rodeou de todos cuidados no sentido de preservar a independência da Igreja, tentando gerir os complicados equilíbrios numa sociedade profundamente marcada por ressentimentos antigos. O jovem Patriarca sente-se “dolorosamente surpreendido” com o convite feito pela Mocidade Portuguesa à Juventude Hitleriana, uma vez que concordava inteiramente com Pio XI na condenação do totalitarismo nazi. Durante as negociações da Concordata e do Acordo Missionário, Salazar e Cerejeira discordam sobre pontos importantes, por exemplo o da autonomia da Acção Católica, desconfiando o Presidente do Conselho que aí poderia estar um embrião político de uma democracia cristã desalinhada (lembre-se que António Lino Neto, o líder do Centro Católico, negara-se a entrar na União Nacional). Por outro lado, Gonçalves Cerejeira contrasta com Salazar ao ostentar uma imagem de “cardeal moderno”, viajado, defensor de uma estética moderna na Igreja de N.S. de Fátima em Lisboa, fundador de uma poderosa rádio católica (a Renascença). Sobre a sensível questão colonial, o prelado afirma numa célebre entrevista a Dutra Faria que vislumbrava em Angola e Moçambique os Brasis do século XXI. É verdade que não se pode tirar daí mais do que lá está. A entrevista deu brado. E há, da parte de Cerejeira, em meados dos anos quarenta, a consciência clara de que, como homem de Igreja, tinha de aceitar que haveria novos caminhos a trilhar para a evangelização de África. Se falámos da resistência de Salazar à autonomia da Acção Católica, temos de referir na mesma linha a oposição longa à criação da Universidade Católica. E estes exemplos são significativos de uma distância que Salazar quis manter relativamente aos riscos que via numa Igreja mais actuante e com maior espaço de manobra.
 

TEMPO DE VIRAGEM
Os anos cinquenta e sessenta irão representar um momento de viragem, a que correspondem dificuldades crescentes – e Cerejeira deixa, de facto, de saber como havia de pegar na questão. Tudo começa logo no fim da guerra, com a participação de um católico, velho amigo de Coimbra, Francisco Veloso, nas listas do MUD, ao lado de Francisco Lino Neto, filho de António Lino Neto, o já referido chefe de fila do Centro Católico. A partir de então o silêncio do Cardeal Patriarca perante os ataques de que são alvo os cristãos oposicionistas torna-se muito pesado. E o número de casos vai-se alargando: Vieira da Luz, Padre Joaquim Alves Correia, Padre Abel Varzim. Neste último caso, é a Acção Católica que está em xeque e o método do futuro Cardeal Cardijn. Cerejeira aceita a proibição de “O Trabalhador” e os sucessivos afastamentos do Padre Varzim, até ser enviado para Cristelo (Barcelos), mas diz preferir encobri-lo, como reserva da Igreja, a cobri-lo… Ainda há a questão do documento pró-memória do Bispo do Porto e a oposição do governo a que ele regresse ao País. Na mensagem de Natal de 1958, o Cardeal faz uma distinção entre o bom e o mau regime de separação entre a Igreja e o Estado, lembrando em particular que a Constituição portuguesa aceitava a soberania dos dois poderes, mas era a ordem espiritual que deveria julgar a temporal, e não vice-versa. Salazar não se faz rogado e responde sibilinamente que caberia ao Estado julgar os homens que serviam a Deus. E a esta troca de remoques suceder-se-iam diversas tomadas de posição de cristãos no ano de 1959, que marcariam profundamente o fim da “frente nacional” do regime. A incomodidade sentida pelo Cardeal é evidente. A crise do Seminário dos Olivais e as sérias dificuldades com colaboradores que admirava e em quem depositava confiança, como o Padre José da Felicidade Alves são profundamente dolorosas. Sente-se nitidamente que as circunstâncias políticas ultrapassam largamente a capacidade de resposta do Cardeal Cerejeira, que se vê rodeado de incompreensões. Perante o balanço que este faz em Janeiro de 1967 (“Na Hora do Diálogo”), Salazar comenta desdenhosamente que se trata de um documento defensivo relativamente a várias acusações da oposição, faltando “coragem de contra-atacar”, seria a reacção de um “fraco que pune a seu modo, como ele diz, para significar que não pune ninguém”. Marcelo Caetano dirá que Cerejeira “detestava as palavras ásperas, os castigos severos e as decisões definitivas, e preferia persuadir pela razão e comover pelo coração”. A verdade é que se trata de uma figura histórica que deve ser compreendida no seu tempo – como salientou António de Sousa Franco. E Abílio Tavares Cardoso realça que mesmo a esmagadora maioria dos que viriam a ser conhecidos como católicos progressistas admiravam a inteligência superior de Cerejeira e confiavam nele”. Lembre-se o testemunho de António Alçada Baptista ou a opinião contraditória de Raul Rego… O livro de Irene Flunser Pimentel é, afinal, importante, equilibrado e elucidativo e dele ressalta, com rigor, uma figura complexa e marcante. 

Guilherme d'Oliveira Martins

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ATÉ À VISTA, PEPIN!



JOSÉ VIDAL-BENEYTO (1929-2010)
por Guilherme d’Oliveira Martins

Pepin Vidal-Beneyto era um grande amigo. Bastava telefonar-lhe a pedir que viesse fazer um debate ou que lhe pedisse um contributo sobre os temas que cultivava (política de cultura, Europa, Mediterrâneo, pluralidade de pertenças, direitos humanos) para que ele, generosamente, se dispusesse a vir. Era uma das pessoas mais vivas e lúcidas que conheci. Gostava de conversar, de debater, de lançar ideias provocatórias. Tive o raro privilégio de o contar entre as pessoas que faziam da amizade oportunidade de pensar o futuro.
 

