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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

Guilherme d'Oliveira Martins 
de 21 a 27 de outubro de 2013

 

«Portugal, Portugueses: Uma Identidade Nacional» (edição FFMS, 2012), de José Manuel Sobral é uma reflexão sobre o que nos caracteriza, procurando compreender as relações complexas, ditadas por uma história antiga e pela coexistência de múltiplos fatores relevantes. Lançando pistas inovadoras sobre um tema muito tratado, o autor procura perceber o que de novo se desenha no horizonte num país que nos últimos anos se abriu para o exterior, e hoje tem de retirar consequências do que se tem passado.

 

 
Manoel de Oliveira, «Douro Faina Fluvial» (1931).

 

O TEMA DA IDENTIDADE
O tema da identidade nacional é controverso. A sua valorização excessiva acompanha normalmente as situações de fragilidade e a respetiva consolidação acompanha a realização de objetivos comuns. «As identidades nacionais (lembra o autor) têm muitos pontos em comum: um nome próprio coletivo, uma narrativa que articula o passado e o presente, um território controlado ou reivindicado pelos nacionais, uma língua vernácula escrita (…), mitos de origem partilhada, como os de serem descendentes de povos da Antiguidade, etc.». No caso português, o Estado coincide com a nação e a história revela que foi o próprio Estado que precedeu a unidade nacional, construindo-a e consolidando-a. Nos tempos de crise, que atravessamos, torna-se indispensável compreender a identidade como fator de coesão e confiança, e como estímulo às ações comuns. As identidades ameaçadas tornam-se agressivas, enquanto as identidades construtivas tendem a abrir-se às diferenças, incorporando elementos novos, enriquecendo-se pela diversidade, harmonizando o que é próprio e o que é adquirido. Uma história multissecular reserva-nos múltiplos elementos, que devem ser lembrados. Houve tempos em que o transporte e a mundialização nos deram recursos excedentários: as descobertas, o caminho da Índia, o ouro do Brasil, as emigrações, o volfrâmio na 2ª guerra, os fundos europeus. Outros momentos levaram ao endividamento (a ponto de Armindo Monteiro ter dito que nos dois últimos séculos a história das Finanças Públicas foi a da dívida pública), bem como à necessidade de negociações com os credores externos (como o convénio de 1902, para não falar de troikas e exemplos recentes). Essa sombra chega aos nossos dias. Fontes Pereira de Melo apostou nos melhoramentos materiais para nos aproximar do progresso europeu – e o crédito barato fez regressar nos nossos dias o mesmo tema.
Os nove séculos de história portuguesa dizem-nos que os tempos mais difíceis foram aqueles em que encontramos respostas positivas, enquanto os de euforia nos levaram além da nossa capacidade e dos recursos disponíveis. Se Nicolau Clenardo achava que os portugueses tinham desamor ao trabalho, João de Barros exaltava a capacidade de arrostar trabalhos e afrontar perigos, fome e sede, as malícias e as traições. Alexandre Herculano, em nome da inteligência liberal, afirmou que foi a vontade que construiu o Estado primeiro e a Nação depois, sem ser necessário ir aos ancestrais lusitanos e à antiguidade remota. «Ser português é reconhecer-se como parte de um coletivo que não se sobrepõe, antes coexiste com todas (…) as diferenças e os conflitos que lhe são inerentes». E o autor recorda, e bem, a distinção entre a ideia de que as nações são divisões naturais entre os grupos humanos e a consideração dos afetos e da exaltação do que é próprio, da sua autonomia e dos seus interesses. Para além disso, apresenta o caráter histórico da identidade nacional portuguesa, interroga a sua genealogia, mostra as ligações entre o passado e o presente e entre «criações, continuidades e recriações». E assim verificamos que a maioria absoluta dos nossos compatriotas tem orgulho em ser português e valoriza a língua, a história, a arte e a literatura e o desporto…

 

UM IMAGINÁRIO CULTIVADO
O imaginário cultivado no último século, desde a crise do Ultimatum (1890) ao nacionalismo do Estado Novo, passando pela afirmação patriótica republicana, valorizou a dimensão nacional. A trilogia democracia, desenvolvimento e descolonização do pós-1974 e a ligação entre liberdade e Europa do regime constitucional de 1976 puseram a tónica no cosmopolitismo, pela coexistência de elementos diversos e contraditórios, a merecerem especial atenção por parte de José Manuel Sobral, que recusa simplificações e procura compreender os veios de continuidade e de descontinuidade, de coesão e de fragmentação. O projeto «Europa connosco» permitiu dar à democracia um desígnio novo e catalisador, após o trauma da descolonização (leia-se António Lobo Antunes ou Dulce Maria Cardoso). Não por acaso, Francisco Lucas Pires invocou D. Pedro das Sete Partidas como símbolo do novo tempo – um europeu marcante na abertura de Portugal ao mundo, num tempo de regresso ao cais de partida e chegada. Depois, houve o conceito de lusofonia (e a criação da CPLP), com leituras contraditórias, bem evidentes no sobressalto nacional que acompanhou a independência de Timor-Leste ou no apelo de António Tabucchi em relação às exigências de um mundo aberto. Através de uma leitura atenta deste pequeno e útil livro, percebemos que a identidade e o cosmopolitismo se encontram e desencontram. E a história antiga leva a que recordemos a ciclotimia entre as glórias e as dificuldades presentes, entre ascensão e queda, entre progresso e decadência. A nossa identidade engloba tudo isso. José Mattoso deu-nos uma chave que permite conceber uma identidade nacional complexa e disponível. Eduardo Lourenço disse-nos que não somos melhores nem piores do que outros, falando de «maravilhosa imperfeição» e relativizando a tentação de uma super-identidade - «Portugal não espera o Messias, o Messias é o seu próprio passado, convertido na mais consistente e obsessiva referência do seu presente, podendo substituir-se-lhe nos momentos de maior dúvida sobre si ou constituindo até o horizonte mítico do seu futuro» (veja-se «A Europa ou as Duas Razões»). E a «Chave dos Profetas» de Vieira diz-nos, além do mais, que o Quinto Império não deve ser de um povo ou de um rei. E Fernando Pessoa tem a capacidade de ver de dentro e de fora, abarcando o mito na sua heterogeneidade: «a poucas nações se aplicaria tão bem, como a Portugal, a imagem do navio-nação e melhor ainda a de “nação-navio”, pela identidade de destino e o projeto que encarnou» (E. Lourenço). E quando relemos Orlando Ribeiro, percebemos que a diversidade está no nosso código genético, mais do que a capacidade de adaptação, como tem alertado Manuel Clemente. E, quando voltamos a Jorge Dias, ou relembramos José Leite de Vasconcelos, percebemos que um longo caminho foi percorrido e que, apesar da força das raízes, o contacto com a Europa e o mundo mudou-nos e está a mudar-nos profundamente. Leia-se com atenção «Portugal, Portugueses». No momento em que tanto se fala de reforma de Estado, perceba-se que ninguém entenderá o sentido de uma mudança se não considerar as interrogações e os alertas que aí estão. António-Pedro Vasconcelos no seu filme «Oxalá» põe o seu herói a tentar compreender o que se passa à volta lendo o «Portugal Contemporâneo». É um aviso aos candidatos a reformadores. É preciso compreender Portugal como nação antiga, com virtudes e defeitos, para saber melhorar.       


Guilherme d’Oliveira Martins