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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

    Recordo que, em carta recente (?), te escrevia: «Insisto, Princesa de mim, perdoa-me por isso, nessa minha experiência espiritual da mágoa. A tal que nos vem desde o berço, sim, porque Deus nos quis livres, e a ternura é difícil». Adiante te direi mais desse labirinto interior, onde intimamente em mim nem todas as mágoas encontram saídas. Mas, antes disso, deixa-me lembrar-te ainda de que muitas vezes te repeti a minha perplexidade - posso mesmo afirmar que se trata de repugnância - perante esse mito da expulsão do Paraíso, pena e cumprimento de um castigo tremendamente injusto (porque será sequer desobediência querer conhecer o bem e o mal?), sobretudo por ser original e transmissível de culpa a gerações sucessivas. A menos que se trate, como te escrevia, de uma «parábola do nosso lançamento à liberdade própria»... Ou, se preferires, uma exigência de inteligência nossa, enquanto resposta ao desfio do mistério. E eu contrapunha à narrativa do Génese, trechos da primeira epístola de São João... Já depois de te ter enviado a carta, li no Figaro Littéraire uma entrevista à romancista francesa Sylvie Germain, em que esta afirma (traduzo): Sinto-me como agnóstica cristã, por falta de certeza. Todavia, regresso sempre ao texto inesgotável dos Evangelhos, e sinto-me interrogada, com atenção retida, pela proposta de sentido que eles oferecem. O que me atrai num pensamento é a libertação que ele traz, o espaço interior que nos abre, o crescimento de vida que suscita. Eis o que encontro especialmente e subtilmente desenvolvido nos Evangelhos. Jesus remete incessantemente aqueles que encontra à sua liberdade, é por isso que a sua mensagem mexe com a gente - coisa que lhe censura o velho Inquisidor de Dostoievski - porque nos obriga a pensar pela própria cabeça. Uma religião muito codificada, com um corpo de regras estritas, é, de certo modo, mais confortável, alivia-nos do tormento das dúvidas e das decisões a tomar. Jesus nada impõe, convida-nos a segui-lo, sem balizar o caminho.

 

   A referência a Dostoievski é tirada de Os Irmãos Karamazov, a um trecho, que também já em carta antiga te transcrevi, dum capítulo que Sigmund Freud considerou ponto altíssimo de toda a literatura mundial. A mim - mesmo correndo o risco de novamente me apontares excesso de misticismo - estas reflexões levam-me sempre ao cerne da minha respiração espiritual, a esse drama íntimo, sempre magoado de dor e, todavia, a estoirar de ignorada alegria, esperando vir a ver tudo sobretudo quando mais cego estou. Não te falo de êxtases, antes quero contar-te o meu pensarsentir as mágoas de todos os dias... Aliás, lembrei-me hoje novamente do trecho de Os irmãos Karamazov que te citei na última carta, ao ler aquele passo do Evangelho de Lucas que diz: Quando os fariseus lhe perguntaram quando viria o Reino de Deus, respondeu-lhes: «A vinda do Reino de Deus não se deixa observar, "nem ninguém dirá "Ei-lo, está aqui!", nem tampouco "Está ali!", porque o Reino de Deus está no meio de vós». É a construção da reconciliação universal.

 

   Eis a ideia simples que tenho vindo a considerar. Se nos ferimos e sentimos dor, seja qual for a causa do ferimento ou o perfil da dor, temos a possibilidade de remediar o problema. A variedade de situações que podem causar sofrimento humano inclui não só as lesões físicas, mas também o tipo de dor que resulta da perda de um ente querido ou de uma humilhação. Assim diz António Damásio, a dado passo do seu último livro, A Estranha Ordem das Coisas - a vida, os sentimentos e as culturas humanas (Lisboa, Temas e Debates-Círculo de Leitores, novembro de 2017), título que me parece mais significativo no seu original inglês The Strange Order of Things - Life, Feeling and the Making of Cultures, talvez por "feeling" ser singular... Quero com isto dizer que, mais do que termos estes ou aqueloutros sentimentos, nós vamos sentindo. E, até no que vamos sentindo, podemos ser privilegiados. Quanta tanta gente, minha Princesa de mim, apenas pode sofrer o sentir do que lhe é imposto... Mas teremos nós de viver a condição humana, sem que sequer nos seja aberta a possibilidade de tentarmos saber porquê? Saltando uns passos, volto ao livro de António Damásio - que aqui aproveito, mas cuja leitura em sua original integridade, vivamente te recomendo:

 

   Assim sendo, a ideia simples é que as sensações de dor e de prazer, desde os diversos níveis de bem estar ao desconforto e à doença, foram os catalisadores dos processos de interrogação, de compreensão, e de solução de problemas que melhor distinguem as mentes humanas das mentes de outras espécies. Quando se interrogaram, compreenderam e solucionaram problemas, os seres humanos terão conseguido desenvolver soluções interessantes para as situações complexas das suas vidas e elaborado os meios para promoverem o seu desenvolvimento. Terão aperfeiçoado formas de se alimentarem, vestirem, abrigarem e cuidarem das suas feridas físicas, procedendo assim à invenção do que viria a ser a medicina. Quando a dor e o sofrimento eram causados por outros - por aquilo que sentiam pelos outros; pela forma como entendiam o que os outros sentiam por eles - ou quando a dor era causada pela avaliação das suas próprias condições ao confrontar, por exemplo, a inevitabilidade da morte, os seres humanos terão usado os seus recursos individuais e coletivos, cada vez mais vastos, e inventado uma variedade de respostas, desde as prescrições morais e os princípios de justiça aos modos de organização social e governação, às manifestações artísticas e crenças religiosas.

 

   Quem for capaz de limpar o seu olhar de forma a poder simplesmente contemplar o mundo, este universo que nos rodeia e em que necessariamente nos encontramos e deveríamos encontrarmo-nos, saberá perceber, sem comer do fruto proibido, maçã, romã, figo ou hardcore, que todas as propostas de eterna juventude, fatal beleza física (?) e "cool atraction",  de garantida riqueza material, de ótimos lugares celestes comprados por indulgências (sendo este um produto em manifesta perda de quota de mercado e valor bolsista) valem hoje tanto como pretensos títulos vários e prerrogativas, isto é, como Jesus ensinava e ainda hoje ensina : zero. Limpas as peneiras, o sol ilumina a nossa interrogação fundamental: como é que, ao confrontar, por exemplo, a inevitabilidade da morte, os seres humanos...inventaram uma variedade e respostas desde as prescrições morais e jurídicas às artes e às crenças religiosas?

 

   Numa entrevista, muito bem conduzida por Filipa Melo, à revista LER, Frederico Lourenço, a dado passo, afirma: O Antigo Testamento dá-nos respostas completamente antagónicas, relativamente a uma pergunta fundamental: o que temos de fazer para agradar a Deus? Os profetas eram homens que consideravam os sacrifícios em honra de Deus completamente inúteis. [Lembro-te de que essa conversa vinha por ocasião da recente publicação da tradução, pelo F. Lourenço, dos livros proféticos da Bíblia, diretamente da versão grega conhecida por Septuaginta]. Entendiam que não é isso que Deus quer dos seres humanos. Ao passo que, por exemplo, nos textos mais dogmáticos do Pentateuco (Levítico ou Deuteronómio sobretudo) está muito claro que aquilo que Deus quer de nós é que lhe prestemos sacrifícios e que estes só podem ser realizados no Templo de Jerusalém. Não podemos fechar os olhos a estas diferentes questões, abordagens e diferentes formas de entender Deus. A meu ver, põe o tradutor - que se esforça por nos trazer os textos que verte para português tanto quanto possível bem dentro da respetiva circunstância histórica e linguística - a questão no seu sítio. De certo modo, ele fica bem próximo da intuição íntima de Silvye Germain quando ela diz o que me atrai num pensamento é a libertação que ele traz, o espaço interior que nos abre, o crescimento de vida que suscita. E ambos se encontram, afinal, nesse esforço coletivo e vital dos seres humanos para, como disse António Damásio, encontrarem respostas. Pessoalmente, fui buscando abrir caminho pelo sentimento da mágoa, e da mágoa sentida como comunhão.

