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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

A ausência de sentido

 

Afirma-se que o surgimento da palavra pós-verdade foi "alimentada pela ascensão das redes sociais como fonte de informação e a crescente desconfiança face aos factos apresentados pelo poder estabelecido". Os editores dos dicionários explicam mesmo que o prefixo “pós” não é utilizado exclusivamente para que se infira um acontecimento posterior, mas também para salientar a irrelevância de um conceito. Post-truth foi, como se sabe, um termo escolhido como palavra em 2016 e acolhido pelos dicionários de Oxford num contexto de certas realidades politicas como o BREXIT ou a eleição de Trump.

 

Por mim gostaria de o abordar como uma ausência de sentido premeditada ou como uma impureza macabra dos ventos do mundo.

 

Sempre me atemorizou que as redes da ilegalidade se misturassem com as da legalidade numa tal amalgama que a confusão saísse sempre vencedora nata de um qualquer juízo expresso numa pseudo claridade. Curiosamente, um diagnóstico falho na reflexão, e, se não detetado, é boa fonte para medrar uma mentira assente numa ausência de sentido, tão elaborada quanto conseguida, para que se prove o oposto de uma realidade. A aparente legitimidade da verdade impura e absurda, quantas vezes, ganha “sentido” face à credibilidade de quem utiliza essa informação deformada, passando-a, e sabendo que quem a recebe, a ela adere sem a questionar. Eis uma parte do êxito.

 

Num destes dias, li um conto de um escritor conhecido, que adormecera por sete dias seguidos à sombra do próprio livro que lia. Que ausência de sentido! Que absurdo mesmo! Contudo, a explicação surgiu mais adiante e mais explicita: e acrescentou o escritor no conto

«Não pudera eu saber quantos dias foram, nem imaginar qual a dimensão que deveria ter o livro para se prestar a regalar-me a sombra de que necessitava. Ainda assim, o livro diga-se, embotava o pensamento, era um conto mole, aquele que lia, e que me fez ensonar como nos tempos em que adormecer com um livro mau, era sinal de inteligência tal, que, sete dias a não o ler significava claridade na decisão de o repudiar.»

 

Assim fazia sentido o que se passara. Podemos finalmente escolher os impactos do que se escuta ou lê e comparar com a realidade que nos oferecem e sua interpretação do acontecer. Ora todo este manejar da ausência de sentido é aceite pelo fascínio do poder ser, um poder ser premeditado, impureza macabra dos ventos do mundo, tal como já expressei, mas tempos vitoriosos ao terrorismo da vida que também assume funções pela palavra dita, escrita, comentada, transmitida, vilipendiada, sem poder cara-a-cara afirmar o quanto é preciso fazer um longuíssimo percurso a partir de baixo e não queimar etapas para que se não queimem as gerações inteiras.

 

Estaremos já no depois da pós-verdade? Na permissão do antes da ausência de sentido? Em rigor, presenciamos a morte sem nos anularmos nem nos tornarmos filósofos. Preferimos ignorar que com uma morte se perde um universo inteiro, afim do nosso, e esse facto quanto muito nos intriga. Escravos do tempo presente: somos. Expostos à violência de todas as partes: estamos.

 

Avalia-nos um médico para que se decida o que fazer e nunca ouvi falar de um remédio que evitasse o desconjuntamento do horizonte, e o que se desenha não é o fim da guerra.

 

Teresa Bracinha Vieira

JOSÉ LUIS ARANGUREN

El terror engendra terror, presto siempre a convertirse en contraterrorista terror: inacabable dialéctica de la violencia.

 

Aqui nestas páginas já várias vezes mencionei o enormíssimo orgulho em ter sido discípula de Aranguren. Tive o privilégio de escolher a obra deste grande Tratadista aquando de um grupo de conferências nas quais pude trabalhar algumas ideias deste Mestre inigualável.

 

Falar de Aranguren é referir um dos filósofos e ensaístas espanhóis mais importantes do séc. XX. Professor de ética na Universidade Complutense de Madrid, descobrimos com ele um olhar único sobre a importância dos intelectuais nas atuais sociedades mecânicas e consequentemente, desumanizadas e sem qualquer esforço de solidário humanismo. As suas reflexões éticas, políticas e religiosas constituem uma água para a fonte de todas as nossas manhãs. Tal qual para mim o Professor Doutor José Luís Aranguren.

 

Revisitei este domingo um dos meus apontamentos das suas aulas:

A chamada experiência da vida pretende ser sempre um saber, mas um saber que tem em conta o significado e o sentido da vida, ou seja da moral na sua mais ampla aceção. Um saber que deve estar necessariamente ligado à prudência e à sabedoria e que parece afastar-se da ciência e da técnica. Mas, estes últimos são definidores de uma época como a que vivemos, orientada para uma racionalização progressiva e em último limite, clarificadoras e organizadoras dos comportamentos e das ralações sociais.

 

Depois da leitura destas anotações, relicto que a palavra prudência de há muito a esta parte que surge equivoca, como se não tivesse em conta a pretensão sugestiva da sabedoria, como se surgisse em contraste com a vontade pragmática do mundo científico dos dias de hoje. Ora, julgamos que ela pertence a um estado de cultura que sabe questionar o quanto o saber cientifico e técnico, pode não ser o bastante para a ordenação da vida em geral. Em nossa opinião esta palavra “prudência” é uma palavra a ser conquistada pelo conceito filosófico, tal a responsabilidade da sua transmissão a fim de que saibamos ao que nos devemos ater e que defina uma função clara na vida do homem. Nomeadamente uma função que ajude a esclarecer a razão da violência gratuita que se vive.