Natural de Valência (Carcaixent), foi filósofo, jurista, sociólogo e politólogo. Catedrático de Sociologia da Universidade Complutense de Madrid, foi director do Colégio de Altos Estudos Europeus Miguel Servet de Paris e doutor honoris causa da Universidade de Valência (2006). Participou em muitos projectos internacionais, em especial no campo da cultura, da integração e da mundialização. Foi Secretário-Geral da Agência Europeia da Cultura e do Conselho Mediterrânico da Cultura, no âmbito da UNESCO. Foi um colaborador activo do Conselho da Europa, da Comissão Europeia e dos Ministérios espanhóis da Educação e da Cultura. Era um militante europeu de longa data e por isso mesmo era um crítico severo do curso dos acontecimentos nas instituições europeias. Debati longamente com ele sobre o presente e o futuro da União Europeia, sobretudo depois de 1989. Vidal Beneyto foi um dos grandes animadores dos Encontros Internacionais de Sintra, organizados pela Sedes nos anos noventa, ao lado de Helena Vaz da Silva, Lucas Pires, Sousa Franco, António Alçada Baptista, Francisco Lino Neto, Rui Vilar, João Salgueiro, Vítor Constâncio, Adam Michnik, Jacek Wosniakowski, Michael Walzer, Timothy Garton Ash, Paolo Flores d’Arcais… Conheci-o sempre como um combatente de ideias e de ideais. A criação de uma sociedade civil transnacional era uma das suas obsessões. Durante o franquismo foi um opositor tenaz. Ao lado dos seus amigos Tierno Galván e Raul Morodo participou na Junta Democrática e foi talvez o mais activo dos criadores do chamado Contubérnio de Munique (Congresso do Movimento Europeu de Junho de 1962, presidido por Salvador Madariaga, com a presença de José Maria Gil-Robles e Dionísio Ridruejo).
 

Foi sócio fundador do diário El Pais e membro da Academia Europeia das Artes, Ciência e Letras e autor de numerosa obra entre a qual se destaca:

• Las Ciencias de la Comunicación en las universidades españolas, (1973)
• Alternativas populares a la comunicación de masas, (1981)
• Las industrias de la lengua, (1991).
• Diario de una ocasión perdida, (1991).
• La Méditerranée: modernité plurielle, (2000).
• Hacia una sociedad civil global, (2003).
• Poder global y ciudadanía mundial, (2004).
• Derechos humanos y diversidad cultural, (2006).
• Memoria democrática, (2007).

A VIDA DOS LIVROS

de 15 a 21 de Março de 2010

Quando, no início do ano, me pediram para escolher os livros de 2009, não tive dúvidas em eleger entre eles “O Caminho dos Pisões” (Assírio e Alvim, 2009), uma obra surpreendente, sobretudo para quem conheça menos bem o percurso de M. S. Lourenço, poeta, filósofo e cultor singularíssimo da língua portuguesa. Aí reencontrei, além das duas edições de “O Doge” (1962 e 1998), as obras literárias fundamentais do autor: “O Desequilibrista” (1960), “Ode a Upsala, Ária detta la Frescobalda” (1964), Arte Combinatória” (1971), “Wytham Abbey” (1974), “Pássaro Patadípsico” (1979), “Nada Brahma” (1991) e “Os Degraus do Parnaso” (1991 e 1998). Trata-se de uma oportunidade única para ter contacto com a atitude intelectual muito estimulante de um escritor culto, cuja obra multifacetada permite-nos usufruir o domínio da língua e das ideias, ao serviço de uma ironia extraordinária.
 


 

A SOMBRA DO DOGE
«Era afinal um homem muito breve, com uma história muito calma. Alguns diziam que a história era antiga, mas não passavam afinal daqueles, de entre os seus amigos, que menos conheciam coisas deste género. Hoje afigura-se possível que um dia Alguém tenha descoberto e revelado o segredo de algumas circunstâncias, o inacreditável mistério dum pequeno grupo de pormenores. É possível, apenas. Por tradição oral nada chegou até nós. E se fosse possível falarmos com uma testemunho ocular, ele diria com um acento desusado e inequívoco: ‘Mas isso é pura fábula! Nunca esteve aqui Alguém que dissesse alguma coisa sobre tais circunstâncias. Eu próprio nunca estive lá’». Assim começa “O Doge”, livro misterioso, publicado em 1962 pela Morais, da autoria de um escritor do centro da Europa, com reminiscências no Sacro Império e referências ao “nosso” Carlos o Temerário, o “Meio-Português”, com era conhecido, tudo no cenário deslumbrante da República Sereníssima de Veneza. O referido escritor aparecia com o nome rebarbativo e ostentatório de Arquiduque Alexis Christian von Rätselhaft und Gribskov, e era traduzido pelo jovem M.S. Lourenço. Consta que a Lisboa literata do tempo discutiu intensamente a origem dessa figura literária, e houve mesmo o mais famoso dos críticos da época que aceitou tratar-se de uma vera tradução (por sinal muito elogiada). De facto, porém, tudo não passou de uma ardilosa combinação com a casa editora, com Pedro Tamen, mais precisamente, no sentido de esconder a verdadeira identidade de uma personagem totalmente mergulhada na ficção, desde a autoria ao enredo. Estávamos perante um texto automático que pretendia descrever a biografia literária de um autor fictício, escritor de títulos surrealistas. O Arquiduque Gribskov tinha uma biografia parcialmente oculta, apenas revelada subtilmente na sua prosa. O tradutor limitava-se, assim, a apresentar uma figura literária que, mais do que enigmas, punha a necessidade de encontrar a sua identidade. Não passaria muito tempo até que António Ramos Rosa descobrisse o artifício da concepção, nas páginas de “O Tempo e o Modo”, então a dar os primeiros passos, graças à determinação (e nunca essa palavra foi empregue com tanta propriedade) de António Alçada Baptista. Gribskov nasceu em Nikolsburg, no Castelo dos Príncipes de Dietreichstein, tendo um lema subtilmente estranho: “Spiritus ubi vult spirat”.
 