 

   O que me magoa não é apenas ofensa, insulto ou agressão recebida, é igualmente toda e qualquer que, com maior ou nenhuma intenção, eu tenha infligido. A mágoa, Princesa de mim, nunca é só minha nem só tua, tampouco a alguém exclusivamente dói. É-nos comum, sempre todos nos magoamos - assim a pensossinto como recusa de regresso à culpa inútil, à escusada violência, à primitiva desumana condição... Os profetas antigos e Jesus Cristo anunciaram que o agrado de Deus não é o sacrifício, mas a misericórdia. E esta não é "ter pena de", é querer bem, socorrer quem nos ofende como quem ofendemos, sofrer a mágoa como vocação à liberdade para o bem comum. 

 

   Chegou-me há pouco, pelo correio, o Jesus - L´Encyclopédie (Albin Michel, Paris, 2017) e corro a ler o texto que Joseph Doré, o diretor da obra, pediu a Sylvie Germain, de quem te falava acima. Traduzo-te apenas o trecho final:

 

   Tudo está cumprido - a missão divina, a aventura humana, a secreta e sublime revolução da salvação tecida pelo Verbo nos corações e nos espíritos que dela ainda não ganharam consciência. Que aqueles que têm um ouvido interior escutem o inaudito apelo neles lançado por essa revolução.

 

 

   Tudo está consumado - o sofrimento, a agonia, o pavor perante os abismos de desconhecido que por toda a parte se vão abrindo. Os zero dilatam-se, rasgam-se. O órfão de seus irmãos humanos e de seu divino Pai entrega o seu espírito nas mãos desse mesmo Pai, por amor de uns e do Outro. A morte agarra o Vivo.

 

   Retorno. Tudo pode começar - o insuspeito, o inesperado. O Vivo agarra a morte, ceifa-a, arruína-a. Todos os zeros explodem, mudam-se em infinito, em movimento, em energia nova. O espírito do Filho do homem depositado nas mãos do Deus ausente vai buscar a esse poço vazio a luz na sua fonte, a vida na sua eternidade, e põe a nu o esplendor do desnudamento de Deus. Esplendor de um mistério desvendado enquanto mistério, para sempre assim e sempre irradiando a humanidade de espanto e de interrogações, de carência e de desejo.

 

   De mágoa, digo-te eu, prenhe da esperança da alegria.

 

   E recordo Mestre Eckhart, de quem tanto te falei já. Mas, nesta pilha de correio que uma carrinha trouxe até este apagado destino, acho também Le Figaro de ontem, 5ª feira, 23 de novembro. Na página dedicada às ideias, encontro um artigo de Charles Jaigu, resenha da versão francesa (L´Ordre Étrange des Choses) do tal último livro de António Damásio. Respigo logo uma legenda a uma fotografia do cientista português que, com o inevitável chauvinismo gaulês [no Monde des Livres, ele até é apelidado de le neurologue américain...], se escreve: «Les sentiments tiennent l´esprit informé du corps, ils sont les adjoints du "dur désir de durer" - António Damásio, citant Paul Éluard»... Do poeta francês, Princesa, é só o verso "duro desejo de durar", que o texto do artigo informa ter estado afixado por Damásio na sua banca de estudante... Tal não prejudica, todavia, a resenha feita, que, aliás, refere que o autor português exigiu que todas as traduções retomassem esse belo título : A Estranha Ordem das Coisas.  E diz porquê: Porque se trata de mostrar como, na verdade, é muito estranho o curso da vida que, desde o primeiro começo, reitera obstinadamente a mesma estratégia de evitar a dor e sobreviver a qualquer preço. Damásio dá a essa coisa estranha um nome que os estudantes de medicina conhecem bem: homeostasia, ou como os seres vivos perseveram no seu ser o mais tempo possível. Esse fenómeno químico começa com o aparecimento das primeiras bactérias, há quatro mil milhões de anos. Desde logo reagem a sinais positivos ou negativos. Damásio batiza essas condutas de atração ou de repulsão, «emotividade» primitiva das células. Desses primeiros tijolos decorrerão os sistemas nervosos, e depois, nos animais e nos homens, a capacidade de cartografar o mundo, de o representar de maneira reflexiva graças à produção de imagens neuronais. Ao jeito dos filósofos vitalistas, este livro medita sobre as estratégias de regulação da vida, que se aguenta mesmo quando uma catástrofe exógena, meteorito ou glaciar, elimina 95% dos seres à superfície da terra. Afinal, talvez reencontremos, pela senda de outra disciplina científica, o mesmo impulso de cosmogénese que Teilhard de Chardin defendia. Se não fui o primeiro, terei sido certamente dos primeiros tradutores de Teilhard para português, há mais de meio século. Tal como verti, na nossa língua, obras várias sobre o autor de La Place de l´Homme dans la Nature. E para sempre guardei essa crença numa "lei" da complexidade crescente, e no advento da noosfera. A perspetiva biológica do pensarsentindo humano que António Damásio explora e investiga não tem de se pronunciar sobre a vida post mortem, apenas analisa essa espantosa realidade que é a perseverança do ser, que arranca com as mais primitivas e simples formas de vida até à formação de culturas e religiões. Lembro o que ele escreve a páginas 241 da 1ª edição portuguesa, pelo Círculo de Leitores - Temas e Debates (2017) da obra citada:

 

   No seu começo a medicina não estava preparada para lidar com os traumas da alma humana. No entanto, podemos bem dizer que as crenças religiosas, os sistemas morais e a justiça, e a governação política visavam, em grande medida, esses mesmos traumas e tinham como objetivo a sua recuperação. Concebo o desenvolvimento das crenças religiosas como estreitamente relacionado com a mágoa provocada por toda a espécie de perdas pessoais, perdas que obrigavam os seres humanos ao confronto com a inevitabilidade da morte e com o sem fim de maneiras em que ela pode surgir... E ainda te cito outro passo do livro, que encontrei nas páginas finais, nos agradecimentos do autor: ...certos sofrimentos específicos são, com frequência, o incentivo para criações pessoais. Falávamos sobre um livro curioso ("L´Atelier de Alberto Giacometti", de Jean Genet), uma obra que Picasso considerou ser a melhor alguma vez escrita sobre a criação artística. As palavras de Genet - «A única origem da beleza é a ferida singular, diferente em cada um, oculta ou visível» - associam-se perfeitamente à ideia de que o sentimento é um motivo-chave do processo cultural.

 

   Assim também, Princesa de mim, a minha mágoa e a esperança de a ver frutificar alegria, é o solo em que se enraíza a minha fé. Parafraseando Genet, a origem da minha fé é a ferida singular de andar expulso do Paraíso, diferente em cada um, oculta ou visível... Ou, de outro jeito, relendo São Paulo: Sim, vou-vos dizer um mistério: não morreremos todos, mas todos seremos transformados. Na verdade, deverá este ser corruptível revestir-se de incorruptibilidade, e este ser mortal de imortalidade... Se me aconchega essa partogénese paulina, implicitamente também terei de pensarsentir que a imortalidade será uma transformação de tudo: a morte é uma duração interrompida, só no tempo contado pode existir.

