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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

RITA LEVI-MONTALCINI

 

Como recordou Federico Mayor, Rita Levi-Montalcini deu às suas memórias o título de "Elogio da Imperfeição", aí analisa as razões que a levaram a um caminho de cidadã e de cientista, perseguida politicamente, tendo enfrentado as maiores dificuldades, assumindo-se sempre mulher "livre e responsável", exatamente como a UNESCO define as pessoas educadas. Nunca baixou os braços, desenvolvendo ações em diversos domínios, mas com especial qualidade e exigência na medicina e nas neurociências. Desde 1947 a 1969 esteve nos Estados Unidos, onde compartilhou com o Professor Stanley Cohen a investigação que permitiria a descoberta do fator do crescimento neuronal. No entanto, costumava dizer que os seus únicos méritos foram a perseverança e o otimismo. Por isso, tendo vivido até aos 103 anos nunca se jubilou. E com muita ironia, mas certeza científica, dizia: "a pele e o corpo ganham rugas, mas o cérebro não. Só a inatividade, o desencanto e a desmotivação enrugam o cérebro". Rita Levi acreditou profundamente na renovação das gerações e no apoio aos jovens. Numa fórmula cheia de sensibilidade, Federico Mayor no texto hoje publicado salienta os seus contributos para a ciência e para a cultura cívica. "Fez-se invisível, mas não se ausentou. A sua estrela continuará a iluminar os caminhos de amanhã!".

Guilherme d'Oliveira Martins


Morreu Rita Levi-Montalcini, a grande dama da ciência italiana
(ler mais...)

LIVROS 2012

Como habitualmente e seguindo ordem arbitrária, sugerimos os seguintes livros do ano 2012.
O romance de Tolstoi é escolhido pela apresentação do filme de Joe Wright e o volume organizado por Umberto Eco saiu nos últimos dias de 2011...


1. "Anna Karénina"
Lev Tolstoi, tradução António Pescada, Relógio d'Água.


2. "A Civilização do Espetáculo"
Mário Vargas Llosa, Quetzal.


3. "Idade Média - Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos"
Umberto Eco (org.), D. Quixote.


4. "O Feitiço da Índia"
Miguel Real, D. Quixote.


5. "Breviário do Brasil"
Agustina Bessa-Luís, Guimarães Editores - Babel.


6. "Os Transparentes"
Ondjaki, Caminho.


7. "Acta est Fabula, I, Lourenço Marques (1930-1947)"
Eugénio Lisboa, Opera Omnia.


8. "Ernesto Melo Antunes - Uma Biografia Política"
Maria Inácia Rezola, Âncora.


9. "Fernando Pessoa - O Poeta e os Seus Fantasmas"
Carlos Queirós, Ática - Babel.


10. "Estação Central"
José Tolentino Mendonça, Assírio e Alvim.


Bons livros! Boas leituras!


Centro Nacional de Cultura

A VIDA DOS LIVROS


de 31 de Dezembro de 2012 a 6 de Janeiro de 2013

Óscar Niemeyer disse um dia: «não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein». Disse-o nas suas memórias, «As Curvas do Tempo» (Revan, 1998), um fascinante percurso autobiográfico, no qual encontramos as raízes da inspiração do artífice de Brasília e os elos entre a modernidade e o barroco original brasileiro.


ENTENDER A ORIGINALIDADE DE NIEMEYER
A imersão em Minas Gerais levou-nos a compreender a originalidade de Óscar Niemeyer, que agora nos deixou, e a dizer que o barroco une o Brasil de ontem ao Brasil de sempre, e continua no domínio da curvatura, marca do génio de Niemeyer, da «liberdade plástica e da invenção arquitetural». Regressemos ao Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, iniciativa de um português abastado, Feliciano Mendes, que fez uma promessa para a cura de uma enfermidade. Livre da doença, em 1757, começou a erguer a basílica. A invenção está na arte do Aleijadinho, António Francisco Lisboa. No dia em que lá estivemos, havia multidão, altifalantes e mercancias, que impediram um gozo completo da originalidade. Em torno do santuário, os Passos da Paixão dominam. São sete cenas com um total de 64 figuras esculpidas em cedro pelo artista e seus discípulos. São, porém, os doze profetas representados em pedra-sabão no adro do templo que concitam as atenções, pela sua força e pelo carisma (usemos a palavra sem receios). Amos, Abdias, Isaías, Jeremias, Habacuc e Naum; entre a escadaria Baruc e Ezequiel; e na amurada: Jonas, Daniel, Oseías e Joel. «Estamos, diz-nos Nemésio (com cuja palavra contámos nesta peregrinação inesquecível), em presença de uma autêntica escultura sinfónica, gesticular e polimórfica, que procura vencer a sábia variedade de atributos pela conceção atrevida e móbil do gesto, que vai da imprecação à perplexidade através da concentração e do êxtase, e que, dos bucres de cabeço aos esguichos do golfinho de Jonas feitos alamaras da indumentária assume na estase de Daniel um dos melhores conseguimentos da imaginária barroca». Vistos de longe, como o escritor verificou, os Profetas do adro de Congonhas ganham um estranho aspeto de conciliábulo, que ultrapassa em intensidade a observação pormenorizada das figuras. É, de facto, um verdadeiro «ballet» do Aleijadinho que presenciamos, num exemplo singular que dá a este barroco um sentido de intemporalidade. E o mais curioso é ver como é a marca do mestre que se nota como elemento unificador, uma vez que as diferenças não deixam despercebido o gesto comum.

