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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 
De 31 de março a 6 de abril de 2014

 

Quando se inicia o mês em que celebramos os quarenta anos da revolução democrática de 25 de abril de 1974, há um livro que merece ser relido atentamente, para percebermos como foi possível pensar os acontecimentos de então para além do imediato – trata-se da obra de José Medeiros Ferreira - «Do Código Genético no Estado Democrático» (Contexto, 1981).

 João Abel Manta

 

ESPÍRITO ATENTO E ARGUTO
Começo por citar o que escrevi há dias, quando nos fomos despedir do autor que recordo: «O José Medeiros Ferreira é um dos espíritos mais argutos que conheço. Gosto sempre de o encontrar. O seu fino humor, a ironia servem uma capacidade única para perscrutar a história, compreendendo-a. (…) Por momentos, recordo o dia em que nos conhecemos, na Assembleia Constituinte, quando o jovem deputado, da geração de 62, prolegómeno decisivo da revolução de 74, defendia que houvesse debate político antes da ordem do dia, numa câmara democrática e não meramente técnica. Era a democracia que estava em causa. Nunca a democracia está completa ou perfeita. Não por acaso, compreendeu bem, antes de tantos outros, o papel dos militares na transição do regime». Por outro lado, «“Europa Connosco” (bandeira de Mário Soares) traduz o binómio essencial Europa e Democracia. É o código genético da democracia que importa aperfeiçoar. Com entusiasmo, Medeiros Ferreira, usando palavras certeiras, mas um pensamento solidamente fundamentado, fala da questão democrática, de uma democracia de cidadãos, da dupla legitimidade europeia – entre os Estados-nações e o compromisso dos cidadãos. Como poderá funcionar a Europa sem vontade política, sem defesa supranacional, sem orçamento que se veja e sem parlamento bicamaral? É preciso um Senado com representação igualitária de todos os Estados, e não um Conselho Europeu intergovernamental e fraco. Estivemos ali, horas esquecidas. Lembrámos Garrett e Antero. Fomos até aos bravos do Mindelo. Num ápice, quisemos desfazer ilusões. Talvez a Europa possa ter saída, em havendo nervo e vontade…» (Sol, 21.3.14).

 

UMA TESE INESPERADA E CONTROVERSA
Gostaria de me ater no referido livro à tese para o Congresso da Oposição Democrática, escrita a cerca de um ano de distância de 25 de abril de 1974, elaborada em Genebra «em longos e suaves passeios no tranquilo Jardin des Bastions. A sua redação (diz-nos o autor) foi toda praticamente feita na Biblioteca Pública e Universitária (BPU) no mês de janeiro de 1973. Aí dizia, e com que rodeios, que seriam as Forças Armadas a derrubar a ditadura! Os meus queridos amigos da esquerda, mesmo os mais abertos à História e à inovação, ficaram escandalizados. Segundo alguns deles o exílio estava a separar-me da experiência concreta. Quando cheguei a Portugal eram eles a apoiar as teses vanguardistas do MFA e eu a combatê-las! Pois dissera que as três metas após o derrube da ditadura – democratizar, socializar e desenvolver – só seriam alcançadas através da democracia política…». Este breve testemunho é muito sintomático, quer da dificuldade em romper com a situação existente antes de 74, quer de um contexto internacional heterogéneo e complexo, insuscetível de conter um só caminho ou uma transição razoavelmente linear. As histórias de Portugal e Espanha, no tocante à evolução política na saída dos regimes autoritários, não eram comparáveis. A situação africana, a necessidade de uma solução política para a guerra, as contradições das duas superpotências da altura, as hesitações de Marcello Caetano, a existência no caso português de poderosos fatores externos – tudo isso levou a que a «evolução da continuidade» não tenha funcionado. Por outro lado, a experiência portuguesa de 1974 e de 1975 permitiu configurar, para o caso espanhol, uma solução gradualista e pactuada (protagonizada pelo Rei e por Adolfo Suarez), que doutro modo não teria conduzido aos resultados imediatos alcançados. Samuel Huntington tem, por isso, razão ao colocar a revolução portuguesa como a pioneira na terceira onda das democracias (a primeira corresponde ao liberalismo – 1828 a 1926; a segunda ao pós-guerra – 1943-1962; e a terceira a uma alteração de circunstâncias internacionais que vai de 1974 ao fim da guerra fria). Foi a consideração de elementos novos que levou Medeiros Ferreira, de algum modo contra corrente (e com as cautelas naturais de estar a trilhar um caminho não partilhado), a lançar inesperadamente a hipótese militar. E compreende-se que tenha havido tanta surpresa, já que os paradigmas mais próximos na história política portuguesa eram o sidonismo e a ditadura militar de 1926.


COMO CONTAR COM AS FORÇAS ARMADAS?
«Está (…) paralisado o regime e os interesses que lhe animam a existência perante o problema colonial mas não o pode estar o País (afirmava o texto). Este tem de impor urgentemente uma política de descolonização». E seguiam-se, na reflexão do jovem ativista da crise académica de 1962, então exilado na Suiça, os temas: Descolonizar, Socializar, Desenvolver e Democratizar. No campo da descolonização: Portugal deveria «funcionar em relação aos novos países assim criados como fator de uma soberania destes, sobretudo no período sempre decisivo de acesso à independência». Quanto à socialização: «a fase de desenvolvimento económico, social e político da maior parte dos países europeus também é indicativa das possibilidades materiais e humanas de se construir aqui um socialismo diferente e mais avançado do que aquele praticado noutros espaços». Nota-se a influência do «espírito do tempo», que a evolução da história viria a atenuar, não só no compromisso democrático alcançado, mas também na evolução do pensamento do autor da tese. No tocante ao desenvolvimento, «a independência da Nação e a presença de Portugal no mundo dependerão do fortalecimento do território pátrio com equipamento capaz de o valorizar para além da sua dimensão». Por fim, urgia salvaguardar o pluralismo democrático: «a democratização da sociedade portuguesa não só constitui imperativo político como ainda encontra na necessidade de definir um projeto nacional razão da sua urgência». É no contexto desta análise dinâmica da sociedade, que Medeiros Ferreira afirma: «as Forças Armadas são, hoje por hoje, uma instituição essencialmente nacional. Perscrutando o conjunto dos corpos constituídos da sociedade portuguesa, diremos até que é o Exército a instituição que mais se confunde com a Nação». E mais adiante, vem a precisão da linha preconizada: «o papel das Forças Armadas, sempre decisivo num processo de reestruturação da Nação, encontra condições de desenvolvimento extraordinário no estado atual de representação política das classes trabalhadoras e das forças democráticas em geral». Tratava-se, no fundo, de proceder por parte das forças sociais e políticas a uma reformulação da «doutrina sobre as Forças Armada, não esquecendo que nos tempos que correm a sua existência é garantia da Nação». Lido à distância, este texto revela-se de uma importância significativa, não tanto por ter sido prenunciador do que, de algum modo, veio acontecer, mas sim pela compreensão dos fatores democráticos e da sua evolução. A democracia pressupõe a participação dos cidadãos, a salvaguarda dos direitos fundamentais, a defesa da coesão económica, social e territorial, o primado da lei, a legitimidade do voto, a legitimidade do exercício, a preservação da justiça e do desenvolvimento, o equilíbrio de poderes e das instituições – já que o contrato social depende das pessoas e das comunidades, dos cidadãos e da sociedade organizada (e, em falando de instituições, bem sabemos o que significou em 1958 o abalar da «frente nacional» do Estado Novo, com a candidatura presidencial do General Humberto Delgado e com a rotura do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes). E compreende-se que J. Medeiros Ferreira lembre no cair do pano da apresentação do seu livro: «procurei constantemente intervir no desenvolvimento de dados genéticos do regime democrático que favorecem as condições de crescimento da dignidade humana». Afinal, quarenta anos depois de abril, do que se trata é de considerar que a democracia está sempre por realizar-se e por completar, é algo de atual e perene, que só se afirma pela crítica, pela liberdade e pela cidadania.