AS ENCICLOPÉDIAS… 
Dizem as enciclopédias, de um modo muito parco (porque o pensador sempre se protegeu de todas as exposições mediáticas), que Manuel dos Santos Lourenço (1936-2009) licenciou-se em 1963 na Universidade de Lisboa com a tese “A filosofia da matemática de Ludwig Wittgenstein”, fez estudos pós-graduados em Oxford e doutorou-se na Universidade de Lisboa (1980) com a dissertação “Espontaneidade da razão: A analítica conceptual da refutação do empirismo na filosofia de Wittgenstein” (INCM, 1986). Foi leitor de português nas Universidades de Oxford (1968-1971) e de Santa Bárbara, Califórnia, onde trabalhou com Jorge de Sena (1972-1975), tendo exercido ainda funções na Universidade do Estado de Indiana (1976-1980) e na Universidade de Innsbruck (1983-1984). Presidiu à Sociedade Portuguesa de Filosofia (1999-2004) e colaborou em “O Independente”, com uma coluna de culto, sintomaticamente designada “Os Degraus do Parnaso”. Por ocasião da sua morte, quase só assinalada pelos leitores fiéis, José Cutileiro, colega oxoniano, lembrou-nos, no obituário que escreveu, que M.S. Lourenço era uma “cabeça luminosa”, que dizia ter “aprendido a ler em Oxford (e explicava como) para onde fora já licenciado por Lisboa e considerava que o défice mais gritante dos seus alunos portugueses de literatura era a incapacidade de pensarem dedutivamente” (Expresso, 19.8.09). Foi, antes de tudo, um extraordinário filósofo da Matemática e da Lógica, da linhagem de Leibniz, mas também um dotadíssimo tradutor de Wittgenstein, de Beckett e de Joyce, e confirmam todos os que o conheceram pessoalmente que o fino humor que nos deixou sentia-se especialmente no seu convívio quotidiano. O lema pedagógico que tinha, no seu ensino académico, e pode dizer-se na vida, recebeu-o naturalmente de Leibniz (um dos maiores génios de todos os tempos, jurista, matemático, ensaísta, cultor de saberes vários), e era: «sans les mathématiques on ne pénètre point au fond de la philosophie. Sans la philosophie on ne pénètre point au fond des mathématiques. Sans les deux on ne pénètre au fond de rien ». « O Desequilibrista » é um conjunto poético onde o paradoxo aparece como revelador de sentidos contraditórios da vida, à semelhança dos “disparates do mundo” de G.K. Chesterton. Estamos perante uma “ironia transcendente, que encanta assembleias de acrobatas”. Ou seja, o humor serve para revelar as coisas mais sérias do mundo. O sagrado e o profano encontram-se: “Reis destroçados, impérios abatidos a tiro e divididos, rainhas que dançam para riso do público! Tudo isto é dEle e é aí que está o segredo desta história estranha”. O desequilibrismo tem, afinal, a ver com a procura da saúde através das diversas formas de enfermidade, ou da lógica através do contra-senso, como em Alice no País das Maravilhas, onde um professor de Lógica no ensina a entendê-la ao compreender a sua insustentável ausência…
 

OS DEGRAUS DO PARNASO
A dado passo, perante os degraus do Parnaso, encontramos o próprio Carlos Fradique Mendes (símbolo da modernidade insatisfeita) e deparamos com o que M.S. Lourenço considera ser um lapso intolerável. Trata-se da referência à viúva do célebre Pacheco, que manifesta a sua perplexidade pelo facto de Fradique devotar admiração ao imenso talento do defunto marido. Fernando Pessoa não perdoa a Eça esta fraqueza. Fradique é incapaz de sustentar o ponto de vista irónico e, por isso, no fim, deixa-se cair na sátira. Faltaria, deste modo, a distância de Fradique relativamente a si próprio: «não tem capacidade de ser ao mesmo tempo sujeito e objecto da sua própria percepção e, assim, aperceber-se da sua inconsciente transição da Ironia para a Sátira. Fradique é irreflectido, sofre afinal da espontaneidade do provinciano, cuja incapacidade de auto-análise coincide com a incapacidade de decifrar o sentido dos objectos internos analisados». E M.S. Lourenço refere-se às “Páginas de Doutrina Estética” de Fernando Pessoa e lembra os ensaios sobre o provincianismo português e sobre “o caso mental português”. Ambos estão na linha do que Antero disse nas Conferências do Casino sobre “As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares” e do que, num registo irónico, Eça escreveu na “Correspondência de Fradique Mendes”. “São dois ensaios (recorda M.S.L.) mas na verdade só há uma tese, a qual liga os dois ensaios entre si e lhes confere uma direcção única: o português sofre de uma atrofia da consciência, no sentido em que esta só está insuficientemente constituída”. O português mover-se-ia, deste modo, mais à vontade na sátira, com recurso à deformação e ao grotesco, não sendo capaz de chegar ao “raffinement da ironia”, que exigiria a percepção de si próprio (e que impelia Alexandre O’Neill a não levar-se muito a sério). Jonathan Swift foi, aliás, o exemplo maior de cultor com sucesso do estilo irónico, segundo Pessoa. “O homem português tem assim menos sensações, menos percepções, menos emoções, menos estados cognitivos, menos estados volitivos do que em princípio poderia vir a ter”. Haveria, pois, para Pessoa, uma atrofia da alma portuguesa, referindo ainda a “paralisia da alma” ou a “melancolia da impotência”. Falta, no fundo, introspecção – e o lapso de Fradique serve para demonstrar que mesmo no pano mais raro cai a nódoa. Falta sermos sujeitos e objectos da introspecção crítica – a fim de que à força do destino possamos contrapor a força da vontade. Por isso mesmo, M.S. Lourenço, ao falar de projecto europeu, diz que “apesar do instável carácter centrífugo da construção política da Europa, a experiência tem demonstrado a existência irrefutável de um espírito europeu cosmopolita, o qual brilha permanentemente na vivência de uma cultura comum, cuja essência supranacional é o humanismo clássico. Fradique não pode estar em melhor companhia”. E estaremos aptos a entender o que são os Estados de Cultura e os génios dos lugares? “O Caminho dos Pisões” permite, nesta caminhada pela serra de Sintra, entender tudo para além da sombra das acácias em flor…