 

   Para entendermos melhor o que acabo de te dizer, recorro a um trecho do subcapítulo The Right to Happinness de The New Human Agenda, capítulo inicial do Homo Deus - A Brief History of Tomorrow ( Harvill Secker, 2016) do professor Yuval Noah Harari, em que o autor se interroga sobre a circunstância da imortalidade que cientistas hodiernos pensam tornar realizável nos próximos anos : Some 2,300 years ago, Epicurus warned his disciples that immoderate pursuit of pleasure is likely to make them miserable rather than happy. E prossegue e traduzo: A couple of centuries earlier Buda had made an even more radical claim, ensinando que a procura de sensações agradáveis é realmente a própria raiz do sofrimento. Tais sensações são só efémeras e insignificantes vibrações. Mesmo quando as experimentamos, não lhes reagimos com contentamento; mas antes ficamos a desejar mais. Daí que, sejam quantas forem as abençoadas e excitantes sensações que eu possa experimentar, elas nunca me satisfarão. A felicidade perfeita só fora do tempo se pode obter. Quando, sem duração, descansarmos em paz.

 

Camilo Maria  

Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÃO DO TEATRO AVENIDA

 

Em 1888 abre ao público em Lisboa o teatro Avenida, situado na então ainda relativamente recente Avenida da Liberdade. Foi mandado construir por Miguel Angelo Lambertini, figura destacada nos meios culturais e empresariais. Inaugurou em 11 de fevereiro daquele ano: é de assinalar a iniciativa, num contexto urbano que, apesar do incremento decorrente da Avenida, não representava ainda o eixo cultural que viria mais tarde a alcançar.

 

Luciano Reis refere que o Teatro Avenida «registou o seu primeiro grande êxito com a opereta “O Burro do Senhor Alcaide” de D. João da Câmara, Gervásio Lobato e Ciríaco de Cardoso», autores de grande projeção na época e ainda hoje, sendo certo que a peça referida marcou uma época e confirmou a notável ainda hoje abrangência estilística e o sentido de espetáculo dos autores. (cfr. “Teatros Portugueses”, Ed. Sete Caminhos).

 

 E Glória Bastos e Ana Isabel Vasconcelos evocam o Teatro Avenida, reproduzindo a descrição feita na época por João Paulo Freire:

“Teatro acanhado, sem segurança para o público, em caso de incêndio, embora lhe tornassem obrigatória uma saída pela porta lateral. Entalado entre prédios de diminutas dimensões, o corredor que serve o bufete é de tal forma acanhado que em noites de enchente quase se não dá um passo. Exteriormente não tem recomendação possível. Internamente, à parte os defeitos já apontados, é simples mas gracioso”.

 

Acrescentam as duas autoras citadas que o Avenida foi explorado por sucessivos empresários de prestígio na época: Luis Galhardo, Luísa Satanela e Estêvão Amarante, Maria Matos e Mendonça de Carvalho e, anos depois, pela Nova Companhia do Teatro de Sempre, dirigida por Gino Saviotti, o qual marcou uma presença de grande qualidade no meio teatral português como diretor de companhia, como crítico e doutrinador e como professor no Conservatório Nacional. (cfr. “O Teatro em Lisboa no Tempo da Primeira República”, Ed. MNT 2004, pág. 50).

 

E assinala-se que a última empresa citada muito contribuiu para a atualização, digamos assim, dos repertórios tal como nesses anos 50/60 do século passado eram explorados em Portugal.

 

Mas voltando à época da fundação do Teatro Avenida, encontramos num autor francês já aqui citado, Henry Lionnet, uma descrição no mínimo desconfiada para mais não dizer, da exploração artística do Teatro Avenida.

 

Lionnet escreve em 1898. Começa por elencar os teatros - edifícios em Lisboa e no Porto e classifica-os basicamente a partir dos repertórios habituais, atribuindo ao Teatro Avenida uma como que vocação “para a opereta popular e para a revista”, o que significa de certo modo uma desqualificação relativamente a outros teatros em Lisboa e no Porto.

 

E afinal, ao longo do século passado, repita-se, o Teatro Avenida não poucas vezes marcou a cultura cénico-dramatúrgica da época!

 

Enfim: em 13 de dezembro de 1967, o Teatro Avenida, dirigido então por Amélia Rey Colaço na sequência do incêndio do Teatro Dona Maria II ocorrido em 1964, arde também!

 

Lá estive no dia seguinte. E escrevi então estes comentários que aqui reproduzo:

“O Avenida era um teatro feio, incómodo, anacrónico; muito embora - era um teatro. E hoje é um monte de ruínas que necessariamente nos fez lembrar, quando as visitamos na manhã do desastre, as ruínas do palco do Variedades, as ruínas do D. Maria II, as ruínas do Ginásio”.

É que todos estes teatros arderam!

 

DUARTE IVO CRUZ 

 

 

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

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      XXXI - IDADE MÉDIA

 

Platão interpretava o mundo terreno, em que vivemos, como uma cópia grosseira, imperfeita, findável, deteriorável, transitória e mortal de outro mundo eterno, de beleza e perfeição: o mundo das ideias. Este mundo ideal ajustava-se com a ideia de céu, de paraíso, com a criação divina, sendo esta entendida, de certo modo, como a concretização material das ideias de Deus.

 

A obra deste filósofo grego influenciou decisivamente a filosofia cristã de Santo Agostinho e de outros mentores da Igreja, em que os crentes aspiram a um mundo de bem, beleza, eternidade e perfeição.

 

Aristóteles, ao invés de Platão, defendia que a beleza, a perfeição e outras ideias superiores se encontram neste mundo, podendo nele ser criadas por uma observação e experiência atenta e inteligente.

 

Influenciou grandes nomes como São Tomás de Aquino e Alberto Magno, que adaptaram a sua doutrina aos ensinamentos bíblicos, passando a ser conhecido por escolástico o ensino aristotélico, oficialmente aceite pela Igreja.

 

Fosse a opção filosófica mais abstrata e adequada a desviar da terra a atenção humana (platónica) ou mais ligada ao concreto, observação e experimentação (aristotélica), a igreja era o centro nuclear da vida de relação das pessoas e o lugar onde todas as populações medievais confluíam, mesmo quando surgiram as primeiras manifestações humanistas abrindo caminho para o Renascimento.

 

A arte em geral, quer numa perspetiva platónica ou aristotélica, era uma imitação ou representação, e mesmo se tida como engano ou uma saudável mentira, tinha por base o teocentrismo, a teocracia ou governo de Deus, tendo Deus como o centro de tudo.

 

Natural e lógico que na história, literatura, teatro, arquitetura, escultura, pintura e artes tidas como menores, a religião se entrelaçasse à vida, emoções e sentimentos das pessoas, com as cruzadas, temas de inspiração religiosa (milagres, mistérios, vida de santos), catedrais românicas, góticas, escultura e pintura religiosa, cuja missão era transmitir ao público analfabeto e inculto os dogmas e verdades da fé, em que baixos-relevos, frescos e vitrais eram “A Bíblia dos que não sabem ler”

 

Há uma exaltação e glorificação do sagrado, do divino, ora convidando ao intimismo, recolhimento e à prece do românico, ou à alegria e otimismo do gótico.

 

Na pintura plana medieval, de inspiração cristã, contemplação, celebração e louvor do divino, as coisas apresentam-se à mesma distância do observador, de modo uniforme, em largura e altura, em duas dimensões, sem profundidade e sem as leis da perspetiva.

 

A Virgem com o Menino Jesus, rodeada de Anjos, de Cimabue, do século XIII, é um exemplo, em que sobressai como fundo uma superfície dourada e uniforme.

 

Também a pintura medieval das igrejas ortodoxas são exemplos representativos.