O VELHO ARRAIAL DA PONTA DO MORRO
«Serranias ermas e fausto no povoado». V. Nemésio marca desse modo a identidade das cidades mineiras. Sentimo-lo, de novo, em Tiradentes, nascida em 1702, a partir do Arraial da Ponta do Morro, que em 1718 passou a chamar-se Vila de S. José d’El-Rei, em homenagem ao Príncipe D. José – adquirindo a atual designação depois do fim do Império e da proclamação da República. Hoje é uma atração turística, com o seu centro preservado. Muitas das antigas casas acomodam agradáveis pousadas, restaurantes de comida mineira e lojas de artesanato. Poderíamos dizer que depois de tudo o que vimos desde Diamantina, haverá já poucas surpresas. Puro engano! Não nos surpreende talvez o Chafariz de S. José de Botas, até a Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, mas sim a extraordinária Matriz de Santo António, construída entre 1710 e 1750, uma das igrejas mais belas do barroco mineiro. O altar-mor singulariza-se por um paradoxal equilíbrio e pela teatralidade barroca, que nos prende e atrai. Colunas torsas, atlantes, anjos, cornucópias, volutas, conchas e folhas. Será por certo das mais requintadas igrejas do original barroco mineiro. O entalhador João Ferreira de Sampaio exprime aqui o seu enorme talento, percebendo-se que conhecia bem a arte italiana e admirava Bernini. O altar-mor domina pelos elementos e singularidade, a imagem da Virgem da Conceição do lado do Evangelho é extremamente bela. As representações da última ceia e das bodas de Caná não passam despercebidas, esta é, aliás, o testemunho de uma festa setecentista. Na igreja da confraria de Nossa Senhora do Rosário, a talha dourada domina o altar-mor, com retábulos laterais representando os padroeiros da comunidade negra – S. Benedito e S. António de Cartagerona.

MÚSICA EM S. JOÃO D’EL-REI
Compreendemos bem as invocações de Nemésio sobre o modo como retemperava forças nestas paragens. A feijoada mineira e os acepipes enchem-nos a alma. Depois, seguiu-se a visita ao Museu de Liturgia, recém-inaugurado, muito pedagógico e com moderno rigor museológico. O movimento da cidade é intenso, motivado pelo fim de semana alargado. No dia seguinte, em S. João d’el Rei, domingo, na Igreja de S. Francisco, a irmandade da Ordem Terceira saúda-nos com inexcedível simpatia. Anna Maria Parsons vem ao nosso encontro. O coro e a orquestra que acompanham a cerimónia litúrgica são de primeiríssima qualidade. A cidade tem uma antiga tradição, de mais de um século na música clássica, coral e sinfónica, que António Pinto da França já nos tinha justamente enaltecido. Ao ouvirmos o Kirie, o Hossana e o Glória, somos transportados à espiritualidade suprema, com autores mineiros celebrados. É um trabalho continuado que foi reforçado, nos últimos anos, pela formação de dotadíssimos cantores e instrumentistas. De novo encontramos António Francisco Lisboa, e vemos que aqui o diminutivo é considerado pejorativo. A professora Parsons chama-nos a especial atenção para as imagens dos altares laterais representando S. João Evangelista e S. Gonçalo de Amarante. Aqui está o mestre de Congonhas em todo o seu esplendor, ficando demonstrada a sua elevadíssima formação e grande conhecimento. Foi aluno da escola franciscana do Hospício da Misericórdia, tendo aprendido grego, latim e história, tomando contacto com a melhor arte europeia. E o barroco transfigura-se. Há em S. João Evangelista algo que encontramos no Profeta Daniel de Congonhas. A teatralidade, o movimento, o domínio da curvatura, a compreensão do corpo. Seguimos pelas ruas de S. João. Recordamos a memória do Presidente Tancredo Neves – e sentimos a esperança existente em torno de seu neto Aécio. Descobrimos o templo mais antigo da urbe, da confraria dos homens pretos (1719), continuamos em Nossa Senhora do Pilar, a matriz, com celebradas talhas douradas, e as referências continuam: Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Carmo. Recordamos as gárgulas em forma de canhão, já encontradas em Ouro Preto. E fica-nos na retina a exuberância e ao mesmo tempo o equilíbrio da fachada de S. Francisco de Assis, desenhada por António Francisco Lisboa. As dúvidas desvanecem-se, tão nítida é a marca indelével do artista e da sua oficina. A cidade pequena está conservada pelo tempo… E terminamos o dia no Solar da Ponte em Tiradentes. A receção é esmerada e cuidadosa, com um chá às cinco em ponto, como mandam todas as regras. Anna Maria Parsons explica-nos com minúcia por que motivo é errado falar-se de uma decadência de Minas Gerais, entre 1730 e 1789, já que é o tempo do desenvolvimento da agricultura e da pecuária e de um novo impulso económico equilibrado e preparatório da fase pós-colonial. E Suelly de Campos Franco explica-nos como o Minho e Minas Gerais estão intimamente ligados pelas tradições religiosas.

