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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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PEREGRINAÇÃO AO JAPÃO

Contagem decrescente - Japão (9)

 

As notícias acerca do Japão, antes da chegada dos Portugueses, eram escassas. A primeira notícia da existência do Japão provém de Marco Polo (1254-1324) e a sua obra foi a base dos nossos conhecimentos sobre grande parte da Ásia até meados do século XVIII. A ilha do Japão era denominada por Marco Polo de Ciganpu, «Agora nos cheguemos a demostrar e decrarar as terras de Índia, e começarey em a ylha grande de Ciganpu. Esta ylha da parte do oriente he alonguada no alto mar da rybeyra de Mangy (grande China) per mill e quinhentas milhas e he muyto grande.», segundo nos informa Georg Schurhammer, na obra  Anais da Academia Portuguesa de História, Vol. 1, 2ª série, p. 33. Esta notícia do Japão foi divulgada na Europa nos fins da Idade Média. Cristóvão Colombo, baseado nas informações de Marco Polo, teve a intenção de alcançar Ciganpu na sua primeira viagem, em 1492. A palavra Japão foi, pela primeira vez, usada, na Europa, por Tomé Pires na sua Suma Oriental, obra escrita em Malaca, que terminou em Janeiro de 1514, «A Ilha de Jampon, segundo todos os Chijs dizem, que he moor que a dos Lequios e o rey mais poderoso e maior e nom he dado à mercadoria nem seus naturais. [...] Tratam na China poucas vezes por ser longe e elles nom tem naaos nem serem homens do maar.», in: Anais da Academia Portuguesa de História, segundo Georg Schurhammer, Vol. 1, 2ª série, p. 81. Duarte Barbosa também fez referência ao Japão na sua obra Discrição, «Defronte desta grande terra da China vão muytas ilhas ao mar, alem das quaes vay hua terra mui grande que dizem que hé firme...» in: La Compagnie de Jesus et Le Japon, de Léon Bourdoy, p. 111. O Japão já tinha sido representado, no século XV, como sendo uma grande ilha rectangular no Insularium Ilustratum do alemão Henricus Martellus, de cerca de 1490 e no globo do alemão Martin Behaim, de 1492, mas nestes mapas não aparece o nome Japão. Após a chegada dos Portugueses ao Japão, durante um período de cerca de cem anos, «...desenvolveu-se um intercâmbio económico e cultural entre...» Japoneses e Portugueses, segundo Alfredo Pinheiro Marques, na sua obra A Cartografia dos Descobrimentos, p. 63. O encontro entre Portugueses e Japoneses deixou marcas na cartografia, porque os Portugueses começaram a dar a conhecer o Japão a todo o Mundo. Os cartógrafos Portugueses recolheram informações acerca do Japão no Oriente e, antes dos Portugueses chegarem ao Japão, homens como Francisco Rodrigues, Pedro Reinel e Lopo Homem já tinham representado o Japão na cartografia portuguesa, sob a influência de Marco Polo, que concebeu a ilha como sendo rectangular. Segundo Armando Cortesão, a primeira representação efectiva do Japão data de 1550, vem num mapa anónimo português e neste mapa também aparece, pela primeira vez, o nome Japão. Este mapa está conservado na Biblioteca Vallicelliana, em Itália». (Elementos da Universidade Católica Portuguesa).

PEREGRINAÇÃO AO JAPÃO

Contagem decrescente - Japão (8) 

 

Prosseguimos a nossa contagem até à Peregrinação em terras do Sol Nascente. Hoje recordamos S. Francisco Xavier (que já homenageámos em Goa). Francisco Xavier e os seus companheiros alcançaram o Japão a 27 de Julho de 1549, mas só a 15 de Agosto foram autorizados a aportar em Kagoshima, o principal porto da província de Satsuma, na ilha de Kiushu. Francisco foi recebido amigavelmente e ficou hospedado pela família de Angiró até Outubro de 1550. Entre Outubro e Dezembro residiu em Yamaguchi. Pouco antes do Natal, partiu para Kyoto, mas não conseguiu autorização para visitar o imperador. Regressou a Yamaguchi em Março de 1551, onde o “daimio” daquela província o autorizou a pregar. Contudo, faltando-lhe a fluência na língua nipónica, teve de se limitar a ler alto a tradução do catecismo feita com Angiró. O jesuíta teve um forte impacto no Japão e foi o primeiro membro da ordem a estar em missão. Levou com ele pinturas da Virgem Maria e da Virgem com o Menino Jesus. Estas imagens ajudaram-no a explicar o Cristianismo aos japoneses, uma vez que a barreira da comunicação era enorme, visto o japonês ser diferente de todos os idiomas que os missionários tinham até aí encontrado. Os japoneses não se revelaram pessoas facilmente catequizáveis. Muitos eram já budistas. Francisco Xavier teve dificuldade em explicar-lhes o conceito de Deus e a ideia segundo a qual Deus criou tudo o que existe. Aos seus olhos, Deus seria então responsável também pelo Mal e pelo pecado, algo que era para os japoneses incompreensível. O conceito de Inferno foi também difícil de explicar, pois os japoneses não aguentavam a concepção de que os seus antepassados podiam estar num Inferno eterno do qual era impossível libertá-los. Apesar das diferenças religiosas, Francisco de Xavier terá sentido que os japoneses eram um povo bom e que por isso poderiam ser convertidos. Xavier foi bem acolhido pelos monges da escola de Shingon, por ter usado a palavra “Dainichi” para descrever o Deus Cristão. Depois de ter aprendido mais sobre os significados da palavra, Francisco passou a usar a palavra “Deusu”, da palavra latina e a palavra portuguesa “Deus”. Foi nesse momento que os monges se aperceberam que ele pregava uma religião rival. No entanto, Francisco sempre respeitou o povo que o acolheu, tendo aprendido japonês, deixado de comer carne e peixe, e cumprimentava os senhores com vénias profundas, tendo chegado em algumas circunstâncias a vestir-se com trajes japoneses, para ser melhor aceite. Com a passagem do tempo, a missão de Francisco Xavier no Japão pôde ser considerada muito frutuosa, tendo conseguido estabelecer congregações em Hirado, Yamaguchi e Bungo. Francisco Xavier continuou a trabalhar durante mais de dois anos no Japão, tendo escrito um livro em japonês sobre a criação do mundo e a vida de Cristo. Então decide regressar à Índia. Nessa viagem, uma tempestade força-o a parar numa ilha perto de Cantão, na China, onde já estivera. Encontra assim o rico mercador Diogo Pereira, um velho amigo de Cochim, que lhe mostra uma carta proveniente de portugueses mantidos prisioneiros em Cantão, pedindo um embaixador português que intercedesse a seu favor junto do Imperador. Mais tarde durante a viagem, pára de novo em Malaca a 27 de Dezembro de 1551 e estava de volta a Goa em Janeiro de 1552».

