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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 


31 de Maio a 6 de Junho de 2010

"O Chiado Pitoresco e Elegante" de Mário Costa (2ª edição, 1987) é um repositório de memórias despretensiosas sobre um lugar fundamental para a compreensão da cidade de Lisboa. Aqui foi o limite da cidade quando se fez a muralha fernandina, aqui foi estabelecido o culto aos Mártires de Lisboa desde a reconquista, aqui eram as Portas de Santa Catarina… E nos dois últimos séculos aqui se passou tudo o que de mais relevante teve a história de Lisboa – de Eça de Queiroz a Almada Negreiros, aqui a criatividade e a inovação campearam…

 

 

CENTRO DE GRAVIDADE
Lisboa tem como centro de gravidade o Chiado. Não é, porém, apenas uma placa giratória, é uma referência de vários tempos e de diversas gerações. Naturalmente que a Lisboa pombalina é uma marca indelével, contudo, só se compreende a personalidade citadina através do Chiado e da sua História. Gustavo de Matos Sequeira disse, por isso: “o Chiado é um símbolo em Lisboa; é um corpo doutrinário de princípios alfacinhas, é a síntese romântica do século XIX, como foi a síntese do gongorismo político de 1600. É sua excelência – o Chiado”. E Luís de Oliveira Guimarães, que ainda conheci como um intérprete singularíssimo, que se confundia com o próprio Chiado, afirmou: “Pode S. Bento ter-se convertido no símbolo da Política; o Terreiro do Paço no símbolo da Burocracia; a Rua das Capelistas no símbolo da Finança; o Chiado alcançou o privilégio de os superar a todos, porque se converteu no símbolo do Bom-Tom. Passando a pontificar na Literatura e na moda, consequentemente os homens de letras passaram a escrever para o Chiado, os janotas a apurar-se para o Chiado, as Senhoras a vestir-se para o Chiado”. Razão tem José-Augusto França ao dizer que a capital de Lisboa é o Chiado! Assim o Chiado tornou-se, ao longo do tempo uma verdadeira “instituição nacional”. E a quem se deve a designação do Chiado? Talvez a António Ribeiro Chiado, o poeta que por aqui viveu no século XVI ou talvez a Gaspar Dias, o Chiado, possuidor de uma venda de comes e bebes próximo da esquina da Rua do Carmo com a actual Rua Garrett. Mas não importa saber quem foi verdadeiramente o Chiado, o que interessa é dizer com Eça de Queiroz: “o que um pequeno número de jornalistas, de políticos, de banqueiros, de mundanos decidir no Chiado que Portugal seja – e que Portugal é”. Talvez não seja já exactamente assim. Mas a verdade é que, depois do tremendo incêndio de 1988, Lisboa e o País ficaram órfãos do Chiado – e se, num primeiro momento, se suspeitou que a instituição nacional poderia ter sido ferida de morte, a verdade é que a ressurreição foi possível, com inteligência e muito esforço. O Chiado esteve condenado. Deixou de ser o lugar mágico de que não se poderia prescindir.

MALES QUE PODEM VIR POR BEM
Mas há males que vêm por bem, e a reconstituição levou gradualmente (com uma lentidão por vezes exasperante) a que a vida retornasse ao Chiado. Álvaro Siza Vieira reforçou a personalidade antiga. E o novo Chiado não fez esquecer o antigo, antes o recorda e reforça. Mas teve de haver uma âncora inovadora a trazer de volta as pessoas ao Chiado – e que melhor do que a literatura para fazê-lo? Foram os livros, os discos, a informática da FNAC que fizeram a diferença e que atraíram, pela novidade, novos públicos ao Chiado, para fazer reviver a velha glória, que renascia jovem e sofisticada, moderna e atraente. A vida começou a regressar ao Chiado, atraindo aqueles que começam a ficar cansados da sensaboria dos centros comerciais, em que o ar condicionado nunca poderá substituir o contacto directo com os elementos da cidade. Mas o comércio renascido não foi o tradicional, o que conhecíamos antes. Desde o incêndio até ao renascer já tinha passado uma geração. E uma geração nova exige novidade. Obriga a coisas novas, de sabor cosmopolita, com lojas, galerias de arte, música, museus, teatro, tertúlias, clubes, cafés literários – numa palavra, tudo o que pudesse fazer regressar à vida uma instituição nacional. De facto, a História só faz sentido e merece ser recordada se se traduzir nos dias de hoje em algo sentido e vivido. Se o café de agora não tiver qualidade, de nada valerá lembrarmo-nos do cheiro dos cafés antigos se hoje não forem mais do que memórias remotas ou sombrias reminiscências de uma decadência que nos desgosta. A Livraria Bertrand, a antiga, a Brasileira do Chiado, a Casa Pereira da Conceição recuperaram o brilho antigo porque renasceram no ambiente actual, beneficiando de tudo o que era novo, e de todos os que ou morreram ou não puderam regressar ao eterno Chiado. Podemos, assim, fechar os olhos e lembrar-nos do Chiado antigo (do elevador do Ramiro Leão, do José Alexandre, da antiga Ática, do Jerónimo Martins), certos de que o lugar moderno que nos é dado ver quando regressamos ao presente nos é acolhedor, à luz de critérios actuais. Lembramo-nos do velho Gualdino Gomes a pedir ao empregado da Brasileira um bolo fresco com um café, e a insistir na pergunta sobre se estava mesmo fresco. O criado respondeu: “Acabou mesmo de chegar!”. Ao que o crítico disparou irónico: “Ora essa, eu sou muito velho e também acabo de chegar…”. Gualdino tinha razão. Para ser fresco no Chiado não basta acabar de chegar, é fundamental chegar como se fosse a primeira vez, como ensinou Almada Negreiros, primeiro dos heróis do Chiado moderno. “Chegar a cada instante pela primeira vez” – Almada escreveu-o à mão para Maria Germana Tânger, e aprendi de cor esse ensinamento lendo-o e relendo-o na sala do Largo de S. Carlos, em casa da mestra da arte de dizer, no centro do Chiado. Mas afinal os monumentos históricos só fazem sentido se não se arruinarem na decadência e no esquecimento. O antigo Café Marrare do Polimento é ainda lembrado porque o Chiado vive. Pinto de Carvalho (Tinop) chamou-lhe “o mais notável pasmatório do Chiado, o primeiro palratório da velha Olisipo”… Aí se encontravam Passos Manuel, Herculano e José Estêvão. Mas depois veio o Grémio Literário e o seu sucesso, criado em oposição ao Cabralismo. E há quem atribua o fim do Marrare à voga do Grémio. O certo, porém, é que se instalava a moda dos clubes, à inglesa, antecâmara política dos partidos e dos arranjos governamentais. Alexandre Herculano lançou da Ajuda para o Chiado as bases da Regeneração e do rotativismo – como forma de representar o País real, que estivera de armas na mão em guerra civil. Mas havia ainda o Turf e o Tauromáquico, lugares de encontro de gente endinheirada. E no século XX, António Ferro criaria o Círculo Eça de Queiroz, marca de uma outra época mas do espírito do Chiado – retratado por Bernardo Marques, com o traço inconfundível, que misturava pessoas com fantasmas e fantasmas com fantasmas, desde os frequentadores reais do Chiado aos imaginários e inconfundíveis heróis da narrativa queiroziana. Fradique Mendes abanca em qualquer das mesas do Chiado, e faz daí mote e glosa para longas cavaqueiras.

TANTAS RECORDAÇÕES
Lá está a Casa Havaneza, onde se compravam os melhores puros e o tabaco mais requintado de Lisboa. Era o Club des Bavards da Princesa Rattazi ou apenas uma Academia da Má-Língua. Eça imortalizou a Havaneza, lugar de encontro obrigatório de quem se prezasse. “O Chiado, muito claro, estava na sua hora viva, e Artur (em “A Capital!”) direito no assento, ia devorando com os olhos os lugares que amava: a Casa Havaneza, a janela do seu quarto, lá em cima no Universal – que ferro ir-se! – e o Baltresqui, com os ‘lunchs’ às duas horas, e o Godefroy, onde comprava frasquinhos de feno para a Concha!”. E como não lembrar o tímido Cesário – acusando de troca-tintas quem lhe chamou Azul… No abaixo acima do Chiado há, já o dissemos, a Bertrand, onde trabalhou José Fontana, amigo íntimo de Antero. António José Saraiva colocou, aliás, esses dois amigos no centro da magnífica “Tertúlia Ocidental”. E havia o Jerónimo Martins, casa que comercializava os azeites de Herculano, que vinha a Lisboa fazer contas dos livros na Bertrand e dos produtos agrícolas na Mercearia Fina. E, falando da Bertrand, temos um ror de figuras, desde Aquilino, Raul Brandão, Raul Proença, Teixeira de Pascoaes, Anrónio Sérgio, Carlos Malheiro Dias, Afonso Lopes Vieira, Reinaldo dos Santos, Abel Manta, Manuel Mendes, Vitorino Nemésio e tantos, tantos outros. Na Brasileira, onde iam tantos frequentadores da Bertrand, pontificavam os artistas. Aí poderemos lembrar Jorge Barradas, António Soares, Eduardo Viana, José Pacheko, Almada Negreiros, Bernardo Marques, Ofélia Marques e Stuart de Carvalhais. O grupo do Orpheu aqui teve um dos seus pontos de irradiação. Hoje, Lagoa Henriques imortalizou essa geração, sentando a uma das mesas Fernando Pessoa, ele mesmo. Imaginariamente, estão em espírito, sentados com ele Almada, Sá Carneiro, Luís Montalvor, José Pacheko e António Ferro. Se entre o Hotel Braganza e o Tavares Rico se moviam os Vencidos da Vida, entre a Brasileira, o Teatro S. Luís e o Chiado Terrasse estavam os modernistas – escandalizado e abalando os fundamentos frágeis da sociedade lisboeta. É o Chiado eterno que se move, cheio de celebridades antigas. Já quase se perdeu a lembrança da Muralha Fernandina, das Portas de Santa Catarina, do Neptuno e do tritão (que agora foi lá para os lados da Estefânia), das grandes festividades que rodearam a inauguração da estátua de Camões, do escândalo causado pela estátua de Eça de Queiroz – sob o manto diáfano da fantasia, a nudez crua da verdade… Mas recordamos a despedida desesperada de Luísa, à porta da Basílica dos Mártires, com o Conselheiro Acácio incapaz de compreender o embaraço da protagonista de “O Primo Basílio”. O Chiado é um mundo. Continua a ser um mundo. Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, Fernando Amado, ainda Almada Negreiros (sempre ele), António Alçada Baptista, Helena Vaz da Silva – ainda pontificam no Centro Nacional de Cultura. As memórias mais antigas misturam-se com as mais modernas. Chiado, crónica de uma queda e de um renascimento. É o que podemos dizer agora, por entre mil recordações…