 

26.12.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

 

 

CRÓNICA DA CULTURA

 

CINTILAÇÕES

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande. Ele sabia do seu posto de vigia que mundos eu espreitava e que ele unira como uma tribo que em comum afinal possuía a religiosidade.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e senti o quanto ele se separou dos seres intermédios na busca do significado armilar dos mundos com vocação de abraço.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e entendi um especial significado sagrado e simbólico de matar para entreabrir portas como quem oferece o beijo quente do êxtase inaugural de um conhecer.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e toquei no início dos caminhos dos grandes sistemas que explicam o que se prescreve e se permite e o quanto a história nos fala também num tom piedoso e repreensivo como quem nos diz que afinal, um dia, não se pode evitar fazer de outra maneira e só na caça cumprimos os vestígios do nascimento do homem, sempre que o homem não mate apenas para obter a presa.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e ciumei o seu perceptor Aristóteles e a sua Macedónia e o seu ímpeto de unir impérios e fundar Alexandria onde hoje procuro uma vez mais o Livro.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande aquele que expandiu o helenismo também rumo ao Oriente, aquele que erigiu Bucéfala no atual Paquistão, em memória do seu fidelíssimo cavalo que se assustava com a própria sombra e se deixou domar contra o Sol: cintilações.

 

Um dia espreitei e escutei Alexandre o Grande através do Somewhere in Time, disco da banda inglesa Iron Maiden e creio ter intuído o Helesponto, a atual Dardanelos, estreito na vida de cada um com o grande passo por dar.

 

Um dia, eu quero espreitar cada um a desembainhar a espada com a qual cortará o nó górdio que impede a revelação das múltiplas verdades, esse que impede a alma do ofício do entendimento, e sem nunca revelar o mistério completo, eu quero espreitar a grande nobreza a prometer-se de novo no Ano que chega, a despedir-se do ano que finda e a cumprir-se na notícia do tempo que todos os seres vivos têm para a mudança.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e soube disso na caça das palavras evocativas do… Que sabias realmente?

 

Teresa Bracinha Vieira

Obs Publicado em 27.12.09 no blogue de José Adelino Maltez “TEMPOQUEPASSA”

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

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   LEAL SOUVENIR
 

  1. Por que é que se volta repetidamente a certos lugares que, de viso próprio, nunca escolheríamos? Por que é que se malogram sucessivamente visitas a outros certos lugares, tanto e há tanto tempo desejadas? São duas perguntas sem resposta ou com a mesma resposta que não obtemos quando nos perguntamos o que nos leva a encontrar sucessivamente quem não buscámos nem buscamos ou a desencontrar, com a mesma irregularidade, aquela ou aquele que procurávamos e procuramos. Os acasos têm as costas largas e eu sou daqueles que nunca acreditou na dimensão delas. O que tem que ser tem muita força e raramente se acha força que a contrarie. Lembrei-me disso, em Rimini. Como julgo que já expliquei aqui uma vez (com a idade, a gente repete-se) Rimini nunca foi cidade que eu buscasse. Ora (cf. Público, 8 de novembro de 2002, "Fellini de Rimini") por duas vezes em dois anos seguidos me achei nessa cidade, por obra e graça do mesmo Fellini, cuja obra nunca foi da minha graça. Basta o Templo Malatestiano para obrigar alguém como eu a visitar essa cidade? Basta. O elefante e a rosa. Alberti e Piero. O galgo branco e o galgo negro. A imaculada conceição do Renascimento, necessitas, commoditas, voluptas. Mas não eram coisas minhas, antes de as ver, e eu raramente vejo o que antes não era já meu. Só agora sei que um dia seria. E só agora sei que quando "voei" de Alberti para Bramante e do Templo de Sigismondo para as cúpulas de Santa Maria delle Grazie (é mesmo Grazie, caríssimo Manoel de Oliveira) fiz o "raccord" mais perfeito que se pode fazer entre os cumes do renascimento arquitetónico italiano. Mas não é do Tempietto que hoje vou falar, pois que até a repetição tem limites. Desta vez, embora tenha ganho muito do meu tempo entre o galgo negro de Piero e os rabinhos redondos dos mil "putti" de Isotta degli Atti, os meus passos levaram-me para o museuzinho da cidade, onde eu sabia que podia ver um Bellini que antes muito vira (uma Pietá com anjo cor de rosa). E eis que, de súbito, nessa sala, se me atravessa uma estátua de Santa Catarina (a de Alexandria, não a de Sena) datada de 1410 e atribuída ao "Mestre da Anunciação Dreicer" que não sei quem foi mas me soube a Dreyer. É uma estátua de pedra branca com vestígios de policromia. Não é muito alta (1 metro e 30) mas, como a colocaram em cima de um plínio de 40 cm, a cabeça dela ficou quase à altura da minha. Veste um longo manto de pregas que a cobre inteiramente do pescoço aos pés (nenhuma carne visível) e usa uma cabeleira de anjo muito encaracolada. Mas o que me hipnotizou foi o sorriso, um sorriso inenarrável, sossegadissimamente meigo e sossegadissimamente desafiante. Tão desafiante era que, aproveitando o facto de estar sozinho na sala, me aproximei para lá de todos os critérios aconselhados pela mais benevolente segurança. Os olhos da estátua são daqueles que olham frontalmente quem frontalmente os olha a eles. Um dos olhos é cego ou ficou cego de tanto ver. O outro, pelo contrário, olha todo, olha tudo. Assim, quase "cheek-to-cheek", fiquei colado a ela. Ninguém nos interrompeu. Numa vasta sala, solitária e gelada, o meu vulto e o vulto dela, ficaram de corpo-aberto, benzedeiros e videntes, como se diz dos corpos onde entrou um espírito, que dentro dele fala. Como Quinto Fábio Pictor quando foi a Delfos consultar o oráculo e inquirir dos meios mais adequados para alcançar favores divinos. Hawthorne, que como ninguém sabia destas coisas (ele me deu ou dará o título "Proféticas Imagens") falou de experiência semelhante em "The Marble Faun". Sinais de alma que, no mundo, só algumas mulheres têm. E algumas estátuas e alguns quadros. Como a minha - a de Bronzino - Lucrezia Panciatichi, que há seis décadas me vela e me desvela, "Amour Dure-Dure Amour", Madonna do Futuro, Madonna do Passado, como, antes de mim, para Henry James já fora. Como Milly Theale reencontrada.

 

  1. A fotografia, desde os tempos imemoriais em que eu brincava com retratos avoengos de Mniz Martinez, com moradas na Rua de Serpa Pinto nº 66 e no Largo da Abegoria 4 ou da Helios Photos, com moradas na Avenida da Liberdade 158 ou na Rua de S. José 209 A; a pintura, desde os tempos mais memorizáveis em que abri as Janelas Verdes; tinham-me dado visões semelhantes. A pedra ou o mármore, jamais. A tal ponto que essa estátua dreyeriana (não é gralha) se me sobrepôs à "morbidezza e diligenza" (Vasari o disse, que raramente se enganou) dos vários Malatesta que estão aos pés de S. Vincenzo Ferreri, na pala com o nome do Santo, que é a obra máxima exposta no museu. Ghirlandajo a pintou em 1493, quase cem anos depois de esculpida a Catarina, e, muito mais impressivos do que os Santos adorados (além do "protagonista", os inseparáveis São Sebastião e São Roque) são os adoradores: Pandolfo IV Malatesta, que foi o último senhor de Rimini (tão fraco guerreiro como bom negociante, pois que por duas vezes vendeu a cidade que não conseguiu defender) a mãe, Elisabetta Aldobrandini, a mulher, Violante Bentivoglio e o irmão Carlo. Todos eles, luxuosíssimante vestidos e com a raça imaginável pelos apelidos, não sendo retratos autónomos (figurantes ajoelhados da cena supostamente sacra), em pouco espaço, se volvem para a expressão ideal a que só a "alta immaginazione" pode aceder. Ninguém olha ninguém. Ou seja, não se olham uns aos outros nem olham os santos. Mas é da perna, fugazmente nua, do pestífero São Roque, que desce a carne que os torna tão palpáveis e frementes. Pensei na implausibilidade (para não dizer impossibilidade) de um nariz como o de Pandolfo, a começar quase no meio da testa e a seguir retilíneo quase até à boca, um nariz quase tão soberbo como o do Medicis de Botticelli ou o do Montefeltro de Piero. Na noite desse mesmo dia, jantei com uma italiana que tinha um nariz quase igual. Em Itália nunca se sabe se é a natureza que copia a arte ou se é a arte que copia a natureza. Provavelmente, nem uma nem outra coisa. Os retratos são a mais imaginosa das nossas memórias, ou as mais perduráveis imaginações nossas.