RECORDAR O PADRE ALBERTO DE AZEVEDO

Por Guilherme d’Oliveira Martins

 

Gostaria de ser recordado a partir de uma afirmação do pensador brasileiro Alceu Amoroso Lima: «A sabedoria está para lá da ignorância e para lá da ciência. Cada um de nós deve ter o amor da perfeição. Saber que devemos querer o máximo, mas saber que o máximo nunca atingiremos. A santidade é um mosaico de pequenas virtudes. Os grandes gestos são raros. No mais, a vida é feita de pequenos gestos anónimos. Temos que adquirir o sentido de sermos o menos imperfeito possível. Isto já é uma grande conquista». A frase é, em si, todo o programa… Inquieto e inquietante. Assim poderia ser definido por quantos o conheceram e sabiam qual a sua fibra. Estamos a falar do Padre Alberto de Azevedo, professor do Liceu de Sá de Miranda em Braga, a partir de 1956. Eram os anos das grandes transformações – sessenta, setenta… Aí teve de se confrontar com resistências, antes do mais as do meio e depois as da natural rebeldia dos jovens que consideravam inexorável o caminho do País para a liberdade. Nessa altura, o jovem docente confessou ter tido dificuldade em encontrar o discurso e o método adequados a um tempo de transição e de incerteza, que anunciava as grandes mudanças do Concílio Vaticano II e que trouxe a luminosa referência de João XXIII, o esteio de uma Esperança actuante e inexorável. "Não teve medo de fazer perguntas e de levar os jovens a fazer perguntas" – no dizer de Anselmo Borges. Como Heidegger, tomava essas perguntas como "a piedade do pensamento". A sua memória é extraordinária. Todos nos lembramos do fulgor do seu olhar e da persistência do seu método – sobretudo baseado na experiência. De nada valeria falar sem que isso correspondesse ao compromisso e ao empenhamento. No final da vida, a doença não o impediu de continuar a dirigir-se aos seus amigos, em nome da sua fé, da esperança e do cuidado dos outros e do futuro. Fui recebendo as suas cartas, encimadas por um pensamento de Alceu Amoroso Lima. Com o tempo a sua letra tornou-se difícil, quase incompreensível, mas a sua ideia fundamental continuava a ser a mesma – a justiça e a verdade exigiam um combate permanente, sem desistências, custasse o que custasse. O Padre Alberto de Azevedo foi toda a vida um professor apaixonado, entusiasta, empenhado, sincero, audacioso, disponível, sempre capaz de compreender. Um dia, Torcato Sepúlveda, seu aluno, fez-lhe a melhor homenagem que é possível fazer a um homem sábio e a um velho mestre, ao dizer que a sua lição fundamental foi a da liberdade – base do respeito e da dignidade. Perante a interrogação de Jesus Cristo na cruz "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?", o padre Azevedo falava aos jovens do seu tempo, com os compromissos e a inquietações de hoje. De facto, a dúvida, a dificuldade, a imperfeição tinham de ser compreendidas. Por isso, dizia aos seus amigos e discípulos: "O Senhor te faça feliz". Jacques Maritain, Emmanuel Mounier e Alceu Amoroso Lima foram as suas referências. Esses textos ecoam, ligados a palavras fortes como “compromisso”, “afrontamento”, “comunicação”, “cidadania inclusiva”, “dignidade da pessoa humana” e “cultura da paz”. Conheci-o a partir das nossas referências comuns e da necessidade do empenhamento numa educação audaciosa, que significasse o despertar das consciências para a liberdade e a responsabilidade e a criação de pessoas e de cidadãos – numa sociedade em que a aprendizagem pudesse ser o factor fundamental do desenvolvimento. E foi com muita emoção que inaugurei, a seu pedido, na Escola Secundária de Sá de Miranda em Braga uma sala dedicada a Alceu, na qual a liberdade, a paz, o desenvolvimento e a justiça deveriam funcionar como referências educativas e formativas permanentes e perenes. Afinal, educar ia muito para além dos tempos lectivos ou do ensino formal, os seus discípulos sabiam muito bem que nunca lhe batiam à porta sem que respondesse. Era esse o maior sinal da sua amizade, sempre animada pelo amor cristão e pela ideia de cuidado e de respeito por referência aos outros. O Padre Alberto de Azevedo foi um combatente da indiferença, por isso incomodava generosamente, mas esse incómodo nunca era vão. Acreditava sinceramente nos dons, na gratuitidade e nos valores que não têm preço: o bem, o bom, o belo, o justo e o verdadeiro. Quis continuar a prestar serviço público depois de chegada a idade da aposentação e isso demonstra bem o seu desejo de continuar a estar presente junto dos outros. Não podemos esquecer a sua memória. Inquieto e inquietante, o seu exemplo continua bem vivo!     

A VIDA DOS LIVROS


de 23 a 29 de Agosto de 2010

 

«Os Melhores Contos do Padre Brown» de G.K. Chesterton (Assírio e Alvim, Colecção Teofanias, 2010) com selecção e apresentação de Peter Stilwell e tradução de Jorge Pereirinha Pires leva-nos a uma das personagens mais desconcertantes e ricas da literatura policial. Celebrizada no mundo literário e popularizada numa célebre série televisiva dos anos setenta com Kenneth More, para não falar do desempenho de Alec Guinness em 1954, a figura do Padre Brown (que Evelyn Waugh expressamente invoca em “Brideshead Revisited”) é uma curiosíssima síntese entre o método de Chesterton baseado na ironia e no paradoxo e o apelo à refinada inteligência dos leitores.


