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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A PALAVRA DE JBC

 

SAUDADES DE BRENDEL

 

1 - Como tantos da minha geração, fui educado, senão a apoucar, a secundarizar Johannes Chrysostomos Wolfgang Gottlieb Mozart, que só aos 14 anos, em 1770, por ocasião da sua primeira viagem a Itália, passou a usar o nome de Wolfgang Amadeo Mozart. Amadeo é a tradução italiana de Gottlieb ("o amado de deuses" "o que ama a Deus" ou, mais prosaica e simplesmente, o "amor de Deus"). Nessa altura passou ele a assinar as suas cartas: "Gottlieb na Alemanha, Amadeo em Itália. De Mozartini." Mal começo, logo vario. Não faz mal, que de variações vou falar muito, neste variado texto. Dizia eu que fui educado a secundarizá-lo. Havia três grandes, diziam-me: Bach, Beethoven e Wagner. Mozart era música de salão. O menino-prodígio. As cabeleiras empoadas. Os minuetes. Tudo mudou - tão radicalmente mudou - em 1956, ano dos meus 21 anos e das comemorações do segundo centenário do nascimento de Mozart. Eu frequentava o 2º ano do curso que então se chamava Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras, à época habitante do velho Convento de Jesus. Sei lá porquê, achei-me metido numa comissão que, nessa faculdade, assumiu a organização da efeméride. Subitamente - comigo foi sempre subitamente - Mozart, que até então seguira distraído em concertos, óperas e nalguns poucos discos, fez-me cair do cavalo abaixo e revelou-se-me como o maior. O maior dos maiores, entre todos os mortais nascidos depois de Cristo. Acho que tudo começou em S. Carlos, com as récitas de "Le Nozze di Fìgaro" K. 492 e de "Don Giovanni, ossia: Il Dissoluto Punito", K.527, dirigidas por Alexander Krannhals. Erich Kunz no Fìgaro e no Leoporello. Hilde Zadek na Condessa e na Donna Anna. Magda Gabory no Cherubino e na Zerlina. O "Lá ci darem la mano", cantado por Ernest Blanc e Magda Gabory, confunde-se-me na memória e na imaginação com as variações para piano "Ah vous dirais je maman", tocadas por Clara Haskil, num velhíssimo disco amarelo da Deutsche; com a ária K. 21 (de 1765, tinha ele 9 anos) "Va dal furor portata", numa gravação de árias de óperas por Leopold Simoneau para a Phillips que nunca mais consegui encontrar; com os Concertos para piano e orquestra K. 466 e K. 503 (os nº 20 e 25) com Gieseking ao piano, ou no Rondó em fá para piano, K. 494, que chegou até mim tocado por Carl Seeman. Desse mesmo ano data a vera fundação da minha discoteca Mozart e, a revelação, pelo Fernando Gil, numa noite em casa dele, do livrinho de Jean-Victor Hocquard da colecção "Solfèges" das Éditions du Seuil. Hocquard era um "terrorista", de um terrorismo afim ao dos "Cahiers du Cinéma" que eu descobri pelos mesmos maravilhosos anos 50. O livro tinha a forma de um diálogo entre M ("o mozartiano fervoroso") e A ("o amador esclarecido"). O segundo era céptico e relativista. O primeiro fervia de paixão. "Mozart é o único deus e você o seu profeta (...). Já reparei que os fanáticos de Mozart são quase todos como você: ninguém mais existe para vocês. Só o divino Wolfgang", dizia o "amador". "A música de Mozart é um jardim secreto onde se entra. Mas ninguém pode prever nem quando nem como se abrirá a porta, nem mesmo se ela se abrirá. A chave está no interior (...). É uma espécie de predestinação (...). Não se é apenas marcado por Mozart. É-se marcado para Mozart." Mal sonhou o Fernando Gil como eu ia decorar páginas inteiras desse livro. Era um dos predestinados. Estava marcado para Mozart. Desde aí, li quase tudo e ouvi tudo da imensidade de uma obra com cerca de 800 títulos (os 623 do catálogo de Köchel, mais os quase duzentos outros acrescentados depois). Vinte anos mais tarde, em 1976, dediquei um ano da minha vida a ouvir tudo o que nessa altura estava gravado, do K. 1 ao K. 623, mais os suplementos de Alfred Einstein, assim mesmo por ordem cronológica, com notas e comentários, num monumento "radiofónico" em que fui o único emissor e o único receptor, com fanática escolha dos intérpretes de eleição.

 

2 - No livro de Hocquard, havia uma discografia antológica, recomendando os intérpretes predestinados e expurgando outros, celebérrimos, mas que o não eram. Não descobri nunca uma falha de gosto ou um gosto que não coincidisse com o meu. Mas havia um capítulo que, dentre todos, me fascinou. Foi aquele a que Hocquard chamou "obras de pura intimidade". Era uma lista de peças, relativamente desconhecidas, que o ouvinte podia escutar com indiferença "faute de l'attention recueillie qui seule permet d'être sensible au dépouillement final de l'art mozartien". Foi essa lista que me revelou os Nocturnos Vocais de 1783, os Canon Vocais de 1788 (e os meus filhos mais velhos iam para a cama ao som do Bona Nox, K. 561), as Danças Alemãs, K. 571, sobretudo a última, o Adagio-Rondó em dó menor, para harmónica, flauta, oboé, alto e violoncelo, K. 617, o "Lied" maçónico "Lasst uns", K. 623 a, etc., etc., etc. Devo a Hocquard a descoberta de Teresa Stich-Randall, sobretudo no "Et Incarnatus" do Credo da Missa em dó menor, K. 427, como lhe devo a dos grandes pianistas mozartianos, para chegar ao que aqui me trouxe, que se vai fazendo tarde e o espaço começa a apertar: Edwin Fischer, de todos o maior, Arthur Schnabel, Clara Haskil, Badura-Skoda, Wanda Landowska, Lilli Krauss, Jörg Demus, Ingrid Haebler e alguns poucos mais. À excepção de Badura-Skoda e de Demus, todos deram há muito a alma ao criador, mas ainda hoje continuo a ouvir a obra de Mozart para piano por esses intérpretes, sem descobrir quem os tenha suplantado ou igualado na segunda metade do século findo ou neste. Nem uma excepção? Uma e uma só. Começou a carreira alguns anos antes do meu ano de 56, mas só nos anos 60 atingiu a celebridade e só nos anos 70 o conheci ao vivo e em discos. Chama-se Alfred Brendel e a sua última visita a Lisboa data de sábado passado, 29 de Novembro, no Grande Auditório da Gulbenkian. Brendel é o único intérprete mozartiano tão "predestinado" como os que acima citei, o único que eu conheço, tocado pela Graça com G muito grande, essa Graça que com Mozart se funde. Duas vezes gravou os 27 concertos para piano, gravou também a integral das sonatas e esses discos Phillips são os únicos a pôr ao lado do que nos ficou de Fischer, Schnabel ou Clara Haskil. Tão grande como.