Guilherme d’Oliveira Martins

LONDON LETTERS

A Christmas Carol, 1843

 

Charles John Huffam Dickens (1812-70) publica o seu “ghostly little book” em 1843 December. Após dois meses de escrita intensa, intitula-o longamente comoA Christmas Carol / In Prose / Being / A Ghost Story of Christmas / With Illustrations By John Leech. Le votre adorable cantique de Noël. O livrinho abre com o espetro do prestamista Jacob Marley: "Marley was dead, to begin with." Tal pesado facto ainda abisma nas linhas introdutórias: "Scrooge knew he was dead? Of course he did." A imaginação ética move o autor, chocado com a desmesura da pobreza observada em Manchester nas vésperas da Spring of Nations que já agita o continente. – Blessed Mr Dickens! Se o Old Will assumira que "Hamlet’s Father died before the play began,” já nova menção ao funeral reforça a evidência do finamento do homem: “There is no doubt that Marley was dead." Com morte, pois, arranca a mais vitoriana celebração da nascença de Jesus Christ nestas ilhas.

 

 

A firma “Scrooge & Marley” surge como cenário primeiro nesta incursão à natureza humana. O lugar é frio, tal a gélida recusa de Ebenezer Scrooge ali queimar algumas pedras de carvão. Glacial é também a sua negativa quanto a conceder a Christmas holy-day a Bob Cratchit, um dos muitos cuja família vive a condição miserável da working class. A semana inglesa ainda vem a caminho, a exemplo de políticas públicas similares para aliviar a aflição dos pobres. Surge agora a sombria figura daquela Christmas eve: "Scrooge! a squeezing, wrenching, grasping, scraping, clutching, covetous, old sinner! Hard and sharp as flint, from which no steel had ever struck out generous fire; secret, and self-contained, and solitary as an oyster. The cold within him froze his old features, nipped his pointed nose, shrivelled his cheek, stiffened his gait; made his eyes red, his thin lips blue; and spoke out shrewdly in his grating voice. A frosty rime was on his head, and on his eyebrows, and his wiry chin." E é a tal cruel old man que um fantasmático Marley anuncia três importantíssimas visitas: os espíritos do Christmas Past, Present e Yet to Come. O mais fica para ler na magia original.

 

 

Great things have happened in the Victorian times. Uma é a invenção do English Christmas, cujos ghosts tanto animam a família como assombram o vendilhão (& the turkey, regrettably). A visão pertence a Mr Dickens, um novelista para todas as épocas e a popular literary hero que foi também a social reformer. Por tudo, note-se, é uma instituição nacional ‒ always a good pretext for the preservation of his 19th-century home in London, now a historic house museum. O aka Boz rasga a vanity fair com os satíricos The Pickwick Papers e distingue-se com a defesa da dignidade nas aventuras de Oliver Twist (1837-8) e Nicholas Nickleby (1838-9). A acusação contra a injustiça e a crueldade prova efeitos sobretudo quando, em A Tale of Two Cities (1859), sugere que o engenho de Monsieur Guillotin não é a calamidade descrita por contemporâneos [como Mr Thomas Carlyle,] mas antes uma solução efetiva para a calamidade.

 

Quem cresce na Literary Britain sabe da força moral e do poder emocional contidos nos escritos dickensianos. O carácter colorido das personagens, a riqueza visual da envolvência, a harmonia ritmada das palavras, a fluidez da estória que seduz e depois fica connosco, tudo isso, sim, mais o térmico toque divino. O escritor inspiradamente revivifica uma milenar mensagem: to help the poor and the disenfranchised é dever do privilégio. Sem isso é outra coisa. Daí a amada presença do noble Gentleman em cada Natal. A happy eternity, dear Mr Dickens.

 

St James, 24th December                   

 

Merry Christmas for all,

 

V.