NOVE CONTOS POLICIAIS

Devemos, antes de mais, salientar o critério de escolha que, de um modo muito feliz, permite uma apreensão abrangente dos temas dos diversos contos das séries do Padre Brown, garante o conhecimento e a compreensão das preocupações intelectuais, espirituais e especulativas de Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) e pressupõe o apurado sentido crítico de quem elaborou a antologia (Peter Stilwell), já que a selecção inclui, sem sombra de dúvidas, os melhores textos relativos ao impagável clérigo católico, reveladores da genialidade do prolífico autor. Incluem-se nesta edição: «A Cruz Azul», «O Jardim Secreto», «As Estrelas Cadentes», «A Forma Errada», «Os Pecados do Príncipe Saradine», «O Fantasma de Gideon Wise», «O Segredo do Padre Brown», «O Segredo de Flambeau» e «O Vampiro da Aldeia». Muito se tem discutido sobre as razões que levaram Chesterton a escolher “um pequeno e apagado sacerdote católico para seu detective de eleição”. Há, no entanto, um evidente mecanismo de identificação do escritor com a personagem do Padre Brown, vinda do Essex para Londres, dispondo de “um rosto tão redondo e desinteressante como um pudim de Norfolk” (que fisicamente contrastava, contudo, com a grande estatura do escritor, que media 1,93 m, mas que a ele se assemelhava na aparente desorientação e distracção) E nessa identificação encontramos, a cada passo, os tiques e as atitudes intelectuais que se tornarão familiares para os leitores da obra do autor de “Os Disparates do Mundo”. No entanto, a construção deste “homem de Deus, simples, sábio e humano” aconteceu há exactamente cem anos, em 1910, quando Chesterton ainda estava longe de ter aderido ao catolicismo. Só em 1923 se deu a entrada do jornalista, ensaísta, filósofo e poeta na Igreja Católica Romana, num momento em que os seus contos já circulavam em colectâneas, com grande popularidade, tendo a primeira sido “A Inocência do Padre Brown” (1911). O inventor do Padre Brown tornou-se, entretanto, em 1929, o primeiro presidente do Detection Club, agremiação dedicada ao estudo da literatura policial, fundada por Anthony Berkeley.

UMA FIGURA DESAJEITADA…
Visando tornar mais sugestiva e atraente a personagem que quis criar, o escritor descreve o clérigo como uma figura desajeitada, com o seu «grande e puído chapéu-de-chuva, que lhe estava sempre a cair ao chão», procurando criar “um observador atento do comportamento humano, um analista de perfis psicológicos, que identifica o criminoso a partir do seu agir e da vítima que preferiu”. Se compararmos com outros autores do género policial, verificamos que há diferenças relativamente a Conan Doyle, que Chesterton admirava, conhecendo muito bem toda a sua obra, apesar das preocupações comuns ligadas à descoberta da verdade em casos policiais. O ponto fundamental nos contos de Chesterton é a busca da verdade, o que torna o romance policial uma metáfora da procura da transcendência – que nunca se fica no domínio das grandes certezas ou dos raciocínios inabaláveis, mas sempre no campo dos pormenores insignificantes da vida. Por outro lado, há as semelhanças com a figura de Hercule Poirot de Agatha Christie, sobretudo nas situações de resolução impossível, que Chesterton tornou paradigmáticas na sua obra, como acontecerá com John Dickson Carr (Dr. Fell e Sir Henry Merrivale), autor norte-americano assumidamente influenciado pelo exemplo do Padre Brown. Esclareça-se que Poirot foi criado entre 1916 e 1920, quando a personagem de Chesterton (que Christie conhecia) tinha alcançado já significativa notoriedade. Em “O Segredo do Padre Brown”, o pequeno sacerdote detective reage, aliás, com inesperada energia à dúvida sobre como agia e explica que o método dito científico por muitos obrigaria a «situar-se fora do homem e a estudá-lo como se fosse um gigantesco insecto», sujeitando o eventual criminoso ao que «chamaria uma luz morta e desumanizante». Pelo contrário, o método que preconiza parte do reconhecimento de que, como detective, estava dentro de um homem - «Estou sempre dentro de um homem». E assim olha o mundo como pela primeira vez, iluminando-o como num exercício religioso. É no interior da condição humana que, na verdade, o interrogador aguarda até saber que está dentro de um assassino. Até ser mesmo um assassino. “Na verdade (vi-me) a mim mesmo, e ao meu verdadeiro eu, cometendo crimes (…) Pensei e voltei a pensar sobre como poderia um homem tornar-se assim em tudo a não ser um efectivo consentimento final à acção”. As soluções encontradas têm, por isso, de ser ainda mais imaginativas do que os intrincados problemas postos. A qualidade literária iguala, deste modo, o valor intelectual e espiritual. Pode dizer-se, aliás, que é no “Segredo do P. Brown”, mas também em “A Cruz Azul”, que se encontram as respostas à dúvida sobre o porquê de um pensador e polemista escolher o género policial para desenvolver o seu talento. Afinal, ao desenvolver o raciocínio para descobrir a verdade, sobretudo em situações inextricáveis ou aparentemente irresolúveis, o escritor põe na boca e nas conclusões da sua personagem o resultado de uma cuidadosa intervenção da razão. Quando Flambeau, o persistente adversário do Padre, pretende fazer-se passar por um presbítero, em “A Cruz Azul”, compondo com os maiores cuidados uma figura verosímil, não consegue enganar Brown, tendo a mistificação sido descoberta através de um pormenor. É que Flambeau caiu no erro de atacar a razão, em nome de uma suposta fé. Ora, para o nosso detective isso era, como seria fácil de ver, má teologia…

O INESPERADO PAPEL DA RAZÃO
O Padre Brown resolve os seus crimes através de um estrito processo racional, ligado ao espiritual e ao filosófico, em lugar do recurso a detalhes científicos (e aqui encontramos uma claríssima crítica ao positivismo em voga no início do século XX, com repercussões evidentes nas ciências criminológicas). Nesse sentido, o Padre Brown renova o método de Sherlock Holmes, usando a razão e a intuição para ultrapassar a incompreensão positivista dos limites e antecipa as orientações filosóficas do novo século. Ao longo desta experiência, Chesterton ilustra uma afirmação que irá celebrizá-lo: «O louco não é aquele que perdeu a razão: mas aquele que perdeu tudo, menos a razão». Aqui a razão é vista como se fosse uma categoria incapaz de entender que a dignidade humana obriga a cultivar o equilíbrio entre a racionalidade e a emoção. Razão e fé completam-se, nas pesquisas quotidianas do Padre Brown, que, sendo o mais inesperado dos detectives, é também o mais eficaz, não se limitando a protagonizar um entretenimento. E é a modéstia de Brown que lhe permite chegar longe, entendendo a necessidade de compreender constrangimentos e dificuldades. Como os melhores filósofos ensinam, desde os luminosos diálogos de Platão, do que se trata sempre é de procurar a verdade, onde quer que ela se encontre, mesmo que esteja no mais recôndito dos lugares, sem a tentação de considerar fácil a sua descoberta.