 

Guilherme d'Oliveira Martins 

TRANSFIGURANDO-NOS REVIVEMOS…

 

Minha Princesa de mim:

 

O sexteto para cordas Verklärte Nacht (Noite Transfigurada) inspira-se num poema de Richard Dehmel, poeta alemão que Arnold Schoenberg muito admirava. Curiosamente, Dehmel era detestado por Stefan Georg  -   o poeta da letra cantada no quarteto nº 2 do mesmo Schoenberg  de que já te falei  -  não só por divergências estéticas,literárias ou poéticas, mas por lhe ter roubado a namorada, Ida Coblenz, que viria a ser Frau Dehmel... Aliás,essa traição ou decepção feminina atiraria Stefan George, sempre muito influenciado por Nietszche, para um círculo de gente com tendências misóginas e ditatoriais. A última obra de George  -  que também foi um poeta inovador e sofrido  - intitulou-se Das Neue Reich, e foi publicada em 1928... Na Noite Transfigurada, a poesia transpira da música das cordas, não repete as palavras de Dehmel. Mas é tão comovente  - e tão atual  - o movimento das almas que transfiguram e iluminam a noite, que não resisto a traduzir para ti, neste papel de carta onde não posso gravar o som da música, a letra oculta: 

 

      Dois seres humanos vagueiam pelo bosque nu e frio;

      acompanha-os a lua,para ela olham.

      Corre a lua por sobre os carvalhos altos,

      nenhuma nuvem perturba a luz do céu,

      em que se recortam negras copas.

      Uma voz de  mulher se faz ouvir:

     "Trago em mim um filho que não é teu,

      a teu lado pecadora caminho.

      Contra ti cometi uma grave falta.

      Já não esperava felicidade alguma

      e ardia no desejo de um sentido dado à minha vida,

      pelas alegrias e deveres da maternidade;

      por isso ousei e fremente deixei

      que um estrangeiro abraçasse o meu corpo

      e me fizesse prenha.

      Mas eis que agora se desforra a vida,

      agora que te encontrei."

      São titubeantes os seus passos,

      caminha e olha a lua que os acompanha

      e uma luz inunda o seu olhar sombrio.

      Diz-lhe a voz do homem:

      "Não seja a criança que concebes

      fardo que te pese na alma.

      Olha,vê como claramente brilha o universo!

      À nossa volta reina o seu esplendor radioso,

      comigo flutuas sobre o mar frio,

      mas singular calor estremece e passa 

      de ti para mim, de mim para ti.

      Por ele se transfigura a criança estranha,

      para mim e por mim a trarás ao mundo.

      Por ti o esplendor me penetrou

      e de mim mesmo fizeste uma criança."

      Enlaça-lhe as ancas poderosas,

      num beijo se confundem os suspiros...

      Dois seres humanos caminham pela alta,clara noite.

 

Para o compositor do sexteto, este não pretende contar factos, antes quer representar a natureza e exprimir sentimentos humanos. Schoenberg escolheu um poema de Richard Dehmel que lhe parecia traduzir bem uma atmosfera naturalista e erótica, mas finalmente mística, característica da obra aonde o foi buscar: Weib und Welt (Mulher e Mundo), publicada em 1896, três anos antes da composição do sexteto. Veio-me à memória, ao ouvir hoje esta peça do Schoenberg,um quadro de Walter Leistikow, agora no Museu de Berlim, mas que fora rejeitado, em 1898, pela Grosser Berliner Kunstausstellung, levando assim um grupo de artistas berlinenses a fundarem uma Secession. O mesmo já sucedera em Munique, acontecera em Viena. A viragem do sec.XIX para o XX foi um tempo de oscilações e evoluções do pensamento filosófico e político, das éticas e das estéticas, que as artes plásticas, a música e a literatura europeias muito reflectiram. Nessa pintura de que me lembrei, Noite no Schlachtensee, senti a atmosfera da Noite Transfigurada: sobre o lago de Schlachten, a lua cheia inunda de luz o ar e a água, e em redor recorta e transfigura as árvores do bosque. Atrevo-me a sugerir que o quadro, o poema e o sexteto traduzem a inspiração de um naturalismo expressionista. O Japão desse tempo vive a chamada Restauração Meiji. Esta não foi pacífica, deu alguma luta. Mas penso que,mais do que a derrocada final do shogunato Tokugawa  -  que disciplinara e geria um sistema feudal, o tal que a restauração do poder imperial transformou numa nobreza de corte, à qual foram, aliás, atribuídos títulos à europeia  -  se abriu então claramente a porta a um debate sobre valores estruturantes que incluíam, nos planos político, social, económico e familiar, tal como no sentido ético e estético, ideias vindas de fora. Já conversámos sobre isso, e sabemos que, depois do encerramento do Japão ao exterior, em meados do século XVII, por receio do proselitismo cristão  -  sentido como veículo de conquista pela monarquia espanhola  -  e falhadas as tentativas de comércio internacional pela rota de Manila, que substituiria a Nau do Trato de Macau  - apenas uns raros chineses e os holandeses autorizados em Deshima  -  ilhéu artificial na costa de Nagasaki, para onde, antes, tinham sido confinados os portugueses  - foram assegurando as trocas com o exterior. Mas é verdade que, sobretudo a partir de 1720, quando foi abolida a proibição de entrada de livros e obras estrangeiros, desde que não fossem propaganda cristã, a informação científica e artística vinda da Europa foi encontrando eco e seguidores no arquipélago do Sol Nascente. O limitadíssimo estabelecimento holandês de Deshima foi,apesar de tudo, uma porta de entrada,não só para cientistas como von Siebold,mas para produtos que não eram só mercadorias comerciais, mas obras de arte,ciência e técnica europeias. Já nos finais do sec.XVIII, artistas como Shiba Kokan consideravam que a pintura ocidental era superior à chinesa e japonesa, pelo realismo e parecença das suas representações. Recordo, aliás, uma pintura de Shiba Kokan sobre seda, representando tanoeiros: quando a vi, logo me lembrei de um Brueghel... Mais tarde, Maruyama Okyo (1733-95) dará um passo em frente, ao defender que se não se esboçar a coisa real em primeira mão para então a tornar numa pintura nova, aquilo que se fez não merecerá o nome de pintura.O realismo figurativo ocidental é, assim, de certo modo incorporado na tradição mais fantasista da arte sino-nipónica. Por essa simbiose se abrem novos caminhos às artes, cuja execução deixa de obedecer exclusivamente a preceitos de repetição, reprodução ou continuação das obras, estilos e escolas anteriores, para vir a considerar as vias do estranho e do inesperado. Mas, se a influência ocidental se fez sentir nos conceitos estéticos e nas técnicas, também, como o demonstra o grupo Tenshin, surge, na era Meiji, uma fortíssima corrente de evolução da arte japonesa com raízes na sua própria tradição. Assim se alargará na diversidade o riquíssimo panorama das artes japonesas no século XX.  E é certamente por essa digestão nipónica de tudo, que os japoneses continuam sendo, para nós, simultâneamente tão próximos e vagamente estranhos... E por me ter ocorrido esse pensamento, respondo à tua preocupação comigo: estou bem, talvez um pouco melancólico... encosto a cabeça à ternura de ti. Quiçá porque só junto de ti alguma vez busquei conforto: és-me como vocação de harmonia. Posso não me recordar do último momento em que nos cruzámos, mas agora mesmo sinto, na minha, fisicamente, a tua mão, como se as tivéssemos dadas. E serenamente, como um guardador de rebanhos ao cair da noite, me recolho ao mistério do nosso encontro. Faz-me bem.