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões na Renascença

A PALAVRA DE JBC


ÚLTIMA SEXTA-FEIRA

1. De 27 de Maio de 1988 a 27 de Maio de 2005 (nestes dois anos, 27 de Maio calhou a uma sexta-feira), habituei-me ou habituaram-me a ler crónicas minhas nas páginas de um jornal. Primeiro, nos bons tempos de O Independente, que nasceu faz hoje 17 anos e talvez seja eu o único a lembrar-me. Here"s looking at you kid, e o kid é o Miguel Esteves Cardoso, que não vejo há que anos, embora não lhe perca o retrato aos domingos no Diário de Notícias. Entre "casas encantadas" (pois, pois, A Casa Encantada também faz hoje 17 anos) e saques de Roma, por lá andei até Novembro de 2001 ou coisa que o valha, pois sempre fui melhor a datar inícios do que fins. Depois, desde 12 de Julho de 2002 (eu não vos dizia?) aqui no PÚBLICO e já lá vão quase três anos. Ontem (estou a falar do meu ontem de escritor, e não do vosso ontem de leitores) telefonaram-me a dizer que ninguém sexta toda a vida e que aos 17 anos já tenho tamanho para me vestir de domingueiro. Trocado por miúdos: à sexta-feira deixa de haver "casas encantadas", J. B. C. e conversas de farrapos. Mas nada se perde. Só se transforma. Conversas destas, encantos destes e gente como eu fica melhor ao domingo, para ler na cama até tarde, para levar para a pesca ou para levar para a caça, conforme as estações, os tempos e os modos. Animal de hábitos que sou, virei-me um bocado na cadeira (de couro), mas não tinha nenhuma razão crisálida para dizer que não. Nunca gostei de domingos? É bem verdade e já não gostava 50 anos antes de 1988. Nem dos domingos de Carnide nem dos domingos de pastéis de Belém. Nem dos domingos de Paris, que me lembram o desaparecido que sentia comovido os domingos de Paris (as aspas caíram na tipografia), nem dos domingos da Arrábida, com aquela confusão de camionetes e o pó encarnado a esvoaçar. Nem dos domingos engarrafados da Praia Grande, nem dos domingos dos estádios em que o Barrosa falhava penaltis. Mas também não é aos domingos que tenho que escrevinhar coisas quejandas e, para as reler, narcisicamente, sobra-me tempo, meu Eco. Ao princípio irei estranhar, depois vou-me habituar. Mas sinto um nozinho na garganta, assim como se me despedisse. Não há de ser nada.

2. Mas a verdade é que o dia de ontem me foi muito especialmente especial. Devia estar a lua no carneiro, como diz o Alberto, com quem bebi catarinas à beira-rio. Ao menos bebemos vinho com nome de santa, como ele me lembrou, a certa altura, que alguém dizia em tempos que já lá vão. No carneiro ou não, ia alta a lua, essa lua que, só um bocadinho mais baixa, eu tinha acabado de deixar em Veneza, na antevéspera. Há gente que nasceu com o rabo virado para a dita e nesta semana eu senti-me uma delas. Chegou a altura de vos fazer um desenho, daqueles que me ensinaram há pouco tempo a fazer, para perceberem que não ensandeci definitivamente e que tudo isto pode ter mais nexo do que parece, aliterando ou não. Vamos lá a ver se nos entendemos, que, se não, nem no domingo que vem me convidam para a festa e esta é mesmo a minha última sexta-feira.

3. Subitamente, e por razões que agora não vêm ao caso, mandaram-me ir a Veneza no fim-de-semana passado. Se eu vos contasse o que lá fui fazer, ainda mais louco ou ébrio vos pareceria. Por isso, fico-me por uns instantâneos e julgue-os quem não pode experimentá-los. Nunca me falaram em Veneza sem que eu estremecesse de cima a baixo muito mais do que estremeceu a criada do Tartuffe. Desta vez, medi-me o pulso e não senti nada. Era como se me dissessem que no dia seguinte ia até Vila Franca de Xira. Já estava um bocado preocupado (e outros por mim), preocupado fiquei ainda mais. Mas logo que o táxi castanho largou à desfilada pela lagoa, os fantasmas desapareceram atrás dos postes e renasceu-me a alma nova que tinha metido nem sei bem onde. Depois, o barco moderou a velocidade e, num fim de tarde inacreditavelmente luminoso, desembarquei à porta do Danieli, onde muitas vezes bebera uns copos, mas onde nunca tinha ficado. E fosse pelo Danieli, fosse pelo que fosse, quando saí do hotel a caminho de São Marcos vi coisas que tinha obrigação de ter visto mais vezes, mas que via agora pela primeira vez.
A bem da contenção, fico-me por cinco, que se vai fazendo muito tarde.

4. Reparei que no ângulo sudoeste e no ângulo sudeste do Palácio dos Doges, quero eu dizer no ângulo entre a Margem dos Escravos e a Piazetta e no ângulo entre o Palácio e a Ponte dos Suspiros, os dois capitéis celebram dois dos mais célebres nus da nossa génese. O primeiro mostra-nos Adão e Eva depois de comerem do fruto proibido. Não há serpente, não há deuses. Apenas dois ramos da árvore, um para cada lado, se vão cravar nos sexos de Adão e Eva, simultaneamente os cobrindo e simultaneamente os designando como origem de todo o bem e de todo o mal. O segundo capitel refere-se a um dos episódios mais obscuros do Antigo Testamento. Noé, após ter bebido em demasia, cai no chão a dormir, quase nu, só com as vergonhas cobertas por um trapo. Os filhos surpreendem o velho em tais preparos. Que pensam ou que concebem? Desnudar o pai, ou seja, retirar o trapo para verem o que este cobre. Por que é que o sexo é a obsessão mais visível do Palácio na fachada fronteira ao mar de que Veneza era sereníssima senhora, é coisa que não sei explicar nem nenhum Ruskin me explicou. Mas são essas as armas que desfralda em todo o sentido da palavra, e a história do pecado da carne começou a escrever-se em pedra no século XIV nesse "meravigliosi spigoli di pietra".
Depois de reparar no sexo reparei no sangue. Na fachada que dá para a Piazetta, o cor-de-rosa evanescente da fachada e das colunas (o cor-de-rosa mais cor-de-rosa alguma vez alcançado) é interrompido duas vezes em duas colunas, que contrastam com todas as outras por um encarnado fortíssimo. Porquê? Aí mo explicaram. Entre essas duas colunas eram anunciadas as penas de morte decretadas pelo Conselho dos Doges. Junto à morte, detinha-se o rosa e o sangue o substituía, efémero e brutal. Aliás, o mesmo sangue é cor da coluna de um metro que hoje está junto à Igreja de São Marcos, mas, em tempos idos, estava entre a coluna de S. Marcos e a de S. Jorge, frente ao mar. Sobre esse tronco de pedra eram degoladas as vítimas que tinham como última visão o dragão vencido ou o leão alado. Reparei - e aí mais parei do que reparei - que, perto do Rialto, na Igreja de San Salvador está a Anunciação mais terrível que alguma vez vi, obra célebre de Tiziano, que mil vezes vira em reproduções e só agora vi em carne e osso. Porque se cobre a Virgem com um véu à aproximação de um Arcanjo aterrador, com asas colossais que dominam o quadro enorme? Porquê tanta luz e tanta cor a acompanhar a descida do Espírito Santo rodeado por anjos álacres e pulcros? Ao fundo, no altar-mor da mesma Igreja, a Transfiguração, também de Tiziano, mostra-nos que nenhum dos Apóstolos conseguiu fitar as vestes branquíssimas de Cristo, estabelecendo uma divisão claramente platónica entre o que cega os homens das cavernas (os apóstolos) e o que iguala as Ideias da Luz (Cristo e os profetas). A quinta coisa em que reparei foi num palácio do Grande Canal, que é dos mais belos e mais ogivados. Ca D"Ario chama-se. O meu guia de ocasião informou-me que estava à venda e que há 50 anos o estava. Porquê? Porque se diz que uma maldição primeva atingirá todos os seus proprietários e até hoje ninguém escapou. Sabem quem foi o último presumível comprador, que chegou a dar sinal, mas que à última hora teve mais medo do que dinheiro? Woody Allen.

5. À noite debrucei-me da janela do meu quarto, num dos últimos pisos do Danieli, e olhei para a água negra cá em baixo, no pequeno canal dos dragões, onde algumas gôndolas jaziam. Em frente, havia uma casa com um belo jardim e, entre as janelas entreabertas, pareceu-me descortinar um vulto que lia de costas viradas para a janela e para mim.
Sem saber porquê, esse choque da luz da janela entreaberta com o escuro da água fechada, esse choque da horizontalidade fronteira com a verticalidade abissal, pareceram-me repetir e recapitular a imagética das fachadas do Palácio dos Doges, os segredos de Tiziano, e continuar a cantar e a contar os cantos eróticos e líricos de fé e de ferro, de sangue e de ouro, de madrepérola e pórfiro que em Veneza se ouvem a cada esquina e em cada rua.
"Senza rumor" dizia, no Senso de Visconti, Franz para Livia, naquele quarto dos Fondamenti Nuovi, onde se abrigavam para as suas tardes de amor. "Senza rumor" voltei a ouvir Veneza agora, ao luar de Maio sobre o terraço do Danieli, ou à cor dos cometas abraçando de rosa e piedade o Palácio dos Doges. Palácio feito também da matéria de que os cometas são feitos ou de que eram feitos, nos contos de fadas os fatos, da cor do vento e da cor das nuvens de princesas enfeitiçadas. E um dia, enfeitiçado, já estava de novo em Lisboa, como se nada se tivesse passado e como se não tivesse estado a fazer de Caronte, à proa de uma gôndola entre os dragões de Carpaccio e os anjos músicos do Bellini de San Zaccaria. Esta é a vida de hoje? Não, esta foi a minha vida de ontem, o dia dos impossíveis acontecidos. Até domingo, 5 de Junho, dia dos anos da Tia Zina.

