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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Simone Weil e a beleza do mundo.

 

‘A beleza é a única finalidade neste mundo.’, Simone Weil

 

Em ‘A Espera de Deus’, Simone Weil (1909-1943) escreve que uma coisa bela não contém qualquer fim, não contém qualquer bem. É somente ela mesma na sua totalidade, tal como nos surge. Uma coisa bela oferece-nos a sua própria existência – possuímo-la e contudo desejamos ainda, não sabemos o quê. Para Weil, gostaríamos, no fundo, de ter o que se encontra por detrás da beleza (mas ela é somente superfície). Talvez, na verdade, gostaríamos de nos alimentar dela, de modo a incorporá-la em nós, na totalidade.

 

Ao não ter qualquer fim, a beleza constitui a única finalidade neste mundo. A beleza não é um meio para outra coisa. Está presente em todas as buscas humanas – todas as coisas que tomamos como fins são na realidade meios e a beleza confere-lhes um brilho que as reveste de finalidade (de outro modo, não poderia existir desejo nem consequente energia na busca). 

 

Para Weil, a pobreza possui o privilégio de nos aproximar mais do amor à ordem e à beleza do mundo, como complemento do amor ao próximo. Renunciar à nossa situação imaginária de centro do mundo, é acordar para o real, para o eterno, ver a verdadeira luz, escutar o verdadeiro silêncio. Só então se opera uma transformação na própria raiz da sensibilidade, na maneira imediata de receber as impressões sensíveis e as impressões psicológicas.

 

Weil diz ainda que o homem ao esvaziar-se da sua falsa divindade, ao negar-se a si mesmo, consente caridade para com o próximo, consente um amor total à ordem do mundo.

 

A arte é, para Simone Weil, uma tentativa de reproduzir, através de uma quantidade finita de matéria modelada pelo homem, uma imagem da beleza infinita de todo o universo. Essa porção de matéria deve revelar toda a realidade que nos cerca. As obras de arte devem assim ser aberturas diretas, reflexos justos e puros sobre a beleza do mundo. Para Weil, Deus inspira toda a obra, por mais profano que seja o assunto. A obra de arte reconstrói a ordem do mundo como uma imagem, a partir de dados limitados, inventariáveis e rigorosamente definidos. A contemplação dessa imagem da ordem do mundo constitui um certo contacto com a beleza do mundo. 

 

‘O artista, o sábio, o pensador, o contemplativo devem, para admirar realmente o universo, perfurar essa película de irrealidade que o oculta, e que cria para quase todos os homens, em quase todos os momentos das suas vidas, um sonho ou um cenário de teatro.’, S. Weil

 

Weil revela que as realizações puras e autênticas da arte revestem-se da verdadeira poesia da vida humana, sendo reflexo da luz celeste: ‘A conveniência das coisas, dos seres, dos acontecimentos consiste apenas nisto, que eles existem e que não devemos desejar que não existam ou que tivessem sido outros. Nós somos constituídos de forma tal que este amor é realmente possível; e é esta possibilidade que tem por nome beleza do mundo.’

 

A ausência de finalidade, a ausência de intenção, e a ausência de pensamentos que alterem a verdade tal como ela é – essa sim é, para Simone Weil, a essência da beleza do mundo.

 

Ana Ruepp

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

 

RETRATOS PREMONITÓRIOS

 

1. Regressado da Arrábida (ando agora muito cronológico), o meu primeiro ato "oficial" foi receber Hanna Schygulla, a atriz de Fassbinder, convidada pelo Festival Temps d'Image para um espetáculo no CCB, onde de resto não fui, salpicado por alguns filmes dela exibidos na Cinemateca. Passou de raspão ("Storia di Piera") e vi-a de raspão, porque Deus põe e o homem dispõe, ao contrário do que por aí se diz. Mas, à roda de um copo, a propósito já não sei bem de quê (é mentira, lembro-me muito bem), citou ela alguém que se espantava com o humano pudor que leva a ocultar o sexo mas a exibir a cara, "a coisa mais nua que todos temos". A frase valeu o encontro, porque nunca me tinha posto o problema em tais termos. É certo que nem todas as culturas tratam o rosto com despudor, mas as que o ocultam são literalmente mal vistas. Ou é sinal de repressões intoleráveis (as mulheres nos países islâmicos, as "burqas", para não vir mais perto e recordar os véus das viúvas que ainda são do meu tempo) ou de disfarce intolerável. "Embuçado nota bem / que hoje não fica aqui ninguém / embuçado nesta sala", para ser tão trivial quanto possível.

 

Mas é bem certo que quem vê sexos não vê corações e quem vê caras os vê, já que hoje me deu para contrariar lugares-comuns. Só os não vê quem não quer ou não sabe ver e quase todos somos razoavelmente cegos. Lembro-me da pergunta de Sophia quando alguém se lhe queixava de ter sido bem enganado por fulano ou sicrana. "Mas nunca lhe viu a cara?" Regra geral não viram, que o diabo é sempre tão feio como o pintam, pelo menos a partir da idade em que cada um tem a cara que merece e não aquela com que nasceu. Tão nua como a cara, só a voz. É verdade que tudo num corpo é revelação e que dos pés à cabeça (com especial importância para as mãos) pode-se desvelar muita coisa. Já conheci especialistas de tudo, até de umbigos e de tornozelos, e não me custa a admitir que haja sexos intoleráveis, mas Hanna Schygulla tem razão. Nua nua só a cara e nudíssimos nudíssimos só os olhos e a boca. Isso a que se chama expressão e que é sempre o que faz a maior impressão.

 

2. Há uns tempos, referi-me, numa destas crónicas, a um retrato de Tiziano, atualmente em Filadélfia, que me foi revelado por Jean Louis Schefer. Representa o arcebispo Filippo Archinto, e mostra-o com o rosto semicoberto por um véu. Na altura, pensei que o prelado tivesse um defeito qualquer que essa forma de representação ocultaria. Muito mais sabido em coisas de iconografia do que eu, Schefer desenganou-me. Tiziano queria apenas significar que o arcebispo já tinha morrido quando ele o pintou, já que os mortos, se mantêm por algum tempo isso a que se chama expressão (e que nunca ninguém conseguiu explicar convincentemente o que seja), perdem-na rapidamente (por isso mesmo, tão pouco tempo são expostos). Cobrindo parcialmente a eminência, Tiziano deu-nos a ver "la mort au travail", o que acontece aliás com qualquer retrato, suspensor do tempo e não seu veículo.


