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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Jean-Luc Nancy: a poesia é o sentido do acesso.

 

Retomo a leitura de Nancy pela mão do livro Resistência da Poesia, livro que reúne um texto e uma entrevista a este filósofo francês que, tão claramente exprime, o quanto a resistência da poesia reside na sua própria insistência. Por Nancy vejo-a no excesso da razão, mas num excesso que a leva, exactamente por o conhecer, a excedê-lo. É, afinal um acesso de sentido e não um acesso ao sentido.

 

Com Nancy vou à casa lá onde e aonde sempre entendi a poesia visível até por gestos do quotidiano, arte da arte no estar presente numa transversalidade da razão, que acede ao pé da sua força seja ela de “la haine de la poésie”, de Bataille ou um casamento espiritual de Artaud.

«Poesia, é fazer tudo falar - e depor, em troca, todo o falar nas coisas, ele próprio como uma coisa feita e mais que perfeita». Assim Nancy.

E entendo os vasos comunicantes através dos quais sigo a poesia como o difícil que se não deixa fazer, sendo ela a única que o faz, fazendo a facilidade do difícil. Errado, julgo, é pensar-se que pode existir uma filosofia versus poesia, como?, se uma faz a dificuldade da outra e só juntas fazem sentido. Juntas são a proximidade íntima e controversa numa sedução de caça.

 

No entanto, os poetas podem não ser solicitados se se não sentir a necessidade do acréscimo que só o acesso aporta, e nunca conclui.

 

Daqui resulta o entender-se o literal de um verso como parte de um todo e ainda verso, no reverso do seu sentido que, no acesso à poesia, aí sim, deixa de produzir qualquer significação e passa a identidade.

 

Surge-me a poesia num exacto infinito, numa exacta insistência do primeiro a fazer, e que o faz num eterno retorno, sempre original. Depois, basta intuir no para além da mola que se enrola quedada acto, pois é de poema que vos falo.

Recordo o quanto Nancy na sua obra o Sentido ou o final do Sentido, num diagnóstico ao nosso tempo, ainda mais fundo do que o fim da história ou das ideologias, englobava ele o necessário e anterior conhecimento da nossa ontologia, alertando para o onusto a que Bataille chamava «a tentação lamecha da poesia», a tentação dos academismos que por sobriedade elevavam a prosa a expoente sem medida e sem conhecimento do que estava em jogo.

Jean-Luc Nancy afirma mesmo que « podemos suprimir o poético , o poema e o poeta sem muitos danos (talvez): Mas a poesia está lá mesmo quando a recusamos, quando dela suspeitamos ou quando a detestamos».

 

A poesia é para lá da sub-cultura ou da cultura, pois se insiste e resiste é exactamente por estar para lá, muito para lá de todas as outras razões.

 

E ainda com este livro se recorre a um outro, também de Nancy , aquele que nos diz que

as Bem-aventuranças, todas juntas, são o amor

 

Direi ainda que as poesias todas juntas ou singulares são convocação de uma efusão silenciosa, e o que as comunica, são ordens sensíveis do silêncio das Bem-aventuranças.
 

 

Teresa Vieira

Setembro 2013

Sec.XXI