PAULO ROCHA: O REALIZADOR QUE "VIVEU" CINEMA

 

É um cineasta maior, uma das referências incontornáveis de um cinema livre e inconformista gerado num país sem indústria, mas com uma força imagética em que muitas vezes não acreditamos.

Quando morre um grande cineasta – Paulo Rocha, aos 77 anos –, alguém que mudou a paisagem representativa de uma cinematografia como a nossa, o pior a fazer é perder muito tempo com dados biográficos: nasceu no Porto em 22 de dezembro de 1935, abandonou os estudos de Direito para ir estudar cinema no IDHEC, em Paris, foi assistente estagiário do grande Jean Renoir em O Cabo de Guerra (1962) e assistente de Manoel de Oliveira sobretudo em Ato de primavera (1963).

 

Ou seja, “viveu” cinema, desde a sua participação na fundação do Cine Clube Católico com Bénard da Costa ou Nuno Bragança até à sua estreia como realizador com Verdes Anos (1963), o filme que transformou tudo no cinema português: da forma de conceber o espaço urbano, integrando na estafada dicotomia cidade-campo uma nova e radical forma de exílio, até à direção de atores – rostos marcantes de uma nova visualidade, como Isabel Ruth, ou a recuperação de uma irreconhecível teatralidade, como Paulo Renato –, passando pelas condições de produção e de escrita – um cinema “pobre”, atuante, urgente e poético. Verdes Anos não representa apenas o início do Cinema Novo, é o manifesto de uma forma revolucionária de olhar para nós e para as nossas atávicas contradições, com poucos meios, muita imaginação e com um lirismo pungente: cerca de 50 anos depois permanece vivo e perturbante, como um retrato de família de um país e de uma sociedade em rutura e em carne viva.

 

Segue-se-lhe, com a sequencialidade possível num cinema bissexto, outra obra-prima, desta vez rimando com as ruínas do neorrealismo, que Rocha recompõe com o mesmo rigor e petrificação com que o poeta Carlos de Oliveira, num território afim de dunas e ventos imemoriais, refaz o seu imaginário poético nos anos 60: Mudar de Vida (1966) toca na essência do nosso trágico atavismo, filmando o mar e as sombras de um passado atabafante com o desassombro de quem pensa em fotogramas um mundo que formalmente se reformula a cada olhar. Bastariam estas duas obras iniciais, às quais o cinema português que veio depois tudo deve, para que aqui e agora o estivéssemos a lembrar com aquele ar atónito de menino grande e desengonçado que a velhice e a doença não deixariam ocultar.

 

O resto (e é muito) tardou e foi-se espaçando ao sabor das muitas hesitações e dificuldades que se levantam a quem faz cinema neste Portugal de eternas crises feito: o belíssimo A Ilha dos Amores (1982), desmesurada homenagem ao cinema japonês que tanto amava, com luzes vindas de um Mizoguchi transfigurado e planos-sequência de um Ozu revisto sob pretexto de um Wenceslau de Moraes mais sonhado do que biografado; o desequilíbrio de O Desejado (1987), sempre em busca de desafiar a narratividade; o regresso à genialidade na perfeição irregular de O Rio do Ouro (1998), num território que tocava o de Oliveira, mas que se lhe contrapunha em delirante e quase surreal sinfonia de sons e cores com personagens que voam para, como na pintura de Marc Chagall, unir o real mais violento ao onirismo mais poético. E saltamos pequenas (mas importantes) incursões pelo modernismo em Máscara de Aço contra Abismo Azul (1989), para televisão, ou um dos melhores documentários sobre mestre Oliveira (1993), concebido como “arquiteto” de um mundo que Rocha recebera enquanto pedra angular.

 

Com a mudança de século, o realizador procurava, com a mesma ousadia de sempre, redescobrir-se em universos que, por vezes, lhe resistiam: A Raiz do Coração (2000), musical com travestis e transfigurações noturnas, na busca de um cinema popular como o que descobrira, para espanto de muitos, em A Costureirinha da Sé (incursão colorida do “neorrealista” Manuel Guimarães, em 1959, pelos resquícios da opereta e da comédia à portuguesa), escolhida para uma retrospetiva própria com seleção de outros, causou nos que o admiravam grandes perplexidades que ainda se não resolveram e que Vanitas (2004) ajudou a agudizar.

 

Por descobrir fica Olhos Vermelhos [título de rodagem, entretanto mudado para Se Eu Fosse Ladrão, Roubava], um canto do cisne de que pouco se sabe. De uma vida cheia e intensa, feita de sonhos concretizados e desfeitos, fica um cineasta maior, uma das referências incontornáveis deste cinema livre e inconformista, gerado num país sem indústria, mas com uma força imagética em que muitas vezes não acreditamos: bastaria a fabulosa elipse da morte de Ilda, a frágil heroína de Verdes Anos, para podermos afirmar que Paulo Rocha está vivo naquela arte estranha de projeções de realidades que nunca existiram.