Guilherme d'Oliveira Martins

PEREGRINAÇÃO AO JAPÃO

Contagem decrescente - Japão (7) 

A nossa Peregrinação continua a preparar-se. O diálogo cultural obriga à troca… Sentimo-lo especialmente com o Japão. Continuamos com a Prof. Helena Barbas (1990) a propósito do romance de Shusako Endo “O Silêncio”: O herói (…) é um jesuíta português, Sebastião ­Rodrigues que, em 1638, parte de Lisboa para o Japão com o­ objectivo de manter a fé e apoiar os indígenas convertidos ­em tempo de perseguições. Tem como segundo objectivo encontrar um antigo professor, o provincial da ordem ­Cristóvão Ferreira, e confirmar a informação de que, após­ trinta anos de trabalho apostólico, face à tortura, teria ­renegado. Apesar de avisos dos superiores hierárquicos, Rodrigues­ insiste na sua viagem em direcção ao martírio, pautada pelos ­passos da via-sacra. O sacerdote identifica-se expressamente­ com Cristo e os momentos mais trágicos da paixão, não lhe ­faltando, inclusive, um Judas-Kishijiro que o vende por 300 ­moedas. É através desta personagem que surge a grande ­questionação ao cristianismo enquanto lei de amor:­ «Porventura seria Cristo capaz de buscar e amar um homem destes, sujo e imundo como nenhum outro? Até num canalha, é ­certo, se poderá descobrir uma centelha de força e beleza,­ mas chamar canalha a Kishijiro já era favor...». Todavia, a situação histórica e os inimigos são ­diversos, e Rodrigues vê-se confrontado com um dilema­ terrível: escolher entre suportar a responsabilidade da ­tortura e morte das suas ovelhas, a que os seus carcereiros ­o forçam a assistir, ou evitar essas mortes, pelo renegar da­ fé católica e pisar da imagem de Cristo, o Éfumié. Este dilema é duplamente agravado. Pela crescente­ constatação da indiferença divina face aos sofrimentos ­humanos, o silêncio de Deus que se estende à própria ­natureza: «Sei que hoje, dia em que Mochiki e Ichizo ­choraram sofreram e morreram para maior glória de Deus, não ­consigo suportar o monótono fragor deste negro mar, ­abocanhando com os seus colmilhos a areia da praia. Como ­fundo a este mar sinistro, paira o silêncio de Deus... a­ sensação de que Deus continua de braços cruzados ante os ­clamores atirados ao céu por estes homens.». Por ­outro lado, Rodrigues toma conhecimento de que o Deus­ europeu se aculturou naquele país onde não se entende a ­diferença entre o Bem e o Mal, onde o pecado e a­ culpabilidade não existem: «Já  desde o princípio que os ­japoneses, que confundiam Deus com Dainichi, começaram a­ deformar e a adaptar à sua maneira o nosso Deus, criando­ algo diferente. Mesmo quando a confusão de vocabulário desapareceu, as distorções e adaptações prosseguiram­ sub-repticiamente. (...) Não era no Deus-cristão que­ acreditavam... Até hoje, nunca os japoneses tiveram o­ conceito de Deus; nem jamais o terão.». As palavras dos missionários recebiam um sentido­ diferente do que lhes era atribuído e a sua religião acabava­ dissolvida nas já vigentes. Pelo xintoísmo, e devido ao ­relacionamento do imperador com a deusa do sol, o povo é, ao ­contrário do resto do mundo, naturalmente eleito – não necessita de redenção. Com aquele se fundira um budismo que,­ na maioria dos seus preceitos, se encontra demasiado próximo ­do pensamento cristão. A situação de Rodrigues torna-se exemplar, num sentido­ geral, enquanto representante de um determinado grupo, e num­ sentido particular, enquanto registo da evolução espiritual ­de um homem em busca de si próprio, através do divino. E o ­encontro pretende dar-se por intermédio do lado mais humano ­de Cristo, o homem-deus perseguido e sofredor, desprezado e­ rejeitado pelos outros homens».

A PALAVRA DE JBC

 

A CASA ENCANTADA

O TEATRO DA MEMÓRIA

Na memória, como no teatro, tudo se perde, tudo se cria e nada se transforma. Lembrei-me disso, anteontem, quando abriu a nova biblioteca de Alexandria e quando me lembrei que Fílon (século I D.C.) terá criado para a antiga (tanto biblioteca como museu) a expressão "teatro da memória". Isso me trouxe de volta um livrinho intitulado L'Idea del Theatro, escrito em 1544 por um certo Giulio Camillo, chamado Delminio e cognominado pelos contemporâneos "o divino" (1480?-1544?). Livrinho que andou esquecido mais de quatro séculos, até ser desenterrado por um inglês, em 1970. Em 2001, Eva Cantavenera e Bertrand Schefer publicaram, nas Éditions Allia, a tradução francesa. Foi esta que li, como quem lê a pré-história de tudo. Mnemosina, a musa da memória, sempre a fez nascer de uma falsa posição da coxa. Julgamos imaginar, estamo-nos a lembrar.

Li algures - não me lembro se foi em Romain Rolland - que Tolstoi guardava a memória de coisas acontecidas tinha ele seis meses. Um psicanalista - lembro-me perfeitamente que não foi Lacan - jurou-me, um dia, que, sob o efeito da análise, algumas pessoas recuperavam a memória do próprio nascimento, ou até mesmo do antes dele, quando boiavam no ventre materno. Pode haver quem se recorde de outras vidas. Ou, como Platão, para sustentar que só conhecemos aquilo de que nos lembramos (o conhecimento como reminiscência) ou, como Minnelli (não estremeçam que eu também não) para garantir que, devidamente hipnotizados (pelo Dr. Chabot ou por Yves Montand), qualquer Daisy (aquela de que falo não é a que há-de ir de Londres p'ra Iorque onde diz que nasceu) se pode transformar em Melinda de outras eras. Todos sonhamos com dias claros em que possamos ver para sempre. Ver tudo o que foi, ver tudo o que será.

