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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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UM ESTRANHO ENIGMA - capítulo V

 

E nisto Jaime nauseado, não era a primeira vez que lhe dava, em situações de pânico, uns ameaços de vómitos que nunca se decidiam, ficavam ali a atormentá-lo, a embrulhar-lhe o estômago, curioso, pensava, ele que dava piruetas, fazia rodopios, saltava à altura de parapeitos sem vertigens, uma vez até de um terceiro andar, caramba, era um skater reputado lá no bairro, o seu próprio corpo devia mostrar alguma consideração por ele mesmo, e esta sensação que não o abandonava, o andar de embarcadiço, o olhar de marinheiro ausente, já afastar-se do Bar do Bill, enjoado com o cheiro a charro, alheado das interpelações pouco lúcidas do Nelson abraçado à morta ou à gémea da morta, ia dar no mesmo, que coisa, ele até tinha um olhar felino, calculava com precisão as distâncias, raramente se estampava e se acontecia, era defeito do material, um deck bambo, o parafuso do truck que se soltava, as rodas já sem aderência, os amortecedores manhosos, que o Rastapoupolos até nem era mau tipo, mas toda a gente sabia que na oficina dele as peças não vinham em primeira mão, e por isso custavam um terço do preço, mais trabalho lhe dava embalá-las no invólucro certificado a dizer «à prova de contrafação» do que faná-las aos betos das avenidas, coitado, não era mau tipo, a intrujice estava-lhe no sangue, ninguém do bairro levaria a mal se ele confessasse que tiveram muitas andanças e outros donos aqueles skates desmontados, grande maluco o Rastapopulos, devia ser o único brother que Jaime conhecia que tentava adaptar a sua imagem à alcunha que um dia um setôr lhe colocou, vinha de uma banda desenhada qualquer, parece, coisas de cotas, mas a malta achou graça, era exótico e ficou assim, e lá teve o bacano de deixar crescer rastas até às omoplatas, apesar de ter cabelo fino, quase louro, e duas entradas que ameaçavam alopécia precoce, diabos, o enjoo não o largava, também dar de caras com uma morta, e ver a sua réplica minutos depois, sabia lá se tinha ou não sinal na coxa, ainda por cima vinham-lhe à cabeça umas tatuagens demasiado familiares, já tinham passado por baixo dos seus olhos, ou dos seus dedos, numa destas noites de nebulosa, um dragão enrolado a soprar labaredas, funesta coincidência, e isso ainda lhe dava mais tonturas, precisava de acalmar, recuperar forças para enfrentar a fúria da mamã Rosa, por causa da maldita chave, e ainda a da bófia, por causa de um crime que não cometeu, pensando bem, antes a bófia do que a mamã Rosa, não lhe daria tréguas, ela bem o avisou que devia usar uma corrente nas presilhas das calças para não perder a chave nos seus saltos mirabolantes, mas onde se viu um skater de corrente, ia ser a chacota do bairro, pensando bem, antes a fúria da Mamã Rosa, no elenco das iras que tentava hierarquizar, do que ser gozado pelos manos, pá, que um homem não é de ferro, até no pé sentia uma dor, era capaz de ser uma dor reflexa e só agora a sentia, o melhor era beber mais um pouco de água e foi ao passar pelo chafariz que deu por ela, a chave, a rebrilhar, entre as golfadas intermitentes, passou os dedos pelas reentrâncias, não havia dúvidas de que era a sua chave, estava safo, da polícia, da Mamã Rosa, da morta e da sua gémea e nisto passa-lhe a náusea tal como chegara, só aquela dor no pé, que ele, de tão feliz, fazia por ignorar, agora, prometia-se, iria portar-se bem, manter-se à sombra durante uns tempos, bastou para o susto, e nem é tarde nem é cedo, rumaria de seguida à oficina do Rastapopoulos que, além de outras coisas, também fazia duplicados de chaves, era muito dotado o rapaz, estranha esta sensação agora de estar a ser observado, bem o sabia, a sua fama no bairro não o deixava passar incógnito, mas geralmente recebia olhares de apreço ou de medo, não este tipo de olhar de soslaio e que ele não sabia descodificar, bem, havia de averiguar mais tarde, tinha de gozar bem a sensação de alívio, respirar fundo, começava a ouvir uns rumores, grupos de pessoas que comentavam o incêndio, que foi logo extinto pelos bombeiros, antes assim, que se não fossem os soldados da paz a arrombarem a porta nunca dariam pela morena, que se safou por pouco da overdose, diz quem viu que até sangrava pelo nariz, enquanto a transportavam na maca, excelente, meu, não havia morte, não havia homicídio, e se não fosse ele a atear o incêndio a tipa não se salvava, top, queria lá saber da gémea, do sinal na coxa, desde os chuis não suspeitassem, tá-se bem, algo lhe dizia que ainda seriam muito felizes os três, quem sabe, Jaime gostava e sonhar e saltar alto, mexericos, sirenes da polícia, só não percebia bem porque o olhavam, na rua, tão insistentemente, daí a nada haveriam de conhecer a fúria de um Jaime irritado, não era bonito de se ver, ai não era, não, e já ia chegando à oficina do Rastas, sempre cheia de clientela, novos rumores, novas conversas, tinham descoberto uns ténis meio derretidos no pátio da morena, número 43, a polícia procurava um skater incendiário e descalço, Jaime conectou os neurónios à dor no pé, era um facto, tinha andado este tempo descalço, toda a gente cochichava à sua passagem, e além disso, sangrava de um dedo mindinho.  


UM ESTRANHO ENIGMA
| Folhetim de Verão CNC 2016

Ilustração © Nuno Saraiva [Direitos reservados] 

 

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