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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ALMADA E FERNANDO AMADO NA BRASILEIRA DO CHIADO

 

O CNC organizou, no passado dia 13, um itinerário de Almada Negreiros no centro de Lisboa - do Chiado à Ribeira das Naus, onde visitamos o recente monumento evocativo de Almada. “Oradores-guias”, Anísio Franco e eu próprio, para mais de 50 participantes: juntos percorremos uma geografia urbana de evocação da vida, figura e obra de Almada. Foi de facto um itinerário marcante da vida e obra de Almada mas também e sobretudo, da vida artística e cultural de Lisboa, a partir dos anos 20/30.

 

Desde logo, no Largo do Chiado, a Brasileira do Chiado onde se evocou o quadro representando Almada e mais três personagens, sentados no próprio café. Esses quadros foram substituídos em 1971 mas formavam uma galeria de obras notáveis; Almada ele próprio, no curioso autorretrato e em mais duas pinturas, mas também José Pacheko, Bernardo Marques, Eduardo Viana, Jorge Barradas e António Soares, no ambiente que o arquiteto Norte Júnior tinha reconstruido e redecorado.

 

Passamos junto do São Luís, ao tempo denominado Teatro República, onde Almada em 14 de Abril de 1917, lança o chamado Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX que evocará novamente no mês seguinte - “à minha entrada no palco rebentou uma espontânea e tremenda pateada seguida de uma calorosíssima salva de palmas que eu cortei com um gesto”, e depois pelo São Carlos onde, em 1965, a convite de Amélia Rey Colaço, Almada desenha os cenários e figurinos do Auto da Alma de Gil Vicente, ultima intervenção na área do espetáculo teatral. E evocou-se a reposição, em 1917, do bailado Jardim da Pierrette, no Trindade.

 

Também se evocou o Bristol Clube, na Rua do Jardim do Regedor, decorado com pinturas de Almada, Ernesto Canto, Eduardo Viana, António Soares e Guilherme Filipe, onde Almada situa cenas da peça Deseja-se Mulher (1928), produzindo ainda desenhos de cena que seriam integrados na edição de 1959. A peça foi finalmente representada em 1963 na Casa da Comédia com encenação de Fernando Amado, num espetáculo a que esteve ligado diretamente o CNC.

 

Depois desceu-se a rua do Alecrim, onde Almada viveu uns tempos, e houve ensejo de recordar o romance Nome de Guerra (1938), passado inicialmente num Clube que evoca de certo, ele também o Bristol, mas que termina num quarto alugado de onde o Antunes contempla o Tejo para esquecer a Judite: “A vista era o melhor do quarto. Daquela água furtada seguia-se o Tejo por aí a acima, desde o mar até perder-se á esquerda. (…) Do seu novo quarto, Lisboa parecia ao Antunes uma cidade escondida com as traseiras de fora”…!

 

E a jornada do CNC terminou no recentíssimo monumento a Almada, na Ribeira das Naus, notável síntese evocativa da obra extraordinária de Almada Negreiros, “poeta do Orpheu, futurista e tudo” (Manifesto Anto-Dantas -1915) …!

 

Ao longo deste trajeto, a figura e a evocação de Fernando Amado e também do CNC foram recorrentes. Amado foi um companheiro constante das criações teatrais e culturais de Almada. Os textos recolhidos em À Boca de Cena, que aqui tenho já citado, contêm numerosos diálogos e debates entre o Almada e Fernando Amado.

 

E como já vimos, Amado encenou Almada pelo menos desde 1949 (Antes de Começar - Teatro Estúdio do Salitre). O mesmo texto é reposto no CNC em 1960 e a partir desse ano, Fernando Amado colabora regularmente com o CNC na produção de autores modernistas, com destaque para a encenação de O Marinheiro de Fernando Pessoa, espetáculo que iria mais tarde ao Brasil.

 

Termino pois esta crónica, a que outras se seguirão, com um texto de Fernando Amado em dialogo com Almada Negreiros, que evoca precisamente a Brasileira do Chiado:

 

“É possível que por uma notícia de jornal lida á pressa, algumas das pessoas presentes não tenham uma ideia justa do que vai acontecer esta noite. Haverá quem julgue talvez que vai assistir a duas conferências, uma feita por Almada Negreiros, outra por mim (…) Pensamos vir para esta sala continuar uma conversa - sobre um tema escaldante de poesia e cultura - encetada há pouco a uma mesa da Brasileira do Chiado”…

Norte Júnior haveria de gostar desta evocação, E até Fernando Pessoa, que agora temos sentado á porta da Brasileira!

 

DUARTE IVO CRUZ