 

3 - Brendel, como muitos saberão, não é só o maior intérprete mozartiano vivo. De Beethoven, de Schubert, se não é o maior, é um dos maiores. Entre os meus máximos momentos musicais está a "Hammerklavier" ouvido o ano passado em Salzburgo, como de resto contei numa destas crónicas. Infelizmente, o único outro português então presente não o pode agora confirmar, tragado que está por sanhas cruéis e terrivelmente injustas.
O programa de Brendel em Lisboa foi de uma inteligência prodigiosa. Abriu com algumas das Bagatelas e Rondós de Beethoven para piano, que, nas mãos de Brendel, mais mágicas foram. Prosseguiu com a Sonata em lá maior, K. 331 de Mozart, de todas a mais "perigosa", como já vou explicar. De Mozart passou a Schubert, com a "incompleta" D. 840, a mais abissal e nocturna das sonatas de Schubert. E terminou, como começara, com Beethoven e com a sonata da decisiva transição, que é a "opus" 22. Em extra, voltou a Schubert, para uma das valsas sentimentais. Mas é em Mozart - evidentemente - que me fixo para acabar. Só lhe chamei a mais "perigosa", porque o último mandamento da K. 331 é o celebérrimo "Allegreto: alla turco", vulgo "Marcha turca", que, de todas as peças de Mozart, devido à sua aparente simplicidade, é a mais tocada e assassinada pelos aprendizes de piano. Grande parte dos preconceitos antimozartianos radicam nela. Foi também com Hocquard que aprendi que só um pianista - Edwin Fischer - foi capaz de perceber que, para além da "leveza" desse andamento, havia nele uma pureza e uma "luz" que são o próprio cerne da música de Mozart, que escreveu essa sonata em Julho de 1778, em Paris, pouco antes ou pouco depois da morte da mãe, num dos momentos mais trágicos da sua vida. Com um começo inusitado - um andamento lento com variações, sobre um "Lied" do Sul da Alemanha, "Rechte Lebensart" -, esta sonata, para mim, sempre foi um adeus à infância, uma espécie de "never more" ao som das canções que, em criança, a mãe lhe terá cantado. O modo como Brendel separou e destacou cada uma das variações, sem em nada agravar o tom, repassou da nostalgia e saudade. E, quando chegou à "marcha turca", eu nunca ouvi, depois de Fischer, um tal milagre. Como um dia escreveu Bruno Walter, tudo foi tão alegre, tão alegre que dá vontade de chorar. A "pura intimidade" foi atingida aí, nesse momento entre todos mágico, por aquele homem com cara de desenho animado e de mãos de duende, possuído, como Mozart, pelo mesmo espírito de infância e pela mesma infinita saudade do que não mais voltará. Até hoje, só de disco sabia o que podia ser esse andamento. Graças a Brendel soube-o em carne e osso, dele e minha. De agora em diante, a todas as minhas saudades juntam-se as saudades de Brendel. Tenho o disco? Tenho. Mas não é, não, a mesma coisa. As saudades, se sempre se repetem, nunca se repetem como foram ou como são.

 

5 de Dezembro 2003, Público.

A VIDA DOS LIVROS


de 28 de Junho a 4 de Julho de 2010

 

 

 
"Silêncio"
de Shusaku Endo (1923-1996) é uma obras-prima da literatura contemporânea (tradução de José David Antunes, D. Quixote, 1990). Intitulado originalmente “Chinmoku” (1966), este livro teve, desde a sua publicação, um enorme sucesso, suscitando comentários contraditórios. O autor trata de um tema de grande complexidade, a apostasia, especialmente se pensarmos na sociedade japonesa do século XVII. Partindo da experiência de um jesuíta português, Cristóvão Ferreira, prestigiado teólogo, Endo narra uma aventura espiritual ligada às conversões cristãs no Japão e às perseguições que se lhes sucederam. Esta apostasia ocorreu no período das mais violentas perseguições das autoridades japonesas para pôr fim a um processo considerado perigoso. Pretendiam, afinal, estirpar o desenvolvimento de uma influência estranha, que ameaçava as tradições ancestrais.
 

 

UM ESCRITOR SINGULAR
Shusaku Endo nasceu na cidade de Tóquio em 1923, viveu a infância na Manchúria, tendo-se tornado católico aos doze anos, por influência familiar, mais precisamente de sua mãe, com quem viveu depois desta se separar do pai, já em Kobe. O futuro escritor licenciou-se em Literatura Francesa pela Universidade de Keio, tendo estudado na Europa, em Lyon, com uma bolsa do Governo do Japão. A sua obra é marcada pelas características especiais da sua identidade pessoal – pertença a uma religião minoritária e de influência exterior, o contacto com a doença e com a vida hospitalar, além dos intensos e dramáticos dilemas morais e religiosos. Neste sentido, aliás, Shusako Endo é muitas vezes comparado a Graham Greene, que tinha uma grande admiração pela obra do romancista japonês. “Silêncio” é considerado o seu livro de maior originalidade e intensidade e mais significativo, o que levou a ser distinguido com o prestigioso Prémio Tanizaki (1966). “A Vida de Jesus” (1973), “O Samurai” (1980) e “Escândalo” (1986) constituem outras obras que permitiram a afirmação de Endo como um grande romancista mundial.
 

UMA INFORMAÇÃO DRAMÁTICA
Tudo começa com uma informação dramática e inesperada: “A notícia chegou à Igreja de Roma. Enviado ao Japão pela Companhia de Jesus em Portugal, Cristóvão Ferreira submetido à tortura da fossa em Nagasáqui, apostatara. Missionário experiente, credor da maior estima, Cristóvão Ferreira já vivia no Japão há trinta e três anos. Ocupava aí o cargo de superior provincial e era tido como um exemplo inspirador tanto de clérigos como de leigos”… As cartas que, entretanto, mandara da região de Kamigata, onde se encontrava, revelavam uma grande determinação e coragem por parte do padre jesuíta. Essas missivas não faziam suspeitar ou prever qualquer tendência no sentido da negação. É verdade que a partir de 1587, sob a orientação do regente Hideyoshi, a perseguição ao Cristianismo se tornou violenta e persistente, no entanto pouco se sabia sobre os procedimentos concretos adoptados para extirpar a influência cristã e ninguém estava em condições de prever o sentido e alcance das medidas e dos seus efeitos. “Silêncio” trata das informações obtidas pelos Padres Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe sobre o acontecimento passado com o Padre Ferreira. O romance é constituído por cartas de Sebastião Rodrigues e por outras informações complementares, que nos levam aos estranhos acontecimentos que levaram à apostasia do mais proeminente dos missionários jesuítas no Japão… Seguindo um ritmo que prende o leitor de princípio a fim, encontramos uma minuciosa narrativa que nos permite compreender a difícil relação entre culturas muito distantes e sobretudo o conflito ético pessoal e íntimo que pôde ser usado e manipulado contra o Cristianismo por parte das autoridades do Japão no século XVII.
 

CONFLITO PESSOAL, COM RESULTADOS EXTERNOS
Cristóvão Ferreira é retratado como alguém obrigado a defrontar-se com as consequências de uma opção tremenda em que a fé pessoal está ligada ao destino de muitos cristãos japoneses obrigados ao sacrifício supremo pelo qual ele se sente também responsável. E neste ponto não pode deixar de lembrar a meditação angustiosa sobre o porquê da missão de Judas, porquê haver um apóstolo condenado à partida pelo facto de lhe caber a tarefa necessária de entregar o Mestre por trinta dinheiros. Quantos dramas pessoais repetem esse exemplo evangélico? E Sebastião Rodrigues é levado ao caminho de Cristóvão Ferreira, repetindo-o. «O padre abanou freneticamente a cabeça, tapando os ouvidos com os dedos. Mas tanto a voz de Ferreira como o estertor dos cristãos se filtravam por eles impiedosamente, mesmo tapados. ‘Basta, Senhor, basta! É agora o momento de quebrares o silêncio. Já não te podes calar por mais tempo. Mostra que és a justiça, a bondade, o amor por excelência. Tens de dizer alguma coisa para que o mundo saiba que existes’». Esse silêncio pesado domina o drama de quem tem de escolher entre o amor e a morte, sem saber exactamente onde estão um e o outro. A pressão é máxima, desde a culpa à dúvida, do silêncio ao amor. A apostasia concretizava-se pisando a imagem do próprio Cristo, representado num “fumie”. “Por amor deles, até o próprio Cristo teria apostatado”. E Ferreira dirá ao ouvido do novo apóstata: “Você vai agora realizar o mais doloroso acto de amor de que jamais alguém foi capaz”. E é como se fosse uma formalidade, ou como se o próprio Cristo dissesse: “Pisa-me! Eu vim ao mundo para ser pisado pelos homens! Carreguei com a cruz para partilhar da dor que vos é comum…”. E afinal: “Quando o padre assentou o pé no ‘fumie’ nascia a manhã. Ao longe, um galo cantou”…