Passando agora da geral memória para a minha e particular, nunca fui tão omnividente (e daí que sei eu?) ou tão precoce. As minhas mais longínquas memórias, se é que com o tempo não me convenci de que me lembro do que só imaginei, reportam-se aos 2 anos e picos, fotografando-me (memórias vagas são anti-cinematográficas) uma bisavó  e um avô que eu sei (ensinaram-me, lembraram-me) que morreram no ano em que fiz dois anos.

Nesses tempos (o tempo inventou-se para se poderem contar histórias, para se poder dizer: "era uma vez") de coisas de morte, como de coisas de sexo, não se falava diante de crianças. Quando eu perguntava por eles (ou mos queriam lembrar a mim) diziam-me: "Foram para o céu". Eu olhava para o céu e via nuvens. As nuvens foram a primeira máscara que "inventei" para os mortos. Se só houvesse dias claros talvez fosse hoje impenitente ateu.

Esta minha insignificante (?) história, como as histórias mais significativas de Platão, de Tolstoi, de Shelley, de Dickens, de Hawthorne (para não falar do óbvio caso de Proust), como a história das Bibliotecas de Alexandria, andam todos à roda do circuito ideia-imagem-memória. Como é que se transforma uma ideia numa imagem e como é que se transforma a imagem em memória. Se todo o conhecimento é memória, como Platão tentou demonstrar no Ménon, levando um escravo ignorante a demonstrar o teorema de Pitágoras, não se pode ir mais longe e transformar todo o conhecimento em espectáculo?

Há quem sustente que o neo-platonismo renascentista se pode resumir à tentativa de resolução dessa questão. No fundo, quando se falou do "teatro do mundo" só se estava a falar da "arte da memória", expressões que se somem na noite dos tempos. Nenhuma representação do mundo é concebível sem o que os antigos chamavam "a arte da memória" ("ars notoria" ou "ars memorativa"), como nenhuma representação falada (origem da tragédia ou tragédia da origem) é concebível sem a memorização do texto trágico.

Fílon de Alexandria, associara já a ideia de "banquete" (e, como discípulo de Platão, era o banquete filosófico a sua principal fonte de inspiração) ao "teatro do mundo". Disse ele: "Quem dá um festim, não instala os convidados à mesa, sem ter preparado tudo em tal maneira que lhes sirvam bom manjar; quem prepara competições de ginastas ou dispõe representações cénicas, antes de deixar entrar os espectadores, no estádio ou no teatro, já dispôs convenientemente atletas ou actores. De igual modo, o Guia do Universo, como o organizador de representações ou de festins, pré-ordenou, com a intenção de convidar os homens a um festim ou a um espectáculo, tudo o que pudesse convir a esses dois fins, por forma a que, ao chegar ao mundo, o homem achasse, por um lado, a mesa do banquete repleta de tudo o que de melhor a terra produz e os rios, os mares e os ares fornecem para nosso uso e nosso gozo e, por outro, espectáculos das mais diversas ordens, representando as realidades mais espantosas, as qualidades mais impressionantes, os movimentos e as cores mais admiráveis, dispostos nos arranjos mais harmoniosos, mais proporcionados e mais adequados, por forma a que, sem engano algum, se saiba qual é a música arquetípica, verdadeira e exemplar. À vista de tais espectáculos, os homens formaram, depois, as imagens que deles retiraram e que gravaram na alma, permitindo-lhes assim transmitir a arte mais necessária à vida e mais útil a ela " (De opifício mundi).

Se o leitor chegou até aqui, paciente mais um pouco para ver onde quero chegar.

Quando, hoje, a nova retórica visual vulgarizou termos como "sítios", "ícones", "janelas", "pórticos", "hipertextos", etc, está a seguir os fundamentos de uma teoria e de uma prática que, sistematizadas no século XV, foram esquecidas por longos séculos, para ressuscitarem em finais do século XX.

Volto, pois, a Giulio Camillo, discípulo de Pico de la Mirandola e de Marsílio Ficino, amigo de Aretino, de Tiziano e de Lotto, suposto criador laboratorial do homem alquímico, do "homúnculo".

Projectou ele construir, num anfiteatro de madeira, um novo sistema da arte da memória, a que chamou "o teatro da memória". O referido anfiteatro, com dimensão imponente mas não esmagadora, seria coberto de pinturas, de significado hermético, mágico ou cabalístico, que tinham uma dupla função: evocavam os mistérios divinos sem os profanar (pois "decifrá-los" pressupunha uma iniciação) e despertavam a memória, estabelecendo associações que permitiam, através da ordem das imagens, recordar a ordem das coisas e memorizar o texto a partir de uma espécie de alfabeto visual localizado num espaço arquitectural.

Parece que Camillo só revelou o funcionamento da sua "maravilhosa máquina" a Francisco I, rei de França, que o chamou (como Leonardo ou Rosso Fiorentino) quando, após o saque de Roma, as ideias heterodoxas do cabalista lhe começaram a valer perseguições.

Mas se nada ficou da construção (se é que esta chegou a ser executada) ficou-nos o livro L'Idea del Theatro. Um visitante, descreveu-o assim, em carta a Erasmo, de 1544, pouco antes de Camillo morrer.

"A obra é em madeira, onde estão pintadas numerosas imagens e onde foram incrustadas numerosas caixinhas, como gavetas de abrir e fechar (...). Há muitas ordens e muitas filas (...). Camillo dá muitos nomes ao seu Teatro. Tanto diz que é um espírito ou uma alma por ele construídos, como se refere a uma alma cheia de janelas. Pretende que tudo o que o espírito humano pode conceber, e não podemos ver com os nossos olhos corpóreos, pode ser descortinado ali, após atenta meditação, de tal modo que o espectador, ao fim de um certo tempo, pode alcançar, com uma única mirada, tudo o que, de outro modo, ficaria para sempre oculto nas profundezas do espírito humano. Por causa dessa visão física, insiste no termo Teatro".