Curiosamente, é para isso mesmo que os retratos existem. Porque, desde as civilizações das múmias, se acreditou que o retrato prolonga a vida da pessoa retratada, que viveria enquanto essa sua imagem vivesse. 


Num livro recente sobre os retratos na história de arte (uma luxuosa edição da Giunti) fala-se do "jus imaginum", privilégio que na antiguidade só detinham as famílias da nobreza, que, de resto, o continuaram a ter, mesmo que não baseado em qualquer lei escrita, até aos fins do século XVIII e ao advento do "terceiro estado". Só quando se inventou a fotografia, "toda a gente" passou a ser retratada e, mesmo assim, muito gradualmente, já que entre os meados do século XIX e os meados do século XX, só a burguesia se fazia retratar nos Institutos Photographicos ou no Amer da Rua do Ouro. Resta saber se a invenção da fotografia foi causa ou consequência, como se foi causa ou consequência dela que a pintura abandonasse a figuração. Conversas largas que para aqui, hoje, não são chamadas.

 

3. Mas esse livro dos retratos encontrou em mim campo fértil. Como citava, com alguma abundância, textos de Hawthorne e de Gogol sobre retratos mágicos ou sobre a magia dos retratos, passei parte das férias a ler tais textos, que são somente alguns dos muitos do demonismo romântico, bebido em Hoffmann e nos sonhos das almas românticas, culminando eventualmente no "Là-Bas" de Huysmans, esse livro a que Verlaine chamou "épastrouillant", termo que não consigo traduzir, como não consigo traduzir Mallarmé quando ele fala de "cette vaine, perplexe, nous échappant, modernité".


Mas ainda antes de voltar às imagens fixas, não resisto a contar-vos no que dão imagens movediças. Em "Là-Bas", como eventualmente saberão alguns, a torre da igreja de Saint-Sulpice em Paris (que, aliás, Huysmans execrava) tem um papel importante, através da figura capital da mulher do sineiro e dos seus cozidos à francesa. Pois me sucedeu que o livro que a esse se seguiu, em leitura de Verão, foi "La Lutte avec l'Ange" de Jean Paul Kauffmann, que mão amiga me fez chegar, e onde tudo se passa na dita igreja, partindo do fresco célebre de Delacroix que tem o título do livro e que, até hoje, me foi única razão para visitar Saint-Sulpice. Páginas não eram lidas, descobri que a igreja está na moda, devido ao famigerado "Código Da Vinci", que nisso, como em tudo, vigariza a propósito da famosa meridiana, que, parece, justifica hoje a entrada de multidões ululantes, em busca dos segredos da vida perversa de Jesus Cristo e Maria Madalena. Livro que até li, para poder argumentar com conhecimento de causa às dúvidas metafísicas de descendentes e ascendentes, que tomaram a sério as "revelações" do autor, nestes tempos de vale-tudo. Não será nos próximos meses que poderei decidir, em paz e sossego, quem viu melhor a igreja onde baptizaram Sade: se Huysmans, na sua embirração, se Kauffmann nos seus ditirambos. Mas se quiserem saber de mim, neste Verão, procurem-me entre eles, Hawthorne e Gogol. E, obviamente, nos retratos.

 

4. A eles volto. Em Hawthorne (que não conhecia Gogol, mas certamente conhecia o Hoffmann de "Doge e Dogoressa", ou Tieck, ou Chamisso ou Goethe) no fabuloso conto "Prophetic Pictures", que já croniquei por aqui, o retrato não funciona como prova do génio de um artista mas como sinal da maligna fatalidade de um "guilty medium". A pintura é um símbolo poético no duplo retrato do pacífico casal Walter e Elinor Ludlow, retrato que se transforma com o tempo, dando a ver ocultos terrores e subterrâneas ferocidades, onde inicialmente só se viam plácidas belezas e jovens nubentes.


Walter, bem avisado fora pelas velhas senhoras de Boston que os retratos do pintor podiam ser proféticos, e que este, depois de tomar posse de um rosto e de um corpo humanos, os podia pintar em qualquer situação futura. Mas Elinor tranquilizou-o: "Mesmo que ele tenha tais magias, há qualquer coisa tão doce nos seus modos que tenho a certeza que as usa bem." Mas foi o pintor quem viu a nudez toda da cara deles e não Elinor, que a viu coberta por uma ilusória doçura. Nas posteriores visitas ao quadro, ambos notam que este, sendo o mesmo, era já outro. Elinor olhava o noivo com ânsia e terror. "Is this like Elinor?" "Compare a cara dela com a cara que eu pintei." E, só nesse momento, Walter reparou que a expressão de Elinor era exatamente a expressão do quadro e que, se este fosse um espelho, não teria captado melhor olhar de tanto pavor. Elinor, absorta, nem ouve o diálogo entre o pintor e o marido. Mas, quando acorda do torpor, volta-se para Walter e pergunta-lhe por sua vez se ele não se acha mudado. "That look! How come it there?" 


Depois, o quadro muda todos os dias, até à última visão, quando Walter esfaqueia a mulher e o "retrato, com as suas tremendas cores, finalmente ficou terminado". 


"Não haverá uma profunda moral neste conto?", termina Hawthorne, bem à sua maneira, tão inquietante quanto distanciada. "Quando vimos o resultado de uma, ou de todas as nossas ações, surgir diante de nós, alguns chamar-lhe-ão Destino e fugirão apavorados, outros mergulharão ainda mais em desejos ocultos. Mas ninguém poderá afastar-se dos RETRATOS PROFÉTICOS." Em Gogol, a maldição é traduzida por um retrato que dá a todos os que o possuem, primeiro a maior glória e, depois, o desespero total. E o que torna o quadro reconhecível são "uns extraordinários olhos" e "uma estranha expressão". Gogol invoca todos os grandes pintores do Renascimento que, à época do conto (1843, o mesmo ano da publicação de "Prophetic Pictures") eram os mais valorizados pela crítica novecentista: Tiziano, Rafael, Guido Reni, Leonardo, Rubens, Van Dyck. Todos eram ultrapassados pelo pintor que possuía o quadro mágico e que pintava com verosimilhança e verdade jamais alcançadas. Mas esse "dom" era efémero e continha a própria maldição. Esta só é esconjurada na narração final. Quando o último proprietário se prepara para destruir o quadro, o quadro desaparece. E "todos ficaram ali, por largo tempo, sem saber se tinham visto realmente aqueles olhos extraordinários ou se se havia tratado de uma ilusão que por momentos lhes toldava a vista, fatigada por tão longo exame de quadros antigos". 