   

          Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

A LUZ DE DAMASCO E A NOSSA MODERNIDADE



O poeta Rimbaud declarou, em 1872, que era necessário ser absolutamente moderno, tendo decidido abandonar a poesia, não se coibindo de viajar num circo e acabando por arranjar emprego numa feitoria africana. A realidade, passados mais de cem anos, não confirma tais vaticínios e os confrades poetas de Rimbaud, como Herberto Helder, retomam a ideia do sagrado, na procura de uma nova ordem, onde a inquietude sobreleva.
Assiste-se a um implosão de religiosidade que se reflete em diversas formas de arte, como é o caso da arte sacra, nomeadamente a que entronca com a iconografia de Cristo, a qual suscita um interesse cada vez maior, interesse que não é meramente académico, mas também espiritual, bem expresso nas criações de pintores consagrados, como Nolde, Munch, Picasso, Chagal, Bacon e Rouault. Em alguns dos seus melhores quadros , ao invocarem a figura de Cristo, combatem a sociedade opaca, a sociedade despojada de valores em que vivemos.
Entre os quadros de maior esplendor, escolheria “A conversão de São Paulo”, cujo original podemos observar na parede lateral da Capela Cerasi da Igreja Santa Maria del Popolo, em Roma. Esta obra foi encomendada ao pintor, juntamente com a “Cruxificação de S. Pedro” outra realização soberba.
As primeiras versões dos dois quadros foram liminarmente rejeitadas, consideradas profanas, num tempo histórico (1600/1602) dominado pela Contra-Reforma e seu braço secular, a Santa-Inquisição.
A segunda versão e cingimo-nos nesta texto apenas ao quadro “Conversão de S.Paulo”, de Caravaggio, aceite pelas autoridades religiosas com enormes perplexidades, é, quiçá, a pintura mais revolucionária de toda a história da arte sacra.
Diz a propósito Roberto Longhi: “Caravaggio é mestre das trevas, entreabe-as somente o necessário para não minorar o seu pessimismo viril e trágico”. A espantosa combinação do claro com o escuro fornece ao quadro uma luminosidade sublime, sendo evidente que a luz que incide sobre o cavalo e sobre o apóstolo nos transportam para o milagre da conversão. O cavalo está no centro da pintura e o apóstolo está em terra, disposição que escandalizou a hierarquia da época. Um dos prelados da Igreja de Santa Maria terá mesmo questionado o pintor sobre as razões da centralidade do cavalo, ao que o mesmo respondeu com um indiferente: ”porque sim”. Este cavalo é Deus? Insistiu o prelado. Caravaggio respondeu que não, mas acrescentou: está na luz de Deus.
O fogoso romano Saulo, perseguidor dos cristãos encontra na estrada de Damasco a luz que o ofusca e o inspira a dar outro rumo á sua vida, passando a ser um dos apóstolos eminentes da Igreja.
Nas minhas insónias, nos meus intervalos de reflexão e solidão, penso frequentemente na simbologia dessa luz que cega por breves instantes S. Paulo ( Saulo) e o transforma numa das referências maiores de santidade e apostolado da Igreja fundada por São Pedro.
O mundo globalizado em que vivemos, gerador das maiores desigualdades económicas e sociais, ao contrário do raciocínio de Rimbaud, só pode acertar a agulha da modernidade, deixando-se cegar de luz, como S. Paulo. É nessa luz de espiritualidade que a nova sociedade deve afirmar-se, agregando todos os homens que pugnam pela primazia do homem em detrimento dos bezerros de ouro que adornam o neo-liberalismo, doutrina sem retidão e equidade.
Referenciei “A Conversão de São Paulo” obra emblemática do barroco, como um elemento de eterna modernidade, entendendo esta como elemento de reflexão e perseguição de uma nova ordem de valores.
A arte crística suscita, por isso mesmo, pela sua beleza artística e pelo esplendor dos valores que encerra o exercício do debate sobre a modernidade e nunca a oposição a uma ideia de se ser absolutamente moderno.
Não têm fim as criações artísticas da arte crística que nos comovem e resistem a este tempo de frivolidade.
Recordamos, contudo, o quadro de Rembrandt “Os Peregrinos de Emaús”, cujo episódio tem por objeto atestar a ressurreição carnal de Cristo.
Sendo assim, ser absolutamente moderno é necessariamente um impulso imanente que não se compagina com os arautos e artífices da morte da arte, nas quais se destacam a literatura e as artes plásticas.
Sem darmos por isso, a cada passo, a estrada de Damasco nos ofusca. É essa luz que arrasta as sombras das soberbas verdades que nos inquietam mais que as incertezas dos nossos solstícios, pejadas de uma interrogação permanente.
A modernidade não dispensa a luz de Damasco que o génio de Caravaggio corporiza na sua obra mais célebre. Como não dispensa a poesia de Rimbaud e de todos os poetas que carregam no papiro as dúvidas da sua sagração como homens.

JOAQUIM SARMENTO

SERÁ A VELHICE SINAL DOS TEMPOS?

 

Minha Princesa de mim:

 

Levantei-me e recolhi ao meu gabinete, ainda não batiam as 6 no oculto e distante campanário que aqui se houve tão bem. Dizem que as Variações Goldberg foram compostas para sedativo do dedicatário, mas eu gosto de as escutar pela manhã, harmonizando o dia. Hoje, todavia, aliei-me à Segunda (ou Nova) Escola de Viena: Schoenberg, o da Verklärte Nacht, abraça-a toda: a noite iluminada e a Escola de Viena. Nasceu nove anos antes de Webern, onze antes de Alban Berg. Morreu seis anos depois do primeiro, dezasseis do segundo. De 1874 a 1951, atravessou as décadas mais dramáticas, orgulhosas, divertidas, interrogadoras e fúnebres da Europa do nosso tempo. Os quartetos para cordas nº 1 e 2, de 1905 e 1908, já nos dizem muito do drama íntimo das consciências europeias. Escuto, no surpreendente silêncio de mais uma manhã que se anuncia, a voz de Margaret Price, tecendo, com as cordas do quarteto Lasalle, o 3º e 4º andamentos do nº 2, ao puxar o fio de um poema de Stefan George (traduzo): 

 

          É profunda a tristeza que me assombra

          e uma vez mais entro, meu Senhor, em tua casa.

          Longa foi a jornada, fraco o meu corpo,

          vazios os cofres, cheia só a minha mágoa.

          Sedenta, a língua anseia vinho para refresco,

          foi duro o combate, rígido ficou o meu braço.

          Dá descanso aos pés que falham,

          alimenta o faminto, parte com ele o teu pão!

          O pesadelo corta-me o sopro,

          esvazia-me as mãos,enche-me de febre a boca.

          Dá-me a tua frescura, sacia tu as chamas

          esquece a esperança morta, manda-nos a tua luz!

