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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Continuando o que, em carta anterior, te vinha narrando:

   Escreve Goldfisher que a necessidade do desdobramento da personalidade do Dr. Saud se faz sentir em 1973, depois dessa encantadora personagem se ter solidarizado, mediante a prestação de ajuda financeira, com vizinhos países árabes que se tinham envolvido numa guerra contra Israel, o Estado judeu que também ele detestava. Só que não contara com o advento do apoio americano ao seu inimigo, a quem os EUA forneceram equipamento militar, de modo a evitar que Israel fosse aniquilado. Despeitado, o Dr. Saud  sonhou então com provocar o desabamento de todo o Ocidente, cortando-lhe o petróleo, numa altura em que se configurava a derrota americana no Vietnam e estalava o Watergate, momento portanto propício a uma humilhação da grande potência. Mas esta não se assustou e mandou uma armada pronta a arrasar a Arábia Saudita, caso o embargo não fosse levantado. Então, o Dr. Saud, não só deu consigo a declarar-se fiel aliado dos americanos, como se lembrou da droga capaz de o fazer desempenhar duas distintas personagens, com duas aparências físicas diferentes. Chamava-se tal droga «petrodollars», e ele possuía-a em grandes quantidades, posto que os governos ocidentais viam nele um amigo. Ao princípio, a poção parecia fazer maravilhas: permitia-lhe parecer cada vez mais ocidental, enquanto prosseguia na sombra os desígnios ignóbeis do Sr. Djihad. Mas a droga teve um efeito secundário imprevisto: quanto mais sucumbia aos encantos do Ocidente, tanto mais o Sr. Djihad ganhava força e  raiva. Numa noite de 1979, durante o sono, o Dr. Saud transformou-se involuntariamente em Sr. Djihad. Sob o nome de Al-Ikhwan («os irmãos»), este conseguiu apoderar-se da sua própria Mesquita Maior, em Meca, e anunciou que tinha expulso o Dr. Saud do reino! Quando o nosso homem, muito abalado, voltou a autocontrolar-se, optou por uma solução temporária: só voltaria a vestir a pele do Sr. Djihad fora do reino. Desta maneira, pensou ele, poderia continuar a encantar o Ocidente, sob a aparência de Dr. Saud, mas semeando o caos por todo o lado, enquanto Sr. Djihad...

   

   Acompanhando a saga, Goldfisher destaca alguns exemplos: o apoio da Arábia Saudita à Djihad afegã, contra os russos soviéticos, com a anuência dos americanos que aí viam apenas o propósito de expulsar os comunistas.

 

   Cita o conselheiro para a segurança dos EUA, Zbigniew Brzezinski: «O que é que contava mais, do ponto de vista da história mundial? Alguns muçulmanos excitados ou a libertação da Europa central e o fim da Guerra fria?». E sublinha como, satisfeitos com a ajuda desses muçulmanos exaltados, nem reparavam nos biliões gastos na construção e funcionamento de escolas e mesquitas, onde se ensinava e pregava o radicalismo islâmico e se incorporavam jovens, se financiavam e armavam guerrilhas, no Afeganistão, no Paquistão e alhures... Nem o 11 de Setembro conseguiu abrir-lhes os olhos para a união pessoal do Dr. Saud e do Sr. Djihad. E vai daí, esquecem-se de investigar os sauditas e vão invadir o vizinho Iraque, onde o Sr. Djihad não podia pôr sequer um pé!

 

   Esta história toda tem zonas sombrias, nem sempre é linear, nem clara. Tal como tem episódios de trapalhada e trafulhice. Mas é evidente que a invasão do Iraque foi um tiro no alvo errado. E parece ainda certo que parte importante do financiamento do terrorismo islâmico internacional provém de petrodólares sauditas, até para que o Dr. Saud possa exportar - e manter afastada do seu reino - uma ameaça. Mas dinheiro saudita, aliás, também apoiou os EUA em várias frentes, designadamente na luta anticomunista, tal como serve para adquirir armamento e financiar a respetiva indústria americana. Ao que consta, quinze dos dezanove reconhecidos terroristas do 11 de Setembro de 2001 eram sauditas, tal como o famigerado Bin Laden, cuja Al-Qaeda, todavia, também teria perpetrado os atentados em Riad, em 2003. Curiosamente, surgiu uma tese saudita, mais ou menos oficial, a culpar Teerão desses atentados. Estranha acusação essa, que aponta para um apoio iraniano e xiita a ações bélicas realizadas por uma organização de sauditas, ainda por cima sunitas bem conhecidos pelo ódio que têm aos seus  irmãos muçulmanos "heréticos"... Mas, afinal, quem foi, quem poderia ter sido?

 

   Parece-me, Princesa, que, além do mais, há muita intriga, conspirações de palácio e rivalidades de famílias e dinastias, lá pelos reinos arábicos do Golfo. São vidas principescas em sobressalto contínuo, nem seitas nem confissões religiosas as sossegam. Pensa, por exemplo, como se desconfiam entre si o reino saudita e o emirato do Qatar, ambos riquíssimos, cheios de petróleo, e ambos sunitas wahabitas... Tal como haverá muitos interesses estrangeiros envolvidos, públicos e privados, políticos e financeiros. O Lawrence da Arábia conhecia desses labirintos. Ele próprio também tinha um psiquismo complexo, que aliás se refletia na sua ação de espião, agitador e criador de circunstâncias e factos políticos e bélicos... Se fosse vivo, muito nos poderia ensinar sobre a atividade encapotada dos agentes das grandes potências, na produção de circunstâncias, factos e pretextos, bem com das eminências pardas que são os grandes interesses por detrás daquela. E até o Hergé situou o seu Tintin em cenários assim induzidos, desde a América latina (L´Oreille Cassée) à China (Le Lotus Bleu), passando pelo Médio Oriente (Au Pays de l´Or Noir). Os desequilíbrios terroristas não são só árabes, nem apenas islâmicos.

 

   Se o objetivo da História é alumiar um pouco o teatro das nossas sombras (Dominique Iogna-Prat, em Ordonner et exclure. Cluny et la société chrétienne face à l´hérésie, au judaïsme et à l´islam (1000-1150), Paris, Flammarion, 2000) recordarmos o longo período da afirmação e clímax do imperialismo europeu na África do Norte e no Médio Oriente (1860-1914-1939) talvez ela nos ajude a entender melhor muito do que hoje acontece. Por hoje, minha Princesa de mim, deixo-te só um trecho de Seven Pillars of Wisdom, do T. E. Lawrence (o da Arábia, o tal que pretendia ter formado uma nova nação, ter restaurado uma influência perdida): We could see a new factor was needed in the East, some power or race which would outweight the Turks in numbers, in output and in mental activity. No encouragement was given us from history to think that these qualities could be supplied ready-made from Europe... Alguns de nós julgaram que havia força suficiente e de sobra nos povos Árabes (a maior componente do velho Império Turco), uma prolífica aglomeração Semita, grande em pensamento religioso, razoavelmente industriosa, mercantil, política, ainda assim mais acomodante do que dominante em carácter...

   O poderio árabe foi o Ocidente que o suscitou.

 

        Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

LONDON LETTERS

 

Victoria (1837-1901), 2016

 

Aleluia é a melodia recorrente que acompanha as imagens, explorando a filigrana das emoções. Vemos a adolescente Drina no Palace of Kensington, ainda às voltas com a Doll 123 e o jogo de influências que marca o início da aprendizagem de reinar. São as vésperas da coroação da segunda geração de princesas

Saxe-Coburg-Saafeld no trono britânico, o qual corrige o uso do alemão na linguagem diária e rejeita a Salic Law que coíbe a linhagem feminina na sucessão da Deutsch Haus Hanover. A 28 June 1838, na Westminster Abbey, é coroada Alexandrina como Her Majesty The Queen Victoria. — Chérie! C'est trop d'un ennemi et pas assez de cent amis! A série da ITV arranca e logo conquista 5,4 milhões de espectadores. Visa a legião de fãs de Dowton Abbey. Projeta a estória filmada da grande rainha imperatriz. — Well! Historical accuracy is considered at every point. A batalha pela alma do Labour Party segue com fervor e… paso doble. Nas primárias da direita ao Élysée, Monsieur Nicolas Sarkozy quer renegociar a fronteira de Calais enquanto a república gere a novela mediterrânica dos burkinis. O Brazil ouve a defesa política da Senhora Dilma Roussef no processo senatorial de impedimento. Já na campanha norteamericana pontua RH Nigel P Farage MEP. O ukipper surge em comício de Mr Donald Trump como “Mr Brexit” e atrai a hostilidade de Mrs Hillary R Clinton a três meses do dia das eleições para o Oval Office. Proxima Centauri b é o novo e potencialmente habitável exoplaneta descoberto nas cercanias do sistema solar.