Em Gogol, existe porventura uma intenção moralizante (o tema do artista que vende a alma ao diabo, no fundo o tema do "Dorian Gray" de Wilde, que talvez encerre, em literatura, esta estranha genealogia, retomada, nos anos 40 do século XX, pelo cinema de Hollywood). Mas, em Hawthorne, a pintura é necromancia e a pessoa pintada transforma-se na criatura do pintor. Em ambos, o cerne é o perigo da nudez exposta ou o perigo do que essa nudez expõe ao pintor. Nenhum retrato existe. Só existe a visão do pintor. E deixo-vos a olhar, uma vez mais, "Lucrezia Panciatichi", de Bronzino, minha tão incerta secretária de premonição. Já viram mulher mais vestida? Já viram mulher mais nua?

 

por João Bénard da Costa
22 de outubro 2004, Público 

LONDON LETTERS

 

An historical date, 29 March 2019

 

HM Elizabeth II apõe o Royal Assent na European Union (Notification of Withdrawal) Bill. O PM Office anuncia que accionará a cláusula de saída da EU no próxima quarta-feira e imediatamente RH Theresa May inicia em Wales mais uma ronda de contatos às quatro nações do reino unido.

  O calendário fixa a histórica Brexit para 29 March 2019. —  Chérie. En toute chose il faut considérer la fin. Com a campanha interna do No. 10 aberta em Swansea (Wales) e o parlamento de Scotland a votar amanhã novo referendo independentista, já Westminster centra o olhar noutros temas prementes. O ex Tory Chanceler of Exchequer a todos espanta com o seu recrutamento para editor do London Evening Standard, sendo agora por cá conhecido como RH George ‘Six Jobs’ Osborne. Também o Labour Parliamentary Party protagoniza exaltada reunião com o líder RH Jeremy ‘Red’ Corbyn. — Hmm. Clothes do not make the man. France visiona longo debate televisivo entre os principais candidatos presidenciais. Netherlands dá a vitória eleitoral aos liberais do Premier Mark Rutte face aos eurocéticos de Mr Wim Welders. Washington assiste a frosty Trump-Merkel Summit na White House enquanto Capitol Hill investiga a conexão russa que pode desaguar em impeachment process com o GCHQ pelo meio. O Sinn Féin diz adeus a Mr Martin McGuinness.

 

Light rain at the begginings of the London Springtime. O alinhamento entre Downing Street e Buckingham Palace ganha visibilidade no Brexiting, tanto na frente interna como na frente externa. Passados os escolhos nos dois lados de Westminster Square, sejam as Houses of Parliament e o Supreme Court of Justice, a mais importante lei no nosso tempo ruma à secretária de Her Majesty The Queen. Elizabeth II tem constitucionalmente três opções: selar, recusar ou demorar a EU Bill. Sem delongas despacha o Royal Assent, através de letters patent unidas ao articulado legislativo, logo remetidas aos Commons para aqui se anunciar de viva voz a decisão da monarca: "La Reyne le veult." A tradicional fórmula em Anglo-Norman Law French é saudada com cheers dos MPs e não deixa de ser astral ironia que, segundo os anais de Westminster, o último veto real, em 11 March 1707, pela Queen Anne, haja incidido sobre a Bill for the settling of Militia in Scotland. Mais faz o cetro: os Dukes of Cambridge viajam até Paris em missão oficial de charme.

 

O avanço da Brexit materializa-se com anúncios públicos de prontidão em London e Brussels. Incontornáveis são os contornos homéricos do processo. Whitehall prepara um pacote legislativo, estima-se que 15 leis de enquadramento setorial, para acompanhar The Great Repeal que ecoará em May no Queen’s Speech. Até lá, é a vez da Prime Minister testar as suas habilidades diplomáticas na campanha interna de unificação de vontades e propósitos. Se era expetável que a saída do UK da European Union serviria de pretexto para nova batalha dos independentistas no parlamento de Holyrood, o cenário geral com que Mrs May se depara é bem mais complexo. Vejamos quem se sentou na primeira cimeira doméstica, a 24 October 2016, entre Downing Street e as autoridades de Edinburgh, Cardiff e Belfast. À volta da mesa encontram-se uma English Tory, uma Scottish nationalist, um Welsh socialist e uma Ulster unionist mais um Irish republican. Acresce que o euroreferendo de 23rd June reflete os votos a favor de England e Wales mas contra de Scotland e da Northern Ireland. Não por acaso é RH Theresa May MP comparada a formidável personalidade histórica na manutenção da coroa: Elizabeth The First. À Good Queen Bessie valeram os divinos ventos do Channel quando atacada pela Invincible Armada.

 



A tarefa de Mrs May igualmente requer boa ventura na outra Union. Que as nuvens se avolumam além Channel observa-se sobretudo na fragmentada paisagem política gaulesa. No debate presidencial de três horas e meio entre os cinco principais candidatos ao Palais de l'Élysée, por maiores que foram os esforços de Madame Marine Le Pen para debater a situação europeia criada pela Brexit, multiplicado foi o silêncio manuseado pelos rivais – acrescido pela câmara de eco dos mass media. Evidente é a frente continental dos eurófilos. Em vésperas de RH G Osborne assumir as vestes de jornalista e fazer do London Evening Standard um jornal de combate dos Remainers, soa estranha equivalência na Spring Party Conference dos Liberal Democrats que tudo revela quanto à nova retórica dos contrários. RH Tim Farron acusa a comunitarista Theresa May de prosseguir as “aggressive, nationalistic politics of Trump and Putin.” Assim vamos quando nos US ocorre peculiar cimeira. O President DJ Trump recebe a Bundeskanzlerin Angela Merkel. Afirma-se não isolacionista e pró NATO ao apresentar faturas a Berlin. Ora, a linguagem corporal dos dois líderes diz do máximo desconforto existente nas neo relações continentais transtlânticas. No mais, passados 100 dias da administração republicana, The Trump Show goes on. Em Capitol Hill projeta-se já cibersequela do clássico de Holywood: The Comies are coming…

 

Com a novel interdição dos dispositivos eletrónicos nas viagens aéreas de paragens exóticas no Middle East e previsível agitação em torno da Pound Sterling para a próxima estação de veraneio, examinemos atempadamente destinos turísticos para caseiro 2017 Summer. O Sunday Times ajuda. No seu guia anual dos "best places to live in Britain" distingue a amena cidade de Bristol, à frente de campeões regionais como Peckham na Great London, Wadhurst em East Sussex ou Shipston-on-Stour em Warwickshire. A urbe portuária está geminada com o Porto e tanto a esplêndida traça natural como os pergaminhos recomendam visita. A Royal Charter recua a 1155. Cedo floresce o condado do South West England, autonomizando-se de Gloucestershire e Somerset em 1373 e conquistando foro a desenho de Master Robert Ricart em 1478. A terra fértil coloca Bricstow entre os grandes contribuintes do trono desde o medievo, com a cruz e o comércio a globalizar os elos com outros reinos de cruzados e navegadores. — Well. Remember what Master Will says in his Jacobean play Pericles, Prince of Tyre about the maritime lives: — Master, I marvel how the fishes live in the sea. | Why, as men do a-land; the great ones eat up the little ones; I can compare our rich misers to nothing so fitly as to a whale; a’ plays and tumbles, driving the poor fry before him, and at last devours them all at a mouthful. Such whales have I heard on o’ the land, who never leave gaping till they’ve swallowed the whole parish, church, steeple, bells, and all.