 
UMA REFLEXÃO INCÓMODA

«Durante muito tempo (diz Endo) eu senti-me atraído por um niilismo total, e quando, por fim, dei conta do vazio apavorante que nele havia, fui vencido mais uma vez pela grandeza da fé católica. O problema da reconciliação do Catolicismo com o meu sangue japonês… ensinou-me uma coisa: que o homem japonês tem de absorver o Cristianismo sem o suporte de uma tradição, de uma história, de um legado, ou de uma sensibilidade cristãs. Que resistências, que angústias e sofrimentos tem custado esse esforço! Todavia é impossível resistir-lhe fechando os olhos às dificuldades. Não há dúvida: esta é a cruz peculiar reservada por Deus aos japoneses”. O tema não é puramente intelectual, ainda que o romancista sempre tenha insistido em que a sua reflexão não era a de um teólogo mas de um escritor de narrativas. Trata-se de um drama existencial que é tratado magistralmente, que não deve apenas situar-se num momento histórico, mas que se projecta para os dias de hoje e para uma tensão civilizacional, entre as tradições milenares do Japão, o culto dos antepassados e o sincretismo religioso há muito enraizado na cultura japonesa. Daí que este romance tenha sido rodeado de escândalo entre os velhos cristãos do império do Sol Nascente. William Johnston, no prefácio ao livro, salienta que o problema de Endo não é apenas japonês, põe-se também nas sociedades ocidentais contemporâneas: “se os ouvidos do Japão estão ansiosos por surpreender um novo motivo no novo concerto, não menos atentos estão os do Ocidente, em busca de novos acordes consonantes com as sensibilidades nascentes”. Daí que Endo seja muito mais universal do que possa parecer à primeira vista. E se Graham Greene falou sobretudo da tensão entre o Cristianismo e uma sociedade conformista no ocidente, o romancista japonês equaciona a contradição a partir da distância cultural entre o judeo-cristianismo e o Japão. O Professor Yanaibara afirma que não foi o “pântano japonês” que venceu os apóstatas. “Os mártires ouviram a voz de Cristo, mas para Ferreira e Rodrigues essa voz não se fizera ouvir. Não significará isto que esses padres já não tinham fé desde o princípio? Por isso, a luta de Rodrigues com Deus não aparece descrita”. E vemos, no final, que os apóstatas continuam a viver, agora sob um nome budista e embrenhados no ambiente do Japão. O debate é difícil e de conclusões incertas, e é o autor que está bem presente nos dilemas e angústias provenientes dos confins da História, de qualquer modo, uma coisa é insofismável, Shusaku Endo é um dos escritores mais lidos no Japão, mesmo depois da sua morte, e tal só é possível graças ao interesse manifestado por pessoas de diferentes horizontes pelo tema e pelo modo como é abordado.

Guilherme d'Oliveira Martins

 Oiça aqui as minhas sugestões na Renascença

A PALAVRA DE JBC

 

LEAL SOUVENIR
 

1. Por que é que se volta repetidamente a certos lugares que, de viso próprio, nunca escolheríamos? Por que é que se malogram sucessivamente visitas a outros certos lugares, tanto e há tanto tempo desejadas? São duas perguntas sem resposta ou com a mesma resposta que não obtemos quando nos perguntamos o que nos leva a encontrar sucessivamente quem não buscámos nem buscamos ou a desencontrar, com a mesma irregularidade, aquela ou aquele que procurávamos e procuramos. Os acasos têm as costas largas e eu sou daqueles que nunca acreditou na dimensão delas. O que tem que ser tem muita força e raramente se acha força que a contrarie. Lembrei-me disso, em Rimini. Como julgo que já expliquei aqui uma vez (com a idade, a gente repete-se) Rimini nunca foi cidade que eu buscasse. Ora (cf. PÚBLICO, 8 de Novembro de 2002, "Fellini de Rimini") por duas vezes em dois anos seguidos me achei nessa cidade, por obra e graça do mesmo Fellini, cuja obra nunca foi da minha graça. Basta o Templo Malatestiano para obrigar alguém como eu a visitar essa cidade? Basta. O elefante e a rosa. Alberti e Piero. O galgo branco e o galgo negro. A imaculada conceição do Renascimento, necessitas, commoditas, voluptas. Mas não eram coisas minhas, antes de as ver, e eu raramente vejo o que antes não era já meu. Só agora sei que um dia seria. E só agora sei que quando "voei" de Alberti para Bramante e do Templo de Sigismondo para as cúpulas de Santa Maria delle Grazie (é mesmo Grazie, caríssimo Manoel de Oliveira) fiz o "raccord" mais perfeito que se pode fazer entre os cumes do renascimento arquitectónico italiano. Mas não é do Tempietto que hoje vou falar, pois que até a repetição tem limites. Desta vez, embora tenha ganho muito do meu tempo entre o galgo negro de Piero e os rabinhos redondos dos mil "putti" de Isotta degli Atti, os meus passos levaram-me para o museuzinho da cidade, onde eu sabia que podia ver um Bellini que antes muito vira (uma Pietá com anjo cor de rosa). E eis que, de súbito, nessa sala, se me atravessa uma estátua de Santa Catarina (a de Alexandria, não a de Sena) datada de 1410 e atribuída ao "Mestre da Anunciação Dreicer" que não sei quem foi mas me soube a Dreyer. É uma estátua de pedra branca com vestígios de policromia. Não é muito alta (1 metro e 30) mas, como a colocaram em cima de um plínio de 40 cm, a cabeça dela ficou quase à altura da minha. Veste um longo manto de pregas que a cobre inteiramente do pescoço aos pés (nenhuma carne visível) e usa uma cabeleira de anjo muito encaracolada. Mas o que me hipnotizou foi o sorriso, um sorriso inenarrável, sossegadíssimamente meigo e sossegadíssimamente desafiante. Tão desafiante era que, aproveitando o facto de estar sozinho na sala, me aproximei para lá de todos os critérios aconselhados pela mais benevolente segurança. Os olhos da estátua são daqueles que olham frontalmente quem frontalmente os olha a eles. Um dos olhos é cego ou ficou cego de tanto ver. O outro, pelo contrário, olha todo, olha tudo. Assim, quase "cheek-to-cheek", fiquei colado a ela. Ninguém nos interrompeu. Numa vasta sala, solitária e gelada, o meu vulto e o vulto dela, ficaram de corpo-aberto, benzedeiros e videntes, como se diz dos corpos onde entrou um espírito, que dentro dele fala. Como Quinto Fábio Pictor quando foi a Delfos consultar o oráculo e inquirir dos meios mais adequados para alcançar favores divinos. Hawthorne, que como ninguém sabia destas coisas (ele me deu ou dará o título "Proféticas Imagens") falou de experiência semelhante em "The Marble Faun". Sinais de alma que, no mundo, só algumas mulheres têm. E algumas estátuas e alguns quadros. Como a minha - a de Bronzino - Lucrezia Panciatichi, que há seis décadas me vela e me desvela, "Amour Dure-Dure Amour", Madonna do Futuro, Madonna do Passado, como, antes de mim, para Henry James já fora. Como Milly Theale reencontrada.