 

Sunny and warm days at Central London. As ruas em volta estão mais preenchidas que o habitual, com o Notting Hill Carnival a sitiar os residentes com paradas musicais, pina-coladas and that smell of barbecues in the air. Muitos divertem-se, mas outros nem tanto com a big street party numa área já inundada de milhentos turistas ocasionais. Da proximidade vem ainda o mega achamento astral do Professor Guillem Anglada-Escudé, da Queen Mary University, e do seu Pale Red Dot Team. Segundo o grupo da School of Physics and Astronomy, com base nos dados recolhidos no European Southern Observatory entre 2000 e 2014, Proxima b é “an Earth-like planet orbiting a red dwarf star at a range where conditions might be right for water, and maybe, just maybe, life.” A revelação agita a comunidade científica e contém as certezas do corpo celeste ter o tamanho terreal e estar a alcançáveis 4 anos-luz. Desse cruzamento quase mágico do conhecimento, da imaginação e da fé sai também o novo drama televisivo em torno de Victoria, a jovem rainha que se tornará Empress of India e Grandmother of Europe, dominando o prodigioso 19th British Century e legando as linhas políticas da modernidade global de que todos somos tributários. 

 

A série de oito episódios abre em 1837, com veado imperial em twilight e a cavalo de mensageiro, sob o título de a monarchy in crisis. Filha de seu pai e neta de rei, o Prince Edward of Kent and Strathearn e King George III, Alexandrina cedo recusa assumir-se como Elizabeth II e luta contra as sombras de ensaiada regência. Ms Jenna Coleman é uma imperiosa Victoria… in the making, fixa sucessivos enredos. A um tempo circula na vida política, inicialmente marcada pela relação com o Viscount Melbourne. Mr Rufus Sewell é o friendly Whig Prime Minister, apoio seguro e alvo instrumental nas tentativas de enclaustrar a jovem rainha por ambiciosos inside and outside. A outro tempo roda nas intrigas da corte, upstairs and downstairs. Não por acaso avultam ainda hoje os Victorians no imaginário nacional. A unir os planos está a arte de governar que sempre V. avoluma nos 63 anos de reinado. Uma das linhas a fixar é que o cetro pode aconselhar, mesmo encorajar, mas lhe está vedado insistir em políticas públicas. No mais ‒ better the devil you know. A primiére foi este Sunday e a segunda parte passou há pouco nas telas. So, I say no much more. Em breve chegará Mr Tom Hughes como Prince Albert. O script de Mrs Daisy Goodwin baseia-se nos diários reais e serve à mestria da inicial direção por Mr Tom Vaughan, com co-produção executiva da Masterpice e Mammoth Screen. A música Aleluia da coroação seduz na dramaturgia, com piano de Mr Martin Phipps e coral das Mediaeval Beabes. Seguem o elenco e os locais de filmagem de fina gramagem, entre os refeitos Kensington Palace e a então House of Buckingham até ao verídico Harewood Estate em Yorkshire (Eng). À presente vaga novecentista não faltam até os rumores, agora sobre a estreita amizade da protagonista e do Prince Harry of Wales.

 

Se no écran se recriam as lutas políticas entre Whigs e Tories sob o entendimento de laço sagrado entre The Crown and The Parliament, na vida real decorrem dramáticos episódios no regresso às Houses of Parliament. A Brexit está no topo da agenda e os insatisfeitos Remainers reagrupam. Aproveitam a estrutura

 e os apoios do Stronger In em refrescada campanha eurófila, ora sob nova designação. Dizem ao que vêm: "Open Britain will help tackle the many unanswered questions about our future relationship with the EU, whether over funding, trade, immigration, security, the environment or workers’ rights. We will also, we hope, play a part in the now necessary debate about how we make our economy fairer – arguably the most pressing issue after June 23rd.". No segredo dos deuses está o plano negocial do Number 10 para Brussells, mas a Prime Minister RH Theresa May emitiu ordens claras para o conjunto administrativo de Whitehall e sedeia já o quartel general dos Brexitters no… Number 9. Ainda sem rumo está a Her Majesty Most Loyal Opposition, entre comícios a abarrotar no aplauso a RH Jeremy Corbyn e a artilharia mediática no apoio a RH Owen Smith. A semana nada trouxe. O primeiro envolve-se em bizarra polémica com a companhia ferroviária Virgin e o segundo abunda em promessas eleitorais do tipo unicórnio. Não bastara este duo e eis que surge terceiro personagem em campo. Ocupado nas voltas do Strictly Come Dancing, o concurso da BBC 1 dedicado às danças de salão, o ex Shadow Chancellor Mr Ed Balls serializa as memórias no Times e descreve o programa corbynista em letra de jornal como “a leftist utopian fantasy”. Sobre as eleições de 2015, onde perde o lugar de MP por Morley and Outwood para os Tories, é também incisivo: "We [o Labour Party] weren't ready - and didn't deserve - to return to government."

 

O débil estado das oposições é o que é, pois a história esquecida obriga-se a recorrente repetição. O Labourism arrisca não apenas a divisão, como a própria extinção entre as desirmanadas fações. A memória cede, porém, ao bad blood. No século vitoriano também as transformações políticas abrem espaço a novas forças partidárias e apagam de Westminster os liberais Whigs, apesar dos seus veneráveis pergaminhos recuarem à Glorious Revolution de 1688. Das ideias recordo ainda o legado final da “Conscience Whig” para denotar a final marcha abolicionista contra a escravatura, mas hesito a futurizar o legado que restará dos atuais trabalhistas. — Well! Remember the works of Master Will on love and death in Romeo and Juliet: O true apothecary! / Thy drugs are quick. Thus with a kiss I die.

 

 

St James, 29th August 2016
Very sincerely yours,
V.

 

 

A VIDA DOS LIVROS


   De 29 de agosto a 4 de setembro de 2016

 

«Tudo o que Sobe Deve Convergir» de Flannery O’Connor (prefácio e tradução de Clara Pinto Correia – Cavalo de Ferro, 2006) é um conjunto de contos publicados a longo de vários anos, em diversas revistas, tendo sido dados à estampa depois do falecimento da autora. Quando o volume apareceu a crítica foi unânime a considerar a obra como uma das mais importantes não só da grande escritora norte-americana, mas também do seu tempo.

 

 

CAPACIDADE DE SURPREENDER

Flannery O’Connor (1925-1964) é justamente considerada como uma das mais importantes renovadoras do conto norte-americano no século XX. Tobias Wolff afirmou que a escritora era capaz de voltar às mesmas situações sem perder, porém, a sua extraordinária capacidade de surpreender. Há temas recorrentes, mas sempre a autora faz com que pareçam totalmente novos. Estamos perante o que alguns designam como o «renascimento do sul», de que William Faulkner faz parte e onde se incluem, além de Flannery, Tennessee Williams, Robert Penn Warren, além de Eudora Welty, Katherine Anne Porter e Carson Mc Cullers. Este movimento surgiu na década de trinta como reação à ideia de alguns de que seria necessário preservar a identidade dos Estados do Sul, ameaçada pelo industrialismo urbano e pelo fim da tradição rural. Se F. O’Connor tem características bem diferentes de Faulkner na forma de narrar, o certo é que é porventura a autora que, complementarmente àquele, mais fortemente dá um impulso original à literatura do sul – desconstruindo a narrativa tradicional, na denúncia inequívoca de uma visão fechada da realidade social que encontra à sua volta. «Por detrás do jornal, Julian estava a retirar-se para o compartimento interior da sua mente onde passava a maior parte do tempo. Era uma espécie de bolha na qual ele se instalava quando não suportava tomar parte no que se passava à sua volta. A partir daí ele podia observar e julgar, mas, dentro dele, estava a salvo qualquer tipo de penetração do exterior. Era o único sítio onde se sentia livre da idiotice geral dos seus semelhantes. A mão nunca lá tinha entrado – mas, a partir dele, conseguia vê-la com absoluta claridade». Neste breve passo do conto que dá o título a esta reunião de textos, nota-se muito bem o tom geral desta procura de ver a sociedade a partir do avesso.

