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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Fluxus e a pujança da banalidade.

Em Wiesbaden, na Alemanha, o primeiro de uma série de eventos internacionais organizado por George Maciunas, marca a formação do movimento FLUXUS e a fixação deste nome. Esta palavra está associada à palavra latina fluxus (de fluere - fluir) mas também ao processo médico da catarse bem como à descarga excrementícia e ao processo específico da transformação molecular e da fusão química. Pretende-se a partir deste movimento revelar uma percepção do mundo vista como um fluir contínuo, em vez de ser um somatório de momentos singulares – esta definição atípica pode explicar a surpresa ou a perturbação dos espectadores nestes eventos. O objectivo destes acontecimentos aparece muitas vezes associado ao entretenimento dos espectadores mais do que transmitir uma mensagem filosófica. Fluxus não distingue arte e vida e acredita que a rotina, o banal e as acções do dia-a-dia devem ser consideradas eventos extraordinários.

Em 1965, Maciunas escreveu no ‘Manifesto on Art / Fluxus Art Amusement’, o seguinte:

‘Para conceder estatuto não profissional aos artistas na sociedade, o artista tem de demonstrar que não é necessário e que não é exclusivo, o artista tem de demonstrar auto-suficiência perante o público, o artista tem de demonstrar que qualquer coisa pode ser arte e que qualquer um a pode fazer.’

A arte-entretenimento deve ser simples, não-teatral, divertida, despretensiosa, centrada nas insignificâncias (um jogo ou um trocadilho), requerendo inabilidade ou inúmeros recursos, não tendo utilidade ou valor institucional. O valor da arte-entretenimento deve ser baixo para a produzir ilimitadamente, e poder ser obtida por todos e eventualmente produzida por todos. Multiplicam-se as actividades – concertos, festivais, musicais, performances, publicações, arte postal, qualquer gesto e acções efémeras. Em certa medida aproxima-se da arte conceptual porque insiste na participação do espectador para poder concretizar-se.

O movimento Fluxus tem como referência máxima a figura de Duchamp, tentando fundir o Dadaismo com o Produtivismo. Foram ínumeros os membros do Fluxus, como por exemplo: Nam June Paik, George Maciunas, Ben Vautier, Daniel Spoerri, Robert Filliou, Wolf Vostell e Joseph Beuys.

Os trabalhos de Ben Vautier representam o humor e o espírito paradoxal do Fluxus nos seus manifestos, os quais são habitualmente escritos em telas negras com a sua letra manuscrita específica. Amplia a ideia do Fluxus em seus dois extremos: ‘tudo é arte’ e ‘nada é arte’. Também ’Das Leben ist Kunst; wenn die Kunst überall ist, warum dann Kunst machen’ (A vida é arte. Se a arte está em todo o lado, porquê a arte?) ou ’Wenn alles Kunst ist wie soll man keine Kunst machen’ (se tudo é arte, como podemos não deixar de fazer arte?) – que é a manifestação do princípio do ’tudo ou nada’, embora ponha o ‘nada’ em questão. Também é visão corrente nesta época o criar sempre novas artes/estilos etc. O que o leva a pôr esta questão: ’Se o novo não é mais novo não fazer do novo este novo’.

Wolf Vostell reflectiu o aspecto do movimento Fluxus no projecto ‘Fluxus-Zug’ (Comboio Fluxus), que percorreu várias cidades como espaços expositivos em movimento. Também a performance da viagem da ‘caixa de salada’ (Salatkiste, 1971) reflecte o aspecto da degradação do objecto em 365 dias. Em oposição a este movimento, Vostell colocou um cadillac numa caixa de cimento numa das ruas mais frequentadas da cidade de Colónia e chamou-lhe o ‘tráfego silencioso’ (Ruhender Verkehr).

O entendimento de Robert Filliou da arte também reflecte os aspectos compreendidos neste leque de possibilidades: ‘A arte pode ter três estados: Bem feita, Mal feita e Não feita.’ (Filliou, 1988)

Tendo-se tornado num crítico professor de arte desde 1961, em Düsseldorf, Josef Beuys apesar de ter participado activamente em algumas das acções do movimento, os outros artistas do Fluxus viam nele um autor com um contributo muito específico alemão. A sua ideia principal assenta na ‘Escultura Social’ (‘Soziale Plastik’). Beuys concebe a escultura como sendo uma actividade estética de prática social que se prolonga para além da matéria. A formação da sociedade é para Beuys um aspecto de criação, é como que uma escultura, a partir daqui funda a ideia de que todo Homem é um artista, porque todo o Homem pode formar e mudar a sociedade. Desde o momento que se forma sociedade o Homem faz arte. E Beuys confrontou o sistema com esta nova concepção do artista que é a partir de agora o escultor da sociedade. Um outro aspecto importante, do seu trabalho é o espectáculo, que era diferente das provocações históricas, sociais e políticas das vanguardas do início do século XX. O seu propósito de provocar escândalo e choque, prende-se a uma necessidade de criar um certo protagonismo do artista através do espectáculo – como se o artista fosse um guru. Beuys concebe a performance como um género de ritual sempre de forma cultual ou shamanica – só assim pode ter influência sobre a sociedade e transformá-la. As suas performances podem ter uma motivação política – por exemplo, quando brincou com um discurso de Goebbels durante uma das suas performances, ou quando declarou abertamente que o Muro de Berlim deveria aumentar 5cm para melhorar as proporções arquitecturais, na sua autobiografia, mas também estavam associadas a experiências inconscientes de um passado dramático, a uma memória histórica e a representações grotescas do presente.


Ana Ruepp