          Abertos ardem incêndios dentro de mim,

          e lá bem no fundo ainda desperta um grito.

          Mata qualquer saudade,sara a ferida do meu peito,

          tira-me amor, mas dá-me a tua paz!

 

   Ontem, antes de me deitar, ouvi a 9ª do Beethoven, com a ode de Schiller à alegria, à amizade, mas nem assim me livrei desse mal-estar que me persegue, física e mentalmente, e me vai tornando alheio... É como se já me despedisse. Se  viver é comunicar, e amar é ser em comunhão, sinto-me a falar cada vez mais com o lado de lá da minha última surpresa. Não é cansaço desta vida... será insatisfação? Ou será estranheza? É certo que convivo mal com uma cultura de robotização dos homens pelos padrões de consumo, pela inexplicação das ideias, estas tornando-se, cada vez mais, meros semáforos indutores de comportamentos económicos e políticos, cujas consequências ninguém consegue projectar. Os media, os meios que deviam ser de comunicação humana e social, são hoje meros transmissores de mensagens cuja origem e cujos propósitos ou objectivos  os seus próprios agentes desconhecem, eles mesmos já presas conformadas pelos seus programas. Os discursos políticos, ou esses fogos fátuos que ingenuamente se apelidam de propostas de governo, não passam de promessas enganosas como qualquer publicidade barata... Mais alarmante ainda é ser razoável pensarmos que aqueles que, com ar convicto e esperançoso, as vão fazendo dia após dia, nem sempre serão aldrabões de feira: alguns, coitados, até acreditarão no que afirmam. Uns, que a crise está debelada; outros, que ela se agravou. Nenhum percebe que a crise não é a que pensam... Falam no ar, fora de contexto. Crise mesmo é a lastimável e generalizada ausência de espírito crítico e de capacidade de imaginação de soluções para problemas que já excedem os enquadramentos mentais de uso corrente. O mundo mudou e vai mudando, e há quem se iluda pensando que tudo se reivindica como se reivindicava ou se resolve como se resolvia, quando qualquer processo de solução se esgota e já não serve.  Qualquer solução antes encontrada necessariamente determinou situações e problemas novos, que nos pedem um esforço de lucidez. É o que menos se vê, infelizmente, na feira das vaidades. Tenho-me consolado a ler os Diálogos políticos entre três bêbedos (Sansuijin keirin mondo), escritos por Nakae Chomin (Tokusuke) (1847-1901) em 1887. Quando, no Japão surto da restauração Meiji, se discutia, viva e politicamente, a assimilação possível e desejável de conceitos e valores, éticos, políticos e sociais, vindos do estrangeiro. A conversa dá-se entre um professor original (auto-caricatura do próprio Nakae Chomin?) e um "Cavalheiro" pacifisto-progressista-internacionalista e democrata e um "Valente Guerreiro" tradicionalo-nacionalista, talvez belicoso... Tudo a partir de Rousseau e Montesquieu... Já te disse que as lumières despertaram, e despertam ainda, muito do discurso intelectual japonês... Mas, por estranho que te possa parecer, a alma japonesa, desconfiada e curiosa, terá sido aquela que, no Extremo-Oriente, melhor entendeu o nosso pensarsentir, ainda que o tenha assimilado à sua maneira... Nem sempre bem, diremos nós, ou melhor ainda... Conto-te depois, Dou-te uma mão que descansou na tua.

   

          Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira 

O Direito e a Poesia (continuação)

 

A peregrinar desde o primeiro momento da história da humanidade, chega-nos o Direito numa tentativa constante de fazer brilhar essências. A peregrinar vem também o Poeta repleto de emoções e contradições buscando pedaços de luz. Enfim, ambos nos vão chegando dentro daquilo que são e na medida dos costumes, dos vícios e das virtudes, perguntando-se um ao outro se viveriam, caso neste mundo não estivessem ambos em concomitante mudança.

Mas mesmo o Poeta pode esquecer-se da vida que o rodeia. Quando existe esse esquecimento, a Poesia não cumpre o seu papel e merece reprovação. E como é pertinente quando quem reprova o Poeta é o Poeta:

 “Ao ver uma rosa branca o poeta disse: Que linda! Cantarei sua beleza como ninguém nunca ainda! E a rosa: - Calhorda que és! Pára de olhar para cima! Mira o que tens a teus pés! E o poeta vê uma criança suja, esquálida, andrajosa comendo um torrão da terra que dera existência à rosa.” (Vinicius de Moraes).

Assim, não se ajoelhe o Direito aos pés da deusa apenas por necessidade de dizer que a viu. A ineficiência jurídica é o despudor face às conexões consequenciais que ligam as liberdades às obrigações. É a força sem alcance, é a privação fundamental do verdadeiro, do bem-estar e do dever, é o não domínio da fantástica utopia das palavras. É o nepotismo do nada.

Só o conhecimento dos rostos e dos dramas humanos que transparecem nesses rostos, pode permitir humanizar a lei, ou seja, fazer com que a lei conheça o olhar amplo do núcleo da Poesia. E o cuidado nas palavras nunca será excesso. Uma palavra a mais e o pano será crestado. Como afirmava Cícero, um adjectivo basta para fazer baixar um voo soberano.

Recordemo-nos de Leónidas de Tarento, poeta zeloso da coroa de cada texto, e que a avaliar pelo que nos chegou e que remonta aos século VI-Va.C, tinha um cuidado no limar da poesia, como se qualquer hífen pudesse não salvaguardar o cerne da realidade, e se assim não fosse, que diria dela o Direito?

E tudo afinal, à distância de séculos e tão aqui. E sempre o tempo dirá tudo à posteridade. E sempre o tempo será um falador mesmo quando nada se pergunta.

Assim nos disse o texto/poema de Eurípides, poeta grego que nasceu no dia da batalha de Salamina (480 a.C.) – o célebre combate entre persas e gregos. E foi Medeia representada pela primeira vez nas Dionísias Urbanas, no ano em que começou a guerra do Peloponeso (sec.V a.C.) e, se deste conflito armado, entre Atenas e Esparta não resultasse o que acompanha o conceito do triunfo em causa justa, não teríamos registado o quanto o Direito evoluiu também e por destruição de mundos. Acrescentamos ainda que se Medeia vingasse como justa, no retirar ao homem a sua descendência, então diríamos, que nenhum recurso do amparo bastaria, para unir uma realidade que deveria ser incidível, nó górdio, distante o suficiente de qualquer espada.

Recorde-se que um aedo é também estranho herói se acredita na superação dos perigos das ignorâncias. Como pode o homem agir? Sem núcleo até o Poeta não é princípio nem valor. O número da Escola Pitagórica deixa de se sustentar.

O mundo abraça-se lá onde tudo é fonte. Pensar é resistir, pensar é devir, pensar é metamorfosear, pensar é o exercer o direito à diferença.

Um poema nunca é terminado, apenas abandonado. A manutenção de uma ordem jurídica encontra a sua pura paz na evolução a que está condenada. Talvez por isso o tempo nunca precisará de ser morto: é ele que mata e renasce em todos os livros das ideias livres.

Com a leitura de Castoriadis compreendemos melhor o quanto estar liberto da tirania de ser o próprio, é admitir a manta de retalhos do individuo de todos os dias. É, igualmente, não compreender o princípio da subsidiariedade como herdeiro legítimo de uma autonomia em maturidade. É não conhecer a razão como mestra.

Cícero no livro De Legibus diz-nos que deverá deduzir-se a explicação da natureza do Direito da própria natureza do homem e não da vontade dos povos ou das autoridades que fazem a lei.