 

  1. Não estou a dizer nada que não tenha sido dito e redito. Só que nos esquecemos de o lembrar. "Nothing, in the whole circle of human vanities, takes stronger hold of the imagination than this affair of having a portrait painted. Yet why should it be so? The looking glass, the polished globes of the andirons, the mirror-like water, and all others reflecting surfaces, continually present us with portraits, or rather ghosts of ourselves, which we glance at, and straightway forget them. But we forget them only because they vanish. It is the idea of duration - of earthy immortality - that gives such a mysterious interest to our own portraits" ("Dentre todas as mundanais vaidades, nada tem mais forte poder sobre a imaginação do que esta coisa de possuir um retrato pintado. Porquê? Porque é que isso acontece? Os espelhos, as vítreas placas das salamandras, a água e todas as superfícies refletoras continuamente nos oferecem retratos, ou, melhor dito, espectros de nós próprios que olhamos de relance e imediatamente esquecemos. Mas só os esquecemos porque desaparecem. É a ideia da permanência - da imortalidade terrena - que confere tão misterioso interesse aos nossos próprios retratos"). Perdi tempo e espaço a citar o texto de Hawthorne (outra vez Hawthorne) no original inglês e na aproximativa tradução portuguesa? Não, não perdi. Ganhei-o. Porque a repetição - como a permanência - estimula a memória e com ela a imaginação. Aprende-se isso no cinema ou com o cinema. Um dos primeiros teóricos dele - Giambattista della Porta - escreveu em 1602 (quase trezentos anos antes dos comboios de Lumière) que "a memória mais não é do que uma pintura inteira, guardada nessa mesa animada a que chamamos cérebro". Ars riminiscendi. Não julgo preciso explicar-vos quem nos ensinou que tudo o que fazemos não é mais do que lembrarmo-nos. E lembro-me do nariz de Pandolfo, do "azul profundo, quase noturno" de Bellini, da cor maléfica "do sumo de papoula" da Lucrezia de Bronzino, do galgo negro nascido das costas do galgo branco de Piero. E lembro-me mais e mais do sorriso evanescente e do olhar húmido da Santa Catarina, única imagem que aqui vos deixo, sabendo que não a vereis como eu a vi, "tremendo com todo o corpo" como Plutarco disse que Cassandro tremeu ao ver a imagem de Alexandre, tempo depois de Alexandre morto. 
    Uma última imagem? No retrato de Van Eyck, dito de Timoteos, que hoje está na National Gallery em Londres, lê-se a inscrição "Leal Souvenir". Penso que tudo quanto disse sobre a imagem, a memória e a imaginação, pode caber nessa expressão. E penso - parecendo que não - que tudo quanto vos confiei foram recordações leais. Não mais, não menos.

 

21 de novembro de 2003, Público. 

 

DO MELHOR DO ANO 2017 NA CULTURA

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Livro português:

Jalan Jalan, Afonso Cruz (Companhia das Letras)

 

Livro traduzido:
145 Poemas, Konstantinos Kavafis (Flop)

 

Ficção Internacional:

Lincoln in the Bardo, George Saunders (Random House)

Há tradução portuguesa: Lincoln no Bardo (Relógio d’Água)

 

Cinema:

Silêncio, Martin Scorsese

 

Cinema - Portugal:

Peregrinação, João Botelho

 

Televisão:

Handmaid’s Tale, Bruce Miller

 

Portugal - Televisão cultural:

Visita Guiada, Paula Moura Pinheiro

 

Música:

From Baroque to Fado, Os Músicos do Tejo, dir. Marcos Magalhães

 

Divulgação musical portuguesa:

RTP, Antena 2.

 

Exposição:

José de Almada Negreiros - Uma Maneira de Ser Moderno, Gulbenkian.

 

As escolhas são algo aleatórias.

Não há um júri, mas a qualidade é o critério fundamental.

Boas iniciativas culturais!

 

CNC

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 25 de dezembro de 2017 a 1 de janeiro de 2018.

 

António José Saraiva, cujo centenário ocorre a 31 de dezembro, é uma referência fundamental na história da cultura portuguesa – sobre a qual refletiu intensamente, sempre com inteligência e sentido crítico.

 

António José Saraiva

 

O ESPÍRITO DO TEMPO…

António José Saraiva sofreu influências do espírito do tempo, mas teve a grande argúcia de compreender a complexidade na evolução da sociedade e da cultura. O intelectual foi evoluindo, sendo um caso especial na procura de novas respostas aos problemas essenciais que foi encontrando. Foi sempre inconformista – mesmo nos momentos mais marcados. Não é possível, assim, compreender a cultura portuguesa, numa visão panorâmica, sem ler e estudar a sua obra, rica e polifacetada. Como afirmou em 1946, “desde o século XVI sucede-se uma série de tentativas para enraizar entre nós uma cultura que se malogram umas atrás de outras. A história da cultura em Portugal não apresenta um desenvolvimento seguido e consequente, mas estratifica-se em secções independentes: é uma série de irrupções descontínuas, não tem uma linha diretriz interna” (Para a História da Cultura em Portugal, volume I). Esta tendência não significa que não haja bons exemplos, no entanto há ausência de regularidade, o que leva amiúde à repetição e ao decaimento, que obrigam, tantas vezes, a recomeçar quase tudo de novo, com perda de energias. Faltou elite universitária. Houve um baixo nível da massa e as condições técnico-económicas desta foram frágeis… Deste modo, no caso português, os géneros literários ressentiram-se dessas circunstâncias – no longo prazo, o teatro, o romance não têm a pujança permanente que o lirismo individual apresenta. Há atrofia dos géneros que dependem de um público largo, que falta, e existe hipertrofia dos géneros compreende-se a seguir a Bernardim, ao Cancioneiro Geral e ao lirismo trovadoresco. Fernão Lopes é um génio singularíssimo. Gil Vicente representa a tensão entre o espírito tradicionalista e as transformações externas que se impunham. E importa ainda lembrar que há uma cultura dos letrados e das cortes portuguesas nesse tempo profundamente hispânica e peninsular… A literatura dos Descobrimentos e dos séculos seguintes será outra coisa. Se AJS dedicou uma parte importante do seu labor científico à literatura, a verdade é que procurou sempre ir mais além. “A literatura é a primeira tentativa de definição de problemas que a ciência determina com mais exatidão”. E essa preocupação levará o nosso autor a evoluir nas suas ideias de uma aproximação nítida ao materialismo histórico até uma perspetiva centrada num pensamento crítico liberal-social.

