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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CANDIDE EM RITMO MUSICAL…

 

Minha Princesa de mim:

 

Cá estou em New York, no Plaza, escrevendo sentado em frente da janela do meu quarto, aberta sobre o Central Park. Sinto e penso, penso e sinto a imensa, misteriosa ternura em que sempre te trago envolta no coração. Não há nela qualquer luxúria, nem o menor desejo de posse. Sou eu possuído por ela, misteriosamente fiel a esse enlevo, entregue a um movimento da alma que me transporta a contemplar-te,  no íntimo de mim, com infinito carinho. Conta o Génesis que, ao sexto dia, "Deus viu tudo o que tinha feito; e que tudo era muito bom"... Creio que há, no amor humano, uma força criadora: ao contemplar-te como agora, alegro-me como se fosses criatura minha. És um ser de mim, que não posso destruir nem sequer diminuir, mas com quem me enlevo e elevo. É curiosa palavra essa que pronunciamos "ternura". Em latim, talvez devêssemos dizer "pietas" ou "caritas". Não lhe vislumbro melhor tradução. "Pietas" encerra um sentimento de respeito do outro até à compaixão, que não é ter pena, antes é estar e padecer com. "Caritas" é amor e também, porque somos paradoxo, carestia. O amor é caro, não só no sentido da amizade que nos leva a tratar outro por "meu caro", mas porque o que nos é querido, o que benqueremos e a que queremos bem, nos leva a nós também e é difícil: pode custar muito, é caro. A ternura é o amor já manso, ser terno é ser tenro ("tendre" em francês), é aceitar ser comido, como na eucaristia: "eucharistein", em grego, quer dizer "dar graças". É agradecer ao outro esse poder amá-lo. Durante a Ceia, Jesus oferece-se na partilha do pão e do vinho, seu corpo e sangue. Entre os primitivos cristãos, a celebração da eucaristia era uma verdadeira refeição, partilhada e fraterna, em que todos se reconciliavam com todos e com Deus. O Padre de Beaurecueil, frei Sérgio, testemunhou Cristo no Afeganistão, onde durante décadas foi o único padre cristão ali residente. Proveniente do Instituto Dominicano de Estudos Orientais, fluente nas línguas árabe e persa, foi-lhe atribuída a cátedra de História da Mística Muçulmana na Universidade de Kabul. Vivia numa casinha modesta, onde instalara uma capelinha, cujo orago era Santo Abraão, Pai dos Crentes. Um dos livros em que relata a sua experiência em meio muçulmano intitula-se. "Nous avons partagé le pain et le sel"... Na verdade, ganhara o hábito de partilhar todas as semanas, alternadamente em sua casa ou na de outro conviva, uma refeição com muçulmanos. Nessa ocasião cumpriam o costume afegão da partilha do pão e do sal, como compromisso de amizade fraterna. Do pão que lhe cabia, guardava então um pedaço que, ao cair do dia, quando se recolhia na sua capelinha e aí celebrava missa, consagrava. Num texto admirável que dedica ao seu confrade e mestre, padre Chenu, cita um versículo da primeira carta de S. Paulo aos Coríntios: "Porque há um só pão, todos nós juntos formamos um só corpo, pois todos nós temos parte nesse pão único". E, mais adiante escreve: "Na solidão da minha capelinha partilho o pão, como fez Jesus, como fazem os meus irmãos... Reúno, confundo, o seu gesto com o deles. Torno-me num só Corpo com Ele, como me tornei num só Corpo com eles. Em mim se opera o Encontro, jorra a Água viva que os desaltera,escorre o Sangue que os purifica... E este mistério só se realiza porque, antes de subir ao altar, humildemente, com infinito amor e respeito, correspondendo ao seu convite fraterno, com eles partilhei o pão e o sal". E falando do Dia do Juízo, na sequência das palavras de Jesus ("tive fome e destes-me de comer"...), diz: "Não lhes perguntarão se eram budistas, cristãos, muçulmanos, judeus, sikhs ou hindus. Não lhes perguntarão se jejuaram ou se cumpriram fielmente as suas orações. Julgá-los-ão pela partilha do pão e do sal, pela hospitalidade, pelo amor". Soube-me bem voltar à leitura  -  a este convívio interior  -  do nosso frei Sérgio. Sinto-me próximo dele, não porque a ele me possa comparar, mas pelo acolhimento que ele me oferece. Recolhi-me a esta proposta de partilha do pão e do sal, depois de ter assistido, esta tarde, à ópera "Candide" do Leonard Bernstein no New York City Opera, sito também no Lincoln Center, em frente do MET. Gostei da animação da música, do tratamento lúdico que ela dá ao romance que Voltaire criou ... Quiçá para se desembaraçar de exercícios filosóficos que pretendem contestar Deus e explicar o Mal! Ou simplesmente para nos contar uns anos da sua vida! "Candide, ou l´Optimisme", afinal, joga e brinca com o mito dos paraísos perdidos, da ilusão ou efemeridade da sua redescoberta... O filósofo Pangloss, que propõe a ideia ou a ilusão da felicidade alcançável, é morto em Lisboa, significativamente enforcado  -  em vez de queimado  -  pela Inquisição. Numa Lisboa que o terramoto de 1755 não poupou, merecendo aliás de Voltaire o "Poème sur le désastre de Lisbonne" que, até certo ponto tem ressonâncias bíblicas e "pascalianas". Só que Pascal dirige a Deus as interrogações do desamparo humano, e Voltaire, mesmo no jeito gozado do "Candide" não escapa à tentação da revolta. Contudo, ainda acho sublimes estes versos do "Poème: "L´homme, étranger à soi, de l´homme est ignoré. / Que suis-je, où suis-je, où vais-je, et d´où suis-je tiré? / Atomes tourmentés sur cet amas de boue, / Que la mort engloutit et dont le sort se joue... / Au sein de l´infini nous élançons notre être, / Sans pouvoir un moment nous voir et nous connaître." Mas no romance, até Pangloss acaba revivo, para poder contestar a Candide, que lhe pergunta se, mesmo quando enforcado, etc...continuava a pensar que tudo corria pelo melhor no mundo: "Mantenho o meu primeiro sentimento, porque afinal sou filósofo: não me convém desdizer-me, pois Leibniz não pode enganar-se, e a harmonia pré-estabelecida é a coisa mais linda do mundo..." Candide casa-se com Cunégonde e, no sossego produtivo e abastado em que vivem, encerra o romance dizendo: é preciso cultivar o nosso jardim." Enquanto para Voltaire, tudo sendo tragédia ou ilusão, a cura ideal é outra ilusão, para o dominicano Sérgio de Laugier de Beaurecueil, há no coração do mundo uma íntima comunhão com Deus, os outros e tudo... Só entrando nela vencemos o absurdo e a ilusão, e chegamos a esse espaço de luminosa alegria, para exclamar :"Tudo é graça!”. Camilo Maria nem em New York esquecia o "seu" Bernanos.

  


Camilo Martins de Oliveira