 

O CULTO DO PARADOXO

Há na romancista um culto permanente do paradoxo, centrado em situações reais, de modo a demonstrar como é possível ver o mundo de modo distorcido e inverosímil. A lógica do fechamento e de um conservadorismo doentio torna-se uma marca que é vista a partir do absurdo – em que a ironia e a comicidade coexistem com a tragédia. Perante a cegueira de quantos se acham um grupo social dominante e privilegiado, há quem pense que a única maneira de agir é pela provocação. Perante a atitude da mãe e de quantos pensam como ela, o filho (fechado no tal compartimento imaginário) começa «a imaginar diversas formas inverosímeis através das quais pudesse dar-lhes uma lição. Poderia tornar-se amigo de um distinto professor universitário ou de um advogado preto e levá-lo para casa para passar o serão. Seria perfeitamente legítimo, mas a tensão arterial dela subiria até aos 300. Não podia pressioná-la de tal forma que ela viesse a ter um ataque e, para além disso, ele nunca tinha conseguido estabelecer amizade com negros». Nestas fantasias, o anti-herói do conto vai sonhando a forma de tentar inverter a lógica absurda que via desenvolver-se à sua volta. E o relato vai-se desenvolvendo, entre a perspetiva onírica de Julian, e a sucessão de aparições de diversos passageiros num autocarro. No início não há negros, mas depois vão aparecendo, até ao momento crucial - «A porta abriu-se com um sibilar de sucção e, saída da escuridão, entrou com um rapazinho uma mulher de cor corpulenta, de aspeto mal-humorado, vestida de forma garrida. A criança, que devia ter uns quatro anos, trazia um fato curto axadrezado e um chapéu tirolês com uma pena azul. Julian desejou que ele se sentasses ao seu lado e que a mulher se comprimisse ao lado da mãe. Não podia imaginar melhor combinação». Quem conhece o método narrativo de Flannery O’Connor percebe que estamos chegados ao «climax». A partir daqui tudo vai poder acontecer, mas não será, em bom rigor, a mulher gigantesca que irá provocar a hecatombe que se anuncia. É a criança, na sua placidez e inocência, que gerará o fecho violento. A mãe de Julian fixa a sua atenção: «Ela manteve os olhos na mulher, e um sorriso divertido espalhou-se-lhe na cara, como se a outra fosse um macaco que lhe tivesse roubado o chapéu. O pretinho olhava para ela com olhos grandes e fascinados». E é a presença da criança que irá gerar sentimentos contraditórios. Se o complexo racial se manifesta perante a senhora recém-chegada, vestida de modo algo semelhantemente ridícula à da mãe intolerante, a verdade é que a criança (não tão adorável como isso…) vai gerar uma inesperada manifestação de suposto afeto. «Não é tão querido?». Os sentimentos vêm à tona – se a mãe enorme é vista com repulsa, o pequeno gera uma estranha simpatia. E, em face da tentativa de Julian evitar o desastre, a mãe não se demove e tem a infeliz ideia de tentar dar à criança uma pequena moeda, de valor diminuto, um cêntimo, a rebrilhar por estar novinho… E a reação não se fez esperar. «A mulher colossal voltou-se e durante um momento ficou ali, com os ombros levantados e a cara congelada de raiva frustrada, olhando para a mãe de Julian. Então, de repente, pareceu explodir como uma máquina que tivesse recebido uma onça de pressão a mais. Julian viu o punho preto afastar-se brandindo a bolsa vermelha. Fechou os olhos e encolheu-se ao ouvir a mulher gritar: “Ele não aceita cêntimos de ninguém!”».

 

UM FIM DRAMÁTICO

O epílogo é tremendo. A mãe de Julian transfigura-se, torna-se outra, dir-se-ia que explode. A irracionalidade manifesta-se plenamente. E Julian vê-se perante o que temia – depois de uma antevisão de um modo de dar uma lição que servisse de emenda para a mãe e para as suas amigas, o que acontece é que um ataque apoplético fá-la soçobrar… Como acontece em vários momentos da sua obra multifacetada, em que a violência aparece como estranha solução, Flannery O’Connor remata a história de um modo dramático… Os diversos contos desta obra inesperada e ao mesmo tempo previsível encerram sempre a ideia de que a razão e a irracionalidade vivem paredes meias. Daí a necessidade de compreender os limites e de saber ponderar os insondáveis caminhos do sobrenatural, sem nos deixarmos aprisionar por eles. É esse estranho equilíbrio que sempre encontramos na fantástica obra de O’Connor. Não há outra que se lhe assemelhe. E é essa originalidade que permite a consideração como um dos nomes maiores da literatura contemporânea. Como disse Gonçalo M. Tavares: «Apesar de ser muito duro e violento, é de uma violência que promove a lucidez»… 

   

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Fouad Ajami

 

   Minha Princesa de mim:

 

   A comissão de inquérito presidida por Sir John Chilcot produziu recentemente um relatório muito crítico sobre a guerra de invasão do Iraque em 2003, documento esse que provocou vários artigos igualmente críticos em jornais britânicos prestigiados, tais como The Independent, The Financial Times, The Guardian ou o New Statesman. Para te dar uma ideia de como vários sectores da opinião britânica que se revêm nestas publicações, continuamente reagem a uma decisão política cujas trágicas consequências hoje ainda sentimos, traduzo alguns textos respigados pelo Courrier International de 13 de Julho passado.

 

   The Independent será o que menos papas tem na língua:

Foi sempre claro que a eliminação de Saddam Hussein traria um vazio político e militar que seria preenchido por terroristas. Com a supressão impiedosa do seu ditador, era inevitável transformar-se o Iraque num atoleiro ingovernável, onde se desencadeariam ódios sectários, enquanto que um país vizinho, possuidor de armas nucleares, o Irão, se apressaria a intervir. E toda uma geração de jovens sem emprego e com formação militar teria de achar outra causa para defender. Assim fizeram, no seio de um movimento que se chama Daech. Eis o que deve pesar na consciência de todos os que apoiaram a guerra. Não apenas a morte de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes - abominável consequência. Não apenas a rápida desintegração de uma sociedade e de um país que já eram vítimas de brutal opressão e que caíram na anarquia. Mas também o brusco e temível aumento de poder desses terroristas que hoje representam a mais grave ameaça à segurança do Ocidente.

 

   Penso, Princesa, que a proximidade temporal da publicação do relatório Chilcot com a vitória do BREXIT no referendo britânico terá inspirado, a outros jornalistas, os artigos donde destaco os trechos seguintes. The Guardian sublinha, em primeira página, uma frase escrita, em 2002, por Blair ao presidente Bush, revelada agora por aquele inquérito: Estarei consigo, aconteça o que acontecer. E comenta que tal declaração - feita sem que para tal houvesse um mandato da ONU e antes de qualquer autorização do parlamento britânico - conduzira ao terrível erro que conhecemos, fazendo ainda com que o comportamento do primeiro ministro tivesse alimentado a desconfiança do público britânico para com o seu governo (...) e que essa desconfiança por sua vez alimentasse o voto pro-Brexit. O New Statesman corrobora tal análise, escrevendo: Inúmeras causas do voto pro-Brexit - o ódio aos homens políticos tradicionais, a desconfiança para com as elites, o desejo de que o Reino Unido se desvincule do mundo - remontam à decisão de invadir o Iraque, há treze anos.

 

   Acontece-nos esquecermos que a intervenção, liderada pelos EUA, no Iraque, em 2003 - pretendendo justificar-se como resposta ao atentado de 11 de Setembro de 2001 - foi sobretudo motivada pela vontade de proteger e poder assegurar o abastecimento de petróleo proveniente daquela zona geográfica, sempre privilegiando, como aliada, a Arábia Saudita, o maior produtor, e inimigo declarado do Irão e do Iraque. Sobre o reino da dinastia Saud, o professor David Goldfisher, da universidade de Denver, publicou, no sítio Opendemocracy.net, em 2 de Março passado, um curioso artigo que, parafraseando o título do célebre romance de Robert Louis Stevenson sobre o Dr. Jekyll e Mr. Hyde (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, em português O Médico e o Monstro) nos fala do Estranho caso do Dr. Saud e Mr. Djihad. Traz-nos algumas interrogações...