 

St James, 21th March 2017

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 20 a 26 de março de 2017.

 

O debate de ideias é sempre bem-vindo, mas pouco cultivado. As exceções são importantes – como o Embaixador José Fernandes Fafe, autor multifacetado que deve ser lembrado.

 

UM EMBAIXADOR NO MUNDO DAS IDEIAS
José Fernandes Fafe era uma personalidade rica e multifacetada. Sempre ouvi a Mário Soares os maiores elogios à sua coerência, ao seu pragmatismo e ao seu arreigado gosto pelas ideias e pelas letras. Foi com Álvaro Guerra, Coimbra Martins e José Cutileiro um dos nossos grandes embaixadores com origem política – aliando uma tradição culta a um cuidadoso sentido diplomático. Como disse Francisco Seixas da Costa, “foi um diplomata de Abril, uma figura que levou o seu prestígio intelectual para as estruturas da política externa. Serviu o país com brilho, empenhamento e qualidade”. Vi-o e falámo-nos, a última vez, nos Jerónimos, quando nos fomos despedir de Mário Soares. Gostei de o reencontrar pelo que o admirava e porque tinha saudades da sua presença serena e ponderada. No tempo em que escreveu o seu célebre Caderno Diário, no Diário de Notícias de Mário Mesquita, falámos bastante – e convergimos em muitas ideias e propostas. Foi o tempo em que publicou os textos que reuniria em Esquerda – a Novíssima e a Eterna (O Jornal, 1985), e devo dizer que, ao reler essas reflexões, verifico que devem ser revisitadas, contrastando, pela sua riqueza, com muito do que hoje se lê, sem a mesma profundidade, a mesma informação e a mesma lucidez, a propósito do presente e do futuro do Estado Social… O certo é que o tempo confirmou que se mantêm as preocupações de Fernandes Fafe sobre as políticas públicas e sobre a resposta às crises. De facto, as pistas aí apresentadas revelam extrema atualidade. E se falo de atualidade, é porque o tema do contrato social, que intensamente preocupava o ensaísta, ganhou uma premência iniludível. “Neste período de crise (diz o nosso autor), a concertação social torna-se mais difícil. A classe trabalhadora vê deteriorarem-se e diminuírem os serviços sociais. O desemprego cresce, muitas vezes o patronato não resiste à tentação de fazer da luta contra o desemprego e da inflação armas contra os sindicatos. A obsessão dos capitalistas, nesta fase, é o investimento. A paz social passou a segundo plano e pensam consegui-la através de um governo forte”. Com esta passagem, verifica-se como o “contrato social” não evoluiu no sentido de garantir uma concertação representativa que possa pôr o combate ao desemprego e a coesão social na ordem do dia. Estávamos ainda antes de Maastricht e a verdade é que então poucos ouviram Jacques Delors, a dizer que a lógica puramente monetária não funcionaria, devendo dar-se atenção à criação de empregos e à redistribuição de riqueza. Ao invés, “os governos sociais-democratas, para se aguentarem, deitam muita água monetarista no seu velho vinho keynesiano. Descaracterizam-se”. E foi esta descaracterização que deu lugar, em parte, à situação em que nos encontramos.

 

A PERFECTIBILIDADE HUMANA
Quando se fala do suposto esgotamento do modelo social-democrata, importa considerar os elementos contraditórios (excesso de formalismo monetarista e míngua de atenção à sociedade) que corroem a ideia-mestra da partilha de responsabilidades e da justiça distributiva… É verdade que as circunstâncias estão a mudar, mas é essencial compreender a importância do movimento e da perfectibilidade humana, que José Fernandes Fafe considerava serem marcas da esquerda. E nesse ponto a lógica formalista tem de ceder perante a coesão social, a estabilidade de preços articular-se com a criação de emprego. Daí que François Fejtö referisse a necessária afinação de influências entre os diferentes protagonistas – para que a concertação fosse equilibrada e não desvalorizasse o fator trabalho. Norberto Bobbio defendia um socialismo no quadro demoliberal – com melhor ligação entre a representação e a participação, capaz de superar a burocratização e a tecnocracia e de garantir o predomínio do poder político democrático sobre o poder económico. J. F. Fafe analisava os diferentes autores com interesse para o debate sobre o conteúdo de um novo contrato social, capaz de atualizar a social-democracia. Nesse sentido visitava Marx e relia-o criticamente, pela compreensão das instituições livres e do pluralismo eleitoral – entendendo a importância das leituras de Popper, Kolakowski e Duby… E falava-nos de Ivan Illich e da ideia de Patrick Viveret segundo a qual um horizonte utópico como o do autor de Inverter as Instituições, assente na convivialidade, permitiria afirmar um sentido crítico na sociedade injusta e incompleta. Jacques Julliard, Pierre Rosanvallon, André Gorz e Alain Touraine preocupavam-se com a fragilidade da sociedade, incapaz de poder ser inteiramente liberal. O que estava em causa era a salvaguarda da autonomia (Cornelius Castoriadis) e a partir desta urgia pensar os caminhos futuros – segundo “as grandes ideias da esquerda”: Liberdade, consciência da servidão voluntária, Igualdade, compreensão da justiça social, Fraternidade e Solidariedade. E assim a renovação política teria de ser fiel à coerência. “A direita não é o Erro, nem o Mal. A direita é metade da verdade do Homem, resignação ao mal e incompreensão da outra metade – a do apelo à Aventura. Esquerda e direita constituem uma tipologia, portanto uma abstração (…). Tendo ligado o conservadorismo à memória, encontramo-nos na obrigação de ligar o socialismo ao desejo. Raul Brandão fê-lo clamando de profundis. Espero, ainda na cova espero, o fim da exploração do homem pelo homem”.