 

>> Excerto do filme "Verdes anos" (1963)

Mário Jorge Torres in Público | 29 de dezembro de 2012

TRÊS OBRAS SINGULARES


A quinta categoria das criaturas,aquela que está acima das outras por possuir o intelecto,isto é,conhecerem Deus,de Quem são mensageiras,são os anjos. A manifestação da Natividade pelos anjos é anunciadora: no momento da concepção por Maria, ou na chamada feita aos pastores. Mas é também uma proclamação, na terra e nos céus: "Glória a Deus nas alturas,paz na terra aos homens de boa vontade!"  -  cantam anjos feitos de luz, entoando cânticos de júbilo...Na homilia de Frei Tiago Voragino,as cinco ordens de manifestações do Natal do Senhor,que fomos acompanhando, preenchem o comentário mais extenso dos três que o dominicano faz nessa ocasião: "Note-se que o nascimento de Cristo chegou de modo maravilhoso, manifestou-se de modo múltiplo,e demonstrou-se  útil". Vejamos então o modo maravilhoso do acontecimento e a utilidade deste. O modo maravilhoso advém da mãe, do menino dela nascido, e de como este foi gerado: a mãe era virgem antes de dar à luz e virgem permaneceu; o menino que então nasceu"reuniu na mesma pessoa,como diz S. Bernardo,o eterno,o antigo e o novo. O eterno é a divindade,o antigo é a carne transmitida desde Adão, o novo é uma alma criada de novo. Além disso,como Bernardo diz: "Nesse dia, Deus realizou três misturas, três obras tão maravilhosamente singulares, que nada semelhante nunca fora feito nem jamais o será. Trata-se da conjunção de Deus e do homem,da mãe e da virgem,da fé e do coração humano..." E o modo como esse menino foi gerado é maravilhoso porque,diz o Voragino,"o livramento ultrapassou a natureza,posto que uma virgem concebeu. Ultrpassou a razão,pois foi Deus que ela engendrou. Ultrapassou a condição humana,visto que deu à luz sem dor. Ultrapassou as normas,porque concebeu pelo Espírito Santo: a Virgem,com efeito,não engendrou a partir da semente humana,mas a partir de um sopro místico. Pois o Espírito Santo tomou o que de mais puro e casto havia no sangue da Virgem para com isso formar um corpo. E assim manifestou Deus uma quarta maneira de criar o homem. Assim o diz Sto.Anselmo: "Deus pode criar o homem de quatro maneiras: sem homem nem mulher,como o fez para Adão; pelo homem sem mulher,como o fez para Eva; pelo o homem e a mulher,segundo o modo comum; e pela mulher sem o homem,como milagrosamente se fez neste dia."O que acabámos de ler não é o relato factual e literal de realidades sensorialmente apreensíveis. É a narração de um acontecimento que,pela sua natureza inefável,divina,só intuiremos pela sua ilustração. Traduzir-nos o invisível,é procurar essa conjunção da fé e do coração humano,sabendo que ainda não podemos ver mas apenas acreditar no que não vemos. As narrativas bíblicas,a literatura patrística,a própria tradição popular da revelação são eminentemente significantes de realidades e verdades ontológicas que as criaturas humanas que somos  -   e não possue m a tal quinta qualidade,a do intelecto,que só os anjos têm  -  não podem ainda ver... A revelação cristã é uma promessa feita na e pela história dos homens. A fé é uma resposta a essa promessa com outra: a da fidelidade ao que ainda não vemos mas esperamos ver um dia plenamente. No sec.XIII,um frade dominicano,depois arcebispo de Génova,dedicou trinta anos a reunir e traduzir, para contemporâneos e  vindouros,lendas,narrativas,comentários e lições de antanho. Meditou sobre esses textos, e deles extraiu conceitos e pistas que os abrissem a uma nova contemplação da condição humana e do seu destino. Não insistiu em superstições e medos,antes procurou dar ânimo ao necessário afrontamento do mistério e do infinito depois dele. Do Natal tirou ainda mais umas lições, como proximamente veremos.