   No momento em que os americanos se preparavam para a guerra, em resposta aos atentados de 11 de Setembro, o saudoso analista Fouad Ajami tinha emitido este aviso visionário: «Vamos ver muitos camaleões capazes de se apresentarem como amigos da América, mas do género de não estarem presentes quando forem precisos». Antes de atentar no Estranho caso do Dr. Saud e Mr. Djihad, registo esta previsão do Dr. Ajami, bem recordada por Goldfisher.

 

   Fouad Ajami, que trabalhou com a John Hopkins University e era membro da Hoover Institution, é considerado um dos mais influentes intelectuais árabes da sua geração. Nascido no Líbano, emigrou para os EUA, naturalizou-se americano e, como qualificado investigador da história e da geopolítica do Médio Oriente, foi consultor da Administração Bush, e pensava que o povo iraquiano acolheria a invasão e o derrube de Sadam como uma libertação. No ano da sua morte, aos 68 anos, em 2014, a Hoover Institution Press publicou a sua derradeira obra: The Struggle for Mastery in the Fertile Crescent. Trata aí de um dos seus temas recorrentes, tentando compreender o que se pode passar à volta da Mesopotâmia, ao longo da fronteira do Iraque com três Estados que, naquela zona, ocuparam o vazio de poder deixado pelo Ocidente: a Turquia, o Irão, a Arábia Saudita.

 

   Por hoje, Princesa, ficarei por este último, ou melhor, pelo estranho caso do Dr. Saud e do Dr. Djihad, tal como o narra David Goldfisher... O nosso protagonista, o Dr. Saud, reina sobre um território mais cheio de petróleo do que outro qualquer no mundo. É considerado amigo dos Estados Unidos, os quais esperam, como ele, que a sua imensa riqueza contribua para a paz e prosperidade dos dois povos. O Dr. Saud quer boa vida, e com gosto sucumbe às admiráveis atrações do Ocidente moderno. Também gosta do seu papel de guarda dos Lugares santos do islão. Mas malevolentes vizinhos sempre ameaçaram privá-lo desses prazeres: primeiro, os comunistas soviéticos, depois os aiatolas iranianos e, finalmente, Sadam Hussein.

Felizmente, os poderosos Estados Unidos tinham-se oferecido para montarem a guarda diante do seu reino: quando esses inimigos cobiçavam o petróleo do Dr. Saud, a América enviava a sua armada para o proteger. Algo todavia fazia pairar uma sombra sobre a vida aparentemente invejável do bom doutor: a sua encantadora personalidade dissimulava obsessões sombrias, difíceis de gerir. Estremecia de desgosto, de cada vez que pensava em xiitas, ou em judeus, ou em mulheres que guiam; ou na simples ideia de sociedades livres, pluralistas e tolerantes. Quando lhe vinha tal raiva, alucinações perturbavam os seus pensamentos: e logo se via, dominador, a derramar sangue e a pôr o Ocidente de joelhos.

Uma voz, ora sedutora, ora ameaçadora, sussurrava-lhe que os seus mortíferos instintos eram inspirados por Deus. O Dr. Saud sabia que seria incapaz de resistir totalmente a essa voz imperiosa, mas também tinha consciência de que ceder inteiramente a uma loucura mortífera o levaria à morte. Quando se compenetrou de tal dilema, o nosso homem procurou, e terá encontrado, uma solução maravilhosa: uma droga capaz de o transformar num «Mr. Djihad» bem distinto, graças ao qual se poderia entregar aos seus vícios, sem estragar a reputação e o saber viver que o mundo esperaria do Dr. Saud...

 

   Assim apresentada a metáfora que o mesmo Prof. Goldfisher considera pertinente a uma achega à história geoestratégica de que te falo, vou resumi-la. Segundo  o próprio, claro. E só em próxima carta, que esta já vai longa.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

 

O Convento de Cristo.

 

O Convento de Cristo, implantado numa das colinas sobranceiras à cidade de Tomar é um conjunto monumental que corresponde a seis séculos de construção. Do conjunto fazem parte o Castelo, o Convento e a Mata dos Sete Montes. A sua edificação iniciou-se em 1160 com o Castelo de Tomar e com a construção da Charola, oratório templário.


A construção do Castelo de Tomar fazia parte de uma estratégia militar, da qual a Ordem do Templo se encarregava, que protegia os territórios que iam sendo conquistados aos muçulmanos. O Castelo de Tomar é um dos mais avançados castelos medievais do século XII na Ibéria. À época da sua construção o castelo era um dos maiores redutos defensivos jamais construídos em Portugal. É constituído pela alcáçova, de planta subtriangular, dominada pela torre de menagem. e pela almedina, que acolhe a povoação.

 

A rotunda templária (Charola) do Convento de Cristo, construída entre 1160 e 1250, é uma das obras mais notáveis do românico português. É de planta centrada e a sua configuração original não é perfeitamente conhecida. É de estrutura cilíndrica e a parede exterior apresenta dezasseis panos reforçados por contrafortes. No interior, descreve-se um tambor central que tem planta octogonal. Entre o tambor e a parede exterior, define-se um amplo deambulatório anelar coberto por uma abóbada de canhão suportada por arcos torais de volta perfeita.

 

No século XVI, D. Manuel I, beneficiando das riquezas que os Descobrimentos proporcionaram e, assumindo o governo da Ordem de Cristo, transforma e amplia o Convento com novas construções. Deste modo, em 1510, encomenda a Diogo de Arruda (?-1531) a construção de uma igreja, coro e sacristia a poente da charola. A fisionomia da charola foi, então nesta altura, alterada – dois dos dezasseis panos exteriores foram eliminados e substituídos por um grande arco triunfal. Ao volume inicial foi acrescentado uma nave rectangular alta, alinhada a poente, para servir de coro, sacristia e tribuna. A charola passou assim, a funcionar como capela-mor e a antiga entrada, virada a nascente foi fechada. Por esta altura, o programa iconográfico da charola foi enriquecido com escultura, pintura sobre madeira e sobre couro, pintura mural e estuques. O novo volume da igreja em planta segue a proporção do Templo de Salomão, de dois para um, e apresenta uma carga decorativa dotada de um acentuado simbolismo mitográfico, com destaque para a fachada ocidental. Numa solução inédita, debaixo do pavimento do coro, situa-se a sacristia, hoje Sala do Capítulo. É nesta sala que se encontra a janela que é símbolo importante da arte deste período, que se abre na fachada ocidental e que ocupa uma posição cimeira sobre o Claustro de Santa Bárbara. A janela manuelina foi executada por Diogo de Arruda (1510-13), segundo um programa iconológico definido pelo próprio rei D. Manuel I, que se refere às experiências vividas pelos portugueses nas suas viagens ultramarinas. A janela descreve-se entre cordas, nós, cabos, corais, motivos da flora e da fauna exótica, esferas armilares e a cruz de Cristo. É encimada por um óculo ou rosácea côncava. E ao centro, em baixo encontra-se um homem de chapéu de abas e longa barba que sustenta aos ombros um tronco de carvalho, a Árvore da Vida.

 

A construção do Convento de Cristo é igualmente notável pela arquitectura do Renascimento que inclui. O conjunto renascentista de Tomar constituiu um importante estaleiro de formação de grande impacto futuro. O Convento foi ampliado por D. João III, a partir de 1531, após a reforma da Ordem de Cristo. João de Castilho foi o responsável pela construção deste novo programa para o convento e pela introdução de uma nova linguagem arquitectónica que conjugava a tradição tardo-gótica ‘plateresca’ e o gosto decorativo ‘ao romano’. Por encomenda régia o convento foi assim ampliado e às construções medievais e manuelinas foi acrescentada uma grande estrutura que obedecia a um conceito extremamente racional. Um grande quadrilátero organiza-se em torno de um corredor em cruz. De cada lado do corredor inscrevem-se quatro claustros: o Claustro Principal; o Claustro da Hospedaria; o Claustro dos Corvos; e o Claustro da Micha, a que se acrescentou o Claustro da Necessária. Um ainda quinto claustro preenche o espaço que restava entre o coro manuelino e a nova construção. Trata-se do Claustro de Santa Bárbara (como passou a ser designado desde finais do séc. XVIII). Toda esta nova estrutura foi organizada em andares de forma a aproveitar a diferença de cotas entre os edifícios existentes – a igreja e o coro – e os espaços livres a poente. Toda a heráldica manuelina foi escondida com o intuito de introduzir uma nova linguagem mais funcional, harmónica e racional. As superfícies são agora planas e recortadas com grande clareza volumétrica e os sistemas colunários e os capitéis são de inspiração clássica. Castilho adquire esta mestria linguística autodidacticamente através da leitura do livro de Vitrúvio e no ‘De Architectura’ de Leon Battista Alberti.

