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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Antonio Gamoneda

 

Antonio:

 

Tens razão, foi uma segunda-feira órfã e até Dios se canso de la tristeza y no quiso existir.

 

Hoje penso nas distâncias e quero-as multicolores para que te não doam. E fiquei surpresa, sim, fiquei surpreendida de te ver através do lago quando dele fazia meu espelho. Luni?

 

He llegado, por fin.

 

Sorri-te e entrei na água como só nela deslizo sem inquietudes. Recordas-te que até a segunda-feira nos pareceu um pouco justa? Aspiro a estar contigo en paz com un deber desconocido que a veces pesa también en mi corazón.

 

Mas António, por favor, cuida que o mundo é grande, mesmo dentro de uma casa, ou dentro de uma ideia, e eu não sei como te verás com as minhas aves, e só com elas guardo os segredos antigos, os que me foram confiados e os meus, às vezes, ainda colados à dor, e ao lado de outros de sentido ainda oculto, ou ainda aqueles que se espreguiçam de felicidade. E depois, os ritos que operam metamorfoses de tal modo, que chegam a separar corpo e consciência.

 

António?

Quizá es bueno existir

Debajo de las estrellas (…) te adentras más.

Assim pensas a beleza?

Vejo a vida. Después, adviertes el excessivo peso de tu corazón.

Y regressas.

Fugi. Resguardei-me com a minha ave junto à chaminé da cabana. Não imaginas a minha curiosidade e a dela, pelo teu correr em força, como se do espaço nascesses.

Como se do espaço nos chegasses. Grande regresso. Como aquele do sol quando reabre as nuvens.

E agora digo-te que foram os meus pés nus que receberam o conforto da terra já quente pelo calor do meio-dia. O piar da minha ave, e tu

Si pudiera tener su nacimiento

en los ojos la música, seria

en los tuyos

Lo escrebí yo com estas mismas manos.

 

António: nada te direi do estrangeiro. Não quero outra segunda-feira tão órfã. Não te insistas na sedução desfiada. Cada tear tece um tapete diferente do seguinte e do anterior. Nada se sobrepõe. O estrangeiro é uma outra abóboda, um outro soluço, um perfume cartografado sim, mas interior à lã, um tanto escondido da vida e das proporções. Tu alma está fatigada pêro eres alto en la fatiga: hablas a dioses extinguidos.

 

E afinal

 

Ésta es la hora más antigua.

 

Que hora é esta que cresce depois da minha juventude? Sabes bem, que, afinal, é sempre a hora de remar, tal como fazes. Tal como não dizes que fazes.

 

Sim, o estrangeiro também teve muitas tempestades na infância. Um dia, bem mais tarde do que previra, olhou uma mulher cansada e bela e depois daquela tarde passou a dormir abandonado no cesto das cerejas que o protegiam e dela lhe chegavam.

 

Ah la morfina en mi corazón

 


Teresa Vieira

Sec. XXI ( sob as tuas pálpebras)