27 de Maio 2005 PÚBLICO.

A VIDA DOS LIVROS

 


de 24 a 30 de Maio de 2010

Rosalia de Castro (1837-1885) nasceu em Santiago de Compostela e morreu em Padrón, sendo justamente considerada a fundadora da literatura galega moderna. 17 de Maio, data da publicação de “Cantares Gallegos” em 1863, é o “Dia das Letras Galegas”. Esta obra constitui, aliás, o primeiro livro escrito em galego numa época em que a língua galega deixara de ser usada como idioma escrito e literário. Muitos poemas deste livro são glosas de cantigas populares, onde a autora procura ir ao encontro das tradições, também denunciando as dificuldades a que estava sujeito o seu povo. Oiçamo-la: “Así mo pediron / na beira do mar, / ó pé das ondiñas / que veñen y van. / Así mo pediron / na beira do rio / que corre antre as herbas / do campo frorido” ou “Nas portas dos ricos, / nas portas dos probes / qu’aquestes cantares / a todos responden”. No entanto, Rosalia soube sempre associar o seu testemunho pessoal, os seus sentimentos e o seu talento literário na sua rica criação. A cada passo, sentimos a memória de uma sociedade antiga, onde a alegria e a simplicidade se aliam à melancolia e à lembrança.


CRÓNICA DE UMA VIAGEM A SANTIAGO

Vim a Santiago a convite da Faculdade de Filologia, graças à simpatia da Reitoria da Universidade e da cátedra UNESCO de literatura portuguesa, e ao empenhamento e amizade de Maria Isabel Morán Cabanas. E escolhi para falar o tema da convergência de identidades culturais e linguísticas. Ao visitar a Catedral, comecei logo por ouvir Rosalia de Castro: “O Sol poniente, polas vidreiras / da Soledade, lanza serenos / rayos, que firen descoloridos / da Gloria os ánxeles i o Padre Eterno. / Santos e apóstoles, védeos!, parece / cos lábios moven, que falan quedo / os uns cos outros, i aló n’altura / do ceu a música vai dar comenzo, / pois os gloriosos concertadores / tempran risoños os instrumentos” (Follas Novas, 1880). Perante o Portal da Glória, apesar dos andaimes das obras, senti uma especial reverberação. Era a poesia antiga que vinha ter comigo naquela manhã muito fria de Março, em que o sol matutino anunciava um dia glorioso. As culturas afirmam-se pela diversidade e pela capacidade de gerarem caminhos diferentes susceptíveis de se enriquecerem mutuamente. A Galiza é um ponto de encontro e um ponto de partida. E em Santiago de Compostela, campo das estrelas, lembramos a importância do caminho de peregrinação, como símbolo de convergência de diversas origens. E há uma vocação europeia (e universalista) neste encontro de várias línguas e de várias culturas. A relação galaico-portuguesa tem assim a virtualidade de superar a suspeita e a simplificação, de que falava Miguel de Unamuno, compreendendo a diversidade histórica, entendendo que há caminhos diferentes que visam um património comum, cultural e linguístico, além de se inserir num mundo complexo das culturas múltiplas geradas nesta língua comum de peregrinos e trovadores. Lembramos Martim Codax, Afonso X, Meendinho (da ermida de S. Simão da ria de Vigo), mas também Rosalia de Castro, Curros Enriquez, Eduardo Pondal ou o Padre Feijó – e encontramos raízes antigas que nos projectam no futuro. E a lusofonia conduz-nos a várias culturas que se desenvolvem e enriquecem mutuamente. No tempo em que o multilinguísmo está na ordem do dia e deve ser desenvolvido, a afirmação da língua e das literaturas vindas do galaico-português exige mais conhecimento mútuo e vontade comum. E quando Fernando Pessoa fala da pátria como língua, o que reclama é o dever de comunicação e a responsabilidade de uma “memória criadora”.

 

GALAICO-PORTUGUÊS OU GALEGO-PORTUGUÊS
Falar do galaico-português é lembrar as origens da língua com que nos exprimimos, e recordar uma história cultural que nos leva a raízes muito antigas vindas da Europa da reconquista e, mais do que isso, que nos conduz a um diálogo com os povos peninsulares, desde o império romano aos berberes e árabes até à cultura moçárabe, passando pelo cadinho que nos caracteriza. E é extraordinário ver como esta língua do ocidente peninsular se tornou universal, com mais de duzentos milhões de falantes. É aqui que temos de assumir que, no atlas mundial das línguas, o português e o castelhano são hoje poderosos aliados e não concorrentes. São ambas línguas em crescimento, têm zonas de desenvolvimento bem definidas, afirmam-se culturalmente em espaços ricos e diversificados, sendo línguas de várias culturas, com literaturas pujantes e com um valor indesmentível, social e economicamente. Num mundo onde o multilinguísmo terá uma importância cada vez maior, e em que o domínio de uma língua franca como o inglês básico não pode confundir-se com a riqueza e as potencialidades culturais da língua inglesa, importa compreender que as políticas das línguas de projecção universal obrigam a que haja cooperação e complementaridade, em nome da educação, da cultura, da ciência e da paz. Urge, pois, que haja o reforço de caminhos comuns, para que cada língua e as diferentes culturas afirmem as virtualidades de uma sociedade aberta, plural, cosmopolita e assente na dignidade humana. A educação para todos, que a UNESCO preconiza, a difusão do espírito científico, a aposta na comunicação e na criatividade, o respeito mútuo e o diálogo entre culturas têm a ver com estas preocupações. Olhe-se o tema da promoção da leitura, atente-se no desenvolvimento do acesso aos meios de comunicação, desde os tradicionais às novas tecnologias, encarados como meios e não como fins, enalteça-se a relação entre as diversas formas de criação contemporânea – desde a literatura à música, à dança, às artes plásticas, à arquitectura -, tudo deve hoje ser aproveitado para enriquecer a cultura como criação, a Paideia grega, a Humanitas latina, a Bildung germânica e a aprendizagem, como exemplo e experiência… Património, herança e memória ligam-se intimamente, o que recebemos e transmitimos é enriquecido pelo acto de aprender e pela arte de criar. As pedras mortas dos monumentos e do património material, as pedras vivas da cultura humana e do património imaterial, bem como a criação contemporânea ligam-se intimamente. E que melhor domínio senão a língua para podermos entender a força humanizadora da cultura? Da poesia trovadoresca à contemporaneidade, galegos e portugueses temos um património imaterial comum – a alma e a língua. Oliveira Martins, em 1891, dizia, aliás a Salvador Cabeza Léon: “o português não é outra coisa senão o galego que tomou caracteres próprios com a cultura principalmente quinhentista. Antes as duas falas não se distinguem. Tenho aqui, sobre a mesa, as Cantigas de Santa Maria de Afonso o Sábio, na magnífica edição da Real Academia Espanhola, e comparando esse monumento com os cancioneiros e crónicas coevas de Portugal, vê-se a identidade da linguagem”. As raízes comuns, os pontos de aproximação são inequívocos. Vem da poesia galaico-portuguesa a linhagem que nos leva a Camões, a Francisco Manuel de Melo, a Vieira, a Garrett, a Herculano, a Rosalia, a Eça, a Machado de Assis ou a Pessoa – mas que também nos aproxima de Cervantes, de Góngora, de Calderón ou de Perez Galdós…

LUSOFONIA, VISTA DE COMPOSTELA
A lusofonia vista de Santiago de Compostela não pode, assim, deixar de ser um lugar de projectos comuns. Temos de definir uma esfera de compreensão e comunicação – e esse é o espaço universal onde a língua comum se pode afirmar. E há um continente imaterial disperso pelos vários continentes que tem de ser desenvolvido através da cooperação cultural e científica. Afinal, se há modulações diversas na língua comum devemos aproveitar essas diferenças para nos enriquecermos mutuamente. Como diria Maria Zambrano, a língua faz parte da metáfora do coração que temos de cultivar… 

CITAÇÃO
“Ben sei que non hai nada / novo embaixo do ceo, / qu’antes outros pensaron / as cousas qu’ora eu penso. / E ben, para que escribo, / e ben porque assí semos / relox que repetimos / eternamente o mesmo”. De “Cantares Gallegos”, leia-se a edição de Ricardo Carballo Calero, da Cátedra, Letras Hispânicas, Madrid, 2001. De “Follas Novas” (1880), veja-se edição de Henrique Monteagudo e Dolores Vilavedra, Editorial Galáxia, Vigo, 1993.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

FLORIRAM OS PRIMEIROS JACARANDÁS EM LISBOA

 

O jacarandá florido
Brando cantar trazia
Branda a viola da noite
Branda a flauta do dia.

"As flores do Jacarandá",
in As Fadas Verdes

  

Matilde Rosa Araújo canta assim esta deliciosa árvore vestida de azul. E como ela outros poetas o fizeram, principalmente brasileiros e sul-americanos. Não só devido ao facto desta árvore ser originária da América do Sul, mas também porque a palavra jacarandá - que tem origem no termo dos índios tupi - “y-acá -ratá”- entra na designação de mais de uma vintena de espécies de árvores que nem sequer são da famíla dos Jacarandás de que nos ocupamos. Os que dão estas magníficas flores lilases, são da família das Bignoniáceas, que também inclui outras espécies com flores rosa, roxa ou violeta.

 

 

 Luz - Jacarandás

(in blogue de António Barreto)

 

"Os Jacarandás da Avenida D. Carlos I, vistos do
último andar do edifício do Café República, em 2009.
É isto que vamos ter dentro de uma ou duas semanas"
 
Esta semana, os Jacarandás floriram! E de que maneira! Já estão bem visíveis na Avenida D. Carlos I, um dos seus principais santuários, mas também no Largo de Santos, em Belém e no Parque Eduardo VII.
Há vinte anos que, nestas páginas, assinalo este momento mágico da vida lisboeta. Não estando actualmente a escrever a minha crónica, solicito-lhe um pouco de espaço para poder manter-me fiel!
Ainda por cima, em tempos de mentira, reviravolta e ocultação, é bom perceber que há coisas eternas, cuja repetição sazonal nos dá a garantia de que a vida nos oferece permanência e lealdade!