E que dizer da existência da força criativa do Direito e da Poesia?, quando a nau e os dias clamam

Dante! Dante Alighieri: signore, sono felicíssimo di verdevi; però credo che il tempo cambi.

 

De facto, muito do que existe é estorvado por tudo quanto a ausência domina.

Direito e Poesia sabem-no!, em limbos sem nome de onde não há regresso, apenas o andar.

 

M. Teresa Bracinha Vieira

(Fevereiro 2014)

ISABEL RUTH COM O GRUPO FERNANDO PESSOA NO BRASIL

 

Na primeira fila da fotografia do Grupo Fernando Pessoa no Brasil, temos Glória de Matos, João d’Avila e logo a seguir Isabel Ruth, esta recentemente chegada de dois anos de formação na Royal Ballet School onde ingressou muito jovem em 1957, e de um início de carreira como bailarina na Companhia de Ballet da FCG.

A experiencia teatral com o GFP terá sido pois, não propriamente a primeira, pois já antes fizera designadamente, nos anos 70, “O Marinheiro” de Pessoa na Casa da Comédia mas pelo menos a primícia de uma longa carreira teatral. Mas é sobretudo no cinema que Isabel Ruth se notabiliza, no plano interno mas também no plano internacional. E aí, a sua carreira assume um nível excecional entre nós.

Isabel Ruth participou em para cima de 70 filmes. Pela menos sete com Manoel de Oliveira, quatro com Paulo Rocha, mas também com António de Macedo, João Botelho, outros realizadores portugueses …e com Pasolini no Edipo Re e em numerosos filmes de outros realizadores italianos, numa carreira internacional muito pouco comum, para não dizer excecional em artistas portugueses.

Mas vejamos “Os Verdes Anos” (1963). O filme de Paulo Rocha é considerado com justiça um marco artístico e cronológico de uma certa renovação do cinema português, no que na altura se chamavas a “nova vaga”. E isto, pela qualidade estética e técnica da realização em si, pela notável direção e interpretação, mas também pelo temário e pelo conteúdo de análise de uma certa mudança subliminar da sociedade portuguesa e do confronto sociopsicológico com uma Lisboa marcadamente “moderna” para a época.

De tal forma que podemos dizer – o filme de Paulo Rocha é ainda hoje um grande filme pela realização/interpretação, mas é também um grande documento de novas épocas que aí vinham, expressa ou subliminarmente – e desde logo, pela ambientação na cidade moderna e até pela ironia implícita no contrataste com a visão e citação do estuário do Tejo, de onde “partiram as caravelas” ou algo semelhante…

Escreveu Paulo Rocha (in Panorama do Cinema Português – Cinemateca Portuguesa – 1980): “Os Verdes Anos é a história da iniciação de dois jovens provincianos nos problemas da cidade e do amor (que) nasceu da conjugação de um duplo projeto: a fascinação exercida (…) por certas zonas mais modernas da cidade, vivendo paredes-meias com áreas rurais em vias de proletarização – projeto urbanístico, meditação sobre Lisboa nova, portanto – e a necessidade de tratar um assunto muito popular – o crime passional, realidade quotidiana dos jornais e dos boatos” - e assim é, na notável interpretação de Isabel Ruth e de Rui Gomes.

É o «drama da adaptação à cidade» numa «frescura de inspiração e uma verdade de sentimento pouco habitual, entre nós», (Luís de Pina - “A Aventura do Cinema Português” -1977), «história dos amores infelizes da “sopeira” magistralmente interpretada por Isabel Ruth que na obra se afirmava como o primeiro grande nome do cinema novo” (João Bénard da Costa – Histórias do Cinema – 1991).

E Alberto Vaz da Silva: “Muito raras vezes uma obra de arte deixou, entre nós, assim transparecer também além do mais todo o fatalismo, o tempo absorto e o peso surdo, pesado e prolixo que há tanto se enraizaram na nossa terra e a vão definindo no seu e no nosso devir” (in O Tempo e o Modo – Dezembro 1963)    

Essa qualidade/modernidade decorre fundamentalmente da realização, da interpretação e, há que dizê-lo, do belíssimo tema musical de Carlos Paredes sobre belíssimo poema de Pedro Tamen.  

 

DUARTE IVO CRUZ    

LONDON LETTERS


A modern new £1 coin, 2014

Uma nova moeda com a esfinge de HRM The Queen ornamenta a pasta do 2014 Budget Day proposta em Westminster pelo Chanceler of Exchequer. A cunhagem do Royal Mint em 12 faces surpreende na forma não redonda. A diferenciação serve decerto para recordar que toda a moeda tem dois lados e o humor é silente capacidade de ver o terceiro de quem a possui, ou não possui. — Chérie, la parole est d'argent, le silence est d'or! A proposta orçamental de Mr George Osborne MP vem em tom hérculeo, de quem tenta domar um défice de 74,6%, um desemprego de 7,2% e uma galopante dívida nacional que no minuto ascendia a qualquer coisa como £1,265,033,731,176.  —Humm. One coin in the money-box makes always more noise than when it is full! Com os presidentes Barack Obama e Xi Jinping de visita a Brussels, após um nuclear summit sem a presença em décadas da Rússia, ocorre hoje o Clegg vs Farage Europe Debate.


Estímulos à poupança, dieta nos consumos públicos e sound-bytes como “this is a Budget for the makers, the doers, and the savers.” constituem-se como ingredientes básicos no fresco Chanceller statement na House of Commons. Em paralelo a rebelião nas bancadas do Labour Party após a decisão de Mr Ed Miliband apoiar alguns cortes nas linhas antes desenvolvidas pelo ido Blair-Brown Government, os contornos e os efeitos orçamentais são conhecidos. A política económica persiste em azulada aposta na competitividade fiscal e um delgado welfare state, mas tal qual as caraterísticas da nova numerária singularizam Mr Osborne no PR game, também recorte tão augustamente laminado obriga a inútil revisão de tudo quanto é máquina de caça-níqueis. Resta saber, em exercício talvez menos triunfal, se a beleza inegável da modern £1 coin guarnece a ainda não cumprida gladstonian box contendo um "all about building a stronger, more resilient economy." Ou, por menos palavras: se resulta melhor que suave crescimento do GDP para abrir o grey austerity sky.

 

Em interlúdio dos graves dilemas geopolíticos que assombram uma situação internacional dominada pela Crimea crisis, e ditaram a ausência de Mr Vladimir V. Putin no Nuclear summit in The Hague, a atenção de Whitehall centra-se já nas redondezas de Trafalgar Square. Se a globalização se pensa no Foreign Office sob um novo multilateralismo do G7 capaz de afirmar maior coesão ao espaço atlântico, nos estúdios da LBC, live, ocorre a primeira parte do debate entre os líderes dos Liberal Democrats e UKIP. A ementa é soberba: Yes or No to Europe. Á partida, o confronto Nick v Nigel permanece indistinto quanto a gloves or sword, or fire.
Uma coisa extrardinária, mesmo de mistério, ocorre nestas semanas pelos mares da insulíndia. Nas antípodas recria-se uma mega busca, não ao Red October, mas ao missing plane MH-370. Navios de várias bandeiras buscam um boeing do tamanho de uma mansão presumivelmente desaparecido algures sobre o oceano ao voar em oposto sentido da Malaysia para a China. Quando os USA retornam à espionagem digital à moda antiga, não invadindo sem fundamento legal a privacidade dos cidadãos à volta do globo, não deixa de ser lição de humildade a tragédia da aeronave asiática. — When pride comes, then comes disgrace; but wisdom is with the humble.