 

INTERROGAR SEMPRE A CULTURA

Nos últimos anos de vida, o mestre vai estar empenhado numa revisão do que escrevera. Para definir as épocas da cultura portuguesa sugeria quatro critérios: a perspetiva mítica; a relação entre topo e base, considerando os aspetos económicos e políticos; a pertença ao sistema cultural europeu-ocidental (depois da citada prevalência do peninsular); e o valor de cada época no signo linguístico e no discurso. Nesta lógica, é muito interessante a leitura dos diversos textos publicados em 1980, sob o título Filhos de Saturno – Escritos sobre o tempo que passa. São, de facto, fruto do tempo estas reflexões que correspondem ao tratamento dos temas e problemas que preocupavam o intelectual. Os textos de 1974 (desde “Cravo de Maio flor da liberdade”) e 1975 são muito marcados pela esperança e pela crítica (de quem tinha autoridade para a fazer) sobre os caminhos e os perigos da democracia nascente. E a cada passo, lemos, uma simbiose entre o espírito sistemático, a necessidade de cultivar a liberdade crítica e o apelo ao despertar das consciências para uma cidadania ativa. O artigo do “Diário de Notícias” intitulado “O 25 de Abril e a História” (de janeiro de 1979) sobre a descolonização suscitaria polémica acesa e foi ponto de partida para um debate apaixonado no Centro Nacional de Cultura, que serviu de base a um dossiê fundamental da revista “Raiz e Utopia” – aliás fundada por AJS e prosseguida por Helena Vaz da Silva. Hoje, ressalvadas as distâncias, mas conhecendo os dramas da história das últimas décadas, compreendemos a posição assumida – e temos de saudar a coragem e a hombridade de quem considerava, na linha dos homens de A Tertúlia Ocidental, que só com ideias e com a audácia de as exprimir poderemos avançar.

 

IRONIA PERFURANTE

Interrogador da identidade portuguesa, considerava que nos habita um espírito de ilhéu, “oscilando entre a aventura fora e a passividade dentro, ou ainda, vivendo a aventura pela imaginação, sem sair do mesmo lugar”. O português inferiorizar-se-ia, “refugiando-se numa autoironia perfurante, como a de Eça de Queirós, ou numa autocrítica flageladora da sua própria história, como em Oliveira Martins; ora incha o peito para desafiar o mundo ou para o conduzir…”. Trata-se da ciclotimia de Eduardo Lourenço em O Labirinto da Saudade – bem enfatizada por Ernesto Rodrigues na introdução a Filhos de Saturno. É o humor de Rafael Bordalo Pinheiro com Zé Povinho entre a chacota e a autoironia, que leva ao sarcástico “Panegírico do oportunista”, sobre os perigos do conformista e do competente talentoso que singram pela adaptação às circunstâncias. Mas há ainda a “dificuldade de ser” do português, a misteriosa coita (“gosto de ser triste”), talvez agravada pela subalternidade da Corte na Aldeia nos sessenta anos filipinos, e presente na dualidade entre “desafio triunfante e dificuldade de assumir tranquilamente esse triunfo” (E. Lourenço), já visível na crítica de Gil Vicente. Leia-se o ensaio perscrutante sobre o sebastianismo (“Loucura e História”) e compreenda-se como AJS admirou a Geração de 1870 como exemplo de uma crítica consequente baseada nas ideias, não derrotista ou niilista, não caída na tentação do fatalismo. Pensa, assim, como Sophia, “que a nossa crise é antes de mais uma crise moral. É essa que está na raiz de todas”. E em carta a Óscar Lopes é claríssimo: “A verdadeira revolução terá que ser espiritual. O homem é agora feito por e para o mercado (…); o que é preciso é que o mercado seja feito para o homem”. E dirá ainda: “a ‘idade da abundância’ é, na realidade, a mercantilização total da vida, a destruição de todos os valores que não se transformem em moeda”. Quando conheci pessoalmente AJS estava embrenhado em A Tertúlia Ocidental (Gradiva, 1990). Tendo estudado Antero, Oliveira Martins e Eça de Queirós, procurou neles uma síntese desafiante para hoje. E admirando Oliveira Martins, dizia: “considerava os seus livros como preparatórios eficazes de uma ação política em que apostou a sua vida. Ele não distinguia os dois planos: o da narração e o da ação, o dos símbolos e o da prática. Procedia como se o passado não fosse um cortejo de máscaras com o seu compasso próprio mas sim como se o passado fosse o antes do presente marchando ao mesmo passo e como se o presente fosse a continuação do passado, estando a diferença entre ambos unicamente na distância a que se encontram do observador”. Eis a síntese do que procurou! 

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença


 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em tempos de pós estudante só aprendiz a inquirir, escrevi uma dissertação intitulada A Liberdade em Espinosa. Não sei já porque escolhi o judeu excomungado da sinagoga portuguesa de Amesterdão, que, aliás, também curioso visitei... e onde me impressionou, em pleno século XX, ouvir uma comunidade judaica holandesa, mas nomeada por inúmeros apelidos portugueses (patronímicos e outros como Álvares, Fernandes, Marques, Mendes, Fonseca, da Costa, Teixeira da Mota, Ribeiro, Pinto, eu sei lá!...) recitar uma oração "pela Rainha e a Madama sua Mãe", na língua lusa de seiscentos. Talvez tivesse essa minha opção sido influenciada por aquele que, ainda que nascido nos Países Baixos, sempre ficou também português de coração, nunca tendo deixado de falar a nossa língua, e assinando quase sempre os seus escritos como Bento, de preferência a Baruch ou Benedictus, o mesmo onomástico tendo sido gravado em três línguas no seu registo de nascimento: Bento Baruch Benedictus Marques Espinhosa, e depois d´Espinoza ou, apenas de Spinoza... Já o pai, Miguel, e o avô, Pedro, usavam os nomes portugueses para negócios e vida corrente, e os hebraicos para a sinagoga. Como Bento-Baruch faria, o Benedictus acabando por lembrar que esse judeu português quis aprender latim e escrever nessa língua da liturgia católica, que, todavia, era também a língua franca dos filósofos e cientistas do seu tempo. E, além do português e castelhano ladinos, também falava e escrevia neerlandês e hebraico.

 

   Mais certamente ainda, terei escolhido Bento Espinosa, por sentirpensar a liberdade, não como "fazer o que apetece", sem mais, mas como um atributo conatus (essencial ao ser pessoal):  Qualquer ente, tanto quanto esteja em seu poder, luta por perseverar no seu próprio ser. E, desde então, liguei esta ideia à da distinção espinosiana, não entre corpo e alma, mas entre tristeza (ou mágoa?) e alegria... A liberdade, digo eu, de cada um de nós é o direito inato à demanda da alegria.

 

   Achei há dias, entre vários escritos de Espinosa e livros sobre ele, um volume das suas obras traduzidas e anotadas por Charles Appuhn, para a Garnier-Flammarion (Paris, 1964), e bastamente percorrida de sublinhados e apontamentos feitos por um meu lápis de então. A edição de Appuhn recorre a muitas observações antes feitas por Gebhardt na versão alemã publicada pela Heidelberg Karl Winters Universitätsbuchandlung, que eu conhecera na minha passagem pela universidade renana em 1962. Não encontro, na papelada vária que por cá vou liquidando, o texto que escrevi na altura sobre "A Liberdade em Espinosa". Mas algo me diz que o mesmo espírito me terá sobrado dos sinais que hoje achei na referida edição francesa, muito próximos também das memórias do filósofo que ainda recordo. Lá iremos, não sei, quiçá em próxima carta, posto que te escrevo hoje com essas lembranças agudizadas por conversas que tenho tido com o Gonçalo, em celebração da "sua" Maria Benedicta, que tão recentemente ficou a viver só no coração dos seus familiares e amigos. E continuamente - é essa a minha fé - no coração de Deus. Ia falar-te de Espinosa, mas intrometeu-se outra história de incompreensão, de expulsão ou não-acolhimento, que te quero contar agora. Que em mim se mistura com uma incorrigível esperança numa universal comunhão na alegria. 