Camilo Martins de Oliveira

DONA CANÔ


Imagem/Fonte: Catu Online

 

Foi no dia de Natal. Nos seus proverbiais 105 anos, partiu Dona Canô. Lembramo-nos bem desse dia em que fomos até Santo Amaro da Purificação, numa das nossas épicas viagens dos Portugueses ao Encontro da Sua História. Passámos-lhe à porta, e nunca mais esquecemos a invocação sentida que aí fizemos de um verdadeiro símbolo do Brasil eterno. Dona Canô era um esteio fundamental. Mais do que a Mãe de Maria Betânia e de Caetano Veloso, era uma voz sempre presente, representante dos confins da terra bahiana. E quando ouvimos Maria Betânia e Caetano, sentimos que as palavras vêm da alma mais funda do Brasil brasileiro. «Quando o meu mundo era mais mundo / E todo o mundo admitia / Uma mudança muito estranha / Mais pureza, mais carinho, mais calma, mais alegria / No meu jeito de me dar» - diria Caetano. D. Claudionor Vianna Teles Velloso tinha várias vozes – as tradições, a língua, os costumes. D. Canô transmitiu à sua prole um romanceiro, que hoje aprendemos de cor, através da letra e da música de seus filhos… «Eu preciso de você / Porque tudo o que eu pensei / Que pudesse desfrutar da vida / Sem você não sei». Maria Betânia não nos permite que a esqueçamos!


Centro Nacional de Cultura

António Alçada:

com quantos véus se descobre o mundo?
E para te dizer António, que ainda não sei.

 

 

Rosa, meu amor:

Há três semanas que te foste embora e a tua ausência deixou-me um buraco grande por dentro, pois parece que me tiraram tudo o que me fazia vibrar com a vida e, por isso, ando por aqui perdido sem saber qual é o caminho que dá para o dia de amanhã. Eu não desisto de tentar compreender os porquês de tudo. Sinto é que ficou uma grande conversa suspensa, um lugar onde estou a temer entrar com medo de te magoar.

Acho que tens duas pessoas dentro de ti. Uma é uma menina querida, que nasceu em Santo Antão, que olhou e começou a caminhar num mundo sem pesos, que tomava banho no mar e subia aos montes com os seus amigos, ria com eles no tempo em que o riso, mais do que as palavras, era símbolo da ligação que tínhamos com os outros. Tu nem podes imaginar como eu gosto dessa menina. Eu hoje sei que, por causa dela, conheci o que era o grande enamoramento com a vida, que por causa dela andei maravilhado com o mundo: com o sol e a chuva, com o vento, o frio e o calor e tudo o que faz da vida um lugar de variedade e surpresa.

(…) – não te esqueças: o afecto é só o calor do nosso destino solitário (…) eu acho que Deus tem um sorriso como o teu.

Depois, ainda com o mesmo sorriso, levantou a roupa da cama, deitou-se e disse-me:

- Vá. Vem para a nossa Arca de Noé…

                     

                                         “ O RISO DE DEUS” – romance de António Alçada Baptista.


Teresa Vieira

LONDON LETTERS

The Queen at Cabinet, 2012

 

Elisabeth II participou hoje nos trabalhos do conselho de ministros no No. 10 Downing Street. É a primeira vez de algo do género na era moderna. A monarca inscreve assim uma nova página no constitucionalismo do United Kingdom e nos atos expectáveis da head of state, mesmo se formalmente inserida tal presença no Cabinet meeting nas já memoráveis celebrações do Diamond Jubilee. Et voilà! A chaque pays, son propre modèle de souverain. A presença de Her Majesty em Westminster Hall ocorre em momento de alta popularidade e quando famosa Crown Bill acelera na House of Commons para assegurar a igualdade de género no acesso ao trono da Great Britain. – Well, well. So much for the conservatism! A histórica visita sucede a um inovador touring às barras de ouro no Bank of England e até a inesperado criticismo às singulares práticas financeiras que estão na base dos atuais hard times.

 

 

First things, first. A simpatia, senão afetuosa estima, que goza dentro e fora do reino é admirável. Elisabet Windsor é a veterana das democracias ocidentais e gestora de património estimado em $14 billion. No currículo regista lides com 156 chefes de governo: 12 British Premiers (só George III contou 14, mais dois que os somados pela Queen Victoria) a par de 14 New Zealand, 12 Australian e 11 Canadian Prime Ministers. O seu very first Premier foi Sir Winston Churchill (Con 1951-55); depois vieram Anthony Eden (Con 1955-57), Harold Macmillan (Con 1957-63), Alec Douglas-Home (Con 1963-64), Harold Wilson (Lab 1964-70 & 1974-76), Edward Heath (Con 1970-74), James Callaghan (Lab 1976-79), Margaret Thatcher (Con 1979-90), John Major (Con 1990-97), Tony Blair (Lab 1997-2007), Gordon Brown (Lab 2007-2010) e David Cameron (Con 2010/...). E é com o líder da coligação conservadora-liberal que agora inova, usando respeitoso Blue Tory, o estatuto de observadora e o silêncio como garante da neutralidade constitucional. So, historical for sure, eis a questão: Uma visita de cortesia com significado político ou um ato político revestido daquela old fashion politeness e historical sense que caracterizam Her Majesty The Queen?