 

2. A fotografia, desde os tempos imemoriais em que eu brincava com retratos avoengos de Mniz Martinez, com moradas na Rua de Serpa Pinto nº 66 e no Largo da Abegoria 4 ou da Helios Photos, com moradas na Avenida da Liberdade 158 ou na Rua de S. José 209 A; a pintura, desde os tempos mais memorizáveis em que abri as Janelas Verdes; tinham-me dado visões semelhantes. A pedra ou o mármore, jamais. A tal ponto que essa estátua dreyeriana (não é gralha) se me sobrepôs à "morbidezza e diligenza" (Vasari o disse, que raramente se enganou) dos vários Malatesta que estão aos pés de S. Vincenzo Ferreri, na pala com o nome do Santo, que é a obra máxima exposta no museu. Ghirlandajo a pintou em 1493, quase cem anos depois de esculpida a Catarina, e, muito mais impressivos do que os Santos adorados (além do "protagonista", os inseparáveis São Sebastião e São Roque) são os adoradores: Pandolfo IV Malatesta, que foi o último senhor de Rimini (tão fraco guerreiro como bom negociante, pois que por duas vezes vendeu a cidade que não conseguiu defender) a mãe, Elisabetta Aldobrandini, a mulher, Violante Bentivoglio e o irmão Carlo. Todos eles, luxuosíssimante vestidos e com a raça imaginável pelo apelidos, não sendo retratos autónomos (figurantes ajoelhados da cena supostamente sacra), em pouco espaço, se volvem para a expressão ideal a que só a "alta immaginazione" pode aceder. Ninguém olha ninguém. Ou seja, não se olham uns aos outros nem olham os santos. Mas é da perna, fugazmente nua, do pestífero São Roque, que desce a carne que os torna tão palpáveis e frementes. Pensei na implausibilidade (para não dizer impossibilidade) de um nariz como o de Pandolfo, a começar quase no meio da testa e a seguir rectilíneo quase até à boca, um nariz quase tão soberbo como o do Medicis de Botticelli ou o do Montefeltro de Piero. Na noite desse mesmo dia, jantei com uma italiana que tinha um nariz quase igual. Em Itália nunca se sabe se é a natureza que copia a arte ou se é a arte que copia a natureza. Provavelmente, nem uma nem outra coisa. Os retratos são a mais imaginosa das nossas memórias, ou as mais perduráveis imaginações nossas.

 

3. Não estou a dizer nada que não tenha sido dito e redito. Só que nos esquecemos de o lembrar. "Nothing, in the whole circle of human vanities, takes stronger hold of the imagination than this affair of having a portrait painted. Yet why should it be so? The looking glass, the polished globes of the andirons, the mirror-like water, and all others reflecting surfaces, continually present us with portraits, or rather ghosts of ourselves, which we glance at, and straightway forget them. But we forget them only because they vanish. It is the idea of duration - of earthy immortality - that gives such a mysterious interest to our own portraits" ("Dentre todas as mundanais vaidades, nada tem mais forte poder sobre a imaginação do que esta coisa de possuir um retrato pintado. Porquê? Porque é que isso acontece? Os espelhos, as vítreas placas das salamandras, a água e todas as superfícies reflectoras continuamente nos oferecem retratos, ou, melhor dito, espectros de nós próprios que olhamos de relance e imediatamente esquecemos. Mas só os esquecemos porque desaparecem. É a ideia da permanência - da imortalidade terrena - que confere tão misterioso interesse aos nossos próprios retratos"). Perdi tempo e espaço a citar o texto de Hawthorne (outra vez Hawthorne) no original inglês e na aproximativa tradução portuguesa? Não, não perdi. Ganhei-o. Porque a repetição - como a permanência - estimula a memória e com ela a imaginação. Aprende-se isso no cinema ou com o cinema. Um dos primeiros teóricos dele - Giambattista della Porta - escreveu em 1602 (quase trezentos anos antes dos comboios de Lumière) que "a memória mais não é do que uma pintura inteira, guardada nessa mesa animada a que chamamos cérebro". Ars riminiscendi. Não julgo preciso explicar-vos quem nos ensinou que tudo o que fazemos não é mais do que lembrarmo-nos. E lembro-me do nariz de Pandolfo, do "azul profundo, quase nocturno" de Bellini, da cor maléfica "do sumo de papoula" da Lucrezia de Bronzino, do galgo negro nascido das costas do galgo branco de Piero. E lembro-me mais e mais do sorriso evanescente e do olhar húmido da Santa Catarina, única imagem que aqui vos deixo, sabendo que não a vereis como eu a vi, "tremendo com todo o corpo" como Plutarco disse que Cassandro tremeu ao ver a imagem de Alexandre, tempo depois de Alexandre morto.
Uma última imagem? No retrato de Van Eyck, dito de Timoteos, que hoje está na National Gallery em Londres, lê-se a inscrição "Leal Souvenir". Penso que tudo quanto disse sobre a imagem, a memória e a imaginação, pode caber nessa expressão. E penso - parecendo que não - que tudo quanto vos confiei foram recordações leais. Não mais, não menos.

21 de Novembro de 2003, Público. 

A VIDA DOS LIVROS


de 21 a 27 de Junho de 2010

"Os Dias e os Anos – Diário, 1970-1993" (D. Quixote, 2010) de Marcello Duarte Mathias é um livro que nos traz a recordação de um período de transição, entre 1970 e 1993, em que Portugal viveu a preparação de uma súbita mudança de século e tudo o que lhe seguiu, ligando o 25 de Abril e a queda do muro de Berlim. Dir-se-á hoje que tudo era, mais ou menos, previsível. No entanto, é fundamental recordar como era difícil antever a circunstância exacta em que tudo iria mudar e como. O tempo tem sempre essa qualidade única que permite tornar natural aquilo que visto por antecipação é o mais estanho que se possa imaginar…
 

 
MEMÓRIAS DE VIDA VIVIDA

As memórias não servem para dar chaves para a História, mas para nos revelarem as circunstâncias, os ambientes e as tendências. Assim é com Marcello Duarte Mathias (MDM), um autor persistente e arguto, que usa o talento para nos fazer ver o mundo a partir do seu exigente e requintado juízo. Os diários de Marcello começam por ter um magnífico título comum, que o escritor foi buscar ao conto «A Terceira Margem do Rio» de João Guimarães Rosa, «No Devagar Depressa dos Tempos». Depois do primeiro volume correspondente aos anos 1962-1969 e dos relativos à Índia (1993-1997) e a Paris (2001-2003) temos agora o segundo volume da ordem cronológica intitulado «Os Dias e os Anos – Diário, 1970-1993» (D. Quixote, 2010). Uma noite destas, quando o comecei a ler, tive dificuldade em parar, como aliás costuma acontecer com as melhores obras do género, que fazem jus ao ditado popular de que as palavras são como as cerejas. Francisco Seixas da Costa já me tinha avisado disso no seu blogue sacrossanto. E neste tempo de cerejas, rapidamente percebi que estas memórias são um curioso retrato da transição da sociedade portuguesa, mesmo para quem seguiu, de Brasília, placidamente e à distância os acontecimento de 1974. Que salto enorme se nota desde Augusto de Castro, vindo da pré-história (mesmo para os que lemos «O Fumo do Meu Cigarro»), rindo-se daqueles documentos amontoados na cave do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que ninguém lê ou lerá, até à imersão total na construção europeia, mesmo para um diplomata que procura sempre matizar as análises do tempo e dos acontecimentos com uma racionalidade crítica tantas vezes desarmante. E essa atitude é tão evidente que MDM chega a enganar os seus críticos sobre a sua atitude relativamente à cultura, à criação e à vida. Raymond Aron, que tantas vezes encontramos, não é tanto o maître-à-penser incontestável, mas uma das referências, ao lado de outras bem mais inesperadas e inconformistas. Como não lembrar «Mas é no rosto e no porte altivo do rosto» (1983) ou a admiração recorrente e a procura incessante de novos motivos de interesse em relação a Albert Camus?
 