  
Dê-nos notícia de mais jacarandás floridos!

A VIDA DOS LIVROS


de 17 a 23 de Maio de 2010


O “Dicionário de Dúvidas, Dificuldades e Subtilezas da Língua Portuguesa” de Edite Estrela, Maria Almira Soares e Maria José Leitão (D. Quixote, 2010) é um instrumento utilíssimo para todos, em especial para quem ensina e para quem tem de comunicar com os outros, uma vez que explica, de modo muito acessível, correcto e actual, como deve falar-se português para que as mensagens sejam claras, rigorosas e compreensíveis. Não podemos esquecer que, afinal, falar bem português não é questão de gramáticos ou de especialistas da língua, mas de todos sem excepção. Usar bem uma língua é um acto elementar de cidadania e de respeito. E se falo de respeito refiro-o relativamente aos outros, mas também em relação ao valor cultural da língua em si, como património imaterial comum. Se devemos prezar e preservar as “ideias claras e distintas”, também temos de cultivar bem a língua e as línguas, para que a comunicação se faça e para que a compreensão e a clareza ocupem o lugar da incompreensão e da confusão – que são o húmus da ignorância.

 

 
Lema do Infante D. Henrique, Crónica dos Feitos da Guiné (Paris).

USAR A LÍNGUA E TRANSFORMÁ-LA
“Usar a língua é transformá-la (dizem as autoras) e este processo de transformação, como bem sabemos, não tem paragem. É lícito, porém, que sintamos a responsabilidade de observar, de estudar as práticas dos falantes e, confrontadas com as suas dificuldades, dúvidas, problemas actuais, queiramos contribuir para evitar o erro, fornecendo os elementos necessários a uma melhor compreensão do correcto uso da língua”. Se é verdade que há uma evolução e o desenvolvimento de novas formas e mutações das línguas, não é menos certo que se suscitam a cada passo dúvidas, incertezas, dificuldades e não raramente erros. A criatividade obriga a um confronto permanente com as regras e com a razão de ser desta ou daquela solução verbal. Importa, por isso, que haja orientações claras, que só se adquirem plenamente pela experiência e pela leitura reiterada de textos de grandes autores. Não se trata, pois, de limitar de qualquer modo a criatividade de uma língua viva (falada por duzentos milhões de pessoas, vinda do «papear cristã”, língua franca dos séculos XVI e XVII), mas sim de cuidar do rigor necessário e da clareza indispensável a que a inovação não fragilize a língua. João Guimarães Rosa é um excelente exemplo, de quem soube preservar o rigor essencial da língua, juntando-lhe o colorido regionalista e a inteligência da palavra oportuna e pertinente, que torna o pensamento mais rico e pitoresco. Aquilino Ribeiro em “Malhadinhas” ou, no nosso tempo, Lídia Jorge e o seu “O Dia dos Prodígios” são outros exemplos da língua viva que segue a riqueza popular, sem perder a clareza e a correcção. Nesta obra, estamos perante um “corpus” “que abrange dúvidas prementes, problemas significativos, frequentemente testemunhados, dando ampla cobertura às dificuldades dos falantes”. As autoras optaram, e bem, por um registo pedagógico acessível, útil para o falante comum, mas também para quem tenha preocupações mais exigentes. Lembramo-nos bem do ensino do Padre Raul Machado (“Charlas Linguísticas”) e de José Pedro Machado, mas encontramos nesta obra uma preocupação mais prática, que não diminui em nada o seu valor, antes considera um número mais vasto de leitores.

 

ALGUNS EXEMPLOS
Para ilustrar o que dizemos, vamos dar alguns exemplos, que servem de alerta relativamente a erros comuns, designadamente nos meios de comunicação social. Comecemos pela palavra acordo. É muito comum vermos pessoas com especiais responsabilidades pronunciar incorrectamente a palavra no plural. Ora, acordo mantém, no plural, o timbre fechado do o tónico (ô) que já tinha no singular: acordo (ô), acordos (ô). “Esta não é, no entanto, a regra geral da formação do plural dos substantivos cuja vogal tónica é o fechado”. A regra geral é o plural com o aberto – despojo (ô), despojos (ó); jogo (ô), jogos (ó). Mas há excepções como: adorno (ô), adornos (ô); esgotos (ô), esgotos (ô); molho (ô), molhos (ô) – neste caso trata-se da calda da culinária, que não deve confundir-se com o feixe – molho (ó), molhos (ó), que segue a regra geral, acrescentando-se um s. Quanto à acentuação, é fácil ouvir-se a má pronúncia de alcoolemia, que é uma palavra grave como glicemia, democracia ou septicemia, o sufixo -ia é tónico. É muito comum ainda a confusão entre os verbos aprazar (definir um prazo) e aprazer (dar prazer). O primeiro é um verbo regular da primeira conjugação, o segundo é da segunda conjugação e apresenta algumas formas irregulares (apraz, aprouve, aprouvesse, aprouvera, aprouver, aprouvesse). A primeira pessoa do singular do presente do indicativo segue, no entanto, uma forma regular – aprazo… Outro erro comum liga-se à palavra bem-vindo, que se deve escrever correctamente com hífen, como bem-criado ou bem-parecido. Se a fórmula de saudação tem o hífen, apenas o onomástico Benvindo constitui uma palavra só. O verbo haver suscita pecados mortais e pecados veniais. Quanto aos veniais, é errado dizer “há dois anos atrás”. Atrás está a mais e é pleonástico, é inútil. Mas há pecados mortais pelo não uso das formas hão-de e hás-de (hádem ou há-des são erros grosseiros, de bradar aos céus). Segundo o Acordo Ortográfico as palavras referidas passam a grafar-se sem hífen, como hão de e hás de. Lembre-se ainda que o verbo haver, no sentido de haver, e não de ter, não se conjuga no plural. A palavra carácter (como característica de pessoas ou coisas, como um sinal ou elemento de um sistema de escrita ou como tipo móvel de imprensa) tem sempre como plural caracteres, palavra grave. Os adjectivos eminente e iminente aparecem por vezes confundidos, – no entanto eminente significa o que está acima ou em destaque, e iminente é o que está pendente e quase a acontecer. Já os particípios entregado e entregue não se utilizam indiferentemente, a forma regular é entregado e a irregular é entregue – o uso correcto é: “o carteiro tinha entregado a correspondência, a correspondência foi entregue pelo carteiro”. O mesmo se diga com ganhado e ganho, diz-se “fulano tinha ganhado o jogo” e “o jogo foi ganho por sicrano”. E sabia que estada é o acto de estar, enquanto estadia é a demora de um navio no porto (isto, apesar dos Dicionários terem-se tornado complacentes quanto ao uso das duas palavras)? O verbo intervir tem-se tornado, estranhamente um quebra-cabeças. No entanto, “conjuga-se como vir, mas com acento agudo na segunda e terceira pessoas do singular do presente do indicativo e as mesmas formas usadas com valor de imperativo: intervéns, intervém, etc. (presente do indicativo); intervém (imperativo). Note-se que o particípio passado e o gerúndio deste verbo têm a mesma forma: intervindo. Além de intervir, são derivados de vir os verbos advir, convir, desconvir, entrevir, provir, sobrevir. São erros muito graves e inaceitáveis: interviu e intervi. Entre maciço e massivo deve preferir-se o primeiro termo (substantivo, como conjunto de relevos montanhosos, e adjectivo para significar compacto), o galicismo é desnecessário. A palavra media usada com o significado de meios de comunicação de massas vem do inglês, mas é na verdade um latinismo, por isso deve ler-se como média (plural latino de medium), nunca como mídia, devendo grafar-se em itálico e sem acento gráfico (também a palavra bus é de origem latina, vem de omnibus, e deve ler-se como se escreve). Por vezes há casos que pensamos serem erros e não são, no verbo negociar podemos usar a forma regular negocio (presente do indicativo) ou negoceio – Celso Cunha e Lindley Cintra dizem: “há um grupo de verbos em –iar que (…) não seguem uma norma fixa, antes vacilam entre os modelos de anunciar e incendiar” (agenciar, comerciar, obsequiar, sentenciar). Quanto às palavras obcecação e obsessão podem ser usadas como sinónimas, mas escrevem-se diferentemente e têm origens etimológicas diferentes (cegueira no primeiro caso, tendência atormentada no segundo). Ouvimos, muitas vezes, o uso da palavra perca como sinónimo de perda – é um erro, uma vez que perca é um “peixe das águas fluviais”. A palavra personagem é um substantivo do género feminino tal como a generalidade das palavras portuguesas terminadas em –agem. O verbo reaver deriva de haver, pelo que se conjuga como este, o pretérito perfeito é pois: reouve, reouveste, reouve… Seguindo a regra geral, a palavra social-democrata faz o plural social-democratas. Suponhamos (palavra grave) é a primeira pessoa do plural do presente do conjuntivo do verbo supor e suscita erros incompreensíveis. Como estes, muitos outros exemplos poderíamos dar. Para já fica o conselho – tenham este livro sempre à mão, não vá o diabo tecê-las.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

DISCURSO DO SANTO PADRE

 

O Grande Auditório do CCB encontrava-se totalmente cheio quando o líder religioso entrou, eram 10h10, e subiu ao palco, saudado pelos convidados que representam várias áreas da sociedade. 

 

Bento XVI foi recebido em palco pelo bispo Manuel Clemente, pelo Patriarca de Lisboa, José Policarpo, pelo cineasta Manoel de Oliveira, o escritor Pedro Mexia, a maestrina Joana Carneiro, a escultora Graça Costa Cabral, o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, António Rendas, o neurocirurgião João Lobo Antunes e pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas.
No encontro foi oferecida ao Papa uma obra de ourivesaria desenhada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira: um ovo em prata biscuit que se abre para mostrar por dentro uma pomba, símbolo do espírito.