 

As atitudes políticas de Elisabeth II merecem sempre relevo, mas decerto há gestos institucionais que pesam mais do que outros nos 60 anos de reinado. Dada a visita semanal do Premier ao Buchingham Palace, a ida ao Cabinet ultrapassará o ocasional voto de Merry Christmas. Com o interesse adicional de colocar Mr Cameron a estudar história em matéria de antecedentes, a presença de Her Majesty no No. 10 evidencia o quão unida está a pilotagem política do país face a quaisquer ameaças e consensual é hoje a posição constitucional do símbolo vivo da British Nation. Uma coisa e outra, aliás, sublinhando a vital separação dos poderes que carateriza a democracia de Westminster.

 

 

Ora, se as constituições são sobre o poder e os poderosos, a peculiaridade britânica reside no facto de que quem o exerce não é exatamente quem o possui. The Queen é a head of the executive, que cabe ao governo; The Parliament, face ao qual o executivo responde pelos atos, é na prática por aquele controlado; The Cabinet e The Prime Minister tomam as mais importantes decisões, mas não têm existência formal própria. Confuso!? Não, de todo. Escrevia Walter Bagehot em 1867: "A family on the throne is an interesting idea ... It brings down the pride of sovereignty to the level of petty life.”

 

St James, 19th December

 

Very sincerely yours,

 

V.

A VIDA DOS LIVROS

 


de 24 a 30 de Dezembro de 2012

 


«Princípios de Filosofia ou Monadologia» de Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716) (tradução, introdução e notas de Luís Martins) (INCM, 1987) é uma das obras-primas da filosofia europeia, caracterizando-se pela sua clareza e concisão, algo enganadores sobre a respetiva simplicidade. Apesar da complexidade trata-se de uma síntese notável sobre o pensamento do autor.

 

 

GRANDE RIQUEZA DE REFLEXÃO
Leibniz é um dos autores do pensamento europeu que apresenta uma das mais extraordinárias riquezas na sua reflexão. A sua biografia é disso uma demonstração inequívoca. Nascido numa família de tradições jurídicas do lado paterno e materno, desde cedo estudou os autores clássicos, escolásticos e modernos – conhecendo profundamente a evolução das ideias do seu tempo, o que lhe permitiu desenvolver um apurado pensamento crítico. Com apenas 17 anos declara-se nominalista, a propósito do estudo sobre a individualização. Na Universidade de Iena estuda metafísica, jurisprudência e matemática, iniciando os estudos sobre o cálculo diferencial. A lógica matemática atrai-o especialmente, o que se manifesta com nitidez nos estudos que culminarão em «De Arte Combinatoria». Procura, assim, adaptar as combinações lógicas às decisões da jurisprudência, usando um método extremamente original, revelador de grandes qualidades intelectuais. Junto do Barão de Boinebourg, antigo Conselheiro privado do eleitor de Mogúncia (Mainz) convertido ao catolicismo, desenvolve estudos sobre química, mas também sobre política e direito. Reedita uma obra do século XVI de Marius Nizolius profundamente crítica do pensamento escolástico, apesar de estabelecer algumas distâncias críticas. Entretanto, preconiza a unificação dos estados alemães, preocupando-se também com a segurança europeia. Espírito desperto e irrequieto, estuda aprofundadamente os mais recentes avanços da lógica matemática, admirando Pascal e propondo audaciosos avanços nesse domínio. Mais do que pelo ensino, é atraído pelo contacto com pensadores e matemáticos e com governantes e diplomatas. Daí a extrema versatilidade dos seus escritos e pensamentos. É notável vermo-lo na passagem dos anos 60 para 70 descrever uma nova máquina de calcular (com quatro operações, mais avançada do que a de Pascal), propor um novo sistema eleitoral para a Polónia, escrever sobre física e matemática, realizar estudos de teologia sobre o dogma da transubstanciação e da presença real na eucaristia. Em Paris (1672) tenta influenciar Luís XIV para a conquista do Egito, em Londres apresenta na Royal Society a máquina de calcular (1673). De novo em Paris, conclui os estudos sobre o cálculo diferencial e mantém uma intensa reflexão teológica. Em 1776, aceita o cargo de Bibliotecário em Hanôver, na Casa do duque de Brunswick-Lünebourg e é nesse mesmo ano que conhece Bento Espinosa, de passagem pela Holanda – e discute com ele criticamente as conclusões de Descartes, encontrando pontos de contacto com o seu pensamento. Embrenha-se na investigação histórica sobre a Casa de Brunswick e consegue chegar a conclusões importantes que fazem luz sobre a história da Mitteleuropa e sobre as pretensões políticas do Senhor para quem trabalha.