PAÍS DIFÍCIL DE ENTENDER
O que se nota neste longo e impressivo período? Um país “tão difícil de entender e tão grande no seu mistério”. Um Portugal que, em 24 horas, “mudou de século”, no dia 25 de Abril de 1974. Terra onde, ainda em 1983, a Estrada da Beira era «qualquer coisa entre a odisseia de Serpa Pinto e o rali Paris Dakar»… «Nós passamos séculos a fugir de nós mesmos (diz Eduardo Lourenço, expressamente citado), enquanto apenas portugueses. Fuga simultaneamente estelar e criadora que não permitiu nunca que nos encontrássemos connosco mesmos. Fomos sempre outros»… Afinal, para Keyserling, o português é qualquer coisa de eternamente inacabado. E o memorialista afirma ainda que «o português é dos raros povos que ainda não perdeu a infância». E a propósito de António José Saraiva e do grande enigma deixado pela geração de 1870 (Antero, Eça, Oliveira Martins), que nos leva a interrogarmo-nos sobre o porquê das angústias desses homens que passaram por derrotistas, quando sempre combateram o fatalismo e os «sebastianismos», MDM diz certeira e simplesmente o que costuma ser muito difícil de explicar. Trata-se de uma verdade bem mais comezinha do que pode julgar-se à primeira vista: «À partida o que a todos os animava era o propósito sério de regenerar a vida portuguesa e de a libertar da tutela inglesa (‘A revolução só pode ser uma revolução moral’ dirá Antero). Apontar os podres, estigmatizar a intriga e o marasmo em que o país se comprazia, por entre a sífilis de o analfabetismo, a tuberculose e a miséria. Numa palavra, acertar o relógio – nem que fosse à custa de uma valentes bengaladas. Era uma missão de homens de bem antes de ser um projecto revolucionário, uma mensagem de filosofia política e não um programa de governo, uma estética de acção bem mais que uma doutrina». Não precisaria de ser dito mais… Oliveira Martins, longamente citado, lido, relido e adaptado (como no filme “Oxalá” de António Pedro Vasconcelos), faz o nosso autor afirmar lapidarmente: «Quando uma nação se condena pela boca de seus próprios filhos, é difícil, senão impossível, descortinar o futuro de quem perdeu por tal forma a consciência da dignidade colectiva». Quantas vezes esquecemos isto mesmo?
 

RECEPTIVO A TUDO, SEM NADA CONCEDER
Ao lermos vertiginosamente as recordações, os comentários, as apreciações, compreendemos que MDM afirme: «as minhas emoções contêm o que de mais pessoal existe na minha pessoa». É um céptico contido e sereno, que diz: «Torna-te receptivo a tudo sem nada concederes. E que a prática do cepticismo não seja o teu conformismo». Apesar da moderação, o autor não perde a oportunidade de romper os limites do real, para melhor o entender: «Cruzei-me esta manhã na Baixa do Sapateiro (em Salvador) com um velho amigo a quem dei um grande e comovido abraço – o Quincas Berro d’Água… - mas ele ia tão borracho que nem sequer me reconheceu». Encontramos muitas referências pessoais, eis algumas: Adelino Amaro da Costa («a política é o seu oxigénio e o seu horizonte», corre contra o tempo), Ernâni Rodrigues Lopes («o contacto é imediato e o homem é descerimonioso», com vivacidade e capacidade de ver o conjunto das coisas), Gilberto Freyre («é um alfinete, fino de palavras e de expressão»), António Alçada Baptista (apesar das reservas aos romances, é preciso quanto à «Peregrinação»: «ficará como um dos melhores testemunhos da geração dos anos Quarenta e Cinquenta» – «sem a acrimónia dos chamados intelectuais revirallhistas, antes com bonomia e ternura» ou Eduardo Lourenço («fremente de inteligência, recorda coisas do seu tempo de Coimbra. Há nele uma boa disposição e uma graça natural cuja espontaneidade não transparece de todo em todo naquilo que escreve, e é pena»).
 

A SOMBRA DO PAI EMBAIXADOR
A cada passo nota-se a sombra do Pai, Embaixador, como pessoa, como figura tutelar da família, mas também como um homem de vários talentos, e não só diplomáticos, como o de misteriosíssimo Pablo La Noche, de «Lusco-Fusco»… Em Benfeita, a 15 de Agosto de 1983 em dia de aniversário : «É aqui, e a partir daqui, que nos damos conta do verdadeiro prodígio de vontade, inteligência e tacto que foi a vida do Pai. Gosto que o Nuno e o Marcelito participem nestas coisas, pois parte de mim também está aqui». A emoção do tantas vezes frio intérprete dos acontecimentos vem à tona, em especial no tempo da queda do muro de Berlim, em que o entusiasmo não se contém, a partir do Porto de Abrigo da Abuxarda, em vésperas de Natal (1989): «A liberdade a nascer e a triunfar em toda a Europa, a verdadeira Europa a ressurgir, enfim!».

Guilherme d'Oliveira Martins

José Saramago (1922-2010)

 

O escritor português e Prémio Nobel da Literatura em 1998, José Saramago, morreu hoje aos 87 anos em Lanzarote.
O autor português encontrava-se doente mas em estado "estacionário", mas a situação agravou-se, explicou o seu editor, Zeferino Coelho.

 

José Saramago é um grande escritor universal.
"Memorial do Convento" e "O ano da morte de Ricardo Reis" são grandes obras da língua portuguesa e da literatura contemporânea.
Era sócio do CNC e demonstrou-nos sempre a sua amizade!

A PALAVRA DE JBC

João Bénard da Costa

 

CINZAS DE VERÃO

 

1 - 1 de Outubro. Para mim, os anos começam sempre a 1 de Outubro. 1 de Janeiro é só o menos estimulante dos dias da quadra do Natal, uma espécie de cinzento P.S. (vale para "post-scriptum") do Dia do Menino Jesus.
Aos mais novos recordo que, nos meus tempos, era a 1 de Outubro que recomeçavam as aulas, após as férias que nos anos sem exame (e dos sete do liceu, quatro eram anos desses) se espraiavam docemente entre 14 de Junho e 30 de Setembro, dia dos anos da minha avó. Para mim, espraiavam-se literalmente entre 1 de Agosto e 28 ou 29 de Setembro. 1 de Agosto era o dia da viagem, entendendo-se por viagem o percurso entre o nº 86 da Avenida António Augusto de Aguiar, em Lisboa, e a Villa Raul na Arrábida. Os quilómetros (46) não encolheram com o tempo, mas sem pontes sobre o Tejo (travessia em "ferry-boat"), camioneta de Cacilhas para Azeitão e mais camioneta de Azeitão para a Arrábida, o percurso era coisa para quatro, cinco horas a que se somavam as horas de espera pelas mencionadas carripanas, exclusivo de João Cândido Bello. Cedo erguer em Lisboa e pôr do sol na Arrábida, onde, felizmente, havíamos sido precedidos pelas criadas, que já tinham posto a casa mais ou menos em condições. Tudo era diferente, nos rituais do quotidiano. Não havia luz eléctrica, a água provinha de uma cisterna e era levada em jarros para os quartos e respectivos lavatórios. Não havia telefonias nem telefones, não havia cinemas nem lojas. Havia a praia e os banhos, os passeios na serra. Um silêncio total. Regressar a Lisboa era passar do século XIX ao século XX. A surpresa de carregar num interruptor e fazer-se luz, da água a jorros, do telefone a tocar. À noite, na cama, eu ouvia os silvos dos comboios de Entrecampos e não mais a nortada a fazer ranger as madeiras das portas e dos tectos. Um ano acabara, começava outro, ao reencontrar (ou perder) colegas e professores nos pátios e nas aulas do Liceu Camões. Nunca mais via os primos e as meninas do Verão. Até outro Verão. Mas não o Verão, como eu não o via, com os mesmos olhos. O tempo ainda não passava a correr e um ano na adolescência é maior do que a légua da Póvoa. Nesse tempo, é que a vida eram literalmente dois dias: os dias do Inverno e os dias do Verão. As coisas então mais importantes para mim também se contavam a dois: os dias do campeonato de futebol e os dias sem campeonato, começou a época, acabou a época. Havia, no defeso, alguns sucedâneos (a Volta em Portugal em bicicleta, por exemplo), mas não era nada a mesma coisa. As temporadas dos cinemas: os grandes filmes chegavam em Outubro e desfilavam até Junho-Julho, quando começam as "reprises". No Verão, muitos cinemas fechavam enquanto os anúncios anunciavam: "Temporada de 1949-50". Havia os amores de Verão e os desamores do Inverno, e só mais tarde começou a ser vice-versa. Havia os pecados de Lisboa e os pecados da Mata Coberta. Havia as missas em capelas de casas ou grutas particulares e havia as missas de S. Sebastião da Pedreira ou do Patronato. Havia um eu de Inverno e um eu de Verão. Como é que eu posso dizer que o ano não começa a 1 de Outubro?