 

O Claustro Principal (1533-1545), iniciado por João de Castilho, foi durante a campanha de D. João III parcialmente demolido e substituído pelo actual, da autoria de Diogo de Torralva. A construção de Torralva (1555-1581) inspira-se em motivos do Livro de Serlio e corresponde ao segundo período do Renascimento italiano (o ‘cinquecento’). Torralva substituiu a ossatura exterior do claustro precedente e revela o domínio absoluto da linguagem clássica. Todas as entradas encontram-se decoradas com ornamentos tipicamente renascentistas (arcadas redondas, entablamentos rectos, colunas toscanas, simetria e matemática na organização do espaço). Duas ordens clássicas são adoptadas, segundo a disposição vitruviana: a dórica no piso térreo e a jónica no piso superior. O resultado é um corpo de galerias onde os valores de luz e sombra são acentuados, sobretudo através das escadas de acesso ao terraço, inscritas nos cantos cortados do claustro, dentro de cilindros. Os corrimãos espiralados desvendam-se entre as janelas que iluminam as escadas conferindo uma profundidade espacial a uma estrutura aparentemente funcional.

 

Também a Ermida da Nossa Senhora da Conceição (1551-1570) está situada no planalto ocupado pela cerca do Convento de Cristo e é avistada de vários pontos da cidade. Representa uma das jóias do Renascimento europeu, com uma linguagem madura de carácter internacional inspirando-se em modelos da tratadística italiana. A autoria está atribuída a João de Castilho, mas os acabamentos foram executados por Diogo de Torralva e Filipe Terzi concluiu o edifício no coroamento. A ermida é de planta rectangular e apresenta três naves e um transepto ligeiramente saliente. No exterior, a fachada principal tem um frontão triangular. A porta central é rectangular e encimada por uma pequena arquitrave e é ladeada por duas janelas rectangulares com capialço.

 

Sendo assim, ao longo dos vários períodos de construção o conjunto monumental do Convento de Cristo – castelo, charola, igreja, claustros do convento e ermida – correspondeu sempre a uma arquitectura de referência, símbolo do poder régio e religioso. O reconhecimento pela UNESCO, em 1983, do valor excepcional de todo o conjunto motivou a sua classificação como Património da Humanidade reforçando, a vocação universal deste lugar de excepção.

 

Ana Ruepp

 

 

UM ESTRANHO ENIGMA - capítulo IX

 

 

JAIME, JIM E O GOLPE DO BES

 

I

Jaime nunca gostara de ser interrogado, encostado à parede. Mentir era uma forma de fuga, de meticulosa evasão usando as palavras como mola capaz de o projetar para além da nuvem densa da mais profunda suspeita. Sabiam sempre mais sobre ele do que seria capaz de imaginar. Lima sabia tudo a seu respeito. Ele era uma peça passiva e esquiva do seu jogo, nada mais. Quando lhe disseram que a “Judite” queria falar com ele, Jaime percebeu que o cerco se apertara muito para além do que o silêncio lhe permitia dissimular. À sua maneira era um artista sem palco e sem esperança, um filho do bairro armado em débil disfarce de si mesmo. Em boa verdade já nem sabia como se chorava. Se soubesse, inventava uma trama qualquer e carpiria mágoas por uma perda recente e irreparável. Qualquer uma lhe serviria na perfeição. Mas o choro nunca fora janela entreaberta para um seu voo defensivo.

 

II

Ele era daquele tempo e de muitos outros. Pertencia ao mundo das gémeas e a um outro que era só seu e no qual se guardava, disfarçado, como se ali houvesse um cofre inviolável. Perdia perdão a si mesmo por tudo aquilo que deixara de fazer como se alguém quisesse perder tempo a atribuir-lhe culpas do que quer que fosse.

O que mais desejava era estar longe, longíssimo, sabe-se lá onde, talvez no quarto de hotel onde Jim naquele dia terrível se despedira da música e da vida. Muitas vezes imaginou que ainda o poderiam responsabilizar por aquela morte que lhe tirou anos de vida. Lima, o inspetor ainda poderia insinuar que ele estava escondido num armário e que fora buscar a dose fatal, como se fosse o instrumento de uma ardilosa cabala para eliminar o cantor que tudo abalava, a começar pela enganadora tranquilidade dos resignados.

Ele nunca o dissera, mas sabia que Jim, se tivesse alguma convicção futebolística, só podia ser do Benfica, porque tinha cabeça e porte de águia desafiadora e sempre triunfante. O Benfica dava-lhe alegrias mas fazia-o pensar em tudo o que poderia ter sido se porventura tivesse conseguido escolher outro caminho e desenhar na areia molhada da praia ao amanhecer um outro rumo, um outro destino.

Assim, era um merdas e disso não conseguia livrar-se. Nada sabia sobre a rapariga que o incêndio não quisera poupar. Ela dava-se com gente que ele não conhecia nem se atrevia a tentar conhecer, porque há universos que não se misturam, exatamente como o de Jim com as tribunas de glória de um sistema que odiava e que jurara amachucá-lo até à morte, até ao derradeiro colapso que nenhuma canção, mesmo sofrida e dolorosa conseguiria descrever.

 

III

Estava atento às palavras do polícia e sobretudo aos seus silêncios. Os silêncios eram a oficina onde oleava as perguntas que lhe faziam tremer as pernas e lhe secavam a garganta, fosse qual fosse a cerveja gelada que lhe dessem para beber. E ali não havia cerveja nem água turva pela fadiga noturna dos canos. Ali só havia o seu medo ancestral e uma vontade inadiável de o verem amarrado a um enredo de que não era nem queria ser ator.

Se pudesse, se fosse capaz, deixava-se morrer como Jim e talvez alguém depois alguém lamentasse com arrastada lamúria: “Que pena, até nem era mau rapaz. Deu-lhe para isto como lhe podia ter dado ganhar um balúrdio no totoloto e mudar drasticamente de vida.”

Quanto mais o inspetor o apertava mais ele se lembrava do tempo em que era apanhado a jogar à bola nas traseiras da esquadra e passava, como castigo, duas ou três horas no banco reservado aos proxenetas e aos drogados. Ele não era nada disso mas podia ser muito mais, porque tudo na vida lhe saíra errado e esquinado. Nascera estupidamente sem sorte.

O pai de Jim era um oficial americano importante, um dos mandões, com um filho armado em grande lagarto do deserto a desafiar os deuses da erva e da chuva, o dele um desgraçado que voltara de Angola à espera de uma segunda chance e acabara por morrer vítima de trombose no quarto onde se refugiava a pensar num golpe militar que devolvesse o país ao que fora antes, terra sem alma e sem sonho onde um gajo até era capaz de imaginar que Deus, se existisse, lhe faria o jeito de o colocar no comboio certo para a felicidade.

 

IV

A Jaime, em vez de Vietname, caíra-lhe o bairro em sorte. Ele ali teria de ser tudo, de soldado raso a capitão aventureiro. Com essa patente e esse destino nem a avó de Kalu havia de desencantar meios que lhe permitissem sobreviver. Morria de medo de se sentir sozinho. A solidão era sempre um gume afiado que lhe atravessava a garganta e não o deixava respirar, sobretudo se estava a dormir e se imaginava Jim de corpo inteiro, com pais e mães a insultarem-no e a atingirem-no com a fruta podre do seu desprezo e e enquistado ódio.

Uma vez levaram-no a uma consulta de psiquiatria e ele confessou que, n verdade, era Jim e que nunca fora nem quisera ser outra coisa, para não trair um destino que lhe quisera dar a oportunidade de se imaginar melhor do que era. Tinha medo. Não havia nada que injetasse ou inalasse que lhe desse outro alento e energia. Adormecia Jaime e acordava Jim, com toda a gente em redor carpindo a dor da sua perda.

