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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

 

Carta ao meu tio Victor

 

Pois é voltei a dizer que o tio é bastante alto. É o tio do fato quase branco, suspensórios e chapéu azuis- mar, olhos fundos e mãos de aristocrata e que me espera na plataforma do comboio como um príncipe quando até si chego vinda de lá do meu lugar. Também disse que o tio tira o chapéu para me abraçar e me pergunta sempre: foi boa a viagem? podemos almoçar no mesmo restaurante? E lá vamos num transporte público, um de frente para o outro, e eu a ouvir as descrições dos motivos das casas serem fatiadas, terem azulejos ou outras características que as releve na sua opinião.

 

Depois vem a tarde quente na sua sala de avançado envidraçado. Conversamos. A PIDE é sempre tema ou o tio não tivesse de ir buscar forças e perdê-las quando o colocaram de estátua na prisão de Caxias. A política é por si falada com sarcasmo e não entendo bem porquê e o tio sabe disso. Digo sempre.

 

O nosso jazigo de família também é tema; ou por ser visitado pelas viúvas da vida, ou para lembrar que o sino toca e nestes casos os caixões ouvem e por isso, num futuro, imaginando-nos lá dentro, nos faz logo ali decidir rejeitar o apartamento e ir conhecer a terra funda ou as brasas, depois se vê.

 

E continuamos tarde fora a falarmos de partidas e chegadas à vida que o tio me quer fazer saber. Também falamos de livros e dos pardais rasantes ao solar, sobretudo quando junto à porta da cozinha tudo nos cabia na palma da mão ou casa não fosse lar, e as criadas o bem-estar dos quartos de antigamente.

 

Também disse que dou muitas vezes com o tio a espreitar de lado o meu sorrir e o meu olhar, a confirmar a minha total parecença com a minha mãe e a dizer-me o quanto relê as minhas cartas e nelas eu a crescer e eu bem as vejo pousadas na mesinha ao nosso lado, empilhadas com rigor.

 

Sobrinha, que te quero tanto tirar um medo de entre os que irão aprontar-se no teu caminho. E afinal nem o terem-me feito de estátua me faz saber como limpo o caminho aos teus passos.

 

E de casaco já vestido ouço-o chamar um táxi. Está na hora do comboio. Diz. É tempo da plataforma do adeus.

 

Antes o tio recordou-me de novo: estou a ficar tão feio e já tremo de velhice. Ando a sentir-me sempre com margaridas de outono. Espero por ti de novo. Quando voltas? Gostava de te explicar melhor o que me levou a fazer engenharia. Ai eu e os comboios! Não há forma de lhes escapar. E vês? já faço chantagem para que venhas antes que eu não possa. Antes que eu não tenha qualquer história, qualquer comboio.

 

E foi assim, não foi tio meu? Porque é só isso que quero agora que lhe escrevo: saber se foi assim naquele dia.

 

Beijo

Sobrinha 

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017

Simone Veil

 

Numa entrevista à France Culture em 2010 garantia: «Não tenho vontade de chorar com os livros, já chorei demasiado na minha vida».

Simone Veil

 

Julgo existir uma equação secreta do saber melhor entendida nas fotografias que remetem para a vida e para a morte.

 

Vi sempre Simone Veil como a mulher que conheceu a essência dos vivos e dos mortos ou do que ambos persiste.

 

Atravessou uma barreira em sentido oposto quando na luta bem sabia que só deste modo algo perduraria. Vejo-a como exceção numa memória indelével e nunca selada. Sinto-a como uma exigência repetida no transpor das fraturas face a novos destinos. Do seu pensar e do seu agir surgiram dificílimas decifrações que até nos pareciam transparentes, familiares. Quantas vezes as suas palavras transportavam o fulgor do inexprimível convocando a claridade e que o demais mundo intentasse.

 

Estarei atenta. Sempre.

Saudade

 

Teresa Bracinha Vieira

Julho 2017