Mas o Teatro da Memória era, como necessariamente teria que ser, um teatro invertido. No palco estaria o único espectador (no Teatro da Memória, só há lugar para um, como, por outras palavras, também disse Proust) e, nos degraus, decorreria o espectáculo, ou seja o lugar da imagem. E toda a construção estaria apoiada em sete colunas (as colunas de Salomão), sob a influência de um planeta.

É um mundo à Borges prefigurado (ou post-figurado) nesse livrinho das Éditions Allia?

Ou é um livro que não existe, nunca existiu, com uma mitologia de mitificação, que eu fui buscar à memória - como as nuvens mortas da minha mais remota infância - para vo-lo inventar, em sentido etimológico e em sentido costumeiro? Mas mesmo que assim seja,  há, sob o signo do teatro da memória, como sob o signo de Melinda, como sob o signo das nuvens brancas, "algo de completamente diferente que eu tenho de tentar descobrir, uma ideia que procura uma imagem, uma imagem que busca uma memória, à semelhança desses caracteres hieroglíficos que se julgou representarem tão somente objectos materiais. Decifrá-los é o mais difícil, mas se os não decifrarmos nenhuma verdade neles leremos". A citação é de Marcel Proust, como convém para terminar.

JOÃO BÉNARD DA COSTA
(Público, 18 Outubro 2002)

PEREGRINAÇÃO AO JAPÃO

Contagem decrescente - Japão (6)
Peregrinar obriga a pensar. Já falámos de Shusako Endo e da sua amizade com o Embaixador Martins Janeira, hoje voltamos ao romancista japonês, com a ajuda da Professora Helena Barbas (FCSH, UNL). Esta refere-nos o romance “O Silêncio” de Shusako Endo: «São os portugueses quem, acidentalmente, descobre o Japão ao mundo Ocidental por volta de 1542. ­Talvez Fernão Mendes Pinto e seus dois companheiros Diogo ­Zeimoto e Cristóvão Borralho, num dos seus muitos­ naufrágios. Estes «Chenchocogins do cabo do mundo» são seguramente responsáveis pela introdução das armas de fogo e­ do fabrico da pólvora naquele país (Peregrinação, cap. ­cxxxiiii). Este relacionamento estabelecido pelo enxofre e incenso­ é magistralmente descrito por Venceslau de Morais: «Em 1549 ­o Jesuíta Francisco Xavier, espanhol de origem, mas servindo­ portugueses, desembarca no Japão, em Kagoshima, e enceta a­ sua propaganda religiosa, seguido de perto por outros nossos ­missionários e numerosos mercadores. Em 1587, dá-se a ­primeira perseguição contra os cristãos. Em 1597, em ­Nagasaki, vinte e seis cristãos perecem no martírio. Em ­1624, após lutas cruentas, tragédias e massacres, o Japão ­fecha à cristandade as suas portas, com excepção dos ­holandeses...» (Os Serões no Japão, Parceria A. M. Pereira, ­1973, p.142). Lendo Relance da História do Japão, ainda ­de Morais, entende-se que, por detrás do conflito individual­ de Sebastião Rodrigues, está o Histórico, apenas esboçado no ­romance de Shusaku Endo: a grande luta religiosa entre­ protestantes e católicos; o conflito de interesses ­comerciais entre as grandes potências do período; o ­fechamento do Japão ao ocidente, fundamentado na necessidade ­de independência e autonomia. O Silêncio não é um romance teológico, mas evidencia a ­posição dogmática de Endo face à religião católica. As suas ­personagens só pelo renunciar aos aspectos mais materiais da­ religião, pelo abandono das manifestações culturais da fé,­ podem alcançar a redenção e entender a natureza de Cristo: o ­Cristo benevolente, que convida o jesuíta Rodrigues a pisar­ a sua face, é o mesmo com quem Hasekura, O Samurai se encontra. Um Cristo tão oriental que parece tocar as raias­ da heresia. A preocupação religiosa do autor transborda no excesso­ de referências e comparações com os momentos mais conhecidos ­da Paixão, redundantes para a cultura judaico-cristã. (…) Estes mesmos aspectos revelam-se como ­manifestação de um esforço sincero de entendimento do ­ocidente por um olhar oriental, pelo que em nada diminuem o ­interesse deste singular romance.» - Helena Barbas [O Independente, 4 de Maio de 1990, III p.43].

RUI DUARTE CARVALHO (1941-2010)

A melhor homenagem é lê-lo, a sua obra está publicada na Cotovia e merece ser visitada e revisitada. Eis um testemunho tocante do escritor:

«Hoje continuo a não conseguir andar por fora muito tempo sem devolver-me ao murmúrio de Luanda, à noite, que sobe das traseiras da minha casa na Maianga, onde a vizinhança me trata por brancurui, e sem continuar a meter-me sempre que posso por esses suis abaixo, a penetar desertos e a inventar pastores. Procurei sempre, sob qualquer situação ou regime, e fosse quem fosse que estivesse a mandar, viver a condição de cidadão comum. Lido mal com o privilégio, caiba ele a quem couber, até a mim mesmo, e nunca consegui deixar de sentir-me, tanto antes como depois da independência, tido como minoritário, quer dizer, subalterno ou intruso que incomoda sempre, desde que dê nas vistas. Acho que entretanto sosseguei bastante, na vida, quando, já faz algum tempo, dei conta que afinal não só jamais viria a ser o melhor do mundo, quanto mais cá na banda. E que também não tinha obrigação nenhuma de o ser. Mas uma das questões pessoais que se me anda agora, com a idade, a por com mais frequência, é a de saber se será possível continuar a envelhecer sem sucumbir de todo a uma senilidade insuportavelmente azeda ou sem incorrer também numa dessas beatitudes patetas e patéticas que pretendem fundamentar-se numa sabedoria qualquer que a idade acumulada por si só garantiria. É verdade que um percurso biográfico se faz de tempos, de lugares, modos, percepções, ocorrências, experiências, resultados, aquisições, perplexidades, digestões e ressacas. Mas também é verdade que eu não vou nunca deixar de permanecer muito irremediavelmente ingénuo, embora não de todo burro, e de lidar muito mal com toda a ordem de leviandade, de irresponsabilidade, de arbitrariedade, de mentira, de prepotência, chantagem, esperteza, insolência e soberba, e de achar que o que mais envenena as relações entre as pessoas, quaisquer relações, é o uso e o abuso da boa-fé dos outros. E é disso que o mundo está cheio e a bem dizer se faz. E há de fazer-se sempre, talvez, porque afinal, parece, é assim mesmo que ele é. Temo não chegar nunca a ser capaz, mesmo senil, de vir a conformar-me com isso. E o resto são umas ideias minhas que ando ainda cá com elas.»
Ruy Duarte de Carvalho