 

NÃO PROCURE, ESTÁ DENTRO DE SI
Na busca da esquerda, Fernandes Fafe dizia: “Não procure mais. Está dentro de si”. A liberdade exige a igualdade – ou a menor desigualdade possível, numa convergência entre igualdade de oportunidades e correção das desigualdades. Liberdade e igualdade conflituam? Norberto Bobbio pugnava por uma liberdade igual e uma igualdade livre, e encontrava aí o paradigma da esquerda. E Dworkin falava de igual consideração e respeito por todos – para superar o risco de contradição. Rawls apenas aceitava a desigualdade desde que fosse no interesse de todos. J. Fernandes Fafe considerava, assim, a complexidade em lugar da simplificação, pela coexistência de diversos fatores no sentido da perfectibilidade. “Do ponto de vista da dicotomia esquerda-direita, o importante, o que é difícil de definir, mas que está lá, o núcleo duro, o que, desde que instalado, não muda. É o carácter. A ideia de perfectibilidade do mundo, no carácter de esquerda. A obsessão parmenídea da Ordem, no de direita. (Repito que esquerda e direita são tipos, construções abstratas portanto, que não se encontram puros no concreto)”. O que muda são as ideias-instrumentos de acordo com a evolução social, económica e cultural. Não podemos esquecer os acontecimentos, a emergência de novos fenómenos, das novas tecnologias ao aquecimento global, das evoluções demográficas assimétricas aos choques económicos, do envelhecimento da população às energias alternativas. No mundo das ideias, que tanto interessava o Embaixador e o homem de cultura, estava, afinal, o centro da ética da responsabilidade…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   José Augusto Mourão, frade dominicano, semiólogo e professor universitário (UNL-DCC), de quem já te falei, escreveu o posfácio para A Restante Vida, de Maria Gabriela Llansol, um dos três livros que, para consolo ou provocação do espírito que eu não queria ver a concentrar-se em cirurgias, decidi que andariam comigo. Serão textos difíceis, isto é, exigirão atenção, mas eis o modo que encontrei para me distrair de atrapalhações sobre as quais pouco entendo e nada posso. Em tempo de bem vinda chuva, clareou a tarde deste domingo, e fui ao fundo do jardim iluminar-me com o amarelo solar da mimosa em flor, exuberante, carnavalesca, em qualquer inverno, em pleno fevereiro. E esta é teimosa sobrevivente, a única que escapou ao tornado que nos varreu em dezembro de 2013. Cheio dessa alegria interior, vim pegar nos textos reservados, e escolhi para ti aqueles que aquela exuberância floral mais iluminou na presente leitura. Há comunicações esquisitas como estas vozes da luz que não se ouve...

 

   Mourão recorda, na senda de Llansol, o "meu" querido Mestre Eckhart, de que tantas vezes te falei e em mim sempre sustenta o indizível:

 

   A vida, como a literatura, não é um estado mas um ato. A vida feliz, escrevia Eckhart, consiste em entrar no seu próprio fundo e, chegado lá, em «agir» «sem porquê», «nem por Deus, nem para a sua própria honra, nem pelo que quer que seja, mas unicamente em consideração daquilo que é em si o seu próprio ser e a sua própria vida» (Sermão 6)... [...] A única resposta à vertigem é o ritmo. O ritmo - o ritmo poético, o batimento da língua - é uma figura. A imagem - a imagem poética - é uma figura. A língua do poeta configura-se, o poema é uma configuração. O «como» da comparação é também um «cum» - um com -,, logo uma reciprocidade, uma mutualidade. Para o artista, o mundo é o lugar de desenvolvimento das figuras. É a figuratividade do mundo que o poema diz.

 

 

   O secular não é só o profano, e o sagrado não é o equivalente de «sobrenatural», eterno ou «supra-humano». A secularidade sagrada reage contra a dicotomia das cosmovisões dualistas: o tempo agora e a eternidade depois. Tenta superar o dualismo sem cair no monismo; distingue, mas não separa. As fórmulas de samsara/nirvana/atman, theios/theopoiesis, união hipostática, Encarnação, tudo aponta numa mesma direção: os valores seculares são sagrados. Pannikar propõe a palavra tempiternidade para exprimir esta intuição.

 

   Sabes bem, Princesa de mim, quanto tenho insistido no meu muito íntimo pensarsentir o cristianismo como a incarnação de Deus, a secularização do sagrado, quiçá no cerne de um processo de renovadora transformação do cosmos, como acreditava Teilhard de Chardin. Ou frei Sérgio de Beaurecueil, solitário padre católico em Cabul, quando trazia o seu quinhão de pão partilhado com muçulmanos ao almoço e o consagrava, ao fim da tarde, na sua capelinha. O Corpo de Deus não é coisa que se exponha à reverência, antes é a comunhão dos homens no amor, sublime ação de graças, eucaristia. A nossa religião nada tem de mágico; ou, se assim quiseres, tem como única magia o incessantemente repetido gesto de Deus a querer habitar o coração dos homens. Quanto à escrita de Maria Gabriela, que aqui me trouxe a ti, lê comigo a Lição 1ª de A Restante Vida:

 

   Ana de Peñalosa chegou ao fim da vida. Ser o fim é-lhe indiferente, não tem muito sentido. Mais uma vez pensa utilizar

a escrita

que sempre lhe serviu

de laboratório

e de alquimia.

 

                                             Refletindo,

                                             disse para consigo:

                                             Não será uma arte demonstrativa.

 

A escrita,

vê-la escrever-se lucidamente,

é o fundamento deste real.

 

   Este livro que venho trazendo comigo é o segundo da trilogia Geografia de Rebeldes, que começara com O Livro das Comunidades e se termina com Na Casa de julho e agosto. No final da reedição deste, em 2003, insere a Relógio de Água, o Espaço Edénico - uma entrevista que a autora deu a João Mendes, publicada pelo Público em 18 de janeiro de 1995. Desta te transcrevo uma simples resposta da escritora, que me ajuda a pensar no que te tenho dito:

 

   Como não sou teóloga, o que vejo no texto é que há uma «presença insondável» na nossa vida. Não vale a pena ter medo dela. E tens os atributos. Não há maneira de passar em silêncio. E tens a substância. Com as palavras, não a consegues falar; mas ninguém te impede de caminhar na direção da tua imagem. Conheces outra utilidade melhor para o teu corpo?