 

Procurarei continuar este tema no trabalho Crónica Da Cultura. Contudo, aqui e de novo, o alerta à mente brilhante de Aranguren e a necessidade de não descuidar a leitura dos seus livros.

 

Teresa Bracinha Vieira

OS 150 ANOS DO TRINDADE (II) – A COMPANHIA PORTUGUESA DE ÓPERA

 

Ópera Serrana, de Alfredo Keil no teatro da Trind
    Ópera Serrana de Alfredo Keil, no Teatro da Trindade

 


Merece o maior destaque esta evocação da Companhia Portuguesa de Ópera - CPO, que marcou, entre 1966 e 1975, o meio musical-cultural português, na perspetiva aglutinadora da música e do teatro, essência da criação e realização operística – mas que, em Portugal, constituída como exceção nas temporadas aliás de grande qualidade do Teatro Nacional de  São Carlos – qualidade, sim, mas temporadas quase exclusivamente constituídas por produções basicamente italianas e/ou alemãs: o que não questiona a qualidade em si mesma  (bastaria recordar, entre inúmeros espetáculos, ter lá assistido à “Traviata” cantada por Maria Callas, nada menos!) mas que não correspondia em rigor à função cultural abrangente de um teatro do Estado. E note-se que frequento a ópera do São Carlos desde 1947. 

 

Nesse aspeto, a CPO, instalada no Trindade e dirigida por José Serra Formigal, constituiu um importante fator de divulgação do espetáculo de ópera, mas sobretudo da profissionalização dos cantores portugueses, e também, de reforço da própria expressão musical e teatral. De tal forma que se justifica esta evocação, tantos anos decorridos, na medida em que a CPO conferiu ao Trindade uma função singular. E isto, não esquecendo a própria qualidade, tradição e modernidade do Teatro em si nas sucessivas grande companhias e iniciativas que marcaram a sua atividade ao longo de 150 anos. 

 

Ou, tal como escreveu Tomaz Ribas, “os principais e salutares objetivos (da CPO) eram, por um lado, criar condições de estabilidade profissional e artística aos cantores portugueses e formar novos cantores, novos artistas do bel canto e, por outro lado, proporcionar ao grande público e à classe média espetáculos de ópera e opereta a preços módicos, populares”. O que se conseguiu. (cfr. Tomaz Ribas “O Teatro da Trindade – 125 Anos de Vida” ed. Lello e Irmão 1993).

 

Agora, passaram mais 25 anos!      

  

Ora bem: um aspeto relevante da CPO foi a produção de óperas portuguesa, sabendo-se que, historicamente não são muitas… Em qualquer caso, de acordo com o levantamento exaustivo de Nuno Domingos, entre óperas e operetas, o Trindade programou e executou, no período referido, ao todo para cima de 60 títulos, em sucessivas produções e encenações. E seis eram de autores portugueses: “A Serrana” de Alfredo Keil, logo como segundo espetáculo da temporada inaugural (1963), “A Vingança da Cigana” de António Leal Moreira, “A Condessa Caprichosa” de Marcos Portugal, “Inês Pereira” de Rui Coelho, “Variedades de Proteu” de António Teixeira, “Rosas de Todo o Ano” de Rui Coelho. (cfr. Nuno Domingos «A Opera do Trindade» - ed. Lua de Papel 2007). 

 

E no repertório operístico internacional destacaram-se, segundo a mesma fonte, produções de ópera de Rossini, Puccini, Schubert, Verdi, Mascagni, Donizetti, Leoncavallo, Gounod, Massenet, Belini, Wolf-Ferrari, Mozart, Menotti, Casavola, Bizet, Gluck, Giordano, delibes, Franz Léhar, Massenet, Hindemith. 

 

O repertório operístico conciliava assim os grandes títulos com revelações, clássicas ou modernas, para um público não especializado mas cada vez mais empenhado na participação dos espetáculos: e importa também lembrar que a produção de cada uma das óperas não se limitava, como há décadas sucedia no São Carlos, a dois espetáculos (6ª feira à noite, domingo à tarde) por cada produção.   

 

E mais: a CPO era formada principalmente por cantores portugueses, dos quais citamos, com injustiça para os não citados, nomes como Maria Teresa de Almeida, Maria Cristina Castro, Hugo Casais, Guilherme Kjolner, Ana Lagoa, Armando Guerreiro, Álvaro Malta, Zuleika Saque, Carlos Jorge, e tantos mais… 

 

E tudo isto em sucessivas encenações de nomes notáveis da cena portuguesa, como Álvaro Benamor, Tomaz Alcaide, Artur Ramos, Couto Viana, ou o grande cantor italiano Gino Becki… E maestros também notáveis, como Silva Pereira, Ruy Coelho, Manuel Ivo Cruz, Joly Braga Santos, Filipe de Sousa…   

     

Havemos de evocar ainda, no Teatro da Trindade, dois grandes momentos seletivos: o Teatro Nacional Popular - TNT, dirigido por Francisco Ribeiro (Ribeirinho), e a Companhia Nacional de Teatro, de António Manuel Couto Viana. Ambas marcaram por um repertório avançado para a época. Recordo em particular o que foi a estreia de “À espera do Godot” de Samuel Beckett, numa época e num enquadramento que não se mostraria especialmente adequado a estas expressões dramatúrgicas!   

 

DUARTE IVO CRUZ

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