 

2 - É fácil darem-me cabo do sofisma. Afinal de contas estou a falar da infância e da adolescência e, descontando os anos sem memória, anos desses, em que a vida eram dois dias, não devem ter sido mais de 12. Numa contabilidade feita de hoje, é menos de um quinto da minha vida consciente, ou supostamente consciente. Como é que faço regra de tão breve excepção?
Penso que o cinema tem alguma coisa a ver com isso. Afinal de contas, a Cinemateca sempre fechou para férias em Agosto. Quando reabre, costumo eu tirá-las e só a 1 de Outubro retomo a plena "existencialidade" dela ("existencialidade" ou "essencialidade"?). Mesmo os Agostos em Lisboa, se nada têm que ver com os Agostos de outrora, não são como os outros meses. As salas de cinema estão fechadas, os portões da Barata Salgueiro fecham às 20h, é preciso sair ou reentrar por outras portas. Se os Agostos da cidade já pouco se assemelham ao que me contavam de outras eras ("Lisboa, em Agosto, sem a família, é melhor do que Baden-Baden", contava-se que contavam) são, mesmo assim, bastante mais tranquilos do que os outros 11 moradores do calendário. Como em tudo, a diferença tornou-se mais pequena, mas ainda existe e para alguns continua a ser saborosa. De Setembro pouco vos posso dizer. Hoje, como ontem, é mês em "off" noutros "in". Mas a 1 de Outubro, sim. A 1 de Outubro tudo recomeça e prometo a mim próprio e aos outros a promessa de sempre: "Demain je serais sage." Por exemplo, prometo aos leitores do PÚBLICO que para o próximo Outubro não escrevo mais chaladices destas. Ocupar-me-ei com o devido vagar de um discurso do Presidente da República (fez um dos melhores e mais urgentes discursos dele no dia 30) ou de um político da cena internacional (dia 30 também foi o dia de Blair).

 

3 - Mas não estou tão desacompanhado quanto isso nesta crença outubral. Bem sei que a tendência dominante é para o 1 de Setembro, mas setembrar ou outubrar não é o mais importante. O que mais conta, nos nossos ritmos e nas nossas rimas, é esta vontade de partir o ano ao meio, não onde manda o calendário, mas onde nos mandam o sol, a lua e os apetites. E aí basta ver por tudo quanto é sítio. Das omnipotentes televisões aos menos lidos jornais, não há quem não faça a sua época estival, mais "silly" ou menos "silly", conforme os usos e os poderes. Por exemplo, aprendi alguma coisa com uma dessas "especialidades" do Verão deste ano, no caso em questão a do "Diário de Notícias". O jornal retomou, em versão livre, o célebre "questionário de Proust", assim chamado só porque Proust lhe respondeu duas vezes.
Nas respostas deste Verão reparei numa recorrência que me deu que pensar. À pergunta: "Qual o defeito que lhe inspira maior indulgência", houve, é certo, a resposta genial de Agustina ("o amor"), mas uma significativa percentagem (não fiz estatísticas) respondeu com a estupidez ou a ignorância.
Que a estupidez seja um defeito é discutível (embora um amigo meu, católico, não hesitasse em a considerar um pecado, e mesmo o único pecado veramente mortal), mas que, sendo-o, seja, hoje, tão genericamente desculpável, deu-me que pensar. A condescendência - ou compreensão - com a ignorância ainda mais. Nunca fui muito nessa conversa de "gerações rascas" ou coisas quejandas. Mas quando tanta gente, nova em anos, se mostra tão tolerante com a estupidez e com a ignorância, pergunto-me se alguma coisa mesmo não se está a passar. "Morte à inteligência" foi um grito horrível ouvido há menos de um século nesta mesma península. Ficou para a História a resposta que teve. Essa história e essa História serão as mesmas habitadas pelos doces domesticadores da estupidez? Já estávamos habituados aos insultos aos "pseudo-intelectuais" na boca de qualquer desgraçado que não se sentia amado nem compreendido e sobretudo não compreendia nem amava o que "essa gente" fazia. Será necessário dar vivas à estupidez ou à ignorância?
Lembro-me de um filme de 1994 - "Forrest Gump" chamava-se - em que o herói (Tom Hanks) era uma espécie de atrasado mental, que só tinha uma pálida ideia dos problemas e conflitos americanos ou mundiais. O filme retratava-o como um típico produto do que se chamou a "baby boomer generation", a que foi dominante entre a ascensão de Elvis e a queda de Nixon. Mas aquilo que no livro (de Winston Groom) serviu de base ao filme - uma sátira, mais ou menos verrinosa, contra essa geração - transformou-se, no filme de Zemeckis, numa apologia do "pobre de espírito", que triunfava, porque milhões de americanos se achavam iguais a ele e queriam que a América e o mundo fossem de homens como ele. Quando vi o filme, tive o primeiro prenúncio que aquele personagem não representava um tempo passado, mas um tempo futuro. O êxito desse elogio à estupidez deixou-me perplexo. Mais ano menos ano, não iria nova minoria reclamar direitos e a comemoração do Dia do Estúpido? Estúpido fui eu, porque, infelizmente, essa minoria é maioritária, na América ou em qualquer outro país. Quando as maiorias se unem, sobretudo em épocas globais, adivinham-se os resultados.
Em Portugal, sem querer tomar tão pequena parte pelo todo, fiquei a saber que muitos se não incomodavam nada (ou se incomodavam pouco) com a ignorância e a estupidez alheias. "Deixa-os pousar", como se dizia antigamente na velha história do galo e dos abutres? Talvez seja pior. Porque, olhando o "Diário de Notícias" de 28 de Setembro, vi, na reportagem da chamada "marcha branca" (convite tendencial a almas pacíficas e misericordiosas) um cartaz que pedia para os pedófilos castração e prisão perpétua. Um grupo de monstros infiltrado entre os manifestantes e que os organizadores não puderam controlar? Ficava mais descansado se fosse assim. Porque o mais provável é que nem maus sejam. Que sejam simplesmente ignorantes ou estúpidos, ou as duas coisas ao mesmo tempo, a mais explosiva mistura humana que imaginar se pode. E isso é, de tudo, o que mais me assusta.
Resta-me esperar que sejam as últimas cinzas de Verão e não as primeiras chuvas de Inverno.
 

3 de Outubro 2003, in Público 

BOLSAS JOVENS CRIADORES

                                                    

 

BOLSAS JOVENS CRIADORES 2010

 

Está aberto concurso para atribuição de Bolsas de criação e/ou formação nas áreas de Literatura, Música, Artes do Espectáculo e Artes Visuais, para jovens de nacionalidade portuguesa até aos 30 anos, que tenham já apresentado publicamente um trabalho na área em que concorrem.
 

Trata-se de uma iniciativa apoiada pelo Instituto Português da Juventude que tem como objectivo estimular o trabalho criativo dos jovens nas diversas áreas das Artes e das Letras, competindo ao Centro Nacional de Cultura a gestão do processo de selecção e acompanhamento dos bolseiros.
 

O Júri de selecção será composto por uma Comissão Especializada para cada uma das quatro áreas – constituída por elementos de reconhecida projecção na área contemplada – e uma Comissão Geral constituída por representantes de orgãos de comunicação social.
 

O prazo de candidatura termina no dia 30 de Julho de 2010.

 
O Regulamento está disponível em www.cnc.pt
ou na recepção do Centro Nacional de Cultura

PORTUGAL EUROPEU – FUTURO EXIGENTE

 

25 Anos depois da adesão de Portugal à União Europeia exige-se mais audácia europeia. Guilherme d’Oliveira Martins interveio no Mosteiro dos Jerónimos com António Vitorino sobre a cidadania europeia, através da intervenção que se transcreve.