 

   E agora, Princesa de mim, sou eu a dizer-te que não, que não conheço. Fez-se escuro lá fora, calaram-se todas as vozes dos campos. Mas dentro de mim me chama a luminosidade de uma mimosa em flor, no céu de fevereiro. Vês? Também não sou teólogo, nem coisa que se pareça. Sou um homem simples que olha para o céu a fechar-se sobre os campos. Citadino de origem, no século XXI, já sei que ele, o céu, não é uma abóbada, nada que nos cubra e obrigue - com sinais de cometas, meteoritos ou estrelas fugazes - mas algo que o nosso conhecimento ainda não sabe nem pode limitar... E tanto, ou tão pouco, me basta para contemplar e amar a infinitude de Deus. Eterna saudade que me chama, sempre a mesma, incansável vocação, mesmo falando muitas vozes. Gente que se diz muito religiosa, cheia de uma fé inamovível em dogmas definitivos, quiçá possuidora de conceitos arquitetados para encerrarem Deus, pensará que serei pouco ou nada religioso. E, na sua perspetiva, tem certamente razão. Afinal, eu acredito numa presença insondável na minha vida, como um sopro que me move e percorre o mundo todo. Esperança em que, no dia tremendo da paz, o amor mandará finalmente nisto tudo.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

TEATRO MARIA MATOS

 

EVOCAÇÃO DA ATRIZ MARIA MATOS NA CARREIRA, NO ENSINO, NA CULTURA TEATRAL

 

O Teatro Maria Matos, inaugurado em Lisboa no final de 1969 e municipalizado em 1982, integra-se na linha de construção/renovação dos edifícios nas zonas mais recentes da cidade, que adotaram a funcionalidade do espetáculo a nível dos rés-do-chão de edifícios de vocação comercial e /ou habitacional: teatros “de bolso” como então se dizia, pela integração em prédios comerciais e de arrendamento, por vezes ocupando e transformando o espaço originalmente reservado a garagens. Já vimos aqui, aliás, o Teatro Villaret, percursor do movimento de construção e rentabilização teatral decorrente.

 

Trata-se de uma inovação epocal, mas sobretudo, de uma rentabilização de investimento, muito positiva em si mesma: são muito numerosos os teatros, construídos no século XIX ou mesmo os cineteatros, estes a partir dos anos 20 do século passado, que pela sua implantação em zonas centrais de vilas e cidades, foram progressivamente demolidos para dar lugar a construções mais rentáveis no ponto de vista de investimento, e quantas vezes menos adequadas à implantação em centros históricos e à arquitetura correspondente. De alguns, temos aqui dado noticia, aliás sem pôr em causa a qualidade arquitetónica de muitos deles.

 

E quando estes teatros “de bolso” independentemente da respetiva estrutura interna e lotação, se implantam em zonas modernas das cidades, então só há que elogiar a iniciativa e procurar garantir a viabilidade económica e a qualidade artística… o que nem sempre é possível, como bem sabemos.

 

Tudo isto vem a propósito do Teatro Maria Matos: e desde já insista-se na referida adequação até da designação da sala, inaugurada como vimos em 1969, num projeto complexo urbano integrando, alem do mais, um cinema e um hotel. Mas tenha-se presente que o Teatro tinha no início do século uma lotação de mais de 550 lugares em plateia e balcão, e uma sala de ensaios. E desde logo se notabilizou pela qualidade da sala e também pelas máscaras de Martins Correia e pelo painel de Maria Helena Madureira.

 

Maria Matos (1890-1952) foi na sua época e ainda é hoje um grande nome de qualidade e prestígio no meio teatral português. Era professora de Arte de Representar e Encenação no Conservatório Nacional, onde por razões familiares ainda a conheci.

 

Mas a carreira de Maria Matos vinha de 1907, ano em que se estreou no TNDMII e onde se manteve até meados da década seguinte. Em 1913 funda com o ator Francisco Mendonça de Carvalho, seu marido, uma empresa de teatro declamado. A tradição prolongou-se na carreira da filha, Maria Helena Matos e do genro, Henrique Santana, este como sabemos “herdeiro” também da obra e vocação do pai, Vasco Santana: e tantas e tantas vezes os vimos atuar com enorme talento, qualidade e sucesso.

 

E Maria Matos participou ainda em filmes de Artur Duarte, com destaque para os que foram extraídos de textos de comédias de João Bastos: “O Costa do Castelo” e “A Menina da Radio”, realizados em 1943 e 1944 respetivamente. Mas teve outras intervenções episódicas em filmes diversos. Escreveu poemas e algumas comédias (“Direitos do Coração”, “A Tia Engrácia” e “Escola de Mulheres”. E em 1955 foi publicado um livro de Memórias.

 

É pois meritória e adequada a designação do Teatro Maria Matos, o qual foi inicialmente concebido pelo arquiteto Fernando Ramalho. O projeto sofreu alterações já em fase de construção e o edifício, tal com foi inaugurado, deve-se aos arquitetos Aníbal Barros de Fonseca e Adriano Simões Tiago. O Teatro era dirigido por Igrejas Caeiro, a quem cabe esse mérito indiscutível da iniciativa. E estreou com um texto de Aquilino Ribeiro, a partir de “O Tombo no Inferno”.

 

Na época escrevi que se compreendia mal a seleção da peça, independentemente da qualidade da escrita em si mesma e do justificadíssimo prestígio, que dura até hoje, de Aquilino. Mas já na altura, o texto estava teatralmente ultrapassado: e a qualidade da interpretação, com Mário Pereira, Rui Furtado, Hermínia Tojal, Lurdes Norberto, Costa Ferreira, Elvira Velez, grandes nomes da cena da época, numa encenação de Artur Ramos, não conseguiu ultrapassar as limitações cénicas do texto, independentemente, repita-se, da qualidade geral da obra romanesca do autor.

 

O Teatro Maria Matos funcionou durante anos como desdobramento de companhias ligadas à RTP, sob a direção de Artur Ramos. Estreou numerosos textos portugueses importantes, alguns proibidos antes de 1974. Num texto que publiquei em 2005, citei em particular, (antes proibidos ou não) por exemplo “Legenda do Cidadão Miguel Lino” de Miguel Franco ou “O Encoberto” de Natália Correia, alem de peças de Bernardo Santareno e adaptações de Eça e da “Seara do Vento” de Manuel da Fonseca, entre muitos outros. (in “Teatros de Portugal” ed. INAPA- pág. 83).

 

A Câmara Municipal de Lisboa publicou em 2002 um estudo abrangente e da grande qualidade e documentação, da autoria de Maria do Céu Ricardo, precisamente denominado “32-Teatro Maria Matos (1969-2001) – Um Teatro com História”, que assinala e documenta, e passo a transcrever, “os trinta anos desde que o Teatro Municipal Maria Matos abriu, pela primeira vez, as suas portas à população da cidade de Lisboa”. Trata-se de um levantamento de repertórios e elencos, estes na ordem das centenas de nomes de artistas que preencheram a atividade do Teatro Maria Matos.

