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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ÁNGEL CRESPO

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O poeta passeando por Lisboa no fim dos anos oitenta

É possível que os grandes artistas tenham de sofrer até obterem a consagração inevitável da qualidade da sua obra. Trata-se de uma extensa passagem pelo purgatório, de resto ocorre-me desde já um Bach ou um Greco, para expressar melhor o que quero dizer. Em grande parte do tempo da sua vida, estes Mestres da luz, obtêm um silêncio generalizado que só é atribuído aos que realmente são poderosos nos mistérios que ao sol se deitam tocando a terra com seus fabulosos cornos, já que, como dizia Angel os cornos eram seu sorriso, a sua afirmação, seu gesto de ter sido. Estes silêncios são deveras eficazes do ponto de vista das perspectivas dos que, apenas sentindo ao de leve uma profunda diferença de mundo, o enterram fundo, de modo a lhe atribuírem óbito em vida.

E de repente, um dia, os criadores da interpretação do mundo surgem para que se conheçam e bebam outras águas: é o momento em que o ar é dos deuses. Assim foi, é e será.

Fui com o António Alçada Baptista ao encontro de Ángel Crespo no Largo do Camões.

Recordo-me bem que durante o caminho até lá, falámos dos 30 poemas de Angel traduzidos por António Osório, Eugénio de Andrade, José Bento e Mário Cláudio, pela chancela da Gota de Água em 1984. Disse ao António

«Parece que vou conhecer pão. Aquele pão que fumega, moreno. E eu sou abelha dele.»

Teresa, querida Teresa que vais conhecer também um pão cansado, mas que dá flores. Vamos até Sintra. Lá conversaremos melhor os três. Lá a solidão, a vida, o despojamento, a ingratidão e os afectos, casaram na fonte de água fresca onde tanto gostas de parar.

Àngel Crespo, poeta, tradutor e crítico espanhol integrou vários grupos literários, nunca descuidando os estudos de Direito, ainda que mais tarde se afastasse desse caminho e deixasse de advogar. A qualidade do seu trabalho sobre Fernando Pessoa valeu-lhe que o governo português o distinguisse com a Ordem do Infante D. Henrique. Traduz também a Divina Comédia de Dante Alighieri e o Cancioneiro de Francesco Petrarca, e por estas traduções é premiado. A busca do sagrado leva-o a um doutoramento que busca o interior da linguagem e através dela formula filosoficamente as perguntas, aqueles a que só o poeta responde artisticamente para deixar bem clara a universalidade ética da expressão. Explica Angel com extrema lucidez, o quanto o poeta enfrenta as limitações da linguagem ao tentar expressar as realidades intuídas para além dele próprio, para além da circunstância, para além do que transcende a sua dimensão.

E foi este o tema da nossa conversa a três. Foi este o tema principal do meu pensar enquanto tanto me honrava a companhia.

E apesar de tudo o silêncio, disse-nos Ángel, esse poder de cerco, esse que, às vezes, fala e nos premeia com voz de cerco.

No dia seguinte reli e reli o poema que para mim era a principal memória da tarde do dia anterior.

Cuando te quedas solo, eres espejo
de lo que fuiste:
una mañana
contemplada desde el balcón
entornado; unos pasos
armoniosos que no has seguido
para no derramar tu gozo;
unas cuantas palabras
que te cambiaron más que el tiempo;
una mirada que se ahogó
como luz en tus venas;
un viaje que nunca querías
terminar; tu alma ausente
de lo que te esperaba
al quedarte tan solo.

E, se me é permitido citar:

"Esa flor que sospechas que hay en ti,
esa rosa que fue, pasó, nunca hubo rosas..."

"Gabrielle with a Rose"

…………………………

Quadro de Pierre-Auguste Renoir

Teresa Bracinha Vieira
Dezembro 2015