 


 

DISCURSO DO SANTO PADRE

 Venerados Irmãos no Episcopado,
Distintas Autoridades, Ilustres Cultores do Pensamento, da Ciência e da Arte,
Queridos amigos,

Sinto grande alegria em ver aqui reunido o conjunto multiforme da cultura portuguesa, que vós tão dignamente representais: Mulheres e homens empenhados na pesquisa e edificação dos vários saberes. A todos testemunho a mais alta amizade e consideração, reconhecendo a importância do que fazem e do que são. Às prioridades nacionais do mundo da cultura, com benemérito incentivo das mesmas, pensa o Governo, aqui representado pela Senhora Ministra da Cultura, para quem vai a minha deferente e grata saudação. Obrigado a quantos tornaram possível este nosso encontro, nomeadamente à Comissão Episcopal da Cultura com o seu presidente, Dom Manuel Clemente, a quem agradeço as expressões de cordial acolhimento e a apresentação da realidade polifônica da cultura portuguesa, aqui representada por alguns dos seus melhores protagonistas, de cujos sentimentos e expectativas se fez porta-voz o cineasta Manoel de Oliveira, de veneranda idade e carreira, a quem saúdo com admiração e afeto juntamente com vivo reconhecimento pelas palavras que me dirigiu, deixando transparecer ânsias e disposições da alma portuguesa no meio das turbulências da sociedade atual.

 

De facto, a cultura reflete hoje uma "tensão", que por vezes toma formas de "conflito", entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do patrimônio cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro. Mas uma tal valorização do "presente" como fonte inspiradora do sentido da vida, individual e em sociedade, confronta-se com a forte tradição cultural do Povo Português, muito marcada pela milenária influência do cristianismo, com um sentido de responsabilidade global, afirmada na aventura dos Descobrimentos e no entusiasmo missionário, partilhando o dom da fé com outros povos. O ideal cristão da universalidade e da fraternidade inspiravam esta aventura comum, embora a influência do iluminismo e do laicismo se tivesse feito sentir também. A referida tradição originou aquilo a que podemos chamar uma "sabedoria", isto é, um sentido da vida e da história, de que fazia parte um universo ético e um "ideal" a cumprir por Portugal, que sempre procurou relacionar-se com o resto do mundo.

 

A Igreja aparece como a grande defensora de uma sã e alta tradição, cujo rico contributo coloca ao serviço da sociedade; esta continua a respeitar e a apreciar o seu serviço ao bem comum, mas afasta-se da referida "sabedoria" que faz parte do seu patrimônio. Este "conflito" entre a tradição e o presente exprime-se na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo. De fato, um povo que deixa de saber qual é a sua verdade fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objetivos grandiosos claramente enunciados. Prezados amigos, há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade. Com efeito, a Igreja "tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do ser humano, da sua dignidade, da sua vocação. […] A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade de um desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável" (Bento XVI, Encíclica Caritas in veritate, 9). Para uma sociedade composta na sua maioria por católicos e cuja cultura foi profundamente marcada pelo cristianismo, é dramático tentar encontrar a verdade sem ser em Jesus Cristo. Para nós, cristãos, a Verdade é divina; é o "Logos" eterno, que ganhou expressão humana em Jesus Cristo, que pôde afirmar com objetividade: "Eu sou a verdade" (Jo 14, 6). A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao carácter perene da verdade, com o respeito por outras "verdades" ou com a verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer. Nesse respeito dialogante, podem abrir-se novas portas para a comunicação da verdade.

 

"A Igreja – escrevia o Papa Paulo VI – deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, a Igreja torna-se mensagem, a Igreja faz-se diálogo" (Encíclica Ecclesiam suam, 67). De fato, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai. Disso mesmo dá testemunho a presença da Santa Sé em diversos organismos internacionais, nomeadamente no Centro Norte-Sul do Conselho da Europa instituído há 20 anos aqui em Lisboa, tendo como pedra angular o diálogo intercultural a fim de promover a cooperação entre a Europa, o Sul do Mediterrâneo e a África e construir uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos e as responsabilidades dos cidadãos, independentemente da própria origem étnica e adesão política, e respeitadora das crenças religiosas. Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.

 

Esta é uma hora que reclama o melhor das nossas forças, audácia profética, capacidade renovada de "novos mundos ao mundo ir mostrando", como diria o vosso Poeta nacional (Luís de Camões, Os Lusíadas, II, 45). Vós, obreiros da cultura em todas as suas formas, fazedores do pensamento e da opinião, "tendes, graças ao vosso talento, a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e coletiva, de suscitar sonhos e esperanças, de ampliar os horizontes do conhecimento e do empenho humano. […] E não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita" (Discurso no encontro com os Artistas, 21/11/2009).

 

Foi para "pôr o mundo moderno em contato com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho" (João XXIII, Constituição apostólica Humanae salutis, 3) que se fez o Concílio Vaticano II, no qual a Igreja, a partir de uma renovada consciência da tradição católica, assume e discerne, transfigura e transcende as críticas que estão na base das forças que caracterizaram a modernidade, ou seja, a Reforma e o Iluminismo. Assim a Igreja acolhia e recriava por si mesma, o melhor das instâncias da modernidade, por um lado, superando-as e, por outro, evitando os seus erros e becos sem saída. O evento conciliar colocou as premissas de uma autêntica renovação católica e de uma nova civilização – a "civilização do amor" – como serviço evangélico ao homem e à sociedade.

 

Caros amigos, a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura atual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas. Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza. Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza.

A PALAVRA DE JBC

 

O FANTASMA APAIXONADO

1. Em 1979, organizei, na Gulbenkian, um ciclo sobre cinema americano dos anos 40. Desse, como doutros ciclos dos anos 70 e 80, a fada-madrinha foi uma das pessoas mais enigmáticas e fascinantes que jamais conheci. Não sei o nome dela e não sei de ninguém que o saiba. Dizia que se chamava e chamavam-na Mary, mas, não sendo ela inglesa, americana ou mesmo remotamente anglo-saxónica, é duvidoso que a tenham baptizado com esse nome. Usava o apelido Meerson, pois teria sido casada com Lazare Meerson (1900-1938), famoso decorador francês de origem russa. Mas é bem possível que tivesse sido tão casada com Meerson como o foi com Henri Langlois (1914-1977), o lendário fundador da Cinemateca Francesa. Muitas vezes a ouvi autodesignar-se como Mme. Langlois, mas, se viveu com Langlois entre 1939 e 1977, não consta que se tenham casado. Sem razão aparente (mas porque é que querem sempre razões para tudo?) guardou toda a vida absoluto segredo sobre as suas origens. Diziam-na russa, diziam-na búlgara, diziam-na finlandesa, diziam-na de um dos países do Báltico. Ela nunca nada revelou e, quando alguns biógrafos de Langlois começaram a querer vasculhar-lhe o passado, enfureceu-se terrivelmente e Deus e algumas pessoas sabem como as fúrias dela eram terríveis. Morreu em 1993, diz-se (quem pode estar certo?) que nonagenária, mas bilhete de identidade, passaporte ou qualquer outro documento de registo civil nunca se lhe conheceu. A mim, essa mulher que me explicou que os russos só invadiram o Afeganistão para descobrir segredos sobre ciências ocultas, sempre me disse que não morreria. "Um jour, je m"envolerais..." Da morte de Langlois até ter voado de mim (estou, pois, a falar de uma pessoa com setenta e muitos anos, ou oitenta) desenvolvemos uma relação que me é impossível qualificar. Telefonava-me vezes sem conta, altas horas da noite, quase sempre para casa, pois que, para ela, telefones de trabalho (Gulbenkian ou Cinemateca) eram telefones sob escuta dos nossos muitos ignotos e invisíveis inimigos. Se, quando a conheci, era gordíssima e imponentíssima, disseram-me que em nova fora belíssima. "J"etais plus belle que toi", teria dito um dia a Marlene e tê-lo-ia sido ao tempo em que a lenda pretendia que se passeava por Paris nua, sob um fabuloso casaco de renard argenté. Nesses telefonemas nocturnos, transparecia o "coquettismo" das mulheres que são ou foram muito bonitas e se habituaram a seduzir homens. Tinha uns olhos extraordinários, como só o têm os quase cegos que vêem o que mais ninguém vê (quase cega sempre a conheci). Tinha uma voz de baixo profundo, que facilmente se confundia com a de um homem e dominava, na perfeição, o inglês, o alemão, o francês, o italiano, o russo e muitas mais línguas que nem eu sei (num jantar, uma vez, espantou toda a gente recitando poemas em arménio e os arménios presentes juraram-me que ela o dominava fluentemente).
Por que razão ela me tomou sob sua protecção nunca saberei bem. O nome Gulbenkian (ela teria conhecido Calouste Gulbenkian quando foi marchande d"art) contribuiu fortemente, mas não explicou ou explica tudo. Lia através de mim ou em corpo ou em voz. E em várias alturas, mais complicadas, sem que alguma vez eu lhe tenha feito confidências, dizia-me o que eu precisava de ouvir como se fosse uma Xerazade ou um Tomás de Kempis telecomandados. Uma vez disse-lho. Limitou-se a responder-me: "Je sais. Mary sait tout." Soubesse-o ou não (e eu, hoje, acho que, se ela não sabia tudo, sabia muito), o que é certo é que, graças a ela, eu fiz o meu nome como programador. Filme que lhe pedisse (mesmo que a Cinemateca Francesa o não tivesse ou o poder efectivo dela na Cinemateca Francesa já fosse diminuto) era filme que ela me encontrava. No fim do mundo, ou ao virar da esquina. Há uma expressão que eu acho deliciosa e aprendi há pouco tempo com as minhas netas mais velhas, com a Sofia e com a Mariana: "amizades coloridas". Se não sabem perguntem, que eu não estou aqui para explicar. Mas acho que a minha relação com Mary Meerson foi uma "amizade colorida" avant-la lettre. Après la lettre, vejo-lhe o olhar renascendo em muitas vidas, ou de dantes ou de depois.