 

Entretanto já decorreram mais 16 anos: e só se deseja que essa vastíssima atividade prossiga com qualidade e repercussão cultural.

 

  

DUARTE IVO CRUZ

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

4. PORTUGAL E A EUROPA NO PENSAMENTO DE EDUARDO LOURENÇO - I

 

 

Ao invés de Vieira, Pascoais, Pessoa, Agostinho da Silva e António Quadros, Eduardo Lourenço parte da convicção da não existência de um destino providencial, mítico, messiânico, da ausência de utopias variadas, exaltantes, de insondável enigma e irredutível originalidade para o povo português e, assim sendo, o seu convencimento de que não é mais predestinado, heroico, sábio ou virtuoso do que outros povos. Entende que a história cultural portuguesa tem de ser inserida, em primeiro lugar, no espaço geográfico da Península Ibérica e, em segundo, e de modo mais determinante, na análise relacional e sem complexos da história da nossa cultura frente a frente com a história da cultura europeia, numa base despreconceituada e com a ausência, à partida, de qualquer tipo de inferioridade ou superioridade.

 

Segundo Eduardo Lourenço, temos historicamente um percurso num espaço inconciliável entre o modo como somos e o modo como quereríamos ser ou que deveríamos ser. Existe, em cada português, uma desproporção, um duplo estado de espírito ou de alma em que cada um sente o que ontologicamente é (país pequeno, pobre, carente de recursos ou de recursos limitados, conservador, atrasado por confronto com a Europa de maior desenvolvimento económico, científico, social e cultural) e o que imageticamente nos é dado ver através da leitura da história pátria (o mito dos Descobrimentos, da Expansão Ultramarina, o sonho do Quinto Império, a quimera de um Estado Imperial Uno do Minho a Timor, dos amanhãs que cantam milagreiros esperando a salvação).

 

Esta dupla consciência que acompanha a maioria dos portugueses, que se sintetiza na diferença imaginária, em cada época histórica, entre a realidade e a ficção, é o que o pensador e ensaísta designa por “o irrealismo prodigioso que os portugueses fazem de si mesmos” (O Labirinto da Saudade). Acrescenta que esta “forma mentis” e caraterística permanente de ser português, tanto nos tem arrastado para as maiores decadências, como para o crer de que somos, por condição e destino, um povo eleito, por vezes adormecido, mas sempre imprevisível e preparado para novas descobertas, lançando novas naus da civilização. Cita que alguns dos maiores vultos de Portugal, mesmo em pleno século XX, não se alhearam desta condição de ser português, como Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. A esta “forma mentis” de ser português designa-a de tipo traumático.

 

Foi esta contradição entre um passado glorioso e a nossa diminuída realidade presente que nos levou a treze anos de guerra colonial, e que nos conduziria a um terceiro traumatismo profundo, isto é, à perda do Império colonial em 1975. Terá sido então o projeto político de integração na Europa Comunitária que terá compensado a amputação provocada pela descolonização, permitindo a ultrapassagem sem cicatriz duma ferida simbólica que em geral provoca noutros povos tragédias inultrapassáveis, exemplificando-o com a França em relação à Argélia.

 

Se desde cedo havia sempre insistido no reatamento das relações com a Europa, tipo “O diálogo que nos falta”, só após o 25 de Abril vê Portugal apostar politicamente, enquanto projeto nacional, no diálogo com a Europa.

 

Este cartão de cidadão dos portugueses, assente numa intrínseca e estrutural fragilidade, é compensada pelo “irrealismo prodigioso” por que nos imaginamos e vemos mentalmente a nós próprios como país e povo dotado de uma missão histórica providencial.

 

Embora Eduardo Lourenço, no Labirinto da Saudade, chame a atenção para o facto de estas duas imagens antagónicas serem imagens irreais que Portugal arquitetou e imagina, a verdade é que elas permanecem, até aos nossos dias, no imaginário coletivo português.

 

Revelam um excessivo sentimento de superioridade que oscila com um não menos excessivo sentimento de inferioridade, uma representação nacional excessiva, uma hiperidentidade, ora excessiva e eufórica, ora depressiva e doentia.

 

Ora somos os ou dos melhores do mundo, ora somos os ou dos piores do mundo. Ora somos otimistas em excesso, ora somos pessimistas em excesso.

 

Tanto nos deslumbramos e vangloriamos excessivamente pelo pioneirismo nas descobertas ou achamentos, como em fazer o culto excessivo de dizer mal de nós próprios.

 

Havendo que estabilizar e normalizar, com equilíbrio e recurso ao bom senso, esta desproporção entre o que somos e o modo como imaginamos ser ou deveríamos ser.

 

14.03.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

Tentaremos dar seguimento ao que escrevemos sobre as aulas de Jose Luis Aranguren. Referíamos, na penúltima Crónica da Cultura, que, antes mesmo de sabermos se o saber científico e técnico são o suficiente para a ordenação total da vida, a que estado deveria chegar o nosso raciocínio para provar a insuficiência desta afirmação e descobrir o quanto o conceito daquilo que se entende por «experiência de vida», deverá conquistar-se através dos conceitos filosóficos de prudência e sabedoria, de modo a que só no momento pleno em que saibamos o que é experiência de vida, e que relação ela estabelece com a moral, então poderíamos sim, preguntarmo-nos pelo modo de a adquirir e inclusive pela possibilidade ou não de a conseguirmos transmitir.

 

Entendemos estas questões como sendo do maior interesse para indagarmos qual o cerne que nos espreita da própria experiência de vida e assim determinarmos o seu posto e a sua função na nossa vida, na vida do homem.

 

Na realidade, muitos são os que entendem que a totalidade da vida se organiza a partir da ciência e segundo a ciência, e que mesmo a felicidade pode surgir por uma espécie de human engineering, e mesmo sendo as relações humanas muito complexas, a ciência pode reduzi-las ao princípio mais simples. Ainda que assim fosse, perguntaríamos onde ou como a verdadeira justificação científica pode surgir, se pensarmos em saberes costumeiros de uma vontade que muitas vezes, nem claramente foi identificada? Então estaríamos perante uma utópica ciência, se esta pretende formular uma pretensão de domínio do uso científico da razão sem que se chegue à realidade enquanto tal.