PEREGRINAÇÃO AO JAPÃO

Contagem decrescente - Japão (5)
O contacto da cultura portuguesa com a multissecular cultura nipónica teve muitas repercussões na língua do Império do Sol Nascente. Fernão Mendes Pinto, Wenceslau de Morais e Armando Martins Janeira deram-nos testemunhos eloquentes desse intercâmbio. Hoje apresentamos uma lista de cerca de quarenta palavras que é bem ilustrativa da importância do diálogo intercultural. Ao contrário do que muitas vezes se diz a palavra arighatô, no sentido de agradecimento, não deve ter origem portuguesa... Mas vejamos o quadro:

 

Pronúncia em Japonês

Escrita em Japonês

Português Arcaico

Português Moderno

Observações

arukōru

アルコール

álcool

álcool

bateren

伴天連・破天連

padre

padre

biidoro

ビードロ

vidro

vidro

birōdo

ビロード or 天鵞絨

veludo

veludo

bouro/bouru

ボーロ・ボール

bolo

bolo, bola

botan

ボタン・釦・鈕

botão

botão

buranko

ブランコ

balanço

balanço

charumera/charumeru

チャルメラ・哨吶

charamela

charamela

Antigo instrumento musical de sopro

chokki

チョッキ

jaque

jaqueta, colete

furasuko

フラスコ

frasco

frasco

iesu

イエス

Jesu

Jesus

igirisu

イギリス・英吉利

inglez

inglês

Igirisu actualmente significa o Reino Unido.

iruman

イルマン・入満・伊留満・由婁漫

irmão

irmão

Termo usado para identificar o missionário antes de ser clérigo.

jouro

じょうろ・如雨露

jarro

jarro

juban/jiban

じゅばん・襦袢

jibão

roupa interior

kanakin/kanekin

金巾 ・ ▽かなきん ・ ▽かねきん

canequim

canequim

Não usado no português actual.

kantera/kandeya

カンテラ・カンデヤ

candeia

candeia

kapitan

甲比丹・甲必丹

capitão

capitão

kappa

合羽

capa

capa de chuva

karuta

かるた・歌留多・加留多・骨牌

cartas

cartas de jogar

kasutera, kasuteira

カステラ

castella

castela

Tipo de bolo com massa de pão-de-ló

kirishitan

キリシタン・切支丹・吉利支丹

christão

cristão

kirisuto

キリスト or 基督

Christo

Cristo

kompeitō

金米糖・金平糖・金餅糖

confeito

confeito

Doce ou rebuçado.

koppu

コップ

copo

copo

kurusu

クルス

cruz

cruz

marumero

木瓜 or マルメロ

marmelo

marmelo

meriyasu

メリヤス・莫大小・目利安

meias

meias

miira

ミイラ・木乃伊

mirra

mirra

oranda

オランダ・和蘭(陀)・阿蘭陀

Hollanda

Holanda

Holanda

pan

パン・麺麭・麪包

pão

pão

pandoro

Pão-de-ló

pão-de-ló

rasha

羅紗

raxa

feltro

rozario

ロザリオ

rosario

rosário

sabato

サバト

sábado

sábado

sarasa

更紗

saraça

sarja

Tecido de algodão fino

shabon

シャボン

sabão

sabão

shōro

ショーロ

choro

choro

shurasuko

シュラスコ

churrasco

Churrasco.

subeta

すべた ・ スベタ

espada

espada

tabako

煙草・莨

tabaco

tabaco

tempura

天麩羅・天婦羅

Têmporas

Têmporas

As Têmporas eram dias de jejum nos quais os católicos não comiam carne e fritavam panados de legumes e peixes.

zabon

朱欒・香欒

zamboa

zamboa

Fruto da árvore Citrus adami

A VIDA DOS LIVROS


de 9 a 15 de Agosto de 2010

 

"O Outro" de Ryszard Kapuscinski (Campo das Letras, 2009) é uma obra fundamental para a compreensão da diversidade contemporânea, tendo sido escrita a partir da riquíssima experiência deste jornalista célebre com missões de elevado risco nos lugares mais perigosos do planeta. Trata-se de um pequeno livro escrito com muito talento, cuja leitura é indispensável nos tempos actuais, pela qualidade da escrita, pela argúcia dos argumentos e pela profundidade das reflexões filosóficas e antropológicas.
 


 

UM PRESTIGIADO JORNALISTA
Ryszard Kapuscinski (1932-2007) foi um prestigiado jornalista polaco, que exerceu difíceis tarefas, enquanto repórter, desde 1955, tendo sido enviado como correspondente para a Ásia e para o Médio Oriente e posteriormente para África e para a América Latina. Presenciou 27 revoluções, esteve em doze frentes de guerra e foi condenado à morte por fuzilamento quatro vezes. Foi justamente considerado um dos mestres do jornalismo moderno, com muitos prémios internacionais, tendo sido eleito em 1999 o melhor jornalista polaco do século XX. Nesta obra reúnem-se seis conferências sobre o tema do respeito do Outro – sendo de destacar três lições vienenses proferidas no Institut für die Wissenschaffen von Menschen e o discurso proferido na cerimónia de atribuição do doutoramento “honoris causa” pela Universidade Jaguelónica de Cracóvia. O jornalista e pensador distingue quatro períodos, que correspondem a concepções que foram evoluindo quanto às relações entre os Europeus e os Outros: (a) em primeiro lugar, a época dos mercadores e mensageiros, quando os viajantes entram em contacto com outros povos, nas principais rotas comerciais conhecidas, até ao século XV; (b) depois, o período dos chamados Descobrimentos – que corresponde à era das conquistas, que se seguiram ao multifacetado conhecimento de novas paragens; (c) segue-se a época do Iluminismo e do Humanismo, caracterizada pelo estabelecimento de novas relações, envolvendo a abertura de novos horizontes comerciais e de novas perspectivas para a razão e para os valores culturais e espirituais; (d) por fim, Kapuscinski fala-nos da época contemporânea, caracterizada pelas rupturas dos antropólogos, de Lévinas e da multiculturalidade. A pouco e pouco, ao longo do tempo, vai-se dar razão ao que Bronislaw Malinowski considerava fundamental na mentalidade moderna – as pesquisas seriam condição “sine qua non” para o conhecimento dos outros: não bastaria visitá-los, seria preciso ir viver com eles e no meio deles. Só assim os outros deixariam de ser estranhos para passar a ser compreensíveis.