 

2. É estranho. Eu não vinha para falar de Mary Mersoon, sobre a qual escrevi uma crónica quando ela morreu e co-organizei um catálogo a que chamei O Cinema como Magia.
Se a invoquei, e ao tal ciclo de 79, foi para contar uma história bizarra das muitas entre nós sucedidas. Além de filmes, pedi-lhe cartazes para uma exposição paralela ou coisa que o valha. Ela enviou-me os originais de The Grapes of Wrath de John Ford e de The Ghost and Mrs Muir de Joseph L. Mankiewickz. São cartazes enormes e vinham montados em diversos rolos, para depois se colarem e se pendurarem nas fachadas do cinema, como nos anos 40 se usava. Mandei-os para o serviço de exposições da Gulbenkian que, pouco habituado àquele género de materiais, os montou, sim, mas os colou em enormes e pesadíssimos contraplacados de madeira. Quando assim os vi, caiu-me a alma aos pés. Como é que eu ia devolver aqueles "monstros"? Descolar os cartazes nem pensar, que ficavam em fanicos. Reenviá-los para Paris só em camião especial e por uma fortuna. Telefonei-lhe a contar do sucedido e ela respondeu-me com a maior naturalidade do mundo: "Guarde-os. Pode ser que lhe sejam úteis." Assim fiz. De 79 a 91, os cartazes estiveram nas paredes do meu gabinete da Gulbenkian. Em frente de mim (porquê?) já estava o do Ghost, filme que em Portugal se chamou O Fantasma Apaixonado.
Não é tão bonito como o das Vinhas da Ira, com desenho original desse mestre dos nossos neo-realistas que se chamou Benton. Mas nunca resisti ao sorriso de Gene Tierney, tão segura, tão insegura, precisamente por isso. Curiosamente, uma Gene Tierney tingida de louro, quando nunca houve mulher mais morena e mais branca em Hollywood. High-Cheek Bone Beauty. Há tanto de triste e algo de insuspeitado nesse leve sorriso e nesses imensos, insondáveis olhos. Mulher-patchuli. Em 91, trouxe os cartazes para a Cinemateca. Hoje, o das Vinhas da Ira anda por lá. No meu gabinete, em frente à minha mesa, só o do Fantasma. Vinte e seis anos (79-05) a viver com ele e com a Mrs. Muir dele é muito tempo. Mais do que umas bodas de prata. Mas a profecia de Mary Meerson cumpriu-se. Também foi para isso que ela mo mandou.

 

3. Esta vida é de facto estranha. Quando eu vi O Fantasma Apaixonado pela primeira vez tinha 12 anos. E foi no Tivoli dos veludos da Fox. Quem fosse o realizador - Joseph L. Mankiewickz, depois, também, meu cineasta de cabeceira - ignorava completamente. Só me interessava Gene Tierney e, depois de visto o filme, passou-me a interessar Rex Harrison, com quem vivi pela primeira vez. Gostei. Gostei muito. Mas quão longe estava de adivinhar o que esse filme iria significar para mim, passados os 40 anos, quando o revi no tal ciclo da Gulbenkian e, depois, quando o revi e revi e revi em dezasseis passagens na Cinemateca e mais não sei quantos visionamentos. Já contei mil vezes, mas, como estou morto por contar, conto outra vez. Mrs. Muir (Lucy Muir = Gene Tierney) enviuvara há pouco tempo de um Mr. Muir que nunca vemos, mas não era de molde a deixar grandes saudades. Sogra e cunhada em Londres, princípio do século XX, vigiavam a virtude da jovem viúva e da filha dela, de dois anos. O filme começava quando a situação se começava a tornar insuportável e Mrs. Muir, doce mas firmemente, anunciava que ia sair de vez daquela casa para ir para o pé do mar, para o pé do mar. Nem rogos nem ameaças a demoveram. Procurou casa junto ao Mar do Norte como Mar do Norte nunca vi, mas nenhuma casa a convenceu. Até que viu a que queria ver, mas ninguém lhe queria mostrar. A casa estava assombrada pelo fantasma do Capitão Gregg que nela se suicidara. Só que os fantasmas não assustam Mrs. Muir. Um fantasma é o medo que a gente tem dele.
Mrs. Muir instala-se na casa com a filha e com a criada. E logo o fantasma começa a visitá-la. "I know you are here", diz ela. As luzes todas se apagam, começam as trovoadas e os relâmpagos. Mas começa também, poucochíssimo depois, a história de amor entre o fantasma mais malcriado do mundo e a mulher mais mar do mundo. Debalde o fantasma lhe diz: "I"m here because you believe I"m here." Não vou contar o filme todo. Há sempre uma hora em que se acorda dos sonhos. Os fantasmas não são para toda a vida. Quando o percebe, Rex Harrison, pois é dele que se trata, sempre de negro vestido, vem despedir-se dela que dorme. "What you have missed by being born too late to travel the seven seas with me! And what I"ve been missed too? What we both have missed!" Antes recitara Keats, depois dá-lhe um quase beijo. Mrs. Muir descobrirá depois que o real é bem mais frágil. Fica na casa, pensando sempre que o que aconteceu nunca aconteceu, que nunca houve fantasma algum. Mas o que houve deu sentido a tudo, por ser feito de tão nada.
Depois o tempo passou. Passa sempre. Depois, um dia, o coração de Mrs. Muir deixou de bater. Quando a criada lhe vem trazer o chá cruza-se com o fantasma e com Mrs. Muir, que avançam devagarinho nas brumas. Como é que diz Keats que o fantasma recita: "I have been half in love with easeful Death... Was it a vision or a waking dream?" Porque é que as pessoas se apaixonam por fantasmas? Porque é que os fantasmas se apaixonam por pessoas? Perguntá-lo é perguntar "como pode usar amor de entendimento". Sempre que vejo, no meu cartaz, Rex Harrison mais azul do que negro sumir-se no fundo do colo de Gene Tierney, pergunto-me qual dos dois foi fantasma e como o Andrea Francorum de Stendhal "inter quos possit esse amor". Lembram-se do que ele respondia a quem se embaraçava com a obscuridade de discursos destes? É melhor não se lembrarem.

12 de Junho 2005 PÚBLICO

A VIDA DOS LIVROS

de  10 a 16 de Maio de 2010

 

Um pequeno livro de e sobre João de Barros, o pedagogo e político do início do século XX, - “A Pedagogia e o Ideal Republicano em João de Barros”, selecção de textos de Maria Alice Reis, nota introdutória de Joaquim Romero Magalhães, Terra Livre, 1979 - permite-nos compreender a importância dos desafios lançados na Primeira República a todos quantos desejavam sinceramente desenvolver o País, num sentido que o tornasse parceiro das nações mais avançadas. No entanto, os constrangimentos diversos que Portugal sofreu no primeiro quartel desse século (a guerra, as repercussões económicas desta, a instabilidade política) levaram a que os resultados ficassem aquém do desejado, apesar de haver uma obra apreciável que merece ser revisitada e que ainda hoje tem actualidade, sobretudo no tocante à importância da Educação cívica e ao reconhecimento de que a aprendizagem é o factor distintivo entre o progresso e o atraso dos povos.

 

 

A FORMAÇÃO CÍVICA… 
“A educação cívica deve dar à criança todas as possibilidades de viver fortemente, completamente, no seu meio, de desenvolver a sua personalidade em harmonia consigo própria e com esse meio – entendendo por meio o conjunto de condições naturais e sociais entre as quais ela se encontra”. Quem o afirmou foi João de Barros (1881-1960), político e pedagogo com influência decisiva na política republicana dos anos dez e vinte do século passado (“Educação e Democracia”, 1916). Recordámo-lo no colóquio “República e Ensino”, que tive o gosto de coordenar com a Professora Maria Cândida Proença. E nessa invocação lembrámos a memória de Rogério Fernandes, que desejaríamos ter connosco, não fora a circunstância de nos ter deixado há pouco, depois de uma vida entregue ao estudo da história da Educação em Portugal. Falar da Educação e da ligação desta ao meio social é pôr a tónica no valor da aprendizagem e na compreensão de que o sentimento de pertença permite favorecer a participação cidadã e a defesa do bem comum. Neste sentido, para João de Barros, a Educação é um “factor de desenvolvimento e de aperfeiçoamento moral, intelectual e cívico”; uma aprendizagem do carácter e da energia; um apelo à acção; uma exigência de respeito da lei e de amor da igualdade; um modo de motivação profissional, no sentido da “liberdade pelo trabalho digno e pelo esforço consciente”; um exercício de amor de toda a arte e de toda a beleza – uma vez que “não há sociedade democrática que possa viver, progredindo, sem o culto da Arte. E, afirmava ainda, “não se estranhe (…) que eu preconize, para completar esta educação baseada no meio moral, uma forte educação patriótica”. Como disse Joaquim Romero Magalhães, João de Barros sonhava com uma “República heróica” em que “Povo, Pátria e República” seriam sinónimos. Educar seria, antes de tudo, formar o cidadão, dando-lhe consciência dos seus direitos e deveres. Mas o pedagogo perguntava: “E como pode ter ele essa consciência? Aprendendo de cor um certo número de regras e normas? Ensinando-lhe, já depois de adulto, as noções mais correntes da moral, o respeito pelas leis, as obrigações que lhe incumbem? De modo algum. Um cidadão que verdadeiramente o seja, que trabalhe pelo seu país, que ame a sua pátria, que represente e constitua uma força de acção, de pensamento, de dedicação – é um produto complexo, resultante de mil esforços e de mil influências benéficas. Para trabalhar – ele precisa de ter desenvolvido as suas faculdades, de ter adestrado a sua inteligência, de ter fortificado o seu corpo”.

 

PARTICIPAÇÃO E ACÇÃO
O aperfeiçoamento moral, intelectual e cívico exige acção. Daí que, como ensinou António Sérgio, interessasse não educar para a República, porque isso se reduziria a propaganda, com efeito contrário ao desejado, mas educar verdadeiros cidadãos, autónomos e livres. Educar exigiria por isso, a um tempo, formar e agir. Fernando Catroga lembrou a ideia subjacente à “bildung” alemã, que envolve a educação, a cultura, a paideia e a formação como criação ou como construção – inserindo o “republicanismo” numa tradição que vai da “politeia” grega e da “res publica” romana a uma “demopedia” moderna, passando pela profunda reflexão das repúblicas italianas. E Sérgio Niza analisou, como pedagogo, o percurso necessário tendente a alcançar-se uma “formação cívica” adequada às exigências da modernidade – compatível com a “educação para todos” e com a democracia contemporânea. Se lermos os programas republicanos de “Educação cívica” encontramos neles uma tensão evidente entre a educação de cidadãos autónomos e livres e doutrinação republicana. No programa da 3ª classe (1921) pretendia-se uma “explicação muito simples, na leitura de trechos que despertem a ideia de nacionalidade e em que se destaque a significação das palavras: cidadão, soldado, pátria, república, lugar, freguesia, concelho, distrito, província, lei, justiça, força pública, liberdade, igualdade e fraternidade, solidariedade, previdência etc.” No da 4ª classe já de fala da “comparação da vida social contemporânea com a vida primitiva do homem”, bem como de exemplos de sociabilidade e das vantagens da organização democrática, falando-se depois da freguesia, do concelho, do distrito, para culminar no “sentimento da natureza relacionado com as belezas naturais de Portugal”, e no amor à terra e à Pátria.