 

Julgamos que se pode responder às perguntas com a ciência, não sabemos, contudo, se neste caso não haverá um abuso da própria ciência?, na verdade é indeterminado e imprevisível o futuro da história ou o futuro pessoal. Não existe um cálculo da história como um cálculo matemático e a razão científica não o é em plena profundidade se o seu raciocínio se fizer desconhecendo os passos de uma experiencia a viver, ou mesmo da experiência vivida em diferentes realidades.

 

Como afirma Xavier Zubiri, a ciência é dirigida para a confirmação das suas hipóteses e a experiência é «algo adquirido en el transcurso real y efectivo de la vida, el haber que el espírito cobra en su comercio efectivo com las coas», em suma no lugar natural da realidade.

 

Enfim, se experiência da vida não é o mesmo que ciência, também não é o mesmo que filosofia, por mais perto que esteja desta, já que a filosofia assenta numa pretensão de um sistema, de um método, ambos afastados da experiência da vida, e a filosofia ainda que possa ser também «uma filosofia da vida», nem sempre o foi, nem tem que o ser primariamente.

 

Veremos se a prudência de que falamos não carece de vários graus de entendimento para ajustarmos as realidades, e tão bem que elas nos são propostas por Aranguren.

 

Teresa Bracinha Vieira

Até onde pode ir a literatura na leitura de Mia Couto?

 

Até onde podemos ir, até onde pode ir a literatura, parece ser a pergunta constante de Phillip Rothwell, professor catedrático de Estudos Portugueses na Universidade de Oxford. No seu livro “Leituras de Mia Couto – Aspetos de um pós-modernismo moçambicano” com uma tradução e introdução de Margarida Ribeiro. Em rigor este ensaísta britânico considerado um dos professores de Estudos Portugueses mais inovadores da sua geração e dominando continuadamente a literatura portuguesa, reconhece, por óbvio, em Mia Couto o grande escritor de língua portuguesa legitimado em todo o mundo.

 

A sua capacidade de analise da escrita de Mia passa necessariamente por lhe reconhecer os mapas geográficos, étnicos e religiosos e de onde a história também é contributo ao colocar no lugar certo as questões universais, tal como o faz em plena mestria este escritor único que é Mia Couto que tão excelentemente une a identidade múltipla de um povo a uma nação-a-ser como menciona Margarida Calafate Ribeiro.

 

Chama-se a atenção neste livro para a luz da literatura no seu papel crucial de construir identidades culturais e politicas numa linguagem de esperança que revela um Moçambique para moçambicanos geradores de continuidades. Mia Couto persegue o situar a ideia de nação e Mia Couto lido por Phillip Rothwell faz-nos entender que sempre as fronteiras trazem suspeitas e entre a verdade e a falsidade Mia usa as técnicas do pós-modernismo para do percurso literário europeu o transformar no que poderíamos chamar de “autenticamente” africano para os europeus o que nos coloca no país em diferença no seu movimento.

 

Mia é nome de mulher, e Mia Couto é um escritor branco que representa Moçambique. E alerta-nos o ensaísta para esta absoluta literatura nacional de Mia Couto, igualmente riquíssima em cultura portuguesa. Assim se conjuga o europeu e o africano e questionando a modernidade a partir de Moçambique.

 

Este livro de Rothwell coloca-nos sempre a pergunta: até onde poderemos ir? E ir na literatura? Uma proposta belíssima ao pensar. Uma proposta para melhor conhecermos Mia Couto no seu modo de ir respondendo a estas duas questões fundamentais.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Jürgen Partenheimer e a realidade para além do visível.

 

'Images do not capture particular moments, nor do they comment on the absence of what is represented. Rather, they show the presence of what was felt, as a presence of the awareness that is concerned with the causes [aitía] and the principles [archai] as described by Aristotle in the first book of his Metaphysics. Images are projections of sensations. They image our conceptions and feelings, giving us an idea of the world we have seen and thought.', J. Partenheimer, 1991

 

A obra do artista alemão Jürgen Partenheimer (1947) está enraizada na abstração e implica uma interconetividade constante entre o desenho, a pintura, a escultura e a cerâmica.

 

Para Partenheimer a essência da criação consiste em fazer sem razão e em criar um discurso filosófico e poético que transite entre a realidade e a imaginação, entre o que é físico e a experiência espiritual.

 

As linhas desenhadas são frágeis, delicadas e descontínuas. As formas e as cores são suaves mas firmes e precisas.

 

'People go out to admire the summits of the mountains and the waters of the sea, the flow of rivers, the expanse of the ocean and the paths of the heavenly bodies, and while doing so they lose themselves.', Santo Agostinho

 

Para Partenheimer, a arte deve revelar o espírito humano e contribuir para dar sentido à unidade da criação e do cosmos e ajudar na descoberta da verdade (que implica a coexistência constante da dúvida e da esperança; da sensibilidade e da racionalidade; da estultícia e da sabedoria; da natureza e da ficção).

 

Lê-se no texto 'Wanderings - Real Experience and Artistic Form', de Uwe Wieczorek que o mundo das formas criadas por Partenheimer parece criado simultaneamente através da lente de um telescópio e de microscópio. Não há certeza acerca da escala das formas, das linhas, das manchas, das cores que flutuam nas suas pinturas. Todas emergem de uma visão que vem de dentro. Pode falar-se de paisagens macrocósmicas que são traduzidas pelo artista através de mapas. As construções pictóricas são ambíguas - combinam elementos figurativos e abstratos, proximidades imediatas e distâncias longínquas. Partenheimer revela que deseja mapear 'the realm of the universal song-lines and dream paths, but also the realm of the sky between the clouds, of day dreams and of the spiritual, as well as the space of time between breathing in and breathing out.' 

 

Partenheimer anseia tocar, através dos instrumentos da arte, em áreas da existência que são fluídas, transitórias, imateriais e intangíveis. Fenómenos variáveis e mutáveis são objeto da sua atenção. O artista cria formas através de imagens desfocadas, revelando incertezas. As suas pinturas são como que ritos de passagem entre o tocável e o intocável, são fronteiras, intervalos, pontos de conversão, mudanças de posição. 

 

O carácter automático, gestual e espontâneo de alguns dos seus trabalhos revelam uma aparente incompletude e correspondem ao conceito de forma aberta e espiritual que derruba a barreira entre o físico e o mental. Não são realidades que são reveladas, são fenómenos. Não transportam pensamentos racionais, são entendimento direto. Assim, Partenheimer consegue criar uma distância concreta em relação aos objetos que são materiais.

 

'At the top of the wave you put the telescope to your eye. The imagination is reflected a thousand times within the confines of the sea. Who, if not us, will sound out the spaces in between, will deregulate the senses? Science, dream and digestion.', J. Partenheimer 

 

Ana Ruepp

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