Guilherme d'Oliveira Martins

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A PALAVRA DE JBC

A PALAVRA DE JBC  


NINGUÉM QUE NÃO TENHA NOME

1 - A colecção chamava-se "Os Grandes Livros da Humanidade". Julgo que se começou a publicar nos finais dos anos 30 do século passado, ou nos inícios dos anos 40. Editou-a a Livraria Sá da Costa, ao tempo em que também editou os famosos "clássicos" que permitiram o acesso efémero a muito do melhor da nossa literatura e da literatura universal.
Mas Os Grandes Livros da Humanidade eram adaptações dos mais "famosos textos", "destinados a promover nos jovens e no povo o gosto pela cultura". Não sei que resultado tiveram junto do "povo", mas desculpa-se o chavão pela generosidade do propósito. Junto dos jovens, por mim falo. Se aprendi a ler, devo-o, em boa parte, a esses livros brancos de capa a cor que me revelaram, era eu criança, a "Peregrinação e a História Trágico-Marítima", o "Caramuru" e a "Crónica do Condestável". António Sérgio, Aquilino, Jaime Cortesão, João de Barros, Marques Braga, etc. foram os adaptadores. Nem sempre brilhantes, mas quase sempre cativadores. O melhor resultado - sempre falando por mim e por aqueles que de mim herdaram - foi alcançado por João de Barros (que eu ainda conheci, a buscar os netos à escola, baixinho, muito branquinho e de monóculo) com a adaptação da "Odisseia" de Homero, que foi o segundo título da colecção. Na capa, figurava-se Polifemo, o Cíclope medonho, aquele que "não se assemelhava / a quem se alimenta de pão, mas antes ao cume cheio de arvoredos / de uma alta montanha, que à vista se destaca dos outros". Imenso e nu, com um só olho na testa, como todos os da sua estirpe, estava sentado no chão de uma gruta, com as partes vergonhosas convenientemente cobertas e segurava na enorme dextra dois jovens que se preparava para comer. Fosse pela capa (de Martins Barata) fosse pela narrativa do célebre episódio, a história do Cíclope que comeu seis dos dez companheiros de Ulisses foi sempre a que mais me fascinou, de entre as terríficas e maravilhosas aventuras de Ulisses, desde que saiu de Tróia, até que aportou em Ogígia, onde vivia Calipso, a deusa de belas tranças, "deusa terrível de fala humana" que dele cuidou e a ele amou (Cantos IX a XII da "Odisseia").
Muito mais tarde, em adaptação de adaptação, bem ao meu jeito e ao meu modo, contei-a aos meus filhos e aos meus netos, não me temendo de assustá-los com os três banquetes antropófagos e com a minuciosa descrição de como Ulisses cegou o monstro, girando no único olho dele o tronco de oliveira em brasa, até o sangue "correr quente em toda a volta". Entre um e outro festim carnal, tinham rido às gargalhadas, quando eu lhes contava como o astuto Ulisses o enganara no nome, dizendo chamar-se Ninguém. "Ninguém é como me chamo. Ninguém chamam-me / a minha mãe, o meu pai e todos os meus companheiros." Mais riam quando, já cego, Polífemo chamava os irmãos cíclopes em seu socorro. "Quem te mata pelo dolo e pela violência?". "Ó amigos, Ninguém me mata pelo dolo e pela violência". E eles iam-se embora, dizendo estas palavras "apetrechadas de asas". "Se na verdade ninguém te está a fazer mal e estás aí sozinho / não há maneira de fugires à doença que vem de Zeus." Ulisses "ria-se no coração", "porque os enganara o nome e a irrepreensível artimanha". É claro - ou é escuro - que eu reforçava Homero entre os versos 385 e 420 do canto IX (porque é que os cantos nonos são sempre os mais libidinosos, é pergunta para que ainda não achei resposta). Polífemo não se ficava com a seca recusa dos irmãos. Na minha versão, também "destinada a promover nos meus descendentes o gosto pela cultura", sem que eu e eles tivéssemos disso clara consciência, Polífemo insistia: "Não! Não! Não se vão embora! Ninguém me faz mal! Ninguém me mata!" Três vezes o repetia, acentuando desesperadamente o Ninguém maiúsculo. Três vezes os outros o repreendiam. "Se ninguém te faz mal, se ninguém te mata, porque nos importunas a esta hora da noite e nos arrancas ao sono?" Entre a maiúscula e a minúscula, entre o nome definido e o pronome indefinido, Polífemo se perdia para gáudio de várias gerações de benardzinhos.
 