 

AGORA DECIDE-SE O FUTURO EUROPEU
por Guilherme d’Oliveira Martins

 

Á memória do Professor António de Sousa Franco

 

Jürgen Habermas, num texto muito importante publicado há alguns dias no “Die Zeit”, dizia que “o facto de a partir de agora os contribuintes da zona Euro garantirem solidariamente os riscos orçamentais do resto dos Estados-membros supõe uma mudança de paradigma. Tomou-se consciência assim de um problema reprimido há muito tempo. A crise financeira amplificada pela crise de Estado traz-nos a recordação dos erros originais de uma União Política incompleta, que ficou a meio caminho”. Estamos, na União Europeia, perante uma questão de sobrevivência e perante a necessidade premente de um “governo económico” da União – o que obriga a pôr o Tratado de Lisboa a funcionar. De facto, essa ideia de coordenação soma-se à noção de União Política e não pode confundir-se com qualquer noção de Super Estado europeu. Do que falamos é da necessidade de audácia na condução dos destinos comuns e da superação das vulnerabilidades inerentes à fragmentação ou à diluição do poder europeu. E o certo é que “governo económico” nada tem a ver com uniformização de políticas, mas com a exigência de articulação e de definição de interesses vitais comuns.

 

Na Europa temos duas legitimidades: dos Estados e dos cidadãos. A construção da União só poderá ter sucesso se garantir o equilíbrio entre a afirmação da democracia supranacional e a consolidação das democracias nacionais, através de uma complementaridade efectiva entre a consciência cívica nacional e a consciência cívica europeia. Uma e a outra têm de ir a par. Daí a necessidade de assumirmos a subsidiariedade com todas as suas consequências. Por exemplo, quando falamos das políticas orçamentais nacionais e de consentimento dos contribuintes, temos de lembrar que as nossas democracias ocidentais se baseiam na tradição das revoluções inglesa, americana e francesa e na herança de Locke, Montesquieu, dos “Federalist Papers” ou de Tocqueville. Os cidadãos devem ter representação e têm de ter voz activa. Daí dever falar-se hoje de um “consentimento complexo” que tem de ser construído a partir da “Carta Constitucional Europeia” (o Tratado de Lisboa e o acervo que o acompanha).

 

O reforço dos parlamentos nacionais e a necessidade de articulação com o Parlamento Europeu e órgãos comunitários está na ordem do dia. Os avanços do Tratado de Lisboa obrigam a que os Parlamentos nacionais intervenham mais activamente, ao abrigo do novo sistema de controlo da subsidiariedade. Esse acompanhamento e a colocação de reservas, quando for caso disso, torna-se crucial, devendo os cidadãos perceber que esse controlo é efectivo e pode interromper o curso de iniciativas que se revelem inconvenientes ou desadequadas. Não se trata, pois, de discutir se é Bruxelas que define critérios de disciplina orçamental impostos aos Estados-membros, mas de construir um processo democrático que leve à definição de objectivos e interesses comuns da União Económica e Monetária – em que a estabilidade de preços tem de se ligar à criação de empregos e à produção de riqueza e em que moeda e economia real, concorrência e coesão, competitividade e justiça se liguem efectivamente. As ideias de soberania originária, de partilha de soberanias e de legitimidade dos cidadãos têm de se articular. Responsabilidade, representação e participação são questões que se põem hoje no Estado-nação, mas também na democracia supranacional. Habermas, no citado texto, fala de um sintoma político de retrocesso sentido na Alemanha, a propósito das sentenças do Tribunal Constitucional sobre os Tratados de Maastricht e de Lisboa, “que se aferram a superados dogmatismos jurídicos relativos à soberania”. E o filósofo fala mesmo, na opinião pública, de uma mentalidade de “ensimesmamento”, através de um “curtoprazismo” que prejudica todos.

 

Se é necessário que haja uma coordenação das prioridades das políticas económicas nacionais, importa que a subsidiariedade funcione, e que as pessoas compreendam que a democracia precisa delas, como cidadãos dos Estados e como cidadãos europeus. A coragem europeia tem de começar nos governos nacionais contra as tentações da fragmentação e do proteccionismo. De facto, o processo de legitimação das decisões da União Europeia não se joga apenas no plano europeu, mas também nacionalmente. Falta a audácia da orientação: urge dizer que há interesses comuns e interesses particulares, e não podemos confundi-los. O “governo económico” é fundamental para que haja competitividade, criação, investimento reprodutivo e mais desenvolvimento humano. E J.Habermas afirma que “em épocas de crise, até os indivíduos podem fazer história”, mas diz também que “o retrato demoscópico da opinião das pessoas (as sondagens) não é o mesmo que a formação de uma vontade democrática deliberativa”. No entanto, até agora, por exemplo nos referendos, tem prevalecido a força dos temas nacionais e das questões particulares, mais do que a perspectiva europeia. Como ultrapassar esta limitação? É a democracia, ela mesma, que está em causa. Cidadãos alemães ou portugueses como poderão pôr a tónica nos interesses próprios e comuns de largo prazo? A lógica nacional (que não deve ser esquecida) será sempre insuficiente para ultrapassar a crise. Vista de fora, a União Europa será tanto mais frágil quanto mais dificuldade tiver em definir objectivos comuns. “Com um pouco de nervo político (diz ainda o pensador alemão), a crise da moeda comum pode acabar por produzir aquilo que alguns esperavam em tempos da política externa comum – a consciência, por cima das fronteiras nacionais, de compartilhar um destino comum europeu”.

A VIDA DOS LIVROS

 

 


de 14 a 20 de Junho de 2010

Há cinco anos, deixou-nos Eugénio de Andrade (1923-2005), poeta da transparência e da compreensão do quotidiano, autor de obra vasta, entre a qual se destaca: “Ofício de Paciência”, 1994; “O Sal da Língua”, 1995; “Pequeno Formato”, 1997; “Os Lugares do Lume”, 1998; “Os Sulcos da Sede”, 2001. Hoje recordamo-lo sentidamente.


Eugénio de Andrade, por José Rodrigues, 1977.

 

EUGÉNIO DE ANDRADE E A CIDADE DO PORTO
O Porto é uma cidade que há muito sinto como minha e se isso acontece, tal deve-se à minha ancestralidade, mas muito a Eugénio de Andrade e ao que a sua escrita e a sua sensibilidade me ensinaram a amar a única cidade-estado que houve em Portugal, no dizer de Jaime Cortesão. E se há referências indeléveis que encontramos na Cidade Invicta, as mais marcantes, disse-o o poeta, melhor do que ninguém, é essa trilogia mágica, que liga Fernão Lopes, Garrett e Camilo. E como poderemos ser mais portuguesmente fiéis à História e à alma da pátria? «A grande trindade poética que lavra, nesta pedra escura, o perfil seguro do Porto – Fernão Lopes, Garrett e Camilo – leva fatalmente à cidade uma pessoal visão de mundo, o seu génio próprio. O Porto de Fernão Lopes é quase legendário: heróico e honrado; o de Camilo, grotesco e dramático; o de Garrett irónico, pitoresco e sentimental. São três tempos (em duplo sentido: histórico e musical) do seu carácter que, embora esquematicamente enunciados, nos permitem algumas aproximações. A cidade viril de Fernão Lopes é ainda a de Herculano, Ramalho, Jaime Cortesão e Miguel Torga; Raul Brandão, Pascoaes e Agustina estão, de algum modo, na continuação do pessimismo de Camilo; de Garrett parte, dessorada, perdido por completo o seu impenitente humor, toda uma toada que de Júlio Dinis e António Nobre vem desaguar em tanta loa tacanhamente regionalista e deprimente. Isto para falarmos apenas de quem mais se debruçou na alma destas pedras, bem pouco transparente, como se vê. Não sei como é que a palavra se insinuou: convenhamos que vem pouco a propósito».
 