 

OS PERIGOS DA INDIFERENÇA PERANTE O OUTRO
Para Kapuscinski seria preciso entender que Emmanuel Lévinas nos põe de sobreaviso perante os perigos da indiferença em face do Outro – indiferença, “que, em certas circunstâncias, pode levar a Auschwitz”. Segundo o filósofo francês: “não só é preciso encontrar o Outro, como hás-de recebê-lo em franco convívio. Hás-de responsabilizar-te por ele. A filosofia de Lévinas delimita o indivíduo (precisa Kapuscinski), personaliza-o, mostrando que, além de mim, há ainda mais alguém e que, se eu não fizer o esforço de estar atento; se eu não demonstrar vontade do encontro, acabaremos por nos desencontrar e ser indiferentes, frios, insensíveis sem expressão nem alma”. E assim são salientados na reflexão de Emmanuel Lévinas dois temas cruciais, que nos permitem aprofundar a importância do Outro: “o homem quando está sozinho, costuma ser mais ‘humano’ do que quando está no meio duma massa excitada”. Neste ponto, o analista coincide com as considerações de Ortega y Gasset e de Elias Canetti relativamente à rebelião das massas e à relação entre massa e poder. Ao procurar o caminho do Outro, Lévinas quer, deste modo, livrar-nos do jugo do egoísmo e da indiferença, amparando-nos contra a tentação da separação, do isolamento e da auto-exclusão. “Mostra-nos outra dimensão do nosso Eu, evidenciando, nomeadamente que ninguém é um entidade solitária, porque dentro de cada ser está também o Outro; assim cria um novo género de pessoa, um novo ente”.

 

FILOSOFIA DO DIÁLOGO
Ao defender a importância da relação com o Outro, o pensador Józef Tischner (1931-2000), primeiro capelão do Sindicato Solidariedade, cultivou o que designou como filosofia do Outro ou do diálogo: “o grande mérito desta filosofia está no facto de se pronunciar sobre o homem individual, sendo cada um, por si só, já um valor, repetindo, sistematicamente o seu direito à existência e à interacção. Aquela voz nítida e poderosa, que levanta problemas tais como identidade, percepção e respeito pelo Outro, tem um valor incalculável no nosso ruído pós-moderno, na nossa confusão de linguagens”. Tischner pretende, pois, fazer-nos entender a existência pessoal e a presença próxima do Outro. O espírito de responsabilidade pelo Outro opõe-se, desta forma, às tentações da indiferença, do imediatismo, do efémero e do primado do mero consumo. Não basta falar, assim, do Outro, é preciso dispormo-nos a encontrá-lo. “Qual é, afinal, o principal teor do encontro? É o diálogo. Se o homem é o ser que fala, na acepção de Lévinas, tem de haver respeito, diálogo e encontro. O diálogo tem em fim a compreensão mútua, que leva à aproximação. E a compreensão assim como a aproximação tornam-se possíveis através do conhecimento. Jacek Wosniakowski, outro polaco de excepção, dedicado à história da Arte, insistia especialmente neste ponto, haveria que compreender conhecendo, não bastando a mera transmissão de saberes. A atitude dialógica exige sempre a troca. O encontro leva à conversa, e esta pressupõe que nos disponhamos a pôr-nos na posição do Outro. Em vez da indiferença que marcou civilizações inteiras na relação com a diferença, somos chamados a colocar-nos do lugar do Outro, já que o Outro é a outra metade de nós mesmos e nós somos sempre o Outro dos outros. Ruben A. falava, por isso, em “O Outro que era Eu” – numa alegoria muito fecunda a essa necessidade de entender o Eu e o Outro como verso e reverso duma mesma realidade, apesar de haver uma tensão indiscutível entre o que distingue e o que identifica, entre o que nos caracteriza na relação com tudo aquilo com quem vivemos em relação, nada nos podendo ser estranho ou indiferente. Fica-nos, todavia, a necessidade de entender o estranho paradoxo que faz coexistir duas tendências antagónicas – para a personalização e para a massificação. Estamos perante um “paradoxo”. Por um lado, “cresce a globalização dos media, mas, ao mesmo tempo, aumenta a superficialidade, a falta de coesão e o caos. Quanto maior o contacto com os media, maior é a solidão e o desnorteamento”. Não podemos aqui esquecer Marshall McLuhan e a sua ideia de “aldeia global”. E o certo é que a expressão tornou-se equívoca e perigosa, uma vez que se na aldeia há a proximidade, porque todos se conhecem, convivem e partilham a respectiva sorte, isso não se aplica à sociedade planetária, “que se assemelha mais a uma multidão anónima”, uma “multidão de pessoas a correr, indiferentes e desconhecidas”. Não basta falar, pois, de “aldeia global”, é necessário estarmos atentos aos ensinamentos de Tischner sobre a incindível relação de encontro e de diálogo entre Eu e o Outro.

 

AS CAUSAS DA HOSPITALIDADE
Cyprian Norwid escreveu, ao prefaciar a “Odisseia”, que era indispensável verificar quais as causas da hospitalidade que Ulisses foi encontrando, na sua viagem de regresso a Ítaca: “Ali, diz o autor do ‘Promethidion’, quando aparecia qualquer mendigo ou vagabundo forasteiro, investigavam primeiro se não era Deus. (…) Não se podia perguntar o nome sem dar hospedagem primeiro; mas depois de se ter respeitado a sua divindade, descia-se às perguntas humanas; a isto se chamava hospitalidade, uma das práticas e virtudes piedosas. Entre os gregos de Homero não havia um ‘homem último’; havia sempre primeiro o divino”. Assim se compreende que devamos procurar um diálogo concordante com o Outro. Afinal, só a afabilidade pode despertar um sentido de humanidade, capaz de unir os mortos aos vivos e os vivos aos que ainda não nasceram.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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