 

St James, 25th March

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS


De 24 a 30 de Março de 2014


Luísa Braz de Oliveira dirigiu a edição «Lisbonne, Histoire, Promenades, Anthologie et Dictionnaire», na prestigiada coleção «Bouquins (Robert Laffont, 2013). Uma leitura pausada e circunstanciada da obra, nos seus textos testemunhais e literários, permite dizer que se trata de um repositório cuidado, diversificado, representativo e rigoroso – o que não é fácil num trabalho como este, com diversos registos, muitos colaboradores e um conjunto muito vasto de informações para quem esteja deveras interessado em conhecer Lisboa, para além de informações superficiais.



Foto de capa de Henrique Dinis da Gama

 

COMEÇANDO POR CESÁRIO
Quem melhor do que Cesário Verde para nos dar o ambiente de Lisboa? «Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / Despertam-me um desejo absurdo de sofrer / (…) E evoco, então, as crónicas navais: / Mouros baixéis, heróis, tudo ressuscitado! / Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado! / Singram soberbas naus, que não verei jamais!». E com ele, há muitos autores que deram o seu testemunho sobre a cidade luminosa. Na edição dos Bouquins sobre Lisboa há várias leituras da cidade, um retrato cultural e um dicionário que nos permitem dizer que estamos perante uma introdução útil para a compreensão de quem somos. Somos, de facto, muito mais do que a Arcada e S. Bento, e nesta obra é a cultura contemporânea que aparece esboçada nas suas raízes e contornos. Gonçalo M. Tavares assina uma reflexão a partir de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos. Interrogam-se as vibrações, há um chão a falar permanentemente - «é preciso conhecer as canções, as palavras, a pronúncia, os insultos, os modos rudes e delicados da sua língua». Só assim percebemos o que é Lisboa. E a história da cidade é-nos relatada pela pena experimentada dos melhores especialistas e estudiosos de uma realidade plena de mistérios e segredos. José Sarmento de Matos convida-nos à viagem, analisando as raízes e as origens, os mitos e as realidades, a fundação fenícia, a invocação romana, as referências a Ulisses, as presenças goda e moura, a reconquista cristã, as partidas e as chegadas.

PERMANÊNCIAS SIMBÓLICAS
As permanências simbólicas levam-nos a Caius Solinus, para quem a cidade fundada por Ulisses, no seu regresso a Ítaca, «separa do mundo, o céu, as terras e os mares»… Nuno Senos fala-nos da cidade na sua relação com o mar, como capital atlântica (1400-1600), sendo o Paço da Ribeira a referência fundamental. Mas a cidade tornou-se viúva quando a fina-flor da nobreza portuguesa pereceu e ficou sem rei nas areias de Alcácer Quibir. E Ana Maria Binet traz-nos o «espírito messiânico que sopra sobre a Lisboa Barroca» a partir da procura de um «Desejado», lendo as «Trovas» do Bandarra, sob a influência dos cristãos-novos e da «Chave do Profetas» do Padre António Vieira, a pensar no Quinto Império. Bruno Leal analisa a cidade desde os tempos da dominação espanhola até ao período das Luzes (1580-1807), passando pela agitação política dos reinados filipinos, na união pessoal, pela Restauração da independência, pelo resultado do afluxo do ouro do Brasil à corte do rei magnânimo, pelos efeitos inquisitoriais até ao terrível terramoto e ao renascimento da cidade da Boa Razão, graças a Sebastião José. Yves Léonard leva-nos à Lisboa dos séculos XIX e XX, desde o último sonho imperial à ligação à Europa. A cidade parece tardar em pôr-se em movimento, vive dilacerada pelas guerras civis, entre o Antigo Regime e o Liberalismo e entre diversas correntes e famílias liberais. Só a Regeneração (1851) permitiu a pacificação e uma sementeira de libras pelo país. No entanto a crise da dívida pública (como uma maldição) levou à bancarrota, à dependência dos credores externos e a um convénio. Depois, vieram a queda da monarquia, a implantação da República, uma ilusão momentânea, o empobrecimento depois da Grande Guerra, a ditadura militar, o corporativismo de Salazar, a neutralidade colaborante, a ponte para América e a coexistência de espiões de todas as potências. Este foi o pano de fundo para a definição de Antoine de Saint-Exupéry: «quando atravessei Portugal, para ir para os Estados Unidos, Lisboa pareceu-me uma espécie de paraíso claro e triste». E assim, após os solavancos de 1958, a guerra colonial e a transição frustrada, chegámos a «Lisboa – cidade aberta», com a revolução democrática de 25 de Abril de 1974. As revoluções e os pronunciamentos aqui se fizeram e depois foram transmitidos ao país por telégrafo, como se dizia no princípio do século XX.

LISBOA, LUGAR PARA PASSEIOS
Um longo capítulo designado como «Passeios» («Promenades») permite-nos ler as impressões dos viajantes estrangeiros do século XV ao XIX. O lusitanista Claude Maffre apresenta-nos uma longa lista, na qual avultam: Jerónimo Münzer, Duarte de Sande, César de Saussure, Marquês de Bombelles, William Beckford, Heinrich Reichard, Laura Junot, duquesa de Abrantes, Isabella Hurst, Hans Christian Andersen, Comte Durand Beauregard e a Princesa de Rattazi. É um conjunto de testemunhos interessantes, com alguns exemplos menos conhecidos, merecendo especial referência o do Marquês de Bombelles, Marc-Marie (1744-1822), embaixador de Luís XVI em Lisboa de 1786 a 1788, e apenas conhecida do grande público em 1979, onde a crítica severa ao atraso dos hábitos lusitanos culmina numa agradável impressão geral na despedida. Sob a designação de «Escapadelas» («Echapées») Álvaro Siza Vieira, Eduardo Lourenço e José-Augusto França dão-nos ainda o retrato impressivo da Lisboa histórica, sendo complementados por notas sobre a arqueologia olisiponense (de Rodrigo Banha da Silva), sobre os aprazíveis jardins de Lisboa (de Cristina Castel-Branco), sobre um diálogo com Sophia de Mello Breyner (de Joaquim Vital), sobre os pavimentos de Lisboa e outras particularidades (de Jacques Damade), sobre um itinerário inventado (de Manuel Graça Dias) e sobre os caminhos artísticos ditados pelos jacarandás (de António Pinto Ribeiro). Segue-se uma antologia, com uma escolha criteriosa, apresentada por Vasco Graça Moura, Anne Marie Quint e Eduardo Lourenço. Lisboa aparece, no dizer do ensaísta, como «um teatro da nossa pequena mas grande história, ou como cena propícia às aventuras dos maiores que nós, antes que nos apareça uma Babilónia de bazar, destituída do seu esplendor imperial, macaqueando os vícios chiques de Paris e Londres». E quem lemos? Ramalho, Eça, Oliveira Martins, Junqueiro, Cesário, Fialho, Teixeira Gomes, Nobre, Brandão, Pascoais, Cortesão, Aquilino, Pessoa, Almada, Régio, Nemésio, Miguéis, Torga, Jorge de Sena, Sophia, Agustina, Saramago, Eugénio de Andrade, Cesariny, David Mourão-Ferreira, Ruben A., Herberto, Ruy Belo, Fiama, Luísa Neto Jorge, António Lobo Antunes e muitos outros, significativos. Lisboa apela sempre à curiosidade. E quanto a estrangeiros temos desde Thomas Mann a António Tabucchi, passando por Giraudoux, Remarque e Morand. E para quem se perder um conselho: orientar-se pela beleza humana. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins 