2 - Conheci, pois, a "Odisseia", mesmo se contada às crianças, em mui tenra idade e dei-a conhecer a crianças de igual tenrura. Além de Polífemo, o Cavalo de Tróia, Círce "a das muitas poções mágicas", a ilha das duas sereias, Cíla com as doze pernas, os seis pescoços e as três filas de dentes, a Caríbdis temível, sugadora da água escura, e as "robustas ovelhas do sol", pastoreadas pelas ninfas de belos cabelos, Featusa e Lampécia.
Só no fim da adolescência, entre o Pedro Nunes e os corredores do Convento de Jesus, no meio das voltas de muitos eléctricos, me abeirei (Clássicos Sá da Costa) da versão em prosa dos Padres Dias Palmeira e Alves Correia, de que me apartou o português retorcido. Foi nos tempos em que aprendi algum grego e, para meu grande espanto de hoje, juro que a Ana Maria e eu chegámos a traduzir do original os primeiros cem versos do canto I. Mas a plena revelação deu-se com a tradução francesa (em prosa, como a dos padres portugueses) de Mario Meunier, edição da Guide du Livre de Lausanne, que me acompanhou pela vida dentro. Se me lembro do princípio, em francês o recordo: "Quel fut cet homme, Muse, raconte-le moi, cet homme aux milles astuces, qui si longtemps erra, après avoir renversé de Troade la sainte citadelle?" A pouco e pouco, esquecido o português de João de Barros, e ainda mais esquecido o grego dos meus 19 anos e de um explicador diligente e tímido, de quem nem o nome recordo, a "Odisseia" começou a falar-me em francês com um Odisseus de mil astúcias e uma Atena "aux yeux pers", adjectivo que me queriam convencer a traduzir por "glauco", palavra que sempre me pareceu feia, lembrando-me logo horrores de glaucomas. Se sempre esse livro me foi "o livro" (pelo menos tanto quanto A Bíblia), faltou-me sempre, como para A Bíblia me falta, a língua dele. E, nestas coisas, não há volta a dar: ou a língua é a original (e é tarde demais para eu pensar em voltar a aprender grego, de que, néscio, tão cedo me distraí) ou a língua é a minha. Mas, na minha língua, nenhuma "Odisseia" me valia, embora me digam que há uma ou outra de tempos pretéritos e de acesso recôndito que vale a pena consultar.
 

3 - Por isso, o maior acontecimento editorial do ano que acabou há poucos dias foi o lançamento da tradução de Frederico Lourenço, que motivou esta subjectiva digressão, onde todas as passagens citadas entre aspas dele vêm, com a óbvia excepção das autocitações que fiz da minha versão oral para crianças. Publicada pela Cotovia, essa tradução define logo, com clareza e concisão admiráveis, os seus dois objectivos fundamentais: a) colmatar uma lacuna evidente, pois que nenhuma tradução disponível, do original grego e em verso, existia para quem, como eu, procurava uma língua para Homero; b) "Devolver ao leitor de língua portuguesa o prazer do texto homérico. Significa isto que, apesar de vertida do grego e com a máxima fidelidade ao original, não é uma tradução arcaízante nem académica. É uma tradução para ser lida pelo gozo de ler."
Da fidelidade ao original não serei eu, pelas razões que já expliquei, a poder ajuizar. Mas aquela que é unanimemente reconhecida como a nossa maior helenista - falo da Prof. Maria Helena Rocha Pereira, conhecida por ser parca em elogios - já veio a público (creio mesmo que no PÚBLICO) gabar essa fidelidade. Quanto ao "gozo de ler" (e como eu estou agradecido ao Frederico Lourenço por ter tido a coragem de o invocar como objectivo supremo), ele me foi incomparável. Mais ainda quando a leio em voz alta ("além do que é preciso não esquecer que 'A Ilíada' e 'A Odisseia' são textos orais. Não foram concebidos para a leitura. A forma de recepção do texto, implícita na própria contextura poética, é a audição") do que quando a leio em voz baixa. Não me sobra espaço para exemplos. Mas, no "verso aparentemente livre", "no fundo apoiado sobre o hexâmetro" e no ritmo dele, que Frederico Lourenço foi buscar a poetas como Sophia, Ruy Belo ou Eugénio de Andrade, soube ele encontrar a "pulsação das sílabas", num português em estado de graça. E, nesse português, contou a história do regresso a Ítaca de Odisseus, o filho de Laertes, aquele que só disse o seu nome e só contou essa sua história, quando o pai de Nausicaa, a das lindas vestes, lhe recordou que "entre os homens não há ninguém que não tenha nome, uma vez que tenha nascido". E com o meu nome vos digo que um dia, quando assentar a poeira e não restar memória dos "light tops" editoriais de 2003, se saberá que o grande livro escrito em língua portuguesa, neste ano da Graça de Deus, foi "A Odisseia", traduzida por Frederico Lourenço, quando Palas Atena nele insuflou a grande força poética.
 

9 de Janeiro 2004 Público

A VIDA DOS LIVROS

de 8 a 14 de Março de 2010


Alexandre Herculano nasceu há duzentos anos, a 28 de Março de 1810. Assinalamos a efeméride, recordando a obra de António José Saraiva, “Herculano e o Liberalismo em Portugal – Os problemas morais e culturais da instauração do regime (1834-1850)” (Studium, Lisboa, 1949). Estamos perante uma notável interpretação sobre a obra de Herculano, autor que tem sido vítima de uma estranha conspiração de silêncio e a quem tem faltado um estudo biográfico de fôlego, capaz de pôr no seu devido lugar uma das personalidades mais ricas e fascinantes da história portuguesa.
 