Houve tempos em que uma das gémeas lhe abrira as portas para entrar numa telenovela.
Foi a uma audição e não devem ter gostado do seu timbre de voz ou do olhar embaciado com que olhava para o mar através de um estúpida janela entreaberta. Mandaram-no voltar na semana seguinte, mas dessa vez queriam que fizesse ajudante de um mafioso que vendia joias, armas e droga pesada. Não fora talhado para papéis assim. Bem lhe dissera a avó de Kalu que todos na vida somos para o que nascemos e não para os papéis secundários que alguém nos dá para nos manter entretidos e sempre prontos para pegar de caras o destino em qualquer Campo Pequeno da puta das nossas vidas.

 

V

Como podia um fracassado candidato a ator-tapa-buracos meter-se na aventura da magoar ou matar alguém só para endireitar o barco escangalhado de uma vida sem rumo? Nem o Arnaldo que fiava minis tinha agora cacau bastante para o ajudar a saltar a vedação alta que o separava da grande planície onde podia correr rumo a lado nenhum, sombra de si mesmo, entontecido pela solidão e pela pegajosa tristeza de uma existência amarrada às cordas.

A mulher muito alta que lhe apareceu na frente, chamada por Lima, tinha o recorte estranho e indefinível de uma personagem de pesadelo, daqueles em que Jim se tornava Jaime e cantava no meio do fumo da casa de banho até lhe minguarem as forças e cair de borco quase com a cabeça enfiada na água tépida.

Jaime pisou sangue mas era o sangue inventado que corre nas bermas dos filmes menores em que a vítima é muito mais quem mata do que quem morre. Tudo até ali lhe correra mal. Até umas parcas massas que conseguiu arrecadar foram para comprar ações do BES que o deixaram ainda mais entalado do que já alguma estivera. Depois vieram ter com ele para ajudar a organizar manifestações em Lisboa e no Porto. E houve até alguém que, agarrando-o com força por um braço, lhe fez esta proposta, mais bizarra que um enredo em que Jim morresse para logo de seguida ressuscitar: “Se te pagarmos bem, podes ir a Cascais, àquela zona das vivendas, para as bandas da Boca do Inferno, e despachas o Salgado, que é amigo de muita gente, até do Presidente da República, mas que não escapa à sede de vingança dos desgraçados desta vida?”

Era só o que lhe faltava, depois de ter sangue debaixo das solas, agora queriam que se tornasse justiceiro, mesmo numa área de investigação que não era da competência do Lima, que nele era capaz de enxergar todas as culpas, incluindo as da passividade mais absoluta e provocadora perante a absoluta adversidade da vida. Deixassem-no em paz, ou apenas Jim mortificado pela sua estrutural incapacidade de ser outra coisa para além do imenso desaire de si próprio.

Estava cansado, com a boca seca, exausto e a mulher alta não lhe saía do campo de visão. Tinha ar, bem vistas as coisas, de gerente de uma velha casa de putas para a zona do Intendente. Agora só lhe faltava que ela viesse fazer-lhe perguntas sobre o que estava a fazer num carro alugado, berrantemente azul, nas imediações da casa de Ricardo Salgado com uma pistola de ar comprimido com uma ridícula mira telescópica. Uma das gémeas foi-lhe levar uma cerveja e perguntou-lhe num sussurro se já conseguira ver o banqueiro barricado atrás de uma tela italiana do século XIX representando Veneza turva e distante num dia de tempestade.

 

VI

O grande sonho de Jaime era encontrar-se com Jim e poder contar-lhe a épica da sua vida medíocre no meio de polícias de série B, de gémeas aberrantemente desiguais e de campanhas para o extermínio de banqueiros desonestos que tão mal haviam feito a um país sem rei nem roque que fizera do martírio da austeridade uma ida a Fátima sem retorno para a tão desejada salvação da alma.

Em nenhuma série daquelas em que embrutecia até de madrugada conseguira Jaime vislumbrar uma história tão ridícula e perversa. Com ele todos eram culpados, muito mais do que suspeitos, muito mais do que personagens caricaturais em busca de uma metafísica salvação. Cena em que ele entrasse e trouxesse consigo o elenco menor de outros malfadados enredos já tinha a sentença lavrada. E depois podia vir o inspetor Lima e a mulher desajeitadamente alta que ele se limitaria apenas, para apaziguamento da sua alma, a confirmar o que todos suspeitavam ser a verdade.

 

VII

O inspetor Lima era um homem da velha guarda, embora fosse matéria sobre a qual não gostasse nada de soltar a língua. Estivera em 1971 no Festival de Vilaer de Mouros e assistira à atuação de Elton John, que conseguira ver dentro de um camarim muito mal-amanhado a beijar o autor das letras das suas canções, um tal Bernie Taupin, que, segundo parece nada tinha a ver com a sua paixão por futebol. Eram outros tempos. Havia a guerra em África e quem por cá e desse mal logo ia bater com os costados em Angola ou em Moçambique. Jaime não conheceu esse tempo e esse país. O pai estava em Angola e nunca acreditou que o desfecho militar o obrigasse a desandar para Lisboa onde nunca estivera antes. A guerra era assunto que não o molestava. Sempre gostara mais dos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial em que o John Wayne dava as ordens certas para “entalar” o Hitler e o empurrar para Berlim, onde acabaria os seus malditos dias.

O Jaime agora tinha, com peso de chumbo, sobre os ombros a suspeita de andar a querer cobrar à força o dinheiro pilhado pelos aldrabões do BES, que ele nunca vira de perto e muito menos ao alcance de uma pequena arma vingativa.

 

VIII

- Jaime, acorda, que hoje é um dia especial. Estou a pensar ficar a viver aqui em Paris. Escrevo umas canções, dou umas entrevistas, publico uns livros e faço tudo voltar à estaca zero. Por isso é importante que venhas comigo àquela audição. O homem gosta de mim e dos “Doors”. Tu bem podes ajudá-lo a tomar a decisão certa. Se eu ficar a ganhar tu também ganhas.

Jim levantou-se com dificuldade da banheira, enxugou-se, acendeu um cigarro, vestiu uns “jeans”, uma velha “T-shirt”, bebeu apressadamente um café e preparou-se para sair do quarto. Jaime quis acompanhá-lo mas as pernas recusaram-se a obedecer-lhe. Sempre sonhara com aquele momento mágico e agora que estava a vivê-lo era a realidade que o bania e o mantinha irremediavelmente distante. O inspetor Lima entrou no quarto, como se sempre ali tivesse estado, ordenou a Jaime que levantasse os braços, disse-lhe que passara a noite a interrogar as gémeas e por fim revelou que o caso que o ligava à antiga Administração do BES já estava sob o seu controle e sem segredos. Tirou um cigarro da cigarreira e disse a Jaime, com a naturalidade de quem entra com altaneira segurança num filme: “Please light my fire”. 

 

 

 

UM ESTRANHO ENIGMA | Folhetim de Verão CNC 2016

Ilustração © Nuno Saraiva [Direitos reservados] 

 

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A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


XII - DA EUROPA IMPERIAL AOS NOVOS IMPÉRIOS LINGUÍSTICOS


Na época dos pioneiros da colonização, em que a língua devia ser a “companheira do império” (Nebrija) e em que nas colónias (periferias), à semelhança das metrópoles europeias, era necessário usar a língua do centro, a atitude dominante das soberanias europeias, até meados do século passado, era a de considerar que “a língua é nossa”, procurando implantá-la, ao mesmo tempo que transportavam com ela, para outros povos, a visão do mundo, dos valores e da vida que estruturalmente lhe eram inerentes. Era a política de assimilação.

 

Paulatinamente foram surgindo novas políticas com agrupamentos de vários países em blocos de poder, passando por diversas formulações até à formação de blocos linguísticos, aglutinados, no essencial, por uma língua aceite como comum. Surgem, neste contexto, organizações como o Instituto da Alta Cultura, o Instituto Camões, o British Council, a Alliance Française, o Instituto Cervantes, o Goeth Institut, o Instituto Confúcio, servindo não apenas para preservação e defesa das línguas a eles afetas, mas também para a sua expansão, invertendo-se a frase de Nebrija, uma vez que a partir daí é a língua que arrasta consigo o império, interpretando este num sentido simbólico.