COMO ÁRVORES ANDAMOS…

 

          Minha Princesa de mim:

 

Envelheço, já te lo tenho dito. E repito. Quando falo ou escrevo, se por qualquer razão sou interrompido, perderei sempre o fio à meada. Retomá-lo-ei, quiçá, mais adiante, mas não garanto que o fio seja do mesmo novelo... Numa das cartas que te escrevi, talvez a que recebeste antes desta, o telefone tocou quando eu recitava o verbo solor, solaris, solari, solatus sum... Saiu-me solaratus o particípio, tive uma qualquer esquecida conversa, e só agora me relembro do resto: ia dizer que solatus sum (consolei, sou consolador) será, é, necessariamente consolatus sum (estou consolado). Quando passo de mim para o outro, o que dou é já o que me foi dado. Como se, não tendo nada, déssemos o que já recebemos. Eis o que  queria dizer-te, e não soube. Talvez por isso tivesse pensado esta manhã que um velho  é uma árvore enraizada, já não se mexe... Mesmo o seu discursar se perde ao som vário de ventos que já não sabe. Subterrâneas permanecem as raízes que a semente criadora deixou bem fundas, mas contendo-se, quase imóveis, como os ramos que ainda vão estendendo abrigo e sombra. Li hoje, no evangelho segundo S. Marcos, o relato da cura de um cego. Primeiro, Jesus tomou o cego pela mão e levou-o para fora da localidade. Depois deitou-lhe saliva nos olhos, impôs-lhe as mãos e perguntou-lhe; "Vês alguma coisa?" Ele abriu os olhos e disse: "Vejo pessoas, que parecem árvores a andar". Em seguida Jesus impôs-lhe novamente as mãos sobre os olhos e ele começou a ver bem: ficou restabelecido e via tudo claramente. E então Jesus mandou-o para casa e disse-lhe: "Não entres sequer na povoação". Porquê esta interdição? Para que o cego não contasse que, no milagroso decurso da sua cura, reconhecera primeiro as pessoas como árvores que andam, e só depois entendesse claramente que o sentido de tudo nos é dado pelo olhar do homem? Se a semente morta e enterrada renasce e cresce e dá guarida, não poderá a árvore velha mexer-se? Mas para onde irão as árvores que andam? Até onde alcança o meu olhar? Por pensar em árvores, lembro-me de Zaqueu, empoleirado numa para poder ver Jesus que passa. Assim se curará de outra cegueira, ou talvez da mesma, é-me difícil explicar como o nosso olhar se transforma e vê bem, quando claramente percebe que são gente mesmo as árvores que andam. Que as raizes que nos prendem à terra são a nossa comunhão no barro de todos, não nos imobilizam, antes nos fazem sorver o húmus que nos levantará. O ser humano é ser levantado do chão. A imagem de Zaqueu lembra-me frei Maurício Cocagnac, dominicano francês que, acompanhando-se à guitarra, cantava umas cançonetas bíblicas, de sua autoria, aí pelos anos 50/60, quando o padre Duval, este jesuíta, também era trovador de Deus, e eu me deliciava com Georges Brassens... Zachée era uma das canções do padre Cocagnac que, além disso, dirigia a revista Art Sacré, escrevia contos bíblicos para crianças, era também desenhador,quase arquitecto, e amigo de Le Corbusier. Naquele seu cadinho ou almofariz de leituras bíblicas e contemplações de artes humanas, dos sons da vida,do anseio e da esperança  --  frei Maurício tocava,que eu recorde, guitarra e flauta, pelo menos  -  tudo a misturar-se com um alegre sentimento de Deus, e assim nasciam ideias,imagens e melodias... E muitos livros. Um tenho muito comigo: Les Symboles Bibliques. Aí vou respigar uns passos que nos falam de árvores, do poder de fascinação da árvore: A árvore é um sinal da presença da água, logo da vida. A sua sombra é um abrigo. Os seus frutos podem alimentar o homem, mas também podem intoxicá-lo ou levá-lo a pensar que é Deus. Quando é de folha caduca, é um símbolo de morte e de ressurreição. A árvore rebenta, verdeja, estende-se, renasce de um cepo que julgávamos inerte. A árvore sempre verde evoca a eternidade. A semente de uma árvore não tem comum medida com o espaço que ela ocupa no ar e debaixo de terra. A árvore pode ser de essência comum, mas há espécies raras que fornecem madeiras preciosas, capazes de enobrecer a casa do rei e de reflectir a glória do Senhor no seu Templo. A árvore pode ser uma armadilha se a adorarmos, mas os profetas e os sábios conhecem a linguagem da árvore que pode falar de Deus. Lemos no Livro do Génesis que o Senhor Deus fez germinar da terra todas as árvores de aspecto atraente e apetitoso, a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal...  Da árvore de vida, pouco ou nada se tem dito ou representado: uns antigos autores referem que dela se extrairia a ambrósia, iguaria servida aos deuses (igual designação se deu a um doce conventual de ovos cozidos em leite,açúcar e canela...) ou licor de imortalidade; e foi ainda pintada ou desenhada em iluminuras ou tapetes muçulmanos. A Epopeia de Gilgamesh também nos conta que o rei-herói a descobrira, por cumplicidade do Supremo Sábio, o sobrevivente do Dilúvio, por isso nomeado Encontrei a Minha Vida; mas a planta ser-lhe-á roubada por uma serpente... Na narrativa do Génesis, a imortalidade ser-nos-á também retirada por uma serpente  - mas esta estenderá a Eva o fruto do conhecimento interdito, e é pela infracção de um tabú que fomos castigados. E de então por diante muito se tem escrito, desenhado e esculpido sobre o tema do pecado original. Pois ter comido dessa árvore nos condena ao afastamento da outra : O Senhor disse: Eis que o homem se tornou como um de nós pelo conhecimento do que é bom ou mau. Então, que não estenda agora a mão para colher também o fruto da árvore de vida e dele comer para viver para sempre (Genesis, 3,22). Surgirão na Bíblia árvores malditas, sempre ligadas aos temas da infidelidade, do orgulho ambicioso, à ignorância de Deus e da sua palavra (à desobediência). Antes da maldição lançada por Cristo sobre a figueira infrutífera, anatemizadas serão essas árvores verdejantes a que se referem o Deuterónimo e os Livros dos Reis, porque à sua copa se abrigavam cultos e sacrifícios idólatras. Outras, de grande porte, como o carvalho, poderão ser a referência da casa que Deus visita, como a de Abraão, junto aos carvalhos de Mambré: aí saberá Sara que será mãe e Abraão o pai dos povos. (Lembras-te do ícone de Rublev, representando a visão que Abraão e Sara teriam tido dos três anjos que prefiguram a Trindade?). Mas essas mesmas árvores poderão igualmente, como os cedros do Líbano  -  cuja preciosa madeira já Gilgamesh procurara  -  ser material de construção do Templo, e significarem ainda o orgulho dos homens. Como diz Isaías: Sim, será um dia do Senhor Sabaot sobre tudo o que é orgulhoso e altivo, sobre tudo o que se elevou para que seja rebaixado; sobre todos os cedros do Líbano, altivos e altaneiros, sobre todos os carvalhos de Bashan... Como Jesus, nos ensinamentos  sobre a humilhação do orgulho e a exaltação da humildade, ou  na parábola  sobre o grão de mostarda como imagem do reino do céu, o profeta Ezequiel anuncia:  Assim fala o Senhor Deus: "Na copa do grande cedro, no cimo dos seus ramos, colherei um raminho, e eu mesmo o plantarei no topo de uma montanha muito elevada. Plantá-la-ei sobre a alta montanha de Israel. Rebentar-lhe-ão ramos, produzirá fruto e tornar-se-á um magnífico cedro. Todas as aves do céu morarão debaixo dele, todos os que voam descansarão à sombra dos seus ramos. E todas as árvores dos campos saberão que sou EU, o Senhor, que humilha a árvore levantada e levanta a árvore humilhada, que seca a árvore verde e reverdece a árvore seca. EU, o Senhor, digo e faço" (Ezequiel 17, 22-24). Assim encontrei o caminho das árvores que andam. Nesta hora do dia a dia do meu definhar, já não era sem tempo. Tempo para voltar a ser como as criancinhas, a poder crescer  -   olhando para cima sem esquecer o húmus da terra donde vimos e a que, com os outros, pertencemos  -  e sem o orgulho de olhar para baixo com a vaidade ilusória de ter subido mais alto. Assim, como árvores, andaremos. E eu de ramo dado contigo. 