 

HOMEM DE UM SÓ PARECER
“No seu lugar têm-se pretendido colocar um recitador de frases acacianas, emoldurado no ‘isolamento’ da Ajuda ou de Vale de Lobos, tão inofensivo como as cinzas que os turistas visitam no mausoléu dos Jerónimos”. Assim referiu António José Saraiva o incompreensível biombo de indiferença que tem escondido a personalidade rica e multifacetada de Alexandre Herculano, que é indubitavelmente uma das grandes e perenes referências da história cultural portuguesa. O historiador foi tudo o contrário dessa ideia vaga. Foi alguém que se singularizou como um português de horizontes largos, um historiador probo e moderno, fiel às provas e à ciência, fundador da historiografia contemporânea, um cidadão comprometido e exemplar. Escritor de perfil clássico, foi dos mais dotados no manejo da língua e uma enorme figura moral – “homem de um só parecer. Dum só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer…”, da têmpera de Francisco Sá de Miranda. Ouvimos ainda os ecos da sua prosa militante: “Que o país seja governado pelo país é a nossa divisa. Como realização deste princípio, temos pugnado pela verdade do sistema parlamentar, apesar do descrédito a que a reacção europeia o tem levado no continente; temo-nos esforçado por incutir aos nossos concidadãos a ideia de que só nele sinceramente respeitado pode estar a nossa marcha segura no caminho do progresso. Por isso temos pelejado contra os que, a troco de promessas de melhoramentos materiais, fecharam os olhos aos atentados dirigidos contra o dogma essencial das nossas crenças políticas. Por isso temos fulminado os escândalos, as malversações eleitorais, os diplomas de representante da nação passados por portaria, e o desprezo calculado dos princípios parlamentares erigidos em sistema pelo Governo actual” (1853). Filho de um recebedor da Junta dos Juros e sobrinho por parte mãe de António Gil, o construtor que deu nome ao célebre Pátio onde nasceu, Alexandre Herculano é um símbolo forte do seu tempo. Estudou na Congregação do Oratório de S. Filipe Neri, nas Necessidades, e depois seguiu estudos na Aula do Comércio, não tendo tido possibilidades, como era seu desejo, de cursar na Universidade de Coimbra. No regresso de D. Miguel parece ter-se deixado influenciar pela nova situação, no entanto muito fugazmente, já que o vemos a partir de 1829 a defender a causa liberal, participando na sublevação de 21 de Agosto de 1831, que o levou para o exílio, primeiro em Inglaterra e depois em França, juntando-se em 1832 na ilha Terceira, nos Açores, à causa da regência de D. Pedro. Nesse mesmo ano, desembarca na praia do Pampelido, entre os bravos do Mindelo. No Porto, é dispensado do serviço militar activo, para ser nomeado bibliotecário na Biblioteca Pública e para reorganizar os fundos das bibliotecas monásticas, a começar na de Santa Cruz de Coimbra. A vitória da causa liberal encontra-o entregue ao estudo e à renovação da historiografia. Na Revolução de Setembro de 1836, mantém-se fiel à Carta, que jurara, e escreve “A Voz do Profeta”, onde critica a nova situação, afirmando o seu cristianismo, contraditório não com a liberdade, mas com o despotismo, não com o novo, mas com o antigo regime, e procurando uma plataforma onde se encontrem o livre exame e a autoridade. Na redacção da revista “O Panorama” (1837) e na direcção do “Diário do Governo” demonstra as suas qualidades de escritor e pensador. É um homem dividido entre o respeito da tradição e a rejeição das superstições. Para ele, o soldado liberal deveria hastear a cruz sobre o pendão da liberdade e tornar-se apóstolo da “fraternidade espiritual”. Em “O Pároco da Aldeia” (1844) procura conciliar as antigas formas rituais com a liberdade, o tradicionalismo e o reformismo, sob as influências do ecletismo de Collard, Cousin e Maine de Biran. Concorda com a Constituição de 1838 por entender ser positivo o compromisso alcançado. É o tempo da “Harpa do Crente”, obra poética que conhece significativo êxito. D. Fernando II, seu amigo e admirador, nomeia-o director das bibliotecas reais da Ajuda e das Necessidades. Sob influência de Rodrigo da Fonseca, consegue ser eleito deputado pelo Porto, nas eleições de 1840. O Parlamento não vai ser, porém, um lugar onde Herculano se sinta à vontade. Propõe, no entanto, uma importante iniciativa no campo do ensino popular com Vicente Ferrer do Neto Paiva. Com a restauração cartista de 1842, assume uma posição critica. Depois de uma primeira atitude de neutralidade, conclui que o consulado de Costa Cabral é negativo para o país. A sua residência da Ajuda torna-se centro de conspirações da oposição. Os anos quarenta são, no entanto, um período fecundo da sua criação literária e das suas reflexões históricas. “Eurico, o Presbítero” é de 1844 e o primeiro volume da “História de Portugal” sai em 1846. Aí, recusa as interpretações providencialistas (o que gera grandes incompreensões nos meios conservadores), e encontra “a verdadeira origem da independência de Portugal” na ideia de nacionalidade portuguesa, “ideia que amadurecera e radicara nos ânimos de modo indestrutível e que sucessivamente se apoderara dos espíritos do Conde D. Henrique, de D. Teresa e do filho deles”. Sente-se a influência eclética de Collard, que leva, por exemplo, a explicar o desaparecimento da servidão da gleba pela semente de liberdade contida no Evangelho ou a afirmar que é o impulso moral que aviventa instituições fundamentais como os municípios.