 

A RECONCILIAÇÃO RELIGIOSA
Preocupa-se então com a necessidade de reconciliação entre as igrejas católica e protestantes, fazendo inúmeros contactos e propostas concretas. Escreve-se com Bossuet e com outros prelados, com o Bispo Rojas de Spínola. É este o tema que o ocupa sobremaneira. A teologia que estuda e pratica confunde-se com a filosofia e metafísica. A religião deve fundar-se na razão, e Leibniz considera haver mistérios e verdades reveladas, no entanto se não podemos explica-las é porque a nossa lógica e as nossas línguas são imperfeitas. Razão e fé encontram-se necessariamente, e o certo é que a oposição entre católicos e protestantes resultaria mais de um espírito de grupo do que de uma diferenciação profunda de dogmas e crenças. Contudo, o diálogo com Bossuet torna-se muito difícil, uma vez que este fala sobretudo de um «regresso» dos protestantes e não de um diálogo ou entendimento, o que gera resistências e incompreensões. É ainda em Hanôver que produz as principais obras filosóficas, designadamente as anotações à Ética de Espinosa. Mantem-se, porém, como um incansável investigador em bibliotecas e arquivos. Depois da morte de Jean-Frédéric de Brunswick mantém as mesmas funções com Ernest-Auguste. Empenha-se em diversas negociações diplomáticas, rompe com a filosofia cartesiana, realiza viagens para compilar documentos sobre as pretensões políticas da Casa de Brunswick. Obtém uma importante vitória ao ver reconhecida em 1692 a qualidade de Eleitor para o o Duque Ernest-Auguste, que é o pai de Jorge I, que se tornará rei de Inglaterra, iniciando a dinastia de Hanôver. Em Itália Leibniz é eleito membro da Pontifícia Academia Físico-Matemática de Roma. Respeitado em toda a Europa, escreve «Système Nouveau de la Nature et de la Communication des Substances ainsi bien que de l’Union qu’il y a entre l’âme et le corps». Usa pela primeira vez o termo «mónada».

 

A IMPORTÂNCIA DA MONADOLOGIA
«A Mónada não é outra coisa senão uma substância simples, que entra nos compostos; simples quer dizer, sem partes». Uma mónada é uma força irredutível que dá aos corpos as suas características de inércia e impenetrabilidade, contendo em si mesma a fonte de todas as suas ações. Por este tempo, é nomeado membro da Academia das Ciências de Paris (1699), fundando, no ano seguinte, em Berlim, a Sociedade de Ciências (depois Academia). Publica obras fundamentais como «Considérations sur la doctrine d’un esprit universel unique» e «Nouveaux Essais sur l’Entendement Humain», em que contesta a tese de John Locke sobre a «tábua rasa», defendendo a teorias das ideias inatas. Continua, todavia, preocupado com a organização da sociedade alemã, centrada no espírito e na língua, mas também pensa na organização intelectual de toda a Europa. Estuda e propõe reformas para a Rússia, colocando muitas esperanças na modernização empreendida por Pedro, o Grande. «Desde a minha juventude, o meu grande objetivo foi trabalhar pela glória de Deus, pelo crescimento das ciências que marcam melhor o poder, a sabedoria e a bondade divina. O país onde as ciências forem mais florescentes ser-me-á mais caro, pois que o género humano aproveitará disso mesmo». Os últimos anos de vida de Leibniz, após a morte da sua admiradora e protetora a Princesa Sofia de Hanôver, viúva de Ernest-Auguste e neta de Jaime I de Inglaterra e mãe do futuro rei Jorge I, foram de esquecimento e indiferença. Parte significativa da sua obra ainda era desconhecida, em especial a relativa à teoria do conhecimento. As suas prosas divulgadas eram de natureza circunstancial. Mas, ao lermos «Princípios de Filosofia ou Monadologia» sentimos a originalidade e a consistência do seu pensamento na ligação entre a conceção das mónadas e a visão do mundo, em especial através dos princípios da razão suficiente e da não-contradição, bases do otimismo metafísico, «princípios que asseguram a existência de ordenação na complexa e infinita rede de compossibilidade lógica». Por outro lado, a ligação vinculativa com o corolário teórico exprime a «necessidade ética e metafísica da criação, é o princípio do Melhor, porque Deus estabeleceu a necessidade hipotética como fundamento moral da criação do mundo» (como no-lo ensinou Fernando Gil). A ideia de vivermos no melhor dos mundos possível ("dotado de maior variedade de fenómenos com base no menor número de princípios") parte de uma perspetiva de conjunto que procura dar coerência à realidade e à vida. Como diz o filósofo: «Esta Cidade de Deus, esta Monarquia verdadeiramente universal, é um Mundo Moral no Mundo Natural e o que de mais elevado e de mais divino existe nas obras de Deus, pois que não a haveria se a sua grandeza e a sua bondade não fossem conhecidas e admiradas pelos espíritos; e é também relativamente a esta cidade divina que há propriamente Bondade, ao passo que a sua Sabedoria e a sua Potência se manifestam por todo o lado» (86).


Guilherme d’Oliveira Martins

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