 

       Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

 

"Paul Klee e a ordem intuitiva"

 

‘…havendo o domínio do campo formal, temos a garantia de poder criar coisas tão consistentes que conseguirão chegar a outras dimensões, fora do alcance da esfera de acção do consciente.’, Paul Klee, ‘Sobre os princípios criativos da arte moderna.’, 1924

 

A propósito da exposição ‘Paul Klee: Making Visible’ que esteve patente até ao passado dia 9 de Março, na Tate Modern em Londres, torna-se quase evidente que Paul Klee ao dominar uma certa noção de ordem acreditava no alcance de outras dimensões mais profundas.

A exposição estendia-se por 17 salas, dava a ver cento e vinte oito obras das mais de dez mil que Paul Klee (1879-1940) produziu em toda a sua vida. Iniciava-se em 1912 e coincidia temporalmente com a aproximação do artista ao cubismo, à colaboração no movimento ‘Der Blaue Reiter’, liderado por Kandisky e à tão marcante viagem à Tunísia (1914).

Klee pintava diversos trabalhos em simultâneo (das fotografias no atelier consegue adivinhar-se um ambiente cheio de telas), numa tentativa de assiduamente ir plantado as suas ideias em aguarelas, óleos, desenhos e gravuras. Mostrava uma acentuada necessidade em racionalizar, corrigir e estruturar, numa tentativa de impor um sistema à sua produção – no ‘oeuvre catalogue’ Paul Klee listou exaustivamente, até ao último ano de vida (1940), todos os trabalhos que executou e pode ser entendido como uma tentativa de medir a sua produtividade e gravar a sequência do seu pensamento.

Ora, só a partir de 1914, aos 34 anos Klee afirma ‘A cor e eu são a mesma coisa. Sou pintor.’. Após uma tão importante viagem que fez à Tunísia com Auguste Macke e Louis Moilliet voltou com as suas aguarelas saturadas de cores primárias. O espaço captado naquelas paragens estruturava-se ao de leve através de quadrados de cor e de luz. E esta noção de construção de uma composição no adicionar e subtrair cores, tonalidades, densidades e medidas (da qual a linha faz parte) – evidenciado nas aguarelas da viagem – marcou profundamente os sequentes trabalhos de Klee, influenciando até a sua maneira de leccionar na Bauhaus.

Lê-se no catálogo da exposição ‘I would like to destroy in order to reconstruct.’(Klee (Dessau) em correspondência com Lily Klee (Bern), 14 Setembro 1929). Para Klee se a arte tem de se separar da pura representação tem então de ser afirmada através de uma estrutura. É curioso sublinhar que o saber racional das leis e o seu emprego deliberado nas pinturas era muito importante para Klee – esta sua procura pelas leis que geram a arte pode ser descoberta nos seus diários mais antigos. Durante uma estadia em Itália, por volta de 1900, a impressão da arquitectura clássica ficou-lhe marcada como sendo uma ‘iluminação imediata’ – as construções apresentavam-se, ao seu olhar, como organismos espaciais e como uma grande referência, porque todas as interrelações existentes entre cada elemento desenhado, eram calculáveis. Estrutura para Klee pode ser entendida como uma construção individual que não é apreendida e imediatamente registada (como acontece no impressionismo), mas antes acorre de um processo onde o registo é influenciado pelo tempo, pela razão mas também pela intuição. A natureza é o ponto de partida – Klee deseja tornar visível uma realidade diferente da experienciada quotidianamente, era importante para o artista estar fora das reais circunstâncias da vida. A natureza é transposta para a tela a partir de um processo de destruição/reconstrução (porque, para Klee a natureza em si é também transcendente).

Descobre-se deste modo, em Paul Klee, uma obra que traz em simultâneo a ordem e o acaso.

Ordem pela extrema necessidade em racionalizar todo o acto de pintar (processos, motivações e conteúdos); em escrever acerca do seu ofício; em catalogar exaustivamente todo o trabalho que produzia; e em preparar as lições até ao detalhe (começou a leccionar na Bauhaus por sugestão de Johannes Itten e por convite de Walter Gropius, em 1920 – somente um ano após a escola ter sido fundada, Paul Klee leccionava nos cursos de Pintura Livre e de Tecelagem). A ordem manifesta-se através de elementos/instrumentos como tempo, medida, peso, estrutura, densidade, tonalidade e cor. Talvez as suas composições geométricas e esquemáticas (onde descobrimos setas e gradações de cor) tentem responder a uma certa necessidade de mecanização do acto criativo – onde a ordem prevalece sobre o acaso e onde também encontramos afinidades com o trabalho de László Moholy-Nagy.

Mas o acaso também tem o seu lugar, na obra de Paul Klee – ‘…por experiência própria, depende da disposição momentânea do criador o ele poder determinar quais daqueles diversos elementos devem sair da sua ordem habitual, da sua localização designada, para em conjunto, se elevarem a uma nova ordem.’. Klee descreve uma linha em passeio logo ao abrir o seu ‘Livro dos Esquissos Pedagógicos’. Existe um gosto real pelo jogo dos materiais, das formas, dos contornos, das imagens e que traz espontaneidade, infantilidade e impetuosidade às suas obras. Actualiza-se uma necessidade de experimentação com diferentes abordagens materiais e formais em simultâneo. Cada superfície propõe uma aplicação diversa, uma porosidade ou resistência diferente, uma outra textura e uma velocidade de execução própria. A utilização, nos fundos dos desenhos, da aguarela em spray enfatiza uma necessidade de imprevisibilidade, difusão/concentração. O óleo é espesso mas plano. As pinceladas vêem-se – ora densas, ora transparentes ou opacas.

‘The task of art, then, is to use its own means to juxtapose earthly, visible reality with another, invisible reality and in that way to point to the relativity of the visible, the limitations of the earthly.’, Paul Klee, ‘The Role of the Artist – The Function of Art’, 1918

As obras de Klee afirmam-se através de uma ‘graça infinita’, cuja proveniência não pode ser compreendida, nem mecanizada e geralmente é assumida numa esfera transcendente – esta graça é a medida e a regra para a aplicação das leis que organizam a arte. E por isso para Paul Klee, a arte ao ser engrandecida por uma subjectiva disposição interna, transcende qualquer tipo de ordem. 

 

Ana Ruepp

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