ALMA DA REGENERAÇÃO

A clara desafeição em relação à política de Costa Cabral por parte do próprio rei D. Fernando II leva Herculano a romper em 1850 com a neutralidade que cultivara, assinando à cabeça o protesto dos intelectuais portugueses contra a lei das rolhas. O exemplo e a casa de Herculano tinham sido bases fundamentais para a preparação e concretização do golpe de Estado regenerador de 1851, chefiado por Saldanha. Pode dizer-se que a alma da Regeneração começa por ser Alexandre Herculano. O movimento impor-se-á, por isso, graças, em parte significativa, ao penhor moral que Herculano lhe emprestou, mas o historiador depressa compreendeu que não eram as suas ideias ou o seu grupo (de antigos setembristas) os que prevaleciam. Rodrigo da Fonseca domina o novo partido Regenerador, e Herculano considera ser isso negativo, sendo fundamental criar um pólo político de alternância, que será o partido histórico, em cuja criação e concretização se empenha. Nasce primeiro “O País”, e depois “O Português”, jornais críticos da lógica situacionista de Rodrigo. O escritor torna-se um militante activo da reforma nacional no sentido da concretização da legislação de Mouzinho da Silveira, da liberdade económica, do fim dos constrangimentos políticos e sociais do antigo regime, da concretização do programa municipalista contra o centralismo, das mudanças agrícolas e do proteccionismo. Numa palavra, deveriam criar-se condições para que o país governasse o país. Os últimos anos da sua vida são marcados pela polémica e pela crítica severa do clericalismo. No entanto, Alexandre Herculano manter-se-ia fiel ao seu espírito de sempre: o da procura de uma síntese fecunda entre a tradição e a modernidade, com um empenhamento intenso pela reforma do país, de modo a combater o atraso e todas as formas de intolerância. A partir de 1867 tornar-se-á agricultor em Vale de Lobos, num gesto moral de recusa do conformismo e da indiferença. No entanto, nesse período final da vida Herculano seria procurado pela juventude intelectual como referência e exemplo. Que magnífico sinal de vitalidade intelectual e cívica!

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

de 1 a 7 de Março de 2010

A mais recente biografia de Eça de Queiroz da autoria de A. Campos Matos (“Eça de Queiroz - Uma Biografia”, Afrontamento, Dezembro de 2009), suscitada por um desafio ao autor para escrever sobre a vida do célebre romancista para leitores de cultura francesa, é um novo instrumento fundamental para quem queira conhecer bem o romancista genial de “Os Maias”.
 


 

O DEVER DO ARTISTA
“Constitucionais, socialistas, miguelistas e jacobinos, de resto, para nós romancista, são todos produtos sociais bons para a arte, quando são típicos, todos igualmente explicáveis, todos igualmente interessantes. O dever do artista é estudá-los, como o botânico estuda as plantas, sem se importar que seja a beladona ou a batata, que envenene ou nutre”. Assim se exprimia Eça de Queiroz em 1878, dirigindo-se a Joaquim Araújo (in “Notas Contemporâneas”). A citação serve para ilustrar a preocupação de objectividade do romancista, fiel aos cânones naturalistas que procurava seguir. No entanto, apesar desta posição de princípio, há uma atitude de não neutralidade, em face da sociedade contemporânea. O percurso ideológico queiroziano apresenta continuidades evidentes, mas também uma evolução gradual com rupturas, que não esconde a coerência intrínseca que a “geração” sempre teve, nos vários momentos da sua intervenção, sob a influência marcante do patriarca Antero de Quental. E Carlos Fradique Mendes pôde dar a sua achega sobre esta questão, deste modo: “Em resumo adoro a Vida – de que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga, uma constelação e (com horror o confesso) o conselheiro Acácio”.
 

TEMPERAMENTO CONSPIRADOR
José Maria Eça de Queiroz começa por confessar o seu “temperamento conspirador”, a sua costela socialista, a sua admiração pela Comuna, mas em “As Farpas” afirma: “Detestamos o facho tradicional, o sentimental rebate a sinos; e parece-nos que um tiro é um argumento que penetra o adversário – um tanto de mais!”… No fundo, defendia uma revolução pacífica, “preparada na região das ideias e da ciência”, influenciada por uma “opinião esclarecida”, numa palavra, uma “revolução pelo governo”. Contudo, ao longo das páginas das referidas “Farpas”, encontramos o assumir do que designa como um “panfleto revolucionário”, que punha “a ironia e o espírito ao serviço da justiça”, enquanto causas semelhantes às dos Gracos, de Spartacus, de Moisés ou de Cristo… E, dez anos passados sobre o movimento revolucionário de Paris, dirá: “os vencidos de então são hoje cidadãos formidáveis, armados não de uma espingarda revolucionária, mas de um legal boletim de voto, e que, em lugar de erguer barricadas nas ruas, fazem deputados socialistas nas eleições”. Proudhon, o autor lido e venerado no Cenáculo de S. Pedro de Alcântara, entre a fumarada dos cigarros dos jovens amigos de Antero, continuará bem presente no pensamento inconformista do autor de “A Relíquia”. E não se preocupava ainda o Fradique tardio com a “miséria das classes – por sentir que nestas democracias industriais e materialistas, furiosamente empenhadas na luta pelo pão egoísta, as almas cada dia se tornam mais secas e menos capazes de piedade”? E não disse o próprio Eça, com apenas 22 anos de idade, no “Distrito de Évora” que “as revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade”? O certo é que esta mesma preocupação (pela justiça e pela igualdade) vemo-la projectada, mais tarde, desde o conto “S. Cristóvão” à crónica “Um Inverno em Paris” dos últimos anos, para não falar nos ecos do poderoso ensaio de Antero de Quental sobre as “Tendências gerais da Filosofia na Segunda metade do século XIX” que Eça glosa, aludindo ao “Bem Supremo, fim verdadeiro de toda a vida, fim divino a que tende o Universo. Em resumo, a lei moral do homem é o constante aperfeiçoamento e progressiva santidade”.
 