 

UM ALERTA PARA O FUTURO
De João de Barros a António Sérgio encontramos o alerta – urgia pôr a educação do cidadão livre e autónomo em primeiro lugar. Barros procura justificar com a mentalidade fechada e clerical um certo viés que fere o alerta sergiano de que o que interessaria não era educar para a República. Compreende-se, porém, a contradição, que Amadeu Carvalho Homem bem analisou, na perspectiva da transmissão da mensagem às massas, à população em geral. Afinal, havia um confronto político assimétrico, com meios urbanos permeáveis à nova ordem republicana e meios rurais resistentes. E basta lembrarmo-nos de Edmundo de Amicis, o autor de “Cuore”, obra educativa fundamental da unificação italiana, bem como dos textos franceses do tempo de Jules Ferry, para percebermos que o republicanismo português foi beber nessas influências a seiva de que necessitava. O “amor à Pátria” é um ponto de honra da Educação Republicana, mas só faz sentido se preservar, a um tempo, a autonomia e a solidariedade. Não se trata de “nacionalismo”, mas da necessidade de compreender a autonomia e a humanidade próxima, para chegar à sociedade, ao mundo e às pessoas… E hoje só o entendimento dessa mediação nacional pode levar-nos a perceber a importância dos novos espaços supranacionais, que só terão futuro se assentarem numa legitimidade complexa que não esqueça as dimensões cruciais: a dos Estados e a dos cidadãos. Se relermos António Sérgio, sob a influência de John Dewey, poderemos perceber que a Educação Cívica deve basear-se no exemplo e na experiência, na autonomia, no auto-governo, no município escolar e na educação de verdadeiros cidadãos, autónomos e livres: “a escola propulsora da reforma, a escola modelar, a escola tipo, haveria pois de fazer sentir e compreender, pelo facto, (…) as necessidades fundamentais da sã existência social; teria de reproduzir o condicionamento económico e os postulados de ordem ética de uma justa e fecunda sociedade adulta, justa, ponderada, mas também tonificante, porque lhe caberia disciplinar, mas ao mesmo tempo impulsionar, a iniciativa, a independência, a expansão do individuo”.

 

UMA CITAÇÃO
“Desejo mais que realidade, o que de João de Barros hoje permanece não é esse propósito de propaganda mas o que, como autêntica pedagogia, para além da política, a sua obra contém. Nomeadamente o apelo à afectividade na relação educativa, que hoje, passados tantos anos se mantém actualíssima” (Joaquim Romero Magalhães, na nota introdutória).

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A PALAVRA DE JBC


DE JOHN MOHUNE A JON WHITELEY

OU DE FRITZ LANG A AUGUSTE-DOMINIQUE INGRES

 

 1. Julgo que é o título mais comprido desta série de crónicas, quer as das antigas e românticas sextas-feiras, quer as dos novos e frustres domingos onde ainda não conseguiram arranjar lugar para me sentar. Quando se escolhe um título longo, é, normalmente, para ser mais explicativo, como é o caso, por exemplo do Everything You always Wanted to Know About Sex, but Were Afraid to Ask. Não é o caso deste meu, de hoje. Dou um doce a quem, mesmo muito sabido, perceber que relação existe entre John Mohune e Ingres, ou mesmo entre o pintor e Fritz Lang. Essa relação construiu-se, para mim, nos últimos três anos e só há três dias se concretizou. Apetece-lhes ouvir a história? A mim, apetece-me contá-la.

 

2. John Mohune é o nome do jovem herói do romance de John Meade Falkner Moonfleet, publicado em 1898. Um desses romances de aventuras escritos para pré-adolescentes do sexo masculino, que descende de Stevenson ou, mais remotamente, de Dickens ou de Kipling, e que foi muito popular na Grã-Bretanha, dos alvores aos meados do século que passou. A acção situa-se no século XVIII. John Mohune é o filho de Olivia e a família é tão importante naquela parte da Escócia que o próprio nome da povoação que dá título ao romance provém dela. Moonfleet é contracção de Mohune e Fleet. Não eram senhores muito amados os Mohune. John, órfão aos nove anos, é informado pouco depois (pouco depois da morte da mãe, que o pai é outra história) que o nome não é propriamente um nome benquisto na aldeia de contrabandistas e piratas onde se situa quase toda a acção.
A primeira vez que o vi foi no filme homónimo de Fritz Lang, estreado em 1955. Tinha os mesmos nove anos, era muito ruivo e de cabelo encaracolado, a cara cheia de sardas, olhos azuis determinados. Por uma noite sem lua, com um céu coberto de nuvens púrpuras ou amarelas, caminhou à procura de um homem que julga ser seu amigo. A certa altura pára, para tirar um seixo de um dos buracos das solas das botas. De repente, aparece-lhe - é o termo - um anjo enorme de olhar vazio e expressão inquietante. Será estátua? Será gente? Uma mão que se vê em cima de um muro parece apontar para a segunda hipótese. John Mohune tenta fugir, tropeça e desmaia. Quando acorda, está no fundo de um poço e é do fundo desse poço que nós, com ele, vemos em contra-plongée vertical uma série de caras patibulares. O miúdo caiu às mãos de 40 ladrões. Mas recupera depressa a coragem e insiste que o levem à presença de Jeremy Fox, para quem traz uma carta. Carta da mãe, que, ao morrer, o confiou aos cuidados desse homem. Quando lhe somos apresentados (a Jeremy Fox), o aspecto e as maneiras do personagem (o actor é Stewart Granger) não prometem nada de bom. Nem dele, nem dos companheiros dele (onde avulta, para mim, a voz incomparável de Joan Greenwood), nem da dançarina que dança para ele. Só muito pouco a pouco percebemos algumas coisas e nem todas são esclarecidas. Jeremy Fox tem as costas marcadas por dentes de cães que os Mohune lhe atiçaram. Plebeu, estava na companhia de senhora, senhora que só podia ser uma Mohune, para a família se enfurecer de tal modo. Se ela, ao morrer, confiou o filho ao homem que fora pasto da matilha, as probabilidades são muitas de John Mohune ser filho de Jeremy Fox, embora no filme nunca tal se diga e o miúdo nunca o suspeite. No livro? No livro nem sequer há nenhum Jeremy Fox, tal era, nesses bons tempos, a fidelidade dos estúdios aos textos originais. Mas se John Mohune nunca suspeita que Jeremy Fox é seu pai, também nunca duvida que ele seja o amigo que a mãe lhe disse que era. Contra todas as evidências, porque Jeremy Fox passa o filme a enxotá-lo. Mrs. Minton, uma das amantes dele, pergunta a Jeremy: "Que vais fazer dele? Corrompê-lo e destruí-lo, como fazes a toda a gente?" "Há um perigo bem maior", responde Jeremy, "é ser ele a destruir-me." No final do filme todos morrem, menos John Mohune, que tem finalmente toda a razão para dizer: "It"s good to have a friend."
Para interpretar John Mohune, a Metro-Goldwyn Mayer, em 1955, chamou Jon Whiteley, um miúdo escocês que se estreara nas telas aos 6 anos, em 1951, e aos oito ganhara um Óscar especial da Academia pela sua interpretação em The Kidnappers de Philip Leacock. Em 1956, aos 11 anos, desapareceu das telas. Os pais acharam que cinco anos de filmes e estúdios, entre Londres e a Califórnia, já chegavam. Mandaram-no estudar.
Mas quem ama Moonfleet como eu amo - e estou cada vez mais acompanhado - nunca mais conseguiu ver John Mohune sem ver Jon Whiteley seguindo com um cão o seu amigo e roubando para ele o tesouro do Barba Ruiva. Cinemascope, mar, o obsessivo decote de Joan Greenwood, a voz de Joan Greenwood. E, evidentemente, Jon Whiteley. Cemitérios, lousas quebradas, poentes castanhos, rochas escarpadas. A fotografia de Robert Planck e a música de Miklos Rozsa. E, evidentemente, Jon Whiteley.

 

3. Mas se era evidente, era tão evidente que nunca me lembrei de perguntar por ele. Nem eu, nem (aparentemente) mais ninguém. Todas as celebridades do filme disseram da sua graça, e a maior das vezes da sua desgraça. Fritz Lang só no fim da vida se reconciliou com um filme em que passou as passas do Algarve. John Houseman, o produtor (que não era nada imbecil), dizia que só os franceses é que achavam que o filme era uma obra-prima. Por "perversidade ou por lealdade para com Fritz Lang". Mas Jon Whiteley nunca foi tido nem achado, apesar de se dizer que Lang, "ditatorial e déspota", tratara com especial e teutónico sadismo o seu jovem intérprete. Provavelmente, o assunto teria morrido por aí (e hoje não me estavam a ler), se, em finais de 2001, por ocasião de um seminário sobre cinema e pintura no Convento da Arrábida, Henri Zerner não me tivesse perguntado: "Você sabe que Jon Whiteley é meu colega e professor de História de Arte em Oxford?" Não fazia a mais pequena ideia. Mas como cinema, pintura, Moonfleet fazem trindade indissociável, pensei em convidá-lo quando saísse o livro em que esse seminário desembocou. Convidá-lo para vir a Lisboa e apresentar Moonfleet. Ao princípio correu mal: de Oxford disseram-me que o prof. Whiteley (hoje com 60 anos) estava em ano sabático algures nos Estados Unidos. Mas havia mails. Há sempre.
Já com poucas esperanças, mailei. E, na volta, tive a resposta mais simpática do mundo. Que adorava voltar a Portugal, que conhecia como turista e que adorava apresentar Moonfleet, que (e agora sublinho bem) nunca ninguém o tinha convidado a apresentar.
Em Janeiro, Jon e Linda Whiteley desembarcaram em Lisboa e eu vi subitamente na minha frente, aos 60 anos, o miúdo de 9, de 1955. Mesmos cabelos ruivos, mesmos olhos azuis, mesmas sardas. E, na fantástica apresentação do filme, o mesmo medo e a mesma coragem para defender Fritz Lang, acabar com a lenda das malfeitorias e falar da conspiração de produtores e actores contra aquele velho barrigudo e monocular que ousara pular para cima de uma mesa e explicar à famosa bailarina Liliana Montevecchi como é que se devia dançar a dança que ele queria que ela dançasse para endoidar os homens e empalidecer as mulheres. Fritz Lang, o realizador que "composed scenes in the manner of a painter and treated actors like a puppet-master". "This perhaps annoyed his actors but it did not trouble me." Depois falou-me de Ingres, seu pintor favorito, e prometeu-me o livro que sobre ela tinha escrito e há muito se esgotou.