 

Esta metamorfose deu-se em simultâneo com a ascensão de organizações internacionais e do Direito Internacional Público, superando a ideia tradicional de que os problemas linguísticos eram responsabilidade das academias, de acordo com a regra de que cada Estado soberano transportava esses modelos para os territórios de que era responsável. No que toca ao português, defendeu-se a existência de um organismo onde estejam em pé de igualdade todos os Estados que o adotaram, visando a definição e prossecução de interesses comuns. Veio daí a ideia do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) e da criação de uma organização internacional, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), instituições de debilidade similar, até agora. O que corresponde à transição de “a língua é nossa” para o conceito de que “a língua também é nossa”, de que fala Adriano Moreira, invocando Eduardo Lourenço. Ao arrepio de puristas defensores de sistemas de imobilidade norteados por uma visão patrimonialista da língua, a que se contrapôs uma conceção não patrimonial, consequência da mestiçagem ou crioulização a que as línguas estão sujeitas, convivendo com a corruptela decorrente do seu uso mundial, de tendência crescente à medida que aumenta o seu uso global.

 

No caso português, uma política pluricontinental da língua portuguesa pôs de fora o monocentrismo homogeneizador da norma metropolitana em benefício de um policentrismo da chamada lusofonia ou mundo lusófono, baseado na sua variedade de fatores geográficos, antropológicos, étnicos, culturais, linguísticos, económicos, sociais, onde dada a ausência de proprietários da língua, ninguém é senhorio dela, antes ela dona e senhora de quem a fala. De uma perspetiva lusíada chegou-se a uma perspetiva lusófona, também já insuficiente, a que acresce uma perspetiva lusófila e como língua de exportação. Trata-se de uma visão estratégica para dar maior unidade e visibilidade aos falantes de português, orientando-os para fazer frente à força globalizante de outros blocos geoestratégicos e histórico-linguísticos, como a anglofonia, francofonia, hispanofonia, iberofonia, falando-se recentemente em germanofonia, na sequência da queda do muro de Berlim.

 

Sendo a língua portuguesa um idioma intercontinental, transnacional e global, com centenas de milhões de falantes, na sequência da sua disseminação no decurso de séculos, verifica-se que tendo tido como ponto de partida Portugal, na Europa, está hoje predominantemente implantada fora da Europa, com especial incidência na América do Sul e África. Indicia-se, assim, que a maior consolidação e expansão da presente e futura globalização da língua portuguesa será revitalizada de fora da Europa para outros continentes, nomeadamente via Brasil, “o imenso Portugal”, cantado por Chico Buarque, país de escala continental e potência emergente.

 

Tendo como referência, no mundo ocidental, a liderança atual dos Estados Unidos da América, pode-se concluir que são e serão os descendentes da velha Europa imperial os novos impérios linguísticos do futuro. O que, por analogia, está a suceder com a língua portuguesa, com perspetivas de reforço.

 

 

Joaquim Miguel De Morgado Patrício
22 de Agosto de 2016

 

A sapiência dos sábios da dor

 

 

     Encerrada para o menino da Síria

     Está a possibilidade

     De chorar

     De olhar o sangue e chorar

     De se sentar como pedem os seus cinco anos de ouro

     E aguardar que do céu

     Não lhe atirem bombas

     Mas antes que dele cheguem

     As estrelas mágicas em jeito de brinquedos obra-prima reluzente

     E tanta inocência irremediavelmente ofendida

     Ecoe no mundo

     E desfaça em pó a pedra de plateia dita humana

     Que somos todos nós

     Os que aguardam outro gesto do menino numa nota de breve compaixão

     Pois que o menino não dorme como nós

     Nós, os das guerras sujas que temos nas mãos e no coração

     Como especialistas do horror num requinte apuradíssimo

     Exactamente daquele que leva as crianças a levantarem as mãos de imediato

     Sempre que uma fotografia lhes seja tirada ou não possa ser a câmara uma espingarda

     Um beijo que dói e mata

     E assim se deve fazer: bracinho ao alto como manda a sapiência dos sábios da dor

     Como manda para que os meninos não morram mesmo que morrer possa ser apenas

     Não ter tempo de crescer

     E disto se desconheça o significado

     Não faz mal

     Afinal só eles conhecem a substância da aurora boreal

     E nós o mal

     Em projecto acontecido na diária queima dos livros

     Local-mundo onde sempre se seguiu a queima dos homens

     E se arrancaram as folhas do tratado do amor

     Aquele que dizem não ser politicamente correcto

     E que é no entanto e tão só

     A chave

     Da nossa salvação

 

Teresa Bracinha Vieira

      Agosto 2016

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

   

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Por voluntário lapso, digo, isto é, por propositado apagão, na carta em que te contava o meu encontro com Saint-John Perse, omiti, na tradução do poema Canto da que lá esteve, no verso E eis chegado o tempo dos grandes sismos do Ocidente, quando as igrejas de Lisboa com os pórticos todos a escancararem-se sobre os largos... omiti, precisamente, de Lisboa, sentindo muito o que foi, em 1755, e ficou, permaneceu, na memória e na cultura europeia, o abalo dessa interrogação telúrica, teológica, vital e filosófica do nosso grande terramoto.

 

   O verso que destaco diz-nos: E eis chegado o tempo dos grandes sismos do Ocidente, quando as igrejas de Lisboa, com os pórticos todos a escancararem-se sobre os largos, e todos os retábulos se incendiando em fundo de coral vermelho, queimam os seus círios do Oriente na cara do mundo... Para as Grandes Índias do Oeste partem os homens de aventura. Lembra-nos a atração crescente que o grande continente americano, o que está logo atrás, a norte e a sul, das Índias Ocidentais, vai exercendo sobre o olhar e o espírito europeus, traz-nos os incêndios que devoram a Lisboa que o terramoto não engoliu, como recordação da fé passada, que todavia arde nas igrejas que o desmoronamento escancarou sobre o mundo, em chamas que consomem retábulos antigos (incluindo pinturas de Rubens, Ticiano, Correggio), círios do Oriente acesos na cara do mundo... Cenário grandioso, palco telúrico de história e civilizações. E ocorre-me o Poème sur le Désastre de Lisbonne, de Voltaire (1756): D´autres mains vont bâtir vos palais embrasés, / outros povos nascerão nos vossos muros derrocados; /  o Norte se enriquecerá com as vossas perdas fatais / todos os vossos males são um bem pelas leis gerais...

 

   Pode dizer-se que este poema não é apenas uma lamentação, aliás com entoação quase bíblica… Logo no início, Voltaire começa a cumprir o propósito que anuncia no título e em prosa trata no seu prefácio: Poème sur le Désatre de Lisbonne - ou examen de cet axiome: «Tout est bien». O axioma que ele contesta era geralmente aceite pela filosofia otimista reinante no século XVIII, na sequência das ideias sobre a bondade inata do homem, de Rousseau, e sobretudo de este mundo ser o melhor possível dos mundos, como afirmava Leibniz, posto que, apesar de ter sido criado com males inerentes, Deus nele não podia intervir, porque tal intervenção significaria o reconhecimento de que fora imperfeita a criação divina... o que seria obviamente impossível.

 

   A expressão «Está tudo bem» foi formulada, em 1733, pelo inglês Alexander Pope, no seu Essay on Man: Who finds not Providence all good and wise / alike in what it gives, and what denies?... ...Toda a Natureza é Arte apenas, de ti desconhecida; /  todo o Acaso, Direção que não podes ver; /  toda a Discórdia, Harmonia não entendida; / todo o Mal parcial, Bem universal; e, apesar do Orgulho, da Razão errante, / uma verdade é clara: «WHATEVER IS, IS RIGHT».

 

   Por isso, começa Voltaire assim o seu Poème: Ô malheureux mortels! ô terre déplorable! / Ô de tous les mortels assemblage effroyable! / Eterno sustentar de inútil dor também! / Filósofos que em vão gritais: «Tudo está bem»; / Vinde pois, contemplai ruínas desoladas, / restos, farrapos só, cinzas desventuradas, / os meninos e as mães, os seus corpos em pilhas, / membros ao-deus-dará no mármore em estilhas, / desgraçados cem mil que a terra já devora, / em sangue, a espedaçar-se, e a palpitar embora, / que soterrados são, nenhum socorro atinam / e em horrível tormento os tristes dias finam! / Aos gritos mudos já das vozes expirando,/ à cena de pavor das cinzas fumegando, / direis: «Efeito tal de eternas leis se colha / que de um Deus livre e bom carecem de uma escolha»? [Esta versão portuguesa é de Vasco Graça Moura].

