Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Mário Botas

 

Águas correntes de regatos imensos, que não estão no corpo mas na alma e desaguam sempre noutro rio até chegarem àquele a quem os Antigos chamavam Letes... 
Mário Botas

 

Formas triunfam da fluidez e desencadeiam relações reveladoras, vontades próprias. Formas que são afectos e apetites e jogos de deus-criança. Formas que medem mundos interiores como os destinos do questionar, mas guardam-se em opacidades opalinas que desafiam rumos e identidades. Assim o meu atrevimento à compreensão de Mário Botas, um dos mais espantosos pintores do sec.XX.

 

Mário Botas reconhece-se como “um pintor do lado da escrita”, confessando mesmo:

O que pinto gosta de se encontrar com as palavras, sobretudo com as palavras dos outros. Raramente parto de um texto para a imagem, mas quase sempre esta precede aquele

 

Sempre vi, na obra de Mário Botas, uma lança visionária aliada a uma outra, irreversível no levar-lhe a vida por esse doloroso confessar que, a morte jovem, deve ser enfrentada com a  arrogância romântica e lúcida tanto, tanto, quanto tendo por fundo um Nada ou uma insensata Criação.

 

 

Diante da brancura do papel vê Mário Botas a luxúria da beleza e surge-nos que a figura da morte seja feminina na sua pintura e por ela se deslumbrará também.

 

Em 1978 busca este jovem médico em Nova Iorque o tratamento que o poderia salvar. Nesse mesmo ano expõe na Galeria Martin Summers bem como em The Drawing Center.


Pelos dias que correm, o desejo de afirmar a sua presença, vai igualmente antecipando a tragédia, nunca se afastando das urgentes preferências de literaturas como Borges, Blake, Cervantes, Pessoa, Eugénio de Andrade, entre outros. A relação entre o mítico e o histórico, o seguir o seu mestre Paul Klee, o saber desde os 24 anos que sofria de leucemia, irá fazê-lo iniciar o despedir-se das manhãs e das madrugadas e é sob o signo de uma urgência prioritária que se coloca toda a sua obra.

 

 

O artista vai agindo como arqueólogo da alma, plano a plano, sob o seu próprio engenho, que o guia às revelações que desafiam qualquer lei. E tudo lhe vai pertencendo em idealidade, obsessão e insolentes êxtases, genes caprichosos na sua solidão frente às estrelas ou à morte.

 

 

Nenhuma redenção ou futuro lhe é concedido, assim no pássaro, escrevi com os olhos

 

«Toi, qui sur le néant en sais plus que les morts»

                                                            Mallarmé

 

Inconformada, sempre inconformada recordarei Mário Botas e o quanto sempre que cada pilar bascula, os mundos desmoronam

 


Teresa Vieira

Sec XXI (sob os vários e densos véus)