 

   Adiante compreenderás porque te transcrevo aqui um trecho do decreto de excomunhão de Bento Espinosa da sinagoga de Amesterdão, a 27 de julho de 1656, tinha o filósofo 23 anos. Tal herém - comparável à fatwah islâmica ou à excomunhão cristã - de Baruch (Bento, Bendito ou Benedito) reza assim, in folio 408 do Livro dos Acordos de Naçam (em português hodierno Livro dos Acórdãos da Nação, esta designando a comunidade judaica portuguesa de Amesterdão):

 

   Com sentença dos Anjos, com dito dos Santos excomungamos, apartamos, amaldiçoamos e praguejamos a Baruch de Espinosa...   ... com todas as maldições que estão escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar... Esta citação é acessível em Uma Suprema Alegria: escritos sobre Espinosa de Maria Luísa Ribeiro Ferreira (Quarteto, Coimbra, 2003) e, antes, em Espinosa e Outros Herejes, de Yirmihahu Yovel (INCM, 1993). Mas não resisto a traduzir-te, por não ter aqui à mão o texto integral em português, doutra fonte, estrangeira, o final do herém: Queira o Eterno nunca mais lhe perdoar. Queira o Eterno acender contra este homem toda a Sua cólera e derramar sobre ele todos os males referidos no livro da Lei: que o seu nome seja apagado neste mundo e para sempre, e seja do agrado de Deus de todas as tribos de Israel, afligindo-o com todas as maldições que a lei contém. E a vós, que permaneceis fiéis ao Eterno, vosso Deus, vos mantenha Ele em vida! Sabei que não devereis ter com Espinosa qualquer relação, nem escrita, nem verbal. Que ninguém lhe preste serviço, nem alguém se aproxime dele a menos de quatro passos. Que ninguém habite sob o mesmo teto, nem alguém leia qualquer dos seus escritos!

 

   Assim decidiram os rabinos e anciãos da sinagoga. Não te vou contar agora, Princesa de mim, os motivos e argumentos das acusações, de heresia e outras, que fundamentaram esse ostracismo. Nem da circunstância de tudo isso se passar num país que, apesar de tudo - dos fundamentalismos dos "religiosos" calvinistas, do liberalismo político dos republicanos do Grande Pensionário De Witt, das ambições monárquicas dos Guilherme de Orange (na raiz da atual casa reinante de Nassau)  - acolhia muita gente refugiada de países bem menos tolerantes que, aliás, os judeus ibéricos conheceriam melhor do que ninguém... Permite-me que dê um salto  afinal, o que te escrevo são apenas simples cartas familiares - e vá buscar citações a um texto da Maria Benedicta, num encontro de cristãos, já no tempo em que ela se sentira excomungada da Igreja Católica e como que entrara numa nebulosa a que João Bénard da Costa daria, entre decisão pensadassentida e saudade, o nome de Nós, os Vencidos do Catolicismo, "plagiando" um verso de Ruy Belo, que primeiro como tal se assumiu. O livrito do João Bénard que tem por título esse primeiro verso do poema do Ruy em Homem de Palavra(s) - que a seguir transcrevo - reuniu para as Edições Tenacitas, os artigos escritos para O Independente, em 1, 8 e 15 de agosto de 1997. É, tudo bem ponderado, um testemunho muito pessoal da aventura ou peregrinação espiritual de uma geração de católicos que, nos anos 50 e 60, procurava aproximar a Igreja do povo de um Portugal - que se desruralizava, industrializava e emigrava, mantinha guerra em África, sem qualquer demanda de diálogo  -, desidentificá-la do Estado Novo e suas obras - o que não quer dizer que excluísse do seu diálogo gente do regime vigente - e empenhar os cristãos nos processos de transformação da nossa sociedade numa comunidade moderna, mais livre e democrática, mais justa e mais fraterna. Falhados muitos objetivos desse movimento e desanimados muitos esforços, por inércia, desconfiança, ou mesmo oposição da hierarquia clerical, foram desertando uns e mais alguns, e sobre essa geração pairou a desolação, o desgosto da orfandade espiritual. Leio Ruy Belo:

 

               Nós os vencidos do catolicismo

               que não sabemos já donde a luz mana

               haurimos o perdido misticismo

               nos acordes dos carmina burana

 

               Nós que perdemos na luta da fé

               não é que no fundo não creiamos

               mas não lutamos já firme e a pé 

               nem nada impomos do que duvidamos

 

               Já nenhum garizim nos chega agora

               depois de ouvir como a samaritana

               que em espírito e verdade é que se adora

               deixem-me ouvir os carmina burana

 

               Nesta vida é que nós acreditamos

               e no homem que dizem que criaste

               se temos o que temos o jogamos

               "meu deus meu deus porque me abandonaste?"

 

   Pessoalmente, estive muito próximo desse e doutros grupos, sobretudo católicos, com que comungava no propósito e na urgência de uma renovação de culturas e políticas, num mundo onde já fermentavam novos horizontes. Assinei, como sabes, entre outros, o famoso "dos 101", colaborei em obras várias da Moraes Editora, respondi a uma vocação religiosa, apesar de, em certo sentido muito próprio - ou talvez em razão dele -  ter sido sempre muito reservado em qualquer adesão aos comandos de clérigos (incluindo a chamada "hierarquia"), considerados códigos de conduta canónica e sem discussão, só por provirem do clero. [Certo dia uma amiga advertiu-me de que "a Igreja não é nenhuma democracia!", ao que retorqui que a instituição clerical que açambarcava o nome de Igreja, evidentemente não era... E, mais ainda, pensava eu que a Igreja não é "cracia" nenhuma, muito menos clerocracia, mas, isso sim, a comunhão dos santos ou comunicação dos humanos em Cristo. Foi sem ilusões acerca da omnipresente infalibilidade da "hierarquia", nem qualquer temor a quem se toma por polícia de Deus, que permaneci na comunhão dos que confessam o credo dos Apóstolos e se alimentam dos sacramentos como sinais efetivos de reconciliação, isto é, da presença de Deus connosco. Igreja onde encontrei muitos humanos carregadores da Palavra, e estimo tantos ministros ordenados que não esquecem ser o seu ministério um serviço e, não, como no foro da política, o exercício de um poder. Este Natal, muito especialmente, procurarei meditar nos caminhos de reconciliação de que a incarnação de Deus num menino humano é o supremo exemplo e desafio].

 

   Mas vamos ao testemunho da Maria Benedicta, dado na sessão "Identidades, comportamentos e modos de vida" do programa Escutar a Cidade, contributo para o Sínodo da Diocese de Lisboa, em 15 de janeiro de 2015. Começou por recordar estas palavras de Martin Luther King: A minha grande preocupação é o silêncio das pessoas sensatas. Frase que retomará ao encerrar a sua intervenção, depois de ter manifestado a sua preocupação com situações e problemas contemporâneos, para a solução dos quais - ou progresso para um mundo melhor - apresentara análises, intuições e sugestões, e apelara ao diálogo e esforço comum:

 

   Como vivem, o que pensam, o que querem os jovens portugueses e europeus deste século?...   ... Que síntese fazem do percurso dos mais velhos?

 

   Em relação ao futuro, o que pensam, em que acreditam, o que esperam as gerações de "entre-séculos"? Que sociedade lhes interessa? Quanto estão disponíveis para a construir? Onde estamos agora? Para onde vamos?

 

   A Maria faz então uma longa referência ao projeto de estudo da Comissão Europeia intitulado Os jovens enquanto motores de mudança social. Podes e deves ler integralmente, Princesa de mim, esta contribuição da Maria para uma reflexão cujo objetivo será averiguar:

 

   - quais são as normas e os valores que esses jovens reconhecem e quais as suas atitudes em relação a múltiplos aspetos da vida social;

 

   - quais são as suas expectativas em relação às políticas públicas e à organização da vida económica, social e privada, incluindo a organização das cidades e a ética dos negócios;

 

   - qual é a orientação e a disponibilidade dos jovens para serem o motor da transição para formas inovadoras da vida individual e coletiva na Europa, num quadro intergeracional e intercultural.