 

   Jean-Jacques Rousseau reagiu ao Poème, escrevendo a Voltaire uma carta em que reafirmava a razão de Leibniz e a sua própria convicção de que a miséria e o mal são frutos de humanas faltas, dizendo ainda  que, no caso do terramoto de Lisboa, a culpa seria atribuível ao abandono da natureza pelos homens que sobrepovoavam a cidade. O filósofo do Contrato Social parecia aqui mais próximo da pregação jesuítica, designadamente do padre Gabriel Malagrida, que falava de castigo de Deus... Quiçá por isso, Voltaire retomará o tema das causas do grande terramoto, no seu Candide, sátira divertida e feroz do otimismo oitocentista, e fará de Pangloss - caricatura de filósofo rousseauniano - uma vítima da Santa Inquisição, que o condena por defender que a queda do homem era parte necessária do melhor possível dos mundos...

 

   Como sabes, Princesa de mim, Leonard Bernstein fez de Candide uma ópera muito engraçada, a que assisti num teatro fronteiro ao Metropolitan: o New York City Opera, nos anos oitenta. A descrição do terramoto de Lisboa, baseada em relatos presenciais coevos, é realista, e até corrige, para trinta mil, o exagero na contagem de cem mil mortos, de que falava em carta de 24 de Novembro de 1755, e que traduzia sobretudo a profunda comoção de Voltaire: Mal tinham posto os pés na cidade, quando sentem a terra tremer debaixo dos seus passos; o mar levanta-se a ferver no porto, e quebra os navios ali ancorados. Turbilhões de chamas e de cinzas cobrem as ruas e as praças públicas; as casas desmoronam-se, os tetos são abatidos sobre as fundações e as fundações dispersam-se. Trinta mil habitantes, de todas as idades e sexo, são esmagados sob as ruínas. E é perante esta cena que a personagem de Pangloss afirmará, para consolar os chorosos: «Tudo isto é o que há de melhor. Porque, se há um vulcão em Lisboa, é porque não podia estar alhures. Pois é impossível que as coisas não estejam onde estão. Porque está tudo bem». Um homenzinho negro, familiar da Inquisição, que estava ao lado dele, tomou educadamente a palavra e disse: «Parece que o senhor não acredita no pecado original; porque se tudo está pelo melhor, não há queda nem castigo». Já Candide ia pensando com os seus botões: «Se é este o melhor dos mundos, como será o resto?». Assim se - e nos - diverte Voltaire.

 

   Finalmente, Princesa, pensossinto que a visão (pantelúrica? panteísta?) de Saint-John Perse não se enquadra nestas achegas. Ela tem apenas a grandeza silenciosa e exaltante de uma infinita tragédia. 

 

   Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

LONDON LETTERS

  

 

An Olympic example in Nationhood, 2016

 

What a party! Absolutamente sensacional! An remarkable achievement, exclama Her Majesty The Queen. “An inspiration for all of us, young and old,” anota o Prince William of Cambridge. “The people of the United Kingdom have been filled with pride as we’ve watched our Olympians take victory in so many sports with

 power, grace and control,” remata a Prime Minister Theresa May. — Chérie! Les Britanniques font droit! A Little Britain finaliza os Rio 2016 Olympics Games em segundo lugar, à frente de China, Russia e Germany. É um feito. Em 1617, na Declaration concerning lawfull Sports, já o King James VI of Scotland & I of England exorta “our good people” a exercitar os corpos em “honest mirth or recreation”. — Woaw! Congrats to all. Extraordinary athletes and, lovely individuals. Os Dukes of Cambridge preparam uma visita de estado ao Canada. Os líderes de Berlin, Paris e Rome reúnem num arcaico navio de guerra ao largo de Naples para debater a Post-Brexit European Union. Monsieur Nicolas Sarkozy anuncia nova candidatura ao Élysée Palace. Moscow falha o apelo judicial contra a exclusão por batota dos Paralympics Games. Nos US, RH George Osborne lança um circuito de after dinner speeches a austero preço de £50k por noite.

 

Wonderful atmosphere at London. Os sorrisos em volta dizem tudo: um valoroso exemplo de patriotismo vem dalém Atlantic Ocean. Também as 67 medalhas (27 golds, 27 silver & 17 bronze) brilham no corpo dos atletas às primeiras olimpíadas na South America. O casal ciclista Jason Kenny e Laura Trott trazem 10 áureas no dote; Mo Farah ganha o que há para ganhar; mesmo as lágrimas prateadas de Joe Joyce com o sorry to the country revelam a paixão, foco e determinação dos Brits em triunfar no Brazil. O cenário abençoado do rainy Rio doa os best UK Olympics em mais de um século. Os heróis são jovens com histórias de dedicação que devem à tradição desportiva do reino, desde o Scot Andy Murray à English Kate Richardson-Walsh, dos irmãos Johnny e Alastair Brownlee à avô de Adam Peaty no Tweetdom conhecida como a OlympicNan. Inspiram. Se a expressão fair play é um código de conduta para as várias esferas de vida, o Team GB honra nos Games o modelo da sportsmanship com raízes na medieval forma para significar o que é belo, agradável, puro ou imaculado.


A seleção do talento tem também digressões. A frescura, a positividade e a inspiração que pautam o Team GB têm exemplo nos antípodas. O Labour Party avança no processo eleitoral da liderança, esta semana enviando os votos postais para os 650,000 membros oficialmente inscritos no sufrágio. A desgastante campanha Corbyn-or-Smith continua até September. Um aparece triunfante e outro nem por isso, com a maioria alheada da big mess. As sondagens dão Comrade Jez como imbatível, mas os aferidores não vêm apresentando precisão. Os últimos episódios são para o desolador: Caso maior: RH Jeremy Corbyn concede que não respeitará o dever de solidariedade na NATO e RH Owen Smith quer sentar o Isis à mesa da diplomacia! Something out of the world, portanto, “n” ao quadrado e do tipo flower power. Longe vão os tempos em que Red Corbyn admitia o recurso às armas, quer na justificação do IRA, quer para implantar o socialismo nas ilhas!!! Caso menor: Como não bastassem as incursões em tribunal relativamente a quem vota e é elegível, agora é a ala feminina do partido a esgrimir com legal action face à misoginia que escolta o mal amado chefe. Já Jezza promete quebrar o "magical circle of Westminster.". Será a oposição obra do oculto!?Os campeões retornam a grata Land of opportunity em jet VictoRious, com as cores da Union Jack e… a golden nose. Antes de parada nacional em Manchester, decretada pelo No. 10, a receção aos heroes of the stadium em Heathrow é viva, jubilante e tipicamente British: famílias, fãs, flores, bandeiras e improvisados editais de Welcome Home Team ou #GreatToBeBack. Durante o voo, happy and glorious, cantam o national anthem “God save The Queen.” É o abrir de muitas celebrações pelos condados e da road to Tokyo. Como em 1617 declara o King James, "and as for our good people's lawful recreation, our pleasure likewise is, that after the end of divine service our good people be not disturbed, letted or discouraged from any lawful recreation, such as dancing, either men or women; archery for men, leaping, vaulting, or any other such harmless recreation, nor from having of May-games, Whitsun-ales, and Morris-dances; and the setting up of May-poles and other sports therewith used." Tal é o clássico credo real que ecoa no moderno Rio d’ouro, under the statue of Christ the Redeemer, quando os participantes competem com equal chance.

 

A fechar fantástica semana em ilha no teto do mundo, ainda uma nota de especial parabenização. Sir Nils Olav III é promovido a brigadeiro da Norwegian Royal Guard pelo King Harald V, honra merecida e aqui aplaudida pela evidente virtude. A cerimónia de condecoração do ilustre residente do Edinburgh Zoo decorre com honras marciais durante o anual Tatto nas Higlands. O lorde mostra-se à altura dos pares. Sir Nils recebeu a knighthood em 2008 e era até agora Colonel in Chief do regimento norueguês. Após receber a novel insígnia na asa, eis que, in all their finery, o famoso pinguim passa formal, atenta e impecável inspeção aos militares em parada. — Well! As Master Will puts the fairness standard within the judgement of Miranda in The Tempest: Yes, for a score of kingdoms you should wrangle, / And I would call it, fair play.

 


St James, 23th August 2016
Very sincerely yours,
V.

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