 

4. A fama dessa palestra de Lisboa chegou a várias partes. Este e aquele começaram-me a pedir o Whiteley de Lisboa. Até que, postos os feriados de Junho e os dias de montanha russa entre Guimarães e Salamanca, Salamanca e Belmonte, recebi, com data de 8 de Junho, uma carta dele e o livro sobre Ingres. Na carta dizia-me que "as a result of your invitation to Lisbon and the showing of Moonfleet" recebera um convite para comentar o filme num festival em Procida. Sabia que a cópia a ser projectada era a nossa (a melhor cópia de Moonfleet que por aí anda e não é para me gabar). "Any chance of seeing you? I hope so very much." Não, não vou rever em Procida o meu John Mohune feito John Whiteley, criatura de Lang e criatura de Ingres, igual aos 9 e aos 60 anos, na sua busca pela amizade e na certeza dela. Mas ganhei o livro azul, com o retrato da viscondessa de Haussonville que está na Frick Collection. E nele recordei que a duquesa de Guermantes, depois de o ter execrado como o pior dos académicos, descobriu, no fim da vida, que ele fora o genial precursor do Art Nouveau. "Como os arquitectos do barroco, Ingres ultrapassou o domínio da arte clássica para inventar uma linguagem expressiva de regras quebradas, através das quais deu forma exterior aos doces, nostálgicos, ambiciosos, sensuais e vingativos desejos que sempre possuíram a sua imaginação." Ingres, certamente. Mas também Fritz Lang. "A deeply sensuous nature." John Mohune começou na encruzilhada de Moonfleet. Mas lembrou-se que estavam por ali senhoras. Foi nos banhos turcos de Ingres.

19 de Junho 2005 PÚBLICO

A VIDA DOS LIVROS


de  3 a 9 de Maio de 2010


“Ouvi do Vento” de Manuela Silva (Pedra Angular, 2009) é uma reunião de textos que interrogam o tempo e foram publicados desde 2003 no sítio na Internet da Fundação Betânia. Se é verdade que as reflexões são circunstancias, a verdade é que são uma ilustração viva do que Emmanuel Mounier nos ensinou, de que os acontecimentos são os nossos mestres interiores. De facto, tomamos o pulso do mundo e procuramos o sentido da vida através do quotidiano e do modo como respondemos aos estímulos com que somos confrontados permanentemente.

UMA ORIENTAÇÃO ESPIRITUAL
Isabel Allegro Magalhães afirmou sobre esta obra de Manuela Silva que «o desígnio dos textos soltos e agora do livro parece ser o de oferecer orientação espiritual aos seus destinatários – provavelmente a cristãos exigentes que procuram crescer na sua atitude cristã. Orientação perante encruzilhadas variadas, tanto no confronto com os vários “eus” que em si convivem como com os seus mais díspares desejos, com o propósito de guiá-los nesse percurso interior. (…) Pela metáfora, o título coloca-nos (…) diante da escuta do vento ou do sopro do Espírito ouvido do vento, que acontecerá na circunstância de habitarmos responsavelmente o mundo. Colocar o ouvido no chão e abrir o ouvido ao vento são condições e possibilidade para aprumar a consciência e assim erguer a vida e a voz ao seu mais alto potencial em nome do bem comum e na abertura ao Espírito de Deus. Nesse sentido podemos ler este livro como um conjunto de linhas de orientação das consciências e de vida espiritual». Era Dom Hélder Câmara que se propunha “colocar o ouvido no chão para escutar a realidade”. No essencial, o que Manuela Silva pretende é desafiar-nos para uma interrogação efectiva sobre o mundo e a vida, a partir da experiência de Jesus Cristo, em nome da justiça e da entreajuda, do cuidado dos outros e do futuro, do respeito e da dignidade. E é o valor universal da dignidade das pessoas que está sempre presente, ao longo destes textos profundamente estimulantes, e em boa hora postos em livro. Afinal, o projecto “Betânia” visa pôr em prática, a partir do exemplo e da experiência, o valor da dignidade, e tudo quanto daí decorre. “Acreditamos que o ser humano é relação e é na tomada de consciência desta sua dimensão relacional que hão-de alicerçar-se as bases para novos relacionamentos e solidariedades que estão faltando tanto nas nossas sociedades, demasiadamente marcadas por egoísmos vários, competitividade agressiva e excludente e conflitualidades latentes ou declaradas. Betânia quer encorajar o encontro como forma de estar na vida: encontro da pessoa consigo própria, encontro com o outro, encontro com o cosmos e encontro com Deus”.

A SABEDORIA DO CORAÇÃO
Ao seguirmos os textos, vamos encontrando reflexões que permitem tomar consciência de que a relação interpessoal vai maturando e vai abrindo novos horizontes na “sabedoria do coração”, num tempo em que “a nossa civilização e a nossa cultura ocidental deixaram-se corroer – e corromper – por um individualismo exacerbado que já não é capaz de descobrir que o outro é parte de si própria/o e todos parte do Cosmos”. Daí que importe ver “para além do sucedido”, ou ter a “sabedoria de ir para além da ansiedade” e vencer o mal com o bem, como a autora nos propõe de um modo persistente, claríssimo e sereno. E donde vem a ansiedade? No plano pessoal, “da ambição de mais ter, mais conhecer, mais viajar, mais aparecer, mais acumular”. No plano colectivo, “de uma frustração subliminar que se alimenta do desencontro, óbvio, entre aquilo que se tem por desejável e se afirma como meta e a realidade da nossa impotência para o conseguir”. Thomas Merton, diversas vezes invocado no livro, afirma, aliás, de modo inquietante: “Enquanto tiverdes a liberdade de optar pelo mal, não sois livres. Uma escolha má destrói a liberdade”. Não se trata, porém, de limitar a liberdade e a sua fundamental importância, mas de tomar consciência das injustiças e dos motivos de inconformismo e de indignação. Como poderemos ficar indiferentes à persistência da grande pobreza mundial, aos mecanismos injustos de apropriação da riqueza produzida, às doenças e epidemias, ao desrespeito do valor da vida humana, à emergência de uma cultura de violência, à proliferação das armas, à perda ou ao enfraquecimento dos valores humanos básicos de verdade, lealdade nos negócios, solidariedade, cooperação, serviço à colectividade ou defesa dos mais fracos?

PARA ALÉM DO PRÓPRIO GALINHEIRO
Como quer Leonardo Boff, temos de ir além “do esgravatar da galinha no seu próprio galinheiro”. Impõe-se “responder à violência com gestos de paz e de sentido de viver”. Urge compreender, com António Machado, que “a história não caminha ao ritmo da nossa impaciência” e que temos de “atravessar o mar dos medos com as velas da esperança”. E não disse José Tolentino Mendonça: “Em certos dias, nem sabemos porquê / Sentimo-nos estranhamente perto / Daquelas coisas que buscamos muito / E continuam, no entanto, perdidas / Dentro da nossa casa”? Onde estás? Onde está o teu irmão? São perguntas recorrentes, para as quais temos de encontrar respostas que tornem mais humana a sociedade e as relações que nela se estabelecem. Daniel Faria fala, por isso, da capacidade criadora: “E ser faúlha onde a morte vive / E a vida rompe”. A cada passo, as palavras obrigam-nos a reflectir sobre o presente e o futuro, mas o fundamental é entendermos qual o nosso lugar enquanto participantes activos da obra criadora do Universo.

SERVIR OU SERVIR-SE? 
Num tempo em que o dilema “servir ou servir-se” leva a que o segundo termo se vá impondo, temos de saber ouvir, tirando consequências, o seguinte: “talvez seja mesmo necessário fazer apelo a valores humanos fundamentais – como os da cidadania ou da honradez, a solidariedade com o todo ou o apreço pela cooperação – para resistir às tensões nascidas de divisões e conflitos gerados pela mesquinhez ou a vingança de quem só vê a árvore dos seus interesses mais imediatos e não se dispõe a construir a harmonia da floresta”. De facto, a felicidade não pode comprar-se. Mas a felicidade com que lidamos e que perseguimos torna-se paradoxal, na expressão de Lipovetsky, uma vez que contém os ingredientes que a contrariam e comprometem. Aragon dizia, assim, que “quem fala de felicidade tem muitas vezes os olhos tristes”. Afinal, a sociedade atomizada e fragmentada da pós-modernidade está toldada pelo “consumo voraz, embalado na ilusão de uma felicidade alcançada por esta via e ao dispor (falso) de todos na sociedade democrática”. Importa, portanto, encontrar caminhos e métodos novos, que permitam respondermos sobre o que nos faz correr. E ao ouvir do vento, em nome do espírito de Betânia, sentimos que há um “valor acrescentado da alegria partilhada” e que o silêncio é um valor a preservar, em nome de uma vida simples, da escuta e da contemplação, do cuidado das relações com os outros, do reconhecimento do lugar da beleza e do compromisso responsável com a transformação do mundo. Mas como alimentar a esperança, perante tantas resistências e fragilidades? Manuela Silva recorda Charles Péguy, que falava da virtude da Esperança como “petite espérance”, como esperançazinha, vista como uma criança que “corre a par das suas irmãs maiores, a Fé a Caridade, e faz saber que, afinal, é ela, a pequena esperança, que sustenta as duas outras virtudes e as fortalece”. Mais do que os discursos heróicos, trata-se, sim, de partir das pequenas coisas, da fragilidade da vida, na direcção do que tem valor e do que é fundamento da dignidade humana e da sua dimensão universal. E assim a mensagem do livro assenta numa ideia muito simples e clara: “valorizar o sentido da justiça é tarefa de todos”. Daí que se nos exija que vivamos uma “hora de profetas que aliem uma clara visão de futuro com o rigor de uma acção comprometida com a luz que ao longe avistam”.  

Guilherme d'Oliveira Martins

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