 

   Consulta em linha, na rede, o sítio escutar a cidade. Com o impulso à abertura e participação da Igreja nos diálogos interculturais e interreligiosos, bem como em iniciativas e movimentos ecuménicos e abrangentes de todos os humanos, que o papa Francisco tem procurado dar, vejo sempre com alegria a publicação de textos de "outros" em sítios católicos. Mas voltando a dar a palavra à Maria Benedicta Monteiro, logo após a citação de Martin Luther King:

 

   ... Tenho que começar por louvar a iniciativa que hoje aqui começa, e agradecer a possibilidade de estar aqui convosco.

 

   Para quebrar o silêncio entre cristãos e não cristãos.

   Para quebrar a barreira dos estereótipos mútuos.

   O que é difícil:

      Porque não vale a pena.

      Porque já sabemos o que eles pensam.

      Porque achamos que temos valores diferentes.

      Porque achamos que "eles" não vão mudar de ideias.

 

   Não foi fácil aceitar. Eu perguntava-me: o que querem ouvir os católicos de Lisboa? O que tenho eu, que sou agnóstica, para lhes dizer?

 

   Resolvi por isso interrogar a minha própria vida, e a partir daí mostrar como vejo, hoje, algumas preocupações da sociedade que me rodeia.

 

   Para tua reflexão, Princesa, respigo apenas dois passos do que a Maria contou de si. Deixo-te, assim, um trecho breve daquela confissão (agostiniana), a resumir o seu afastamento da Igreja:

 

   1º aviso, em Belém, em 1960, pelo Padre Felicidade Alves, recém chegado como pároco: "Dado o seu envolvimento em atividades de natureza política naturalmente prejudiciais à sua função de catequista desta paróquia, fica dispensada desse serviço".

 

   2º aviso, na Faculdade de Letras, pelo Padre Maurício, mentor da Juventude Católica Feminina: "Dado o seu envolvimento em atividades políticas condenadas pela Igreja, deve fazer a sua opção: ou continua na JUCF e se desliga da Associação Académica da Faculdade, ou devolve-me o seu emblema e considera-se fora deste movimento católico". 

 

   A Maria era cabalmente frontal e demasiado honesta para poder disfarçar a mágoa de se sentir expulsa de uma comunidade cristã, só porque se empenhava em combates de natureza política que lhe pareciam justos, ao ponto de até os considerar desafios dignos de um espírito cristão. Mas quem com ela conviveu também sabe como poderia dizer:  "se não me queres assim, ou só me acolhes se eu mudar, paciência, há convívios que não se forçam..."

 

   Creio - talvez por fiel amizade à Maria e ao Gonçalo, como a tantos outros que foram saindo e ficando pelo adro - que, no fundo, todos eles terão reagido como Bento Espinosa, que confessa no seu Tratado da Reforma do Entendimento: constitui tandem inquirere an aliquid daretur, quo invento et acquisito, continua, ac summa, in aeternum fruere laetitia [Em tradução livre e sucinta: "decidi procurar o que, uma vez achado, para todo o sempre dê suprema alegria...]. A demanda da alegria é o motor da vida de todos e de toda a vida cristã. E não deixa de ser intrigante que um filósofo luso judeu, que por muitos foi considerado ateu, tenha escrito no seu Tratado Teológico-Político que Cristo teve revelação dos desígnios divinos sobre a salvação dos homens, não por intermédio de palavras nem de visões, mas imediatamente...   ... Nesse mesmo sentido, podemos também dizer que a Sabedoria de Deus, isto é, uma Sabedoria sobre humana, se incarnou em Cristo, e Cristo se tornou caminho de salvação...   ... Para sempre Ele escreveu a lei divina no fundo dos corações...

 

   Olhemos pois para o fundo dos corações: talvez nada enxerguemos, cada um tem o seu mistério. Mas a contemplação do mistério do outro, daquilo que nele não entendemos deverá ser motivo de respeito e espera, não de rejeição ou humilhação. Se entendermos isso, entenderemos a Festa Grande do Natal, a celebração do mistério maior que nos anima: a alegria do encontro, da reconciliação de Deus com todos e em todos. Este ano, alegro-me com a Natividade de Jesus, sobretudo como sacramento do encontro e da paz. E agradeço o testemunho da Maria Benedicta e a constância do Gonçalo, que tanto me recordam quanto devemos reunir todos à volta do Presépio, e nunca deixar ninguém de fora. Assim, talvez para nos lembrar de que nenhum de nós é dono de nada, Deus, quando se fez homem, quis nascer pobre.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

UM EXEMPLO DA TRANSIÇÃO DOS SÉCULOS – O TEATRO SOUSA TELLES DE OURIQUE

 

Abordamos hoje um exemplo de sobrevivência de sala de espetáculos, primeiro como teatro, depois como cine-teatro, que vem do século XIX e hoje perdura em plena atividade, conciliando a modernização funcional e cultural com a tradição dos teatros do interior do país: e tenha-se presente que o então Theatro Sousa Telles de Ourique, pois dele aqui se trata, é inaugurado em 1899, depois de menos de um ano de edificação, num meio urbano que, à época, não era propriamente centro de produção de espetáculos.

 

Foi pois inaugurado em 1899 por amadores, com um dramalhão ultra-romântico, intitulado “A Mãe dos Escravos” escrito ou adaptado por um tal Aristides Abranches (1832-1892), verdadeiro “profissional” da adaptação de textos mais ou menos originais sobretudo levados à cena em Teatros como o Ginásio ou o Trindade, e depois em salas numerosas por este país fora, e muitas havia naquele tempo. Hoje o nome de Aristides Abranches nada nos diz: mas dele se registam algo como 60 peças!

 

Era uma época de grande pujança na produção teatral, e por essa razão, muitos teatros foram então construídos em pequenos meios urbanos. Este Theatro Sousa Telles, à data da inauguração, pertencia a uma Sociedade Ouriquense que mantinha e dinamizava grupos de amadores. A sala, quando inaugurada, teria uma lotação de algo como 200 lugares, com uma galeria de 50 lugares reservada a espetadoras desacompanhadas, o que não era caso único na época em teatros do interior do país e não só...

 

A partir de meados do século passado ocorre uma renovação na infraestrutura de espetáculos de Ourique, e passa a falar-se de um Cine-Teatro Sousa Telles com lotação de 183 lugares mas mantendo o palco tradicional. Só que esse Cine-Teatro sofreu as consequências do impacto do espetáculo televisivo, e do incremento das comunicações: estes fatores convergentes estão de facto na origem da mudança à época da rede de salas de espetáculos em todo o país.

 

Mas em boa hora manteve-se uma estrutura de espetáculo, mesmo em edifício arruinado. E em boa hora também, a Câmara Municipal de Ourique celebrou em 2003 com o Ministério da Cultura um contrato-programa de recuperação a partir de projeto das Arquitetas Céu Oliveira Pinto e Luísa Biscaia.

 

E adaptou-se o Cine-Teatro a uma pluralidade complementar de funções culturais que marcam hoje mais do que antes a cidade.

 

Desde logo, a sala de espetáculos é modernizada, revestida de madeira, com plateia e balcão. E o edifício ganhou uma polivalência social e patrimonial: para além da sala de espetáculos em si, instalou-se o Museu do Trabalho e um denominado Clube Museu Ouriquense. 

 

 Mas em boa hora o projeto de modernização manteve a fachada original, em arco que abre para uma parede cega com telhado em plano recuado e uma torre lateral.
 

  

 

DUARTE IVO CRUZ

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