O CASO DE GONÇALO
Misteriosamente encontramos em “A Ilustre Casa de Ramires” algo que o brasileiro Álvaro Lins descobre com perspicácia: “mais do que em João da Ega, é em Gonçalo Ramires que Eça pode ser encontrado. João da Ega será uma imagem da sua mocidade, dos seus projectos, das suas ‘blagues’, do seu tipo exterior e convencional – de tudo o que ele seria se tivesse falhado. Mas em Gonçalo, a mais analisada e a mais conhecida das suas personagens, é onde Eça está. Onde estão, pelo menos, alguns dos seus sentimentos mais fortes, da sua maneira de ser, da sua posição em face da vida. E é curioso que Gonçalo, ao contrário de Fradique, sendo Portugal, sendo Eça, sendo o homem-português, permaneça ainda Gonçalo Ramires. Nem o sectarismo, nem o sentimento, nem o patriotismo, em Eça de Queiroz – nada, nem ele mesmo – perturba a criação artística”. Beatriz Berrini falará, por isso, de um “intelectual discrepante”. E nesta discrepância está o curioso paradoxo que leva Eça (e os seus amigos) a serem considerados como “Vencidos”, quando de facto são vencedores (“Victus sed Victor”), quer pela influência decisiva que se estende aos nossos dias, quer pela mensagem, a um tempo crítica e mobilizadora, de recusa terminante de derrotismo ou desistência, já que eles, de facto, não baixaram os braços. E a contradição de Gonçalo é claríssima, sabendo que a História, mais do que um motivo de orgulho retrospectivo torna-se demonstração de que a responsabilidade fica do lado da acção… Basta, aliás, ler Antero em “A Província” no texto “Expiação”, na sequência do Ultimatum inglês: “o nosso maior inimigo não é o inglês, somos nós mesmos. Só um falso patriotismo, falso e criminosamente vaidoso, pode afirmar o contrário. Declamar contra a Inglaterra é fácil: emendarmos os defeitos gravíssimos da nossa vida nacional será mais difícil, mas só essa desforra será honrosa, só ela salvadora. Portugal ou se reformará política, intelectual e moralmente ou deixará de existir”. Se dúvidas houver, aqui está uma atitude positiva, não fatalista, motivadora, virada para diante.
 

SOMBRA OMNIPRESENTE
Há muito que conhecemos todo o trabalho do Arquitecto A. Campos Matos de muitas décadas a fazer o inventário exaustivo de tudo o que diz respeito a Eça. Quando publicou as “Sete Biografias de E.Q.” fez uma apreciação a propósito desses diferentes registos e leituras da vida do romancista. Afinal, nos dias de hoje, a sombra de Eça de Queiroz sobre o nosso tempo define-se, em bom rigor, a partir de diferentes perspectivas, que podemos encontrar, em parte, nestas biografias. Miguel Melo (1911), António Cabral (1945), Viana Moog (1945), João Gaspar Simões (1945 / 1980), Luís Viana Filho (1983), José Calvet de Magalhães (2000) e Maria Filomena Mónica (2001) representam as diversas leituras possíveis. E, afinal, temos de recordar (com o exaustivo autor da obra hoje referenciada) a afirmação de Virgínia Woolf: “um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma vaga de discursos críticos sobre si, mas que continuamente se livra deles”. É a vida própria das obras clássicas que tem de ser lembrada, e, no caso de E Q., a relação indissociável entre a obra e o autor é particularmente importante, uma vez que há uma intenção transformadora da sociedade (como foi defendido na conferência do Casino Lisbonense) no acto de escrever. A biografia de A. Campos Matos é um repositório rigoroso e exaustivo, constitui um trabalho de minúcia e beneditino, de longa data. Como o próprio tem afirmado, não se trata, porém, de substituir obras anteriores da mesma temática, mas sim de arrumar ideias e elementos, tantas vezes perdidos ou esquecidos entre considerações subjectivas ou momentâneas. Nesse sentido é um bom serviço prestado à cultura portuguesa, que completa ou sistematiza elementos já constantes noutras obras do autor (fotobiografia, epistolografia, dicionário). Permito-me salientar a inclusão da cronologia geral da vida e obra (da maior utilidade), a referência especial à amizade fraterna com Oliveira Martins e à influência exercida pelo “Portugal Contemporâneo”, a análise das controversas relações com Ramalho Ortigão e Jaime Batalha Reis, das polémicas com o inefável opositor Manuel Pinheiro Chagas, do confronto com Camilo Castelo Branco, da presença de Eduardo Prado (com o delicioso episódio dos empenho do brasileiro para que Eça vá para o Rio, contra a sua vontade – “Safa, que Prado! E ainda por cima tive de te mandar um telegrama que me custou mais de dois francos. Foi por quanto me ficou essa legação”, com dirá a Bernardo Pindela), isto além do encontro com António Nobre, excelente oportunidade para termos um curioso retrato do escritor fora do círculo dos mais próximos… A biografia agora disponível merece ser uma segura obra de referência, para ter sempre à mão quando se tratar de Eça de Queiroz e da sua geração – o que é já muitíssimo.

Guilherme d'Oliveira Martins

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