UMA CIDADE HERÓICA, DRAMÁTICA E SENTIMENTAL
E qual a força que Eugénio de Andrade usa para tornar a cidade ainda mais heróica, dramática e sentimental? Apenas a da interpretação, a de usar os sentidos para apreender a força das coisas e das pessoas. Por um momento, percebemos, como através de “Douro, Faina Fluvial” mas também através António Cruz em “O Pintor e a Cidade” que a transparência se liga ao granito, à saudade e ao humor melancólico. A cidade dos “Altos Infantes” e dessa plêiade extraordinária de portugueses de boa cepa, abertos, livres, criativos, emancipadores. «A transparência é aqui nostalgia: até a luz terá a cor do granito. Mas o granito é às vezes de oiro velho, e outras azulado, como o luar escasso que nesta noite de Outono escorre dos telhados. Quando o sol, mesmo arrefecido, incide nos vidros, as mil e uma clarabóias e trapeiras e mirantes da cidade enchem o crepúsculo de brilhos – o Porto parece então pintado por Vieira da Silva: é mais imaginário que real».
 

UM RIO QUE MARCA A CIDADE
O rio marca a cidade, não podemos compreendê-la, nem compreender-nos, sem essa ligação íntima entre o Douro e o Porto. Daqui houve nome Portugal – e a afirmação não é de somenos – é fundamental, já que as qualidades do Porto são naturalmente assumidas em relação ao todo nacional. E temos de ouvir o poeta: «É urgente o amor. / É urgente um barco no mar. / É urgente destruir certas palavras, / ódio, solidão e crueldade, / alguns lamentos, / muitas espadas. /É urgente inventar alegria, / multiplicar os beijos, as searas, / é urgente descobrir rosas e rios / e manhãs claras. / Cai o silêncio nos ombros e a luz / impura, até doer. /É urgente o amor, é urgente permanecer». Torna-se necessário, no fundo, entender a força das palavras. E Eugénio marcou sempre pelo timbre do dizer, pela coerência, pela força de clamar entre as pessoas. As palavras marcam a ligação íntima entre pessoas e pessoas, entre pessoas e lugares. Continuemos, pois, a ouvi-lo: «1. Sê tu a palavra, / branca rosa brava. / 2. Só o desejo é matinal. / 3. Poupar o coração / é permitir à morte / coroar-se de alegria. /4. Morre de ter ousado / na água amar o fogo. /5. Beber-te a sede e partir / - eu sou de tão longe. / 6. Da chama à espada / o caminho é solitário. / 7. Que me quereis, / se me não dais / o que é tão meu?». E como não recordar, como procura do essencial: «Colhe todo o oiro»: «Colhe todo o oiro do dia / na haste mais alta / da melancolia»? Eugénio de Andrade diz-nos exactamente o que está em causa na Arte Poética. Aí está a tal coerência entre o ser e o dizer, entre o proclamar e o agir. Talante de bem fazer – na expressão do Infante. Mas aqui o talante é do poeta incansável, empenhado, atento, de olhos bem abertos. «O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem». E é o poeta que clarifica, ele mesmo: «É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela. E se ousa "cantar no suplício" é porque não quer morrer sem se olhar nos seus próprios olhos, e reconhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio. De Homero a S. João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Bay a William Blake, de Bashô a Kavafis, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo, parece dizer cada poema». A dignidade liga-se à vida e às pessoas, na sublimidade da palavra!

 

BREVE ROTEIRO
Eugénio de Andrade é o pseudónimo de José Fontinhas, que nasceu no Fundão, na Póvoa das Atalaia, tendo vindo para Lisboa com dez anos, com a mãe. Foi aluno do Liceu Passos Manuel e da Escola Machado de Castro, tendo começado a escrever poesia em 1936. Em 1943 parte para Coimbra, onde volta depois de cumprir o serviço militar obrigatório. É o tempo em que se relaciona com Miguel Torga e Eduardo Lourenço. É funcionário público, em 1947, exercendo funções de inspector administrativo no Ministério da Saúde. Três anos depois, fixa-se no Porto, onde mora na Rua Duque de Palmela, 111, morada celebrizada pelo poema com esse mesmo título: «Pelo lado dos lódãos ao fim do dia / depressa se chega agora no verão / à pedra viva do silêncio / onde o pólen das palavras se desprende / e dança dança dança até ao rio». Aí habitará até que se muda, em 1994 para o Passeio Alegre, na Foz do Douro. Recebeu inúmeras distinções, entre as quais o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1986), Prémio D. Dinis (1988), Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989) e Prémio Camões (2001). Em Setembro de 2003 a sua obra “Os sulcos da sede” foi distinguida com o prémio de poesia do Pen Clube. Morreu na sua casa da Foz a 13 de Junho de 2005, faz agora cinco anos. E recordemos o seu poema “O Sal da Língua”: «Escuta, escuta: tenho ainda / uma coisa a dizer. / Não é importante, eu sei, não vai / salvar o mundo, não mudará / a vida de ninguém - mas quem / é hoje capaz de salvar o mundo / ou apenas mudar o sentido / da vida de alguém? / Escuta-me, não te demoro. / É coisa pouca, como a chuvinha /que vem vindo devagar. / São três, quatro palavras, pouco mais. / Palavras que te quero confiar. / Para que não se extinga o seu lume, /o seu lume breve. / Palavras que muito amei, / que talvez ame ainda. / Elas são a casa, o sal da língua». 

Guilherme d'Oliveira Martins

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Morreu o escritor António Manuel Couto Viana

 


Foto: C.M.Viana do Castelo

O escritor António Manuel Couto Viana morreu esta tarde aos 87 anos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, disse à Lusa fonte próxima da família.
O escritor, que residia há cerca de dez anos na Casa do Artista, em Lisboa, foi internado naquele hospital “nos últimos dias, devido a problemas num pé que se agravaram, vindo a falecer”, disse a mesma fonte.
 

O último livro de António Manuel Couto Viana, poeta, contista, ensaísta, actor, dramaturgo, encenador e figurinista, foi a poesia de “Ainda não”, com poemas autobiográficos, lançado em Abril. O volume de contos pícaros com o título “O que é que eu tenho Maria Arnalda?” foi editado em Setembro de 2009.
 

Em tempos mestre de cena do Teatro S. Carlos, Couto Viana pertenceu ao grupo Távola Redonda e esteve ligado à formação de companhias de teatro, designadamente o grupo Gerifalto e o Teatro da Mocidade.

 
Por intermédio de David Mourão-Ferreira estreou-se como actor e figurinista em 1946 no Teatro Estúdio do Salitre, em Lisboa, mas já anteriormente tinha dado os primeiros passos no teatro de família, o Sá de Miranda, em Viana do Castelo, cidade onde nasceu.
 

Em 1948, estreou-se na poesia com o livro “O avestruz lírico”, tendo desde então publicado vários títulos.
 

Entre 1950 e 1954 dirigiu, com David Mourão-Ferreira, Luiz de Macedo e Alberto de Lacerda, os cadernos de poesia Távola Redonda, e mais tarde a revista cultural Graal, tendo ainda feito parte da redação da revista Tempo Presente (1959-1961).

 

Couto Viana integrou também a direcção do Teatro de Ensaio (Teatro Monumental) e da Companhia Nacional de Teatro.
 

Encenou óperas para o Círculo Portuense de Ópera e Companhia Portuguesa de Ópera e foi orientador artístico da Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra.
 

A Banda da Grã Cruz de Mérito, Grão-Cruz da Falange Galega, Grande Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique e a Medalha de Mérito Cultural da Cidade de Viana do Castelo foram algumas das condecorações que o escritor recebeu ao longo da vida.
 

Ao longo da sua carreira foi distinguido com vários prémios literários, entre os quais o Prémio Antero de Quental, Prémio Nacional de Poesia, Prémio Fundação Oriente e Prémio Academia das Ciências de Lisboa. 
 

Conselheiro do Conselho de Leitura da Fundação Gulbenkian, Couto Viana encontrava-se a escrever a história da Companhia Nacional de Teatro, de que foi empresário entre 1961 e 1967, disse à Lusa em Setembro de 2009.

in Público | 8 de Junho de 2010

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